ARTIGO
Práticas de letramentos com crianças em um Grupo de Estudos Bíblicos Pentecostal
Children’s Literacy Practices in a Pentecostal Bible Study Group
Práticas de letramentos com crianças em um Grupo de Estudos Bíblicos Pentecostal
Educar em Revista, vol. 40, e89481, 2024
Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná
Received: 20 January 2023
Accepted: 28 May 2024
RESUMO: Este artigo apresenta resultados de uma pesquisa etnográfica, cujo objetivo é analisar as práticas de letramentos em um grupo de estudos bíblicos da religião evangélica pentecostal, localizada na zona rural de um município do interior do estado do Rio Grande do Sul. Os dados visibilizam o letramento intrínseco às práticas religiosas, sendo a leitura da Bíblia a principal prática de letramentos. A análise focou nos eventos de contação de histórias bíblicas, utilizados para evangelização, a fim de identificar as estratégias das crianças para interpretar a escrita, a leitura e a oralidade que circulam nesse contexto. Os resultados mostram que as práticas de letramentos vivenciadas por elas estão fortemente vinculadas ao contexto social, envolvendo interações que caracterizam a cultura desse grupo religioso. Entretanto, essas práticas são permeadas pelo poder simbólico percebido com a inculcação de ideias, moldando o comportamento e incitando que aceitem os padrões dominantes, os quais são reproduzidos e considerados como legítimos e incontestáveis.
Palavras-chave: Práticas de Letramentos, Poder Simbólico, Estudos Bíblicos Pentecostais, Pesquisa Etnográfica.
ABSTRACT: This paper shows results of an ethnographic study. Aimed to analyze literacy practices in a Bible study group that belongs to an evangelical pentecostal community in a rural area in Rio Grande do Sul (RS) state, Brazil. Data generated during insertions in the empirical field showed literacy that is intrinsic to religious practices, whose main literacy practice is reading the Bible, since it was usually included in tasks carried out by the children. The analysis was based on biblical storytelling which is used for evangelization in order to identify strategies that children use for interpreting writing, reading and orality in this context. Results show that literacy practices experienced by the children are strongly connected to the social context and certain particularities which involve interaction that characterizes the religious group’s culture. However, these literacy practices are permeated by the symbolic power which is perceived when ideas are instilled into children, while their behavior is shaped and they are led to accept dominant patterns which are then reproduced and considered legitimate and unquestionable.
Keywords: Literacy Practices, Symbolic Power, Pentecostal Bible Study Group, Ethnographic Research.
Introdução
Diferentemente de grande parte das investigações sobre letramentos desenvolvidas no Brasil, as quais têm a sala de aula como lócus investigativo, esta pesquisa foi realizada em um grupo de estudos bíblicos da religião evangélica pentecostal. Trata-se de uma pesquisa em andamento, que teve início em 2017, sobre os processos de inserção e vinculação a uma Igreja Pentecostal, de uma comunidade da zona rural de um município localizado no interior do estado do Rio Grande do Sul1.
No caso deste artigo, o foco é na parte da pesquisa com crianças, cujo objetivo foi conhecer as práticas de letramentos vivenciadas por elas nos encontros do Grupo de Estudos Bíblicos Pentecostal. Atentou-se aqui para o modo de interação entre os participantes, os suportes de leitura e escrita utilizados, a oralidade e o vocabulário recorrente nos encontros, tendo os eventos e as práticas de letramentos como conceitos de análise.
Entre os momentos observados no referido grupo de estudos, destaca-se a leitura da Bíblia como uma das práticas de letramentos recorrentes nos encontros. Portanto, esta é identificada na pesquisa como um artefato-chave, uma vez que é o suporte textual que embasa as atividades de evangelização das crianças e as práticas de letramentos.
Os Novos Estudos do Letramento, mais especificamente os trabalhos de Brian Street (2010; 2014), orientaram a análise dos dados, sobretudo a partir dos conceitos de letramento autônomo e ideológico e de eventos e práticas de letramentos. Além desses, utilizou-se o conceito de reprodução, poder e violência simbólica, de Bourdieu (2003), e o de inculcação de ideias (Bourdieu; Passeron, 1975).
A investigação qualitativa segue pressupostos da etnografia (Ameigeiras, 2007), considerando as especificidades da pesquisa com crianças (Graue; Walsh, 2003). Os dados foram produzidos nos encontros do Grupo de Estudos Bíblicos Pentecostal realizados em 2018, por meio de escritas no diário de campo, filmagens e registros fotográficos. Buscou-se analisar as estratégias de doutrinação utilizadas pela evangelizadora com as crianças para que seguissem comportamentos de acordo com os preceitos religiosos em questão, como possibilidades de contextos de letramento. As atividades coletivas promovidas nos encontros indicaram como a cultura desse grupo religioso vai sendo construída, absorvida pelas crianças e compartilhada entre os sujeitos envolvidos.
A análise dos eventos indicou que as práticas de letramentos eram vivenciadas por meio de interações entre a evangelizadora e as crianças, bem como das crianças entre si. Assim, conforme os encontros eram realizados e conduzidos, os modos de ser, falar e agir aceitáveis nesse contexto iam sendo construídos.
Além desta introdução, este artigo se divide em quatro seções. Na seção a seguir, discorre-se sobre o referencial teórico da pesquisa, considerando os trabalhos de Soares (2004); Marinho (2010); Heath (1983); Street (2010, 2014); Castanheira, Green e Dixon (2007), Bourdieu (2003); Bourdieu e Passeron (1975). Já o referencial metodológico baseia-se em Ameigeiras (2007), Gialdino (2007) e Graue e Walsh (2003) no tocante à pesquisa com crianças.
Na sequência, apresentam-se e problematizam-se os dados da pesquisa, considerando as atividades coletivas permeadas por leitura, escrita e oralidade. A ênfase se dá no trabalho de evangelização realizado no Grupo de Estudos Bíblicos Pentecostal, observando as práticas que contribuem para o desenvolvimento do letramento das crianças participantes desse contexto.
A análise dos resultados demonstra que as crianças manifestam linguagem e comportamento esperados pelos princípios pentecostais da localidade, devido aos ensinamentos religiosos que foram incorporando no seu cotidiano. Na conclusão do artigo, destaca-se que as relações de poder são explícitas nos momentos de interação e de práticas de letramentos vivenciadas entre os participantes do Grupo de Estudos Bíblicos Pentecostal. A obediência requerida às crianças pela evangelizadora se dá por meio de ameaças e, não raro, com exemplos de situações trágicas.
Abordagem teórico-metodológica da pesquisa
Assume-se nesta pesquisa a perspectiva de que o letramento está intimamente ligado à cultura local e às práticas sociais. Portanto, “o que o letramento é para qualquer grupo é o que ele é nos contextos em que é vivenciado” (Street, 2014, p. 97).
Além disso, o letramento refere-se à competência de utilizar os conhecimentos de leitura e escrita nas diversas situações que surgem no cotidiano. Em um universo letrado, é muito provável que o sujeito desenvolva a curiosidade pela escrita e pela leitura, podendo participar ativamente de situações do dia a dia em que seja necessário expressar seu entendimento, mesmo sem estar alfabetizado.
Assim sendo, o letramento pode anteceder a alfabetização, uma vez que uma pessoa, mesmo não dominando a escrita alfabética, pode ter conhecimentos sobre as letras, utilizando-as em seu cotidiano. Com isso, é capaz, inclusive, de contar e interpretar uma história e resolver situações corriqueiras que necessitem desses conhecimentos. “Em outras palavras, letramento não é pura e simplesmente um conjunto de habilidades individuais; é o conjunto de práticas sociais ligadas à leitura e à escrita em que os indivíduos se envolvem em seu contexto social” (Soares, 2004, p. 72).
Nesse sentido, entende-se que o letramento não se restringe ao contexto escolar. Dessa forma, faz-se necessário o investimento em pesquisas que problematizem essa relação e destaquem a necessidade de considerar a especificidade do processo de letramento. Sobre esse aspecto, Street (2014, p. 144) ressalta:
Se quisermos entender a natureza e os significados do letramento em nossa vida, precisamos então de mais pesquisas focadas no letramento na comunidade - nesse sentido mais amplo - e nas implicações ideológicas e não tanto educacionais das práticas comunicativas em que ele se insere.
Considera-se, portanto, que é relevante pesquisar as práticas de letramentos no contexto de um grupo de estudos bíblicos da religião evangélica pentecostal, valorizando o sentido da escrita e da leitura no cotidiano das crianças, sem associar essas práticas à escolarização e à alfabetização.
Avançando em relação ao conceito de letramento, observa-se duas variantes, abordadas por Brian Street a partir de Shirley Heath: eventos e práticas de letramentos. A expressão “evento de letramento”, cunhada por Heath (apud Street, 2010), refere-se à interação entre as pessoas a partir do texto escrito, isto é, compreende as situações que envolvem práticas de leitura e escrita por determinado grupo social (Heath, 1983 apud Street, 2010).
Conforme explicita Street (2010, p. 38), “[. . . ] essa expressão baseia-se na teoria que analisa os eventos da fala e é usada como ferramenta de pesquisa para ter a noção de evento de letramento no qual se pode dizer que há ali uma atividade, um evento”.
Marinho (2010) esclarece que o significado de evento de letramento definido por Heath é abalizado na perspectiva da sociolinguística, considerando, sobretudo, os trabalhos de Hymes2. Dessa forma, Heath (apud Marinho, 2010, p. 78) concebe evento de letramento como:
[...] uma ferramenta conceitual utilizada para examinar, dentro de comunidades específicas da sociedade moderna, as formas e funções das tradições orais e letradas e as relações coexistentes entre a linguagem falada e escrita. Um evento de letramento é qualquer situação em que um suporte torna-se parte integrante de uma interação entre participantes e dos seus processos interpretativos.
Com essa perspectiva, Soares (2004) corrobora observando que os eventos de letramentos são:
[...] situações em que a língua escrita é parte integrante da natureza da interação entre os participantes e de seus processos de interpretação (Heath, 1982:93), seja uma interação face a face, em que pessoas interagem oralmente com a mediação da leitura ou da escrita [. . . ], seja uma interação a distância, autor-leitor ou leitor-ator (Soares, 2004, p. 105).
Assim, quando um grupo pratica ou reproduz ações como ouvir uma música, escutar uma história, acessar as redes sociais, conversar sobre um texto, entre outras que envolvam a escrita e a leitura, estão desenvolvendo eventos de letramentos.
No entanto, quando essas ações são realizadas com envolvimento e reflexões, passam a ser caracterizadas como práticas de letramentos. Os Novos Estudos do Letramento consideram eventos e práticas de letramentos como complementares. Porém, as práticas de letramentos vão além dos eventos: elas incluem os comportamentos dos componentes do grupo, bem como suas compreensões. Street (2010, p. 38) usa o conceito de práticas para se “referir a aspectos que nos possibilitam começar a ver padrões nesses eventos e situar conjuntos de eventos de forma a dar a eles um padrão. Essa padronização, supomos, carrega significados para os participantes”. Sobre essas situações, Soares (2004) explica a diferença que Street atribuiu aos conceitos de eventos e práticas de letramentos, salientando:
A distinção entre eventos e práticas de letramento é exclusivamente metodológica, já que são duas faces de uma mesma realidade. O conceito de eventos de letramento, dissociado do conceito de práticas de letramento, não ultrapassa, segundo Street (2001:11), o nível de descrição [...], não revela produtos não só da situação e de suas características específicas, mas também das convenções e concepções que as ultrapassam, de natureza cultural e social. É o uso do conceito de práticas de letramento como instrumento de análise que permite a interpretação do evento, para além de sua descrição (Soares, 2004, p. 105).
Portanto, os eventos de letramentos são situações realizadas por meio da interação dentro de um contexto, enquanto “o conceito de práticas de letramentos se coloca num nível mais alto de abstração e se refere igualmente ao comportamento e às conceitualizações sociais e culturais que conferem sentido aos usos da leitura e/ou da escrita” (Street, 2014, p. 18).
Outro conceito utilizado neste estudo é o de poder simbólico (Bourdieu, 1989). Nesse sentido, percebeu-se nos dados da pesquisa que muitas práticas de letramentos, identificadas como ideológicas, trazem arraigadas relações de poder e de dominação. O poder simbólico não reside nos “sistemas simbólicos” na forma de uma “illocutionary force” (ou força ilocucionária, em português), conforme ressalta Bourdieu e Eagleton (2007), mas se define numa relação determinada - e por meio desta - entre os que exercem o poder e os que estão sujeitos a ele, ou seja, na própria estrutura do campo em que se produz e se reproduz a crença. O que faz o poder das palavras e das palavras de ordem, o poder de manter a ordem ou de subvertê-la, é a crença na legitimidade das palavras e daquele que as pronuncia, cuja produção não é da competência das palavras. Conforme destaca o referido autor:
Entende-se, assim, que o poder simbólico vai criando amarras sutis, sendo condicionado pelas interações de um determinado grupo, em que a subordinação é mantida principalmente por uma oratória convincente, com poder de imprimir credibilidade e reconhecimento sem questionamentos ou discórdia. O poder simbólico é um poder que aquele que lhe está sujeito dá àquele que o exerce (Bourdieu, 1998, p. 188).
Outro conceito atrelado ao do poder simbólico é o de violência simbólica, ou seja, uma “violência suave, insensível, invisível [...] que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação e do conhecimento, ou, mais precisamente, do desconhecimento, do reconhecimento ou, em última instância, do sentimento” (Bourdieu, 2003, p. 7-8).
Em geral, quem exerce o poder busca naturalizar as relações de dominação, operando prioritariamente por meio de linguagem, gestos, rituais, inculcação e outras formas sutis de convencimento. Essas formas simbólicas de poder, via de regra, são ações que não precisam estar clarificadas e perceptíveis, pois se encontram introjetadas de maneira invisível e anônima.
Esse processo de imposição, considerado como o correto, o lógico, o universal, é definido por Bourdieu como violência simbólica. Reconhecido pelos pares como legítimo, ele passa a exercer, sem margem a dúvidas, a reprodução e manutenção das desigualdades sociais.
Os dados da pesquisa, que serão apresentados adiante no texto, levam-nos a identificar que, nesse caso, letramento e poder simbólico estão relacionados, uma vez que os sujeitos participantes nos grupos de estudos bíblicos estão em constante interação. A evangelizadora, com sua narrativa e seus ensinamentos, vai indicando o que é esperado e proibido naquele grupo. Contudo, a condução geralmente é sutil, acolhedora, por meio de histórias e exemplos, referenciando a Deus como aquele que tudo olha e tudo sabe, protege, mas também pode castigar. Ao longo dos encontros, preceitos são reforçados e comportamentos são estabelecidos em eventos e práticas de letramentos realizadas nos grupos.
Parte-se do pressuposto de que os conceitos apresentados são potentes para interpretar e entender o que ocorre no âmago desses encontros realizados sistematicamente e que têm o objetivo de evangelizar as crianças. Além disso, também foram importantes os percursos metodológicos, que contaram com uma inserção prolongada no campo da pesquisa. Nesse cenário, os pesquisadores procuraram fazer parte do cotidiano e, assim, entender aspectos da cultura local, por meio das manifestações diversas expressadas por falas, gestos, silêncios, textos, músicas, recitações e repetições de orações.
Sendo o objetivo principal desta pesquisa conhecer as práticas de letramentos vivenciadas pelas crianças de um grupo de estudos bíblicos pentecostal situado na zona rural, optou-se por uma abordagem etnográfica (Ameigeiras, 2007; Gialdino, 2007). Essa perspectiva de investigação dá-se por meio de aprendizado, assemelhando-se a um processo de socialização no qual o pesquisador apreende padrões e modos comportamentais, códigos de convivência e significados presentes na vida social. Assim, é possível interpretar o meio pesquisado explicando, definindo, esclarecendo e resumindo (Ameigeiras, 2007).
Ao todo, foram 28 observações participativas junto ao grupo de crianças que frequentam a Igreja Evangélica Pentecostal, sendo 10 no Grupo de Estudos Bíblicos Pentecostal e 18 nos cultos realizados na localidade. Os dados resultaram do convívio com as crianças no referido grupo, realizados ao longo de dois anos. Os registros das observações foram efetivados por meio de filmagens, contabilizando 300 minutos de gravações de voz e vídeo e 140 fotos, bem como anotações em diário de campo e entrevistas com a evangelizadora e com 6 das 12 crianças3 que eram moradoras da comunidade e frequentavam a evangelização e os cultos.
Entende-se que as crianças atuam e tomam posição no meio social, e interpretam o mundo adulto, transformando e produzindo sua própria cultura a partir das interações com os outros, sejam eles coetâneos ou adultos. Na perspectiva da pesquisa etnográfica com crianças, é fundamental reconhecer que a criança “[...] não sabe menos, sabe outra coisa” (Cohn, 2005, p. 33). Desse modo, foram utilizadas estratégias que possibilitaram transcrever e interpretar a concepção das crianças. Contudo, sobre esse aspecto, Graue e Walsh (2003, p. 56) advertem:
Por mais aliciante que a frase “através dos olhos das crianças” possa ser, jamais veremos o mundo através dos olhos de outra pessoa, particularmente dos olhos de uma criança. Pelo contrário, veremos sempre o mundo através de uma multiplicidade de camadas de experiência, das crianças e nossas, e de uma multiplicidade de camadas de teorias.
Nesse contexto, destaca-se que a inserção no campo empírico da pesquisa exigiu negociação para aceitação no grupo como membro/pesquisador. Por exemplo, era necessário participar ativamente dos preceitos da religião, além de realizar um exercício de escuta atenta das crianças e da evangelizadora, buscando compreender os sentidos e os significados construídos no contexto desse grupo de estudos bíblicos investigado.
Práticas de letramentos na evangelização das crianças
O Grupo de Estudos Bíblicos Pentecostal é formado por 12 crianças na faixa etária entre 5 e 12 anos, sendo sete meninas e cinco meninos. Seis dessas crianças participaram da pesquisa.
Na observação do trabalho de evangelização, foi possível perceber várias estratégias utilizadas para doutrinar as crianças dentro do preceito religioso e, ainda, para que possam adquirir conhecimento da Bíblia conforme os princípios pentecostais identificados na comunidade observada. A análise das atividades desenvolvidas evidenciou que a leitura da Bíblia estava presente em quase todas as ações envolvendo as crianças. A seguir, o Quadro 1 apresenta a rotina de trabalho da evangelizadora.

O começo das atividades no Grupo de Estudos Bíblicos Pentecostal é marcado pela constante cobrança de disciplina das crianças. A evangelizadora exige obediência e silêncio, e pede que elas permaneçam sentadas. Cabe destacar que o encontro que antecede o culto, apresentado no exemplo do Quadro 1, estende-se por duas horas e quarenta e cinco minutos. Se considerarmos os dois eventos (grupo de estudos bíblicos e culto), o tempo em que as crianças ficam envolvidas com esse tipo de atividade, em que seus corpos e comportamentos são controlados, ultrapassa quatro horas de duração.
Repetidamente, são ensinadas atitudes que devem ser seguidas durante o culto, as quais foram caracterizadas nesta pesquisa por práticas de letramentos. Entre elas, destacam-se: levantar-se na hora da leitura da palavra de Deus e fechar os olhos, ficar em silêncio, não correr na igreja e ter postura adequada do corpo na hora das orações, o que significa corpo ereto, braços para baixo e mãos abertas na hora de receber a benção do pregador.
A evangelizadora, por meio da oratória, também expõe proibições estabelecidas pela igreja. Um excerto retirado do diário de campo ilustra a situação:
Neste dia, a evangelizadora, ao conversar com as crianças, destacou que a presença delas na Igreja é um chamado de Deus e que as proibições que parecem ruins aos olhos dos amigos, como as referentes às vestes, proibições de jogar bola e ir a festas, são para evitar a perseguição de Satanás, que leva a prostituição, gravidez precoce, dor e desespero. Segundo ela, o Diabo quer enganar as crianças, mas ela estava ali para ensinar o bem e que, se as meninas seguirem os ensinamentos de Deus e souberem obedecer, Jesus vai preparar um varão4para cuidar delas. Reforçou ainda suas palavras usando versículos da Bíblia, citando Timóteo 2, 9-10: “Quanto às mulheres, que elas tenham roupas decentes, se enfeitem com pudor e modéstia; nem tranças, nem objetos de ouro, pérolas ou vestuário suntuoso; mas que se ornem, ao contrário, com boas obras, como convém a mulheres que se professam piedosas” e Deuteronômio 22 -5: “Não haverá traje de homem na mulher, e nem vestirá o homem roupa de mulher; porque, qualquer que faz isto, abominação é ao Senhor teu Deus”(Diário de campo de 04/08/2018).
No excerto exposto acima, é possível perceber que a evangelizadora busca sujeitar o comportamento das crianças, relacionando atividades que poderiam ser prazerosas (como jogos e festas) com as tentações do Diabo. Além disso, reforça para as meninas a necessidade de determinado tipo de vestimenta e da obediência, atribuindo esse fator ao cuidado de Deus. As orientações dadas são reforçadas com a leitura da Bíblia. São discursos eivados de preconceito, machismo, homofobia, submissão feminina, os quais buscam legitimação na “palavra de Deus”, escrita na Bíblia.
Portanto, percebe-se que há uma hierarquia determinada pelas lideranças da igreja, e a evangelizadora é quem tem a autoridade de pregação e, portanto, tem relevante contribuição nesse processo de homogeneidade. Bourdieu e Passeron (1975, p. 34) afirmam que “os emissores pedagógicos são logo de imediato designados como dignos de transmitir o que transmitem, e, por conseguinte autorizados a impor a recepção e a controlar a inculcação por sanções socialmente aprovadas e garantidas”.
A evangelizadora tem autoridade instituída pela posição que ocupa no grupo e realiza seu trabalho de acordo com as ideias pregadas na igreja, instruindo as crianças para que seu comportamento não fuja do padrão evangélica pentecostal. Essa forma de trabalho pedagógico, com disciplina, ameaças e repressões, leva a obediência e subordinação, estabelecendo uma dominação sobre as crianças. Para Bourdieu e Eagleton (2007, p. 270), “[...] em termos de dominação simbólica, a resistência é muito mais difícil, pois é algo que se absorve como o ar, algo pelo qual o sujeito não se sente pressionado; está em toda parte e em lugar nenhum, e é muito difícil escapar dela”.
Essas proibições e apologias à submissão feminina são normas pregadas recorrentemente durante os cultos, e se transformam em práticas de letramentos traduzidas no discurso das crianças. Isso pode ser observado no trecho transcrito da entrevista com A5, uma menina de 6 anos de idade, realizada na igreja pentecostal após o trabalho de evangelização.
Vou te contar uma coisa sobre usar calça, maquiagem e jogar, tá? Olha só, eu tava sentada no banco da igreja e o pastor tava pregando, aí eu ouvi assim: Sai da igreja que eu vou te dar um lugar melhor, que tu vais poder jogar, brincar, ficar bonita cheia de joias e maquiagem. Só que eu não fiz isso, daí eu falei com Deus, porque só Deus que consola a gente. E sobre usar calça é assim ó, tu usas uma calça bem apertadinha e coladinha e começa a te assanhar, vou te dizer: É Satanás que fez essas calças, tu vais ficar sozinha, o demônio mora dentro de ti e nenhum homem vai casar contigo. E mais, se tu jogas, é só pra dar briga porque ficam discutindo quem é melhor e daí dá confusão e Satanás fica feliz. E sobre usar joias eu vou te falar que todos aqueles que mataram Jesus estavam cheios de coisas com correntes no pescoço, depois Deus quebrou essas correntes e elas ficaram malditas, por isso eu não uso nenhuma joia (Entrevista concedida em 17/07/2018, grifos nossos).
A transcrição da entrevista com A permite refletir sobre diversos aspectos. Primeiramente, identifica-se a apropriação do discurso da evangelizadora e dos pregadores no culto pela criança. Isso é evidente por meio da repetição de expressões e vocabulário como “só Deus consola a gente”, “Satanás fez essas calças”, “Deus quebrou essas correntes e elas ficaram malditas”, que demonstram as práticas de letramentos ali realizadas, segundo a inculcação de ideias, valores e padrões de comportamento. Exemplos disso são as falas de que é inadequado para uma mulher usar maquiagem e calça, bem como ser solteira, como se pode perceber na expressão “tu vai ficar sozinha, o demônio mora dentro de ti e nenhum homem vai casar contigo”. Isso é dito e percebido pelas crianças como algo a ser evitado. Esses aspectos expressados por A demonstram que as práticas de letramentos vão organizando e instituindo os modos de ser, falar, agir aceitáveis na cultura de determinado grupo.
Assim, é possível identificar que a menina utilizou conhecimentos aprendidos no contexto dos encontros religiosos dos quais participa e desenvolveu um discurso com autoridade e censuras, repleto de argumentação, imaginação e criatividade a partir de suas vivências e interações no culto e no Grupo de Estudos Bíblicos Pentecostal. Por meio do discurso das lideranças da igreja, das famílias das crianças e da evangelizadora, vai se constituindo uma rede de preceitos sintonizados de que o trabalho de evangelização leva à proteção das crianças, livrando-as do que consideram errado no mundo.
Seguindo na descrição do trabalho de evangelização das crianças pentecostais, salienta-se um dos momentos bastante significativos no Grupo de Estudos Bíblicos Pentecostal: a contação de histórias. A evangelizadora apresenta uma história bíblica e a relaciona com práticas do cotidiano das crianças, ressaltando como deve ser o comportamento de uma criança pentecostal (amar e respeitar a Deus; evitar drogas, álcool e jogos que incluam competição; atentar às vestimentas, entre outros).
Durante a leitura da história, ela solicita a concentração e participação de todos. Em uma observação realizada em agosto de 2018, a história escolhida foi “Como Deus é”, do Livro da Vida (2000), como mostra a Figura 1:

Observando a forma de expressão da evangelizadora no momento de leitura da história, foi possível perceber o cuidado com o tom de voz, tornando-se mais alto e pausado nos momentos que deseja enfatizar e relacionar com fatos do cotidiano das crianças, como se pode observar no excerto abaixo:
Deus é amoroso, ele traz vocês para a igreja, livra de todos os males do mundo. Hoje mesmo, ele mandou muita chuva e nossa estrada estava com barro e cheia de buracos, mas Ele sabia que seria importante você estarem aqui, então cuidou para que nosso carro chegasse em segurança sem nenhum problema ou acidente. Assim, não podemos deixar Deus triste, fazendo coisas que sabemos que desagrada Ele, como ouvir músicas do mundo, se vestir de forma extravagante e ficar no computador jogando. Temos que vigiar para Deus continuar nos ajudando e vocês irão crescer felizes (Transcrição da gravação de voz da observação de12/08/20186).
É importante lembrar que se trata de uma comunidade que vive na zona rural e que geralmente tem a estrada interrompida devido ao volume de chuvas intenso em alguns períodos do ano. Nesse contexto, a evangelizadora atribui a situação vivenciada por eles, de passar com segurança por uma estrada sem condições de acesso favorável, como uma ação de Deus. Ao mesmo tempo, aproveita a situação para afirmar que é preciso retribuir a bondade de Deus e cita oralmente o que seria desejável para o comportamento das crianças, a partir dos preceitos professados nessa religião.
Ressalta-se que, no evento da leitura de história descrito anteriormente, a evangelizadora utilizou estratégias para chamar a atenção ao que está sendo dito, lançando mão de entonação, gestos, referência às ilustrações e orientação corporal. Essas estratégias contribuem para a construção de significados compartilhados (Stein; Rosemberg, 2010).
Desse modo, a leitura da história oportunizou uma apropriação coletiva do conteúdo, como se pode ver na interação das crianças com a evangelizadora durante este evento:
Evangelizadora: Então como podemos ver que Deus é amoroso?
L (9 anos): Porque a gente chegou bem na igreja e nem atolamos na estrada, na nossa frente vinha um carro e ficou “empenhado”, mas Deus é amoroso, sabia que a gente viria pra igreja e cuidou de nós
Evangelizadora: Como podemos fazer as coisas certas e agradar a Deus?
M (12 anos): Falando Dele para as pessoas do mundo que não conhecem Deus, não ficar vendo “coisas feias” na internet, ouvir os louvores e prestar atenção quando Deus fala com a gente nos cultos através da sua palavra trazida pelos pregadores (Transcrição da gravação de voz da observação de 12/08/2018).
As falas das crianças, apresentadas no excerto acima, são indícios de que o letramento está conectado ao contexto social, às práticas culturais e às relações de poder. O que é dito como resposta para as perguntas da evangelizadora só tem sentido para esse grupo que viveu a situação. Como coloca Street (2014), as práticas de letramentos são diferentes de um contexto para o outro, de uma cultura para a outra e em condições distintas. Assim, os sujeitos vão sendo moldados acolhendo os padrões dominantes, reproduzindo e considerando-os como legítimos e incontestáveis.
Além disso, na condução da conversa a evangelizadora vai levando as crianças a acreditarem que é ação de Deus o fato de terem chegado seguras ao destino, apesar das condições adversas do tempo. Há uma estratégia interessante a ser considerada: inicialmente, a evangelizadora cria uma narrativa, destacando o que aconteceu, o motivo de ter acontecido e o que deve ser realizado a partir disso. No momento seguinte, faz perguntas, a fim de que as crianças tenham voz para confirmar o que foi dito por ela, respondendo tal qual indicado na narrativa anterior. Isso permite que uma narrativa coletiva seja construída e retroalimentada. Uma reflexão pautada em Bourdieu (2003) é que o diálogo estabelecido se constitui no que ele chama de “violência simbólica”, realizada de forma mais sutil, conforme citado anteriormente.
Também observamos que as crianças recontam as histórias que ouviram com criatividade, imaginação, riqueza de detalhes e gestos, como se observa no fragmento abaixo extraído do diário de campo:
Em conversa com as crianças, após o trabalho da evangelizadora, perguntou-se se alguém teria uma história para contar. Rapidamente D. se levantou e começou a relatar: ##7era um menino bem pequeno e fraquinho, um dia ele precisou lutar contra um monstro forte e grandão chamado Elias. Todo mundo sabia que ## ia ser morto, mas aconteceu uma surpresa, ## tinha o Espírito Santo com ele e Deus como é amoroso e cuida de seus filhos, deu bons pensamentos para ## que disse:Está repreendido e amarrado em nome do Senhor Jesus(Neste instante, o menino levanta a mão para o alto e sua voz se torna mais alta e forte) e então ele pegou uma pedra e jogou em Elias. A pedra ficou muito pesada e acertou na cabeça do monstro que morreu na hora. E todo mundo veio abraçar ## e viu que Deus estava com ele. Então passaram a ouvir e respeitar tudo que ele dizia. Amém! Glórias a Deus! (Diário de campo de 13/08/2018).
D., um menino de 5 anos, fez seu relato demonstrando um imenso orgulho de o herói da história ter o seu nome, e por várias vezes, quando se referia a esse personagem, apontava para seu próprio peito. Observamos que sua exposição é repleta de frases utilizadas no Grupo de Estudos Bíblicos Pentecostal e cultos, como “## tinha o Espírito Santo com ele e Deus como é amoroso e cuida de seus filhos, mandou bons pensamentos para ele que disse: Está repreendido e amarrado em nome do Senhor Jesus!”. Também foi possível observar a reação das demais crianças que, ao final da história, responderam repetindo a expressão “Glória a Deus!”, demonstrando assim a incorporação das práticas de letramentos que vivenciam nesses contextos religiosos.
Após a contação de história, a evangelizadora retoma alguns aspectos da leitura e articula com versículos bíblicos, como se pode perceber no excerto abaixo:
Então sabemos e temos certeza que Deus é bom e nos protege, vocês já deram vários exemplos, na nossa viagem, nos nossos pensamentos, ele sempre cuida de nós. Como podemos ver abrindo nossas Bíblias no livro de Salmos 32:8 (Neste instante ela espera que todas as crianças encontrem o versículo sugerido, os que possuem maior conhecimento da Bíblia, geralmente ajudam os que demoram a encontrar) Deus nos fala: “Eu o instruirei e o ensinarei no caminho que você deve seguir, eu o aconselharei e cuidarei de você” Amém! E todos respondem repetindo Amém! (Transcrição da gravação de voz da observação de 12/08/2018).
Nesse episódio, o trabalho é realizado em conjunto com as crianças. Algumas não sabem ler, mas acompanham a leitura, abrindo suas Bíblias e comentando com propriedade, junto aos demais colegas.
Assim, ao refletir sobre a história e articular com versículos bíblicos, a evangelizadora potencializa sua oratória e dá um tom de veracidade, fundamentando-se na leitura da Bíblia. Diversas vezes, ela afirma que a Bíblia é o livro que contém a verdade da palavra de Deus, ensinando, ainda, sobre a estrutura e a organização da obra e indicando para as crianças os versículos a serem pesquisados, como demonstra a Figura 2.

Na sequência, a evangelizadora faz vários questionamentos para as crianças maiores, (com idades de 10 a 12 anos), orientando que localizem as respostas em versículos de suas Bíblias: “Encontre o versículo que trata sobre o amor de Deus, dica: se encontra no livro de Coríntios” (Diário de campo, 13/08/2018). Essa orientação indica como as práticas de letramentos ocorrem nesse contexto observado.
É provável que as crianças que não participam desse ambiente religioso tenham dificuldade de saber o significado da palavra “versículo” e sobre o livro de Coríntios. No entanto, para as crianças pertencentes ao Grupo de Estudos Bíblicos Pentecostal, essa informação é recebida sem estranhamento, elas entendem e compartilham com a evangelizadora o significado da fala. Esse dado elucida a perspectiva de que letramento “envolve também os contextos comunicativos compartilhados, nos quais o significado do que se entende por ações letradas é localmente definido” (Castanheira; Green; Dikson, 2007, p. 10).
As práticas e os eventos letrados são sociais e apresentam peculiaridades, neste caso, caracterizadas pela cultura religiosa e abrangendo as interações realizadas no grupo e nos cultos. Em outras palavras, a evangelizadora formula perguntas relacionadas com a história lida e orienta que a resposta está em determinado versículo bíblico. Porém, seus comentários indicam que essas perguntas já foram feitas em outras ocasiões.
Assim, esse trabalho de leitura de história e associação com os versículos constitui práticas de letramentos utilizadas pela evangelizadora para doutrinação e conhecimento da Bíblia. Com as crianças menores, a evangelizadora faz perguntas sobre a história lida, e as respostas são expressas por meio de plaquinhas com imagens de rostos tristes e alegres. Essa representação é utilizada para que as crianças associem as atitudes que agradam ou entristecem a Deus. Esse trabalho também é feito por meio de placas com as letras V e F, indicando verdadeiro ou falso. A letra deve ser associada ao significado da atitude correta, de acordo com as suas orientações.
Tanto na Pedagogia Freireana quanto na Pedagogia Histórico-Crítica, a realidade objetiva é entendida como independente do indivíduo, ou seja, fora de sua consciência, apresentando caráter concreto. Além disso, os sujeitos podem compreendê-la e, ainda, transformá-la. Além disso, ambos reconhecem que a realidade concreta é socio-historicamente determinada e que essas condições determinam as relações homem-mundo (Freire, 2021a, 2021 e Saviani, 2019).
Porém, em Saviani (2019) evidencia-se a forma pela qual o sujeito cognoscente consegue compreender a realidade: por meio do movimento do concreto real ao concreto pensado, por meio da análise possibilitada pelas categorias (abstrato). Enquanto quem em Freire (2021a; 2021b; 2021e; 2021f) observa-se que o foco está em compreender que a realidade concreta limita o processo de humanização (ser-mais), por meio da situação concreta de opressão instaurada socialmente, e que cabe aos próprios indivíduos superar o senso comum e conhecer criticamente a realidade para transformá-la.
Em relação a esse tipo de atividade proposta durante os encontros do Grupo de Estudos Bíblicos Pentecostal, a evangelizadora relatou o seguinte: “O trabalho é orientado pelo Pastor da igreja e as atividades propostas para as crianças são adaptadas de sites da internet e também do Livro da Vida que sempre utilizo com todas as turmas que evangelizo” (Evangelizadora, entrevista concedida em 05/08/2018). É interessante observar que, ao mesmo tempo que coloca para as crianças que o uso do computador não agrada a Deus, como descrito anteriormente no texto, ela relata na entrevista que utiliza a internet para buscar atividades a serem usadas no referido grupo de estudos bíblicos. Logo, entende-se que, dependendo da situação e de quem realiza a ação, algo pode ser considerado aceito ou não.
Ao observar o livro utilizado pela evangelizadora, percebe-se que há relação entre o conteúdo dessa obra e as perguntas realizadas no trabalho de dinâmica. Na Figura 3, apresenta-se uma página do livro.

Na atividade apresentada na Figura 3, percebe-se certa similaridade com o trabalho da dinâmica dos rostinhos alegres e tristes. Desse modo, compreende-se que o evento de contação de história e a estratégia do uso das plaquinhas constituem práticas de letramentos, pois as crianças vão se apropriando de comportamentos, valores, vivências e pontos de vista que fazem parte do meio social no qual estão inseridas.
Outro momento que se considera importante ainda destacar está relacionado com algumas discussões que acontecem entre as crianças. No dia 28 de julho, A. e D. brigam pelos lápis de cor, e a evangelizadora resolve interferir e chamar atenção:
Evangelizadora: A. és uma guria grande, não judia com teu irmão, empresta o lápis para ele e pede perdão
A: Ele é que tem que pedir perdão
Evangelizadora: Porque, se tu és quem está brigando com ele?
A: Porque na rua está tocando uma música do mundo e ele está balançando a cabeça
D: Perdão Jesus!(Transcrição da gravação de voz da observação de 28/07/2018).
No excerto anterior, há claramente uma disputa de poder entre as crianças que, neste caso específico, são irmãos. No primeiro momento, a disputa é pelo lápis, mas na sequência passa a ser sobre aquele que deveria pedir perdão. Inicialmente, há uma orientação da evangelizadora para que A empreste o lápis para D, ressaltando que, por ela ser uma “guria grande”, deveria ceder e pedir perdão. Contudo, diferentemente do que vinha sendo observado até então, não houve aceitação nem obediência à fala da evangelizadora. A menina não aceitou o argumento dado e trouxe outros elementos, que inverteram a situação.
Nesse caso, um novo aspecto passa a ser o motivo de disputa e, para não perder para o irmão, A apresenta um motivo que, para ela, era forte e inquestionável até mesmo pela evangelizadora: ele balança a cabeça ao ouvir música e, portanto, está cedendo aos encantos mundanos, o que é inaceitável aos olhos de Deus. Os argumentos de A parecem ter dado certo, pois imediatamente D pede perdão, sem contestar. Observa-se nas falas das crianças, descritas no excerto anterior, que as proibições que elas vivenciam na religião, as quais são consideradas como pecados e ofensas a Deus, são apropriadas por elas e estrategicamente utilizadas a seu favor.
A situação descrita demonstra os princípios defendidos por Corsaro (2009) de que a criança não apenas se adapta e reproduz o que lhe é proposto, mas também interpreta a partir da interação entre seus pares, atribuindo sentido próprio às diferentes situações. Segundo o autor, a interação entre pares pode ser entendida como uma “reprodução interpretativa”, visto que as crianças não reproduzem de forma indiferente as informações, mas sim se apropriam delas de acordo com seus interesses, internalizando, interpretando e reproduzindo.
Com base nos dados apresentados no decorrer do trabalho, entende-se que as práticas norteadas pela oralidade, articuladas com a leitura da Bíblia, podem ser concebidas como práticas letradas na medida em que “[...] podem repetir, reforçar, ampliar, ajustar ou contradizer o que está escrito” (Marinho, 2010, p. 81).
As análises realizadas na investigação, no contexto de um grupo de estudos bíblicos da religião evangélica pentecostal, permitiram ampliar a perspectiva de letramento, que geralmente é associada à escolarização, e até mesmo, repensar o papel que a religião vem desempenhando na sociedade atual.
Considerações finais
Neste trabalho de pesquisa, discorreu-se sobre aspectos do letramento de crianças realizado no contexto de uma Igreja Evangélica Pentecostal. Para entender as práticas de letramentos desse grupo, intrínsecas às práticas religiosas, foi necessário lançar um olhar diferenciado, minucioso, investigativo e reflexivo sobre os componentes de leitura, escrita e oralidade que estão presentes na sua realidade. Além disso, foi preciso a forma peculiar como os sujeitos da pesquisa -no caso, as crianças -demonstravam em outros contextos que essas práticas de letramentos faziam parte de seu cotidiano.
Nessa perspectiva, a metodologia da etnografia permite ao pesquisador, por estar inserido no contexto da pesquisa, identificar padrões, modos comportamentais, códigos de convivência e significados. No caso deste estudo, possibilitou compreender o que estava subentendido, conhecendo a forma particular como as crianças vão se apropriando das práticas sociais, ou seja, do letramento, a partir de gestos, palavras, olhares, entonação de voz, não se limitando apenas ao que era falado e escrito.
A leitura da Bíblia foi destacada nesta investigação como principal prática de letramentos vivenciada pelas crianças participantes do Grupo de Estudos Bíblicos Pentecostal. A análise dos dados demonstrou que essa prática estava presente em quase todas as ações envolvendo as crianças.
Na observação do trabalho de evangelização, enfatizou-se o evento de contação de histórias bíblicas, que envolvia atividades coletivas e uso da leitura. É possível inferir que essa prática contribui, de certa maneira, para o desenvolvimento do letramento das crianças participantes, pois elas compartilham essas vivências em seu cotidiano.
Além disso, ressignificam o discurso da evangelizadora e o reproduzem, por exemplo, ao recriminarem algumas músicas ou programas de televisão, justificando que são contrários à vontade de Deus, pois o conteúdo incentiva vício e crimes, levando as pessoas ao erro e ao pecado. Ainda, consideram as infelicidades e tragédias que ocorrem no cotidiano como interferência do “demônio”.
Ao realizar a análise dos dados desse evento, as relações de poder tornaram-se mais evidentes e impossíveis de serem ignoradas, uma vez que estavam latentes nas interações e práticas de letramentos vivenciadas entre os participantes do Grupo de Estudos Bíblicos Pentecostal.
No que tange à evangelização das crianças através da contação de histórias bíblicas, vê-se que todos são tratados sem considerar suas especificidades, como se tivessem as mesmas preferências, a mesma vivência familiar e as mesmas necessidades. Assim, as práticas de letramentos apreendidas por elas são vivenciadas a partir da condição de obediência por meio de ameaças e, não raro, relacionadas com tragédias. Isso vai caracterizando uma forma de relação entre um adulto (no caso, a evangelizadora) que tem poder, comando e autoridade sobre as crianças.
Dessa forma, é esperado que sejam convencidas de que aquilo que é pregado é verdade e precisa ser reproduzido em seu cotidiano -o que geralmente acontece, conforme relatado neste texto. Nas observações realizadas, em vários momentos destacou-se que as crianças desenvolviam linguagem e comportamento diferenciados das crianças que não comungavam dos princípios pentecostais encontrados na comunidade observada, devido aos ensinamentos religiosos que foram incorporando ao seu cotidiano, bem como valores, vivências e pontos de vista.
A análise dos dados à luz de autores do campo da Sociologia, como Street (2014) e Bourdieu (1998), permitiu reflexões sobre poder e violência simbólica. O modo operante das interações no grupo se constitui por relações de poder e subordinação, com autoridade instituída no papel de evangelizadora.
Assim, as práticas de letramentos vivenciadas por essas crianças no referido grupo têm um profundo viés ideológico (Street, 2014) e estão articuladas com poder e violência simbólica como objetivo de inculcação de ideias e padronização de comportamentos. Essas práticas levam à construção de uma educação com baixa conscientização e a um empoderamento ideológico, afinados aos valores e padrões dos princípios pentecostais identificados na comunidade rural investigada.
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Notes
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