Resumo: Objetiva-se apresentar uma revisão sistemática da publicação científica nacional e internacional sobre o conflito trabalho-família em executivos entre 2009 e 2014. Para esta revisão foram consultadas três bases indexadoras: PsycINFO, Periódicos CAPES e Scopus. O total de artigos analisados foi 13. Dentre as variáveis estudadas junto ao conflito, destacam-se aquelas associadas à saúde do executivo, gênero, variáveis organizacionais e culturais. Resultados apontam para artigos quantitativos, de origem americana e com ênfase na área de ciências exatas. Ainda, percebe-se a escassez de pesquisas que proponham ações organizacionais para a redução do conflito entre trabalho e família. Sugerese que novas pesquisas utilizem a triangulação de dados e contemplem as diferenças culturais além do contexto pessoal e profissional dos executivos.
Palavras-chave: ConflitoConflito,executivosexecutivos,trabalhotrabalho,famíliafamília,revisão de literaturarevisão de literatura,ConflictoConflicto,ejecutivosejecutivos,trabajotrabajo,familiafamilia,revisión de literaturarevisión de literatura.
Abstract: The goal is to present a national and international systematic review from 2009 until 2014, with the theme of work-family conflict among executives. The search was consulted in three indexed bases: PsycNFO, Periódicos CAPES and Scopus. The total number of papers was 13. Among the studied variables, connected with conflict, stand out: gender, organizational structure and management, satisfaction, turnover and leadership. The results point to mainly quantitative articles, American in origin and emphasizing the area of the exact sciences. Still, one realizes the lack of research proposing organizational actions to reduce conflict between work and family. It is suggested that further researches use triangulation of data and contemplate the cultural differences beyond the personal and professional context of executives.
Keywords: conflict, executives, labour, family, literature review.
Resumen: El objetivo es presentar una revisión sistemática de las publicaciones científicas nacionales e internacionales, desde 2009 hasta 2014, sobre el comportamiento del conflicto trabajo-familia en ejecutivos. Para ello, fueron consultadas tres bases indexadoras: PsycINFO, Periódicos CAPES y Scopus. En total, se analizaron 13 artículos. Entre las variables estudiadas con relación al conflicto, se destacan las relacionadas con la salud del ejecutivo, el género, la organización y la cultura. Los resultados indican que los artículos analizados son en su mayoría cuantitativos, de origen estadounidense y con énfasis en el campo de las ciencias exactas. Además, se percibe la falta de investigaciones que propongan acciones organizacionales para reducir los conflictos entre trabajo y familia. Se sugiere que nuevas investigaciones utilicen la triangulación de datos y contemplen las diferencias culturales, además del contexto personal y profesional de los ejecutivos.
Artigo Originais
Conflito trabalho-família em executivos: uma revisão sistemática de 2009 a 2014
Work-Family conflict among executives: a systematic review from 2009 until 2014
Conflicto trabajo-familia en ejecutivos: una revisión sistemática desde 2009 hasta 2014
Recepção: 31 Maio 2015
Revised document received: 11 Outubro 2015
Aprovação: 24 Junho 2016
Devido à relevância do capital intelectual nas empresas, sabe-se que nenhuma organização consegue manter o bom nível de produtividade sem uma equipe de profissionais preparados. Assim, o fator humano influi de maneira decisiva no nível de desenvolvimento ou deterioração organizacional (Cabrita, 2012). Um dos importantes elementos que constituem o capital humano nas organizações é a figura do executivo. O executivo é o profissional que, em sua empresa, é um dos principais responsáveis por atingir o sucesso organizacional (Robbins, 2005). O trabalho de executivos é caracterizado por altos graus de exigência, dinamismo, agilidade, jornadas estendidas, sobrecarga e necessidade de resultados em prazos reduzidos (Lima, Carvalho Neto, & Tanure, 2012).
A evidente exigência presente no cotidiano desses profissionais, a necessidade de constante atualização e abdicação do tempo direcionado à família em prol das demandas de trabalho (Oltramari, Grisci, & Weber, 2011) tendem a provocar dificuldade de lidarem com as demandas destes dois âmbitos: familiar e laboral (Sorj, Fontes, & Machado, 2007). Ressalta-se que, para que haja investimento na vida profissional, há a necessidade de renunciar à vida pessoal e vice-versa (Henriques, Férez-Carneiro, & Magalhães, 2006). Exemplo disso são os relatos de executivos que têm sua vida pessoal invadida devido à necessidade constante de checar e-mails, realizar ligações ou exercer decisões fora de seu expediente (Oltramari & Grisci, 2014).
Como decorrência, a conflitada relação entre trabalho e família torna-se um assunto atual e contemporâneo (Bastos & Aguiar, 2014). Esse conflito possui como principal característica a dificuldade para delimitar fronteiras e estabelecer equilíbrio saudável entre a alta demanda destas duas esferas sobrepostas (Guest, 2015).
Lassance e Sarriera (2009) ratificam que uma pessoa pode desempenhar papeis simultâneos em diferentes esferas. É o que com frequência ocorre com os papeis de membro de uma família e de profissional ocupados por um mesmo indivíduo (Savickas, 2002; Super, 1994). Nesse contexto, o trabalhador seria impelido a realizar escolhas sobre quais demandas atender ou priorizar na tentativa de alcançar equilíbrio entre eles, o que poderia gerar conflitos e sobrecarga.
A literatura refere que o conflito pode ser vivenciado de duas maneiras. A primeira delas, a interferência da família no trabalho (FIT), se dá quando o papel de membro de uma família impede ou prejudica o atendimento de demandas do papel de trabalhador. A outra, interferência do trabalho na família (TIF), ocorre quando o papel do trabalhador dificulta o cumprimento do papel familiar (Amstad, Meier, Fasel, Elfering, & Semmer, 2011). Estudos afirmam que FIT e TIF apresentam correlação moderada e positiva de rwm = 0,38 (Mesmer-Magnus & Viswesvaran, 2005), demonstrando a independência e não sobreposição entre as duas direções do conflito.
Estudos de revisão da literatura são importantes para reconhecer os avanços e limites na produção de uma temática específica, com o intuito de ampliação da área de conhecimento (Peixoto, 2007). Assim, o objetivo central desta revisão é apresentar uma síntese e avaliação das publicações nacionais e internacionais que versam sobre o conflito entre trabalho e família em executivos, entre 2009 e 2014, nas principais bases indexadoras da ciência da saúde e do comportamento.
O período compreendido neste estudo foi definido a partir de uma revisão de literatura sobre a prevalência, antecedentes e desfechos do conflito família-trabalho (Kinnunen & Mauno, 2007) e um artigo empírico sobre o impacto das demandas de família e trabalho para a ocorrência do conflito entre ambos (Boyar, Maertz, Mosley, & Carr, 2008). Nos trabalhos, os autores apresentam evidências sobre aspectos relacionados ao conflito família-trabalho em diferentes grupos de profissionais e enfatizam que aqueles que sofrem demandas intensificadas da família ou do trabalho experienciam maiores níveis de TIF e FIT. Ambos os trabalhos não mencionam executivos, evidenciando uma lacuna investigativa. Assim, optou-se por analisar a produção científica da temática a partir de 2008.
Optou-se pela busca de artigos nas bases PsycINFO, Periódicos CAPES e Scopus. Essas bases foram selecionadas por serem consideradas referência na busca de artigos nacionais e internacionais na área de psicologia e ciências sociais, entre outras, além de promoverem um panorama abrangente das ciências do comportamento e saúde mental.
Foram utilizados os descritores: “work-family conflict” e “executives”; e “managers”; e “white collar”; e “director”; “conflito trabalho-família” e “executivos”; e “diretores”; e “gerentes” através do método de busca “Any Field”. A escolha de descritores teve como objetivo recuperar produções nacionais e internacionais sobre amostras de executivos. A busca ocorreu no mês de janeiro de 2015 e teve como critérios de inclusão que os artigos: estivessem disponíveis de forma integral e com acesso aberto nas bases pesquisadas ou fossem disponibilizados online pelo autor; tivessem sido publicados entre os anos de 2009 e 2014; estivessem escritos em língua portuguesa, inglesa ou espanhola; tivessem como temática central o conflito entre trabalho e família; fossem empíricos; utilizassem amostra composta por executivos. Teses, dissertações e demais produções foram excluídas da busca.
Inicialmente foram encontrados 29 artigos na base PsycINFO, 40 na base Periódicos CAPES e 70 na base Scopus, totalizando 139 artigos. Busca utilizando os critérios supracitados foi realizada nas bases Scielo e Pepsic não apresentando incidências de artigos. Posteriormente à busca procedeu-se à leitura integral dos resumos dos 139 artigos restantes a fim de certificar-se de que os mesmos atendiam os critérios de inclusão no estudo.
Após, 33 artigos foram excluídos da base Periódicos CAPES. Desses, cinco estavam repetidos entre as bases selecionadas, quatro não abordavam o tema central da revisão, três não eram artigos científicos e sete não estavam disponíveis integralmente. Dentre os artigos, 14 não possuíam executivos como parte de sua amostra de estudo. O número final de artigos para análise dessa base foi sete. Na base Scopus, dos 70 artigos, 16 se repetiram, 10 não versavam sobre o conflito entre trabalho e família, 35 não estavam disponíveis integralmente, e três não tinham amostras de executivos. O total de artigos provenientes dessa base analisados na revisão foi seis. A busca na base PsycINFO resultou inicialmente em 29 artigos, dos quais foram excluídos sete pelo critério de repetição nas bases, quatro por não abordarem a temática de revisão, 13 por serem outros tipos de produções e cinco por não estarem disponíveis de forma integral. Não houve, portanto, artigos que atendessem os critérios de inclusão nesta base de dados.
Para evitar equívocos, durante o processo desenvolvido houve a validação interjuízes de dois psicólogos com conhecimento sobre temática. Por fim, o número de artigos a serem analisados nessa revisão foi 13. A sistemática de busca completa pode ser visualizada na Figura 1 e os artigos selecionados para essa revisão estão identificados com um asterisco na lista de referências ao final do artigo.

Após, procedeu-se à análise dos artigos na íntegra. Para fins de apreciação e classificação dos artigos, definiram-se, a priori, as categorias de análise: 1. área, ano e país de publicação do estudo; 2. definição de conflito família-trabalho e objetivo geral do estudo; 3. método (abordagem qualitativa ou quantitativa, tipo de amostra, participantes e instrumentos). Analisou-se ainda, por meio das três etapas da análise de conteúdo, a saber, pré-análise, exploração do material, e interpretação dos resultados, a exemplo de Cavalcante, Calixto e Pinheiro (2014), os principais achados dos estudos explorados.
Tais aspectos foram selecionados por permitirem uma análise temporal, geográfica acerca da abordagem metodológica e principais achados dos artigos. Ainda, a investigação dos objetivos permitiu a apuração de tendências e principais interesses dos pesquisadores na temática. Dessa forma, oferece-se um panorama sucinto e crítico acerca das produções científicas entre os anos de 2009 e 2014, fornecendo dados sobre o conflito entre trabalho e família no período referido.
As Tabelas 1 e 2 caracterizam os estudos analisados. As informações detalhadas sobre cada critério de análise encontram-se descritas a seguir.


Dentre os estudos analisados, as áreas de publicação com maior expressividade foram Turismo e Hotelaria (quatro artigos) e Gestão de Negócios (quatro artigos). Relativo aos países de publicação verificaram-se publicações majoritariamente nos Estados Unidos (oito artigos). O maior volume de artigos publicados ocorreu no ano de 2011 (seis artigos).
Mais especificamente, os anos de publicação revelam aumento de interesse na investigação da temática a partir do ano 2011. Cabe destacar que no ano 2009 o número de publicações foi escasso, em 2010 sem representatividade, e, a partir de 2011, as publicações foram contabilizadas em maior número. Infere-se que esse é um fenômeno com publicações emergentes, uma vez que se trata de um tema contemporâneo e ainda pouco estudado.
Relativo às áreas das publicações e origem de seus autores, os resultados evidenciam uma concentração nas áreas de ciências exatas — Turismo, Hotelaria e Gestão de Negócios — provavelmente justificada pela preocupação com os custos e impactos econômicos do conflito para o negócio. Já a predominância de autores de origem norte-americana sugere que apesar do conflito trabalho-família ser um fato presente em diferentes culturas, as publicações científicas sobre essa temática ainda não estão amplamente difundidas, embora a partir de 2011 tenha havido um incremento do número de publicações derivadas de outros países.
A análise das definições de conflito família-trabalho presente nos artigos analisados é similar e circular, muitas vezes definindo o conflito exclusivamente a partir do próprio termo conflito. Em relação ao objetivo geral, ao contrário, é possível perceber o interesse em explorar temáticas diversas: gênero (foco em mulheres); modificações na estrutura concreta de trabalho como forma de interferir positivamente ou negativamente na questão do conflito entre trabalho e família; associação do conflito entre trabalho e família com emoções, satisfação e turnover; liderança e as consequências do conflito entre trabalho e família; testagem de novos modelos teóricos acerca do conflito; exaustão, sobrecarga de trabalho e custos organizacionais. Esse resultado, apresentado na Tabela 1, demonstra que os objetivos dos artigos envolvem a identificação de variáveis de desfecho dos conflitos, bem como seus antecedentes, variáveis associadas, mediadoras e moderadoras. Adicionalmente versam sobre homens e mulheres que vivenciam o fenômeno, e investigam possíveis impactos de intervenções com vistas à redução do conflito para indivíduos e organizações.
A análise dos objetivos das investigações revela ainda uma escassez de publicações dedicadas a investigar as consequências do conflito e intervenções para reduzi-lo, o que sugere que a produção científica na área ainda tenha pouca influência sobre a prática profissional. Sugere também que estudos acerca de executivos ainda buscam evidências mais estáveis sobre esse grupo de profissionais.
Os artigos tiveram, em sua maioria, abordagem metodológica quantitativa (12 artigos), com amostras probabilísticas (nove artigos). A Tabela 2 apresenta as variáveis investigadas e uma descrição dos instrumentos utilizados para tal, evidenciando que não há padronização na sua utilização, embora haja tendência a contemplar FIT e TIF. Não se identificou um único instrumento de referência nas pesquisas para aferir o conflito entre os artigos avaliados. Ainda assim, os modelos propostos pelos autores Carlson, Kacmar e Williams (2000) e Netemeyer, Boles e McMurrian (1996) foram citados como referência para a eleição de instrumentos.
Carlson et al. (2000) conceituam o conflito a partir de três esferas tanto para referir-se a TIF (desenvolvimento, afeto e capital) quanto a FIT (desenvolvimento, afeto e eficácia). Os mesmos autores possuem um instrumento específico para a medida das duas direções do conflito — a Escala de Conflito Trabalho Família. O instrumento, composto por 18 itens mensurados através de uma escala likert de cinco pontos, foi utilizado em dois artigos analisados nesta revisão.
Já a escala de mensuração do conflito entre trabalho e família, idealizada por Netemeyer et al. (1996) foi utilizada em dois artigos desta revisão. O instrumento possui 10 itens, cinco para avaliar cada direção do conflito, com as quais os respondentes devem demonstrar seu grau de concordância.
Os demais artigos analisados não trouxeram instrumentos padronizados e validados para a avaliação do conflito. Observa-se, portanto, a tendência de os pesquisadores optarem pelo uso de instrumentos que atendam às necessidades específicas de seus estudos. É notável a ausência de informações acercada confiabilidade e outras propriedades psicométricas dosinstrumentos, dificultando comparações entre os resultados das investigações.
No que tange aos participantes dos estudos, compuseram as amostras de pesquisa: executivos com ensino superior, casados, de diferentes nacionalidades e áreas de atuação. É possível perceber que, embora a maioria dos pesquisadores tenha optado por investigar homens e mulheres, alguns estudos priorizaram amostras compostas exclusivamente por mulheres. Tendo em vista o foco da presente investigação, chama atenção a presença de estudos que investigam amostras compostas exclusivamente por mulheres, evidenciando questões relacionadas ao gênero.
A análise dos estudos trouxe à tona três principais categorias de análise convergente. Foram eles: impacto do conflito entre trabalho e família na saúde do executivo; conflito entre trabalho e família e perspectiva de gênero; aspectos culturais e organizacionais relacionados ao conflito trabalho-família.
Estudos apontam que o conflito é fonte concreta de estresse, afetando diretamente o bem estar subjetivo dos indivíduos (Toga, Binqela, &Mjoli, 2014; Zhao, Qu, & Ghiselli, 2011). Estudo conduzido por Zhao et al. (2011) sugere que o conflito entre trabalho e família é ligado a sentimentos positivos e negativos direcionados ao trabalho. Assim, quando a interferência negativa é percebida entre trabalho e família (ou vice-versa), os sentimentos pelo trabalho tornam-se negativos, o que levaria trabalhadores com maior conflito serem menos felizes em seus trabalhos.
Ainda, resultados demonstram que o conflito entre trabalho e família se relaciona positivamente com exaustão emocional (Zhang, Griffeth, & Fried, 2012), falta de suporte do superior imediato (Oliveira, Cavazotte, & Paciello, 2013), maior tempo dedicado a atividades de lazer ligadas ao trabalho, como festas e eventos (O'Neill, 2012), e com a intenção de deixar a empresa. Por outro lado, o conflito está relacionado negativamente com a satisfação no trabalho.
Resultados apontaram a associação entre as duas direções do conflito (TIF-FIT), reforçando que ambos podem estar presentes concomitantemente (Oliveira et al., 2013). O conflito pode afetar negativamente a saúde física e psicológicados trabalhadores e suas famílias (Lovhoiden, Yap, & Ineson, 2011), além de trazer sentimentos negativos e positivos em relação à liderança (Michel, Pichler, & Newness, 2014). Por fim, os resultados dos estudos evidenciam que a exaustão emocional é um mediador dos efeitos de sobrecarga de trabalho (Karatepe, 2013).
Os estudos que analisaram as diferenças de gênero ou amostras compostas por mulheres apontaram que há sentimento de culpa nas mulheres que buscam equilibrar os papeis de mãe e trabalhadora (Alam, Sattar, &Chaudhury, 2011). Além de trabalharem fora de casa, as mulheres ainda são responsabilizadas pelo trabalho doméstico. O tempo dedicado ao trabalho afeta o equilíbrio com a vida pessoal, prejudicando o convívio familiar. Como consequência, mulheres tendem a experienciar maior conflito entre trabalho e família devido à dedicação à família (Leaptrott & McDonald, 2011; Lovhoiden et al., 2011). Em contrapartida, o estudo de Knudsen (2009) afirma que gerentes do sexo feminino possuem uma carga de trabalho menos elevada, fazendo com que o conflito entre trabalho e família seja reduzido se comparado ao sexo masculino.
Kunudsen (2009) ratifica que homens enfrentariam maior conflito entre trabalho e família por estarem submetidos a carga horária extensa, além de viagens e trabalhos aos finais de semana. Adicionalmente, os homens tenderiam a ter filhos e companheiras que não ocupam posições gerenciais. Em função da senioridade, exerceriam maior controle sobre sua escala de trabalho, permitindo a realização de trabalho remoto. Mulheres, ao perceberem o potencial conflito, tenderiam a deixar suas rotinas de trabalho mais leves, fato que não ocorreria com os homens.
Variáveis demográficas demonstraram que quanto maior o nível de educação formal, posição ocupada e quantidade de subordinados, maior o nível de conflito (Knudsen, 2009). Estudos sobre diferenças culturais demonstraram que gestores de países de língua inglesa adotam horários flexível, semana reduzida, trabalho parcial e remoto em comparação com gestores da Ásia e América Latina. Adicionalmente, estes profissionais são mais flexíveis, demonstram satisfação no trabalho, menos intenção de turnover e menor conflito entre trabalho e família. Gestores de países da América Latina que trabalham em período parcial demonstraram menor intenção de turnover e menor conflito entre trabalho e família. Ainda, gestores asiáticos demonstraram maior conflito entre trabalho e família e não se beneficiaram de regimes de trabalho em período parcial (Masuda et al., 2012). Explicações para os resultados relativos a profissionais asiáticos podem ser encontrados no estudo de Liu e Low (2011), os quais apontam que em ambientes de trabalho exigentes há maior interferência do conflito TIF em comparação com ao FIT.
Uma questão a ser considerada volta-se às atuais condições de trabalho. Sabe-se que o trabalho tem passado por modificações significativas (Ferreira & Mendonça, 2012). No complexo equilíbrio entre trabalho e família, o trabalhador é tomado pela percepção de que a busca por equilíbrio teria consequências negativas para a carreira profissional (Oliveira et al., 2013; Zhao et al., 2011). Neste contexto, os estudos de Karatepe (2013), Zhang et al. (2012), e Toga et al. (2014) evidenciaram as adversidades vivenciadas pelo trabalhador para equilibrar demandas de trabalho e família, sendo que a intimidade familiar é comprometida em prol das demandas de trabalho e o tempo de convivência familiar é escasso, ou até mesmo nulo (Oltramari & Grisci, 2014). Embora contemplem os conflitos entre papeis (de familiar e trabalhador), os artigos analisados falham em investigar quais os significados os participantes dos estudos atribuem a cada um dos papéis individualmente e em relação ao outro, comprometendo a compreensão plena dos resultados (Lassance & Sarriera, 2009).
Na atualidade, os executivos são constantemente convocados a atender as normas do seu local de trabalho e encontrar tempo, disposição psicológica e física para cumprir as responsabilidades familiares (Barham & Vanalli, 2012). Relativo à disposição psicológica e física, estudo de Lovhoiden et al. (2011) aponta que o conflito entre trabalho e família pode afetar negativamente a saúde física e psicológica dos trabalhadores gerando estresse. Este resultado ratifica a afirmação de Lipp (2005) sobre como as dificuldades de conciliação de papeis podem afetar a saúde, uma vez que o conflito entre trabalho e família é fonte de estresse. Assim, pode-se pensar que o estresse do trabalho recaia sobre a família e traga prejuízos pessoais aos profissionais estudados através de mudanças de humor significativas, como afirmam Strobino e Teixeira (2014), Silva e Rossetto (2010) e Sanjutá e Barham (2004).
Resultados de Alam et al. (2011) e de Leaptrott e McDonald (2011) demonstram que a mulher enfrenta maiores dificuldades na associação equilibrada da esfera familiar com a do trabalho. Mulheres ainda são as principais responsáveis pelos cuidados com a casa e a família (Machado, Wetzel, & Rodrigues, 2008; Sorj et al., 2007), assumem uma complexa gama de papeis quando constituem suas famíliase, portanto, estão mais suscetíveis a conflitos provenientes dos âmbitos do trabalho e familiar. Devido à expectativa social de sucesso na dupla jornada feminina, mulheres se vêem pressionadas por resultados na organização, e expectativas familiares. Ao não atenderem plenamente a expectativa social de mulher e trabalhadora, podem apresentar sentimentos de culpa (Alam et al., 2011), afetando diretamente suas relações profissionais e pessoais.
No mercado de trabalho, há um quadro variado de estereótipos que denotam as mulheres como menos capacitadas por não apresentarem características de competitividade, associadas ao objetivo (Belo & Camino, 2012). Este quadro se intensifica quando colocamos em foco as atividades de gestão. O instituto Ethos/IBOPE, em pesquisa realizada no ano de 2010, revelou que mulheres que ocupam posições executivas nas empresas correspondem somente, a 13,7% do quadro nacional ativo. Pode-se afirmar que, como exposto por Belo e Camino (2012), profissionais do sexo feminino que trabalham em um ambiente majoritariamente masculino são, de fato, excluídas dos ambientes que envolvem a liderança e que representam altos postos na organização.
Este fato pode ser atribuído a fatores históricos, uma vez que ao longo de boa parte da história humana o trabalho produtivo foi fortemente associado exclusivamente ao masculino (Araújo & Scalon, 2005). Ainda, no processo de socialização, homens tendem a ser preparados para o exercício de atividades produtivas (Bellucci, 2011). Nascimento, Roazzi, Castellan e Rabelo (2008) afirmam que a imagem de sucesso no mundo corporativo está alicerçada na figura de poder, status e valores monetários, elementos ligados ao masculino e que justificam a discrepância entre homens e mulheres ressaltada nesta discussão. Em homens, esta expectativa social pode alavancar excessiva dedicação ao trabalho e abdicação do tempo dedicado à família. Os resultados da pesquisa de Knudsen (2009) ratificam as afirmações anteriores, uma vez que a administração do tempo entre trabalho e família pode trazer maior conflito entre trabalho e família em homens, resultando em percepção negativa do equilíbrio entre as duas esferas.
Outro fator apontado que pode contribuir ou dificultar a interface entre trabalho e família refere-se à cultura organizacional. Cabe apontar que a cultura organizacional é reflexo de um conjunto de valores compartilhados pelos membros de um mesmo grupo de trabalho, que os diferencia dos demais (Robbins, 2005) e resulta em sistemáticas de trabalho peculiares a cada organização. Estudo de O'Neill (2012) no setor de hotelaria relata que em hotéis com cultura organizacional voltada ao equilíbrio entre trabalho e família, os gerentes gastam menos tempo realizando atividades laborais ligadas ao lazer, como festas e eventos.
Oliveira et al. (2013) afirmam que demandas e exigências ligadas à gestão da empresa dificultam a convivência familiar. Assim, a forma como a empresa baliza e transmite seus valores junto às ações organizacionais pode ter impacto na vivência dos trabalhadores. Além, resultado de pesquisas conduzidas por Masuda et al. (2012) e Liu e Low (2011) ressaltam diferenças oriundas da cultura entre países. Aqui, entende-se que a representação cultural e social do trabalho, peculiar a cada país ou região geográfica, pode estimular ou impedir que executivos elenquem suas prioridades entre o âmbito pessoal e profissional.
Cabe ressaltar, ainda, que as nuances do conflito entre trabalho e família não são exclusivas ou centradas apenas em uma das esferas. Essa observação indica a necessidade de que o foco de estudo sobre o conflito entre família e trabalho deve ser ampliado, incluindo as organizações, o dimensionamento atual do trabalho e a família dos trabalhadores. Apesar de a família ser conceituada, conforme Biroli (2014), como a fronteira entre o mundo doméstico e o mundo externo, os efeitos do conflito não se encontram claramente definidos e as suas consequências são difusas. Assim, segundo Lassance e Sarriera (2009), é fundamental identificar a rede de papéis sociais que conectam o indivíduo à sociedade, uma vez que os papéis interagem entre si e se influenciam.
Outra necessidade de pesquisa identificada foi a triangulação de dados. Esta medida é relevante, pois a triangulação possibilita produzir um retrato do fenômeno em estudo que seja mais completo do que o alcançado por um único método (Kelle, 2001). Assim, abre-se a possibilidade de articular novas ações que auxiliem na gestão desta conflitiva e promovam o bem-estar dos profissionais em posições executivas.
Tendo em vista a priorização de amostras de mulheres em alguns dos estudos investigados, identificou-se a necessidade de estudos comparativos entre homens e mulheres. Esses estudos serão importantes para esclarecer como o conflito de papeis é vivenciado também pelo homem contemporâneo. Além disso, há a necessidade de estudos que tragam em seu bojo estratégias preventivas do estresse ocasionado pelo conflito entre trabalho e família. Estudos com maior atenção à questão cultural em diferentes contextos podem ser importantes propulsores para a discussão deste tema.
Enfim, entende-se que o presente estudo contribui para a literatura acerca do conflito família-trabalho. Identificou-se não haver uma padronização evidente no uso de instrumentos ou outros recursos para acessar o conflito, resultado que chama atenção, pois é um aspecto de dificuldade na exploração da temática. Avalia-se que a intervenção assertiva acerca do conflito entre estas duas esferas só será possível após o mapeamento das variáveis que demonstraram ser de relevância significativa ao longo dessa revisão.
Por fim, são limitações do presente estudo, a impossibilidade de acessar todos os artigos identificados como pertinentes à revisão de forma integral e a não inclusão de teses e dissertações. Como conclusão, sinaliza-se a relevância de buscar a articulação de instrumentos eficazes para a mensuração das esferas do conflito entre trabalho e família com o intuito de ampliar a compreensão e discussão sobre a temática no campo acadêmico e organizacional.
Essa revisão teve como objetivo analisar a produção científica nacional e internacional sobre o conflito entre trabalho e família em executivos entre 2009 e 2014. Nesse breve panorama, percebeu-se a dificuldade de mensuração do fenômeno. Isso se traduz em abordagens e resultados de pesquisa distintos e um corpo de conhecimento ainda incipiente. Ainda assim, foi possível relacionar uma série de prejuízos pessoais e sociais dos executivos apontados pela literatura oriundos do conflito. Contudo, não é claro na literatura qual o impacto do conflito para homens e mulheres, bem como quais seus antecedentes e consequentes em diferentes culturas. Estas observações indicam a necessidade de se adotar definições operacionais menos circulares e mais descritivas das características do conflito trabalho-família. Desta forma seria possível ampliar os estudos sobre o fenômeno, seus antecedentes e consequentes e gerar políticas e práticas organizacionais capazes de reduzi-lo, promovendo o bem estar dos profissionais em ambos os domínios.
1Endereço para correspondência: Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Avenida Ipiranga, 6681, Partenon, Porto Alegre-RS. E-mail:anaclaudiabraun@hotmail.com


