Artigo Livre
Queridos estranhos, ou a aventura de assumir-se gay na vida privada brasileira (1970-1980)
Dear Strangers, or the Adventure of Coming Out as Gay in Brazilian private life (1970-1980)
Queridos estranhos, ou a aventura de assumir-se gay na vida privada brasileira (1970-1980)
História (São Paulo), vol. 43, e20230035, 2024
Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho
Received: 22 July 2023
Accepted: 09 December 2023
Resumo: O artigo analisa a emergência da dimensão privada do assumir-se homossexual no Brasil no fim dos anos 1970. É certo que há uma literatura sobre a saída do armário que, partindo, sobretudo, do jornal Lampião da Esquina, coloca em evidência um debate público sobre as homossexualidades no qual o assumir-se teria um papel importante. Creio que há uma dimensão que ainda não foi observada pela historiografia LGBTQIAI+ e os estudos sobre sexualidades dissidentes de modo geral: o assumir no âmbito privado, ou seja, como as pessoas começavam a ser interpeladas a olharem para si e sentirem uma necessidade de dizer quem eram do ponto de vista da sexualidade. Eis um dos caminhos para formar o sujeito homossexual nos anos 1970-1980. Percebe-se que se costurou, no Brasil, um modo de constituição de si que modelava pessoas que se relacionavam com outras do mesmo sexo a olharem para si compreendendo o que eram do ponto de vista da sexualidade, aceitando o seu desejo e, posteriormente, assumindo a sua orientação sexual seja para si, de início, e para o próximo, posteriormente.
Palavras-chave: Assumir-se, homossexualidade masculina, historiografia LGBTQIA+.
Abstract: The article analyzes the emergence of the private dimension of coming out as homosexual in Brazil at the end of the 1970s. It is true that there is a literature on coming out of the closet that, based mainly on the newspaper Lampião da Esquina, highlights a public debate on homosexuality in which coming out would play an important role. I believe that there is a dimension that has not yet been observed by LGBTQIA+ historiography and studies on dissident sexualities in general: coming out in the private sphere, that is, how people began to be asked to look at themselves and feel a need to say who they are from the point of view of their sexuality. This is one of the ways to form the homosexual subject in the 1970s and 1980s. In Brazil, a way of self-constitution was sewn that modeled people who related to others of the same sex to look at themselves, understanding what they were from the point of view of sexuality, accepting their desire and, later, assuming their sexual orientation, either for themselves, at first, and for the next person, later.
Keywords: Coming out, male homosexuality, LGBTQIA+ historiography.
Neste texto, estudo a emergência da problemática do se assumir homossexual (hoje popularmente conhecido como sair do armário) na literatura produzida por escritores assumidamente homossexuais no Brasil do fim da década de 1970-80 e na imprensa LGBTQIA+ da época. Trata-se de um período já relativamente conhecido nos estudos sobre gênero e sexualidades dissidentes como um momento de efervescência em algumas capitais do país, notadamente Rio de Janeiro e São Paulo, pelo surgimento da segunda onda do movimento feminista no Brasil (Pedro, 2012), negro (Hanchard, 2001), e homossexual (Quinalha, 2022), ou seja, por uma agitação das minorias em torno da luta por direitos e combate às desigualdades.
Quando nós nos voltamos para esse momento, pensando as sexualidades dissidentes, a construção da identidade homossexual é continuamente mencionada, suas condições de emergência são delineadas, bem como as relações e disputas com o movimento homossexual brasileiro. Estudiosas e estudiosos têm recorrido a fontes como o famoso jornal Lampião da Esquina ou à documentação de coletivos como o grupo Somos (1978-1983) e o Grupo Gay da Bahia. É recorrente a ideia de que o se assumir homossexual fez parte desse momento, mas percebo algumas arestas no campo da historiografia LGBTQIA+: 1) o se assumir homossexual, muitas vezes, é naturalizado; 2) os estudos têm dado importância à dimensão pública das sexualidades dissidentes à época, o que é muito positivo, deixando de lado, porém, a dimensão privada.
Neste sentido, o presente texto pretende suprir tal lacuna ao analisar de que maneira foram elaborados e quais os sentidos dos discursos sobre o assumir homossexual, recorrendo a fontes que possibilitam compreender a dimensão privada dessa experiência. Para tanto, recorro à literatura dos escritores João Silvério Trevisan e Darcy Penteado, além das cartas de leitores divulgadas na revista Rose (1979-1983), a pioneira das revistas de nus masculinos a circular no Brasil. Visando melhor organizar o meu argumento, divido o texto em duas partes. Primeiro, mostro como a esfera privada do se assumir se organizou na literatura gay dos anos 1970. Segundo, direciono o olhar para a imprensa gay da época e destaco como os discursos de visibilidade da sexualidade normatizam as subjetividades homossexuais.
Entre linhas e gestos: a literatura e o assumir-se homossexual
Em 1976, João Silvério Trevisan publicou Interlúdio em San Vicente (testamento de Jônatas deixado a David) pela editora Brasiliense. À época, o autor já contava com prêmios no curto currículo. Fora premiado, por exemplo, no Concurso Latinoamericano del Cuento, em Puebla, no México, em 1975. Não era um estranho no ramo, o que, talvez, além da qualidade do texto, indicasse o investimento editorial.
Em breve nota na Folha de São Paulo, o jornalista Jairo Ferreira, que auxiliou Trevisan na direção do seu filme Orgia ou o homem que deu cria, em 1970, produzido pela Indústria Nacional de Filmes, resenhava o livro fazendo referência à homossexualidade do seu autor ao mencionar o caráter autobiográfico dos contos. Neles, o escritor “resolveu assumir criticamente uma problemática - a do ‘homossexualismo’ - que, no Brasil, não ultrapassa o nível do privado ou da fofoca em ridículas colunas de mexericos para ‘entendidos’” (Ferreira, 1976, p. 48). Talvez fosse uma crítica explícita aos artigos publicados por Celso Cury na Coluna do Meio do jornal Última Hora, da qual se diferenciaria por retratar dramas vividos pelos homossexuais daquela geração, ou, para ficar com a expressão de Jairo, “tendências sexuais reprimidas”.
Como livro na prateleira das livrarias, Trevisan dava-se ao leitor e às leitoras; como escrita, ao tramar seus contos, dava-se a si mesmo, registrava-se, conforme fica claro no texto da orelha da publicação: “Dura tarefa a de auto-representar-se”. Ao finalizar, faz uso de uma citação de Walt Whitman, poeta norte-americano (1819-1892), conhecido especialmente por retratar relações entre homens: “Companheiro, este não é um livro; quem o toca, toca a um homem”.
O conto “Tempos de Elvira Madigan” refere-se diretamente ao tema do assumir-se. Somos apresentados a um narrador, o protagonista, que rememora um momento da vida quando era estudante de medicina e namorava Marco Antônio, o Marquinho. O que realmente impulsiona a história é a chegada do seu irmão Alcides, que, atendendo ao seu chamado, veio do interior para matar a saudade e aproveitar a ocasião para fazer exames de saúde. Ao convidá-lo, pretendia lhe contar sobre a sua homossexualidade e o relacionamento com Marquinho.
Algumas frases do narrador do conto instituem maneiras de lidar com as experiências homossexuais. Ao dizer-se apaixonado, ressalta “pela primeira vez sem sentimentos de culpa”, revelando a autodiscriminação e falta de aceitação social sofrida por homossexuais. Estava feliz “desde que finalmente aceitara a minha própria maneira de amar, aquela que eu sempre tinha querido mesmo quando sentia medo” (Trevisan, 1976, p. 122). Isto é, a felicidade seria garantida quando se aceitasse, sugerindo aí um caminho para a fabricação do sujeito1 homossexual: reconhecer-se, aceitar-se, assumir-se. Como resultado da equação, havia a felicidade.
Contar do amor por Marquinho era “desafiar o meu meio. Isso me garantia a possibilidade sonhada de respirar e sentir-me florescendo no meio de tantas pedras. Que estão sempre sendo atiradas no caminho da gente” (Trevisan, 1976, p. 124). O desafio se dava tanto pela sociedade mais ampla quanto pela família patriarcal do narrador, ele que morou boa parte da vida no interior, indo estudar na capital (Trevisan, 2017). A busca por capitais e cidades maiores tem conexão com pessoas homossexuais devido à possibilidade de elas transitarem por diversos lugares, escondendo-se nos labirintos dos grandes centros urbanos (Eribon, 2008).2
Características das homossexualidades já foram suficientemente abordadas pelos estudiosos da obra de Trevisan. Rosemário da Costa Cruz lança mão de Devassos no paraíso e Troços e Destroços a fim de compreender as representações críticas e culturais do autor frente à homossexualidade (Cruz, 2007). O historiador Miguel Rodrigues de Souza Neto recorre ao livro que elegi para discutir a intolerância à homossexualidade (Souza Neto, 2003). O aspecto do se assumir, entretanto, não chamou atenção dos que sobre ele se debruçaram.
Trevisan escreve seu conto do lugar de escritor homossexual. É um autor preocupado em falar dessas experiências, certamente tentando conferir um lugar, no cânone literário, a aspectos até então pouco frequentes na literatura brasileira. A história narrada permite perceber como um escritor autoexilado reflete, diz e elege episódios a serem contados sobre as vidas homossexuais. O seu olhar é daquele que se relaciona com pessoas do mesmo sexo, de um escritor que viveu problemas familiares com o pai em decorrência da homossexualidade, que teve experiências afetivas com outros garotos no Seminário onde estudou no interior de São Paulo (Trevisan, 2017). Sua linguagem institui lugares, temáticas e códigos que criam determinados espaços para os homossexuais, dentre os quais a publicização da sexualidade. A narrativa do assumir no conto em questão vem dizer que não há mais razões para silenciar a homossexualidade. Pelo contrário, exige-se falar, ela é uma forma de perceber como um escritor homossexual representava a si mesmo e os problemas do seu meio por meio da arte (Pesavento, 2003). Semelhante movimento seria visto mais tarde, entre 1978-1981, no jornal Lampião da Esquina (Souto Maior, 2016).
Na época da publicação, Trevisan ainda se sentia desiludido com a ausência de um movimento homossexual no Brasil. Igualmente, chamava-lhe a atenção a visibilidade homossexual na cidade de São Paulo em meados da década de 1970, com destaque para travestis e michês no centro da cidade (Trevisan, 1997, p. 53-91).
No conto de Trevisan, o que importa é a esfera íntima do assumir-se. O narrador estava feliz, pleno no seu amor, vivendo-o intensamente ao lado de Marquinhos. Faltava-lhe, porém, algo para a felicidade intensa; faltava dizer-se para alguém da família. Apesar da vontade de querer romper laços sanguíneos da família patriarcal, de um passado que lhe atirara pedras e merecia ser esquecido, fabricou o desejo de publicizar a sexualidade para um parente, em busca de uma aprovação vinda do espaço privado, lugar elaborado no desvelar-se, no deixar-se aparecer, na ausência de máscaras, na exibição de uma identidade verdadeira, muitas vezes exposta somente entre quatro paredes.
A exibição dessa identidade, porém, podia causar o rompimento com os familiares. Entre continuar se escondendo ou se dizer, o narrador resolve arriscar, e algumas de suas expressões expõem a dificuldade que era vencer aquele desafio: “No começo, foi difícil aceitar a ideia totalmente. Medo de chocá-lo, de perdê-lo. [...]. Me agradava imensamente a ideia de dividir esse segredo com Alcides”. Atente-se para o duplo lugar ocupado pela homossexualidade: o lugar do segredo, do que não pode ser dito a todos, pelo caráter particular, sigiloso, discreto, secreto que ela deveria ter; e o lugar do reconhecimento, a necessidade de ser aceito por alguém da família, isto é, o assumir-se recorre aqui a uma aprovação privada.
Outro traço marcante é a maneira como é elaborada a cena do assumir. Destina-se a ela um longo parágrafo do conto. Ali se prescreve uma maneira possível de dizer. Ao sair do hospital, onde Alcides fez seus exames, levou-o para uma sauna e foi
lhe contando com muita calma e segurança esse amor tão simples cuja explicação chegava a me parecer ridícula e desnecessária. Fui falando dos motivos, primeiro, limpando o terreno; expliquei a sexualidade humana como um leque aberto, uma inclinação não dogmática. Falei-lhe de tudo o que já descobrira, até então, sobre os condicionamentos culturais que fazem os homens amarem apenas as mulheres e as mulheres apenas os homens - entre outras coisas. Falei das tribos onde os papeis são invertidos, tentando mostrar a relatividade de qualquer padrão cultural e a inexistência de um único padrão de normalidade para conduta. Me saí até que bem, eu acho. Porque depois fui direito: eu sou assim, diferente dos padrões impostos que você conhece - porque gosto, acredito, quero. E porque estou apaixonado. Alcides me ouvia calado; ouvia minha história com Marquinho. Quando terminei tudo, esperei que me fizesse alguma pergunta. Permaneceu apenas em silêncio, me olhando ainda. (Trevisan, 1976, p. 126).
O trecho se assemelha a um manual de como se dizer. Calma e segurança compõem a performance do assumir. O emissor precisa demonstrar certeza do que diz, evitando seu interlocutor de pensar se não se trataria de um período da vida marcado por uma crise, um problema psicológico ou uma doença possível de ser tratada, como comumente se acreditava na época (Green, 2000). Antes de levantar o principal objetivo da conversa, conta os motivos, “limpando o terreno”. Com a intenção de desarmar ideias preestabelecidas de Alcides, fundamenta a sexualidade humana como um “leque aberto”. Mostra que não está falando com base em dizeres alheios, ressalta seus estudos, leituras e conhecimentos, menciona tribos em que não há um único padrão de normalidade. Finalmente, se diz, e para que não restem dúvidas a respeito dos seus afetos, lança três verbos indicativos expondo uma ação, um estado de si de forma segura: “gosto, acredito, quero”. Dizer ao irmão é consolidar sua identidade secreta e carente de aprovação. Assim, abre-se ao mundo familiar que havia tentado negar, mas sentia que não podia seguir sem a tentativa de aprovação diante do seu segredo, não podia continuar sem uma aceitação da esfera privada.
Alcides apoia o irmão e se revela um pouco triste pelo fato de ele ter demorado em revelar-lhe o “segredo”, como se a revelação fosse uma obrigação do sujeito homossexual. Por outro lado, “eu achei lindo demais. Isso tudo que você me disse. No duro mesmo, é só isso. Por isso eu queria conhecer o teu... o Marquinho”. A cena que segue expõe que todo o risco de se revelar valeu a pena: “Fomos apanhar Marquinho para jantarmos os três juntos. Eu me sentia exultante, jovem, perfeitamente vitorioso. Acho que raras vezes vivi essa inexplicável sensação de poder absoluto igual àquela noite. Queria pular, brincar, comemorar [...]”.
A mensagem da publicização não para por aí. Alcides estava com câncer e morreu em seguida. Aí, o conto oferece um outro caminho interpretativo diante do assumir. A satisfação de ter a identidade aceita consolidou-se pela coragem de se dizer antes que a morte levasse Alcides e a dúvida de que dizer ou não, de ser aceito ou não, prevalecesse. Os leitores e as leitoras podiam se inspirar naquela história, fazê-la sua.
Para Trevisan, no lugar de literato, a revelação íntima era uma parte não ignorável das narrativas homossexuais. O seu olhar estava atento ao que compunha a vida dos e das homossexuais, o segredo, e o que dela deveria fazer parte, a revelação. Tanto que, em outros contos do livro, se institui o binário jogo do calar ou falar sobre a homossexualidade.3
Na orelha do livro, ficamos sabendo que Trevisan exerceu várias profissões, se autoexilou durante a Ditadura Militar brasileira, passando por vários países da América Latina, residindo nos Estados Unidos e no México. Morou mais de um ano na Califórnia e entrou em contato com os movimentos feminista e homossexual, que já tinham começado naquele país e avançavam a passos significativos.4
Nesse país, nos anos 1960, circulavam publicações homoeróticas como o Vector e o The Advocate. Ambas tentavam incitar um engajamento social nos seus leitores. O Advocate era um jornal, diferentemente do Vector, que se dizia uma revista. Esses periódicos, no seu conjunto, preocupavam-se com uma visibilidade pública das homossexualidades. Além do mais, um dos principais eixos do movimento gay americano foi o assumir-se (D’Emilio, 1983, p. 100-113). Certamente, isso acabou influenciando o autor de Devassos no paraíso a tentar criar um grupo de discussão sobre a homossexualidade na cidade de São Paulo, em 1976. A ousada empreitada não vingou porque os participantes se viam anormais homossexuais (Trevisan, 2007).
Por sinal, a tentativa fracassada de criar um movimento em 1976 mostrou-lhe que a caminhada não seria simples. A literatura viria a incutir nos e nas homossexuais a percepção que tinham de si mesmos, fazendo-os e fazendo-as aceitarem-se e não mais lutar contra a negação do desejo. Feito isso, poderiam se assumir no ambiente privado e, com esforço, no público. Assim, o autor tentava elaborar um mapa para o sonhado movimento homossexual brasileiro.
A título de registro, Darcy Penteado igualmente se colocava no campo literário. Artista plástico conhecido na alta sociedade paulista das décadas de 1960 e 1970, ocasionalmente presente na mídia, Darcy resolveu se testar na carreira de escritor e, em 1976, publicava A meta pela Editora Símbolo, um livro com sete contos. Num deles, “Engrenagens”, um narrador se observa, analisa a vida, a paixão platônica por um colega de escola, o casamento com Bárbara e os filhos.
O conto inicia relatando uma briga do casal. O narrador se culpa, questiona se não a provoca propositadamente para se afastar da esposa. A frase construída aí direciona todo o conto: “Eu precisaria me conhecer melhor..., mas eu me conheço bem..., ou não?”. Passa para cenas de preconceito vivenciado na escola, resultado da paixão platônica por Nando, que certa vez o incitou, voltou atrás e emendou: “Porra, que é que há garoto, está me estranhando? [...] Vou te levar pra umas mulheres, pra acabar com essa frescura. Porra, isso não é coisa de homem!” (Penteado, 1976, p. 26). A frase diz muito de como eram elaboradas subjetivações homossexuais, valendo-se da humilhação, de um lugar que não existe para acolher esses indivíduos, bem como pode se perpetuar na mente de quem a ouve: “Que merda! Como essas coisas de infância marcam a gente...” (Penteado, 1976, p. 27).
Para o narrador, o casamento foi uma possibilidade de se afirmar homem, e escolher ter filhos reforçava uma ideia de família elaborada como correta, um casal heterossexual com filhos biológicos. A história segue registrando a constante inquietação do narrador, que não consegue aceitar o desejo homossexual. Vêm as lembranças da frase de Nando: “Mudou o rumo da minha vida, me fez passar meia existência procurando provar o que não sou. Mas o que sou? Se tivesse tido coragem de assumir, mesmo depois, quanta coisa errada teria sido evitada... Paciência” (Penteado, 1976, p. 29).
Daí em diante, o narrador se percebe num dilema: “Eu resolvi assumir, pô”. Por outro lado, “Mas eu não sou pederasta! [sic]. Sou casado, tenho filhos, eu...”. Angustiado, chora “pelo que deixei de oferecer a mim mesmo”. Segue nesse movimento, encontra-se com uma travesti, contrata-a para um programa. Ao fim, questiona até quando viveria daquela forma: “Mas só depende de mim, de eu ter coragem para...”, pretende ajustar os rumos da vida, se ajustar a alguma coisa.
Na atmosfera criada por Penteado, o narrador percebe a homossexualidade, mas não a aceita devido ao regime de heterossexualidade compulsória (Rich, 2010, p. 17-44) refletido no conto. Logo, se não a aceita, não é possível assumi-la. A imagem do homossexual, no conto, é o de uma figura que vive no conflito, na tensão entre performatizar o que deseja ou o que é socialmente aceito. Se, por um lado, o conto reflete dilemas das experiências homossexuais naquele momento, por outro, estabelece que essa questão é uma das que merecem atenção na constituição de um sujeito que socialmente saía da taxonomia médica. O homossexual apresentado é o do conflito e que está condenado a isso até o momento de se aceitar e assumir a homossexualidade.
Em mais um caso, o assumir-se tenta se efetivar no âmbito privado. O narrador mostra impulsos de contar ou não para Bárbara. Contar e se separar seria buscar responder à pergunta: “Mas, e eu? O que sou?”. É uma pergunta associada às situações de crise identitária. O indivíduo, vendo-se em conflito com códigos, valores e discursos, tenta se direcionar, encontrar um caminho firme para seguir.
Sidney Chalhoub, em Machado de Assis, historiador (Challhoub, 2003), faz uso de duas historicidades na análise da obra daquele escritor. A primeira pretende dar conta do tempo gestado na obra; a segunda seria o contexto histórico do próprio autor. Pensando no texto aqui analisado, Penteado, de maneira geral, retrata o seu próprio tempo, embora haja exceções em alguns contos do livro.
Penteado tem um lugar de fala particular: ele era identificado como homossexual, circulava na alta sociedade de São Paulo, a maior economia do Brasil. Era branco, cisgênero, artista reconhecido pela crítica e com poder aquisitivo considerável. A julgar pela forma como pondera o seu tempo presente, a situação era das mais favoráveis, inclusive para se assumir. Isso é o que ocorre no meio em que ele circulava. Não por acaso o crítico literário Leo Gilson Ribeiro menciona a coragem do artista em se desvendar “como homossexual consciente da sua situação” (Ribeiro, 1977, p. 13). Ademais, na sua literatura, o assumir ocorre entre personagens que vivem favoráveis situações econômicas, possuem carros, vão a bares, enfim, têm um modo de vida semelhante ao do seu autor.
Há um traço notável no livro de Penteado: a recepção que teve, sobretudo do ponto de vista da sua coragem, de se assumir para o público. Quase um ano depois, o livro estava esgotado. No campo da crítica, alguns o elogiaram, outros nem tanto. Tamanho estardalhaço levou Celso Cury a entrevistá-lo para a Coluna do Meio, apresentando-o como aquele “que resolve, com a publicação do seu livro de contos, assumir a sua homossexualidade, publicamente, doa a quem doer” (Penteado, 1977).
As tentativas de tornar Darcy Penteado um autor da temática homossexual percorreram as entrevistas, ensaios críticos e textos assinados pelo autor em revistas voltadas ao grande público e tratando da homossexualidade. Na revista Mais publicou “O filho homossexual e seus pais”, ressaltando a ajuda que aquele deveria ter da família contra as discriminações sofridas fora de casa. O lar deveria adquirir outra conexão para os homossexuais: o lugar do conforto e não do receio, do apoio e não da rejeição, da aceitação e não da recusa. Essa situação se consolidaria quando se sabe da homossexualidade dos filhos. O artigo seria uma amostra de um livro que Penteado estava escrevendo: Guia para os pais de homossexuais (Penteado, 1977). A função autor5 é exemplar nesse sentido: não se chama qualquer um para falar, convidam Darcy Penteado, artista brasileiro, autonomeado homossexual e que pode falar do tema diante da sua própria biografia. O assumir estava conectado, portanto, a quem falava a respeito do tema, a quem veiculava esse tipo de discurso, daí a importância de historicizar esse lugar de fala como espaço que gera (im)possibilidades para dizer algo, de uma dada maneira, em meio a um regime discursivo específico que seleciona, organiza e dá a ler.
Trevisan e Penteado optaram por colocar o seu próprio nome nos livros que publicaram em 1976. Em uma sociedade em que escrever sobre temas homossexuais despertava atenção dos censores, recusar pseudônimos e assumir um cunho autobiográfico era enfrentar um duplo silêncio: o colocado pela Ditadura e o colocado na homossexualidade, o qual se buscava romper numa narrativa que reflete os dilemas de personagens homossexuais em se assumirem como tais.
Ao assinarem o nome nas obras, ambos associam escrita e biografia, confessam duplamente a homossexualidade. Há uma dimensão política que consiste em intervir na sociedade. Penteado, particularmente, talvez pela fama que o rodeava, foi mais ousado, deixando-se fotografar na capa traseira do livro, sem camisa, com peitoral à vista, em claro teor sensual. Se livros podem não ter atraído interessados, nas bancas de revista a ousada Rose, com seus modelos de capa, poderia soar mais atrativa, e, entre uma foto e outra, cartas de leitores e leitoras apostavam na aceitação de si como homossexuais.
O se assumir fabricado pela imprensa gay
Uma editora decisiva na história das sexualidades (dissidentes) e das relações de gênero no Brasil foi a Grafipar, que, na década de 1970, chegou a publicar diversas revistas discutindo comportamento sexual e mostrando nus femininos e masculinos. Quando a revista Rose surgiu trazendo fotos de homens despidos e se dizendo voltada às mulheres, não havia outro periódico com tal feito. Apesar disto, desde o princípio ela abordava questões homossexuais, até que, no número 50, após uma pesquisa com os leitores que mostrou ser 90% deles homossexuais, a revista se colocou totalmente voltada a esse público.
Confidências aparece no arquivo da Rose como a seção por excelência do assumir-se. Ali havia tanto a voz da revista, do seu ponto de vista, representada por Nina Fock, pseudônimo do jornalista Nelson Farias, conselheira sexual, quanto a voz dos leitores. Era um lugar de biografias infames, que talvez só tenham deixado parágrafos, lampejos de vidas ciosas em se assemelhar ao conteúdo daquelas páginas; elas tinham na aceitação uma bússola para chegar a um dos principais ângulos da subjetivação homossexual, o assumir-se (Foucault, 2003, p. 203-222).
Anteriormente, outras duas revistas circularam pela mesma editora, Grafipar, e tratavam de temas ligados à sexualidade, como foi o caso de Confissões íntimas e Peteca, esta com fotos de nus femininos. A editora reuniu alguns dos principais artigos no livro Iniciação sexual (Sexyterapia): os melhores artigos de Nina Fock, que trazia, no capítulo “Homossexualidade”, as seguintes frases:
O mesmo que eu faço menos ele faz comigo, ou seja um possui o outro. Devo acabar com esse Homossexualismo Secreto? Em casa ninguém sabe: o que devo fazer? [...] (“Rapaz triste” - Apucarana/Paraná).
Devo me entregar completamente, assumir de vez a homossexualidade? [...] (S.A. - São Paulo/SP).
Somos livres para escolher o que nos convém? [...] (The Bird - Varginha/MG).
Já sofri demais e ainda sofro, pois meus pais não sabem do meu problema. [...] (L.G.A. - Recife/PE).
Tenho certeza de que sou homossexual, estou apaixonado por esse rapaz, mas não tenho coragem de assumir. [...] (L.C. - Ouro Fino/MG).
Fui na zona ou casa de prostituição, mas não tive vontade. Eu só penso em outros homens, pessoa do meu sexo. Já quando pequeno eu tinha relações com meu irmão. Se meus pais descobrirem algo, eu me mato [...] (“Mechas” - Urupês/SP).
Eu sou passivo com ele, mas penso em rapazes de todas as maneiras. Já não sei o que fazer. A verdade escondida aparece: se a minha família descobrir eles me matam [...] (sic) (M.A.S. - Belo Horizonte/Minas).
Apesar de possuir uma boa relação sexual com minha esposa, tenho um gravíssimo problema: sou homossexual. [...] (“Cassivaldo” - Salvador/Bahia).
Será com uma simples relação que a pessoa pode se tornar homossexual? (“Amante” -Santa Cruz do Sul/ Rio Grande do Sul).
Sou gay, 25 anos. Meus irmãos e irmãs me cobram uma cunhada. Minha mãe, com tristeza, nada diz. Não posso me casar só para dar satisfações à família. O que fazer? (G.Q. - Bauru/ São Paulo).
Afinal, como eu devo assumir e o principal é isso: devo assumir ou não? como me comportar perante a sociedade? meus pais, no trabalho? (E.G.C. - Rio de Janeiro/RJ).
Dialogando com as frases acima, sigo dois movimentos de análise. O primeiro, referente à própria composição da obra; em seguida, detenho-me no que foi dito e recortado das missivas.6
O fato de o livro ser elaborado unicamente por textos de “Confidências” é indício do sucesso editorial da seção. O editor, Faruk El-Khatib, destaca, na apresentação, os cumprimentos postais que a Grafipar recebe de pais e professores a partir das centenas de cartas dirigidas à Nina, cujas respostas baseiam-se “nas mais profundas e corretas pesquisas do comportamento sexual” (1979, p. 3). Menciona a necessidade de educação sexual da juventude brasileira, desinformada nesse assunto, conforme se veria nas missivas.
Há uma composição de vários artigos já divulgados em revistas da Grafipar sobre o tema. Nenhum ineditismo. Ao que parece, as reflexões são as mesmas. Era mesmo mera reunião com propósito comercial e colocava em circulação as sexualidades, um tema em alta. Nina, além de mediadora no vínculo leitor-Grafipar, é a psicóloga que chegava, ora mensalmente, ora quinzenalmente, nas casas de brasileiros interessados em tratar de questões particulares em meio à apreciação de nus masculinos, no caso da Rose, ou feminino, no caso da Peteca. O ineditismo resulta no livro com perguntas e respostas, ou melhor, desabafos, e intervenções guiadas por um leitor voraz em temas de sexualidade.
Alguns assuntos são selecionados em meio a tantos outros. Certamente, elegem-se os mais comuns nas cartas e cujas edições mais venderam ou trouxeram um feedback dos leitores e das leitoras. Como não apresentava imagens de mulheres nuas (na capa, há um casal heterossexual nu, mas sem expor as genitálias, trocando carícias), o livro incentivava leitores e leitoras a comprazerem-no. Além do mais, no caso específico de homossexuais não assumidos, se pegos portando a obra, poderiam alegar um dos vários outros assuntos do sumário. A relação entre leitor-livro se diferenciava da relação leitora-revista, pois, para ficar em apenas um exemplo, o primeiro não trazia imagens e fotos, ao contrário da segunda.
O capítulo “Homossexualidade” começa com depoimentos de homens e mulheres que se percebem homossexuais. Em seguida, conceitua a homossexualidade do ponto de vista da sexologia, recorrendo ao relatório Kinsey. O segundo tópico do capítulo traz, em letras maiúsculas e em negrito, a frase “Homossexualidade: assumir ou não?”. Este destaque relacionado ao tamanho e cor da fonte de um subtópico se repete uma única vez em todos os demais capítulos, em “Variantes do impulso sexual”.
Dentre os diversos assuntos que poderiam ter sidos abordados no capítulo “Homossexualidade”, metade é dedicada ao assumir. Tal investimento se deu em virtude da recorrência ao tema. A documentação da “Peteca”, e, mais especificamente, da Rose, traz, com frequência, textos sobre esse assunto, em cartas de leitores, na seção “Encontro Gay” (espaço de troca de endereços) (Carinhoso, Rose, n. 59. Curitiba: Grafipar, [s.d.], p. 40), e, especialmente, na seção “Confidências”.
Voltemos a algumas frases importantes: “meus pais não sabem do meu problema”; “tenho certeza que sou homossexual [...], mas não tenho coragem de assumir”; “se meus pais descobrirem algo, eu me mato”; “a verdade escondida aparece: se a minha família descobrir eles me matam”; “O principal é isso: devo assumir ou não? Como se comportar perante a sociedade? Meus pais, no trabalho?”. Por aqui, se observa como o tempo de assumir, que necessitou da constituição de si no espaço privado e na relação consigo mesmo (Souto Maior Júnior, 2019), lançou mão de uma esfera intimista da casa, do lar, do privado, para se efetivar. O íntimo se relaciona com a família. É no ambiente privado, no qual geralmente o eu é livre para ser o que deseja ser, que uma questão pulula, pois justamente ali se é obrigado a fingir, a negar-se, a ocultar-se, a mentir. A menção comum ao receio ou vontade de se assumir para os familiares recorre a uma identidade escondida e única, a verdadeira, que comumente só poderia ser vivida se publicizada.
Mais do que frases isoladas na disposição material dos textos em análise, emerge daí um enunciado que as articula e que se refere à indissociabilidade e tensão constitutiva do assumir-se na família como condição sine qua non para viver. De forma ambivalente, o “eu” demanda do outro a aceitação e a aguarda como chave de interpelação sobre si mesmo, embora essa relação com a coletividade do espaço familiar e da dimensão privada não possa ser vista, unilateralmente, como a definidora da subjetividade homossexual.
No entanto, essa preocupação não se originou no sujeito, não nasceu com ele, não veio de pronto quando se deu conta de que o que sentia cabia no conceito de homossexualidade. O assumir se fabricava no indivíduo a partir da leitura desses textos, ao não somente tocarem no assunto, mas gestá-lo em meio a referenciais específicos, relacionados aos parentes e familiares, ao domicílio, ao trabalho.
A seleção da Grafipar tem função estratégica, uma vez que elege essa regularidade discursiva e trata especificamente da publicização da homossexualidade. Mereceriam figurar na escolha os trechos de cartas que se utilizassem de códigos e valores semelhantes e com remetentes de diferentes regiões do país. Assim, o assumir saía das páginas em preto e branco (poucas eram coloridas devido aos preços de impressão) das publicações, das letras miúdas, do espaço limitado a 40 e poucas páginas e viajava o Brasil, interpelando leitores e leitoras que talvez nunca tenham se conhecido ou se visto, mas se encontravam por um problema comum: aceitar-se e se dizer homossexual. Portanto, há uma performance de confissão que guia a aceitação. A proposição de Pedro de Souza no estudo sobre a correspondência passiva do grupo de militância homossexual Somos é oportuna nesta reflexão: “o traço definidor do ato de confessar está no fato de ele se constituir num modo de referência a si para julgamento do outro” (Souza, 1997, p. 37-38).
A bem dizer, há mais de dois séculos romances e jornais tiveram importante atuação em representar nações, ou, como diz o sociólogo Benedict Anderson (2008), comunidades imaginadas.7 Determinados textos utilizam elementos unindo leitores e leitoras, de tal modo que cada um possa identificar no hiato entre as palavras traços de si, da vida de um amigo, de um drama vivido por si mesmo ou por algum conhecido. Revistas contam com um público-alvo e, por isso, reúnem um conjunto de características próximas aos dilemas vivenciados pelos seus leitores. Assim, acabam formando uma comunidade imaginada, na qual estranhos e desconhecidos se aproximam por traços convencionalmente colocados como comum a todos e todas.
Alguns documentos, a exemplo de cartas - à exceção das cartas públicas -, são constitutivos da vida privada, das emoções do missivista, do que sente, do que tenta narrar, de como o que escreve tenta lhe modelar. As cartas de “Confidências” nasciam de uma batalha entre o eu privado e as consequências dos sentidos públicos da homossexualidade em discursos religiosos, morais, culturais. Certamente, pensando com Catherine Viollet (2014), elas trazem uma autocensura frente a um destinatário desconhecido e que pode se manifestar por silêncios, interferências enunciativas e, acrescento, rupturas na própria narrativa dos eventos. Assim, cartas se elaboram em meio às tensões do público versus privado.
Cartas inscrevem e escrevem o eu no tempo, permitem e são efeitos de técnicas de si.8 As da seção “Confidências” possuem uma estrutura oportuna na capilarização das relações de poder; elas apontam para a interpelação da homossexualidade. Naquele momento, essas técnicas implicavam descobrir o conceito de homossexualidade, reconhecer-se nele, aceitá-lo, assumindo para si mesmo o que se é. Completada a tríade, o indivíduo se percebia como sujeito de uma homossexualidade em um processo que, dentro em breve, passaria por decisivas modificações com a chegada da Aids.
Assim, a formação de um modo de existir que passava pelo se assumir se deu na aceitação de si como homossexual e na sua publicização no campo privado e/ou público. Não há assumir-se sem aceitação de si. Era possível optar por ser homossexual sem se revelar. Não podia, entretanto, ser homossexual sem se aceitar. Observe, nesse sentido, a carta de J.V.S.:
TENHO MEDO E VERGONHA QUE MEUS PAIS DESCUBRAM...
Minha família sempre foi cheia de problemas. Minha mãe sempre foi uma pessoa doente, e isso fez com que eu sofresse muito na minha infância, e até mesmo quando eu tinha meus 10 a 11 anos, cozinhava e cuidava de casa e dos meus irmãos menores, pois não tinha quem o fizesse. Meu pai sempre foi muito grosseiro com a gente (até hoje), me batia muito, como também nos meus irmãos, e vivia sempre brigando com minha mãe. Isso me deixava muito marcado e triste. Hoje, estou com 20 anos e, como se não bastasse tudo que aconteceu e continua acontecendo em casa, apareceu-me um novo problema. Vivo na maior privação pois sou homossexual. Mesmo não aceitando, nada posso fazer para controlar meus impulsos. Tenho muito medo e vergonha que um dia meus pais venham a saber de toda verdade. Nina, sinceramente eu gostaria muito de ser uma pessoa normal, mas não dá, Nina, não dá mesmo. Hoje, estou com 20 anos. Quando eu tinha meus doze, comecei a sentir atração pelos meninos. Comecei a amar os meninos da minha rua. Desde então, não parei mais; mesmo depois de rapaz continuei, pois é impossível parar. Nina, eu sofro muito com isso, acho que você imagina, porque é uma das poucas pessoas nesse mundo que entende a gente. Cada vez que vejo um rapaz bonito, sofro mais ainda, pois sinto um desejo enorme de amá-lo; mas eu sou muito tímido e calado, não tenho muitos trejeitos, mas às vezes, sem ao menos esperar, esses trejeitos se manifestam e as pessoas que estão por perto me olham desconfiadas e com olhar de desprezo. Isso eu sinto nos olhares. Vários colegas de aula e da minha cidade sabem de tudo, com alguns eu já transei, mas tem sempre aqueles que querem ridicularizar a gente. Quando vejo um homossexual desses bem efeminados, eu fico com raiva dele, pois isso complica mais ainda a classe da gente. Porque do jeito que as pessoas interpretam esse cara, interpretam a mesma coisa em mim. Acho que não há necessidade de sair por aí todo pintado vestido de mulher, para chamar atenção; acho isso ridículo [...] (sic). (J.V.S. - Tucuruí/ Paraná) (J.V.S., Rose, n. 51, [s.d.], p. 38).
Tomemos a frase em caixa alta colocada pela Rose. A descoberta da homossexualidade no destinatário está relacionada aos sentimentos de medo da reação dos pais e vergonha por não corresponder ao normal, ser heterossexual. Dela se pode extrair algumas questões. Dentre vários assuntos, elejo especificamente o receio da descoberta da homossexualidade. A carta é publicada na edição 51, posterior ao decisivo quinquagésimo número, no qual Rose se coloca preferencialmente destinada ao público homossexual.
A família, a esfera íntima, constituía um dos maiores desafios aos indivíduos no caminho para se tornarem sujeitos homossexuais. Na missiva de J.V.S., há um parágrafo narrando a atribulada situação familiar, ressalta-se a violência paterna, o que agravaria o temor de se assumir. A homossexualidade chega ao texto como um problema, levando o missivista a expressar que desejava ser normal. Ele diz que é homossexual, mas não se aceita. No movimento colocado por aquela imprensa, não se podia ser homossexual e não se aceitar. Ao dizer “mesmo não aceitando”, parece que J.V.S. respondia a um imperativo do seu tempo, a aceitação de si.
J.V.S. utiliza conceitos que participam da sua própria produção enquanto sujeito, que é efeito de um outro, o periódico. Quando diz “eu”, o faz a partir de um eu que foi cunhado no discurso do outro. Assim, a aceitação da homossexualidade e, por extensão, o assumir, é uma atitude do sujeito perante si mesmo, uma atitude que ele não inventou. Em outros termos, ler o conceito de homossexualidade, se reconhecer nele e aceitá-lo formam uma moldura oportuna para o indivíduo se tornar sujeito homossexual. O sujeito responde pelo status em que se encontra, não porque o escolheu, mas porque se depara já neste lugar.
Uma preocupação que tensiona o jogo de se aceitar e se assumir é o afastamento dos modelos do que seria ser homem, presente no desejo de ser normal. A literatura das masculinidades tem destacado que, de maneira geral, os homens vivem uma ditadura do vencer. A homossexualidade adquire um relevante papel aqui: perceber-se homossexual, lendo o relato de J.V.S., era fracassar no projeto da masculinidade, cuja exigência é ter sucesso com as mulheres, poder no espaço público e privado e prestígio social.
Há ainda um marcador que não se pode ignorar, o incômodo do autor com uma performance considerada feminina e possivelmente com as travestis. Essas pessoas “complica(m) ainda mais a classe da gente”. Não é que elas não precisassem se dizer, tamanha a aproximação entre seus gestos e o feminino; elas deveriam, isto sim, controlar, vigiar a si mesmas e talvez anular a sua existência, se fazendo passar por um gay cis distante de traços femininos. Portanto, temos uma ambivalência entre se assumir e ser homossexual de certa maneira.
Sócrates Nolasco reflete que a identidade masculina brasileira no fim do século XX, além de estar diretamente associada à identidade sexual (Nolasco, 1997), se elabora no reconhecimento dos pais. J.V.S., semelhante a vários rapazes da sua geração leitores de Rose e que narram as tensões vividas com os pais, são sujeitos, em grande medida, constituídos no resultado do erro de um projeto de masculinidade aceito socialmente. Eles falharam no projeto de vida da sua família, que era se tornarem “homens de verdade”. A relação consigo se basearia entre perceber que não se reconhece no projeto da heterossexualidade compulsória, lidar com a reação dos pais e aprender uma nova forma de existência, aprender a ser homossexual, se aceitar e daí se assumir.
Para Mario Pecheny (2005), as identidades homossexuais discretas exercem algumas funções, dentre as quais a homossexualidade aparece como segredo fundante da identidade; o segredo da sexualidade pode funcionar distintamente com aqueles que não sabem de nada, os familiarizados ou os pares do mundo homossexual; relações com outros homossexuais têm consequência importante na interação do indivíduo com a sociedade. Dessas três proposições, foco, neste momento, na primeira, por acreditar que se aproxima do que a documentação da Rose dá a perceber.
Pensando com Pecheny, a não evidência da homossexualidade permite aos indivíduos optarem por verbalizá-la ou não diante de situações, espaços, momentos e interlocutores diferentes. Não raro a homossexualidade constitui “um segredo fundante da identidade e das relações pessoais dos indivíduos homossexuais” (Pecheny, 2005, p. 16).
Os processos subjetivos são movidos por dúvidas, contradições e incertezas. Em grande medida, destaca o sociólogo, a razão disso é a tomada de consciência da homossexualidade, frequentemente aprendida como vergonhosa e anormal, talvez antes mesmo de ser percebida pelo sujeito. Diz o autor: “Os sentimentos podem evoluir positivamente ao longo do processo de coming out, mas as ambiguidades não desaparecem completamente. Ademais, a percepção pessoal da discriminação social é muito forte” (Pecheny, 2005, p. 132).
Passemos à resposta da Rose à carta de J.V.S.:
Observe-se a nuance paradoxal que caracteriza não só o caso apresentado, como, de resto, quase toda a comunidade homossexual: uma dolorosa queixa contra um preconceito que eles também conhecem e exercitam muito bem. Um drama em atos variados, onde funcionam ora como vítimas, ora como algozes. Trata-se do grande preconceito contra o comportamento efeminado de um grande contingente de homossexuais. Basicamente, esse comportamento é bem descrito no caso apresentado: a postura efeminada do homossexual reflete não só a anulação do modelo paternal - e, consequentemente, o padrão “masculino” -, como uma agressiva revolta contra a violência do pai. Essa rebelião traduz uma revolta à rejeição do meio e, muitas vezes, trai a própria vontade em exteriorizar um padrão mais “másculo”. Nesses atos variados, a postura vai do homossexual que se aceita mais por completo, assumindo uma postura natural (muitas vezes pouco contida - e revela-se nesse quadro a ausência de um pai violento) - passa por aquele que, mesmo efeminado, não se considera como tal, e vai ao que “assume” uma posição extrema, uma espécie de caricatura do chamado modelo feminino. Em todos, enfatiza-se, é condição comum não considerar-se “tão efeminado quanto este ou aquele”. E o grau de postura efeminada, na realidade, não é o que interessa. O que importa é o grau de auto-aceitação, de lucidez plena perante sua expressão homossexual. (J.V.S. [s.d.], p. 38-39).
O movimento carta do leitor e resposta se dá como se estivéssemos diante de uma psicóloga e seu paciente. Este se desvela, arquiteta formas de dizer o que sente, seleciona fatos à espera de respostas; aquela, por sua vez, examina o seu relato, atua nele, toca em algumas questões em detrimento de outras. Ora, a combinação dos dois textos, quando chega ao leitor da Rose, traz duas visões de mundo. Mais do que isso, a junção oferece um caminho interpretativo para a elaboração de si que não seria possível se se tivesse em mãos apenas um dos textos.
Performance feminina e se assumir estabelecem relações na resposta de Nina, especialmente ao considerar o homossexual que se aceita como apresentando uma “postura natural”, com poucos trejeitos considerados femininos. O ponto relevante do seu argumento está no final do texto, lugar de conclusão, de reiterar uma informação decisiva, e aí o que importa é a autoaceitação. A ligação entre homossexualidade e aceitação aparece porque J.V.S. se diz homossexual mas não se aceita. A incongruência merecia ser corrigida. Nos novos tempos que se vivia, seja em termos de visão dos corpos, objetos de prazer, seja do momento político no país, haveria um eu, intrínseco ao indivíduo, que deveria ser aceito, expresso, não daria mais para negá-lo.
A aceitação, portanto, fez parte da constituição do se assumir no Brasil. Conforme lembra Judith Butler (2015), as normas que permitem ao sujeito reconhecer-se estão fora dele, mas se dão numa relação de poder que permite a elas existirem. Nesse sentido, o regime de verdade em questão delimita um espaço possível para a constituição do sujeito homossexual, notadamente por meio da epistolografia de Rose, em que o missivista, ao dialogar com Nina Fock, recorre a um tu, que tem autoridade para colocá-lo numa arena importante na sua reconhecibilidade.
Em dissertação defendida na Universidade de São Paulo, em 1983, a psicóloga Teresa Sell (2006) estudava a identidade homossexual em rapazes residentes em Florianópolis. O trabalho apresenta a transcrição das entrevistas realizadas pela autora e, na maioria, o assumir, dito explicitamente ou pressuposto, aparece como fator decisivo nas falas dos depoentes.
Sell percebeu duas modalidades de assumir: os indivíduos com uma performance considerada feminina seriam identificados na sociedade sem maiores dificuldades, diferentemente dos que não apresentavam essa característica. Para este grupo, o se assumir é importante, “mas não essencial e nem solicitado pelo seu meio”. Fundamental seria a aceitação de si. Quando os indivíduos elaboram uma “autopercepção” enquanto homossexuais, logo se vigiam para ocultá-la.
Em torno da questão do se assumir, a aceitação ocupa os depoimentos dos entrevistados. Dentre os receios para a aceitação de si, são mencionadas as relações familiares. Era mais frequente contar às mães; a maioria dos que se assumiram o fez após o pai falecer. A insegurança familiar se estendia ao ambiente de trabalho. Havia casos daqueles que se assumiam no espaço familiar e ocultavam no trabalho devido à associação da homossexualidade às drogas, promiscuidade e prostituição.
O receio de se aceitar se manifestava na culpa de alguns entrevistados em ser homossexuais. Mesmo diante de expressiva quantidade de entrevistas, Teresa Sell (2006, p. 211) naturaliza a publicização da homossexualidade: “E com a noção de se assumir, o sujeito passa a ter mais serenidade consigo mesmo”.
A questão da autoaceitação e do se assumir esteve presente em outras seções da Rose. A seção “De-Cabo-a-Rabo” contou com a ilustre presença de Celso Cury, que, em entrevista concedida ao historiador Claudio Silva, mostrou a sua opinião sobre o assumir-se, sobretudo entre o fim dos anos 1970 e começo da década de 1980:
Havia um grande controle para o não se assumir. No caso da Igreja não podia porque era pecado [...] e no caso da Família porque a mãe não podia saber. Essas duas instituições emperravam a vivência do homossexual [...] em adaptar-se a busca pelo oxigênio do dia a dia. Essa complicação era o grande ponto de discussão. Não era uma questão política, nem de regras e nem de leis: era uma questão puramente interna e pessoal. A Coluna do Meio tentava formar a consciência de que a liberação só ocorreria depois da própria libertação. Não há movimento homossexual de cima para baixo. Isso não significa que se deva gritar ao mundo a própria opção, mas assumir internamente [...] sem este pressuposto não havia como iniciar um movimento. Claro que tudo era feito com muito humor, numa grande farra, porque não era o caso de ninguém ficar chorando. Nós não tínhamos companheiros assassinados porque eram homossexuais [...] não era essa a nossa realidade. Nem presos políticos por causa da opção sexual. Eram companheiros presos a si próprios, por vergonha de assumir a própria sexualidade. Percebi que se jogava o problema para a sociedade resolver e a resolução não caminhava neste sentido. Não podia haver uma vivência homossexual, caso não houvesse um auto-reconhecimento da própria homossexualidade. Essa era a grande farra da Coluna do Meio. (Silva, 1998, p. 435-436).
Essa entrevista foi realizada em 06 de agosto de 1994, no escritório de Celso, quando ele ocupava o cargo de Diretor de Formação Cultural do Estado de São Paulo. A pesquisa do historiador reúne entrevistas com jornalistas e colaboradores do Lampião da Esquina, por isso recorreu a Celso.
Suas memórias são ambíguas quanto à dimensão pública e privada do se assumir. É a essa hesitação que precisamos prestar mais atenção. Celso reconhece a dimensão política da publicização ao sinalizar que só haveria “liberação após a aceitação”. Ao mesmo tempo, se contradiz por ter mencionado que o assumir não era uma questão política, mas interna e pessoal. Tal contradição não indica que Celso estivesse dando um relato deturpado do passado. Ao invés disso, faz ver as dificuldades de interpretar duas dimensões se digladiando. Naquele momento, em que se elaboram os discursos sobre o se assumir homossexual, privado e público combatem e, ao mesmo tempo, dão-se as mãos. Combatem porque, no movimento homossexual, o foco público será mais urgente (MacRae, 1990). Reconciliar-se-iam na Rose, na qual, para se assumir, é necessário, antes, se aceitar, o que é precedido por uma pedagogia da homossexualidade.
Outra contradição reside em “Não gritar ao mundo, mas assumir internamente”. Talvez, a primeira frase se refira ao assumir-se proposto pelo movimento, ao passo que a segunda aponta para uma concepção intimista, certamente preferida por Celso ao sugerir um “autorreconhecimento” da homossexualidade. Reconhecimento adquirido na linguagem, na circulação de significados e sentidos para a homossexualidade.
As visões de Celso se imbricam mais vezes ao longo do relato. Se, por um lado, ele chegou a participar de reuniões de grupos homossexuais, sem especificar em quais, também queria discutir a autoaceitação ou não da homossexualidade, afinal, para ele, “o problema era destruir o medo interno da aceitação, muito mais violento. Naquela época a repressão interna era muito maior que a externa” (Silva, 1998, p. 437), frase que também indica uma concepção essencialista da homossexualidade. Na escrita das cartas de Rose, narrando seus problemas, outros homossexuais também possuem uma preocupação intensa com a aceitação familiar. Um rapaz escreveu:
Sou um guei, estudante, 17 anos, e com muito sofrimento pela frente. Meu sofrimento é maior por causa dos meus pais, que por não terem uma certa informação, prefeririam morrer que ter um filho gay. Eu ainda não me assumi, para não fazê-los sofrer, pois, apesar de tudo, eles são as pessoas, os pais mais legais que alguém poderia desejar. Meu pai faz o possível e o impossível para que eu me forme e, mais tarde, no futuro, tenha uma vida estável, juntamente com minha mãe. Nem eles, nem ninguém - a não ser os poucos rapazes da minha rua com os quais eu transei - sabe da minha condição de guei. Passo as noites sonhando com rapaz lindo, que me ame do jeito que eu sou: um pouco gordo, feio e pobre; mas, apesar dos meus 87 quilos, minha cor não clara e minha classe social, eu considero-me como um ser humano que tem direito a um lugar ao sol. Além disso, eu tenho dois pontos fortes: a simpatia e a inteligência [...]. (Todo guei tem muito sofrimento pela frente. [s.d.], p. 30).
O autor da carta acima era leitor da revista e conseguia comprá-la ou adquiri-la acionando táticas (Certeau, 2014) para escapar às tentativas de controle da sexualidade, uma vez que era menor de idade, o que não o impediu de escrever se reconhecendo gay, vestindo uma identidade noticiada, discutida e visibilizada na publicação. A afirmação “sou gay”, “sou homossexual”, presente nas cartas dos leitores, garante um pacto epistolar cujo eixo é pertencer a uma categoria que fundamenta a existência da Rose.
No momento em que decide escrever, o autor se elabora, criando mecanismos que o faça ser lido, e se remodela na escrita, quando a sua vida passa a se traduzir em uma linguagem cuja intenção é captar o olhar do outro, de Rose, e ter uma resposta. Angela de Castro Gomes (2004) reconhece que o indivíduo autor da escrita de si não é nem pré-textual nem posterior à escrita. Esse modelo escriturístico seria constitutivo da identidade do autor e do texto, ambos modificados na elaboração de si. Daí por que a historiadora concorda com a ideia de que essa escrita teria editores e não propriamente autores (Castro Gomes, 2004). Quem escreve rearranja, seleciona, ressignifica, ordena momentos da vida, operacionaliza episódios dela para dar-se a ver - assim o fazem os periódicos ao escolhê-la para constar na publicação.
Um tema frequente nas cartas da Rose é a vontade de dizer, com seus múltiplos sentidos. Há uma garantia ao discurso da revelação, o que se confirma na carta anterior, na frase “ainda não me assumi”. Depois que a revelação vem à tona, nada será como antes. Modificações entrariam em jogo na subjetividade do leitor.
Essa voz em primeira pessoa se performatiza para ser lida. As frases, no seu conjunto, acionam maneiras de discriminação vistas como problemas pelo missivista. Além do maior dilema, ser gay, a cor “não clara” e a “classe social”, ou seja, a sexualidade, a raça e a classe se articulam, conferindo um campo de reconhecimento triplo para esse sujeito. Na missiva, esses fatores são desmerecidos, mas, por outro lado, o autor acredita na sua capacidade de ação, como um ser humano que tem um lugar ao sol, dotado de inteligência e simpatia. Portanto, essa carta oferece a possibilidade de agência, de mudança diante da situação atual. Um dos entraves é o fato de não se assumir. O autor se reconhece, seus pais não sabem da “sua condição de guei” e ele ainda não se assumiu.
Aí, na publicização da homosssexualidade, Nina encontrava um ambiente propício e já comum para oferecer seus conselhos:
[...] A auto-rejeição é a pior e a maior das limitações humanas. Se uma pessoa não se aceita, como pode esperar que os outros a aceitem? Temos dito aqui, inúmeras vezes, que essa auto-rejeição se projeta no círculo à nossa volta. Inclusive no quadro familiar. Desde o momento em que nos aceitemos, essa aura se irradiará, como um contágio fulminante, especialmente para aquelas pessoas que mais de perto estão predispostas a nos aceitarem, posto que nos amam. Assumir não significa agredir. Trata-se, perante os pais, de uma conquista gradativa, lenta e, sobretudo, espontânea. (Todo guei tem muito sofrimento pela frente, [s.d.], p. 30).
O texto em forma de conselho responde ao projeto editorial que integra. Nesse movimento, são construídas maneiras de ser sujeito pelo exercício da aceitação e publicização da homossexualidade. Entre os conselhos, Nina parecia preocupada em, mais uma vez, solucionar a situação de marginalidade e estigma dos homossexuais, fixando-os num lugar comum, direcionando-os a um espaço em que todos encontrariam a solução dos seus problemas: o assumir. Quando a aceitação é colocada como uma alternativa à autorrejeição, a sexóloga confere um lugar especial à aprendizagem de se aceitar homossexual.
O conselho epistolar é reforçado na frase: “assumir não significa agredir. Trata-se, perante os pais, de uma conquista gradativa, lenta e, sobretudo, espontânea”. Na maneira como colocado acima, as homossexualidades e, por seu turno, o assumir-se, aparecem como algo natural do eu, uma essência guardada dentro de si, à espera do momento de coragem em que ganharia o espaço público.
No quinquagésimo número da revista, a carta selecionada por Rose diz muito, tanto do projeto editorial que se firmava quanto da formação discursiva tramada no momento, a de revelar, no tocante à sexualidade, para si e para o mundo, quem se era. Observemos:
Sou um homem normal, ou pelo menos que achava que era. Tenho 26 anos, e já tive vários contatos sexuais com mulheres e alguns homens. Até aí tudo bem. [...] Há muito tempo, já, venho lutando comigo mesmo para esconder no fundo do meu “eu” esta arma de dois gumes, linda, que se chama amor, pois ao mesmo tempo que nos enleva deixa-nos em situações deprimentes. [...] Ultimamente, tenho umas ideias diferentes daquilo que gostaria de ter. Nina, cheguei ao ponto de amar um homem! Tudo começou assim: aproximadamente há um mês atrás, eu estava na pior e fui assistir a um filme em um cinema do centro que é frequentado por gueis, apesar de que, então, eu não sabia. Nina, me ajude, eu não sou guei e nunca seria um guei passivo, não tenho preconceitos, apesar de sentir nojo de algumas “bichas”. Mesmo assim, respeito-os como seres humanos que são. Já tive duas experiências homossexuais no ativo e passivo, ao mesmo tempo, e confesso que da primeira vez gostei, mas na segunda, senti nojo de mim mesmo. Através de seus comentários, passei a entender e aceitar os gueis como uma coisa natural, derrubando vários tabus que tinha dentro de mim; e agora fico no dilema se procuro alguém que seja discreto para amar, pois preciso muito de uma experiência deste tipo para me realizar, ou se enterro tudo isso no meu íntimo e procuro esquecer. Eu não quero frequentar o mundo gay, tenho medo. Nina, por favor, continue com essas revistas e esses artigos, pois necessitamos de você que seja gente como você. Você tem ajudado e irá ajudar muita gente ainda. Ontem, foram alguns; hoje, somos bastantes; amanhã será uma multidão. Serão milhares de pessoas esperando seus conselhos, ávidas de uma palavra encorajadora, de uma palavra amiga. Uma andorinha só não faz verão, mas várias juntas para o sol brilhar nesse caminho [...]. (R.A.W., [s.d.], p. 38).
Vamos à resposta de Nina Fock, pois, nessa intersecção, se elaboraram os sentidos de reconhecer-se homossexual:
O caso apresentado nesta carta do leitor certamente traduz o conflito vivido por milhões de seres humanos: a busca de sua real identidade psicossexual. Já no início do relato, o leitor revela as ansiedades que afligem milhões: a insegurança, a insatisfação, o medo, um universo de complexos e recalques. E tudo seria tão simples se todos seguissem a divisa de que sexo é ação e não encucação. É dar vazão, pura e simplesmente, ao desejo. O escritor Oscar Wilde disse: “a melhor forma de vencer uma tentação e ceder a ela” [...] Sobre o caso apresentado, notamos que essa insatisfação no ato sexual nada mais é do que uma insatisfação com a própria indefinição. Não só os heterossexuais como também os próprios homossexuais são atacadas (sic) por esse verdadeiro grande mal que é a homofobia - o medo da homossexualidade. O próprio guei não se aceita, em função de estar condicionado aos padrões de uma sociedade repressora. É imprescindível a auto-aceitação, o desenvolvimento de um processo de autoconhecimento, eliminando tabus e preconceitos. E não resta outra alternativa senão conviver com a realidade. O mundo guei não é essa bruxa, esse fantasma absurdo tão pintado pelo mundo convencional. Ao viver uma experiência homossexual, é preciso vivê-la no todo, sem limitações ou padrões estabelecidos pela auto-imposição. Partir em busca da própria identidade sexual é empreitada que exige doação, entrega. Isso requer despreendimento, ausência de preconceitos, seja qual for o objeto amado, homem ou mulher. (R.A.W., [s.d.], p. 38).
A escrita dessas cartas funciona, em certo sentido, como a fuga a uma identidade associada ao medo da polícia e da Medicina, que capturava os corpos homossexuais, submetendo-os a processos diversos de classificação, a fim de comprovar uma anomalia, um comportamento contrário à natureza, um erro, e que poderia pôr em risco o funcionamento de grupos sociais. No gesto epistolar, escrever é migrar, é fugir, é partir de si e, modificando-se, chegar a si mesmo.
Cartas baseiam-se em fronteiras, lembra-nos a historiadora Vanessa Dutra Martins, entre “exibir-se X ocultar-se; presença X ausência; distância X proximidade; oralidade X escrita; realidade X ficção” (2012, p. 1-12). Essas fronteiras são indícios de subversão. Colocar-se homossexual, ainda que por escrito, significava igualmente lutar contra os valores e costumes do seu tempo.
O texto de R.A.W. reflete a tensão entre identificar-se ou não como homossexual. Uma característica frequente no gênero epistolar é o compartilhamento de intimidades, experiências e acontecimentos comuns do cotidiano. Geralmente, uma carta se confirma pela confiança entre remetente e destinatário. Nasce uma expectativa de retorno, de resposta, de ajuda, de feedback. Escrever cartas é se manifestar sob influência de escritos e experiências que fazem parte da vida e é também transformação. R.A.W. se transforma ao se elaborar no papel. Quando sua escrita é postada e habita o mundo de uma publicação, um sentido se perde, o da elaboração, e a interpretação precisa considerar as características do porto em que ela ancorou.
Por essa razão, a seleção dessa missiva é meticulosamente estratégica: quer responder uma dúvida, pôr fim a uma tensão, abrir espaço para a aceitação de si, um si que, para alguns grupos sociais daquela sociedade e época, estava escondido, oculto, recolhido e retraído dentro de alguns indivíduos, à espera da oportunidade e coragem de vir à tona. O si apenas se tornaria homossexual quando vencesse essa tensão, aceitasse sua condição. Eis um dos processos que garantiria a subjetivação, esculpida na aceitação e completada na publicização.
Claro está que R.A.W. teve contatos sexuais com homens e mulheres. “Até aí tudo bem.” Pergunto: o problema teria surgido após a experiência de leitura da revista? Rose escreve problemas enfrentados por homossexuais, faz medos e confortos circularem, povoa os leitores com pedagogias que envolvem a homossexualidade - ali R.A.W. passou “a aceitar o guei como uma coisa natural”. É o que se percebe quando diz que chegou a amar outro homem e estava num constante receio de viver esse sentimento, pois, na sua gramática, esse amor não envolveria apenas dois homens, mas sim dois homens homossexuais.
R.A.W. teme a identidade homossexual o bastante para procurar por alguém discreto, isto é, que não tenha os trejeitos femininos, “de bicha”, que aparece claramente menosprezada pela performance feminina. Ou então esqueceria tudo. “Esquecer” teria pontos positivos. Evitaria se modelar no binarismo de ser ou não ser homossexual. Certamente, o missivista receia os estereótipos e preconceitos destinados aos homossexuais. Lembremo-nos, ainda, de observar a cidade de onde ele escreve. São Paulo contava com destacadas boates na passagem dos anos 1970-1980, a exemplo da Medieval e da Homo Sapiens - popularmente conhecida pela sigla HS -, saunas, cinemas de pegação, mas também batidas policiais, como as promovidas pelo delegado Richetti, em São Paulo,9 e pessoas que se assumiam publicamente como homossexuais, os envolvidos nas atividades do embrionário movimento homossexual.
As respostas às cartas de Confidências, nos vários temas que tocaram, tentaram cristalizar a fluidez das sexualidades. A resposta de Nina estabelece conexões com vistas a reforçar seus argumentos. Quando menciona a citação de Oscar Wilde e relembra os preconceitos sofridos por ele, está acionando uma memória que deveria pertencer a todos aqueles convocados a se identificar como homossexuais. O caso de Wilde deve ser lembrado por três razões: a) pela sociedade e tempo em que ocorreu; b) por ser uma pessoa pública; c) pela coragem de amar um outro homem, um amor que, por sinal, era convidado a dizer o seu nome na interpelação produzida por Rose. Concordar com Wilde é, olhando para a exterioridade do conteúdo da revista, tomar posição não só em relação à identidade, mas com a sua publicização. Só sabemos dos desejos de Wilde porque eles se tornaram públicos.
O efeito de sentido é dado pragmaticamente já no primeiro parágrafo da resposta: “a busca da sua real identidade psicossexual”. Lança-se o tema, o objetivo do seu texto, o argumento sobre o qual dissertará para, em seguida, desenvolvê-lo. Trata-se de uma leitura indutora: o assunto é a identidade psicossexual e, a seguir, a maneira como deve ser tratada.
A estratégia de definir o tema da carta, recortar o trecho impresso na revista, priorizar dado assunto ao formular a resposta - o movimento da seção aconselha a tratar a homossexualidade de uma maneira que oriente os leitores, dando um prognóstico, oferecendo uma maneira de conduzir condutas e formar subjetividades, como em “essa insatisfação no ato sexual nada mais é do que uma insatisfação com a própria definição”.
Vale dizer que, embora a correspondência seja particular, toca em um ponto comum a “milhões de seres humanos”. Somos levados a pensar que Nina recebe outras cartas com o mesmo assunto. Cria-se um elo de intimidade com o leitor: “confia em mim, conta-me o que sentes e te direi como agir”, ou, se preferirem, respectivamente, interpelação, confissão e normatização.
A leitura da resposta acima ensina a procurar exibir o eu da identidade, a sua verdadeira face, aquela que, por mais perigos que haja, não pode se furtar de ganhar presença. Ela só se materializa se for aceita, só existe se for mostrada. O modo como Nina interpreta os seus correspondentes encontra um argumento pronto, a indefinição. Não se pode ser homossexual no campo fluido, tem de deixar pegadas, fossilizar marcas, sedimentar registros. A preocupação da aceitação é escancarada acima: “o próprio guei não se aceita”. Mesmo assim, era urgente investir nessa pedagogia, conviver com uma realidade que existiria em si mesmo em vez de negá-la.
Kenneth Plummer observou que, nos Estados Unidos, nos anos 1970, a preocupação com o que ele chama de revelar-se era recorrente, ocupando um momento decisivo do “ciclo de vida gay”. O gesto de se revelar era passar da identidade heterossexual para a homossexual, valendo-se de um sentimento positivo e de aceitação, “dado ao indivíduo através do conhecimento da comunidade gay”. Plummer diz ser uma experiência dolorosa nas trajetórias gays. A partir daí, “a vida nunca mais será a mesma” (Plummer, 1983, p.138).
O peso da publicização na cultura estadunidense, que pode ter influenciado o movimento de publicização brasileiro - embora não tenha encontrado uma pesquisa que ancore tal assertiva -, conheceria três momentos, mas dificilmente as pessoas vivenciavam os três. São eles: “1. Revelar-se a si mesmo - começar a ver-se como homossexual; 2. Revelar-se no mundo gay - começar a conhecer outras pessoas gays; 3. Revelar-se no mundo heterossexual” (Plummer, 1983, p. 138). No caso brasileiro, o segundo item pode se estender às publicações sobre homossexualidades e, sendo assim, seria o primeiro, uma vez que a revelação só ocorre quando o indivíduo é afetado pelas normas que elaboram esse gesto. Antes de o indivíduo dizer “eu”, afeta-se por algo que produz a sua enunciação. O eu se materializa quando o indivíduo está se tornando homossexual - processo jamais completado -, de modo que um efeito dessa performance não é a origem do eu, mas tão somente uma de suas encenações (Butler, 2016).
Na documentação, chamam atenção as maneiras utilizadas pela Rose para tocar no assunto do assumir-se. O caso de J.L.H., de Bicas, Minas Gerais, foi exemplar nesse sentido. O rapaz, apesar de saber o que é e aceitar a homossexualidade, ainda não tinha vivido uma relação afetiva com um homem, o que se modificou quando a amizade com um amigo se tornou intensa, envolvendo trocas de intimidade. Assustado, J.L.H. relatou: “pedi-lhe que não comentasse o fato com ninguém, pois eu jamais assumiria isso publicamente” (J.L.H., [s.d.], p. 30). O pedido não foi correspondido. Os amigos logo souberam do caso. Na pacata cidade, J.L.H. passou a ser vítima de olhares e cochichos dos conterrâneos.
Na resposta, Nina destaca novamente: “Temos dito inúmeras vezes que ‘assumir’ não significa agredir. Assumir é impor-se, diante do seu círculo de relações. Ninguém precisa usar um letreiro na testa para identificar sua preferência sexual”. E finaliza com o conselho: “busque o prazer que você tem direito junto a alguém que compreenda isso. Realizando essa segurança e alegria de viver, você vai descobrir que essa autoaceitação vai refletir-se na aceitação dos demais” (Confidências, [s.d.], p. 30).
No âmbito dos corpos considerados abjetos pode emergir outras identidades, esclarece Tânia Navarro-Swain. No campo das homossexualidades, haveria a verdadeira lésbica, a verdadeira travesti e, suponho, ao que tudo leva a crer, haveria o verdadeiro homossexual, aquele que reconhece, aceita e assume a homossexualidade. Sobre corpos clamando por lugares identitários, a historiadora descreveu: “Todos girando em torno da sexualidade e do sexo, reivindicando lugares de fala e de ser. Todos aprisionados em corpos sexuados obrigados à sensualidade, à sexualidade, única forma de afirmar sua existência” (Navarro-Swain, 2002, p. 325-342).
Considerações finais
A leitura proposta neste artigo vai na direção de apontar que, entre 1976 e 1983, se gestou, notadamente a partir da imprensa e da literatura, uma maneira de se construir o sujeito homossexual na história do Brasil. Ser sujeito é usar a linguagem para reconhecer uma forma de vida, é transformar-se em narrativa recorrendo a perfis e contornos produzidos discursivamente, mas não somente. Ser sujeito é, antes, ocupar um lugar socialmente e linguisticamente fabricado e caracterizado a partir de certas práticas, performances, valores e crenças ou critérios a adotar. Fazer a história do sujeito, neste sentido, significa buscar fazer uma espécie de cartografia desse tornar-se, desse devir, isto é, esse trajeto em que o individual se imiscui em uma rede da qual participará sem ser totalmente determinado, nem livre. Trata-se de uma relação de contiguidade, de adensamento e tensão que é inerente à complexidade que é fazer a subjetividade entre mecanismos de dominação e imposição identitária, mas também entre práticas e processos de criação, recriação de significados e experimentação de práticas da liberdade. Ser homossexual, portanto, era encontrar um nome que definisse o que se sentia, reconhecer-se nele, aceitá-lo e assumi-lo. Essas fontes induzem os indivíduos a se dizerem, pois, para se tornar homossexual, era preciso contar, narrar e articular verbalmente uma imagem de si.
Foi por meio dessa dinâmica que se instaurou na nossa história o tempo de assumir. Produzir a publicização da homossexualidade era gestar outra imagem do homossexual que, no seu íntimo, aceita a sexualidade. Estavam postas as condições que permitiam o assumir-se, que se modificariam sobremaneira com a emergência da aids, como destaquei em outro estudo (Souto Maior, 2022).
Precisamos olhar para a historiografia LGBTQIA+ não só preocupados em narrar histórias de luta, de trajetórias, de resistências, todas elas indiscutivelmente importantes, mas também lançar o foco de análise para o modo como nos tornamos sujeitos. Quando, entre as décadas de 1970 e 1980, a literatura de Penteado e Trevisan e a sexóloga Nina Fock escreviam, respectivamente, sobre e endereçado aos estranhos à norma heterossexual, abriam uma fresta para que se subjetivassem se afirmando homossexual, um efeito tanto libertário numa sociedade cisheteronormativa, mas também normativa, pois só pode ser sujeito homossexual quem assim se aceita, se reconhece e publiciza.
Referências
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
BUTLER, Judith. Los sentidos del sujeito. Barcelona: Herder Editorial, 2016.
BUTLER, Judith. Relatar a si mesmo: crítica da violência ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
CASTRO GOMES , Angela de. Escrita de si, escrita da História: a título de prólogo. In: CASTRO GOMES , Angela de (org.). Escrita de si, escrita da História. Rio de Janeiro: FGV, 2004. p. 7-24.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 2014.
CHALLHOUB, Sidney. Machado de Assis, historiador. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
CHARTIER, Roger. Os poderes da impressão. In: CHARTIER, Roger. A mão do autor e a mente do editor. São Paulo: Editora da UNESP, 2014.
COSTA JÚNIOR, José dos Santos. Pós-estruturalismo e escrita da história. Revista de Teoria da História, v. 25, p. 90-112, 2022.
CRUZ, Rosemário da Costa. O risco à beira do abismo: homoafetividade e crítica da cultura em João Silvério Trevisan. 2007. 207 f. Dissertação (Mestrado em Letras) - Instituto de Letras, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2007.
D’EMILIO, John. Capitalism and gay identity. In: SNITOW, A.; STANSELL, C.; THOMPSON, S. (org.). Powers of desire: the politics of sexuality. New York: Monthly Review Press, 1983. p. 100-113.
ERIBON, Didier. Reflexões sobre a questão gay. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2008.
FERREIRA, Jário. Ex-seminarista, ex-cineasta, ex-andarilho. Folha de São Paulo, 16 dez. 1976.
FOUCAULT, Michel. A vida dos homens infames. In: FOUCAULT, Michel. Estratégia, poder-saber. Ditos e escritos IV. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003. p. 203-222.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade II: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 2010.
FOUCAULT, Michel. O que é um autor? In: FOUCAULT, Michel. Ditos e Escritos, volume III. Estética: literatura e pintura; música e cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. p. 268-302.
GREEN, James. Além do carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil no século XX. São Paulo: Editora da UNESP, 2000.
HANCHARD, Michael. Orfeu e o poder: o movimento negro no Rio de Janeiro e em São Paulo (1945-1988). Rio de Janeiro: Editora da UERJ, 2001.
MacRAE, Edward. A construção da igualdade: identidade sexual e política no Brasil da abertura. Campinas: Editora da UNICAMP, 1990.
MARTINS, Vanessa Gandra Dutra. Diálogos entre história e literatura: a escrita epistolar como recurso de construção do passado. Vozes dos Vales, v. 2, p. 1-12, 2012.
NAVARRO-SWAIN, Tânia. Identidade nômade: heterotopias de mim. In: RAGO, Margareth; ORLANDI, Luis; VEIGA-NETO, Alfredo (org.). Imagens de Foucault e Deleuze. Rio de janeiro: DP&A, 2002. p. 325-342.
NOLASCO, Sócrates. Um “homem de verdade”. In: CALDAS, Dario (org.). Homens: comportamento, sexualidade, mudança, identidade, crise, vaidade. São Paulo: SENAC, 1997. p. 13-30.
OCANHA, Rafael Freitas. As rondas policiais de combate à homossexualidade na cidade de São Paulo (1976-1982). In: GREEN, James; QUINALHA, Renan (org.). Ditadura e homossexualidades: repressão, resistência e a busca da verdade. São Carlos: Editora da UFSCar, 2014. p. 149-175.
PECHENY, Mario. Identidades discretas. In: AURFUCH, Leonor. Identidades, sujetos y subjetividades. Buenos Aires: Prometeo Livros, 2005. p. 125-147.
PEDRO, Joana Maria. O feminismo de ‘segunda onda’: corpo, prazer e trabalho. In: PINSKY, Carla Bassanezi; PEDRO, Joana Maria (org.). Nova História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2012. p. 238-259.
PESAVENTO, Sandra Jatahy. O Mundo Como Texto: leituras da História e da Literatura. História da Educação, Pelotas, p. 31- 45, 2003.
PLUMMER, Kenneth. O tornar-se gay: identidades, ciclos de vida e estilos de vida no mundo homossexual masculino. In: HART, John; RICHARDSON, Diane. Teoria e prática da homossexualidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1983. p. 127-150.
QUINALHA, Renan. Movimento LGBTI+: Uma breve história do século XIX aos nossos dias. Belo Horizonte: Autêntica, 2022.
RICH, Adrienne. Heterossexualidade compulsória e existência lésbica. Bagoas, Natal, n. 5, p. 17-44, 2010.
SELL, Teresa Adadea. Identidade homossexual e normas sociais: histórias de vida. Florianópolis: Editora da UFSC, 2006.
SILVA, Cláudio Roberto. Reinventando o sonho: história oral de vida política e homossexualidade no Brasil contemporâneo. 1998. 674 f. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-Graduação em História, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1998.
SOUZA NETO, Miguel Rodrigues de. O testamento de Jônatas deixado a David: homossexualidade e estética. In: XXII Simpósio Nacional de História - História, acontecimento e narrativa. João Pessoa, 2003.
SOUZA, Pedro. Confidências da carne. Campinas: Editora da UNICAMP, 1997.
SOUTO MAIOR, Paulo. A invenção do sair do armário: a confissão das homossexualidades no Brasil (1979-2000). 2019. Tese (Doutorado em História) - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2019.
SOUTO MAIOR, Paulo. Enquadramentos da confissão da homossexualidade masculina durante a epidemia de aids no Brasil (1985-1995). Anos 90, Porto Alegre, v. 29, p. e2022002, 2022.
SOUTO MAIOR, Paulo. Escrever para inscrever-se: epistolografia homossexual nas páginas do Lampião da Esquina (1978-1981). Tempo e Argumento, v. 9, p. 254-282, 2016.
SOUTO MAIOR, Paulo; QUINALHA, Renan. (org.). Novas fronteiras das histórias LGBTI+ no Brasil. São Paulo: Elefante, 2023.
TREVISAN, João Silvério. Devassos no Paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. Rio de Janeiro: Record, 2007.
TREVISAN, João Silvério. O espetáculo do desejo: homossexualidade e crise do masculino. In: CALDAS, Dario (org.). Homens: comportamento, sexualidade, mudança, identidade, crise, vaidade. São Paulo: SENAC, 1997. p. 53-91.
VIOLLET, Catherine. Abordagens genéticas da escrita de si. Manuscrítica: Revista de Crítica Genética, São Paulo, n. 27, p. 17-25, 2014.
Fontes
Carinhoso. Rose, Curitiba, n. 59, p. 40, [s.d.].
Confidências. Rose, n. 72. Curitiba: Grafipar, [s.d.], p. 30.
J.L.H. Meu parceiro traiu nossa intimidade... Confidências. Rose, Curitiba, n. 72, p. 30, [s.d.].
J.V.S. Tenho medo e vergonha que meus pais descubram. Rose, Curitiba, n. 51, p. 38, [s.d.].
PENTEADO, Darcy. Crescilda e os Espartanos. São Paulo: Símbolo, 1977.
PENTEADO, Darcy. Engrenagens. In: PENTEADO, Darcy. A meta. São Paulo: Símbolo, 1976. p. 26.
R.A.W. Não sou guei, mas amo outro homem! Rose, Curitiba, n. 50, p. 38, [s.d.].
RIBEIRO, Leo Gilson. Prefácio. In: PENTEADO, Darcy. Crescilda e os espartanos. São Paulo: Símbolo, 1977.
TODO guei tem muito sofrimento pela frente... Rose, Curitiba, n. 60, p. 30, [s.d.].
TREVISAN, João Silvério. O testamento de Jônatas deixado a David. São Paulo: Brasiliense, 1976.
TREVISAN, João Silvério. Pai pai. São Paulo: Alfaguara, 2017.
Notes
Author notes
E-mail:paulosoutom@gmail.com