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<article-title xml:lang="pt">Conexão CINVA-SUDENE: circulação profissional e difusão de saberes em habitação e planejamento na América Latina do pós-guerra</article-title>
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<title>Resumo</title>
<p>Este trabalho busca evidenciar a circulação transnacional de profissionais, suas ideias e saberes nos campos da Arquitetura, das Engenharias e das Ciências Sociais entre o <italic>Centro Interamericano de Vivienda y Planeamiento</italic> (<sc>CINVA</sc>) e a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (<sc>SUDENE</sc>). Como objeto de análise, tomam-se as trajetórias de Hebe Gonçalves, Carlos Carneiro e Gerson Sampaio, atores destacados tanto pelo trânsito entre as instituições latino-americanas ao longo das décadas de 1950 e 1960 quanto pelo seu envolvimento em iniciativas brasileiras na interface entre a programação habitacional e o planejamento territorial. Hipotetiza-se que sua circulação tenha contribuído para a introdução e consolidação da temática habitacional na pauta da <sc>SUDENE</sc>, constituindo um ponto de contato com a atuação do <sc>CINVA</sc>. Dessa forma, verifica-se a inserção do Brasil e de seus círculos acadêmico-profissionais nas redes latino-americanas desses campos, bem como a influência desses aportes sobre o território nordestino – em particular, o pernambucano.</p>
</abstract>
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<title>Abstract</title>
<p>
<italic>This study seeks to highlight the transnational circulation of professionals, as well as their ideas, and knowledge within the fields of Architecture, Engineering, and the Social Sciences, focusing on the connections between the Centro Interamericano de Vivienda y Planeamiento (<sc>cinva</sc>) and the Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (<sc>sudene</sc>). The analysis centers on the professional trajectories of Hebe Gonçalves, Carlos Carneiro, and Gerson Sampaio—key figures noted for their movement across Latin American institutions during the 1950s and 1960s, and for their involvement in Brazilian initiatives at the intersection of housing programs and territorial planning. It is hypothesized that their circulation played a role in introducing and consolidating housing issues on <sc>sudene</sc>’s agenda, thereby establishing a point of contact with <sc>cinva</sc>’s activities. This analysis reveals Brazil’s integration—and that of its academic and professional circles—into Latin American networks within these fields, as well as the influence of these exchanges on the Northeast region, particularly in Pernambuco. </italic>
</p>
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<title>Palavras-chave</title>
<kwd>história regional, planejamento territorial, redes</kwd>
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<title>Keywords</title>
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<italic>regional history, territorial planning, networks</italic>
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<sec sec-type="intro">
<title>
<bold>Introdução</bold>
</title>
<p>A historiografia sobre a consolidação da atuação profissional em urbanismo e planejamento territorial no Brasil e a constituição desses campos disciplinares tem se adensado significativamente nas últimas décadas, beneficiando-se de abordagens particulares a objetos comuns e processos históricos relacionados, na esteira de extensos esforços de investigação coletiva. No caso de Feldman (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref14">2021a</xref>) e Leme (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref21">1999</xref>), essa análise ocorre tanto a partir do enfoque em trajetórias profissionais particulares, esquadrinhada pelos limites administrativos nacionais, quanto pela consideração dos movimentos institucionais e suas redes de agentes. Jacques e Pereira (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref20">2018</xref>), por sua vez, aproximam-se ao tema a partir de uma perspectiva teórico-metodológica, tomando como objeto a construção historiográfica. O presente estudo busca contribuir pontualmente com essa construção coletiva, mirando a interface entre os campos do planejamento territorial e da programação habitacional na América Latina de meados do século XX, no marco histórico do pós-guerra, apoiando-se teoricamente em perspectivas latino-americanistas.</p>
<p>Ao adotar um “viés transnacional” para apontar a permeabilidade das fronteiras nacionais (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref38">Weinstein, 2013</xref>), e reconhecer a escala espaço-cultural interamericana como aquela na qual se articularam historicamente as redes profissionais e intelectuais continentais (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref12">Faria, 2018</xref>), inverte-se o “olhar interpretativo” sobre a construção de conhecimento na América Latina, destacando a produção e circulação de ideias dos profissionais da região (p. 302). Como estudo de caso, investiga-se o acercamento entre o <italic>Centro Interamericano de Vivienda y Planeamiento</italic> (<sc>CINVA</sc>) e a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (<sc>SUDENE</sc>), instituições latino-americanas aproximadas pela interface entre a programação habitacional e o planejamento territorial.</p>
<p>As investigações sobre as conexões históricas entre o Brasil e outros países da América Latina por meio da atuação do CINVA, especificamente, e sua aproximação aos círculos acadêmico-profissionais brasileiros debruçados sobre as temáticas supracitadas, têm origem recente. Pode-se tomar o trabalho de Aravecchia-Botas (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref2">2012</xref>) como marco inaugural desse recorte temático particular, que primeiro identificou trânsitos e vínculos entre atores e instituições brasileiras e o CINVA, posteriormente aprofundados em Aravecchia-Botas e Carvalho (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref3">2019</xref>) e Carvalho (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref6">2021</xref>). Integrando essa rede investigativa de caráter colaborativo,<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref>
</sup> o presente trabalho oferece novos aportes historiográficos ao evidenciar a inserção dos círculos acadêmico-profissionais da Região Nordeste do Brasil nas tramas da circulação de ideias e saberes pelo continente, entre cujos nós identifica-se o CINVA. Preliminarmente evidenciada pelos trabalhos supracitados, essa conexão é aqui destacada.</p>
<p>Complementado pela revisão da bibliografia consolidada e anteriormente referenciada sobre a constituição desses campos no Brasil e na América Latina, o trabalho apoia-se em extensa pesquisa documental realizada em acervos institucionais brasileiros e colombianos, tanto de forma presencial quanto digital. Apesar de lacunas pontuais, as fontes primárias e secundárias consultadas permitiram construir perfis biográficos individuais, que explicam a aproximação interinstitucional supracitada, contextualizados à luz do conhecimento específico sobre as discussões no campo disciplinar e profissional na época. Ao identificar as “zonas de contato”, territórios ou comunidades onde as trocas entre grupos se dão de forma mais explícita (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref38">Weinstein, 2013</xref>, p. 17), evidencia-se a influência dos contributos estrangeiros sobre a atuação acadêmica e profissional em planejamento territorial e programação habitacional no estado de Pernambuco e, por via deste, sobre a própria região Nordeste, na esteira da consolidação desses campos no Brasil.</p>
<p>Do ponto de vista analítico, propõe-se uma aproximação simultânea às redes intelectuais e profissionais latino-americanas em questão e às trajetórias individuais dos atores que as constituíram historicamente. Compreende-se que a própria interpretação de uma rede exige não apenas considerar o conjunto de nós que efetivamente a articulam em trama – aqui, as zonas de contato supracitadas –, mas também aprofundar-se nos laços que a compõem, ou seja, as relações objetivas estabelecidas entre os três atores latinos-americanos destacados e outros agentes no campo em questão. Apoiando-se na interpretação bourdiana de “trajetória” como uma “série de posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente [...] num espaço que é ele próprio um devir”, justifica-se a necessidade de apreendê-la – e aqui a argumentação inverte-se – a partir dos “estados sucessivos do campo no qual ela se desenrolou e, logo, o conjunto das relações objetivas que uniram o agente considerado [...] ao conjunto dos outros agentes envolvidos no mesmo campo e confrontados com o mesmo espaço dos possíveis” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref4">Bourdieu, 1996</xref>, pp. 189-190). Dessa forma, ao buscar esclarecer a rede, ressalta-se a indissociabilidade interpretativa entre as zonas de contato e cada trajetória individualmente analisada, entendida como vetor ativo na difusão de ideias e saberes a nível transnacional.</p>
<p>Na primeira parte deste trabalho, apresenta-se um panorama histórico contextual que insere cada uma das instituições – com origens e trajetórias particulares entre si – em uma conjuntura política, econômica e social própria, embora com bases compartilhadas a nível continental. Sua aproximação é materializada pelas trajetórias de três atores brasileiros específicos, analisadas na segunda parte do trabalho: a assistente social Hebe Gonçalves, o engenheiro civil Carlos Carneiro e o arquiteto Gerson Sampaio. Com base na construção histórica realizada, postula-se que a circulação transnacional desses profissionais contribuiu para a introdução e consolidação da temática habitacional na pauta da <sc>SUDENE</sc>, no contexto da difusão de ideias e saberes pelo continente. Na terceira e última parte do trabalho, encerra-se o panorama histórico construído, apresentando as conclusões gerais do trabalho e pautando reflexões para o campo historiográfico.</p>
</sec>
<sec>
<title>
<bold>Planejamento para o desenvolvimento: origens institucionais latino-americanas</bold>
</title>
<p>Ao longo de todo o século <sc>XX</sc>, o continente latino-americano assistiu a uma série de transformações socioespaciais rápidas e significativas, presentes em praticamente todos seus territórios, apesar das particularidades locais. As políticas de fomento à industrialização nacional, iniciadas em diferentes momentos em cada país, atraíram populações campesinas empobrecidas aos principais núcleos urbanos regionais – movimento para o qual colaboraram as constantes ameaças de expulsão da terra, expressão do acossamento do campesinato por forças fundiárias dominantes. Esses núcleos urbanos expandiram-se desordenadamente, consolidando-se como centralidades regionais em um contexto de ausência generalizada de planos e políticas voltados ao ordenamento territorial nesse primeiro momento (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref10">Déak &amp; Schiffer, 1999</xref>).</p>
<p>A partir de então, os assentamentos humanos informais e precarizados multiplicaram-se de forma especialmente intensa na paisagem urbana. Embora apresentassem morfologias particulares, ocupassem territórios de naturezas distintas, relacionassem-se com núcleos formais cada qual a sua maneira e fossem dotadas de camadas de significação locais – multiplicidade diretamente refletida nas inúmeras denominações que receberam de norte a sul do continente<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref>
</sup> –, cada uma delas resultou da associação entre uma conjuntura histórica local particular e estruturas originárias compartilhadas a nível continental. Em perspectiva histórica, essa interpretação fez-se hegemônica com a modernização e refundação do campo das Ciências Sociais na América Latina na década de 1950, dando origem a um objeto de estudo inteiramente novo – os “assentamentos marginais” da “cidade latino-americana” – cuja análise e interpretação estavam fundamentalmente calcadas no instrumental e nos conceitos teóricos da Escola de Sociologia de Chicago (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref18">Gorelik, 2022</xref>). Não se buscava oferecer uma “explicação da pobreza em cada cidade”, então, mas sim explicitar uma “característica estrutural que caracterizava a cidade latino-americana” (p. 66, tradução nossa).</p>
<p>Naquele momento histórico, a produção e reprodução do espaço ocorria sobre bases cada vez mais complexas: a racionalidade urbano-industrial penetrava o mundo rural, transformando sua lógica produtiva e, por via desta, a própria ordem social – processo exemplificado na formação de um “semicampesinato”, como observado por Oliveira (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref25">1981</xref>); paralelamente, o êxodo rural e a fixação dos “ex-campesinos” nas áreas urbanas promoviam, em uma dimensão sociocultural, a “ruralização” das cidades em expansão (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref23">Machado et al., 2023</xref>). O progressivo apagamento dos limites entre urbanidade e ruralidade, então, associado a rearranjos produtivos e sociais radicais e à precarização nas formas de ocupação do espaço, mobilizaram profissionais de diversos campos disciplinares em busca de novos procedimentos e instrumentos para gerir uma realidade em transformação. Nesse processo, métodos e técnicas interdisciplinares ganharam lugar de destaque no esforço de aproximação ao território, associados a uma mirada multiescalar (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref15">Feldman, 2021b</xref>). O nascimento do campo do “planejamento” dá-se em meio a essas discussões, promovidas e difundidas entre os principais círculos acadêmicos e profissionais latino-americanos por meio de publicações, congressos e atividades de consultoria e pesquisa – motor de sua progressiva aproximação e da posterior constituição de sociedades profissionais especializadas nessas temáticas (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref12">Faria, 2018</xref>).</p>
<p>Esse movimento está inserido no processo de modernização dos Estados nacionais latino-americanos e da multiplicação de suas universidades e centros de formação técnico-profissional (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref15">Feldman, 2021b</xref>). Debruçados sobre o “desenvolvimento adequado de todos os recursos disponíveis para o melhoramento das condições de vida da população” em perspectiva global-integral (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref12">Faria, 2018</xref>, p. 312), ele ajuda a compreender o panorama histórico que envolve a criação de instituições como o CINVA e a SUDENE. Apesar de se acercarem ao território latino-americano de maneiras distintas – na mesma medida em que se distinguiam seus objetivos e estruturas administrativas –, ambas as instituições compartilharam de um arcabouço teórico e ideológico aproximado, fruto das reflexões sobre o subdesenvolvimento latino-americano em perspectiva histórico-estrutural. Como horizonte final, o desenvolvimento das distintas regiões do continente deveria ser perseguido através de processos de planejamento, exigindo a mobilização de técnicas e métodos que, em ao menos um momento histórico, aproximaram fisicamente ambas as instituições.</p>
<p>O <italic>Centro Interamericano de Vivienda, posteriormente renomeado Centro Interamericano de Vivienda y Planeamiento</italic> (CINVA), foi oficialmente criado em 1951 como resultado de uma parceria entre o Programa de Cooperação Técnica da Organização dos Estados Americanos (OEA), a <italic>Universidad Nacional de Colombia</italic> (UNAL) e o <italic>Instituto de Crédito Territorial</italic> (ICT) da Colômbia. Conforme destacado por Faria (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref13">2024</xref>), a instituição foi fundada no marco histórico da expansão das iniciativas de assistência técnica na América Latina no período do pós-guerra, alinhadas aos interesses estadunidenses, na sequência dos debates promovidos nos congressos pan-americanos das décadas anteriores. Tomando a habitação latino-americana como objeto de estudo, o CINVA tinha como principal objetivo a capacitação técnica-profissional em planejamento a partir de uma perspectiva global-integral. Para alcançá-lo, a instituição desenvolveu estudos e pesquisas sobre técnicas e métodos de construção e planejamento, promoveu eventos científicos e reuniões profissionais, editou publicações técnicas e informativas dirigidas a distintos públicos, e organizou cursos regulares de capacitação e profissionalização na temática, realizados em Bogotá, onde estava sediado, e em outras cidades latino-americanas (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref29">Pino et al., 2024c</xref>).</p>
<p>Como instituição criada e atuante no pós-guerra, o <sc>CINVA</sc> estava invariavelmente inserido no panorama geopolítico da Guerra Fria e na disputa econômica e ideológica pela hegemonia global. A criação do Programa de Cooperação Técnica da <sc>OEA</sc>, a partir do qual surgiria o próprio <sc>CINVA</sc> em momento posterior, ressalta uma das estratégias estadunidenses no período: a instrumentalização do fomento à modernização das nações subdesenvolvidas (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref18">Gorelik, 2022</xref>). Buscando “suprir a escassez de profissionais capacitados para a resolução dos problemas socioeconômicos dos países latino-americanos” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref6">Carvalho, 2021</xref>, p. 38), o programa encabeçado pela <sc>OEA</sc> se viu formalmente projetado na política externa estadunidense a partir de 1949, em pleno governo Truman, com a criação do Programa Ponto Quatro.<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>
</sup> Centrado no fornecimento de assistência técnica aos países em desenvolvimento, consolidava assim uma disputa de “quem podia mostrar melhores e mais rápidos resultados na aplicação transitiva do desenvolvimento” entre as potências globais da época (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref18">Gorelik, 2022</xref>, p. 54, tradução nossa). Iniciativas de natureza semelhante encabeçadas por agentes privados estadunidenses também se multiplicaram pelo território latino-americano nesse período, com destaque para a atuação de Nelson Rockefeller por meio da <italic>American International Association for Economic and Social Development</italic> (<sc>AIA</sc>) e, posteriormente, da <italic>International Basic Economy Corporation</italic> (<sc>IBEC</sc>) (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref6">Carvalho, 2021</xref>).</p>
<p>Para compreender a abordagem do <sc>CINVA</sc> frente às realidades dos distintos territórios sobre os quais se debruçou, é necessário situá-lo também no panorama histórico colombiano da ação profissional na temática. De acordo com Sánchez (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref31">2021</xref>), os anos 1930 na Colômbia foram marcados pelo delineamento de um projeto de modernização social nacional particular, encabeçado por intelectuais, reformistas e funcionários do Estado colombiano de distintos campos disciplinares, orientado para a consolidação dos setores médios campesinos. Reconhecendo o meio rural como <italic>locus </italic>da “modernidade possível” em um país predominantemente agrário, solapado por conflitos fundiários e pelas más condições de vida gerais, produziu-se conhecimento técnico na interface entre o (re)ordenamento territorial e o melhoramento da habitação campesina, difundido em cartilhas educativas e outras propostas interventivas não materializadas, efetivamente. Apoiando-se em um projeto interdisciplinar, acreditava-se que seria possível contribuir para a resolução dos conflitos agrários, promovendo a fixação da população campesina no interior do território e a melhoria das condições gerais da vida no campo (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref31">Sánchez, 2021</xref>).</p>
<p>Se a autora reconhece a influência desse conhecimento técnico acumulado na experiência posterior do <sc>ICT</sc>, criado em 1939 como uma agência de crédito e provisão habitacional rural (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref31">Sánchez, 2021</xref>), torna-se relevante aproximá-lo àquele produzido pelo <sc>CINVA</sc> a partir de 1952, apoiado em bases similares. No auge do ciclo de transformações socioespaciais na América Latina, o órgão voltou-se para a questão habitacional justamente pela perspectiva da interface entre urbanidade e ruralidade. Em termos teóricos e metodológicos, sua atuação extensionista aproximava a realidade das regiões rurais àquela das periferias dos núcleos urbanizados, observando similaridades socioculturais refletidas em espaços e materialidades comuns. É no marco da consolidação dessa construção teórica-metodológica que o <sc>CINVA</sc> expandiu suas atividades para todo o território latino-americano, organizando cursos de extensão rural em parceria com instituições nacionais locais a partir de 1958 e ampliando zonas de contato pelo continente (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref6">Carvalho, 2021</xref>).</p>
<p>Na Região Nordeste do Brasil, uma conjuntura política e econômica singular conjugou-se às estruturas históricas comuns do continente, colaborando para que as transformações socioespaciais observadas em escala latino-americana se manifestassem de maneira particular. Além do processo de industrialização dos núcleos urbanos, a associação entre uma estrutura fundiária concentradora, um regime ecológico marcado por secas intermitentes e um sistema produtivo agrícola dominado pela monocultura da cana-de-açúcar já implicava em deslocamentos regionais campo-cidade, antes mesmo da posterior industrialização dos núcleos urbanos, que intensificou esse movimento. Os círculos intelectuais da região acompanhavam de perto a decadência da ordem econômica e social rural, cristalizada nos romances regionalistas nordestinos de início de século. Nesse momento, também começaram a ser realizados estudos sistemáticos sobre as condições de vida nas zonas rurais e regiões periurbanas das capitais nordestinas, já ocupadas pelos <italic>mocambos.</italic> Esse tipo de habitação popular de características generalizadamente precárias, poderia ser comparado às favelas do Centro-Sul do Brasil ou aos <italic>tugurios</italic>, <italic>barriadas </italic>e <italic>villas miseria</italic> de outros países latino-americanos, ainda que munida de características locais particulares (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref22">Lira, 1996</xref>).</p>
<p>A criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (<sc>SUDENE</sc>) insere-se nesse panorama histórico. As condições de extrema pobreza fizeram crescer as tensões sociais locais e, conjuntamente, o temor por uma crise na unidade nacional brasileira, num cenário marcado por desigualdades acentuadas no desenvolvimento interregional. Diante da ineficácia das políticas estatais isoladamente adotadas para o enfrentamento de dilemas estruturais, condicionantes do subdesenvolvimento nordestino, o Governo Federal decidiu pela criação de um órgão técnico voltado ao planejamento e coordenação de políticas multissetoriais entre os entes da federação na região. Nesse período, a recorrente mobilização do binômio desenvolvimento/subdesenvolvimento fazia referência explícita às categorias teóricas formuladas no interior da Comissão Econômica para a América Latina (<sc>CEPAL</sc>), integrada pelo economista brasileiro Celso Furtado entre as décadas de 1940 e 1950. Furtado seria responsável por idealizar teórica e administrativamente o novo órgão de planejamento regional brasileiro, criado em 1959, do qual seria o primeiro superintendente (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref16">Furtado, 1985</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref17">1989</xref>).</p>
<p>As estruturas geopolíticas da Guerra Fria se embrenharam de maneira particularmente significativa no território nordestino, considerado da “maior e mais urgente necessidade de atenção” para John Kennedy, Presidente dos Estados Unidos, em discurso de 1961 (Santiago, 2006, como citado em <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref19">Inglez de Souza, 2009</xref>, p. 107). A radicalidade das transformações na organização da produção agrícola cubana pós-1959 e as similaridades entre o país caribenho pré-revolucionário e a Região Nordeste naquele período, sintetizadas na tríade monocultura açucareira/concentração fundiária/organização campesina, “tornavam mais fáceis as predições – desejadas ou temidas – de um destino similar [entre aqueles territórios]” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref9">Dabat, 2005</xref>, p. 134). Como instrumento geopolítico, então, o planejamento ganha uma função adicional: apaziguar as tensões sociais “fomentadas” pelos “antagonistas ao mundo livre estadunidense”, entre cujas fileiras as Ligas Camponesas foram rapidamente integradas (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref62">Rogers, 1964</xref>). Delimitavam-se, assim, as áreas de influência dos Estados Unidos em território latino-americano. A partir de 1961, a Aliança para o Progresso e seu “Acordo do Nordeste”, articulado entre Kennedy e Furtado, possibilitaram o avanço da ingerência estrangeira sobre as administrações locais e regionais e sobre os rumos das políticas públicas em áreas como educação, saúde e habitação. Através do fornecimento dirigido de recursos financeiros externos, a política estadunidense sobrepôs-se à autoridade tanto da SUDENE quanto do Governo Federal brasileiro (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref19">Inglez de Souza, 2009</xref>).</p>
<p>Apesar desse cenário – e em contraste com o <sc>CINVA</sc> –, a <sc>SUDENE</sc> não priorizou inicialmente a questão habitacional nordestina. A priorização de investimentos em infraestrutura de transportes e energia, o desconhecimento da dimensão regional daquela problemática e a falta de capacitação técnica de seus funcionários impediram o delineamento de programas especificamente voltados ao tema da habitação, ainda que ele já se fizesse presente nas primeiras discussões internas ao órgão (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref8">Cruz, 2023</xref>). A inclusão da temática habitacional no escopo de atribuições da <sc>SUDENE</sc>, tendo como horizonte a programação habitacional regional, ocorreu somente entre 1963 e 1964 – período em que foram criados o Departamento de Recursos Humanos, a Divisão de Habitação e uma equipe específica de Política e Programação Habitacional, na esteira de seu envolvimento em experiências regionais pioneiras em provisão habitacional (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref61">Rocha et al., 1965</xref>). Este estudo propõe que a cronologia desse processo incorpore um novo elemento: a circulação transnacional de técnicos pelo território latino-americano. Nesse contexto, a aproximação <sc>CINVA</sc>-<sc>SUDENE</sc> não é fortuita, indo além do marco teórico-ideológico compartilhado sobre o qual se fundavam. O <sc>CINVA</sc> tinha conhecimento das tensões sociais no Nordeste e das iniciativas locais, públicas e privadas, que visavam mitigá-las por meio da oferta habitacional, divulgando-as em material informativo produzido pela instituição ainda no início dos anos 1960 (<xref ref-type="fig" rid="gf1">Figura 1</xref>). Isso pode ter fomentado o interesse por uma aproximação concreta à região, materializada na co-organização, junto à <sc>SUDENE</sc>, de um curso de capacitação técnica-profissional em habitação rural no interior do estado nordestino de Pernambuco, em 1965 (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref7">Carvalho et al., 2023</xref>).</p>
<p>A partir desses indicativos e da investigação de três trajetórias profissionais ainda não evidenciadas pela historiografia, todas marcadas por sua relação com o <sc>CINVA</sc> e pela participação no curso em questão, aventa-se a hipótese de que o trânsito de técnicos pela América Latina – no caso em estudo, mais especificamente, entre o <sc>CINVA</sc> e a <sc>SUDENE</sc> – contribuiu para a introdução e consolidação da temática habitacional na pauta da instituição brasileira. Para além da difusão de ideias e saberes pelo território nordestino e pernambucano em específico, essa movimentação evidenciaria a própria inserção do Brasil e de seus círculos acadêmico-profissionais nas redes latino-americanas dos campos, assim como sua influência, ao fim e ao cabo, sobre a própria constituição e consolidação das instituições de planejamento urbano-regional brasileiras.</p>
<p>
<fig id="gf1">
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<bold>
<sc>figura 1</sc>
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<title>
<bold>Trecho da edição de novembro de 1962 do Suplemento CINVA, com destaque para o artigo <italic>Programa de vivienda popular en el estado de Pernambuco, Brasil</italic>
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<alt-text>figura 1 Trecho da edição de novembro de 1962 do Suplemento CINVA, com destaque para o artigo Programa de vivienda popular en el estado de Pernambuco, Brasil</alt-text>
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<alt-text>figura 1 Trecho da edição de novembro de 1962 do Suplemento CINVA, com destaque para o artigo Programa de vivienda popular en el estado de Pernambuco, Brasil</alt-text>
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<sc> CINVA (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref44">1962</xref>). Acervo da Biblioteca da FAU-USP. </sc>
</attrib>
</fig>
</p>
</sec>
<sec>
<title>
<bold> Hebe Gonçalves, assistente social: um horizonte de Desenvolvimento da Comunidade </bold>
</title>
<p>Embora não tenha se formado em Serviço Social pela Escola de Serviço Social de Pernambuco (ESS-PE), a formação profissional de Hebe Martins Gonçalves Pereira está intimamente ligada à história da instituição. Ela foi fundada na primeira metade do século XX, por iniciativa de Rodolfo Aureliano Silva, Juiz de Direito e então desembargador de Pernambuco, com apoio de juristas, médicos e padres, vinculados ao Círculo Operário do Recife e influenciados pelas orientações da União Católica Internacional de Serviço Social (UCISS). Ainda que esse grupo tenha assumido as primeiras funções da Escola, oficialmente fundada em 1940, reconhecia-se naquele momento a “carência de direção técnica especializada” – isto é, pessoal efetivamente formado em Serviço Social (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref35">Silveira Júnior et al., 2019</xref>, p. 6). Com a expectativa de que pudessem capacitar-se e assumir funções no retorno a Pernambuco, portanto, decidiu-se pelo envio de três alunas locais ao Instituto Social do Rio de Janeiro – entre as quais Hebe Gonçalves, que retornou com o título de bacharel em Serviço Social após 1948. Como professora da ESS-PE ela assumiu, então, o ensino de disciplinas como “Organização Social da Comunidade”, “Serviço Social de Grupo” e “Serviço Social Médico” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref33">Silva et al., 2019</xref>).</p>
<p>Sabe-se que, apenas alguns anos após sua efetivação neste cargo, em 1955, Hebe Gonçalves participou como aluna-bolsista na quarta edição do Curso Regular de Treinamento em Habitação,<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>
</sup> uma das frentes de capacitação técnica-profissional organizadas pelo <sc>CINVA</sc> em território colombiano (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref26">Paez, 2002</xref>). Embora a razão específica de sua participação não esteja clara, ela não constituía exceção na trajetória dos cursos de extensão organizados pela instituição interamericana, onde assistentes sociais eram quase tão numerosos quanto arquitetos e engenheiros, por exemplo (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref6">Carvalho, 2021</xref>). Naquela ocasião, o <sc>CINVA</sc> se debruçou sobre o território e as condições habitacionais do Vale de Sogamoso, região no Departamento colombiano de Boyacá – e da participação de Gonçalves resultou um trabalho final, único registro concreto de sua participação, intitulado <italic>Brasil. Aspectos gerais do país – Habitação</italic>. A monografia destaca-se pelo significativo conhecimento de Gonçalves sobre os esforços em provisão habitacional no Brasil no período, com especial destaque para a ação de instituições regionais como a Associação Nordestina de Crédito e Assistência Rural (<sc>ANCAR</sc>) e o Serviço Social Contra o Mocambo (<sc>SSCM</sc>), este último vinculado ao Governo do Estado de Pernambuco. Em sua análise, Gonçalves reflete criticamente sobre a necessidade de expansão desses esforços em direção ao meio rural, “associando os planos de habitação aos planos de colonização”, e ventila possibilidades construtivas a partir da utilização de materiais locais e de mão-de-obra organizada em esquemas de “ajuda mútua dirigida”. A assistente social também identifica o papel do Serviço Social nesse conjunto de esforços: seria responsabilidade de seus profissionais não apenas compreender as condições sociais dos territórios afetados pelos planos habitacionais, bem como desenvolver um trabalho educativo de base, visando despertar “certa consciência comunal” em uma população feita agente “de seu próprio progresso” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref48">Gonçalves, 1955</xref>, pp. 22-24).</p>
<p>Sua trajetória acadêmica-profissional sugere caminhos e territórios por onde esses saberes e ideias podem ter sido difundidos nos anos seguintes ao seu retorno de Bogotá. Em 1962, por exemplo, Gonçalves participou de uma conferência na então recém-fundada Faculdade de Serviço Social de Campina Grande, no interior do estado nordestino da Paraíba, representando a <sc>ESS-PE</sc> (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref36">Souza, 2012</xref>). Esse fato reitera, por um lado, que a circulação regional de conhecimento no campo não estava restrita aos círculos acadêmicos das capitais estaduais. Essa consideração ganha relevância quando consideramos seu envolvimento direto com os Centros Rurais Universitários de Treinamento e Ação Comunitária (<sc>CRUTAC</sc>). Este projeto de extensão universitária pretendia aproximar estudantes de distintos cursos às realidades rurais locais através de experiências práticas de estágio, pensando “desde a assistência sanitária até o desenvolvimento econômico”, num esforço para transportar a Universidade “para o interior com sua ciência, seus conhecimentos, sua técnica” (Lopes, 1967, como citado por<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref1"> Almeida, 2011</xref>, p. 213). Instalado como experiência piloto em 1966 na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (<sc>UFRN</sc>), o projeto logo foi nacionalizado através da Comissão Incentivadora dos Centros Rurais Universitários de Treinamento e Ação Comunitária (<sc>CINCRUTAC</sc>), operacionalizados pelo governo civil-militar em 1969 (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref1">Almeida, 2011</xref>). Gonçalves, que em 1970 já era Assessora de Programação da iniciativa, dirigiu a implantação do programa no estado nordestino do Maranhão (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref32">Silva, 2013</xref>) e participou de alguns dos encontros nacionais e regionais promovidos para difundir a iniciativa, entre os quais aquele organizado em 1970 no Recife (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref1">Almeida, 2011</xref>).</p>
<p>Aproximando-se ao estudo da realidade social dos territórios rurais nordestinos, Gonçalves identificou um problema central da formação universitária: a inadequação formal dos currículos em seu debruçamento sobre as realidades rurais. A defesa da necessidade de adaptá-los ao “universo que será vivenciado pelos futuros médicos, dentistas, assistentes sociais, pedagogos, enfermeiros, etc.” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref1">Almeida, 2011</xref>, p. 218), aliás, já havia sido feita por figuras vinculadas ao CINVA, como o arquiteto argentino Ernesto Vautier e o técnico brasileiro Daniel Uchôa Cavalcanti Bezerra, na ocasião de distintos eventos promovidos pela instituição. Críticos da ausência de um “ponto de vista realista” na orientação dos alunos sobre as condições e possibilidades em habitação rural, e defensores da formação de um “arquiteto extensionista, produto de contatos com as disciplinas sociais” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref6">Carvalho, 2021</xref>, pp. 91-93), pode-se encontrar um eco desses discursos no próprio posicionamento de Gonçalves, diretamente envolvida em experiências brasileiras de extensão análogas àquelas promovidas pelo CINVA.</p>
<p>Essa perspectiva pode ter sido reforçada por outros trabalhos com os quais Gonçalves se envolveu no mesmo período, para além das atividades de extensão universitária. Destaca-se, sobretudo, sua participação no processo de construção da Usina Hidrelétrica de Boa Esperança, na divisa dos estados brasileiros do Maranhão e do Piauí, entre 1966 e 1969. Liderando as assistentes sociais que participaram do evento, responsáveis pela transferência das populações locais no processo de construção do complexo de produção de energia elétrica, foram desenvolvidas atividades de “mobilização e organização comunitária, em apoio ao planejamento e à execução da obra, e a realização de pesquisas sócio-econômicas” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref34">Silva et al.</xref>, 2008, p. 9), em consonância com a atuação por ela defendida ainda em 1955. É interessante observar a aproximação explícita de Gonçalves, então, à questão habitacional, explorada em volume específico de <italic>Transferência de populações: plano de ação</italic>, obra de sua autoria em referência à experiência de Boa Esperança (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref49">Gonçalves, n.d.</xref>). Analisando a organização social e as tipologias habitacionais locais, os processos de remoção e reassentamento das populações deslocadas, os padrões de urbanização escolhidos e o projeto habitacional adotado, materializado em esquema de esforço próprio e ajuda mútua, Gonçalves evidencia a interface entre programação habitacional e trabalho social ativada em experiência prática no território nordestino. Assim, ecoa o arcabouço teórico-metodológico do qual pôde aproximar-se em sua trajetória pregressa no <sc>CINVA</sc>.</p>
<p>Sua consolidação acadêmica-profissional ao longo dos anos 1970, período em que seguiu ministrando aulas e orientando trabalhos de conclusão de curso na <sc>ESS-PE</sc>, confirma não apenas sua inclinação especial para o campo do Desenvolvimento da Comunidade – já evidenciada na monografia elaborada para o <sc>IV</sc> Curso Regular de Treinamento em Habitação do <sc>CINVA</sc> –, mas também um interesse particular por um mundo que caminhava do rural ao urbano, com consequências socioespaciais próprias. Autores como Manuel Correia de Andrade, Josué de Castro e Celso Furtado fundamentaram teoricamente a leitura de uma realidade em transformação e de suas consequências socioespaciais, feitas objetos de estudo em aproximação crítica (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref5">Cardoso et al., 2014</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref58">Motta &amp; Carvalho, 1979</xref>). Sua participação no <sc>II</sc> Congresso Nacional de Assistentes Sociais, realizado em 1979 no Recife (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref46">Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, 1979</xref>), encerra um panorama marcado pela atuação destacada na interface entre planejamento territorial, serviço social e provisão habitacional, na perspectiva do Desenvolvimento da Comunidade.</p>
</sec>
<sec>
<title>
<bold> Carlos Carneiro, engenheiro civil: ação planejada para o “rurbano” </bold>
</title>
<p>Sem maiores informações sobre sua trajetória na graduação, sabe-se que Carlos Américo Carneiro Leão, identificado como engenheiro civil, teve a oportunidade de participar como aluno-bolsista do <sc>XI</sc> Curso Regular de Treinamento em Habitação do <sc>CINVA</sc>. Realizado em 1963 na capital colombiana, centrou-se no estudo de localidades da região de Engativá (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref26">Paez, 2002</xref>). Apesar de seu engajamento ao longo do curso estar solidamente documentado, revelado em discussões sobre a indústria da construção civil, aspectos ambientais e infraestruturais da programação e construção de habitações (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref47">D’Angles et al., 1963</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref51">Leão, 1963</xref>), é o conteúdo de seu trabalho final que se destaca. Intitulado <italic>Un programa de vivienda por autoconstrucción</italic> e elaborado colaborativamente com Luis Eduardo Casaretto, arquiteto uruguaio, sob orientação de Augusto Enteiche, engenheiro chileno vinculado ao <sc>CINVA</sc>, o trabalho desenvolve uma “investigação socioeconômica da população de Dois Unidos, comunidade rural-urbana em Recife”, capital de Pernambuco. A partir dela, são estabelecidos os fundamentos de um programa habitacional por autoconstrução: “necessidades construtivas, o orçamento do Programa, o financiamento, o programa urbanístico e o regulamento do projeto” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref52">Leão &amp; Casaretto, 1963</xref>, p. 3, tradução nossa).</p>
<p>A partir desse esforço didático dos dois alunos-bolsistas, algumas considerações críticas emergem. Observa-se, primeiramente, a transposição da metodologia experimental em planejamento territorial e programação habitacional do <sc>CINVA</sc> para uma realidade socioespacial distinta da colombiana e de seus territórios periurbanos – chegando a indicar a adoção de processos construtivos atualizados tecnologicamente pela instituição interamericana para a realidade brasileira, como a fabricação de blocos de solo-cimento com a utilização das máquinas <sc>CINVA</sc>-<sc>RAM</sc>.<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn5">5 </xref>
</sup>Leão e Casaretto não tomam o território latino-americano como um todo homogêneo, reconhecendo antes o conjunto de estruturas constitutivas compartilhadas entre seus países, refletidas nos padrões de ocupação e significação de seus territórios – o que permitiria, então, a adoção de estratégias similares para o desenvolvimento local. Uma segunda reflexão crítica pode ser tecida a partir da caracterização de Dois Unidos, situada em um território periurbano do município de Recife, como uma “comunidade rural-urbana”. Esse conceito aparece mais bem sintetizado no próprio neologismo “rurbano”, originalmente cunhado em inglês por Sorokin, Zimmerman e Galpin em 1930 e traduzido para o português pelo intelectual pernambucano Gilberto Freyre: a “conjugação entre os modos de vida rural e urbano”, resultado da aproximação dos valores de cada uma das duas situações originais na constituição de uma terceira categoria autônoma (Freyre, 1982, como citado por <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref37">Souza, 2009</xref>, p. 182). Não é coincidência a presença de Freyre nessa cena: ainda na primeira metade do século <sc>XX</sc>, ele já demonstrava especial interesse pelas transformações socioespaciais observadas em seu estado, que passaria da <italic>Casa-grande e senzala </italic>(1933) aos <italic>Sobrados e mucambos</italic> (1936). Em 1949, Freyre fundou o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (<sc>IJNPS</sc>), voltado ao estudo socioeconômico do homem e das condições de vida no Nordeste. Nele foram produzidas investigações pioneiras sobre as condições da vida rural em Pernambuco, difundidas em publicações sobre a ordem fundiária, as dinâmicas migratórias campo-cidade e as características habitacionais regionais (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref53">Leonard, 1960</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref54">Melo, 1961</xref>).</p>
<p>Insere-se nesse panorama a própria assunção de Carneiro à Diretoria do Departamento de Construções do <sc>SSCM</sc>, posição por ele já ocupada em 1965 (<sc/>
<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref45">
<sc>CINVA</sc> &amp; <sc>SUDENE</sc>, 1966</xref>). Criado ainda em 1945 como autarquia ligada ao Governo do Estado de Pernambuco, o órgão foi pioneiro na aproximação do poder público à temática da habitação de interesse social – ainda que, em sua origem, estivesse preocupado com a estrita erradicação dos mocambos pernambucanos (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref19">Inglez de Souza, 2009</xref>). Além disso, também foi pioneiro no enfoque dado à habitação rural, tendo financiado aquele que é considerado o primeiro estudo sistemático sobre o tema no leste de Pernambuco (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref53">Leonard, 1960</xref>). O <sc>SSCM</sc> passou por reorientação durante a gestão estadual de Miguel Arraes (1963-1964), quando foi presidido pelo arquiteto Gildo Guerra<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref>
</sup> (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref19">Inglez de Souza, 2009</xref>). A nova “Política Social do Mocambo” (<sc/>
<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref63">
<sc>SSCM</sc>, 1963</xref>) então adotada acompanharia o próprio desenvolvimento da experiência de Cajueiro Seco entre 1963 e 1964, resultado de uma parceria conjunta entre o órgão, a Faculdade de Arquitetura da atual Universidade Federal de Pernambuco (<sc>UFPE</sc>) e o <sc>SSCM</sc>. Na ocasião, foi realizado o reassentamento de uma “comunidade rurbana” – ou então mesmo “ex-rural”, nas palavras de Bardi (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref41">1967</xref>)  – em Jaboatão dos Gurarapes, nas franjas de Recife. Articulando incentivos institucionais, trabalho social dirigido e esforço autônomo de seus moradores, estes foram fixados à terra sobre um ordenamento fundiário regular e abrigados em casas autoconstruídas, com vedação em placas pré-fabricadas de taipa-de-mão (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref19">Inglez de Souza, 2009</xref>). Compreender a trajetória acadêmica e profissional de Carneiro inserindo-a nesse tempo e lugar históricos, marcados pela atuação das instituições em questão, confere especial significado à sua circulação profissional.</p>
</sec>
<sec>
<title>
<bold> Gerson Sampaio, arquiteto: os caminhos interinstitucionais da habitação rural </bold>
</title>
<p>Sabe-se que o pernambucano Gerson Marinho Sampaio foi admitido na primeira turma do Curso de Formação de Oficiais Aviadores e Intendentes do Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (<sc>ITA</sc>) em 1950, sediado no interior do estado de São Paulo. Apesar disso, não foram localizados registros conclusivos sobre sua graduação ou mesmo o ingresso no curso (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref50">“Iniciados os exames de admissão ao Instituto Tecnológico da Aeronáutica”, 1950</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref60">“Notícias da Aeronáutica: Instituto Tecnológico”, 1950</xref>). Em 1958 ele já era formalmente identificado como arquiteto integrado ao corpo técnico da <sc>ANCAR</sc>, quando participou como aluno-bolsista da primeira edição do Curso Regional de Habitação Rural<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref>
</sup> do <sc>CINVA</sc>, realizado em Viçosa, no estado de Minas Gerais (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref6">Carvalho, 2021</xref>).</p>
<p>Viabilizada através de um convênio entre o <sc>CINVA</sc> e a Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural (<sc>ABCAR</sc>), a organização do curso na cidade de Viçosa esteve vinculada ao desejo expresso da entidade extensionista brasileira de capacitar seus profissionais para lidar com a realidade nacional rural em seus distintos aspectos – preocupação já verificada entre círculos acadêmicos e profissionais em outras partes da América Latina (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref6">Carvalho, 2021</xref>). Sabe-se que a <sc>ANCAR</sc>, como representante nordestina da <sc>ABCAR</sc>, compartilhava dos mesmos dilemas naquele momento. No marco do acordo que firmou na primeira metade dos anos 1950 com a Fundação da Casa Popular (<sc>FCP</sc>), órgão nacional responsável pela centralização da política habitacional brasileira no período, aquela instituição nordestina não economizou esforços para capacitar seus profissionais na temática específica da habitação rural. Não apenas o tema passou a ser incluído nos cursos de treinamento regularmente aplicados pela <sc>ANCAR</sc> a todo seu corpo técnico, como foi organizada e executada uma “pesquisa-piloto” sobre as condições de moradia nos territórios interioranos de Pernambuco. Liderada pelo arquiteto panamenho Hugo Navarro,<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref>
</sup> a iniciativa buscou constituir um primeiro panorama da realidade econômica-social regional a partir do componente habitacional (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref42">Bezerra, 1960</xref>). Essa investigação foi consolidada em <italic>Pesquisa-piloto para um programa de habitação rural no Nordeste</italic>, obra pioneira na temática da programação habitacional rural na região (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref59">Navarro, 1955</xref>). Esse panorama singular possibilita hipotetizar, portanto, que Sampaio participou do Curso Regional de Habitação Rural em Viçosa – primeira edição de um curso de capacitação técnica-profissional realizado pelo <sc>CINVA</sc> fora da Colômbia – sob orientação da própria <sc>ANCAR</sc>, na esteira das preocupações do sistema extensionista brasileiro quanto à capacitação técnica de seus profissionais naquelas temáticas.</p>
<p>Essa condição torna-se especialmente interessante quando se verifica a presença de Sampaio em registros internos da <sc>SUDENE</sc>, datados de finais de 1961, listado dentre os técnicos auxiliares vinculados temporariamente ao órgão (<xref ref-type="fig" rid="gf2">Figura 2</xref>). Alocado na Divisão de Povoamento e Colonização, o arquiteto marcou presença na <sc>SUDENE</sc>, portanto, antes mesmo da criação de sua Divisão de Habitação e de sua equipe de Política e Programação Habitacional (<sc/>
<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref64">
<sc>SUDENE</sc>, 1962</xref>). Embora escassas as informações sobre a constituição e atuação deste núcleo, a identificação de publicações como <italic>Programa de habitação para o Nordeste</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref61">Rocha et al., 1965</xref>) evidencia os primeiros esforços da <sc>SUDENE</sc> em abordar sistematicamente a questão habitacional. Nesse contexto, o órgão de planejamento regional desenvolveu pela primeira vez um extenso levantamento bibliográfico e estatístico autoral sobre as condições das habitações nordestinas, delineando um roteiro minucioso para a programação habitacional regional. Esse esforço investigativo esteve acompanhado pelo desenvolvimento de trabalhos técnicos singulares, como a experiência de Cajueiro Seco, na qual a <sc>SUDENE</sc> esteve envolvida. Vale destacar que o convênio entre a <sc>UFPE</sc> e a <sc>SUDENE</sc>, aliás, era coordenado por Neide de Azevedo Mota,<sup>
<xref ref-type="fn" rid="fn9">9</xref>
</sup> arquiteta pernambucana que, em sua estreita aproximação à <sc>ESS-PE</sc>, colaborou intensamente com a assistente social Hebe Gonçalves (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref24">Naslavsky &amp; Valença, 2019</xref>). À luz desse panorama de temporalidades, é plausível sugerir que a circulação pioneira de Sampaio – desde a <sc>ANCAR</sc> até a <sc>SUDENE</sc> – com breve passagem pelo Curso Regional de Habitação Rural oferecido pelo <sc>CINVA</sc> em Viçosa – tenha influenciado a introdução e consolidação da temática habitacional na pauta do órgão de planejamento regional brasileiro. Embora não se possa atribuir exclusivamente a Sampaio o início das discussões na temática na <sc>SUDENE</sc>, tampouco se deve subestimar a influência de seus aportes. É importante reconhecer o ambiente acadêmico-profissional no qual estava inserido, cercado de técnicos que viriam a oferecer contribuições autorais para o debate coletivo, entre pesquisas, propostas e interpretações na interface entre o planejamento regional e a programação habitacional (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref39">Almeida, 1965</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref40">1966</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref55">Mesquita, 1965</xref>) (<xref ref-type="fig" rid="gf3">Figura 3</xref>).</p>
<p>
<fig id="gf2">
<label>
<bold>
<sc>figura 2</sc>
</bold>
</label>
<caption>
<title>
<bold>Listado de técnicos e técnicos auxiliares contratados temporariamente pela SUDENE e ativos ao final de 1961, entre os quais Gerson Marinho Sampaio</bold>
</title>
</caption>
<alt-text>figura 2 Listado de técnicos e técnicos auxiliares contratados temporariamente pela SUDENE e ativos ao final de 1961, entre os quais Gerson Marinho Sampaio</alt-text>
<graphic xlink:href="19682629010_gf9.png" position="anchor" orientation="portrait">
<alt-text>figura 2 Listado de técnicos e técnicos auxiliares contratados temporariamente pela SUDENE e ativos ao final de 1961, entre os quais Gerson Marinho Sampaio</alt-text>
</graphic>
<attrib>
<sc> SUDENE (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref64">1962</xref>). Acervo da Biblioteca Celso Furtado (SUDENE). </sc>
</attrib>
</fig>
</p>
<p>Quando se considera, finalmente, que a sexta edição do Curso Regional de Habitação Rural do <sc>CINVA</sc> foi realizada no interior de Pernambuco em um momento imediatamente posterior a esse, em 1965, torna-se possível hipotetizar a influência de Sampaio para a própria viabilização da parceria inédita entre a instituição interamericana e a <sc>SUDENE</sc>. Embora seja uma conjectura, essa possibilidade encontra respaldo em precedente histórico: Carvalho (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref6">2021</xref>) revela que a participação do arquiteto brasileiro Sylvio de Niemeyer, Chefe da Divisão de Habitação e Construções Rurais da <sc>ABCAR</sc>, no Curso Regular de Treinamento em Habitação do <sc>CINVA</sc> em 1956, teve influência fundamental sobre a organização do Curso Regional de Habitação Rural em Viçosa, realizado dois anos depois. Na ocasião, foi o próprio Niemeyer quem propôs a materialização do evento, encaminhando a ideia ao Diretor Executivo do Programa de Cooperação Técnica da <sc>OEA</sc>. O projeto, após sua aprovação, proporcionou ao órgão interamericano a possibilidade de expandir a oferta de seus cursos para outras regiões da América Latina, estabelecendo parcerias estratégicas com instituições de ensino, planejamento e programação habitacional locais, e cumprindo o objetivo último para o qual foi criado. Essa iniciativa atendia simultaneamente aos interesses dessas outras instituições latino-americanas, que buscavam meios para capacitar tecnicamente seus profissionais para a lida dos dilemas rurais regionais (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref6">Carvalho, 2021</xref>). Nesse cenário, a criação da Divisão de Habitação na <sc>SUDENE</sc> em período anterior a 1965 pode ter consolidado o caminho para essa aproximação interinstitucional, alinhando-se ao interesse da instituição nordestina em capacitar tecnicamente seus profissionais na temática, manifestado em ocasiões anteriores (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref8">Cruz, 2023</xref>).</p>
<p>
<fig id="gf3">
<label>
<bold>
<sc>figura 3</sc>
</bold>
</label>
<caption>
<title>
<bold>Trajetórias individuais, circulação profissional interinstitucional e contexto geopolítico latino-americano (1945-1965)</bold>
</title>
</caption>
<alt-text>figura 3 Trajetórias individuais, circulação profissional interinstitucional e contexto geopolítico latino-americano (1945-1965)</alt-text>
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<alt-text>figura 3 Trajetórias individuais, circulação profissional interinstitucional e contexto geopolítico latino-americano (1945-1965)</alt-text>
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<attrib>
<sc> Elaboração própria. </sc>
</attrib>
</fig>
</p>
</sec>
<sec sec-type="conclusions">
<title>
<bold>Conclusões</bold>
</title>
<p>A conexão <sc>CINVA</sc>-<sc>SUDENE</sc> se materializou, então, na realização da sexta edição do Curso Regional de Habitação Rural em Escada, cidade do interior de Pernambuco, aproximando fisicamente os três atores supracitados em território brasileiro. Durante o evento, Hebe Gonçalves, como professora da <sc>ESS-PE</sc> e assessora da <sc>SUDENE</sc>, ministrou aulas em “Organização e desenvolvimento da comunidade”; Carlos Carneiro, como Diretor do Departamento de Construções do <sc>SSCM</sc>, ministrou aulas na temática do “Financiamento da habitação rural”; Gerson Sampaio, finalmente, identificado como membro efetivo da <sc>SUDENE</sc> e locado em sua Divisão de Habitação, se debruçou sobre temas em “Orçamento, análise de custos, controle e supervisão da construção da habitação rural”. Mantendo o padrão pedagógico característico dos cursos de extensão oferecidos pelo <sc>CINVA</sc>, a multiescalaridade e a interdisciplinaridade regeram seu programa de atividades, dividido entre aulas teóricas e experimentação prática. Ele foi finalizado com o desenvolvimento de um projeto de casa experimental modular e expansível em taipa-de-mão (<sc/>
<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref45">
<sc>CINVA</sc> &amp; <sc>SUDENE</sc>, 1966</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref7">Carvalho et al., 2023</xref>) (Figuras <xref ref-type="fig" rid="gf4">4</xref> e <xref ref-type="fig" rid="gf5">5</xref>).</p>
<p>
<fig id="gf4">
<label>
<bold>
<sc>figura 4</sc>
</bold>
</label>
<caption>
<title>
<bold>Projeto de casa experimental em taipa desenvolvido pelos alunos-bolsistas durante o VI Curso Regional de Habitação Rural em Escada (PE), 1965</bold>
</title>
</caption>
<alt-text>figura 4 Projeto de casa experimental em taipa desenvolvido pelos alunos-bolsistas durante o VI Curso Regional de Habitação Rural em Escada (PE), 1965</alt-text>
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<alt-text>figura 4 Projeto de casa experimental em taipa desenvolvido pelos alunos-bolsistas durante o VI Curso Regional de Habitação Rural em Escada (PE), 1965</alt-text>
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<attrib>
<sc> CINVA e SUDENE (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref45">1966</xref>). Fondo CINVA, Archivo Central e Histórico (UNAL). </sc>
</attrib>
</fig>
</p>
<p>
<fig id="gf5">
<label>
<bold>
<sc>figura 5</sc>
</bold>
</label>
<caption>
<title>
<bold>Fotografia da “Casa Experimental” em taipa-de-mão construída pela SUDENE no interior de Pernambuco no primeiro semestre de 1966, possivelmente influenciada pelo projeto desenvolvido durante o VI Curso Regional de Habitação Rural</bold>
</title>
</caption>
<alt-text>figura 5 Fotografia da “Casa Experimental” em taipa-de-mão construída pela SUDENE no interior de Pernambuco no primeiro semestre de 1966, possivelmente influenciada pelo projeto desenvolvido durante o VI Curso Regional de Habitação Rural</alt-text>
<graphic xlink:href="19682629010_gf12.png" position="anchor" orientation="portrait">
<alt-text>figura 5 Fotografia da “Casa Experimental” em taipa-de-mão construída pela SUDENE no interior de Pernambuco no primeiro semestre de 1966, possivelmente influenciada pelo projeto desenvolvido durante o VI Curso Regional de Habitação Rural</alt-text>
</graphic>
<attrib>
<sc> SUDENE (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref66">1966</xref>). Acervo da Biblioteca Celso Furtado (SUDENE). </sc>
</attrib>
</fig>
</p>
<p>A origem nacional e a formação acadêmica dos alunos-bolsistas matriculados no curso evidenciam a extensão e complexidade das redes latino-americanas de difusão de ideias e saberes em planejamento territorial e programação habitacional. Serão os próprios professores brasileiros, egressos do <sc>CINVA</sc> e atravessados por aportes particulares acumulados ao longo de suas trajetórias individuais, que difundirão seus saberes e ideias para alunos argentinos, bolivianos, paraguaios, uruguaios e, também, brasileiros. O corpo discente apresentava um perfil multidisciplinar, compreendendo arquitetos, assistentes sociais, cientistas sociais, engenheiros agrônomos, geógrafos, pedagogos e outros (<sc/>
<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref45">
<sc>CINVA</sc> &amp; <sc>SUDENE</sc>, 1966</xref>). Dessa forma, consolidou-se um ciclo de difusão do conhecimento que colaborou para a cristalização das redes latino-americanas dos campos e a projeção de suas ideias e saberes (<xref ref-type="fig" rid="gf6">Figura 6</xref>).</p>
<p>
<fig id="gf6">
<label>
<bold>
<sc>figura 6</sc>
</bold>
</label>
<caption>
<title>
<bold>Cristalização das redes latino-americanas dos campos: origem nacional e formação acadêmica dos alunos-bolsistas do VI Curso Regional de Habitação Rural</bold>
</title>
</caption>
<alt-text>figura 6 Cristalização das redes latino-americanas dos campos: origem nacional e formação acadêmica dos alunos-bolsistas do VI Curso Regional de Habitação Rural</alt-text>
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<alt-text>figura 6 Cristalização das redes latino-americanas dos campos: origem nacional e formação acadêmica dos alunos-bolsistas do VI Curso Regional de Habitação Rural</alt-text>
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<attrib>
<sc> Elaboração própria com base em CINVA e SUDENE (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref45">1966</xref>). </sc>
</attrib>
</fig>
</p>
<p>O esforço de programação habitacional do Nordeste do Brasil, formalmente incorporado ao programa da <sc>SUDENE</sc> a partir da criação de sua Divisão de Habitação e da equipe de Política e Programação Habitacional, seria progressivamente esvaziado a partir de 1965. A criação do Banco Nacional de Habitação (<sc>BNH</sc>), que centralizou a distribuição dos aportes financeiros federais para as iniciativas habitacionais dos entes federados, deslocou a potência propositiva regional na temática da <sc>SUDENE</sc> – onde mal pôde consolidar-se – para si. Essa situação foi expressamente denunciada por integrantes do Conselho Deliberativo deste órgão, que apontavam a constituição de uma relação de subordinação contrária à própria lógica do planejamento (<sc/>
<sc/>
<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref65">
<sc>SUDENE</sc>, 1965</xref>). Cerceada a autoridade do órgão de planejamento e afastada a possibilidade concreta de centralizar a programação habitacional regional, a <sc>SUDENE</sc> passou a debruçar-se sobre aspectos teórico-metodológicos do tema, produzindo publicações de orientação para os técnicos das administrações estaduais nordestinas (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref56">Mesquita, 1970</xref>). Por outro lado, também se dedicou à experimentação técnica de materiais e métodos construtivos, vinculando-se a instituições de ensino nordestinas e complementando o trabalho de outros órgãos estaduais e federais (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref8">Cruz, 2023</xref>). Esse breve trecho da história do debate e da programação habitacional no Nordeste, revelado em sua interface com a criação e a atuação da <sc>SUDENE</sc>, o particulariza em relação à trajetória do <sc>CINVA</sc>, que seguiu debruçado autonomamente sobre a dupla programação habitacional/experimentação técnico-construtiva até 1972. Essa breve sobrevida do órgão interamericano, associada a um período de diversificação temática e à multiplicação de projetos urbanos e rurais nos cursos de extensão aplicados pela América Latina, teve fim com sua extinção, na esteira de uma crescente disparidade entre o número de cursos oferecidos e o de projetos efetivamente desenvolvidos  (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref29">Pino et al., 2024c</xref>). Naquele início dos anos 1970, o <sc>CINVA</sc> foi substituído pelo <italic>Servicio Informativo Interamericano sobre el Desarrollo Urbano</italic> (<sc>SINDU</sc>), cujo principal objetivo passava a ser “fornecer documentação sobre temas relacionados com o desenvolvimento urbano” (Noticias de Proa, 1972, p. 5, citado por <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref28">Pino et al., 2024b</xref>, p. 23, tradução nossa).</p>
<p>Evidenciando a circulação transnacional de profissionais, ideias e saberes em Arquitetura, Engenharia e Ciências Sociais pela América Latina no pós-guerra, mobilizadas através de estratégias de planejamento integral e programação habitacional, ficam devidamente inseridos os círculos acadêmico-profissionais brasileiros nas redes latino-americanas desses campos. A contribuição específica para o avanço da historiografia sobre a constituição do planejamento territorial no Brasil revela-se, então, no descortinamento de sua interface particular com a temática habitacional a partir de um viés transnacional (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref38">Weinstein, 2013</xref>). Finalmente, ao jogar luz sobre as condições de introdução e de consolidação da temática habitacional na pauta da <sc>SUDENE</sc>, contribui-se pontualmente para a complexificação da história do órgão, apenas recentemente investigado a partir dessa perspectiva, ainda afastada, entretanto, de seus vínculos latino-americanos.</p>
<p>A conexão <sc>CINVA</sc>-<sc>SUDENE</sc> insere-se, pois, no centro de um projeto colaborativo de desenvolvimento regional, assentado na perspectiva da construção coletiva de conhecimento, alavancada pela circulação de profissionais e pela consequente difusão de suas ideias e saberes. As trajetórias de Hebe Gonçalves, Carlos Carneiro e Gerson Sampaio representam, nesse panorama, três laços de uma rede mais complexa, cuja identificação começa a se consolidar desde uma perspectiva transnacional e latino-americana, agregando novos aportes a uma construção coletiva (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref27">Pino et al., 2024a</xref>). Ao fim e ao cabo, conclui-se que o Brasil, através de seus círculos acadêmicos, profissionais e institucionais, estava definitivamente inserido nessa rede, agregando-lhe saberes e ideias próprios e sendo naturalmente influenciado por aportes estrangeiros. Interpretá-lo à luz do projeto latino-americano no qual se inseriu é, portanto, um esforço central para as narrativas históricas que ainda serão construídas.</p>
</sec>
</body>
<back>
<ack>
<title>Agradecimentos</title>
<p>Registro agradecimentos à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (<sc>FAPESP</sc>), pelo financiamento das investigações no Brasil e na Colômbia (Processos Nº 2022/13324-8 e Nº 2023/05327-0); à Comissão Científica do <italic>ii</italic>
<italic> Seminário Internacional Investigação </italic>
<italic>cinva</italic>, na figura da Prof.ª Dr.ª Ana Patricia Montoya Pino (<sc>IEU</sc>-<sc>UNAL</sc>), durante o qual as ideias deste trabalho foram apresentadas pela primeira vez; e aos colegas do Auxílio à Pesquisa Regular <italic>Habitação e desenvolvimento na América Latina: o Centro Interamericano de Vivienda y Planeamiento (</italic>
<italic>cinva</italic>
<italic>) como zona transnacional</italic> (Processo <sc>FAPESP</sc> Nº 2022/07404-9), interlocutores de referência neste esforço de construção coletiva. Finalmente, registro minha sincera gratidão à Prof.ª Dr.ª Nilce Cristina Aravecchia-Botas, pelas sugestões a este texto e por uma orientação reflexiva, crítica, e profundamente generosa.</p>
</ack>
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<title>Referências bibliográficas</title>
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<source>Do humanismo ao assistencialismo: O crutac no Estado Militar (1966-1985) (O caso do Rio Grande do Norte e do Maranhão).</source>
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<p>No Brasil, essa rede investigativa baseia-se no Auxílio à Pesquisa Regular “Habitação e desenvolvimento na América Latina: o <italic>Centro Interamericano de Vivienda y Planeamiento </italic>(<sc>CINVA</sc>) como zona transnacional”, fomentado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Processo <sc>FAPESP</sc>
<sc> Nº 2022/07404-9</sc>). Liderado pela Prof.ª Dr.ª Nilce Cristina Aravecchia-Botas (<sc>FAU-USP</sc>), é integrado por doutorandos, graduandos e outros pesquisadores brasileiros e estrangeiros, entre os quais o autor deste artigo. Recentemente, os esforços dessa rede internacional se materializaram na publicação de “<sc>CINVA</sc>: un proyecto latinoamericano 1951-1972”, pela Editora Universidad Nacional de Colombia (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref27">Pino et al., 2024a</xref>).</p>
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<fn id="fn2" fn-type="other">
<label>2</label>
<p>Podem ser rapidamente identificadas ao menos oito variantes do termo na América Latina: favelas no Brasil, <italic>tugurios</italic> na Colômbia, <italic>barriadas</italic> no Peru, <italic>villas miseria</italic> na Argentina, <italic>cantegriles</italic> no Uruguai, <italic>ciudades perdidas</italic> no México, <italic>poblaciones callampa</italic> no Chile, e <italic>rancheríos</italic> na Venezuela (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref18">Gorelik, 2022</xref>). Uma aproximação a nível regional poderia, ainda, ampliar significativamente esse listado – a exemplo, no Brasil, da variação <italic>mocambo</italic>, minuciosamente investigada por Lira (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref22">1996</xref>).</p>
</fn>
<fn id="fn3" fn-type="other">
<label>3</label>
<p>Traduzido pelo autor a partir da nomenclatura original em inglês, <italic>Point Four Program</italic>.</p>
</fn>
<fn id="fn4" fn-type="other">
<label>4</label>
<p>Traduzido pelo autor a partir da nomenclatura original em espanhol, <italic>Curso Regular de Adiestramiento en Vivienda</italic>.</p>
</fn>
<fn id="fn5" fn-type="other">
<label>5</label>
<p>A máquina <sc>CINVA</sc>-<sc>RAM</sc>, desenhada pelo engenheiro chileno Raúl Ramírez, instrutor do <sc>CINVA</sc>, possibilita a rápida fabricação de blocos regulares de solo-cimento para utilização na construção de edificações. Destaca-se pela facilidade de seu transporte e pela extrema simplicidade de seu manuseio, podendo ser operada por uma única pessoa. Ainda é utilizada em países americanos, africanos e asiáticos (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref11">Escorcia-Oyola, 2022</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref30">Ramírez Nieto et al., 2024</xref>).</p>
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<fn id="fn6" fn-type="other">
<label>6</label>
<p>Após seu afastamento compulsório da Direção do <sc>SSCM</sc>, consequência do Golpe Civil-Militar no Brasil em 1964, Guerra passou a ocupar cargo no Banco Interamericano de Desenvolvimento (<sc>BID</sc>) (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref19">Inglez de Souza, 2009</xref>). Em 1967, foi professor na segunda edição do Curso de Habitação Cooperativa do <sc>CINVA</sc> (<italic>Curso de Vivienda Cooperativa</italic>), ocasião na qual ministrou três conferências sobre financiamento habitacional (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref26">Paez, 2002</xref>).</p>
</fn>
<fn id="fn7" fn-type="other">
<label>7</label>
<p>Traduzido pelo autor a partir da nomenclatura original em espanhol, <italic>Curso Regional de Vivienda Rural</italic>.</p>
</fn>
<fn id="fn8" fn-type="other">
<label>8</label>
<p>Navarro também havia sido aluno-bolsista do <sc>CINVA</sc> no marco do <sc>II</sc> Curso Regular de Treinamento em Habitação, realizado em 1953 na Colômbia. Augusto Enteiche, engenheiro chileno que orientou a monografia final de Carlos Carneiro no <sc>XI</sc> Curso Regular de Treinamento em Habitação de 1963, também ministrou aulas no Curso de 1953 (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref26">Paez, 2002</xref>).</p>
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<fn id="fn9" fn-type="other">
<label>9</label>
<p>Outras arquitetas, como Edileusa Dantas de Oliveira Rocha e Liana de Barros Mesquita, também integravam a Divisão de Habitação da <sc>SUDENE</sc> neste momento, produzindo estudos na temática para orientar a atuação do órgão (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref61">Rocha et al., 1965</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref57">Mesquita &amp; Sampaio, 1965</xref>). Apesar de sua centralidade para a compreensão das primeiras discussões sobre habitação no interior da <sc>SUDENE</sc>, o perfil biográfico dessas personagens foi traçado anteriormente por Naslavsky e Valença (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_19682629010_ref24">2019</xref>) – razão pela qual decidiu-se centrar o presente trabalho sobre atores ainda não evidenciados pela historiografia.</p>
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