RESENHA

| VILCHES MANTEROLA Lorenzo. VILCHES MANTEROLA, Lorenzo. (Ed.) (2021) Diccionario de Teorías Narrativas 2: Narratología, cine, videojuegos, medios. Caligrama. 883p.. 2021. Caligrama. 883pp. |
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Received: 16 February 2022
Accepted: 28 July 2022
DOI: https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v17i1p291-296
Resumo: Trata-se de uma resenha do livro Diccionario de Teorías Narrativas 2: narratología, cine, videojuegos, medios, editado e organizado pelo espanhol Lorenzo Vilches Manterola, Professor Catedrático e Emérito da Universidad Autónoma de Barcelona (UAB), lançado em 2021 em formato impresso e ebook pela editora Caligrama, em língua espanhola. A obra, organizada em forma de dicionário, conta com aproximadamente 450 entradas (verbertes) que trazem à luz não apenas conceitos fundamentais, a respeito das Teorias Narrativas contemporâneas, mas também aplicações e metodologias que colocam em relação a narratologia, a mídia e a Comunicação.
Palavras-chave: Narrativa, comunicação, dicionário, narratologia.
Abstract: This is a review of the book Diccionario de Teorías Narrativas 2: narratología, cine, videojuegos, medios, edited and organized by the Spanish Professor Lorenzo Vilches Manterola, Emeritus of the Universidad Autónoma de Barcelona (UAB), launched in 2021, in printed and ebook format, by the publisher Caligrama, in Spanish language. The book, organized in the form of a dictionary, has approximately 450 entries (verberts) that bring to light not only fundamental concepts regarding contemporary Narrative Theories, but also applications and methodologies that relate to narratology, the media and communication.
Keywords: Narrative, communication, dictionary, narratology.
A NARRATIVA SEMPRE esteve presente na sociedade, circulando sob as mais variadas formas e formatos, como já destacava Roland Barthes em sua notável introdução ao dossiê inteiramente dedicado às narrativas, publicado na França em 1966 e que, posteriormente, torna-se um marco para os estudiosos desse tema. Pode-se, a partir disso, observar a importância das narrativas como forma de expressão e comunicação humana (Benjamin, 1994), como manifestação e compreensão da realidade, do mundo que nos cerca (Bruner, 1991), também, como um elemento constituinte das comunidades e de manutenção da memória, e da cultura, em uma contínua transmissão de relatos e saberes entre as diferentes gerações, o que levou alguns estudiosos como Walter Fisher (1984) à conceber a narração como um verdadeiro paradigma da comunicação humana.
É notável observar no Brasil, entre as pesquisas no campo da comunicação, um crescente interesse pelas temáticas relacionadas às narrativas: estudos cuja matriz teórica fundamenta-se em teorias narrativas ou narratológicas, investigações em que as narrativas são objeto central de análise, ou ainda aqueles que mobilizam metodologias e técnicas de análise narrativa.
Nesse cenário, a recente obra editada e publicada em 2021 por Lorenzo Vilches Manterola, Diccionario de Teorías Narrativas 2: narratología, cine, videojuegos, medios cumpre um papel primordial ao fornecer, ao mesmo tempo, uma seleção robusta e fundamenta dos principais conceitos em voga na atualidade, concernentes à narratologia, mas, também e de forma inovadora, às principais metodologias e aplicações dos conceitos apresentados no livro.
Como uma continuação da proposta iniciada em 2017, com a publicação do primeiro dicionário focado em narrativas, cinema e transmídia, o Diccionario 2 conta com aproximadamente 450 entradas, escritas por pesquisadores de diferentes países, entre eles, o Brasil. Os verbetes estão organizados de forma alfabética, mas também por meio de um índice temático em: Aproximações, Cinema, Mídias, Teorias e Videogame, facilitando a busca e seleção a partir dos termos-chave.
De acordo com Vilches Manterola, a seção “aproximações” visa dar espaço a vertentes diversas que permitam articular as narrativas que circulam na sociedade com temáticas ligados ao gênero, à mulher, ao indivíduo, tomados como sujeitos narrativos; nesse sentido, entre as entradas podem-se encontrar, por exemplo, abordagens acerca do (pos)feminismo, da dança, da mulher e da fotografia, das narrativas organizacionais e desportivas, entre outras.
Na seção dedicada ao cine encontram-se entradas que versam sobre aspectos teóricos do cinema – análise de personagens fílmicos, análise semiótica narrativa do cinema, cinema e teoria cognitiva, tipologia do gênero cinematográfico etc. – mas, também, aspectos históricos – Western, cinema etnográfico na América Latina, Fotonovela, a “nova onda japonesa”, etc. – além de reflexões críticas sobre os estudos de neurofilmologia e a respeito das categorias de espectador.
Já o índice temático “Mídia” concentra entradas que relacionam a narrativa aos mais diversos conceitos, elementos e objetos midiáticos e, sobretudo, televisuais. Entre eles, destacam-se as entradas sobre os “usuários das mídias narrativas” – aficionado, amateur, audiência, cinéfilo, fan, geek etc. –, a evolução dos meios narrativos audiovisuais, jornalismo imersivo e transmidialidade, televisão e a temporalidade das mídias digitais, além das séries televisivas como objetos de análise narrativa.
O maior número de entradas está concentrado na seção “teorias”, na qual podem ser encontrados conceitos fundamentais ao estudo das narrativas – evento, acontecimento, esquema quinário, encadeamento, estrutura acrônica, arco da história, construção da trama, definições narratológicas, leitor modelo, retórica narrativa, intriga, sequência narrativa etc. – e abordagens transdisciplinares que auxiliam a compreensão dos termos, das teorias e dos exemplos mobilizados – bioficção, ciberpunk, cultura transmídia, contos populares e contos mágicos, folklore, história, literatura, lendas urbanas, transficionalidade etc.
Uma das novidades do Diccionario 2 foi a inclusão de temas relacionados aos games, por meio de entradas que exploram o universo dos jogos de videogame e as particularidades de enredos, tramas e temporalidade narrativa a partir de diferentes exemplos e gêneros de jogos – Arcade, ARG, RPG etc – e análise de personagens, tipologias características aos games, aos jogadores modelo e à narração de videogame.
Nas palavras de Lorenzo Vilches Manterola, a publicação do segundo dicionário tornou-se fundamental para cobrir e complementar as abordagens narrativas desenvolvidas na atualidade. Entre outros aportes, destacam-se algumas contribuições que derivam das teorias narrativas apresentadas na obra, tais como: as antologias, configurações e estruturas narrativas, a explicação de modelos e paradigmas, os meios audiovisuais, a arte da ficção e sua evolução digital, competências e saberes, a cultura narrativa crítica e sua representação ideológica, a inovação e a comunicação.
Dessa forma, a publicação cumpre um papel maior do que apenas funcionar como um dicionário, no sentido estrito do termo. A densa obra, de 883 páginas, oferece aos leitores teorias, conceitos, metodologias, exemplos aplicados, além de referências adicionais acerca das temáticas, listadas ao final de cada verbete.
Merecem destaque algumas entradas particularmente singulares e atuais, como aquelas relacionadas às narrativas e aos games, que abordam desde a análise dos personagens, até a história e o formato narrativo em tais jogos, sobre a abordagem narrativa da nova onda do cinema documental japonês ou ainda acerca das produções narrativas, notadamente audiovisuais, com enfoque no feminismo e no pós-feminismo.
Tais perspectivas, teorias e aplicações apresentadas no dicionário constituem uma fonte fidedigna e atualizada, aos pesquisadores em comunicação, iniciantes ou já iniciados nos estudos narrativos, que podem, através da busca por verbetes, imergir no vasto campo da narratologia clássica e pós-clássica (Herman, 1997; Prince, 2008), conhecendo e reconhecendo os estudos e os estudiosos que têm se dedicado a tais temas.
Levando em consideração a disseminação dessa temática entre as diferentes áreas da Comunicação – como pode ser observado pelas publicações de Santos e D’Almeida (2012), Cogo (2012), Nassar (2016) e Andreoni & Scroferneker (2019), que analisam as narrativas sob a óptica das Relações Públicas e da Comunicação Organizacional; Zozzoli (2012), Brandão (2016), Covaleski (2012) e Carrascoza (2014) em suas investigações sobre a relação entre narrativas, marcas e consumo, no âmbito da Publicidade e da Propaganda; e, ainda, os diversos estudos desenvolvidos por pesquisadores em jornalismo, conforme aponta o levantamento realizado Martinez e Iuama (2016), no âmbito da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo, assim como demonstrado pelas expressivas publicações da Rede de pesquisas Narrativas midiáticas contemporâneas (RENAMI) (Maia & Martinez, 2018; Maia & Passos, 2020; Soster & Piccinin, 2017; Soster & Piccinin, 2019) – é notável a importância de uma obra que apresente subsídios teóricos e perspectivas narrativas que dialoguem com os estudos comunicacionais.
Sob esse aspecto, cabe salientar que, embora a proposta de sumarizar as teorias narrativas, por meio de dicionários, já tenha sido realizada desenvolvida por outros(as) autores (as) – a exemplo da obra seminal de Gerald Prince (1987) – tais iniciativas se restringem a definição de conceitos ou termos de maneira pontual, sem compromisso com uma fundamentação alargada a seu respeito. Além disso, tais dicionários (Calatrava, 2004; Herman, Jahn & Ryan, 2005; Prince, 1987; Reis, 2018; Reis & Lopes, 2000) são concebidos no âmbito das Letras e da Literatura, logo, concentrarem-se, notadamente, nos estudos linguísticos e literários, em que se origina a narratologia.
Assim, a publicação de Vilches Manterola diferencia-se pela originalidade na abordagem narratológica, em interface com os estudos da comunicação, bem como pelo conteúdo e profundidade com que os conceitos são apresentados, mas, sobretudo, por sua ambição, quase enciclopédica, que permite vislumbrar um panorama do estado da arte das teorias narrativas clássicas, mas também de outras tantas emergentes na atualidade.
REFERÊNCIAS
Andreoni, R., & Scroferneker, C. M. A. (2019). Comunicação e memória organizacional: para além da produção de narrativas representacionais. Revista Latinoamericana de Ciencias de la Comunicación, 18(32), 166-176.
Barthes, R. (1966). Introduction à l’analyse structurale des récits, Communication, 8, 7-33.
Benjamin, W. (1994). Obras escolhidas: v. 1. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Brasiliense.
Brandão, V. C. (2016). Quando o livro se torna publicidade: a narrativa na mediação entre poética e retórica do consumo [Apresentação de trabalho]. Congresso Internacional de Comunicação e Consumo, São Paulo, São Paulo, Brasil.
Bruner, J. (1991). The narrative construction of reality. Critical inquiry, 18(1), 1-21. https://doi.org/10.1086/448619
Calatrava, J. R. V. (2004). Diccionario de teoría de la narrativa. Alhulia.
Carrascoza, J. A. (2014). Estratégias criativas da publicidade: consumo e narrativa publicitária. Estação das Letras e Cores.
Covaleski, R. L. (2012). O processo de hibridização da narrativa publicitária. Revista Comunicación, 1, 52-62.
Fisher, W. R. (1984). Narration as a human communication paradigm: The case of public moral argument. Communications Monographs, 51(1), 1-22. https://doi.org/10.1080/03637758409390180
Herman, D. (1997). Scripts, Sequences, and Stories: Elements of a Postclassical Narratology. PMLA, 112(5), 1046-59. https://doi.org/10.2307/463482
Herman, D., Jahn, M., & Ryan, M-L. (Eds.). (2005). Routledge Encyclopedia of Narrative Theory. Routledge.
Nassar, P. (2016). Novas Narrativas e memória: olhares epistemológicos. In M. M. K. Kunsch (Org.), Comunicação Organizacional Estratégica: aportes conceituais e aplicados (pp.77-100). Summus.
Maia, M., & Martinez, M. (2018). Narrativas midiáticas contemporâneas: perspectivas metodológicas. Catarse.
Maia, M., & Passos, M. Y (2020). Narrativas midiáticas contemporâneas: epistemologias dissidentes. Catarse.
Martinez, M., & Iuama, T. R. (2016). Primeiras reflexões sobre a pesquisa em narrativas midiáticas no Brasil [Apresentação de trabalho]. 14º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, Palhoça, SC.
Prince, G. (1987). A dictionary of narratology. University of Nebraska Press.
Prince, G. (2008). Classical and/or Postclassical Narratology. L'Esprit Créateur, 48(2), 115-123. https://doi.org/10.1353/esp.0.0005
Reis, C. (2018). Dicionário de estudos narrativos. Almedina.
Reis, C., & Lopes, A. C. M. (2000). Dicionário de narratologia. Almedina.
Santos, L. C. & D’Almeida, N. (2012). A abordagem narrativa nos estudos de comunicação organizacional [Apresentação de trabalho]. Latin American Conference – UC/ICA, Santiago, Chile.
Soster, D. A., & Piccinin, F. (2017). Narrativas midiáticas contemporâneas: Perspectivas epistemológicas. Catarse.
Soster, D. A., & Piccinin, F. (2019). Narrativas midiáticas contemporâneas: Sujeitos, corpos e lugares. Catarse.
Zozzoli, J-C. J. (2012). De contar histórias em campanhas publicitárias ao storytelling aplicado à marca no quadro da comunicação complexa [Apresentação de trabalho]. 35º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Fortaleza, Ceará, Brasil.
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