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Juventude e consumo midiático em tempos de convergência: algumas observações
Youth and media consumption in times of convergence: some observations
Juventud y consumo mediático en tiempos de convergencia: algunas observaciones
Chasqui. Revista Latinoamericana de Comunicación, núm. 137, pp. 71-89, 2018
Centro Internacional de Estudios Superiores de Comunicación para América Latina

Monográfico

Los autores/as conservarán plenos derechos de autor sobre su obra y garantizarán a la revista el derecho de primera publicación, el cuál estará simultáneamente sujeto a la Licencia Reconocimiento-SinObraDerivada de Creative Commons (CC BY-ND), que permite a terceros la redistribución, comercial y no comercial, siempre y cuando la obra no se modifique y se transmita en su totalidad, reconociendo su autoría. Los autores/as podrán adoptar otros acuerdos de licencia no exclusiva de distribución de la versión de la obra publicada (p. ej.: depositarla en un archivo telemático institucional o publicarla en un volumen monográfico) siempre que se indique la publicación inicial en esta revista. Se permite y recomienda a los autores/as difundir su obra a través de Internet.

Recepção: 10 Novembro 2017

Aprovação: 29 Maio 2018

DOI: https://doi.org/10.16921/chasqui.v0i137.3401

Resumo: Neste artigo são apresentados resultados parciais de duas explorações de campo realizadas no município de Tavares/ Rio Grande do Sul – Brasil. A intenção foi conhecer as práticas relativas ao consumo midiático e uso de plataformas digitais por jovens de 18 a 24 anos, moradores das zonas urbana, rural e litorânea do município. Entre as principais informações sobre as práticas juvenis até o momento, verificamos o uso intensivo de tecnologias digitais que se configuram como elementos-chave no estabelecimento dos relacionamentos entre os jovens em todos os cenários observados, como no âmbito do lazer e do trabalho, configurando novos sentidos ao “ser jovem” contemporaneamente.

Palavras-chave: plataforma digital, uso de tecnologias, jovens, convergência midiática.

Abstract: This article presents the partial results of two field explorations carried out in the city of Tavares, Rio Grande do Sul – Brazil. The intention was to apprehend the practices related to media consumption and the usage of digital platforms by young people, aged around 18-24 years, who live in urban, rural and in coastal areas of Tavares. As a result of this exploration, we observed the intensive use of digital technologies that are configured as key elements in the establishment of relationships among young people in all the scenarios observed, as in the scope of leisure and work, giving new meanings for “being young” on the contemporary world.

Keywords: digital platform, usage of technologies, young people, media convergence.

Resumen: En este artículo se presentan datos parciales de dos exploraciones de campo hechas en el municipio de Tavares, Rio Grande do Sul, Brasil. El objetivo fue conocer las prácticas relacionadas al consumo mediático y al uso de las plataformas digitales entre jóvenes de 18 a 24 años que viven en las zonas urbana, rural y costera del municipio. Entre los principales hallazgos sobre las prácticas juveniles encontramos el uso intensivo de tecnologías digitales, las cuales son elementos claves para el estabelecimiento de sus relaciones en todos los escenarios, tanto en el ámbito del ocio cuanto en el del trabajo, configurando nuevos sentidos de “ser joven” en la contemporaneidad.

Palabras clave: plataforma digital, uso de tecnologías, jóvenes, convergencia mediática.

1. Introdução

Apresentamos aqui os resultados parciais de duas explorações1 de campo realizadas em Tavares, município do estado do Rio Grande do Sul, onde vivem 5.561 habitantes (IBGE, 2016). Tavares dista 253km de Porto Alegre, capital do estado, e pertence a uma região isolada, entre as margens da Lagoa dos Patos e do Oceano Atlântico (ver Figura 1), denominada por Península de São José do Norte2, com apenas uma via de acesso. Sua escolha serve aos propósitos da pesquisa, cuja intenção é conhecer práticas de consumo midiático e uso de plataformas digitais por jovens de 18 a 24 anos3, moradores das zonas urbana e rural de municípios distantes de grandes e médios centros.

Essa é a etapa piloto de uma pesquisa mais ampla que envolve jovens de outros quatro municípios do estado, considerados rurais adjacentes, ou seja, para o IBGE todo município cuja “distância for igual ou inferior à média nacional em relação a pelo menos um dos centros Regic4 considerados foram classificados como adjacentes” (IBGE, 2017, p. 54). Na próxima fase, em cada um dos quatro municípios será observado um dos perfis explorados em Tavares. Por outro lado, a referida pesquisa dá continuidade à realizada com jovens de todas as capitais brasileiras (Jacks et al., 2015; Jacks & Schmitz, 2016).

Duas noções conceituais – consumo midiático e juventude – amparam a análise aqui empreendida, na busca por conhecer aspectos do “Brasil Profundo”. Essa terceira noção significa explorar o país do interior, a diversidade regional e as práticas juvenis tecidas em distantes rincões do quase desconhecido território brasileiro.

“Profundo”, para Guillermo Bonfil (1989) que cunha a expressão ao percorrer a história e a civilização mexicanas, – a indígena e a ocidental –, trata do México composto pela civilização pré-colombiana ou mesoamericana5. O “México Profundo” é a civilização negada, formada por uma diversidade de culturas, comunidades, setores sociais que constituem a maioria da população daquele país6.

Brasil e México não têm a mesma história, embora compartilhem de um mesmo processo colonialista. Nossos indígenas não possuíam o mesmo nível civilizatório quando foram “descobertos” pelos portugueses, portanto, acreditamos que o “Brasil Profundo” teria outra dimensão e configuração em relação ao México. Entretanto, não é disso que tratamos, pois não é nossa intenção buscar esse Brasil indígena ou apenas isso. A expressão está sendo tomada somente como inspiração para adentrar ao interior do país, na tentativa de conhecermos um pouco da realidade dos jovens que vivem distantes das regiões metropolitanas7 e que pertencem a segmentos sociais específicos.

Em relação ao consumo midiático, o tratamos como um âmbito específico do consumo cultural como propõe Néstor García Canclini (1993), pondo foco na relação mais ampla com os meios de comunicação, diferenciando-o, por conseguinte, também dos estudos de recepção. Estes são mais interessados nos processos de interpretação e apropriação dos conteúdos da mídia (Toaldo & Jacks, 2014).

Quanto à noção de juventude, seguimos a proposta de Margulis e Urresti (2008) no que diz respeito particularmente ao capital temporal e à moratória social, o que nos permitiu perceber que os jovens antecipam responsabilidades da fase adulta pelo fato de constituírem família cedo e/ou precisarem participar da economia doméstica, em geral, seguindo a profissão dos pais.

Em termos gerais, Margulis e Urresti (2008, p. 29) propõem a noção de juventude como “um leque de modalidades culturais que se desenvolvem com a interação das probabilidades parciais dispostas pela classe, pelo gênero, pela idade, pela memória incorporada e pelas instituições”. Essa concepção dialoga com a proposição de Martín-Barbero (1987) a respeito das mediações sociais, as quais também favorecem o entendimento do consumo midiático nos contextos onde se dão.

Margulis e Urresti reconhecem questões socioculturais imbricadas na condição juvenil, as quais não permitem que todos os jovens possam usufruir desse tempo de modo livre e despreocupado: “terá mais possibilidade de ser jovem todo aquele que possua esse capital temporal como condição geral” (Margulis & Urresti, 2008, p. 20). A juventude pode ser entendida como um momento da vida que dispõe de um crédito temporal. É essa moratória vital que permite ao jovem explorar uma infinidade de opções que lhe aparecem e gozá-las na forma de promessa, sem necessariamente definir-se por uma ou outra opção de imediato.

Eles ressaltam que muitos autores excluem da condição juvenil aqueles que são privados da “moratória social”8, indicando que é preciso considerar as outras variáveis, os aspectos factuais9, que também caracterizam o jovem, além da sua condição social: energia, “moratória vital”, inserção institucional e as propriedades de uma geração (Margulis & Urresti, 2008, p. 21).

A compreensão que Margulis e Urresti (2008) propõem é a de que existem dois âmbitos envolvidos na concepção da condição de juventude: sua cronologia enquanto “moratória vital”, condição física de sua existência (corpo, energia, distância da morte) e a forma através da qual o indivíduo exterioriza esses aspectos que o compõem. Assim, segundo eles, se pode diferenciar os jovens dos não jovens pela “moratória vital”, e os sociais e culturalmente juvenis dos não juvenis por meio da “moratória social”. Ou seja, os autores consideram que se pode identificar jovens não juvenis, justamente pela falta de moratória social que garantiria a eles exercer o que lhes seria próprio nessa fase da vida, exteriorizando o que se conformou como os signos da juventude. Por fim, apontam a condição familiar como outra variável constituinte do ser jovem. Eles consideram que as classes populares, pelo seu estilo de vida mais comunitário, integram mais facilmente várias gerações. A interação com indivíduos de mais idade proporcionaria aos menores uma absorção de hábitos, experiências, expectativas e códigos correspondentes à fase juvenil, mesmo ainda não sendo parte dela biologicamente. Seria um fator de juvenilização dos indivíduos menores pela convivência cotidiana (Margulis & Urresti, 2008, p. 28).

2. Tavares e seus contextos

A história de Tavares coincide com a do Rio Grande do Sul. Durante o século XVIII, o rei de Portugal enviou grupos de famílias açorianas para colonizar o então Continente do Rio Grande a partir de 1742, e para Tavares em 1760 (Prefeitura Municipal de Tavares, s.d.). Apesar da colonização do local ser essencialmente portuguesa, o município também é marcado pelas presenças indígenas e africanas, grupos étnicos que habitavam a região antes da colonização.


Figura 1
Localização de Tavares
Google Maps

A região conta com uma rica biodiversidade marinha e lacustre, o que reflete na economia do município através da pesca. O Parque Nacional da Lagoa do Peixe é uma das principais atrações naturais do município, atraindo turistas, pesquisadores e, principalmente, pescadores da região. Outro alicerce da economia de Tavares é a agricultura. Nesse setor, o plantio de cebola configura-se como a atividade agrícola mais importante do município, envolvendo diretamente 700 famílias (em torno de 2.100 pessoas).

Devido ao tamanho e à pacatez, Tavares caracteriza-se como uma cidade em que a sensação de segurança é compartilhada pela maioria dos moradores. Apesar disso, existe taxa considerável de consumo de drogas entre os jovens. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública, houve um crescimento de 5 para 12 casos de tráfico de drogas entre 2015 e 2016 (Zero Hora, 2017), o que é aumento considerável pelo tamanho da cidade.

Há somente duas escolas públicas na cidade e ambas ganharam acesso à internet à época da expansão da cobertura, intensificada em 2011, quando houve a ampliação da conectividade online no município. De acordo com o Censo Educacional de 2015 há 625 pessoas matriculadas no ensino fundamental e 185 no ensino médio (IBGE, 2016). Parte desse contingente pertence à faixa etária considerada “jovem”, composta por 224 homens entre 15 e 19 anos (8,06%) e 174 entre 20 e 24 anos (6,26%); 187 mulheres possuem entre 15 e 19 anos (6,26%) e 154 entre 20 e 24 anos (5,98%) (IBGE, 2010). Ou seja, entre os pouco mais de cinco mil habitantes de Tavares, somente 739 pertencem à faixa etária que os caracteriza como “jovens”. A população do município vive 62% na área urbana e 38% na rural, sendo que 84,08% dela é branca e apenas 5,64% é considerada negra. Já em relação ao sexo, a diferença é mínima: 52% é representada por homens, enquanto 48%, por mulheres.

Dentre os quatro distritos que compõem o município, uma comunidade quilombola10, duas pesqueiras e uma rural foram visitadas11.


Figura 2
Localização das comunidades visitadas
Elaborado pelos autores

No Quilombo Vovô Virgilino, Vila dos Pescadores, Praia do Farol, Olhos D’Água, Campo da Honra, as famílias visitadas organizam-se de tal modo que os laços afetivos e de parentesco fundem-se com as práticas produtivas, além de exercerem a coabitação da família estendida, convivendo avós e netos na mesma pequena casa.

É comum a necessidade do trabalho em família, no sentido de que todos, de crianças a idosos, colaboram no que podem para inteirar a renda do lar. Este cenário favorece o desenvolvimento de um forte senso de comunidade, uma verdadeira questão de sobrevivência. Esse funcionamento contribui para que o conflito de gerações entre os membros das famílias seja minimizado, além de estabelecer a ligação entre os membros de diferentes gerações através de ritos e tradições.

3. Perfil dos jovens

Entre os jovens entrevistados, alguns são da área urbana e trabalham no comércio e no setor público, uns ainda estudando. Os demais trabalham na pesca e na agricultura, entre esses alguns são quilombolas12.

Quadro 1
Perfil dos entrevistados

Elaborado pelas autoras com base nos dados coletados.

3.1 Os jovens pescadores: tradição de pai para filho

Foram entrevistados seis jovens: cinco homens e uma mulher. Três deles residem na Praia do Farol e, os demais, na Vila dos Pescadores. Eles têm entre 19 e 24 anos, três são solteiros e três têm um relacionamento estável13 com filhos. Dois possuem ensino médio completo, um ensino médio incompleto e os demais têm ensino fundamental incompleto. Nenhum demonstra desejo ou necessidade de cursar uma faculdade.

A renda deste grupo de jovens e de suas famílias depende majoritariamente da atividade pesqueira, ou seja, são pescadores-profissionais autônomos, com exceção de um deles que é serralheiro e, portanto, assalariado. Eles seguem a profissão dos pais, cujas técnicas de pesca são ensinadas desde pequenos, sendo vista como tradição.

No âmbito familiar dos moradores da Vila dos Pescadores, há o caso de uma jovem que, juntamente com a sogra, complementa a renda com a confecção de bolinhos com as sobras de peixe e de artesanato. Também contam com o auxílio governamental do seguro-defeso em determinadas épocas.

3.2 Os jovens rurais: disposição para ir mais longe, mas não tanto

Foram entrevistados seis jovens: quatro mulheres e dois homens (três são trigêmeos), residentes nas localidades de Campo da Honra, Posto 2, Capororocas e Olhos D’Água. Quatro têm ١٨ anos e os outros dois, ٢٢. Dois encontram-se em um relacionamento estável e os outros quatro, solteiros; sendo que ninguém possui filhos.

Em relação à escolaridade, metade possui ensino médio completo e a outra metade ainda está cursando. Consideram que os estudos devem ser priorizados para que seja possível viver com mais dignidade e estabilidade econômica. No entanto, a distância das universidades e a falta de recursos econômicos para viabilizar o transporte e mensalidades são barreiras difíceis de serem vencidas. Mesmo assim, vislumbram alternativas para cursar o ensino superior14 em um futuro próximo, contando com o ingresso na FURG, uma das universidades mais próximas à Tavares (135km), ou à distância.

As atividades desempenhadas pelos jovens variam. As jovens, que são as mais velhas do grupo e com maior escolaridade, encontram-se desempregadas, ajudando nas tarefas domésticas. Entre os demais, três exercem atividades rurais15 e um é mecânico. De forma geral, possuem um vínculo afetivo com as práticas rurais16. Embora não ignorem a busca por oportunidades de trabalho e de educação na cidade, mantêm o sentimento bucólico de pertencimento ao campo.

3.3 Os jovens urbanos: vida adulta antecipada

Os quatro jovens que residem na sede do município possuem entre 18 e 24 anos, todos solteiros e sem filhos. São assalariados e dois deles fazem Educação Física à distância na UNOPAR, curso escolhido pela oferta da modalidade EAD e por ser adequado ao mercado de trabalho em Tavares e arredores. Apesar de ser à distância, devem se deslocar à universidade que se localiza em Rio Grande, no sul do estado, uma vez por semana, o que é considerado um empecilho devido ao longo trajeto e à falta de transporte apropriado. Todos consideram-se católicos, embora suas práticas religiosas variem, frequentando a Igreja Evangélica ou preferindo não comparecer a cultos religiosos. Avaliam que Tavares é uma cidade com poucas opções para o desenvolvimento profissional e por esse motivo, almejam migrar para outro município algum dia.

3.4 Os jovens quilombolas: rumo à cidade em busca do futuro

As duas jovens quilombolas são solteiras, uma tem ١٩ anos, sem filhos. A outra ٢٦, com um filho. Elas têm ensino médio completo e encontram-se desempregadas, ocupando seus dias desempenhando tarefas domésticas. Ambas residem na zona urbana, mas têm contato frequente com os familiares que vivem nos quilombos Vó Marinha e Vovô Virgilino.

A mais velha mudou-se para a cidade há cerca de quatro anos, pois devido à idade avançada não havia mais condições de seus pais trabalharem no campo (em Olhos D’Água). Atualmente, ela e sua família vivem de pensão. Gostaria de estudar Letras, contudo, não tem esperança de ingressar em uma universidade por razões financeiras. A mais nova possui uma perspectiva de futuro mais viável, pois visa ingressar na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) ou Universidade Federal de Pelotas (UFPel) pelo sistema de cotas nos cursos de Engenharia de Alimentos ou Enfermagem. O fato de ambas terem migrado para o centro da cidade suporta o que foi observado por Lucas e Lobo (2013, p. 30), ao explicarem porque os quilombos são habitados majoritariamente por idosos: “os jovens que desejam estudar ou buscar mais oportunidades de emprego precisam deixar as comunidades”.

Ambas consideram, no entanto, que Tavares é uma cidade agradável para se viver, possuindo um estreito sentimento de pertencimento local.

4. Os jovens e as práticas midiáticas

As práticas de lazer e de consumo midiático dos jovens de Tavares apresentam várias semelhanças. Frequentar festas e bares é um dos principais passatempos de todos os segmentos investigados devido às poucas opções de entretenimento no município. No centro da cidade, o Tottas Bar é o local mais frequentado, que reúne várias gerações e segmentos sociais. Ao mesmo tempo em que aproveitam a vida noturna também gostam de “ficar em casa” como uma atividade de lazer, seja descansando, convivendo com a família ou assistindo à televisão, ouvindo rádio e navegando na internet, etc.

Quanto ao consumo midiático, a assistência de televisão é a opção mais comum entre todos eles. Na TV aberta, telenovelas e telejornais são os principais gêneros assistidos. Além da televisão, a navegação na internet, e especificamente o uso de mídias sociais, se dá como uma forma de consumo alternativo aos meios tradicionais como rádio e jornal.

Todos possuem acesso à internet e a maioria possui computadores/notebooks e smartphones, dispositivos nos quais acessam, principalmente, WhatsApp e Facebook. No que diz respeito às práticas efetivadas neste site de rede social (SRS), observamos que a maioria atua mais observando as postagens que circulam, do que efetivamente postando algum conteúdo. Citadas as principais semelhanças, descrevemos agora as práticas particulares de cada segmento.

Quadro 2
Perfil dos entrevistados

Elaborado pelas autoras com base nos dados coletados.

O segmento pesqueiro, além de consumir meios e programações tradicionais (telenovelas e noticiários da TV aberta), também se apropria das mídias sociais através dos aparelhos celulares, usados para profissionalizar a atividade da pesca. Um dos jovens pescadores, por exemplo, afirma gostar de assistir National Geographic Channel, canal da TV fechada em que encontra programação sobre a atividade pesqueira. Smartphones conectados à internet são utilizados por ele e outros jovens para fins profissionais como, através de aplicativos de geolocalização, saberem exatamente em que ponto se encontram durante a pescaria, facilitando a navegação. Também utilizam as “novas tecnologias” para acompanhar a cotação do pescado em tempo real, bem como para anunciar seus produtos nos sites de redes sociais, como a jovem que posta informações sobre bolinhos de peixe no Facebook para vender tanto em Tavares como em Mostardas, município vizinho.

O segmento rural caracteriza-se por adotar práticas de lazer e de consumo midiático mais diversas, incorporando a elas o rádio de modo frequente. Através dele, escutam a programação musical e mantêm-se informados. A busca pela informação assume um papel importante nas práticas de consumo midiático, inclusive para fins escolares, motivando também o uso da internet e das mídias sociais. É o caso, por exemplo, de um dos jovens que acessa o YouTube para assistir a vídeos de doma de cavalo. Além disso, frequentam festas e bares, mas também valorizam “programações caseiras” que se desenvolvem com a família e no contexto do campo, frequentando rodeios, andando a cavalo e comparecendo a celebrações religiosas.

Em relação ao segmento urbano, identificamos o interesse por atividades esportivas por parte dos dois irmãos entrevistados, o que encontra eco nas práticas de consumo midiático. A programação televisiva preferida é a que trata de esportes, geralmente em canais por assinatura. A busca por notícias na internet também acaba direcionada a notícias do mundo esportivo, inclusive no próprio Facebook. Outra prática comum entre os dois jovens é a realização de compras online, em especial de objetos de variadas categorias (vestuário, tecnologia, etc.). A preferência pelo e-commerce propicia que encontrem o produto com um valor mais baixo, ao mesmo tempo em que têm contato com comentários de outros compradores sobre o produto desejado. A jovem, por sua vez, consome os mesmos meios, porém seus usos são diferentes. Na televisão, prefere assistir a filmes, telenovelas e telejornais. Já seu consumo online pelo computador é mais orientado a pesquisas em geral e ao acesso à Netflix. O celular, por sua vez, propicia uma ampla gama de práticas, como o download de músicas, a escuta de rádio e o acesso às mídias sociais como Facebook e WhatsApp.

No segmento quilombola, a jovem com mais idade destaca-se por assumir o gosto pela leitura de obras clássicas brasileiras como A Senhora, de José de Alencar, que baixou pela internet. Esta mesma jovem também se apresenta como uma telespectadora assídua, acompanhando telenovelas, programas de auditório e reality shows na TV aberta. Já a outra, mais jovem, relata que a escuta de emissoras FM pela televisão é uma prática comum. Quando quer se informar, além de telejornais, também escuta rádio (pelo meio tradicional) e lê o jornal Diário Gaúcho. De todos os segmentos, esta foi a única jovem que citou o consumo de jornal. Ambas se apresentam mais desconectadas do universo digital/online quando em comparação com os demais segmentos. Utilizam a internet mais para a busca de informações específicas, não se mantendo muito presentes nas mídias sociais. A jovem de mais idade não gosta de frequentar SRS, inclusive WhatsApp, porque é muita informação para acompanhar. Acessa só ocasionalmente para ver o que as celebridades midiáticas estão fazendo.

5. Conclusões parciais à espera das próximas etapas

Para começar, queremos frisar que o estudo piloto, cujos resultados parciais aqui analisamos, ofereceu pistas importantes para nos aproximar do “Brasil Profundo” e preparar as etapas seguintes. Por outro lado, com a finalidade de tecer alguns comentários mais amplos, retomamos conclusões parciais já divulgadas (Jacks, Toaldo, Miranda & Monteiro, 2017) e a elas somamos avanços posteriormente obtidos, ressaltando a importância de retornar ao campo tantas vezes quanto possível para adensar as observações.

Podemos reafirmar, assim, que nos segmentos analisados, há sentidos comuns compartilhados com jovens metropolitanos (Jacks et al., 2015;Jacks & Schmitz, 2016), mas também singularidades contextuais. Ou seja, há usos e competências tecnológicas comuns, mas diferenças relativas às condições de acesso, de tempo livre e do ambiente sociocultural.

Verificamos que mesmo em realidades relativamente “isoladas” dos grandes centros urbanos, são recorrentes os padrões de consumo midiático entre os jovens, com destaque para o interesse por filmes, telenovelas, músicas e conteúdos esportivos. Estes produtos midiáticos integram-se aos seus cotidianos tanto pelos meios de comunicação tradicionais, quanto pelas redes sociais digitais. É por meio delas que alguns transitam entre o local e o global.

A perspectiva sociocultural adotada explica as práticas e apropriações tecnológicas a partir do contexto e da experiência onde se dá (Martín-Barbero, 1987; Rocha, 2006). Apesar de estarem abertos ao universo de possibilidades presentes na ambiência digital, muitos tendem a atuar apenas localmente. Não visualizam um futuro tão promissor e consideram-se satisfeitos com suas condições atuais. É a partir desta característica que surge uma fronteira bastante demarcada entre o grupo urbano e os demais. O primeiro, por ter mais possibilidades de acesso a uma gama maior de ofertas – o que reflete nos seus usos em relação à mídia –, consegue visualizar uma situação diferente da atual, sendo capazes de traçar uma estratégia para alcançá-lo.

Em termos de usos, os jovens dos meios rural e pesqueiro se apropriam das tecnologias digitais para a profissionalização das suas atividades produtivas, sendo ausentes nos outros dois segmentos observados. No segmento quilombola, por outro lado, priorizam a busca de notícias e de entretenimento em meios tradicionais como o jornal e a televisão, mantendo-se mais desconectadas das mídias sociais. O segmento urbano se diferencia dos demais em aspectos do consumo material, pois é comum a compra em sites de e-commerce ou a assistência de filmes e séries na Netflix. A gama de interações entre os jovens com o uso do smartphone também se amplia em comparação com os demais grupos: realizam downloads, acessam mídias sociais e efetivam o consumo musical. Como dispositivo mais usado se apresenta como um vetor de novas formas de “estar juntos”. Isso, porém, no contexto de Tavares não substitui as interações face-a-face, ao contrário: os dispositivos móveis e as interações nos ambientes online como WhatsApp e Facebook reforçam os vínculos com as pessoas de sua convivência e permitem estender o “estar juntos” para além do momento presencial. Com a exploração de campo ficou evidente como os dispositivos móveis e digitais conectados à internet se caracterizam como elementos-chave no estabelecimento dos relacionamentos entre os jovens, processos a partir dos quais são configurados novos sentidos de “ser jovem” mesmo em contextos periféricos.

Por outro lado, diferentemente do que podemos observar nas apropriações dos meios tradicionais, fica evidente que os usos desses recursos vão além do entretenimento. São usados em atividades escolares e/ou da faculdade, no gerenciamento de atividades do trabalho, bem como agendamento de encontros e/ou atividades em grupos, como o grupo de jovens da igreja católica.

Ao mesmo tempo em que a tecnologia parece ter posição privilegiada na vida deles, o contexto e as mediações tradicionais como família, escola, igreja e trabalho têm papel determinante na formação desses sujeitos. A tecnologia, pela possibilidade de contato instantâneo, acaba fortalecendo os laços de afeto e a interação entre os próprios grupos da cidade, muito mais que conectá-los com forâneos. Através das redes sociais digitais, reconfiguram a sociabilidade, já que não estão mais necessariamente reunidos, mas interconectados, lembrando que a tecnologia para eles “não é uma máquina, mas uma tecnicidade cognitiva e criativa17” (Martín-Barbero, 2010, p. 30). Com ela também unem interesses como informação e consumo, trabalho e ócio, pesquisa e jogo. Ou seja, para além do entretenimento, a vida social amparada pela tecnologia e por relações em rede propicia que estes jovens exerçam suas próprias formas de cidadania e sintam-se integrados ao que ocorre nos seus contextos locais numa perspectiva global. Pelas redes, eles fazem política, decidem, se divertem, jogam, exploram a estética e o lúdico.

A adoção da tecnologia, de seus dispositivos e práticas decorrentes, corresponde aos processos culturais que permeiam seu uso no mundo globalizado e, ao mesmo tempo, são condizentes com processos sociais das coletividades em que vivem. Essa combinação permite que usem dispositivos tecnológicos e redes sociais digitais como mediadores de suas relações, contribuindo de forma importante para a manutenção de laços, vínculos, crenças e costumes. Martín-Barbero (2014) observa que, dessa forma, a tecnologia colabora para a sustentabilidade cultural no contexto de vivência. Os jovens observados possuem dois vetores que o autor considera básicos: capital cultural próprio, que sustenta seus laços e afirma suas identidades, e “capacidade de abrir a própria cultura para o intercâmbio e a interação com as outras culturas do país e do mundo” (Martín-Barbero, 2014, p. 22).

Registramos, por fim, que a experiência das incursões entre os jovens evidenciou a observação de Hine (2016, p. 12) de que “as tecnologias digitais se tornam cada vez mais uma parte intrínseca das vidas cotidianas em vez de uma esfera separada de existência social. Todas essas mudanças motivam estudos etnográficos”, próxima etapa da pesquisa.

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Notas

1 A primeira ida a campo foi de 01 a 05 de outubro de 2016, e o retorno de 18 a 21 de janeiro de 2017.
2 A península tem ao todo cerca de 5.000 km2 e os municípios que a constituem são Mostardas, Tavares e São José do Norte (integralmente), além de Palmares do Sul (parcialmente).
3 A última pesquisa TIC Domicílios feita pelo CGI.br (2017), indica que a quantidade de computadores de mesa nos domicílios brasileiros tem decrescido (de 77%, em 2011, para 46%, em 2016), enquanto a proporção de computador portátil tem aumentado (41%, em 2011, para 63%, em 2016), e também de tablets (2,5%, em 2011, para 38%, em 2016). A região Sul é a que apresenta indicadores mais próximos a essas médias nacionais.
4 Regic corresponde às Regiões de Influência das Cidades, conforme definido pelo IBGE (2017). De acordo com essa definição, Tavares é um centro local, que possui como região de referência a cidade de Mostarda, que é denominada de centro de zona B, em relação à capital do estado (IBGE, 2008).
5 O “México Imaginário” seria o fundado na civilização ocidental, o qual sustenta o modelo de desenvolvimento atual e que se sobrepõe a outras formas possíveis de desenvolvimento. Segundo o autor, os “dois Méxicos” estão em conflito há cinco séculos, pois têm projetos civilizatórios diferentes, sendo o “Imaginário” de exclusão em relação ao “Profundo”.
6 O que os une e distingue do resto da população mexicana é o fato de serem grupos portadores de maneiras de entender o mundo e organizar a vida originadas na civilização mesoamericana, forjada ao longo de um dilatado e complexo histórico.
7 Na fase anterior estudamos as experiências dos jovens urbanos, grande parte deles residentes nas capitais dos 26 estados brasileiros, além do Distrito Federal (Jacks et al., 2015), onde levantamos dados sobre o consumo midiático, tradicional e digital (Jacks & Schmitz, 2016).
8 Garantia de oportunidades de estudar, de aproveitar o tempo livre, de postergar suas preocupações com as responsabilidades referentes ao trabalho e à vida em família. Esse contexto social protetor garantiria ao jovem utilizar/representar os signos sociais do que se chama juventude.
9 Como idade, sexo, classe, etc., o que nos levou a definir a faixa etária dos jovens pesquisados, segundo os critérios do IBGE, como um parâmetro concreto para selecioná-los.
10 Há no município quatro quilombos onde vivem cerca de ٥٠ famílias.
11 O segmento rural habita as localidades de Capororocas (distrito de Tapera), Campo da Honra (distrito de Capão Comprido) e Olhos D’Água (distrito de Tapera); o pesqueiro, a Praia do Farol (distrito de Tapera) e a Vila os Pescadores (distrito de Capão Comprido); o urbano e o quilombola, a região central (Sede do município). Este último segmento, por sua vez, tem suas origens nas localidades de Capororocas e Olhos D’Água.
12 Moradores de quilombos, que são comunidades originadas de escravos fugitivos na época da escravatura.
13 Um dos casais fez parte do grupo entrevistado.
14 Opções de cursos desejados conforme os relatos: Administração, Psicologia e Veterinária.
15 Agricultura, através do plantio e colheita de cebola e milho, sendo que um deles também exerce atividades relacionadas à pecuária.
16 Esta percepção é ainda mais evidente nos relatos dos trigêmeos entrevistados.
17 Tradução livre das autoras: “no es ya una máquina, sino una tecnicidad cognitiva y creativa”. Grifo do autor.

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