EM PAUTA

Teorizar com a Grounded Theory: um caminho metodológico para as pesquisas em comunicaçãoa

Theorizing with grounded theory: a methodological pathway for communication research

FRANCISCO LEITE b
Universidade de São Paulo, Brasil

Teorizar com a Grounded Theory: um caminho metodológico para as pesquisas em comunicaçãoa

Matrizes, vol. 17, no. 1, pp. 165-192, 2023

Universidade de São Paulo

Received: 16 August 2021

Accepted: 27 June 2022

Funding

Funding source: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)

Contract number: Processo nº 2017/08319-7.

Resumo: O objetivo deste trabalho, direcionado por uma pesquisa bibliográfica, é inscrever uma reflexão sobre o processo de teorizar seguindo as diretrizes da metodologia grounded theory construtivista. Este artigo busca também apresentar e discutir o tipo de teoria que pode ser produzido com esse caminho metodológico qualitativo, ressaltando, desse modo, o potencial que ele oferece para a edificação de pesquisas em comunicação que, considerando um problema delimitado em uma área específica, busquem gerar explanações teóricas de processos sociais enraizadas nos dados (entrevistas, documentos, materialidades midiáticas etc.). Como implicação prática, por fim, são fornecidos alguns direcionamentos sobre como conduzir investigações com a grounded theory ao elucidar a “tríade problemática”, característica da metodologia, a saber: amostragem teórica, método comparativo constante e saturação teórica.

Palavras-chave: Grounded Theory, metodologia, teorizar, pesquisas em comunicação.

Abstract: The objective of this paper, based on bibliographical research, is to inscribe a reflection on the process of theorizing, following the constructivist grounded theory methodology guidelines. It also proposes to present and discuss the type of theory that can be produced with this qualitative methodological path, highlighting its potential for writing communication research that, through structured and progressive analysis procedures, seeks to generate substantive theoretical explanations about a problem delimited in a specific area, based on data (interviews, documents, media materialities, etc.). Finally, as a practical implication, this paper provides some guidelines on conducting research with grounded theory by elucidating the “troublesome trinity” characteristic of the methodology: theoretical sampling, constant comparison method, and theoretical saturation.

Keywords: Grounded Theory, methodology, theorizing, communication research.

DIRECIONADO POR UMA pesquisa bibliográfica, este trabalho tem como objetivo inscrever uma reflexão que oriente sobre o processo de teorizar seguindo as diretrizes da metodologia grounded theory1(MGT) construtivista (Charmaz, 2009a). O presente artigo também intenta discutir o tipo de teoria que pode ser produzido por meio desse caminho metodológico, ressaltando o potencial que essa metodologia pode oferecer para a edificação de pesquisas em comunicação que, considerando um problema delimitado em uma área específica, busquem gerar explanações teóricas de processos sociais enraizadas nos dados.

Dessa forma, com o saber organizado neste artigo, tem-se a expectativa de inspirar pessoas pesquisadoras do campo a conhecerem mais sobre a metodologia grounded theory e considerá-la como alternativa disponível para suas investigações futuras.

Com as suas raízes na sociologia da Escola de Chicago, no interacionismo simbólico e na filosofia pragmatista2, a metodologia grounded theory (MGT) é um conjunto de procedimentos e técnicas que, operados de modo sistemático em investigações qualitativas3, especialmente, possibilitam a construção de uma grounded theory (GT) sobre um específico processo social básico4. É relevante ressaltar, desde já, que o termo grounded theory nomeia tanto a metodologia quanto o produto resultante da sua aplicabilidade, a teoria.

Kathy Charmaz e Linda L. Belgrave, em reforço a essas orientações, pontuam que “a grounded theory é uma metodologia iterativa, comparativa e interativa que começa com dados indutivos”5 (Charmaz & Belgrave, 2019, pp. 743-4) e avança para o raciocínio abdutivo (Leite, 2015a, Charmaz, 2006/2014). Na mesma linha, Ylona C. Tie, Melanie Birks e Karen Francis enfatizam que a grounded theory é uma metodologia estruturada, porém flexível. Ela “é apropriada quando pouco se sabe sobre um fenômeno”6 (Tie et al., 2019, pp. 1-2). Antony Bryant (2021), em concordância com essas visões, complementa-as pontuando que esse desenho metodológico também pode ser adequado para abrir novas portas importantes em áreas de pesquisa já exploradas. Desse modo, como será discutido no avançar deste texto, os resultados de uma investigação em grounded theory precisam fornecer

uma interpretação teórica densa e sistemática [ênfase adicionada] do que acontece num certo fenômeno. Nesse sentido, um traço peculiar (apesar de ambicioso) da GT é o de ser particularmente apta à exploração, não de fenômenos estáticos, mas dos processos subjacentes a tais fenômenos e de suas dinâmicas, percebidas em seus respectivos contextos [ênfase adicionada]. A GT tem por fim fazer emergir os processos sociais e os processos psicológicos de base que subjazem aos fenômenos indagados (Tarozzi, 2011, p. 22).

John W. Creswell (2007) e Tarozzi (2011), considerando o contexto internacional, em consenso, apontam a etnografia, a grounded theory e a fenomenologia como as três principais abordagens metodológicas tradicionalmente utilizadas em investigações qualitativas. Creswell (2007), distintamente, também inscreve nesse quadro a pesquisa narrativa e o estudo de caso. No contexto brasileiro, em diálogo com essas orientações, Maria Immacolata Vassallo de Lopes (2003, p. 150), especificamente observando as pesquisas em comunicação, sinaliza o estudo de caso e a pesquisa etnográfica, bem como a pesquisa documental, entre outras, como algumas das abordagens metodológicas qualitativas mais utilizadas. Ainda nesse enquadramento, Luisa Massarani e Mariana Rocha (2018) também reforçam o saliente uso da pesquisa documental e de estudo de caso nas pesquisas de mídia brasileiras.

Considerando esse panorama, mesmo extrapolando os objetivos centrais deste artigo, acredita-se ser oportuno para o seu racional informar e apontar, ainda que brevemente, um contraste comparativo entre algumas características dessas principais abordagens metodológicas qualitativas. Assim, para esse exercício, compartilha-se neste texto a tabela 1, que organiza e pondera alguns contrastes entre a grounded theory e as cinco abordagens metodológicas indicadas, de modo reiterado nos trabalhos de Creswell (2007), Tarozzi (2011), Lopes (2003) e Massarani e Rocha (2018), a saber: a etnografia, a fenomenologia, a pesquisa narrativa, o estudo de caso e a pesquisa documental.

As características consideradas na tabela 1 versam sobre: os objetivos da abordagem metodológica e exemplos de questões de pesquisa, o tipo de problema que melhor se enquadra ao design metodológico, a unidade de análise, as formas de coleta de dados, as estratégias de análises dos dados e os resultados possíveis. Contudo, é preciso salientar que o racional desse contraste comparativo não será aprofundado nesta oportunidade, tendo em vista os objetivos e o limite de espaço deste trabalho; além disso, de certo modo, essa tarefa já consta registrada de forma competente na literatura, especialmente nos trabalhos clássicos de Creswell (2007), Tarozzi (2011), Wertz e colegas (2011) e Morse e Field (1996). Portanto, a tabela 1, neste texto, deve ser observada como um ponto de referência para, objetivamente, ao longo da leitura, facilitar e exercitar a percepção sobre alguns traços que contornam as distinções, as possibilidades e os limites do fazer pesquisa com a MGT frente as outras metodologias qualitativas consideradas.

Tabela 1
Características contrastantes entre as cinco principais abordagens metodológicas qualitativas.
Características contrastantes entre as cinco principais abordagens metodológicas qualitativas.
Adaptado e ampliado a partir de Creswell (2007), Tarozzi (2011) e Morse & Field (1996).

Retomando as reflexões centrais deste trabalho, é preciso demarcar que a MGT é pouco difundida e utilizada nas pesquisas do campo da comunicação no Brasil (Bittencourt, 2017). Nesse contexto, como exceção, são observados alguns raros e pontuais trabalhos, por exemplo, os produzidos por Nilda Jacks (2000), Suely Fragoso, Raquel Recuero e Adriana Amaral (2011), Francisco Leite (2015a) e Maíra Bittencourt (2017), que informam e orientam o campo sobre as oportunidades da articulação entre a metodologia grounded theory e os estudos comunicacionais.

Jacks (2000), por exemplo, apresenta uma breve discussão articulando a grounded theory (Strauss & Corbin, 1990) e a técnica história de famílias visando “colaborar com o debate sobre pesquisa qualitativa, principal plataforma para os estudos de recepção” (Jacks, 2000, p. 10). Fragoso e colegas (2011), no livro Métodos de pesquisa para internet, oferecem o capítulo “Teoria Fundamentada”, no qual apresentam e discutem a metodologia grounded theory enquanto perspectiva de pesquisa para o ciberespaço. Nesse texto, as autoras também apresentam um pequeno estudo de caso sobre o Twitter, para ilustrar o racional discutido sobre a metodologia. Por sua vez, Leite (2015a) inscreve uma reflexão crítica sobre as sensibilidades do raciocínio e alguns procedimentos específicos para a condução de investigações com a grounded theory construtivista (Charmaz, 2009a). Já o trabalho de Bittencourt (2017), em diálogo com o texto de Fragoso, e colegas (2011), orienta sobre como fazer uso dos procedimentos e técnicas da referida metodologia em pesquisas com foco nas mídias sociais.

Desse modo, visando complementar e contribuir com os esforços desses trabalhos, este artigo, focando atender aos seus objetivos, já pontuados, organiza a construção do seu racional tendo como direcionamentos explanar sobre as seguintes questões: Que tipo de teoria essa metodologia possibilita desenvolver? Quais procedimentos e técnicas devem ser atendidos e operados para que uma pesquisa seja reconhecida como grounded theory construtivista? Quais desafios e problemáticas implicam o proceder dessa metodologia? Como a grounded theory vem sendo e pode ser aplicada em pesquisas comunicacionais?

Posto isso, para situar e avançar com a leitura deste artigo, é pertinente resgatar, estrategicamente, alguns pontos sobre as perspectivas histórica, filosófica e epistemológica da origem e do desenvolvimento da grounded theory. Esse horizonte vem sendo estabelecido há mais de cinquenta anos, tendo como lideranças os sociólogos estadunidenses Barney G. Glaser (1930-2022) e Anselm L. Strauss (1916-1996), fundadores da metodologia.

DESDOBRAMENTOS: AS TRÊS VERSÕES DA GROUNDED THEORY

Nos idos de 1960, Glaser e Strauss gradativamente apresentaram a MGT ao campo científico e à sociedade por meio de publicações-chave que denotavam os contornos de seus preceitos, procedimentos e técnicas metodológicas. Ao longo desse período, eles publicaram o livro Awareness of Dying (Glaser & Strauss, 1965), com os resultados de uma pesquisa seminal que realizaram seguindo as bases da metodologia. Posteriormente, segundo Bryant (2017), eles publicaram o clássico livro The Discovery of Grounded Theory: strategies for qualitative research (1967), que orientava diretamente sobre os detalhes e potencial da metodologia para a construção de teorias. Glaser e Strauss complementaram esses dois trabalhos com a publicação de outro estudo relacionado, Time for Dying (1968). Essa trilogia é reconhecida pela literatura como a reunião dos principais textos fundantes da metodologia em tela.

A edificação dessa metodologia procurava combater a forte linha positivista predominante nas pesquisas científicas nos idos de 1960. Nesse período, se observava o enfraquecimento e perda de espaço das pesquisas qualitativas, especialmente na sociologia, frente aos sofisticados métodos quantitativos pautados pelo positivismo, “paradigma dominante de investigação de uso geral nas ciências naturais” (Charmaz, 2009a, p.18). Com a elaboração da grounded theory, Glaser e Strauss procuravam enfrentar duas críticas existentes: a primeira é a de que pesquisas qualitativas não eram adequadas à geração de teorias e a segunda de que os métodos utilizados não tinham credibilidade científica. (Leite, 2018, p. 137).

Nesse decorrer, Charmaz (2006/2014) relembra que Glaser e Strauss proclamaram uma mensagem revolucionária, com a sua proposta metodológica, ao oferecer ao campo científico um caminho de análise qualitativa sistemática e rigorosa, com lógica própria e capaz de produzir teorias sublinhadas “com a íntima ligação entre pesquisa teórica e pesquisa empírica e [inscritas] no estreito espaço que une teoria e realidade empírica” (Tarozzi, 2011, p. 20). Os fundadores da GTM também tinham como objetivo “movimentar a investigação qualitativa dos estudos descritivos para o âmbito dos marcos teóricos explicativos”7 (Charmaz, 2006/2014, p. 8).

Nessa direção, eles (Glaser & Strauss, 1967; Glaser, 1978; Strauss, 1987) organizaram e disponibilizaram uma “constelação de métodos”8 (Charmaz, 2006/2014, p. 14) para o estabelecimento da prática teórica guiada pela grounded theory. Essa atividade de teorizar, conforme Charmaz (2009a, p. 19), implica que as pessoas pesquisadoras trabalhem com foco: no envolvimento simultâneo na coleta e na análise dos dados (desde o início ao fim do processo investigativo); na construção de códigos e categorias analíticas a partir dos dados; na utilização do método comparativo constante; no avanço do desenvolvimento da teoria em cada passo da coleta e análise dos dados; na redação de memorandos para elaborar categorias, especificar as suas propriedades, determinar relações entre as categorias e identificar lacunas; a amostragem dirigida à construção da teoria [a amostragem teórica]; e a realização da revisão bibliográfica após o desenvolvimento de uma análise independente. Esses pontos serão retomados e explorados com mais atenção a posteriori.

Entretanto, esse último ponto indicado por Charmaz foi considerado como um dos mais polêmicos na aplicação da metodologia. Na visão inicial dos seus fundadores, especialmente na de Glaser, o objetivo da postergação da revisão bibliográfica seria para evitar que as pessoas pesquisadoras “percebessem o mundo pela lente de ideias existentes” (Charmaz, 2009a, p. 19). No entanto, após a publicação de 1967, Strauss manifestou em seus trabalhos sequentes que não existia consenso com Glaser em relação a essa e outras questões da metodologia. Atualmente, essa orientação é vista como um equívoco de interpretação das discussões iniciais contidas na obra The Discovery of Grounded Theory. Roy Suddaby (2006) discute essa questão – e suas variantes – como um mito baseado em falsas premissas. Ele defende que a MGT não deve ser desculpa para ignorar a literatura e o conhecimento prévio que uma pessoa pesquisadora tem sobre o tema de sua investigação.

No avançar do tempo, em meados da década de 1990, Glaser e Strauss afastaram-se e passaram, portanto, a desenvolver e a considerar distintas abordagens para a metodologia que criaram. A ruptura deles, de modo notório, ocorreu após a publicação, de Anselm Strauss e Juliet M. Corbin (ex-aluna de Strauss), do livro Basics of qualitative research: Grounded theory procedures and techniques (1990). No entanto, de acordo com Charmaz (2006/2014), bem antes dessa publicação, muitos discentes de doutorado que estudaram com os dois já sentiam divergências entre os pensamentos deles para a condução dos processos de pesquisa com a grounded theory.

Essas divergências, provavelmente, se originaram nos distintos caminhos biográficos e de formação de ambos os fundadores da metodologia. Essas dissimilaridades no início foram fundamentais para a originalidade do desenvolvimento da metodologia, porém se mostraram problemáticas ao longo dos processos de amadurecimento conceitual da proposta metodológica. Glaser formou-se tendo o positivismo da Universidade de Columbia como base, e Strauss vem da tradição pragmatista e da pesquisa de campo da Escola de Chicago. Glaser foi aluno de Paul Lazarsfeld, reconhecido como inovador nas investigações quantitativas, e de Robert K. Merton, que propôs a construção de teorias úteis de médio alcance. A formação quantitativa rigorosa de Glaser atravessa as bases da grounded theory. Charmaz destaca que as contribuições desse autor para a metodologia objetivaram

codificar os métodos da pesquisa qualitativa, da mesma forma que Lazarsfeld havia codificado a pesquisa quantitativa . . . Codificar os métodos da pesquisa qualitativa acarretava especificar estratégias explícitas para a condução da pesquisa e, portanto, desmitificar o processo de pesquisa. Glaser defendeu também a elaboração de teorias úteis “de médio alcance”. (Charmaz, 2009a, p. 20).

Já Strauss teve o seu capital intelectual moldado pelas bases interacionista e pragmatista da Escola de Chicago, tendo suas ideias “inspiradas por homens como Park (1967), Thomas (1966), Dewey (1922), Mead (1934), Hughes (1971) e Blumer (1969)” (Strauss & Corbin, 2008, p. 22). Desse modo, Strauss inscreveu contribuições à grounded theory ao trazer “noções da agência humana, processos emergentes, significados subjetivos e sociais, práticas de resolução de problemas e estudos abertos da ação”9 (Charmaz, 2006/2014, p. 9).

Com a separação de Glaser e Strauss, duas escolas distintas da metodologia grounded theory foram desdobradas. Glaser continuou vinculado à clássica e seminal versão da grounded theory (Glaser & Strauss, 1967; Glaser, 1978, 2002a), a qual ele ratifica como uma metodologia de descoberta, que trata as categorias como emergentes dos dados coletados. Charmaz pontua que Glaser acredita em

um empirismo direto e, muitas vezes, estreito. [Ele] desenvolveu uma abordagem indicadora de conceito, considerou os conceitos como variáveis e enfatizou a análise de um processo social básico. Strauss (1987), separadamente, e em conjunto com sua coautora nos anos 1990, Juliet M. Corbin, . . . avançou ainda mais e moveu a metodologia em direção a ser reconhecida como método de verificação10 (Charmaz, 2006/2014, p. 11).

Glaser (1992), criticamente, afirma que esses procedimentos propostos por Strauss e Corbin para a grounded theory forçariam “os dados e as análises dentro de categorias pré-concebidas, ignoraria[m] a emersão e resultaria[m] em uma ‘descrição conceitual completa’, não em uma grounded theory11 (Charmaz, 2006/2014, p. 11). Glaser, na época, inclusive solicitou a retratação pública das abordagens do livro de Strauss e Corbin, tendo em vista os equívocos que ele apresentaria.

Entretanto, nesse contexto, Charmaz pontua que “apesar das muitas objeções de Glaser à versão de Strauss e Corbin, o livro serve como um enunciado vigoroso da metodologia e tem instruído estudantes de graduação em todo o mundo” (Charmaz, 2009a, p. 23). Todavia, Charmaz e colegas, em oportunidade recente, afirmaram que a versão de Strauss e Corbin “minimizou a grounded theory como um método emergente de descoberta e . . . a reformulou como um procedimento metodológico de fórmulas”12 (Charmaz et al., 2018, p. 724).

Com seus distintos postulados, Glaser e Strauss formaram e inspiraram uma nova geração de pessoas pesquisadoras interessadas no desenvolvimento de investigações utilizando a MGT. Entre esses investigadores se destacou Kathy Charmaz (1939-2020), ex-aluna de Glaser e ex-orientanda de doutorado de Strauss.

Ao revisar, alinhar e atualizar as abordagens da metodologia de seus mestres, Charmaz edificou sua proposta para a grounded theory com pressupostos e abordagens, segundo ela, direcionados ao século XXI. Com forte alinhamento aos postulados da Escola de Chicago, para a sua versão ela defende “um embasamento nos fundamentos pragmatistas para a [metodologia] e o desenvolvimento de análises interpretativas que reconheçam essas construções”. (Charmaz, 2009a, p. 25). Charmaz denomina sua abordagem como grounded theory construtivista13 e a compreende como

uma versão contemporânea da grounded theory que adota estratégias metodológicas tais como codificação, redação de memorandos e amostragem teórica da declaração original dos métodos, mas movimenta seus fundamentos epistemológicos e leva em conta os desenvolvimentos metodológicos na investigação qualitativa ocorrida nos últimos cinquenta anos14 (Charmaz, 2006/2014, p. 342).

Nesse contexto, segundo John W. Creswell (2005), no contemporâneo, há três principais escolas da metodologia15: a grounded theory emergente (Glaser, 1992; Glaser & Strauss, 1967); a grounded theory sistemática (Strauss & Corbin, 1990; 1998; Corbin & Strauss, 2008) e a grounded theory construtivista (Charmaz, 2009a, 2006/2014). Já Tarozzi (2011) as classifica como: grounded theory clássica (Glaser); grounded theory full conceptual description (Strauss e Corbin); e grounded theory construtivista (Charmaz). Tarozzi também tenta organizar uma síntese (ver tabela 2) das principais características de cada uma dessas abordagens. Ele compara alguns pontos-chave que sinalizam a estrutura e prática teórica da metodologia, considerando as três linhas, como: pergunta de pesquisa; tipos de dados; categoria principal; e tipos de codificação.

Com o enquadramento dessas três versões, José Luís Guedes dos Santos e colegas (2018) alertam que “uma das principais diferenças entre elas é o sistema de análise de dados [especialmente na etapa de codificação], que apresenta particularidades conforme cada perspectiva metodológica” (Santos et al., 2018, p. 2). Essas dissimilaridades são brevemente introduzidas por Tarozzi (2011), na tabela 216.

Tabela 2
Confronto entre as principais escolas de grounded theory
Confronto entre as principais escolas de grounded theory
Adaptado de Tarozzi (2011, p. 56).

Charmaz também tenta demarcar as diferenças das três linhas da metodologia, porém ela as classifica como grounded theory objetivista (Glaser), grounded theory pós-positivista18, (Strauss e Corbin) e grounded theory construtivista (Charmaz). Ela é enfática ao esclarecer que a sua versão para a metodologia adota as estratégias da grounded theory clássica de Glaser e Strauss (1967), porém não se conecta com a epistemologia da versão original.

Charmaz e colegas pontuam ainda que a versão construtivista “adota uma abordagem relativista contrastante que muda as bases ontológicas e epistemológicas do método (Charmaz, 2009b) para a tradição pragmatista de Anselm Strauss”19 (Charmaz et al., 2018, p. 730).

Enraizada no pragmatismo e na epistemologia relativista, a grounded theory construtivista pressupõe que nem dados nem teorias são descobertos, mas sim construídos pelos pesquisadores como resultado de suas interações com seus participantes e análises emergentes . . . . Para os construtivistas, a grounded theory é uma metodologia fundamentalmente interativa.20 (Charmaz et al., 2018, p. 730)

Já a versão clássica da metodologia, ou a grounded theory objetivista, segundo Charmaz, surge com forte influência do “positivismo e assume a descoberta dos dados em um mundo externo por um especialista neutro, mas observador, cujas conceituações decorrem dos dados. Os dados são fatos separados do observador e, nessa visão, devem ser observados sem preconcepções”21 (Charmaz, 2009b, p. 138). Assim, a “grounded theory objetivista é uma forma de pesquisa qualitativa positivista e, desse modo, ela inscreve muito da lógica da tradição positivista e dos seus centrais princípios em relação ao empirismo, generalização, universalidade, abstração e parcimônia”22 (Charmaz, 2006/2014, p. 344).

No viés pós-positivista, a literatura registra que Strauss e Corbin (1998) também compartilhavam alguns preceitos objetivistas sobre os dados em linha com Glaser, mesmo considerando algumas expressões pragmatistas. Ainda nesta linha, recentemente, Charmaz ratificou que

Os grounded theorists pós-positivistas também tratam os dados como objetivos, mas atendem à sua precisão e modo de coleta. Os grounded theorists construtivistas veem os dados como conjuntamente construídos entre pesquisadores e participantes da pesquisa e localizam esses dados em suas condições sociais, históricas e situacionais de produção.23 (Charmaz & Belgrave, 2019, p. 744).

É pertinente esclarecer que:

os primeiros livros de Strauss e Corbin (1990, 1998)24 não estabeleciam ligações explícitas com o pragmatismo. No entanto, após a morte de Strauss, em 1996, Juliet M. Corbin (Corbin & Strauss, 2008, 2015) revisou essa abordagem da grounded theory de maneira mais consistente com a tradição pragmatista.25 (Charmaz & Belgrave, 2019, p. 743)

Entretanto, é a abordagem construtivista que explicitamente assume o pragmatismo.

Postas, brevemente, essas orientações que articulam, especialmente, as abordagens históricas, filosóficas e epistemológicas da MGT, para avançar com as reflexões deste trabalho cabe neste ponto refletir sobre o tipo de teoria que as investigações que adotam a metodologia grounded theory podem alcançar.

QUAL TIPO DE TEORIA A GROUNDED THEORY POSSIBILITA GERAR?

Glaser e Strauss, no clássico The Discovery of Grounded Theory, de 1967, especialmente no capítulo IV, já esclareciam sobre a existência de duas tipologias básicas de teorias que poderiam ser geradas a partir dos procedimentos e técnicas da grounded theory: a teoria substantiva e a teoria formal26. A possibilidade de gerar esses dois tipos de teorias é consenso nas três versões da metodologia.

A teoria substantiva e a teoria formal, segundo Glaser e Strauss (1967), devem ser identificadas como teorias de “médio alcance”, conforme os postulados de Robert K. Merton (1957). Para Charmaz, as teorias de médio alcance consistem “em representações abstratas de fenômenos sociais específicos, fundamentadas em dados. Essas teorias . . . contrastam com as teorias ‘grand’ da sociologia”27 (Charmaz, 2006/2014, p. 9). Bryant reforça que “as afirmações teóricas que se desenvolvem a partir do uso da MGT não reivindicam o status de teorias gerais ou arquiteorias, mas são inicialmente oferecidas como substantivas”28 (Bryant, 2017, p. 97) ou formais, como indicam Glaser e Strauss (1967).

Dessa forma, as teorias formais são abrangentes, mas não gerais, enquanto as teorias substantivas referem-se à compreensão e explanação de situações cotidianas. Glaser e Strauss ainda esclarecem:

Uma vez que a teoria substantiva se baseia em pesquisas de uma área substantiva específica (trabalho, delinquência juvenil, educação médica, saúde mental) 29, pode-se considerar que ela se aplica apenas a essa área específica. Uma teoria [substantiva] em um nível conceitual, no entanto, pode ter implicações e relevâncias gerais importantes e tornar-se quase automaticamente um trampolim para o desenvolvimento de uma grounded theory formal . . . . A teoria substantiva é um elo estratégico na formulação e geração da grounded theory formal30 (Glaser & Strauss, 1967, p. 79).

Charmaz (2006/2014) também esclarece que as teorias formais podem ser compreendidas como “uma renderização teórica de uma questão ou processo genérico que abrange várias áreas substantivas [específicas]”31 (Charmaz, 2006/2014, p. 343). Já as teorias substantivas podem ser compreendidas como “uma interpretação teórica ou explanação de um problema delimitado em uma área particular, tais como as relações familiares, as organizações formais ou a educação [ou a comunicação]”32 (Charmaz, 2006/2014, p. 344).

Em complemento, Charmaz também apresenta reflexões sobre a distinção entre teoria positivista e teoria interpretativa. Segundo ela, as teorias positivistas são aquelas que buscam “as causas, favorece[m] as explicações deterministas e enfatiza[m] a generalidade e a universalidade” (Charmaz, 2009a, p. 172). Já as teorias interpretativas exigem “uma compreensão imaginativa do fenômeno estudado. Esse tipo de teoria pressupõe: realidades múltiplas e emergentes; indeterminação; fatos e valores quando associados; a verdade como algo provisório; e a vida social como processo” (Charmaz, 2009a, p. 173).

Com efeito, Charmaz (2009a) ainda pontua que pesquisas em grounded theory podem ser desenvolvidas com inclinações para a produção de ambos os tipos de teorias, porém isso dependerá da linha da metodologia adotada pelas pessoas pesquisadoras para o desenvolvimento de suas investigações. Por exemplo, segundo essa autora, a forma como Glaser maneja a teoria expressa forte associação positivista. Na versão de Strauss e Corbin há também alguns ângulos positivistas, porém eles reconhecem as perspectivas interpretativistas. Já na versão construtivista, a perspectiva teórica interpretativa é basilar e explícita.

Glaser e Strauss (1967) esclarecem também que são as pessoas pesquisadoras que devem definir o tipo de teoria (substantiva ou formal) que será gerada com o uso da metodologia grounded theory. No entanto, eles apontam que as pessoas pesquisadoras “inquestionavelmente tendem a evitar a formulação da grounded theory formal; elas principalmente permanecem no nível substantivo”33 (Glaser & Strauss, 1967, p. 92). Entre as justificativas para essa tendência, eles apontam os desafios e as dificuldades inerentemente maiores em trabalhar com abstrações de alto nível e o sentimento de baixa confiança de trabalhar com áreas mais amplas de pesquisa e suas implicações.

Ofertado esse contexto sobre os tipos de teorias que podem ser descobertos ou construídos com a grounded theory, considerando os postulados das suas três versões, a seguir, os esforços serão direcionados para refletir sobre como essa metodologia, especialmente na linha construtivista, vem sendo e pode ser aplicada em pesquisas comunicacionais. Por fim, algumas orientações são inscritas sobre como proceder para edificar teorias usando a metodologia grounded theory construtivista.

GROUNDED THEORY EM PESQUISAS COMUNICACIONAIS

No Brasil, os estudos de Leite (2015b, 2018) e Leite e Batista (2018) são exemplos de pesquisas, no campo da Comunicação, que aplicaram a metodologia grounded theory construtivista. Leite (2015b, 2018), em sua grounded theory, inscreveu uma contribuição teórica direcionada à compreensão das experiências de consumo midiático de mulheres brasileiras (brancas e negras) quando interagem com anúncios contraintuitivos34 que midiatizam a imagem de mulheres negras como protagonistas. A pesquisa teoriza como esses anúncios afetam ou não as percepções e experiências dessas mulheres com o racismo cotidiano. Já Leite e Batista (2018) apresentaram uma interpretação teórica, construída com o apoio de agentes parentais, acerca das primeiras experiências de crianças negras brasileiras com o racismo, tentando compreender também, nesse contexto, como as materialidades midiáticas (anúncios e telenovelas) com expressões contraintuitivas afetariam ou não essas experiências nas dinâmicas do cotidiano das famílias.

Nesse ponto, é oportuno registrar que a definição pela linha construtivista da metodologia explorada neste texto deve-se, primeiramente, pela especialização do autor deste artigo na operação dessa versão, tendo em vista suas experiências e os treinamentos realizados durante seus estudos de doutoramento com pesquisadores que são referências no desenvolvimento da metodologia, como Kathy Charmaz e Massimiliano Tarozzi35.

A escolha de explorar com mais atenção o proceder da grounded theory construtivista também se justifica pela forte associação que a versão de Charmaz tem com o pragmatismo e, de modo especial, com o interacionismo simbólico, que, além de fundamentar as bases dessa versão, pode servir como referencial teórico para direcionar as perspectivas da teoria a ser construída com a aplicabilidade da metodologia.

Como tópico a ser melhor articulado e explorado em trabalhos futuros, nota-se que o arcabouço teórico do interacionismo simbólico também integra o conjunto das teorias da comunicação (França & Simões, 2016), o que pode sinalizar, talvez, um ponto de conexão profícuo para instigar o interesse de pessoas pesquisadoras a conhecerem mais sobre a metodologia em foco, bem como favorecer o engajamento destas na construção de diálogos e estudos comunicacionais utilizando os procedimentos e técnicas da MGT para a produção de conhecimento.

Nesse aspecto, pensando o uso das teorias da comunicação como referencial teórico para o desenvolvimento de pesquisas em grounded theory, por exemplo, é profícuo resgatar a ideia de “pacote teoria/métodos”36, proposta por Adele E. Clarke (2005, p. 2). Essa autora inscreve essa noção para apontar o forte potencial da conexão entre grounded theory construtivista, como metodologia, e o interacionismo simbólico, como perspectiva teórica, para o desenvolvimento de investigações em grounded theory. Essa articulação, segundo Clarke, ofertaria às pessoas pesquisadoras um aparato vigoroso e adequado de ferramentas metodológicas e teóricas para o processo de construção da pesquisa. Essa ideia é ratificada e promovida por Charmaz (2014).

Nessa articulação, algumas teorias da comunicação, especialmente – e não exclusivamente – os estudos da midiatização37, na linha socioconstrutivista (Hepp, 2014; Krotz, 2001; Braga, 2012, 2015), poderiam se acomodar a essa proposta de Adele Clarke. Essa vertente teórica convenientemente se enquadraria nesse “pacote teoria/métodos”, pois dialoga com o interacionismo simbólico e com a sociologia do conhecimento. Ela também considera as “práticas de comunicação cotidianas . . . e enfoca a construção comunicativa em transformação da cultura e da sociedade” (Hepp, 2014, p. 47)38.

Por exemplo, essa articulação teórica e metodológica poderia ser observada como um caminho potente para, sistematicamente, se investigar e teorizar as dimensões e os significados acerca das “interações comunicativas” (processo de interação direta entre os indivíduos) e das “interações mediatizadas”, essas que são observadas como uma rede interpretativa e cooperativa, de afetações mútuas (França, 2007, p. 9). Essa rede interpretativa e cooperativa se formaria na sociedade integrando, entre outros objetos: o mercado, os profissionais de comunicação e as pessoas receptoras das materialidades midiáticas.

Nessa proposição, poderia ser observado ainda um esforço para reafirmar a potente contribuição que os estudos do interacionismo simbólico podem oferecer às pesquisas em comunicação, como lentes teóricas, bem como incentivar a ampliação do uso desse referencial teórico nas pesquisas do campo da comunicação. Desse modo, se vislumbra colaborar com a superação da lacuna apontada por Vera França (2007, 2008), de que as investigações do campo, principalmente os estudos da recepção midiática, devem realizar – o que ainda não foi feito expressivamente – leituras mais cuidadosas acerca da perspectiva do interacionismo simbólico.

França ainda complementa que “já há alguns anos as contribuições [do] interacionismo simbólico vêm sendo reivindicadas pelos estudos da comunicação, mas as referências a esta corrente são ainda pouco sistemáticas” (França, 2007, p. 1) nas investigações do campo. Exemplar nesse cenário, segundo essa autora, seria a tímida e remota referência nos estudos comunicacionais brasileiros inscrita ao pensamento de G. H. Mead (1925, 1934, 2006), identificado como “pai fundador” dessa tradição.

Nesse contexto, é pertinente recuperar e apontar que as pesquisas de Leite (2015b, 2018) e Leite e Batista (2018), indicadas na introdução deste tópico, são também exemplos de investigações, no campo da comunicação, que tentam refletir essas ideias e colaborar com a modificação desse cenário. Esses estudos, direcionados pela metodologia grounded theory construtivista, produtivamente, exercitam a adoção do “pacote teoria/métodos” proposto por Clarke (2005), articulando como referencial teórico basilar o interacionismo simbólico e os estudos da midiatização como suplemento.

No entanto, é oportuno ainda reforçar que essa proposição de “pacote teoria/métodos” de Clarke (2005), de modo algum visa inscrever receita e ou operar restrições ao uso de outros referenciais teóricos pertinentes ao desenvolvimento do racional de pesquisas em grounded theory. Essa orientação, em suma, deve ser observada apenas como uma sugestão e ideia para denotar e enfatizar a potente conexão entre a metodologia grounded theory e o arcabouço teórico do interacionismo simbólico. Nesse sentido, são indicadas a seguir algumas pesquisas brasileiras e estrangeiras que refletem as três linhas da MGT para ilustrar a flexibilidade dessa articulação.

O primeiro exemplo é o trabalho de Carla Severiano de Carvalho (2022). Essa autora, adotando a metodologia grounded theory construtivista, construiu um estudo explicativo teórico sobre os processos de estereotipia de países pelo jornalismo internacional. Especificamente, Carvalho oferece como fruto da sua pesquisa uma compreensão teórica sobre as representações discursivas do Brasil na Espanha. O referencial teórico adotado na pesquisa articulou os estudos da midiatização, os estudos sobre agenda setting e a análise crítica do discurso. As formas de coletas de dado adotadas foram: análise documental de jornais digitais espanhóis (ABC.es, ElMundo.es e ElPaís.com) e entrevistas com jornalistas espanhóis responsáveis por publicações sobre o Brasil.

Como segunda exemplificação, se indica a investigação de Ashley R. P. Wellman (2018). Essa pesquisadora, a partir do contexto estadunidense, igualmente, utilizando a grounded theory construtivista, edificou uma teoria que explora a relação entre pessoas sobreviventes de homicídio de casos arquivados e a mídia, especificamente, buscando explicar como essas pessoas percebem a cobertura, o tratamento e o relacionamento que têm ou não estabelecido com a mídia. O referencial teórico da pesquisa articula estudos de vitimologia, estudos sobre a cobertura midiática de casos de violências e crimes, entre outros. Os dados da pesquisa foram construídos, especialmente, por entrevistas em profundidade com sobreviventes de homicídio.

Outro exemplo brasileiro, porém, inclinado à linha de Glaser, é a pesquisa de Maíra Bittencourt (2016). Essa autora desenvolveu uma investigação pautada pela grounded theory clássica, especificamente direcionada à perspectiva quali/quantitativa, indicada por Glaser (2008) em Doing quantitative grounded theory. Bittencourt, a partir da área da comunicação digital, elaborou um modelo teórico denominado “príncipe digital”, que, segundo ela, foca iluminar o modo como, no contemporâneo atravessado pelas “redes digitais, estão estruturadas as categorias: poder, hegemonia e liderança . . . . Essa compreensão pode nos levar a entender melhor os fenômenos deste tempo, como as grandes manifestações sociais e os tipos de relações existentes nas redes sociais” (Bittencourt, 2016, p. 8). O referencial teórico adotado nessa pesquisa aciona diversos textos de autores como: Maquiavel, Antonio Gramsci e Octavio Ianni, para pensar a ideia social de “príncipe” e “príncipe eletrônico”; Paul Lazarsfeld e José B. Toro, para pensar a recepção de ideias e a mobilização social; e Michael Hardt, Antônio Negri e Manuel Castells, para apoiar a reflexão teórica sobre multidão, redes sociais, internet e processos de mobilização. Como informações para fundamentar a sua grounded theory, a coleta de dados da pesquisa foi realizada mediante a análise de manifestações sociais, entrevistas e observação.

Por último, como exemplo de pesquisa que adotou a metodologia grounded theory, conforme Strauss e Corbin, aponta-se a investigação de Andreas Hepp, Piet Simon e Monika Sowinska (2018). Esses autores, a partir do contexto alemão, desenvolveram um estudo teórico explicativo sobre as redes comunicativas e a construção de comunidades midiatizadas, objetivando compreender o que significa a midiatização profunda para os jovens em seus sentidos urbanos diários de comunidade. Nessa investigação, o referencial teórico acionado implica os estudos da midiatização e a coleta de dados da pesquisa focou em observações e entrevistas em profundidade.

Com apoio desses pequenos relatos sobre essas pesquisas em comunicação, especialmente brasileiras, que adotaram a grounded theory e referenciais teóricos diversos, este texto encaminha-se para o seu último tópico que orienta acerca dos principais procedimentos e técnicas para sustentar o exercício de teorizar com a metodologia grounded theory construtivista.

COMO TEORIZAR E CONSTRUIR UMA GROUNDED THEORY

As direções de como proceder para construir uma grounded theory no processo de pesquisas em comunicação já foram discutidas detalhadamente em outras oportunidades (Leite, 2015a, 2015b, 2016). No entanto, neste artigo, de modo breve, essas orientações são recuperadas num especial direcionamento para focar no entendimento sobre as características denominadas por Jane Hood (2007) como Troublesome Trinity (Tríade Problemática) da metodologia, a saber: a amostragem teórica; o método comparativo constante; e a focalização no desenvolvimento da teoria via saturação teórica de categorias. Essas características também diferenciariam, segundo Hood (2007), a grounded theory de outras metodologias de pesquisa. O caminho para edificar a grounded theory construtivista não é linear.

Nessa direção, com a definição da área de investigação, as pessoas pesquisadoras com um posicionamento o mais aberto possível a tudo o que se observa e se sente no campo, em todas as etapas da pesquisa, podem começar a investigação em grounded theory. Geralmente, esse início é guiado por uma questão de pesquisa aberta e gerativa, mesmo que provisória. O trabalho empírico pode ser iniciado também a partir dos interesses pessoais e disciplinares, bem como pela definição de “conceitos sensibilizantes” (Blumer, 1954), caso as pessoas pesquisadoras decidam elaborar sua questão de pesquisa posteriormente, tendo como base as experiências e os dados alcançados empiricamente.

Herbert Blumer esclarece que os “conceitos sensibilizantes” fornecem às pessoas pesquisadoras uma noção geral de “senso de referência e orientação para abordar casos empíricos”39 (Blumer, 1954, p. 7). De acordo com Charmaz (2006/2014), esses conceitos podem indicar um ponto para iniciar a pesquisa em grounded theory, mas não para finalizá-la. Tarozzi (2011) explana a respeito, orientando que esse conceito deve ser considerado como a base de ideias sobre a qual se polarizam os problemas da investigação.

Com esse posicionamento inicial, a próxima etapa é o início da coleta de dados, ou a construção conjunta destes com as pessoas informantes (ou documentos e materialidades fontes) da pesquisa. Charmaz defende “a coleta de dados ricos – detalhados e completos – os colocando em seu contexto situacional e social”40 (Charmaz, 2006/2014, p. 18).

Esses dados podem ser coletados mediante o uso de diversos instrumentos e fontes. A entrevista intensiva, ou em profundidade, continua sendo a fonte mais comum para se construir dados ricos e relevantes. No entanto, outras fontes podem ser agregadas como, por exemplo, a observação41, as notas de campo e os textos e documentos a serem produzidos ou já existentes (produzidos), dentre os quais podem-se citar os textos históricos, registros governamentais, diários, relatórios etc. As materialidades midiáticas também podem ser fontes de dados como os textos jornalísticos, os registros de interações comunicativas em redes sociais, os anúncios etc. Os textos, segundo Charmaz (2009a), também podem ser extraídos, ou seja, as pessoas pesquisadoras podem solicitar que as pessoas informantes produzam textos como redações, relatos, entre outros. No entanto, comparando as entrevistas e os textos como fontes, Charmaz alerta que “as entrevistas apresentam possibilidades de checagem de uma história que o texto já não permitiria” (Charmaz, 2009a, p. 59).

Com o início da coleta de dados, a questão de pesquisa pode ser revelada nesse processo pelo exercício de responder à clássica questão formulada por Glaser (1978): “What’s going on here?” (O que está acontecendo aqui?). Charmaz valida que essa indagação é fundamental para todas as vertentes da grounded theory a fim de gerar “observação daquilo que esteja acontecendo em um dos dois níveis: Quais são os processos sociais básicos? Quais são os processos psicossociais básicos?” (Charmaz, 2009a, p. 38).

Consequentemente, já com os primeiros dados coletados oriundos de entrevistas, por exemplo, é recomendável que transcrições verbatim sejam realizadas. As entrevistas, se possível, devem ser captadas e registradas em áudio ou em audiovisual com o consentimento formal dos informantes da pesquisa. Nesse tocante, na situação da entrevista, bem como no processo de transcrição desses registros, o olhar analítico da pessoa pesquisadora para os dados precisa já estar em operação.

Nessa rota, com os dados da primeira transcrição, segue-se para as etapas de codificação, iniciando desse modo também a ativação dos desafios inscritos pela tríade problemática da metodologia, indicada anteriormente. No entanto, antes de avançar para compreender o processo de codificação, é pertinente indagar: Como entender e operacionalizar a amostragem na grounded theory? Há duas formas de amostragem na grounded theory: a inicial e a teórica. A amostra inicial simplesmente refere-se ao recrutamento, à participação e ao perfil sociodemográfico das pessoas e/ou grupos informantes da pesquisa. Nesse sentido, considerando também os textos e documentos existentes ou extraídos, essa amostragem visa delimitar as especificidades e as características desse corpus, dessa coleção de materiais e documentos, a ser considerada para a coleta de dados e análise42. Essa amostra inicial é comum a várias tipologias de pesquisa qualitativa.

Por outro lado, a amostra teórica é típica de pesquisas em grounded theory. Segundo Glaser e Strauss, ela pode ser entendida como “o processo de coleta de dados para gerar teoria pelo qual a/o analista coleta, codifica e analisa, em conjunto, seus dados e decide quais dados serão coletados a seguir e onde encontrá-los, a fim de desenvolver sua teoria à medida que ela surgir”43(Glaser & Strauss, 1967, p. 45). Desse modo, “o principal objetivo da amostragem teórica é elaborar categorias que constituem a sua teoria” (Charmaz, 2009a, p. 135).

O processo da amostragem teórica começa quando, após o início e o avançar da codificação dos dados, as pessoas pesquisadoras já tiverem elaborado algumas categorias relevantes, porém rudimentares, que necessitam de maior densidade/qualidade explicativa. A finalização desse processo estabelece-se quando a “saturação teórica”, ou, como prefere Ian Dey (1999), a “suficiência teórica”, é alcançada para a categoria, ou melhor, para o conjunto de categorias que articulam a grounded theory elaborada. A “saturação teórica” na grounded theory refere-se ao ponto em que os dados coletados, para dar densidade às categorias via amostragem teórica, já não apresentam novas propriedades, variações e nem produzem estímulos às reflexões teóricas que possam fortalecer a teoria em construção.

Nesse contexto, é cabível frisar que a literatura indica que não é pertinente coletar todos os dados e, somente depois, iniciar as etapas de codificação e análises. Esses processos devem ocorrer simultaneamente, privilegiando sempre o retorno e a comparação constante entre os dados na busca de edificar informações ricas e relevantes, seguindo assim a características iterativa e interativa da metodologia em tela.

Como se observou na tabela 2, organizada por Tarozzi (2011), a versão construtivista para a grounded theory postula três principais tipos de codificação44 para elaboração de códigos qualitativos, a saber: a inicial, a focalizada e a teórica45. Para Charmaz, a codificação na grounded theory “gera os ossos da sua análise. A integração teórica agregará esses ossos para formar um esqueleto de trabalho” (Charmaz, 2009a, p. 70). Dessa forma, para além de

um começo; ela define a estrutura analítica a partir da qual você constrói a análise . . . . A codificação é o elo fundamental entre a coleta de dados e o desenvolvimento de uma teoria emergente para explicar esses dados. Pela codificação, você define o que ocorre nos dados e começa a debater-se com o que isso significa (Charmaz, 2009a, p. 70).

A codificação inicial é a primeira etapa desse processo, pois ela se fixa com rigor aos dados, considerando as ações em cada segmento desses em vez de aplicar categorias preexistentes. As principais estratégias de codificação inicial, considerando os textos transcritos das entrevistas e outras fontes, são: a “palavra por palavra”, “linha a linha” ou “incidente por incidente”. Ao longo desse processo, intensas expressões, manifestadas pelos informantes, podem ser agregadas potencialmente ao trabalho de modo literal. Tais expressões são denominadas de códigos in vivo. Nessa etapa, é preciso também operar o método analítico de comparação constante, que deve apoiar e atravessar todas as práticas de codificação e análises da pesquisa. Segundo Charmaz, esse método objetiva, com o seu proceder, gerar

sucessivamente mais conceitos abstratos e teorias mediante um processo indutivo de comparar dado com dado, dado com código, código com código, código com categoria, categoria com categoria e categoria com conceito. No último estágio de análise, os pesquisadores comparam suas principais categorias com as da literatura acadêmica relevante. Assim, as comparações constituem cada estágio do desenvolvimento analítico. Os grounded theorists usam esse método para revelar as propriedades e o alcance das categorias emergentes e aumentar o nível de abstração de suas análises em desenvolvimento.46 (Charmaz, 2006/2014, p. 342).

Retornando às orientações sobre a codificação, a segunda fase do processo é a codificação focalizada. Nessa etapa, com os códigos já administrados na etapa inicial, eles são mais direcionados e seletivos. Para o seu realizar, são utilizados os códigos iniciais mais significativos e/ou frequentes para analisar minuciosamente grandes quantidades de dados. Essa codificação exige tomada de decisão, pois nela se definem quais dados têm a potencialidade de se coadunar com outros, formando, assim, uma categoria. Essas decisões das pessoas pesquisadoras são guiadas pela sua “sensibilidade teórica” (Glaser, 1978), que poderá ser desenvolvida ao longo de sua experiência com a pesquisa.

Com efeito, a terceira etapa é a da codificação teórica. Trata-se de um nível sofisticado de codificação que segue os códigos selecionados na codificação focalizada. É nessa etapa que, segundo Tarozzi, a construção das categorias alcança plenitude e “a teorização procede para a identificação das categorias centrais, os conceitos-chave em torno dos quais se organizará a teoria” (Tarozzi, 2011, p. 154). Ainda nessa dinâmica, parte-se, posteriormente, para a etapa de classificação teórica dessas categorias, com o objetivo de encontrar a core category, ou seja, a categoria principal que tenha a potencialidade de “integrar a teoria e desenvolvê-la em torno de seus eixos conceituais, emersos empiricamente” (Tarozzi, 2011, p. 154). Há a possibilidade de pesquisas apresentarem mais de uma core category.

Por fim, nesse momento, indiscutivelmente, os memorandos47 que devem ser redigidos ao longo de todo o processo da pesquisa são fundamentais para apoiar a integração e o relato dos esquemas conceituais edificados, bem como para direcionar a redação final da teoria construída. O retorno à literatura que dê suporte às conexões e que estimule interpretações e desdobramentos conceituais acerca das perspectivas teóricas construídas pode também ocorrer com mais densidade nessa etapa. Esse retorno à literatura deve acontecer alinhado ao referencial teórico aplicado na pesquisa para, dessa forma, potencializar o processo de teorização e a integração das dimensões de significados construídos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A principal contribuição deste artigo foi ofertar uma introdução reflexiva que orientasse sobre o processo de teorizar seguindo as diretrizes da metodologia grounded theory construtivista. Também foi proposta deste estudo discutir o tipo de teoria produzida com esse caminho metodológico, demonstrando o potencial que essa metodologia oferece para o desenvolvimento de pesquisas em comunicação que busquem gerar compreensões teóricas de processos sociais enraizadas nos dados.

Nesse esforço, algumas poucas pesquisas em comunicação que aplicaram a metodologia, no Brasil, foram indicadas como objetos de exemplificação. De modo complementar, alguns estudos internacionais também foram apontados. Contudo no exercício deste texto, é basilar reconhecer que, apesar de serem ainda poucas as pesquisas brasileiras em comunicação que utilizam a metodologia em tela, esse pequeno conjunto de estudos começa a configurar e ofertar ao campo, mediante a divulgação e aceitação de seus resultados, um quadro de referências de trabalhos úteis e significativos que, integralmente, aplicaram e desenvolveram o racional e o rigor da metodologia. Dessa forma, essas investigações passam a viabilizar-se também como fontes vigorosas para que outras/novas pessoas pesquisadoras possam conhecer e aprender, com exemplos de experiências próximos, a feitura do teorizar com a grounded theory.

Enfim, espera‐se que as orientações compartilhadas neste texto, apesar de introdutórias e pontuais, tendo em vista os limites e objetivos deste trabalho, estimulem as pessoas pesquisadoras do campo a conhecerem mais e se aventurarem futuramente em pesquisas utilizando a articulação metodológica (e teórica) apresentada. Os procedimentos e técnicas da grounded theory pertinentemente disponibilizam um caminho de pesquisa intenso e rigoroso para apoiar a elaboração sistemática de teorias de médio alcance (substantivas e/ou formais), que impliquem a compreensão das experiências, dos eventos e das significações produzidas socialmente pela dinâmica interacional das pessoas enredadas pelas narrativas midiáticas no cotidiano.

Agradecimentos

FinanciamentoFundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) - Processo nº 2017/08319-7.

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Notas

a A primeira versão deste trabalho foi apresentada no GT Epistemologias da Comunicação do 30° Encontro Anual da Compós, em 2021. Registro o meu agradecimento às críticas e observações que o trabalho recebeu nesse evento. Agradeço especialmente ao trabalho atento dos editores e pareceristas da Matrizes.
1 Essa expressão foi traduzida para o português como “teoria fundamentada”; no entanto, também se observam outras variações menos utilizadas, como “teoria fundamentada nos dados”, “teoria embasada”, “teoria emergente” ou “teorização enraizada”. Neste artigo prioriza-se seguir a tendência mundial de utilizar a expressão original em inglês, embora em alguns momentos sua tradução em português possa ser adotada.
2 Charmaz elucida que o pragmatismo é “uma tradição filosófica [estadunidense] que percebe a realidade como sendo caracterizada pela indeterminação e pela fluidez, bem como por sua abertura a múltiplas interpretações. O pragmatismo pressupõe que as pessoas são ativas e criativas. Na filosofia pragmatista, os significados emergem por meio das ações práticas para solucionar problemas e é por meio das ações que as pessoas acabam conhecendo o mundo. Os pragmatistas consideram que os fatos e os valores estejam mais vinculados que separados, e veem a verdade como relativista e provisória” (Charmaz, 2009a, p. 251).
3 Glaser (2008) defende e orienta a possibilidade de a MGT também ser aplicada no viés quantitativo.
4 Para Charmaz, “um processo consiste em desdobrar sequências temporais nas quais eventos únicos tornam-se vinculados como parte de um todo maior. Assim, as sequências temporais são ligadas em um processo e conduzem à mudança. Um processo pode ter marcadores identificáveis com inícios e finais claros e referências entre eles ou pode ser muito mais difuso e menos visível, porém ainda assim evidente quando comparações são feitas ao longo do tempo” (Charmaz, 2014, p. 344. No original: “a process consist of unfolding temporal sequences in wich single events become linked as part of a larger whole. Thus temporal sequences are linked in a process and lead to change. A process may have identifiable markers with clear beginnings and endings and benchmarks in between or may be much more diffuse and less visible but nonetheless evident when comparisons are made over time”). Ainda segundo essa autora, o que será definido por “básico é sempre uma interpretação” da pessoa pesquisadora.
5 No original: “Grounded theory is an iterative, comparative, and interactive method that begins with inductive data”.
6 No original: “This methodology is appropriate when little is known about a phenomenon”.
7 No original: “Glaser and Strauss aimed to move qualitative inquiry beyond descriptive studies into the realm of explanatory theoretical frameworks”.
8 No original: “constellation of methods”.
9 No original: “notions of human agency, emergent processes, social and subjective meanings, problem-solving pratices, and the open-ended study of action”.
10 No original: “direct and, often, narrow empiricism, developed a concept-indicator approach, considered concepts to be variables, and emphasized analyzing a basic social process. Strauss (1987), separately, and together with his co-author in the 1990s, Juliet M. Corbin . . . further moved the method toward seeing grounded theory as a method of verification”.
11 No original: “data and analysis into preconceived categorias, ignore emergence, and result in ‘full conceptual description’, not grounded theory”.
12 No original: “minimized grounded theory as an emergent method of discovery and instead recast it as a formulaic procedure”.
13 Glaser inscreve também fortes críticas à proposta de Charmaz para a grounded theory. Por exemplo, ele pontua ser um equívoco denominar a grounded theory como construtivista, pois “os dados construtivistas, se é que existem, são uma parte muito, muito pequena dos dados que a metodologia usa” (Glaser, 2002b). Algumas dessas críticas são enfrentadas por Charmaz em publicações posteriores, nas quais a autora ratifica e demonstra o potencial de sua perspectiva. (ver Charmaz, 2009a, 2006/2014 etc.).
14 No original: “A contemporary version of grounded theory that adopts methodological strategies such as coding, memo-writing, and theoretical sampling of the original statement of the method but shifts its epistemological foundations and takes into account methodological developments in qualitative inquiry occurring over the past fifty years”.
15 Olhares críticos sobre as três escolas, seus procedimentos e técnicas e alguns dos esforços que têm sido desempenhados por diversas pessoas pesquisadoras para o desenvolvimento da metodologia podem ser encontrados em Bryant e Charmaz (2007; 2019); bem como em Morse et al. (2009).
16 Comparações mais atenciosas entre as escolas são encontradas em: Allen (2010), Santos et al. (2018), entre outros.
17 Apesar de Tarozzi (2011) indicar a codificação axial (proposta por Strauss e Corbin) entre os tipos de codificação da vertente de Charmaz, esta autora relativiza a sua aplicação na pesquisa, indicando-a como opcional. Segundo ela, os investigadores que “preferem trabalhar com uma estrutura pré-fixada acolherão bem a ideia de ter um esquema de organização. Aqueles que preferem diretrizes simples, e conseguem tolerar bem a ambiguidade, não precisam realizar a codificação axial. Esses podem seguir as indicações que definem com base em seus dados empíricos . . . . As categorias, as subcategorias e as conexões subsequentes refletem o modo como compreendi os dados” (Charmaz, 2009a, p. 92).
18 Bryant alerta que “o uso do prefixo ‘pós’ indica movimento ‘além’”. De modo crítico, ele ainda observa esse termo como “enganoso ou inútil: o pós-positivismo parece ser aplicado a posições que ainda são positivistas; portanto, na melhor das hipóteses, o termo deve ser neopositivismo – neo significa ‘novo’, em oposição a ‘pós’, que implica algum tipo de distanciamento” (Bryant, 2017, p. 58). No original: “misleading or unhelpful: Post-positivism seems to be applied to positions that are still positivist, so at best the term should be neo-positivism—neo meaning ‘new’, as opposed to ‘post’ which implies some sort of distancing”.
19 No original: “adopts a contrasting relativist approach that shifts the method’s ontological and epistemological grounds (Charmaz, 2009) to the pragmatist tradition of Anselm Strauss”.
20 No original: “Rooted in pragmatism and relativist epistemology, constructivist grounded theory assumes that neither data nor theories are discovered but instead are constructed by researchers as a result of their interactions with their participants and emerging analyses . . . . For constructivists, grounded theory is a fundamentally interactive method”.
21 No original: “positivism and thus assume discovery of data in an external world by a neutral, but expert observer whose conceptualizations arises from view the data. Data are separate facts from the observer and, in the objectivist view, should be observed without preconception”.
22 No original: “Objectivist grounded theory is a form of positivist qualitative research and thus subscribes to much of the logic of the posivist tradition and to its central tenets concerning empiricism, generalizability, universality, abstraction, and parsimony”.
23 No original: “Post-positivist grounded theorists also treat data as objective but attend to its accuracy and mode of collection. Constructivist grounded theorists view data as co-constructed between researchers and research participants and locate these data within their social, historical, and situational conditions of production”.
24 Tradução em português: Strauss e Corbin (2008).
25 No original: “Strauss and Corbin’s (1990, 1998) early books did not draw explicit links to pragmatism. However, after Strauss’s death, Corbin (Corbin & Strauss, 2008, 2015) has revised her approach to grounded theory in ways more consistent with the pragmatist tradition”.
26 Bryant alerta que “a metodologia grounded theory deve, obviamente, levar ao desenvolvimento de teorias fundamentadas em dados, embora essas também possam ser denominadas modelos ou estruturas ou esquemas conceituais. Às vezes, esse aspecto da MGT é esquecido ou obscurecido pelos próprios pesquisadores ao relatar as suas descobertas” (Bryant, 2017, p. 99). No original: “The grounded theory method should, obviously, lead to the development of grounded theories, although these may also be termed models or frameworks or conceptual schemas. This aspect of GTM is sometimes forgotten or obscured by researchers themselves when reporting their findings”.
27 No original: “abstract renderings of specific social phenomena that were grounded in data. Such middle-range theories contrasted with the ‘grand’ theories of sociology”.
28 No original: “the theoretical statements that develop from use of GTM do not claim the status of grand or overarching theories, but rather are initially offered as substantive ones…”.
29 No campo dos estudos comunicacionais áreas substantivas poderiam ser, por exemplo: a comunicação publicitária (ou outra área que integra a comunicação como jornalismo, relações públicas etc.); as experiências de recepção publicitária (ou de outra específica materialidade midiática), entre outras.
30 No original: “Since substantive theory is grounded in research on one particular substantive area (work, juvenile delinquency, medical education, mental health), it might be taken to apply only to that specific area. A theory at such a conceptual level, how ever may have important general implications and relevance, and become almost automatically a springboard or stepping stone to the development of a grounded formal theory, . . . Substantive theory is a strategic link in the formulation and generation of grounded formal theory”.
31 No original: “A theoretical rendering of a generic issue or process that cuts across several substantive areas of study”.
32 No original: “A theoretical interpretation or explanation of a delimited problem in a particular area, such as family relationships, formal organizations, or education”.
33 No original: “unquestionably tend to avoid the formulation of grounded formal theory; they stay principally at the substantive level”.
34 Anúncios contraintuitivos (Leite, 2014, 2018, etc.) podem ser considerados como uma proposta do campo profissional publicitário que, estrategicamente, faz uso em suas narrativas de “outros/novos” conteúdos acerca de estereótipos dirigidos aos grupos minorizados socialmente, com o objetivo principal de inovar e promover suas tentativas de apelo para o consumo mercadológico, violando expectativas intuitivas dos receptores acerca dos discursos tradicionalmente veiculados pela publicidade.
35 Tarozzi, inclusive, foi o supervisor de doutorado sanduíche (PDSE/CAPES) de Kathy Charmaz, em 2014, na Itália, na Universidade de Bolonha e na Universidade de Trento.
36 No original: “Theory-Methods Package”.
37 O debate sobre midiatização está em decurso atualmente. No entanto, um direcionamento conceitual ofertado por José Luiz Braga pode apoiar a compreensão do termo. Ele orienta que esse “termo indica que a midiatização pode ser compreendida como ‘ação’ – entre um complexo institucional e um processo. Quando adotamos a palavra ‘midiatização’, já não estamos falando apenas de lógicas da mídia/indústria cultural, mas também de ações que se desenvolvem no ambiente social difuso (em suas variadas ações comunicacionais) – pelo acionamento” (Braga, 2018, p. 292).
38 Ao contrário da vertente socioconstrutivista dos estudos da midiatização, Hepp aponta a linha institucional, que até recentemente tem se interessado, segundo esse autor, pelas lógicas produzidas nos espaços de produção da comunicação de massa, cuja influência é descrita como “lógica da mídia” (Hepp, 2014, p. 47, grifo do autor).
39 No original: “sense of reference and guidance in approaching empirical instances”. ↑
40 No original: “gathering rich – detailed and full – data and placing them in their relevant situational and social contexts”.
41 Para Tarozzi, a peculiaridade da observação dentro da grounded theory “é que esta é focalizada imediatamente na observação dos fenômenos e, sobretudo, dos elementos de processo definidos na pergunta da pesquisa, dando menor peso à descrição do contexto” (Tarozzi, 2011, p. 111). Logo, a proposta da observação não se pauta por realizar descrições detalhadas, mas é focada na produção de conceituações do processo em investigação.
42 A tabela 1 deste artigo apresenta algumas referências acerca desse proceder de análise documental.
43 No original: “the process of data collection for generating theory whereby the analyst jointly collects, codes, and analyzes his data and decides what data to collect next and where to find them, in order to develop his theory as it emerges”.
44 A codificação na grounded theory pode ser confundida com a análise de conteúdo, especialmente por pessoas pesquisadoras iniciantes. Para reduzir esses equívocos, recomenda-se como leitura introdutória o trabalho de Ji Young Cho & Eun-Hee Lee (2014).
45 Para colaborar com o gerenciamento, a manipulação e a codificação dos dados coletados, recomenda-se, se possível, o uso de softwares (p.ex. Nvivo, WebQDA, Atlas.ti) que apoiem as pessoas pesquisadoras no processo de análise dos dados qualitativos, na construção de diagramas e mapas conceituais das dimensões da teoria. Posto isso, é pertinente apontar, que ao longo do processo de codificação até a integração da grounded theory, é recomendável a produção de representações gráficas (com diagramas ou mapas situacionais) que ilustrem as articulações teóricas construídas.
46 No original: “successively more abstract concepts and theories through inductive processes of comparing data with data, data with code, code with code, code with category, category with category, and category with concept. In the last stages of analysis, researchers compare their major categories with those in relevant scholarly literatures. Comparisons then constitute each stage of analytic development. Grounded theorists use this method to reveal the properties and range of the emergent categories and to raise the level of abstraction of their developing analyses”.
47 A redação de memorandos, segundo Charmaz, “é a etapa intermediária fundamental da teoria fundamentada entre a coleta dos dados e a redação dos manuscritos. Quando os pesquisadores . . . escrevem memorando, eles param e analisam as suas ideias sobre os códigos e as categorias emergentes, independentemente da forma como isso ocorra . . . A redação de memorando é um método crucial . . . porque induz os pesquisadores a analisarem os dados e desenvolverem os seus códigos dentro de categorias já na fase inicial do processo de pesquisa. Escrever memorandos sucessivos mantém os pesquisadores envolvidos na análise, ajudando-os a elevar o nível de abstração de suas ideias” (Charmaz, 2009a, p. 251).

Author notes

b Doutor em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, com estágio de doutoramento PDSE/CAPES na Universidade de Trento e na Universidade de Bolonha (Itália). Pós-doutorado em Comunicação e Consumos na USP, com bolsa FAPESP. É pesquisador vice-líder do grupo de pesquisa ArC2 - Estudos Antirracistas em Comunicação e Consumos USP/CNPq. Autor de “Publicidade contraintuitiva: inovação no uso de estereótipos na comunicação” (2014), coorganizador e autor de “Publicidade Antirracista: reflexões, caminhos e desafios” (2019), obra finalista do prêmio Jabuti 2020. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-1795-9344. E-mail: leitefco@gmail.com.
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