Artigo
Recepción: 06 Mayo 2024
Recibido del documento revisado: 29 Julio 2024
Aprobación: 20 Agosto 2024
DOI: https://doi.org/10.26707/1984-7270/2024v25n0203
Resumo: Esta revisão de escopo, em conformidade com o protocolo PRISMA-ScR, teve como objetivo recuperar a produção científica entre 2013 e 2023, verificando como a Psicologia Histórico-Cultural e Sócio-Histórica propõe intervenções em Orientação Profissional, qual o público-alvo e contexto em que ocorrem. As bases de dados selecionadas foram: Periódicos CAPES, BVSalud e ERIC. Quanto à estratégia de busca: (“Orientação Profissional” OR “Orientação Vocacional”) AND (“sócio-histórica” OR “histórico-cultural”). Oito publicações atenderam aos critérios de elegibilidade, possibilitando as categorias de análise: profissionais que realizam a intervenção; público-alvo; contexto de realização; temáticas abordadas; estratégias utilizadas. Conclui-se que as intervenções foram realizadas por estudantes, psicólogos e pesquisadores com grupos de adolescentes, majoritariamente em escolas. As temáticas recorrentes foram: autoconhecimento, relação indivíduo-sociedade e informação profissional.
Palavras-chave: Orientação profissional e de carreira, orientação vocacional, psicologia histórico-cultural, psicologia sócio-histórica, revisão de escopo.
Abstract: This scoping review, in compliance with the PRISMA-ScR protocol, aimed to retrieve the scientific output from 2013 to 2023, examining how Historical-Cultural and Socio-Historical Psychology proposes interventions in Career Guidance, and identifying the target audience and context in which they occur. The selected databases were: CAPES Journals, BVSalud, and ERIC. The search strategy was: (“Career Guidance” OR “Vocational Guidance”) AND (“socio-historical” OR “historical-cultural”). Eight publications met the eligibility criteria, allowing the analysis categories: professionals conducting the intervention; target audience; context of implementation; themes addressed; and strategies used. It is concluded that interventions were conducted by students, psychologists, and researchers with adolescent groups, mostly in schools. The recurring themes were: self-knowledge, individual-society relationship, and professional information.
Keywords: Career guidance, vocational guidance, cultural-historical psychology, socio-historical psychology, scoping review.
Resumen: Esta revisión de escopo, en conformidad con el protocolo PRISMA-ScR, tuvo como objetivo recuperar la producción científica entre 2013 y 2023, verificando cómo la Psicología Histórico-Cultural y Socio-Histórica propone intervenciones en Orientación Profesional, y cuál es el público objetivo y el contexto en que ocurren. Las bases de datos seleccionadas fueron: Revistas CAPES, BVSalud y ERIC. La estrategia de búsqueda fue: (“Orientación Profesional” O “Orientación Vocacional”) Y (“socio-histórica” O “histórico-cultural”). Ocho publicaciones cumplieron con los criterios de elegibilidad, permitiendo las categorías de análisis: profesionales que realizan la intervención; público objetivo; contexto de realización; temas abordados; estrategias utilizadas. Se concluye que las intervenciones fueron realizadas por estudiantes, psicólogos e investigadores con grupos de adolescentes, principalmente en escuelas. Los temas recurrentes fueron: autoconocimiento, relación individuo-sociedad e información profesional.
Palabras clave: Orientación profesional y de carrera, orientación vocacional, psicología histórico-cultural, psicología socio-histórica, revisión de escopo.
A relação entre Orientação Profissional e de Carreira (OPC) e a Psicologia é estreita e essencial, ainda que não exclusiva, para auxiliar indivíduos na tomada de decisões sobre suas futuras carreiras. Além disso, essas áreas também ajudam a reorganizar e planejar as ambições profissionais. As teorias psicológicas difundidas no Brasil oferecem uma base sólida para a elaboração de práticas e intervenções nesse campo. Mesmo no contexto escolar, como demonstrado nos estudos de Gomes e Pérez (2020) e Lima et al. (2020), a OPC está ancorada à Psicologia no sentido de discutir e desenvolver ações que garantam escolhas de qualidade para os participantes.
Os profissionais que atuam em Orientação Profissional e de Carreira, em ambiente clínico ou em ambiente institucional utilizam diferentes técnicas como inventários, entrevistas e dinâmicas de grupo, objetivando a promoção de autoconhecimento, além de fomentar estratégias de busca por profissões em diálogo com o meio social em que os participantes se encontram, possibilitando uma escolha profissional conscientizada e satisfatória para os orientandos, em consonância com a realidade que estão inseridos. Silva et al. (2021) indicam que cabe à Orientação Profissional e de Carreira garantir qualidade ao processo de escolha, amortecendo, evidenciando e elaborando os conflitos existentes neste momento e lançando luz sobre as múltiplas determinantes que compõem o processo.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), proveniente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2023), de 2016 até 2022 houve avanços pertinentes no número de concluintes da etapa de ensino obrigatória, compreendida pela educação básica. A porcentagem de indivíduos com 25 anos ou mais que concluíram o ensino médio, em 2022, foi de 53,2%, frente aos 46,2% de 2016. Já o percentual de pessoas que concluíram o ensino superior foi de 15,4% em 2016 para 19,2% em 2022. Considerando o cenário nacional, a média de anos de estudo das pessoas com 25 anos ou mais avançou para 9,9 anos. O ingresso no ensino superior, ainda modesto considerando o tamanho da população nacional, está intimamente ligado à necessidade de realização de escolhas pelos estudantes. Em concordância, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Brasil,1996) e a Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2018) entendem que a educação assume caráter preparatório para o mundo do trabalho; dessa forma a escola tem papel essencial não apenas na preparação do estudante, mas também no processo de escolha profissional. Melo-Silva et al. (2019) identificaram na legislação federal o direcionamento da educação e da instituição escolar para a preparação do estudante visando ao mundo do trabalho, porém não encontraram referenciamento específico a atendimentos especializados ou próprios da OPC, indicando um cenário propício a abarcar propostas de ação nesta área, atrelado à educação.
A PNAD Contínua revela que entre jovens de 14 a 29 anos, 18% não concluíram o ensino médio, seja por abandono ou por nunca terem ingressado nesta etapa (IBGE, 2023). O abandono é intensificado acima dos 16 anos. De acordo com os dados, a maior razão entre homens e mulheres para abandonarem os estudos foi a necessidade de trabalhar. Evidencia-se aqui a importância da realização de ações que compreendam a realidade material destes jovens, cenário no qual as abordagens da Psicologia Histórico-Cultural e Sócio-Histórica podem amparar ações dentro do contexto escolar, tendo em vista que estas teorias da Psicologia buscam compreender o processo de escolha subjetiva vinculada à lógica do capitalismo e suas contradições, entendendo as escolhas profissionais através da interação do indivíduo com a cultura na qual ele está inserido (Gomes & Pérez, 2020; Lima et al., 2020; Silva et al., 2021), e o trabalho como condição para a humanização (Leal & Mascagna, 2020), além de trazer embasamento teórico para a complexificação da imaginação a partir do pensamento por conceitos (Vigotski, 2009), subsidiando a capacidade de planejamento futuro, elemento importante para a realização de uma escolha profissional com qualidade.
Psicologia Histórico-Cultural e Sócio-Histórica são teorias aproximadas devido suas raízes no materialismo histórico dialético. No entanto, é importante compreender como essas abordagens foram desenvolvidas no Brasil. A Psicologia Histórico-Cultural, baseada nos estudos de Vigotski, Luria e Leontiev, teve suas obras traduzidas do russo para o espanhol e inglês na década de 1960, e foi somente na década de 1990 que essa perspectiva ganhou força no Brasil (Martins, 2016). Destaca-se por seu foco na mediação cultural e no desenvolvimento das funções psicológicas superiores dos indivíduos.
Por outro lado, a Psicologia Sócio-Histórica, embora partilhe das mesmas origens teóricas e compreenda o desenvolvimento do indivíduo sob a ótica de Vigotski, emergiu no Brasil de forma distinta. Essa abordagem foi impulsionada por Silvia Tatiane Maurer Lane que, na década de 1970, tecia uma crítica à psicologia social dominante nos Estados Unidos. Seus estudos permitiram que os autores soviéticos fossem reconhecidos no Brasil, e possibilitou a formação de um grupo de trabalho voltado a essa perspectiva (Furtado et al., 2022). A Psicologia Sócio-Histórica tem enfoque nas condições socioeconômicas e estruturais dominantes que moldam o psiquismo dos indivíduos.
A partir do exposto, a Psicologia Histórico-Cultural e a Sócio-Histórica apresentam-se como abordagens críticas não-alienantes, sustentando que o processo de Orientação Profissional e de Carreira exceda a mera realização de uma escolha, mas que se torne instrumento de superação das contradições atuais, respeitando a sociedade de classes e a autonomia do indivíduo dentro deste processo de ingresso no mercado de trabalho. Portanto, com o objetivo de delinear as publicações científicas entre 2013 e 2023, esta revisão propõe resgatar artigos de abordagem HistóricoCultural e Sócio-Histórica no campo da Orientação Profissional e de Carreira, para que se compreenda como estas abordagens psicológicas propõem e compõem intervenções, o público-alvo e em qual contexto estas práticas ocorrem.
Método
Esta revisão de escopo está alicerçada no protocolo PRISMA Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR) (Tricco et al., 2018). Segundo o protocolo, revisões de escopo são uma forma de síntese de conhecimento e adotam uma abordagem sistemática para mapear as evidências sobre um tema e identificar os principais conceitos, teorias, fontes e lacunas de conhecimento. Entende-se o protocolo PRISMA-ScR como favorável ao objetivo desta revisão, pois viabiliza mapear estudos interventivos da Psicologia Histórico-Cultural e da Sócio-Histórica, que aportam a Orientação Profissional e de Carreira no Brasil.
Os estudos levantados nas bases de dados foram submetidos aos seguintes critérios de elegibilidade: publicações científicas em periódicos nacionais ou internacionais; pesquisas que aconteçam dentro do cenário nacional brasileiro; expressam no título, resumo ou corpo do texto relação entre as abordagens Histórico-Cultural e Sócio-Histórica com a Orientação Profissional e de Carreira e verificam, relatam ou propõem intervenções; respeitem o prazo de 10 anos de publicação a partir da data da pesquisa na base de dados; possuam texto completo disponível para leitura.
A busca foi realizada ao longo dos meses de junho e julho de 2023. As bases de dados selecionadas foram Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, Periódicos CAPES, com acesso CAFe; Portal Regional da Biblioteca Virtual em Saúde, BVSalud; Education Resources Information Center, ERIC. Periódicos CAPES coleciona em seu acervo produções científicas nacionais, facilitando o acesso às produções acadêmicas brasileiras. O acesso CAFe proporciona acesso a conteúdos assinados pela Periódicos CAPES considerando que a instituição onde o pesquisador está inserido tenha aderido ao serviço através da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa. Já a BVSalud reúne produções no campo da saúde realizadas em território latino-americano, contemplando em seu acervo importantes bases de dados relacionadas à produção nesta área. ERIC trata-se de uma base de dados internacional que condensa produções científicas na área educacional, sendo relevante para levantar pesquisas que dialoguem no campo de desenvolvimento de pessoas e práticas educacionais que podem compreender a Orientação Profissional e de Carreira. Considerando o exposto, entende-se que as bases de dados selecionadas possuem notória relevância em contexto nacional e aderência à temática pesquisada nesta revisão, além de condensar em seus resultados diferentes revistas científicas, facilitando o acesso a produções para comporem a revisão.
O termo de pesquisa selecionado para realizar a estratégia de busca nas bases Periódicos CAPES e BVSalud foi (“Orientação Profissional” OR “Orientação Vocacional”) AND (“sócio-histórica” OR “histórico-cultural”). A pesquisa na base de dados ERIC foi realizada utilizando descritores em inglês, porém não se obteve nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS/MeSH) traduções correspondentes aos termos “sócio-histórica” e “histórico-cultural”. Portanto, para evitar inconsistências na tradução, optou-se por realizar a pesquisa com os termos (“Career Guidance” OR “Vocational Guidance” OR “Career Counseling”) AND (“Brazil”) para que, posteriormente, os resultados fossem submetidos aos mesmos critérios de elegibilidade.
Dois juízes realizaram, de maneira independente, a seleção das bases de dados e os descritores que compuseram a estratégia de busca, bem como a efetivação da busca, a coleta e submissão dos estudos aos critérios. Os resultados foram dispostos em listas respectivas à base de dados pesquisada, contendo título, autor, data e resumo. As listas foram sobrepostas e os critérios aplicados. Inicialmente unificou-se os resultados duplicados. A data de publicação foi conferida e os estudos que não corresponderam ao prazo de publicação de janeiro de 2013 até julho de 2023 foram descartados. Aqueles com acesso restrito não foram considerados na revisão. Submetidos à leitura integral, excluíram-se artigos que não versam sobre Orientação Profissional e de Carreira na perspectiva da Psicologia Histórico-Cultural e Sócio-Histórica. Na sequência, mantiveram-se apenas os estudos que propõem, verificam ou relatam intervenções. Com isso, foi construída uma tabela de caracterização e os estudos a serem debatidos foram armazenados.
Resultados
O processo de inclusão e exclusão de estudos, respeitando os critérios pré-estabelecidos de elegibilidade, pode ser observado na Figura 1.

A Tabela 1 relaciona os resultados considerando a abordagem teórica que os orienta, método, ano, periódico publicado e resultados. A ordem da lista está por ano de publicação, sendo do mais recente até o mais antigo. Os resultados mostram quantidades iguais de produção entre as abordagens teóricas, e denotam a predominância de estudos qualitativos. 62,5% dos estudos são relatos de experiência e, majoritariamente, as pesquisas estão relacionadas com participantes em contexto de ensino.

A abordagem Histórico-Cultural abrange quatro estudos, contendo relato de experiência interventiva e pesquisa-intervenção. Todos os estudos relacionam o campo da Orientação Profissional e de Carreira com os processos escolares, havendo concordância entre os autores sobre a importância da atuação do orientador no contexto de ensino, no qual a Orientação Profissional e de Carreira, sustentada pela Histórico-Cultural seria capaz de favorecer o debate acerca das contradições encontradas na condição social do trabalho e promover novos conhecimentos aos participantes a partir da realidade cultural, social e histórica, possibilitando maior qualidade na tomada de decisões e na relação dos indivíduos com o trabalho (Lima et al., 2020; Medeiros et al., 2018).
Ainda, os estudos da Histórico-Cultural revelam indicadores positivos quanto aos objetivos propostos, apontando para um cenário favorável às pesquisas na área. As intervenções compartilham o contexto educativo mas em condições diferentes, como no estudo de Lima et al. (2020), com 12 participantes de cursinho pré-vestibular; já as publicações de Medeiros et al. (2018) e Medeiros e Souza (2017) relatam a mesma experiência interventiva, sendo 20 estudantes de 3º ano do Ensino Médio de escola privada, enquanto no estudo de Becker e Araújo (2016) não há definição da quantidade total de participantes, informando que foi realizado com estudantes do 2º ano do Ensino Médio de escola pública.
São quatro os estudos sustentados pela abordagem Sócio-Histórica, todos qualitativos. Há concordância teórica entre os estudos ao compreenderem que as escolhas profissionais das pessoas, não são naturais ou provêm de pré-determinação, mas sim resultam da relação dialética da pessoa com o meio social e sua história, e que a demanda de realizar a escolha profissional é desenredo deste momento histórico e social, advindo do capitalismo (Gomes & Pérez, 2020; Paulino-Pereira et al., 2013; Silva et al., 2021; Veriguine et al., 2014). Dois dos estudos não estão inseridos no contexto escolar. Veriguine et al. (2014) relatam uma experiência de intervenção no campo da Orientação Profissional e de Carreira com um grupo de 15 jovens, em uma empresa de economia mista, dentro de um programa denominado Programa Primeiro Emprego. Por sua vez, Paulino-Pereira et al. (2013) realizaram uma pesquisa-ação em duas distintas instituições, sendo uma Organização Não Governamental e um Centro de Convivência do Pequeno Aprendiz. Estes estudos ilustram distintos contextos em que a OPC pode ocorrer, verificando, de forma geral, nos trabalhos, a predominância de ações grupais que visam auxiliar os indivíduos a realizarem suas escolhas com senso crítico à realidade social que estão inseridos.
Para a realização da discussão e aprofundamento do debate acerca dos resultados, criaram-se as categorias: profissionais que realizam a intervenção; público-alvo; contexto de realização da intervenção; temáticas abordadas; estratégias utilizadas. Com isso, espera-se evidenciar a maneira como as abordagens Histórico-Cultural e SócioHistórica subsidiam práticas interventivas no campo da Orientação Profissional e de Carreira.
Discussão
Considerando os estudos caracterizados na revisão, em todos, os profissionais que realizaram a intervenção possuem relação direta com a Psicologia, sendo psicólogos, estudantes ou pesquisadores da Psicologia. Tal característica é esperada e alinhada com os objetivos da revisão, indicando, inclusive, o entendimento do profissional da Psicologia como um dos possíveis interventores no campo da OPC. Os estudos de Lima et al. (2020), Gomes e Pérez (2020) e Becker e Araújo (2016) são aplicados por universitários graduandos de Psicologia, trazendo para a prática da OPC também a formação destes profissionais que poderão no futuro elaborar ações interventivas subsidiadas pela experiência prévia. Entretanto, estas intervenções caracterizadas são formuladas pensando no profissional da Psicologia que, considerando a realidade brasileira, está ausente do cotidiano do público-alvo e do contexto em que a maioria destas intervenções acontecem.
O público-alvo dos oito estudos são adolescentes ou jovens - até 24 anos - de ensino médio, cursinho preparatório pré-vestibular ou organizações sociais que visam à inserção do jovem no mercado de trabalho. Dentre estes, seis estudos acontecem em contexto escolar e quatro destes estão associados ao ensino público. O alinhamento entre o contexto escolar, adolescentes e práticas de OPC encontra respaldo legal (Brasil, 2018), como visto anteriormente, quando a educação é direcionada para o mercado de trabalho. Para além, esta situação é indicada por Lima et al. (2020) ao identificarem o caráter educativo da OPC, tratando-se de uma prática que aproxima o jovem de novos conhecimentos mediados pela cultura em que está inserido, potencializando os avanços nos processos psicológicos vistos por Vigotski (2007), onde, em uma educação organizada para o pensamento científico, é possível que os indivíduos entrem em contato com sua realidade social (Leal & Mascagna, 2020), adquirindo consciência para tomadas de decisões com maior qualidade. Portanto, é pertinente que a OPC esteja atrelada a este público-alvo e, por consequência, aconteça nos espaços onde a maioria deles está, que é o contexto escolar, pois histórica e socialmente a adolescência configura-se como um período de escolarização (Leal & Mascagna, 2020) ou ainda, como visto nos trabalhos de Veriguine et al. (2014) e Paulino-Pereira et al. (2013), em organizações atreladas a programas sociais que buscam alocar as pessoas em suas primeiras experiências de emprego.
Porém, deve-se considerar que, no Brasil, a presença de profissionais da Psicologia nas escolas, sobretudo no ensino público, não é comum. A disposição legal acerca da obrigatoriedade deste profissional no ensino básico é recente, através da Lei 13.935 de 11 de dezembro de 2019 (Brasil, 2019), que estabelece a inserção do psicólogo na rede pública através de equipes multidisciplinares. Apesar da lei fornecer 1 ano da data de promulgação para que as instituições de ensino se adequem, prazo que se encerrou em 2020, estes profissionais ainda não adentraram nas escolas, tampouco houve consenso ou regulamentação sobre as formas e maneiras que a equipe multiprofissional seria estabelecida. Portanto, as intervenções em OPC caracterizadas no contexto escolar com adolescentes e jovens acontecem por vias de ações universitárias, através de extensão, estágio, pesquisa ou pelo Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), e não pela ação do psicólogo escolar inserido no cotidiano e no projeto político pedagógico daquela instituição de ensino.
Neste sentido, um estudo realizado por Pilatti e Poli (2021) buscou, no projeto pedagógico de cursos de pedagogia e letras de duas diferentes universidades no sul do país, conteúdo formativo que pudesse subsidiar a formação de futuros professores para atuarem na modalidade Educação para a Carreira. É previsto na Educação para a Carreira que o corpo pedagógico atue intencionalmente, desde o ensino infantil, em práticas que promovam o entendimento dos indivíduos acerca das relações sociais e históricas que agem sobre as relações de trabalho, com a finalidade de proporcionar uma aproximação daquilo que se aprende na escola com o mundo do trabalho, inserido de forma sistemática no currículo pedagógico. Os autores identificaram que não há nos projetos pedagógicos dos cursos disciplinas específicas relacionadas ao campo da OPC, e que isso impacta a confiança destes profissionais a participarem de projetos relacionados à Educação para a Carreira. Ou seja, as práticas interventivas das teorias Histórico-Cultural e Sócio-Histórica aqui caracterizadas não se deslocam do eixo da Psicologia mesmo quando acontecem no contexto escolar, e estão por muitas vezes colocadas ali por intermédio da universidade e não de maneira autônoma e pedagógica, apesar do direcionamento da política nacional.
Todos os estudos foram realizados com grupos e, de maneira geral, apresentam temáticas que se aproximam, independente das diferentes estratégias grupais empregadas nas intervenções. Pode-se observar os temas “autoconhecimento”, “relação entre indivíduo e sociedade” e “informação profissional”. Tais temáticas são adjacentes aos módulos propostos por Bock (2013) em seu programa de Orientação Profissional, sendo eles: o significado da escolha profissional; o trabalho; autoconhecimento e informação profissional. Para o autor, o autoconhecimento trata-se de uma reflexão do indivíduo sobre a sua trajetória de vida, o modo como realiza escolhas, colocando-o em contato com sua própria maneira de tomar decisões, mas não com o propósito de associar perfis individuais com profissão.
Quanto às intervenções analisadas no presente estudo, o autoconhecimento é desenvolvido nas etapas iniciais da intervenção, a partir de estratégias que envolvam dinâmicas onde o individual é manifestado para o grupo, objetivando-se criar uma coesão entre os participantes, situando-os dentro do processo interventivo. Para tanto vê-se atividades com perguntas que visam à apresentação e expressão inicial das ideias dos participantes, como dinâmicas de completar frases e produção de textos e desenhos que caracterizam as trajetórias individuais e o conhecimento que essas pessoas possuem previamente à intervenção.
Quanto ao tema “relação entre indivíduo e sociedade”, as estratégias adotadas confluem da singularidade manifestada no social, passando-se, assim, a refletir onde estes indivíduos, e grupo, se encontram na sociedade, como atuam e o que podem vir a ser. Este tema compõe a maioria dos estudos caracterizados e trata-se de uma etapa diversa quanto às estratégias adotadas; entretanto, nota-se a predominância do debate coletivo nestas estratégias. No estudo de Paulino-Pereira et al. (2013) este tema aparece ligado a um debate acerca da possibilidade de mudar de profissão, abandonar os estudos e a justiça social. Veriguine et al. (2014), a partir de um jogo lúdico, levantou debates acerca da dinâmica social do trabalho, justiças e injustiças e aspectos da inserção profissional. Becker e Araújo (2016) trazem estas questões atreladas a aulas que abordam o conceito do trabalho, mídia e estereótipos de profissões. Gomes e Perez (2020), através da exibição de vídeos, puderam debater com os participantes situações que afligiam o grupo e que estavam relacionadas com a ideia de aprovação no ensino superior e medos quanto a não conseguir um emprego. Lima et al. (2020), através de dinâmicas e atividades que antecedem a prova do Exame Nacional do Ensino Médio, trazem à tona inquietações relacionadas a esta etapa da vida do estudante. No estudo de Silva et al. (2021) essa temática aparece atrelada à atividade de projeção de futuro.
Já a temática “informação profissional” está presente em três estudos analisados e alinha-se a estratégias que buscam apresentar e esclarecer assuntos relacionados às profissões, mercado de trabalho, cursos superiores e técnicos, vestibulares, além de técnicas que instrumentalizam os participantes a buscarem novos conhecimentos. Esta temática aparece no último encontro da intervenção de Silva et al. (2021), quando acadêmicos e uma assistente social de uma universidade compareceram à escola para dialogar com os adolescentes sobre cursos e permanência estudantil. Gomes e Pérez (2020) também observam a necessidade de incluir essa temática tendo em vista que, em seu estudo, identificou que os alunos não possuíam conhecimento acerca de permanência estudantil ou outras modalidades de ingresso no ensino superior público. Oliveira et al., (2021) examinaram o papel e a importância da imaginação no processo de escolha profissional, além de sua conexão com os projetos de vida e as perspectivas de futuro de adolescentes, baseando-se nos princípios da Psicologia Histórico-Cultural. Neste estudo, os autores identificaram que os participantes tinham conhecimentos superficiais acerca de grades curriculares de cursos superiores, assim como das próprias possibilidades de emprego que uma formação poderia proporcionar. Notaram que ao levarem informações sobre os interesses profissionais levantados pelos adolescentes, mobilizaram transformações na maneira como eles se projetavam nestas possibilidades ocupacionais.
Os estudos de Medeiros e Souza (2017) e Medeiros et al. (2018) apresentam uma estratégia distinta dos demais estudos caracterizados, ao utilizar a mediação da intervenção por meio de expressões artísticas. Através da arte, os autores conseguiram provocar debates que abordam questões relacionadas ao autoconhecimento e à relação entre o indivíduo e a sociedade, especialmente no contexto escolar e familiar. Segundo Medeiros e Souza (2017), a OPC, fundamentada na Psicologia HistóricoCultural, tem o potencial de proporcionar novas significações aos indivíduos participantes, oferecendo um olhar crítico sobre o processo de escolha, o trabalho e o ambiente escolar, além de estimular a atividade imaginativa. Essa imaginação permite ao adolescente projetar-se em um futuro que ainda não lhe pertence, vivenciar possibilidades futuras e planejar sua apropriação ou rejeição, sem perder de vista a realidade em que está inserido (Medeiros et al., 2018).
Nota-se, portanto, que os estudos caracterizados buscam intervenções que elucidem ao indivíduo sua própria subjetividade, para que, então, se discuta sua posição como ser histórico, no meio social. Considerando o período da adolescência como próprio do momento histórico atual (Leal & Mascagna, 2020), é pertinente que a historicidade do trabalho e as relações sociais que cercam este período do desenvolvimento, como a necessidade de realizar uma escolha, sejam debatidos com os próprios adolescentes, visando à conscientização da realidade material em que habitam, contrapondo-se à ideia de que os conflitos são naturais desta fase (Bock, 2013). Ideais relacionados às profissões estão em conformidade com os meios de produção daquele período da história: a composição de um ofício, sua posição social e cultural, e os conceitos que engendram o imaginário acerca dele, existem, inicialmente, de maneira externa ao indivíduo, no meio social, para que, então, seja apropriada por ele e se torne, enfim, intrapsicológica (Vigotski, 2007).
Considerações Finais
Considerando a pesquisa realizada nas bases de dados e as categorias formadas a partir dos resultados, através da discussão nessa revisão de escopo, foi possível mapear a maneira que a Psicologia HistóricoCultural e a Sócio-Histórica propõem práticas interventivas no campo da Orientação Profissional e de Carreira no Brasil. Observa-se a predominância de estudos no contexto educacional, apontando para a relação contundente da educação com a OPC na contemporaneidade. Quando não inseridas na educação, aparecem ligadas a organizações sociais relacionadas à inserção do jovem no mercado de trabalho. Nessa esteira, destaca-se que os estudos aqui revisados foram todos realizados com adolescentes e jovens.
A quantidade de estudos levantados com propostas interventivas não representa um grande número, considerando que foram caracterizadas as produções científicas em um período de 10 anos, porém fornecem importante aporte científico para embasar futuras pesquisas sobre a temática que possam contribuir para a pluralidade de contextos em que a OPC aparece. Ao todo foram oito os estudos revisados, todos realizados com adolescentes ou jovens os quais, em sua maioria, estão em contexto educativo. Quatro destes estudos foram realizados em contexto universitário, ou seja, são relatos de experiência de estágio, extensão ou PIBID, e dois estudos são realizados por pesquisadores da Psicologia. Destes estudos que acontecem no meio escolar, nenhum está atrelado ao projeto político pedagógico da instituição de ensino, não são realizados por psicólogos escolares trabalhadores da escola, mas sim por profissionais vindos de um outro contexto para a realização de uma intervenção, sinalizando importante vacuidade das teorias a respeito da realidade da escola pública no Brasil, questão que deve ser preciosa para as abordagens aqui tratadas.
As intervenções revisadas demonstram pluralidade de estratégias utilizadas para alcançar os objetivos propostos em cada estudo, apesar de ser possível identificar paridade quanto às temáticas abordadas, condição que está de acordo com suas origens epistemológicas. Em todos os estudos as intervenções foram realizadas em grupos de participantes, cenário que favoreceu situações de debates e manifestações coletivas. Como exemplo, no estudo de Veriguine et al. (2014), ao aplicar um jogo com o grupo, alguns participantes mostraram-se resistentes e pediram para não participar, mas mudaram de ideia quando viram os outros jogando e se interessaram também. Entretanto, essa revisão não limitou suas buscas exclusivamente para intervenções coletivas e, nos resultados, ainda antes da aplicação dos critérios de elegibilidade, não foram encontrados estudos que dialogassem acerca de práticas individuais ou clínicas, indicando uma possível lacuna a ser preenchida por pesquisas no futuro. Cabe ressaltar que essa revisão se ateve aos periódicos científicos, não foram incluídas dissertações e teses.
Teorias tradicionais da Psicologia e, neste caso específico, a Histórico-Cultural e a Sócio-Histórica, estão permeadas nos cursos de Psicologia no Brasil e são elas a matéria-prima das lentes que ajudam o profissional e o pesquisador a lerem o mundo. Considerando o campo de estudos da Orientação Profissional e de Carreira, entendemos que esta revisão foi capaz de lançar luz sobre intervenções que estão sendo produzidas e reportadas através de periódicos científicos, compreendendo a magnitude das ações sustentadas pelas abordagens críticas e favorecendo, a partir desta revisão, que outros cientistas compreendam as demandas e lacunas desta área, e ajustem suas intervenções contribuindo para o avanço de uma Orientação Profissional e de Carreira que respeite a luta de classes e a auxilie na qualidade das escolhas que se impõem aos adolescentes e jovens.
Referências
Becker, J. L. F., & Araújo, T. P. (2016). Possibilidades da psicologia no ensino médio: uma proposta de orientação profissional. Itinerarius Reflectionis, 12(2). https://doi.org/10.5216/rir.v12i2.38342
Bock, S. D. (2013). Orientação profissional: a abordagem sócio-histórica. Cortez.
Brasil. Ministério da Educação. (1996). Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Recuperado de https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm
Brasil. Ministério da Educação. (2019). Lei nº 13.935, de 11 de dezembro de 2019. Dispõe sobre a prestação de serviços de psicologia e de serviço social nas redes públicas de educação básica. Recuperado de https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/l13935.htm
Brasil. Ministério da Educação. (2018). Base Nacional Comum Curricular. Recuperado de http://basenacionalcomum.mec.gov.br/
Furtado, O., Bock, A. M. B., Rosa, E. Z., Gonçalves, M. G. M., Aguiar, W. M. J. (2022). A Psicologia Sócio-Histórica e os fenômenos estruturantes na sociedade capitalista neoliberal. In Bock, A. M. B., Rosa, E. Z., Gonçalves, M. G. M., & W. M. J. Aguiar (Org.), Psicologia sócio-histórica: contribuições à leitura de questões sociais (pp. 21-44). Educ.
Gomes, J. M., & Pérez, B. C. (2020). Juventude (s) e a escolha profissional: como a escola pode contribuir?. Mundo Livre: Revista Multidisciplinar, 6(1), 22-36. Recuperado de http://purl.oclc.org/r.ml/v6n1/a2
IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (2023). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua. Recuperado de https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=2102002
Leal, Z. F. R. G., & Mascagna, G. C. (2020). Adolescência: trabalho, educação e formação omnilateral. In: L. M. Martins, et al (org.), Periodização histórico-cultural do desenvolvimento psíquico: do nascimento à velhice (pp. 241-266). Autores Associados.
Lima, E. B. D., Silva, G. D. N., Guedes, D. C. V., & Barreto, M. D. A. (2020). Perejivânie (vivência) na prática de orientação profissional: contribuições da psicologia histórico-cultural. Revista Brasileira de Orientação Profissional, 21(2), 151-161. https://dx.doi.org/10.26707/1984-7270/2020v21n203
Martins, L. M. (2016). Fundamentos da psicologia histórico-cultural e da pedagogia histórico-crítica. In Mesquita, A. M., Fantin, F. C. B., & F. F. S. Asbhar (Org.), Currículo Comum para o Ensino Fundamental Municipal (pp. 41-79). Prefeitura Municipal de Bauru.
Medeiros, F. P., Arinelli, G. S., & Souza, V. L. T. (2018). O lugar da psicologia no ensino médio: a arte como mediação do trabalho com adolescentes. Psicologia Argumento, 36(93), 313-327. http://dx.doi.org/10.7213/psicolargum.36.93.AO03
Medeiros, F. P., & Souza, V. L. T. (2017). Psicologia Histórico-Cultural e orientação profissional: vivências de jovens mobilizadas pela arte. Revista Brasileira de Orientação Profissional, 18(2), 155-165. http://dx.doi.org/10.26707/1984-7270/2017v18n2p155
Melo-Silva, L. L., Munhoz, I. M. S., & Leal, M. S. (2019). Orientação profissional na educação básica como política pública no Brasil. Revista Brasileira de Orientação Profissional, 20(1), 3-18. https://dx.doi.org/1026707/1984-7270/2019v19n2p133
Oliveira, V. S., Manganaro, A. B., Rodrigues, J. S. (2021). O papel da imaginação no processo de escolha profissional. In Z. F. de R. G. Leal, M. G. D. Facci, R. E. dos Anjos (org.), O Desenvolvimento Psicológico Do Adolescente Na Perspectiva Da Psicologia Histórico-Cultural: Temas atuais (pp. 53-69). CRV.
Paulino-Pereira, F. C., Paula, T. A., & Vicente, H. A. (2013). Intervenções psicossociais com crianças e adolescentes em situação de exclusão social. Revista Pedagógica, 15(31), 107-127. https://doi.org/10.22196/rp.v15i31.1800
Pilatti, S. C., & Poli, O. L. (2021). Educação para a Carreira e a formação inicial de professores para a educação básica. Interfaces da educação, 12(35), 583-607. https://doi.org/10.26514/inter.v12i35.5426
Silva, A. V. M., Araújo, D. M., Silva, R. B. A., Moraes, C. M., & Negreiros, F. (2021). Orientação profissional e vulnerabilidade social na escola pública: um relato de experiência. Revista de Psicologia da IMED, 13(2), 175-188. https://doi.org/10.18256/2175-5027.2021.v13i2.4052
Tricco, A. C., Lillie, E., Zarin, W., O’Brien, K. K., Colquhoun, H., Levac, D., Moher, D., Peters, M. D. J., Horsley, T., Weeks, L., Hempel, S., Akl, E. A., Chang, C., McGowan, J., Stewart, L., Hartling, L., Aldcroft, A., Wilson, M. G., Garritty, C., & Straus, S. E. (2018). PRISMA Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR): Checklist and Explanation. Annals of Internal Medicine, 169(7), 467. https://doi.org/10.7326/m18-0850
Veriguine, N. R., Basso, C., & Soares, D. H. P. (2014). Juventude e perspectivas de futuro: A orientação profissional no Programa Primeiro Emprego. Psicologia: Ciência e Profissão, 34, 1032-1044. https://doi.org/10.1590/1982-370000902013
Vigotski, L. S. (2009). La imaginación y el arte en la infancia. Ediciones Akal.
Vigotski, L. S. (2007). A formação social da mente. Martins Fontes.
Notas
Notas de autor
2Endereço para correspondência: Rua Siqueira Campos, 1123, apto 501, 19010-062, Presidente Prudente/SP. E-mail:mfbruno@gmail.com