Reseñas y Misceláneos
Cruz, Fabiana Thomé da; Matte, Alessandra & Schneider, Sérgio (Organizadores). PRODUÇÃO, CONSUMO E ABASTECIMENTO DE ALIMENTOS: DESAFIOS E NOVAS ESTRATÉGIAS. Porto Alegre: Editora da UFRGS, Série Estudos Rurais, 2016, 324 p. ISBN: 978-85-386-0288-0
Cruz, Fabiana Thomé da; Matte, Alessandra & Schneider, Sérgio (Organizadores). PRODUÇÃO, CONSUMO E ABASTECIMENTO DE ALIMENTOS: DESAFIOS E NOVAS ESTRATÉGIAS. Porto Alegre: Editora da UFRGS, Série Estudos Rurais, 2016, 324 p. ISBN: 978-85-386-0288-0
Agroalimentaria, vol. 23, núm. 45, pp. 213-218, 2017
Universidad de los Andes

![]() | Cruz Fabiana Thomé da, Matte Alessandra, Schneider Sérgio. PRODUÇÃO, CONSUMO E ABASTECIMENTO DE ALIMENTOS: DESAFIOS E NOVAS ESTRATÉGIAS. 2016. Porto Alegre. Editora da UFRGS. 324pp.. 978-85-386-0288-0 |
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Da terra a mesa: desafios e perspectivas do sistema agroalimentar hoje Este livro tem por objetivo estimular a reflexão acerca de experiências e estratégias relacionadas ao abastecimento e ao consumo alimentar capazes de direcionar para o debate sobre desenvolvimento rural sustentável. A crítica e as perspectivas debatidas se apresentam como importantes desafios a serem analisados e enfrentados para esta e para as próximas gerações. As abordagens e as experiências apresentadas neste livro representam uma forma de observar o mundo, a partir da lente da alimentação, com o olhar de cidadãos. Para além de reflexões acadêmicas extremamente relevantes do ponto de vista de agenda de pesquisa, o livro também traz contribuições quanto ao ambiente e sociedade da qual participamos e construímos.
No que se refere à estrutura do livro, no primeiro capítulo, os organizadores Cruz, Matte e Schneider (2016) contextualizam questões relacionadas ao sistema agroalimentar de modo geral, tais como o aumento populacional e desafios demográficos, aumento da expectativa de vida, mudanças climáticas, a escassez dos recursos e, consequentemente, a necessidade de produzir alimentos e atender a demanda populacional. Em relação aos recursos naturais, os desafíos são equacionar a sua disponibilidade com a demanda pela água, solo, acesso às sementes e à biodiversidade, às fontes energéticas e as matrizes utilizadas até hoje (dilema das fontes renováveis e não-renováveis). Levantam ainda os aspectos operacionais como quanto ao papel das pessoas no processo de produção. Nesse sentido, aspectos estratégicos são apresentados, como a problemática da qualidade, segurança e disponibilidade dos alimentos e a sustentabilidade das cadeias agroalimentares. Assim evidenciam outros dilemas sociais, como a saúde humana e ambiental, relacionada a energia e a mobilidade, o desenvolvimento das cidades e a crescente urbanização do planeta. Há ainda os conflitos por acesso aos recursos e aos fatores de produção (desde recursos financeiros, como acesso à terra, mão de obra, etc.). Apresentam-se também as problemáticas quanto ao impacto tecnológico da industrialização do sistema alimentar e de toda a complexidade da cadeia produtiva ex ante e ex post. Diante desta complexidade é que há a concentração das relações de produção e abastecimento, que vai desde o acesso aos recursos, a produção dos alimentos e a geração dos resíduos. Isso impacta na saúde pública e coletiva, e faz-se necessário tratar as diferenças em termos de territórios, seja em nível regional, nacional ou mundial. Questionam as diferenças que se apresentam intrínsecas aos sistemas de produção agroalimentar e as contraposições existentes entre uma industrialização e modernização da agricultura e a produção de alimentos em cadeias localizadas e tradicionais.
O conteúdo do livro busca analisar e discutir críticas em relação ao que está sendo pensado estrategicamente pelos tomadores de decisão, pelos atores envolvidos no processo e pelos estudiosos do tema para solucionar ou orientar o futuro do abastecimento alimentar da sociedade, cada vez mais urbanizada. É evidenciada a necessidade de integração entre os atores, e estes com as etapas da cadeia e da complementariedade interdisciplinar para a análise do sistema.
O livro divide-se em duas partes. Inicialmente, apresentam seis capítulos em que, por meio de abordagens teóricas, analíticas e empíricas, os autores discutem distintas dimensões do sistema agroalimentar. Na segunda parte, são relatados experiências e estudos de casos ilustrativos de estratégias de abastecimento alimentar e toda a sua conexão com o sistema, distribuídas nos demais 14 capítulos da obra. Quanto aos aspectos teóricos, inicia com uma análise sobre o possível atraso em se construir uma ciência ou um «corpo científico» próprio para os estudos da sociologia da alimentação. Apesar do reconhecimento internacional, Díaz-Méndez e García-Espejo (2016) destacam como ainda são recentes os estudos nessa área. Esse atraso se refere, segundo as autoras, a quatro fatores: diversidade e amplitude dos temas; dificuldade em delimitar e/ou caracterizar as tendências; multidisciplinariedade que inibe a profundidade dos estudos; e necessidade de integração metodológica. Certamente, um desafio para as áreas disciplinares que ainda carecem do desenvolvimento de uma pesquisa mais integradora, que possam apropriar-se de conteúdos tão sistêmicos e desprovidos de interdisciplinaridade em suas análises.
Uma análise histórica retrata os desafios consequentes das opções sociais, políticas e econômicas empreendidas ao longo dos tempos. Início dos anos 1990, temas como a crescente industrialização da agricultura, a globalização dos mercados alimentares e o consequente impacto em termos de questões nutricionais e da dieta da população destacam o afastamento entre a produção e consumo, especialmente devido a organização da cadeia alimentar passar da escala tradicional/artesanal para a industrial. O tema da alimentação começa a trazer algumas reflexões sobre as incertezas acerca «do que nos alimentamos», e passa-se a questionar a origem dos alimentos e os riscos em termos de segurança dos alimentos dentro da cadeia. Isso resgata uma nova lógica sobre a produção alimentar não mais relacionada ao preço, mas a qualidade e a segurança, associando o favorecimento das cadeias locais. O Estado passa a ser agente neste ambiente, regulando o sistema agroalimentar, mas ainda incapaz de intervir em mudanças quanto as práticas de consumo.
Já nos anos 2000 os temas se direcionam no resgate do novo papel e função do agricultor e sua relação para com o desenvolvimento rural, revitalizando-o como «protetor» do espaço rural, reconectando-se com o consumidor e valorizando a interação entre homem e natureza, produção e consumo. O debate teórico discorre sobre a convencionalização da agricultura associada a economia de mercado capitalista versus estratégias alternativas (de resistência) de produção em relação às cadeias convencionais de produção, distribuição e consumo.
Outros desafios dos tempos «pós-modernos» são apresentados, como os estudos sobre as dietas alimentares, relacionando questões como corpo, saúde e alimentação, evidenciando a multidimensionalidade do tema, assim como o processo de individualização das escolhas alimentares, o declínio dos padrões alimentares culturais e de um contexto em que a diversidade dificulta estas escolhas. Os problemas são relacionados também as questões de gênero, estética e fatores psicossociais associados a condução das dietas alimentares, resultando não apenas na fome e pobreza, mas no surgimento da obesidade como um elemento que evidencia estes contrastes relacionados a alimentação.
Nesse sentido, Cunha (2016) sugere questionar o abastecimento e como realizar o encurtamento das cadeias. Conceitualmente, caracteriza as cadeias e a suas configurações dentro de um padrão já «velhoobsolteto». Em contraste, destaca e valoriza as formas alternativas de expressar um modelo «novo-ancestral», atribuindo novas maneiras de reconhecer o valor dos alimentos e das transações feitas de forma personalizada, resgatando as escolhas a partir de uma intenção própria do consumidor.
As conexões e associações entre o local, relações sociais e os circuitos curtos de produção são resgatados com uma retomada dos padrões ancestrais de produção e consumo. A partir destas reflexões, analisam-se as centrais de abastecimento, segundo Cunha (2016), transmitem a essência do padrão velhoobsoleto, e para tanto, precisa transformar sua configuração com o objetivo de não apenas tornar-se eficiente em seu processo logístico, mas também gerar novos valores.
É inegável que as transformações sociais e econômicas estejam bastante rápidas, e estamos em uma fase de transição onde as pessoas já estão praticando modelos alternativos. Espera-se que essas alternativas que possam desempenhar sua função e papel ativo no desenvolvimento rural sustentável por meio de programas e projetos estratégicos e que se conectem com o local e seu circuito curto. Como exemplos concretos, temos as Comunidades que Sustentam a Agricultura (do inglês Community Supported Agriculture, ou CSAs), os grupos de consumo solidários (GAS), as cooperativas de consumo, as feiras ecológicas e outros canais de acesso aos alimentos locais e diretamente dos produtores, possibilitando a interação deste com o consumidor, uma relação de resgate com o tradicional, mas facetada com o novo modelo de sociedade e padrão de consumo.
Alguns desafios são oriundos dos modelos de produção baseados na monocultura e na baixa diversificação, que se agrava em relação da urbanização e da infraestrutura logística. Toda esta organização urbana tem marginalizado os pequenos produtores e comerciantes regionais, desafiando a manutenção de um sistema localizado de produção. Acrescenta-se o envelhecimento e a necessidade de renovação das gerações dispostas a enfrentar estes desafios e migrar para um modelo de produção mais alternativo e diversificado.
Friedmann (2016) coloca ainda um tema tão global quando aos sistemas alimentares: as imigrações e o fluxo de pessoas ao redor do globo. O acesso à terra remete para uma readequação do sistema, e a nova onda de imigração parece estar culturalmente adaptada ao modelo de aquisição de alimentos já preparados e importados. Assim, a proposta de renovação das formas de agricultura e sua relação para com o mercado, indicam a necessidade de uma nova política que inclua a proteção das terras, a conexão entre alimentos, consumo e saúde, promovendo melhoria das relações entre os atores, que vise uma renovação econômica, educacional e de infraestrutura.
No âmbito cultural, há uma reflexão acerca da relação entre os indivíduos e os alimentos, em que Barbosa (2016) busca reposicionar a prática da alimentação e o comer como protagonistas. A prática da alimentação se apresenta como um fato social, que agrega muito mais que uma escolha gastronômica, mas um ato social, que congrega ideais políticos, ambientais, éticos, estéticos, morais, ideológicos, simbólicos, identitários, filosóficos, etc. O objetivo é retratar o protagonismo da alimentação e a visibilidade da prática alimentar, abordando mudanças que impactam no cotidiano individual e familiar, na mobilização social, na postura do Estado, enfatizando a dimensão ética nessas relações e as escolhas associadas a elas. Na dimensão estética, caracteriza um processo de ressignificação da alimentação em termos de gastronomia e as novidades em relação a esta visibilidade traduzindo-se num fenômeno atual e que deve ser observado. Uma crítica trazida é sobre a ética e a estética na gastronomia, com esferas simbólicas distintas, mas com diversas interseções.
Para entender o que vem a ser um «consumo sustentável», algumas dimensões são propostas por Fonte (2016). Dentre estas dimensões, este autor propõe observar elementos como: localização, sustentabilidade ambiental, construção da comunidade, ação coletiva e novas infraestruturas de abastecimento, especialmente, considerando os grandes espaços urbanos. O surgimento das condutas alternativas para buscar a sustentabilidade, Lovo (2016) traz experiências como as hortas urbanas e Fonte (2016) os grupos de aquisição solidária (GAS), por exemplo, como reflexos de uma postura que encara os impactos na área da saúde, meio ambiente e resgata movimentos alternativos que possam empoderar as pessoas, desenvolvendo processos de empreendedorismo e inovação social. Uma necessidade, apresentada por Lovo (2016), é reconhecer a existência de um processo de consolidação da agricultura urbana, contextualizando a temática e trazendo uma síntese sobre a construção conceitual destes estudos.
A segunda parte do livro nos brinda com uma série de experiências em andamento e que transportam muitos dos conceitos e abordagens até então apresentadas de maneira mais teórica e analítica. Nesta parte encontram-se casos de redes empresariais vistos na Holanda, redes de agricultores agroecologistas e processos de certificação participativos, redes de pecuaristas familiares, cooperativas agroecológicas e ecologistas, redes e experiências que conectam produtores e consumidores, e uma diversidade de modelos que demonstram que fazer e fazer de maneira diferente, alternativa e colaborativa é possível.
Constam ainda experiências com apoio político e institucional a partir de programas governamentais, e ainda o caso da ampliação das possibilidades de consumo alimentar com a popularização das PANCs – Plantas Alimentícias Não Convencionais. Por fim, a atuação em grupos e redes cooperativas atuando na conexão entre trabalho, renda, alimentação e melhor uso dos recursos.
Os casos empíricos trazem a riqueza de muitas atividades de forma coletiva e que consolidam mais que debater sobre as problemáticas inevitáveis das sociedades urbanizadas e todos os seus impactos. Há espaços para práticas que questionam e enfrentam um modus operandi que aparenta ser única alternativa. Portanto, este livro, que convida aos leitores não apenas para a reflexão, mas também para a ação, apresentase atual e abrangente em termos de conteúdo, abordagens, experiências e práticas em estratégias alimentares e de abastecimento que podem transformar os sistemas agroalimentares locais e a realidade da alimentação na estrutura social e econômica que estamos imersos.
PRODUÇÃO, CONSUMO E ABASTECIMENTO DE ALIMENTOS: DESAFIOS E NOVAS ESTRATÉGIAS


Notas de autor