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“Sobre um vistoso palanque, uma bela poesia”: a pesquisa e o ensino de história pátria em Isabel Gondim (1870-1913)
“On a gorgeous panel, a beautiful poetry”: Research and teaching of homeland history in Isabel Gondim (1870-1913)
História (São Paulo), vol. 43, e20240016, 2024
Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho

Dossiê


Received: 30 March 2024

Accepted: 07 July 2024

DOI: https://doi.org/10.1590/1980-4369e20240016

Resumo: Isabel Urbana de Albuquerque Gondim (1839-1933) foi uma das pioneiras nos fazeres historiográficos do Rio Grande do Norte. Professora primária de Ribeira, bairro situado na cidade baixa de Natal, ela exerceu, ao longo do último quartel do século XIX e dos dois primeiros decênios do século XX, uma significativa contribuição na heurística documental e na escrita de livros voltados para o ensino de história. Pautados nessa premissa, objetivamos analisar os fazeres historiográficos de Isabel Gondim a partir de suas atividades de pesquisa e de ensino no tocante à história pátria. Para empreender esse objetivo, mobilizamos, como fontes de investigação, as notícias publicadas em jornais brasileiros e os livros escolares escritos pela autora, que permitem entender a sua concepção de pátria em um contexto marcado por importantes mudanças políticas.

Palavras-chave: Isabel Gondim, cidade de Natal, história ensinada, século XIX, pátria.

Abstract: Isabel Urbana de Albuquerque Gondim was one of the pioneers in the historiographic works of Rio Grande do Norte. Primary teacher in Ribeira, a neighborhood located in the lower city of Natal, throughout the last quarter of the 19th century and the first two decades of the 20th century, she made a significant contribution to documentary heuristics and the writing of books aimed at teaching history. Based on this premise, we have the scope to analyze Isabel Gondim’s historiographical achievements based on her research and teaching activities regarding national history. To undertake this objective, we mobilized as sources news published in newspapers and schoolbooks published by the author, which allow us to understand her conception of homeland in a context marked by important political changes.

Keywords: Isabel Gondim, city of Natal, Brazil, history taught, XIX century, homeland.

Primeiro de agosto de 1870. Na Cidade de Natal, capital do Rio Grande do Norte, as ruas estavam engalanadas, ornadas com bandeirolas, árvores e arcos, onde estavam estampados, em grandes caracteres, os nomes de heróis. Na Rua Grande, notava-se uma “grande e bela pyramide, onde se liam inscripções patrióticas” (Diário do Rio De Janeiro, 1870, p. 3). Além disso, os prédios públicos foram fechados e iluminados, diante da determinação do presidente provincial, para que assim se mantivessem durante três dias.

No entardecer, ecoava o estampido da salva de 21 tiros dos canhões do Forte dos Reis Magos. Na elevação onde estava situado o núcleo urbano, eclodiam os foguetes que revelavam uma cidade em festa. Era o anúncio de que o “Marcílio Dias”, um dos emblemáticos navios de guerra da frota brasileira, adentrava a foz do Rio Potengi transportando os voluntários da pátria. Os norte-rio-grandenses que tinham composto as forças militares brasileiras nos campos de batalha da Guerra do Paraguai finalmente retornavam ao seu torrão natal.

No dia seguinte, nas primeiras horas da manhã, o aglomerado de pessoas pelas ruas estreitas e enladeiradas da cidade tornou-se descomunal. Um grande número se deslocou para as imediações do cais “Dez de Junho”, onde aguardava ansioso o desembarque de familiares e amigos que haviam sido alçados à condição de heróis da pátria. Por volta das nove horas, tinha início o esperado desembarque, diante das principais autoridades do Rio Grande do Norte, dentre as quais, o presidente da província, Silvino Elvídio Carneiro da Cunha, além do chefe de polícia, do comandante superior da guarda nacional, de funcionários públicos, de clérigos de ordens sacras e de oficiais militares.

Ao desembarcarem, sob o comando do capitão Manoel Ramos de Oliveira Coelho, os voluntários norte-rio-grandenses ficaram formados em linha e receberam as honrarias da companhia de polícia e do corpo patriótico (comandado pelo tenente coronel José Lourenço de Almeida). Tudo isso transcorreu na Praça do Cais, logradouro que se encontrava especialmente decorado, onde estava erigido no centro um pavilhão com a efígie do imperador Pedro II.

Após as honrarias, subiram aos céus quatro grandes girândolas, ao som da música marcial e, novamente, os canhões do velho forte potiguar fizeram a salva de 21 tiros. Ao cessar o estampido do foguetório e dos canhões, tiveram início os discursos das autoridades, com as alocuções de Silvino Cunha, Santos Júnior e Fernandes de Barros.

Todas essas ações efusivas consistiam em um aparato burocrático de comemoração patriótica que se fazia exibir diante de um grande público constituído por pessoas de diferentes classes sociais. Era a celebração da vitória da pátria, do fortalecimento simbólico do Império do Brasil. Para “aplaudir o feliz regresso de seus dignos e valorosos patrícios”, ali também se faziam presentes “diversas donzelas, todas com as frontes engrinaldadas e vestidas de branco”. Entre elas, estava a protagonista deste artigo, que assim foi anunciada pelo impresso “Diário do Rio de Janeiro”, do dia 31 de agosto de 1870:

Sobre um vistoso palanque, armado alli, e que era destinado para as donzelas, cantaram estas um hymno patriótico, findo o qual teve logar a coroação da bandeira pela distincta e inteligente jovem rio-grandense a Exma. Sra. Isabel Gondim, que no acto de cingir aquelle glorioso estandarte com uma grinalda de flores recitou uma bela poesia. (Diário do Rio De Janeiro, 1870, p. 3, grifo nosso).

A assertiva republicada no impresso da corte, acionada como título deste artigo, revela como, em meio ao aparato militar e oficial em homenagem aos voluntários da pátria, uma mulher galgava visibilidade entre as demais, tornando-se a única nomeada e sendo a escolhida para cingir o estandarte e declamar uma poesia. Em meio ao universo predominantemente masculino, uma voz feminina ecoava, a ressaltar as proezas militares brasileiras nos campos de batalhas - uma voz que recitava o protagonismo dos voluntários norte-rio-grandenses em defesa da pátria. Mas, afinal, quem era essa “distinta e inteligente jovem norte-rio-grandense”?

Isabel Urbana de Albuquerque Gondim foi uma professora primária concursada do município de Natal, atuante no Bairro da Ribeira, na parte baixa da velha urbe, entre os anos de 1866 e 1891, ano em que se aposentou (Morais, 2003). Oriunda de uma família que havia protagonizado a sedição de 1817 em terras potiguares (Maranhão, 1957), ela também atuou na custódia de documentos históricos e foi a primeira mulher a ser sócia do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano nos idos de 1883. Além disso, entre o final do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX, ela publicou alguns livros escolares de história do Brasil e do Rio Grande do Norte. Desse modo, é possível dizer que aquela voz que ecoou na Praça do Cais, no dia dois de agosto de 1870, nos decênios subsequentes, galgaria maior amplitude e iria ressoar na historiografia do Rio Grande do Norte. Assim, é pertinente pensar sobre o que levou o impresso da corte aludir a autora por tais designativos? Quais acepções de pátria foram acionadas pela poetisa?

Imbuídos do intuito de responder a essas questões, neste artigo temos o propósito de analisar os fazeres historiográficos de Isabel Gondim a partir de suas atividades de pesquisa e de ensino no tocante à história pátria no período compreendido entre 1870 e 1913. O recorte temporal justifica-se pela trajetória da protagonista, pois o marco inicial elucida o momento no qual ela participou das celebrações em homenagem aos voluntários norte-rio-grandenses, recitando uma poesia patriótica; o marco final foi o ano da publicação da segunda edição de seu livro escolar “Brasil, poema histórico em três cantos”, no qual ela narra a história do país em versos. Ao longo de sua trajetória profissional, o ensino e a pesquisa histórica se completavam, instituíam duas facetas de uma mesma moeda e deslindavam os fazeres historiográficos de uma mulher que se inseriu no reduto de letrados da província/estado norte-rio-grandense.

Nesse sentido, a análise dos fazeres historiográficos de Isabel Gondim perpassa por duas dimensões complementares. A primeira condiz à noção de intelectual. Neste artigo, concebemos tal conceito segundo a definição construída por Jean-François Sirinelli (2003). Consoante o autor,

Com frequência se destacou o caráter polissêmico da noção de intelectual, o aspecto polimorfo do meio dos intelectuais (...). Por esta última razão, é preciso, a meu ver, defender uma definição de geometria variável, mas baseada em invariantes. Estas podem desembocar em duas acepções do intelectual, uma ampla e sociocultural, englobando os criadores e mediadores culturais, a outra mais estreita, baseada na noção de engajamento. No primeiro caso, estão abrangidos tanto o jornalista como o escritor, o professor secundário como o erudito. Nos degraus que levam a esse primeiro conjunto postam-se uma parte dos estudantes, criadores ou “mediadores” em potencial, e ainda outras categorias de “receptores” da cultura. (Sirinelli, 2003 [1996], p. 242).

A noção que perpassa pela perspectiva ampla de mediação cultural e adentra um universo mais restrito de engajamento, na qual “o intelectual põe a serviço da causa que defende” (Sirinelli, 2003 [1996], p. 243), revela-se pertinente para pensarmos a trajetória de Isabel Gondim no âmbito da pesquisa e do ensino de história. Suas ações elucidavam um projeto em defesa da noção de pátria, cuja educação passava a ocupar um lugar privilegiado. Nessa perspectiva, a noção de intelectual foi pensada em articulação com a de cultura política proposta por René Rémond, que, por sua vez, parte de uma concepção que entende o político além do político-partidário e que implica na construção coletiva de uma leitura comum de passado e de um projeto compartilhado de futuro (Rémond, 2003 [1996]). Conforme ressaltado por Serge Berstein,

Essa cultura difusa se exprime por um sistema de referências em que se reconhecem todos os membros de uma mesma família política, lembranças históricas comuns, heróis consagrados, documentos fundamentais (que nem sempre foram lidos), símbolos, bandeiras, festas, vocabulário de palavras codificadas etc. (Berstein, 2003 [1996], p. 88-89).

Ao partir dessa premissa defendida por Berstein, torna-se salutar pensar a cultura política a partir dos textos historiográficos, os quais revelam protagonismos, emolduram episódios históricos, pincelam leituras de um passado comum, preconizam formas de cultuar a pátria e projetam futuros. A trajetória de Isabel Gondim também foi amplamente marcada pela mobilização de documentos, tanto para a feitura de seus escritos históricos como para a doação às instituições acadêmicas. Eram documentos que reificavam o olhar atinente ao passado potiguar, que tiravam da penumbra alguns episódios que se tornariam fulcrais na historiografia de seu torrão natal.

Portanto, neste artigo, a leitura se encontra pautada em três conjuntos documentais. O primeiro é de teor historiográfico e possibilita entender como Isabel Gondim foi lida pela historiografia do Rio Grande do Norte. O segundo conjunto congrega textos publicados em jornais e evidencia tanto a circulação dos livros quanto os investimentos da autora na pesquisa histórica, com a reunião e doação de documentos, além da realização de conferências, palestras e declamação de poesias. Por fim, o terceiro conjunto de fontes diz respeito aos escritos publicados pela autora, sobretudo os livros escolares de história divulgadores de uma forma de ler o passado nacional e do Rio Grande do Norte.

Munidos desse lastro documental, estruturamos o texto em dois momentos. O primeiro tem como cerne a análise da fortuna crítica de Isabel Gondim, por meio das apreciações acerca de seus escritos. Para isso, acionamos como fontes tanto os textos coetâneos da autora, publicados em jornais, quanto a produção historiográfica atinente ao Rio Grande do Norte. O segundo momento incorre sobre os fazeres historiográficos da autora. No âmbito da pesquisa, a ênfase recai na heurística, com a doação de documentos para instituições acadêmicas, bem como na inserção da professora e pesquisadora em sociedades, como o Instituto Arqueológico e Geográfico de Pernambuco e o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. No âmbito do ensino, tem-se o foco nas concepções da autora sobre o ensino da história e sobre a história pátria, por base em seus escritos escolares. Com isso, cabe empreender no universo de construção de Isabel Gondim por meio dos escritos de seus pares.

“Como o sentimento da poetisa vibra de quando e vez”: a fortuna crítica de Isabel Gondim

Quando foi descrita como “distinta e inteligente jovem norte-rio-grandense” pelo Diário do Rio de Janeiro em 1870, Isabel Gondim ainda era pouco conhecida no cenário brasileiro das letras. O seu primeiro livro seria publicado apenas em 1874 e galgaria uma considerável repercussão na imprensa nacional (Morais, 2003; Santos, Santos, 2023; Gonçalves, 2022). Todavia, a sua atuação nos idos de 1870 se restringia ao magistério primário na cidade de Natal, onde estava à frente da escola para meninas no Bairro da Ribeira, situada na cidade baixa da capital provincial. Nessa condição, a docente foi referenciada indiretamente naquele que é considerado o primeiro livro de história do Rio Grande do Norte, publicado por Manoel Ferreira Nobre, em 1877. Ao tratar sobre a instrução pública da capital, ele mencionou a existência da escola feminina da Ribeira, criada pela Lei de 16 de junho de 1849. Além disso, o pensador da história elencou as disciplinas integrantes do currículo da escola. São elas:



Educação civil e religiosa
Leitura e escrita
Noções de gramática
Princípios elementares da aritmética
Prática de cálculo e o sistema métrico decimal
Noções de geografia, especialmente do Brasil
História resumida do Brasil
Nas escolas de meninas, além das matérias acima, se ensinam trabalhos de agulhas. (Nobre, 2011 [1877], p. 26).

Mesmo constituindo uma referenciação indireta, desprovida da nomeação da professora que regia a cadeira, o apontamento de Manoel Ferreira Nobre desvela a existência da escola e a composição curricular que incluía, entre as chamadas “matérias”, a “História resumida do Brasil”. Trata-se de um indício dos primeiros fazeres historiográficos de Isabel Gondim, que acionavam a história pátria como um conteúdo a ser ministrado para as suas alunas. Certamente esses conhecimentos lecionados ao longo da docência, na segunda metade da centúria oitocentista, foram acionados na escrita do seu livro escolar (Santos, 2017). De igual modo, os primeiros anos do magistério denotam a construção da visibilidade da professora no cenário cultural natalense.

Um indício da amplitude dessa visibilidade é o necrológio do ex-professor do Atheneu norte-rio-grandense e pai de Isabel Gondim, Urbano Egídio Gondim de Albuquerque, escrito em 1882. O falecido foi apresentado na nota fúnebre a partir da figura da filha:

No dia 24 do mês último, pelas 4 ½ horas da tarde, faleceu nesta capital, na avançada idade de 74 annos, o tenente coronel Urbano Egide da Silva Costa Gondim de Albuquerque, pai da distincta professora de instrução primária do bairro da Ribeira, a Exma. Sra. D. Isabel Gondim.

Vindo o tenente-coronel Urbano, em sua mocidade, da província de Pernambuco, d’onde era natural, oppor-se à cadeira de geometria do Atheneo desta província, logo depois da creação deste estabelecimento de instrucção, e tendo nella sido provido, em consequencia do brilhante exame que prestou, exerceu o magistério com zelo e dedicação inexcedíveis.

(...) Teve nove filhos, dos quaes trez seguiram voluntariamente para o theatro da guerra no Estado Oriental e do Paraguai, onde morreram dous, os 1os cadetes Urbano de Albuquerque Gondim e Luiz Gonzaga de Albuquerque Gondim. Existem, portanto, apenas as Exmas Sras. D. Isabel Gondim, D. Anna Urbana de Albuquerque Gondim, D. Cândida Urbana Gondim Cabral, casada, e Manoel Urbano de Albuquerque Gondim que actualmente frequenta a escola de engenharia civil no Rio de Janeiro.

Finando-se o tenente coronel Urbano nestas circunstâncias, legou tão somente a sua família os seus bons conselhos e uma esmerada educação. (Jornal do Recife, 1882, p. 1, grifos nossos).

O elogio fúnebre, inicialmente publicado em Natal e republicado em Recife, invertia a ordem de apresentação. O genitor foi apresentado a partir da filha. Isso sinaliza que, no seio familiar, Isabel Gondim era a que possuía maior inserção no cenário letrado das províncias do antigo norte do Brasil. O documento também elucida outras questões centrais para a compreensão da trajetória da docente, como o legado familiar envolto na educação da província e a trágica morte de dois irmãos nos campos de batalha da Guerra do Paraguai. Esse último fato motivou a presença da mestra entre as mulheres que prestariam as homenagens, afinal, ela era irmã de dois voluntários que haviam sucumbido no “theatro da guerra”, mártires da pátria (Paraná, 1933). A “distincta professora” possuía vínculos familiares com a guerra.

Contudo, esses envolvimentos familiares da docente com episódios históricos não se restringiam à Guerra do Paraguai, pois também se faziam presentes em uma das questões fundantes do passado potiguar: a Sedição de 1817. Conforme salientado pela biógrafa Arisnete Câmara Morais, Isabel Gondim era afilhada de André de Albuquerque Maranhão, chefe do governo republicano da então capitania do Rio Grande do Norte (Morais, 2003). Essa proximidade com os protagonistas do movimento levou Isabel Gondim a investir consideravelmente na pesquisa histórica, por meio da recuperação de documentos, da realização de conferências sobre a temática e da escrita do livro “Sedição de 1817 na Capitania ora Estado do Rio Grande do Norte”, publicado em 1908. Essa inserção na escrita da história foi ressaltada no verbete atinente à autora no Dicionário Bibliographico Brazileiro, de Augusto do Sacramento Blake:

Izabel Gondim - Natural do Rio Grande do Norte, é ahi professora pública jubilada, e sócia do instituto archeologico e geographico pernambucano. Escreveu:

- Reflexões às minhas alumnas. Rio Grande do Norte, 1873 - É um livro para leitura em sua aula, adoptado nas aulas da instrucção pública do sexo feminino na província. A autora se propõe a regular a educação da mulher desde à infância até a maternidade. Teve este livro segunda edição em 1880. D. Isabel tem vários trabalhos sobre a história do paiz, entre os quais

- A sedição de 1817 no Rio Grande do Norte - que foi lido por ella perante o Instituto archeologico e geographico pernambucano em uma das sessões de 1892. (Blake, 1895, p. 288-289).

No emergir do século XX, Isabel Gondim deu início a uma série de publicações direcionadas aos episódios históricos específicos, dentre os quais, a Guerra do Paraguai e a Sedição de 1817 (Gondim, 1908), ou à tentativa de síntese histórica voltada para o público escolar. Assim, em 1903, saiu do prelo “Brasil, poema histórico do paiz” que, para Afonso Celso, consiste em “um sympatico e interessante trabalho, revelador de talento, cultura e patriotismo” (Celso, 1913 [1903], p. 1). O poema também foi apreciado pela imprensa, e, no Estado do Maranhão, saiu a seguinte matéria:

Letras e typos

Por intermédio do sr. Clodomir Nunes Ribeiro, conceituado escripturario do Thesoiro Publico do Estado, recebemos o Brazil - livro de versos da lavra de d. Isabel Gondim, professora aposentada de Natal que, como os leitores não ignoram, é a capital do Rio Grande do Norte.

O livrinho é prefaciado pelo autor dos Vultos e Factos, Notas e Ficções, o distinto literato, dr. Affonso Celso Junior.

Só o prefacio é uma recomendação valiosíssima. Podemos deixar em paz o Brazil. Contudo, não somos applausistas do laconismo telegráfico e por isso vamos dizer algumas palavras a respeito do livrinho.

Os versos de Isabel Gondim não são mal-feitos. Ressentem-se, é exacto, da forma que não é limada e esmerilhada, como essa forma invejável do verso parnasiano de Raymundo Correa, de Alberto de Oliveira e de outros.

Mas agradam e, como o sentimento da poetisa vibra de quando em vez, neste e naquele verso, nós conseguimos ler o Brazil, sem sentirmos sono, especialmente na parte em que a poetisa descreve as belezas do Brazil, com uma delicadeza a do colorido, que segundo Valentim Magalhães, no seu Bric-àbrac, é peculiar unicamente a mulher a qual por sua vez não tem a penna vigorosa e firme para escrever uma página a Aluizio, a Eça, e outros desta jaez. Porém, é exacto, como mademe Dandet, fazer o descriptivo, mas simples sem esse jogo de scenas arribataires e comoventes caracteram artistas superiores.

Agradecidos estamos pois, com o trabalho de d. Isabel Gondim. O que lhe almejamos é que publique as outras obras que já acham em preparação. Assim conseguirá honrar o nome literatio de sua terra. (Moraes, 1903, p. 2).

A recensão, publicada por Nascimento Moraes no impresso “A Campanha”, designa uma leitura provida de pouco entusiasmo, que reconhecia os méritos do livro, assim como as lacunas suscitadas por ser uma escrita feminina. Já a publicação sobre a sedição de 1817 ocorreu apenas no final do primeiro decênio do século XX e teve uma considerável repercussão na imprensa das províncias do antigo norte do Império do Brasil, em que a temática era considerada basilar no âmbito historiográfico. No Rio Grande do Norte, o periódico “Diário de Natal” anunciou o lançamento do livro em tom elogioso, como é possível verificar a seguir:

A nossa talentosa e ilustrada conterrânea, professora D. Isabel Gondim, acaba de dar à luz da publicidade um bom trabalho histórico sobre a revolução de 1817 neste Estado, então Capitania do Rio Grande do Norte.

É uma bonita brochura de 100 páginas em bom papel, nitidamente impressa, feita nas officinas da Gazeta do Commércio.

Das seguintes linhas, que servem de prefácio ao livro, vê-se o seu valor.

“Identificados diversos antepassados meus com os acontecimentos revolucionários de 1817 na então capitania do Rio Grande do Norte, habilitaram-me as tradições de família a dizer alguma cousa que expurgue dos domínios da incerteza factos históricos que provam, à evidência, o amor que esta pequena terra, em que via luz, sempre consagrou a independência da pátria, fecundando a árvore da liberdade com o sangue generoso e seus martyres.

Procurarei restabelecer a verdade na parte desses factos, sobre a qual tem aparecido divergência de opiniões, sem que a dúvida tivesse ainda sido elucidada, baseando-me não só nas mencionadas tradições, como em testemunhos insuspeitos de contemporâneos da época, a quem tive ocasião de ouvir em palestras familiares, quando ainda na adolescência, dentre e estes alguns que collaboraram na sedição e arrastaram-lhe as consequências como foi o capitão-mor André de Albuquerque Maranhão (de Estivas, nome da sua propriedade rural) meu padrinho, vão circumpescto, particular amigo de minha família um dos poucos patriotas do Rio Grande do Norte que lograram regressar da Bahia, em cujo cárcere estivera prisioneiro por alguns anos.”

Saudando a distincta escriptora pelo seu trabalho, agradecemos-lhe o exemplar que teve a gentileza de oferecer-nos. (Diário de Natal, 1908, p. 1).

Isabel Gondim foi apresentada, na imprensa natalense, por meio de designativos elogiosos, a exemplo de “talentosa e illustrada conterrânea” e “distincta escriptora”. Tais aspectos desvelavam uma mulher já consolidada no polifônico campo das letras da capital norte-rio-grandense (Gonçalves, 2022) e, de algum modo, reafirmavam a forma pela qual a professora primária era apregoada na imprensa desde os idos de 1870. Ela havia se tornado um dos nomes que realçavam as letras no estado. Contudo, no novo momento, Isabel Gondim não foi apenas assinalada como uma escritora qualificada, mas retratada como autora de “um bom trabalho histórico”. Ela passava, então, a integrar uma elite historiográfica de sua terra, seguindo o legado de pensadores da história oitocentistas, como Manoel Ferreira Nobre, Antônio Manoel Coriolano (Santos, 2022a), José Leão Ferreira Souto e Miguel Arcanjo Galvão; estando ao lado de nomes como Alberto Maranhão (Costa, 2019), Vicente de Lemos (Ferreira, 2023), Tavares de Lira e Câmara Cascudo.

Certamente, os fatores que levaram o livro a ser considerado um trabalho histórico habilidoso perpassavam pelo compromisso de a autora adentrar os “domínios da incerteza”, buscando instituir “a verdade dos fatos”. Ao mobilizar fontes oriundas do espaço doméstico e da tradição oral, ela tentava sanar as dúvidas sobre os episódios. Pautada em documentos “insuspeitos”, seria restabelecida a “verdade”. Esse comprometimento também foi alvo da atenção da imprensa pernambucana:

Sedição de 1817 - Acusamos penhorados, o oferecimento de um exemplar do opúsculo intitulado Sedição de 1817 na Capitania ora Estado do Rio Grande do Norte, da lavra da escriptora rio-grandense d. Isabel Gondim.

Trata ele, como indica o seu título dos acontecimentos que se desenrolaram naquele Estado do norte, em consequência da revolução que rompeu em Pernambuco a 6 de março de 1817.

A bem da crítica histórica e acordo com as informações que colheu e as tradições de família, outrora teve como verdade tudo quanto conseguiu apurar d. Isabel Gondim adiciona ao seu trabalho alguns esclarecimentos acerca da mallograda revolução de 6 de março naquela Capitania. (Jornal do Recife, 1908, p. 1).

O impresso recifense considerou o livro como uma contribuição historiográfica referente à sedição, por ser pautado na crítica histórica e no uso de novas fontes, entre as quais a tradição familiar, apurada com o propósito de averiguar a “verdade”. De algum modo, a historiadora passava a ser alvo da atenção de pensadores da história, vinculados a instituições, como o Instituto Arqueológico e Geográfico de Pernambuco e o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Esse foi o caso de Luiz Fernandes, que, ao escrever sobre a história da imprensa em terras potiguares, asseverou a atuação de Isabel Gondim como uma redatora oitocentista: “um corpo de redactores, entre os quaes se destacavam João Manuel, Francisco Othilio Alvares da Silva, d. Isabel Gondim, Jesuíno Rodolpho do Rego Monteiro, pode-se dizer, ensaiou a literatura potyguar os seus primeiros passos” (Fernandes, 1908, p. 18-19).

Outra produção historiográfica de Gondim foi “O sacrifício do amor: drama em cinco atos”, texto que obteve impacto na imprensa nacional. Todavia, devido a esse livro, ela foi hostilizada por Osório Duque-Estrada. Em sua resenha sobre o referido livro, o poeta informa que a “autora era uma professora aposentada na capital do Rio Grande do Norte” e considera a “peça um verdadeiro desastre, ou antes, uma sensaboria, que não merece a pena de uma Analyse literária” (Estrada, 1909, p. 1). De qualquer modo, a resenha crítica evidencia como a produção da norte-rio-grandense ressoou na imprensa brasileira.

Isabel Gondim também foi referenciada nos livros que passaram a ser acionados como fundadores das balizas da historiografia norte-rio-grandense. Tavares de Lira qualificou os escritos da autora como registros avalizados acerca da sedição em decorrência de sua proximidade com os agentes envoltos na trama. Nas palavras do historiador:

Sobre a deposição de André de Albuquerque ninguém disse com maiores detalhes do que D. Isabel Gondim, bisneta de uma irmã do padre João Damasceno e afilhada do capitão-mor André de Albuquerque Maranhão (primo e cunhado do desventurado chefe do governo provisório), a qual escreveu o que se segue, de acordo com os documentos conhecidos e a tradição local. (Lira, 1982 [1921], p. 182).

Essas considerações evidenciam como Isabel Gondim foi manejada como uma historiadora, confrontada diante de outras leituras acerca do passado estadual. Os seus textos foram destacados pelo estatuto que se aproximava da verdade, em decorrência do teor de familiaridade. Outro intérprete do passado que buscou dotar o Rio Grande do Norte de uma síntese histórica foi Rocha Pombo. O historiador paranaense considerou que, entre os “trabalhos devidos agora aos grandes estudiosos de Natal”, estavam “Vicente de Lemos e Luiz Fernandes, o dr. Tavares de Lyra, o dr. Nestor Lima, o dr. Oscar Brandão, d. Isabel Gondim, e talvez outros” (Pombo, 1922, p. 55). Em suma, Gondim era vista como um nome integrante da pequena comunidade de historiadores do estado potiguar. A produção da professora primária também foi confrontada historiograficamente por Rocha Pombo, em cotejo com outras fontes, no intuito de dirimir os “não poucos enganos” que eram “devidos a lapsos de memória” (Pombo, 1922, p. 239-240).

Os méritos historiográficos da professora primária foram reconhecidos pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte de forma tardia, quando, em 1928, tornou-se “a única mulher admitida em seu grêmio, até agora, por força de seus grandes merecimentos” (Rihgrn, 1938, p. 289-292). Poucos anos depois, por ocasião do falecimento da sócia, o sodalício informou, no necrológio, que ela havia deixado cinco manuscritos aptos à publicação: “Curso de caligrafia”, “Elementos da educação escolar: para usos nas escolas primárias de um e outro sexo”, “Romance familiar”, “História do Rio Grande do Norte: noções históricas” e “Resumo da História do Brasil”. Por tais obras, o sodalício buscava perpetuar a memória da “inesquecível consocia, que fora em vida um exemplar dos mais elevados da força de vontade e da pertinácia feminina no Brasil” (Rihgrn, 1938, p. 289-292).

Outro intérprete do passado potiguar que investiu na produção de sínteses históricas foi Luís da Câmara Cascudo. O autoproclamado “historiador da Cidade de Natal” discorreu, em diferentes momentos, sobre as contribuições historiográficas de Isabel Gondim. No contexto de inauguração do Grupo Escolar Isabel Gondim, nos idos de 1934, ele asseverou: “ninguém falava em reunir a documentação gráfica às tradições orais. D. Isabel o fez, na crônica sobre a Revolução de 1817” (Cascudo, 1934, p. 1). Apesar da identificação dos méritos e dos aspectos inovadores da escrita historiográfica de Isabel Gondim, Câmara Cascudo também se tornou o responsável por instituir uma leitura na qual a autora teria ficado “sozinha e incompreendida” nas terras potiguares: “D. Izabel escrevia e poetava contra a expectativa de toda a gente. Ninguém a estimulava ou a aplaudia, raramente os jornais concediam em registrar os seus livros. Nunca lhe publicaram o retrato” (Cascudo, 1934, p. 1).

Essa leitura foi reafirmada no clássico “História da Cidade do Natal”, publicado em 1947, quando afirmou que “Dona Isabel Gondim, 1838-1933, professora, historiadora, poetisa, trabalha sempre, isolada, sisuda, sem repercussão, escrevendo até morrer, coisa do nome e da função intelectual exercida” (Cascudo, 1999 [1947], p. 396). Em “História do Rio Grande do Norte”, publicado em 1955, ele informou:

Foi a mais antiga escritora norte-rio-grandense, residindo no Estado. Única associada do Instituto Histórico local, 1927. Publicou vários livros de versos, pedagogia, dramas e um ensaio sobre a revolução de 1817, registrando as tradições orais (...). Medalha de ouro do Mérito em 1927. Nobre e veneranda figura de mestre”. (Cascudo, 1955, p. 502).

Anos depois, em “O livro das velhas figuras”, o historiador acrescentou que se tratava de uma mulher “séria, composta, circunspecta de pouca intimidade” e que “era a única que tinha coragem de concorrer na produção intelectual ao lado dos homens, ciosos do privilégio antigo. Nenhuma outra mulher enfrentou o silêncio deprimente da província” (Cascudo, 1976, p. 7-8).

Ao longo da segunda metade do século XX, as referências aos escritos de Isabel Gondim se tornaram dispersos e muitas vezes repetitivos. Em 1951, ao escrever sobre a Guerra do Paraguai, Adauto Câmara informou que o hino patriótico, entoado na recepção dos voluntários da pátria, havia sido “composto pelo primeiro cadete João Carlos Carneiro de Albuquerque Gondim, irmão de D. Isabel Gondim”. Além disso, o autor também mencionou a “extensa e desenxabida saudação da professora Isabel Gondim” no ato cívico (Câmara, 2008 [1951], p. 102-103).

Em 1970, Enélio Lima Petrovich publicou o artigo “Os arquitetos da história do Rio Grande do Norte” na prestigiada Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Nesse texto, ao discorrer sobre as contribuições dos historiadores potiguares, mencionou que “a mulher também não se descuidou da história de nossa província” e teceu considerações acerca da atuação de Isabel Gondim: “sobressai a figura de Isabel Gondim. Vivendo quase 100 anos, publicou O Brasil - poemas históricos e A Revolução de 1817, além de outros esparsos. Seu nome se inscreve nas letras históricas da província” (Petrovich, 1971, p. 149).

Parte considerável da fortuna crítica de Isabel Gondim, tecida ao longo da segunda metade do século XX, é devedora dos escritos provenientes da Academia Norte-rio-grandense de Letras, fundada em 1939, e que tem a autora como patrona da cadeira 8 (Melo, 1972; Medeiros Filho, 1983; Câmara, 2017). Ao tomar posse da aludida cadeira, Walter Wanderley discorreu sobre a trajetória intelectual da patrona e considerou que a obra sobre a Sedição de 1817 “poderá́ ser aceita pelos pesqui sadores e estudiosos da história que certamente saberão julgar o estilo que a escritora adota ao registrar os fatos, comentá-los, fiel às suas origens, sem descer ao lugar comum” (Wanderley, 1970, p. 32).

Esse excerto biográfico tornou-se a matriz de inúmeras narrativas que eclodiram a partir do final do século XX, imbuídas do propósito de descortinar a inserção de mulheres de outrora no campo das letras. Tratava-se de uma produção que acabou possibilitando a retomada da visibilidade de Isabel Gondim entre as mulheres letradas do Brasil (Ramos, 2007). Constância Duarte elaborou o verbete que integrou o livro “Escritoras brasileiras do século XIX”, no qual discorreu sobre os escritos biográficos de Isabel Gondim acerca de Nísia Floresta (Duarte, 1999, p. 334). Outro indício dessa retomada foi o verbete publicado no Dicionário Mulheres do Brasil. Nele, lê-se o seguinte:

Nunca se casou e dedicou sua vida ao magistério e às letras. Rica e talentosa, era de temperamento rígido e conservador, e teve muita influência na vida da província. Em 1884, escreveu um texto com observações desabonadoras a respeito de sua conterrânea Nísia Floresta. O artigo era em forma de carta dirigida a um senhor que pedia informações sobre Nísia. Ao difundir um texto crítico com dados deturpados sobre a vida de Nísia, Isabel estava, na realidade, sendo instrumento da discriminação contra a mulher. Sua austeridade admitia a educação feminina, mas não uma vida livre e igual entre os sexos, e o exemplo de Nísia afrontava seus princípios morais. (Schumaher; Brazil, 2000, p. 360).

Também inserida na questão de mulheres de outrora no campo das letras, eclodiu a principal biografia da historiadora oitocentista, publicada por Maria Arisnete Câmara de Morais (2003). Pautada em uma farta documentação, incluindo correspondências e manuscritos, a biógrafa efetiva uma importante análise que possibilitou a renovação das pesquisas acerca da historiadora multifacetada. Por um lado, continuaram a emergir pesquisas que buscavam inserir Isabel Gondim no âmbito das pioneiras no cenário das letras no Rio Grande do Norte. Diva Cunha, por exemplo, argumentou que Gondim “ensinou a gerações de norte-rio-grandenses e contribuiu para a formação de uma mentalidade cidadã. Escreveu, sem repercussão e sem reconhecimento, sobre os temas que lhe eram caros: educação feminina, aspectos da história pátria” (Cunha, 2016, p. 17).

Por outro lado, também despontaram pesquisas que buscaram vasculhar os escritos de Isabel Gondim, providas do intuito de entender outros aspectos, entre os quais, a construção do teatro na perspectiva feminina (Revorêdo, 2002), as prescrições de boa leitura (Morais, 2008), os procedimentos metodológicos que nortearam os seus fazeres (Santos; Santos, 2023), bem como os usos do passado na construção de uma identidade norte-rio-grandense (Santos; Ferronato, 2022) e a sua atuação nas redes de sociabilidades de Natal no início do século XX (Gonçalves, 2022).

Essa fortuna crítica, abrangente e polifônica, esparsa em 16 decênios, evidencia uma autora que foi lida e que esteve presente nos embates historiográficos de seu tempo e nos anos subsequentes a sua existência. Apesar de alguns biógrafos chegarem a reportar um isolamento e ausência de repercussão, a simples vasculha nos jornais é reveladora de uma condição oposta: o nome de Isabel Gondim se fez presente no debate intelectual brasileiro, no geral, e especialmente, no do Rio Grande do Norte. Com isso, torna-se pertinente pensar acerca de seus fazeres historiográficos nos âmbitos da pesquisa e do ensino da história pátria.

“No luxuoso salão resplandecente de luz”: a pesquisadora entre palanques, institutos históricos e escolas

Isabel Gondim era uma mulher letrada oriunda de uma família que havia se envolvido em diferentes capítulos da história nacional, como a sedição de 1817 e a Guerra do Paraguai. Ela era afilhada de André de Albuquerque, que participou do governo revolucionário na capitania do Rio Grande do Norte, em 1817, e dois de seus irmãos faleceram em viagem para os campos de batalha no Paraguai. De algum modo, o envolvimento traumático com os episódios do passado nacional aproximou a professora primária das atividades investigativas atinentes à história pátria.

Esses exercícios de pesquisa ocorreram primordialmente em duas dimensões. A primeira era voltada para a heurística, na qual a estudiosa efetivava a reunião de documentos que se encontravam salvaguardados com familiares, bem como a ampliação da noção de documento, por meio do registro das tradições orais. Como foi ressaltado por Manoel Onofre Júnior, ela efetivou “pesquisa pioneira nesse campo histórico. Para escrevê-la, a autora baseou-se em tradições, documentos, testemunhos de contemporâneos de época” (Onofre Júnior, 1978, p. 33). No último quartel do Oitocentos, Isabel Gondim efetivou uma das mais emblemáticas ações de salvaguarda da documentação histórica no Rio Grande do Norte.

A segunda dimensão empreendida por Isabel Gondim era atinente à escrita de sínteses e difusão do conhecimento histórico, fosse por meio de suas preleções destinadas ao público infantil, na sua escola primária da Ribeira, fosse por meio de declamação de poesias patrióticas em eventos cívicos ou ainda por conferências em instituições culturais. Essa atuação em diferentes espaços resultou na realização de inúmeras viagens entre os principais centros culturais do país, sobretudo Recife e Rio de Janeiro, entre o último quartel da centúria oitocentista e os três primeiros decênios do século XX. Era recorrente encontrar registros na imprensa que ressaltavam a presença da professora norte-rio-grandense em eventos, como o das comemorações do 25º aniversário da Associação Geral de Auxílios Mútuos da Estrada de Ferro Central do Brasil em 1909. Nessa ocasião, registrou-se: “No luxuoso salão resplandecente de luz, pudemos notar as seguintes senhoras em riquíssimas toilettes: Isabel Gondim” (A Imprensa, 1909, p. 9).

Diante dessa inserção, ela passou a ser vista como uma mulher que teve “uma existência dedicada ao magistério e às letras, o que era digno da filha de um professor” (Wanderley, 1965, p. 294). Assim, cabe pensar sobre os principais aspectos que perpassaram pelos fazeres historiográficos de Isabel Gondim no tocante à pesquisa e ao ensino da história pátria. Para isso, torna-se salutar a vasculha de indícios relativos à sua prática nos registros publicados na imprensa brasileira.

Os primeiros registros evidenciam a atuação em eventos cívicos na capital do Rio Grande do Norte. Contudo, além das solenidades públicas, festas escolares e embates na imprensa de Natal, a província tinha pouco a oferecer em relação ao cenário intelectual. Inclusive, ressentia-se a ausência de agremiações que reunissem os letrados da província. Os espaços de sociabilidades entre os letrados restringiam-se às redações de impressos de vida breve e às instituições educacionais, como o Atheneu Norte-rio-grandense. Diante disso, Isabel Gondim passou a investir em sodalícios de outras províncias, notadamente o Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano.

Isabel Gondim foi a primeira mulher a se tornar sócia do sodalício pernambucano, passando a integrar a lista de sócios correspondentes nos idos de 1883. Para galgar esse cargo, ela enviou um texto manuscrito oriundo de sua lavra, que versava acerca da figura do padre João Damasceno Xavier Carneiro. A biografia foi avalizada pelas comissões e a autora recebeu indicação para ser sócia correspondente. O relatório elaborado pelo primeiro secretário, em janeiro de 1884, traz à tona a relevância do manuscrito no arquivo da instituição:

Nas mesmas condições se acha o nosso archivo, onde estão enthesourados muitos documentos valiosos, que fornecerão, sem dúvida, um importante subsídio aos que se propuserem a escrever a nossa história; sobresahindo dentre os manuscriptos, de que fez ele aquisição ultimamente, os Traços Biographicos do rvm. João Damasceno Xavier Carneiro, um dos martyres de 1817, escriptos pela exma. Sra. D. Isabel Gondim, a quem resolveu o Instituto conferir o diploma de sócia correspondente. (Costa, 1891, p. 84).

O cartão de entrada de Isabel Gondim foi uma biografia histórica. Naquele momento, ela já era uma professora com um considerável reconhecimento no âmbito educacional, dado o impacto de seu livro sobre a educação feminina publicado no decênio anterior. Contudo, visando a adentrar novas veredas e aproveitando-se dos registros documentais que integravam o acervo de sua família, ela passou a investir na escrita de textos históricos. A figura biografada havia participado de um dos eventos mais emblemáticos da historiografia gestada no sodalício pernambucano: a sedição de 1817. Portanto, ao escrever a biografia de um dos atores envoltos no movimento, ela contemplou uma premissa comum aos institutos históricos no Brasil oitocentista de instituir memórias que pudessem fundamentar investidas na escrita da história (Guimarães, 1988; Santos, 2022b).

O envio dos escritos autorais constituía o principal percurso a ser trilhado por letrados interessados em ser recrutados pelos institutos históricos. Ao serem enviadas aos sodalícios, as composições publicadas ou ainda inéditas eram submetidas ao crivo da comissão de história, que, por sua vez, emitia o parecer, no qual discorria sobre os eventuais problemas ou méritos e indicava os autores para se tornarem sócios. Esse foi o trâmite seguido por Isabel Gondim. Entretanto, ao ingressar no IAGPE, ela continuou a colaborar para a ampliação do acervo do sodalício, por meio da doação de novos documentos, principalmente ao longo do primeiro decênio após o ingresso. Essas contribuições foram reconhecidas no relatório publicado em 1885:

Cabe-me, por último, mencionar a oferta do retrato do padre João Damasceno Xavier Carneiro, martyr da revolução de 1817, com o qual nos mimoseou a nossa consocia, exma. Senra. D. Izabel Gondim.

Havendo anteriormente nos remetido os Traços Biographicos d’aquelle sacerdote, trabalho este de própria lavra, que lhe valeu o título de sócia correspondente, acaba a distincta cultura das lettras de completar o seu generoso offerecimento com a remessa de uma preciosa relíquia daquella revolução.

E de feito o padre João Damasceno, na phrase do auctor dos Martyres Pernambucanos, foi um desses raros heroes, nascido republicano no meio de um povo de escravos.

Eleito visitador de uma das províncias do norte pelo bispo d. frei Antônio de S. José Bastos, colheu-o em Pernambuco o memorável 6 de Março e, abraçando a causa da liberdade, partiu para o Rio Grande e para o Ceará, afim de attrahir adeptos do movimento revolucionário nessas províncias; mas, quando tratava de dar desempenho a sua espinhosa missão, foi comprehendido em uma leva de presos, estalendo-se-lhe o coração de pezar nas praias de Petitinga, onde jaz sepultado o denodado paladino das luctas da liberdade.

Valiosíssimo, portanto, foi o offerecimento do retrato desse martyr, o qual pode figurar condignamente na mesma galeria, em que se figuram os de Muniz Tavares, Domingos José Martins e José Luiz de Mendonça, tanto mais quanto, segundo Sallustio, a vista das imagens dos nossos antepassados abraza a alma do mais vivo amor da virtude, não porque essas mudas effigies tenham em si tão grande poder, mas porque a lembrança das bellas acções, que praticaram os nossos maiores, desenvolve nos corações a chamma, que nunca se extingue, estimulando-nos a que, por nosso merecimento, nos esforcemos por conquistar a glória e o renome que eles alcançaram. (Costa, 1885, p. 171-172).

Em poucas ocasiões, os relatórios anuais se detiveram de forma tão minuciosa para tratar de uma doação, pois mensalmente os jornais de Recife anunciavam notas oriundas do próprio sodalício acerca de sócios que enviavam documentos e livros para comporem o acervo institucional. Esses anúncios por vezes listavam as obras doadas, enquanto os relatórios quase sempre apresentavam quadros gerais com o quantitativo delas. No caso do retrato ofertado por Isabel Gondim, o relatório anunciou o episódio como um grande acontecimento para a agremiação em sua condição de guardião da memória revolucionária.

A oferta do retrato era assim complementada ao ato inicial de envio dos traços biográficos. O herói era monumentalizado por meio de um vestígio manuscrito de palavras que reavivavam os feitos do revolucionário, assim como o quadro que passaria a ocupar a galeria dos chamados “mártires pernambucanos”. Isabel Gondim atuava como um agente no processo de construção de uma cultura política nas províncias do norte, por meio da mobilização de documentos que reiteravam um passado comum. Um passado que, ao ser evocado para compor a galeria do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano, inspirava a construção conjunta de um projeto de futuro. A lembrança dos grandes homens do passado alimentaria a chama para as novas gerações conquistarem a glória e o renome.

O retrato do padre João Damasceno foi cedido ao Instituto Pernambucano, juntamente com outras fontes documentais e bibliográficas. Esse envio das doações foi anunciado na sessão de julho de 1884:

Instituto Archeológico - Antehontem, ao meio dia, reunio-se o Instituto em sessão ordinária, sob a presidência do exm. Sr. Conselheiro Quintino de Miranda com assistência dos Srs Drs Luna Freire, Cícero Peregrino, Baptista Regueira, 1º secretário e José Hygino, e dos Srs. Comendador M. Leal, Augusto Costa e Major Codeceira, 2º secretário (...).

Um dito da consócia D. Isabel Gondim, de 15 do corrente, ofertando um retrato do Rvd. João Xavier Damaso, um dos martyres da sedição de 1817, nesta província.

Um dito da mesma, de 17 do corrente, ofertando as seguintes obras:

Annaes da Imprensa Nacional do Rio de Janeiro, compêndio de Geographia por Bazílio G. Torreão, O Padre Perante do Século, Discurso pronunciado na Câmara dos Deputados, pelo Dr. Antônio Pinto Mendonça; Paul et Virginie, par Bernardiu de Saint Pierre, Elementos de Civilidade e de Decência (obra antiguíssima).

Dissertação do Dr. Antônio Carneiro Guimarães para um concurso na Faculdade de Direito do Recife, A Nova Legião, por Luiz Guimarães Júnior, Questões Sociaes por J. L. F. Souto, e o manuscripto das Reflexões às minhas alumnas, e diversos manuscriptos antigos. (Jornal do Recife, 1884, p. 1).

Observa-se que Isabel Gondim outorgou à instituição pernambucana um vasto conjunto de materiais, com registros iconográficos, impressos e manuscritos. Em grande medida, eram publicações consideradas raras, como “Elementos de Civilidade e Decência”, cuja tradução do original francês, escrito pelo Abade Prevost, foi realizada pelo lusitano José Vicente Ribeiro, ou o manuscrito do livro inaugural da autora, “Reflexões às minhas alumnas”. Ao facultar a guarda dos originais de seus escritos para o Instituto Pernambucano, elucidava-se uma preocupação em instituir uma memória de si. Os seus escritos passavam à custódia da instituição historiográfica mais relevante do antigo norte do país.

Além dos manuscritos oriundos de sua lavra, como a biografia do padre Damasceno e o livro pedagógico, ela também ofertou obras produzidas por estrangeiros, como Bernadieu de Sain Pierre, e por letrados do antigo sul do Brasil, como Luiz Guimarães Júnior, da província do Rio de Janeiro. Contudo, prevaleciam os escritos provenientes do antigo norte do Brasil, como os do padre Antônio Pinto de Mendonça e dos pernambucanos Antônio Carneiro Guimarães e Basílio Quaresma Torreão. Certamente, essas ofertas sinalizam o universo de leitura da autora, mas também se devem à constituição de uma possível rede de sociabilidades entre os versados em letras no norte do país.

Entre os alfarrábios produzidos por autores nortistas, estava “Questões Sociais”, composto por José Leão Ferreira Souto. Tratava-se de um dos mais importantes nomes do cenário das letras do Rio Grande do Norte. Desde a década de 1870, passou a viver na corte, aproximando-se do movimento republicano e tornando-se um dos líderes do Club Republicano norte-rio-grandense. Porventura, mesmo sendo criada na corte, distante da pequena província nortista, essa deve ter sido a primeira agremiação que reuniu letrados potiguares (Santos, 2024).

Presumivelmente, o letrado norte-rio-grandense tenha se tornado o principal interlocutor de Isabel Gondim por meio da troca de correspondências. A mais conhecida dessas foi enviada pela autora no dia dois de março de 1884, na qual ela atendeu a uma solicitação de José Leão Ferreira Souto para escrever a biografia da conterrânea Nísia Floresta. Dessa demanda, resultou a polêmica “Nysia Floresta Brazileira Augusta: notícia de uma individualidade”, haja vista Gondim construir uma leitura moralizante e consideravelmente hostil (Gondim, 1983). De qualquer modo, a solicitação e o envio da escrita biográfica referendam a existência de um esforço dos norte-rio-grandenses em monumentalizar os mitos fundadores do campo das letras na província, bem como expressam o reconhecimento de Isabel Gondim como uma autora habilitada na produção biográfica.

Esses investimentos biográficos, em meados da década de 1880, foram complementados com o envio de novos donativos para o Instituto Arqueológico e Geográfico de Pernambuco (IAGPE). Na sessão de dezembro de 1884, o “Instituto Archeológico” mencionou: “Um officio da socia correspondente, D. Isabel Gondim, de 11 do corrente, remetendo o seu retrato e alguns apontamentos biográficos, em virtude do art. 26 da reforma dos Estatutos do Instituto” (Jornal do Recife, 1884, p. 1). O cumprimento do estatuto do sodalício pernambucano evidenciava uma preocupação com a produção da memória, pois os excertos autobiográficos enviados seriam utilizados na produção dos necrológios a serem publicados quando ocorresse o falecimento do sócio.1 Mesmo não sendo utilizado pelo instituto, o exercício de escrita autobiográfica de Isabel Gondim demonstrava uma autora preocupada em atender os requisitos institucionais e em construir uma memória de si.

Após uma leva de textos biográficos, Isabel Gondim também investiu na doação de documentos atinentes ao espaço norte-rio-grandense. Em 1890, o Jornal do Recife noticiou que o Instituto Pernambucano recebeu:

Pela consorcia D. Isabel Gondim, uma carta assignada por D. Thomaz, bispo de Pernambuco, em 26 de maio de 1775, dirigida ao Sr. Antonio Carneiro de Albuquerque Gondim, comunicando ter o Marquez de Pombal mandado imprimir uma pastoral sua para ser fielmente observada. (Jornal do Recife, 1890, p. 3).

O envio da documentação expressava um anseio da historiadora em dotar as instituições de pesquisa de um amplo leque documental que pudesse subsidiar a escrita da história. Além disso, ressalta-se que esses registros históricos envolviam os seus ancestrais e isso denota um empreendimento da autora em construir uma leitura do passado, no qual a sua família emergia com o exercício do protagonismo. É importante salientar que esse ato era recorrente entre os sócios, notadamente os versados em história.

Nos quadros do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano, integravam a lista de sócios correspondentes alguns dos principais nomes da historiografia brasileira, dentre os quais Isabel Gondim era a que apresentava maior longevidade, sendo sócia desde 13 de setembro de 1883. Em 1911, por exemplo, a relação de sócios correspondentes do sodalício era integrada por nomes das letras históricas, como Armindo Guaraná, Barão de Studart, Teófilo Braga, Felisbelo Freire, João Batista Perdigão, Raphael Gallanti, Capistrano de Abreu, Orville Derby, Theodoro Sampaio, Osório Duque-Estrada, Max Fleuiss, Augusto Tavares de Lira e Alexandre de Mello Moraes Filho. Tratava-se, decerto, de uma elite de letrados versados nos fazeres historiográficos. No caso de Isabel Gondim, ela não somente integrou os quadros, mas também chegou a proferir conferências nos salões do instituto, como se verifica a seguir:

D. Isabel Gondim - Regressa hoje ao seio de sua respeitável família no Rio Grande do Norte a distincta escriptora D. Isabel Gondim, professora aposentada na capital d’aquelle Estado, que de passeio a esta capital, onde veio visitar um seu irmão, leu perante o Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano um bem elaborado trabalho histórico, sobre a sedição de 1817 em sua terra natal, o qual faz honra aos créditos litterários da illustrada consocia d’aquelle Instituto, onde consta pretendia igoalmente exhibir outros produtos de sua dedicação às lettras pátrias, o que deixou de fazer por circunstâncias imprevistas, que a decidiram aguardar outra ocasião. (Jornal do Recife, 1892, p. 3).

Em defluência da familiaridade com a sedição de 1817 e do tratamento com uma documentação consideravelmente ampla, os fazeres historiográficos de Isabel Gondim foram ampliados no emergir do período republicano, por meio do exercício da escrita de textos históricos. Ao gozar de tempo proveniente de sua aposentadoria, ela passou a se dedicar à escrita de livros sobre a história pátria. Parte desses rudimentos que eram apresentados em palestras nas instituições acadêmicas era, destinados a retirar da penumbra experiências pouco aludidas, como o movimento de 1817 em plagas do Rio Grande do Norte. Outros atendiam a uma prerrogativa pedagógica, com a escrita de livros escolares de história que acionavam diferentes estratégias narrativas, como o teatro e a poesia (Santos; Santos, 2023). No dia 29 de novembro de 1913, o impresso “A Província” divulgou as atividades do Instituto Arqueológico, com a leitura das atas, “sendo ambas aprovadas, aquela com uma emenda registrando a oferta de um volume do poema Brazil, pela sua autora, d. Isabel Gondim” (A Província, 1913).

Entretanto, a doação de exemplares de seus livros, pela própria Isabel Gondim, não se restringiu ao sodalício de Pernambuco. Em diferentes momentos, ela também os encaminhou para amigos e homens letrados de diferentes partes do Brasil e da França. Além disso, ela cedeu os seus escritos para compor o acervo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN). Na revista publicada em 1916, constava a informação da oferta da “emxa. Sra. d. Izabel Gondim: - ‘Sedição de 1817 na capitania, ora Estado, do Rio Grande do Norte’, pela ofertante. Natal, 1901” (Rihgrn, 1916, p. 367). Igualmente, na edição de 1925, constou a informação sobre outra doação: “De d. Izabel Gondim, ‘O Preceptor’” (Rihgrn, 1925, p. 244). Por fim, atendendo a uma recomendação, em 1937, quatro anos após a morte da historiadora, foi registrada a oferta “De Da. Maria Gondim: medalha de ouro oferecida pelo Departamento de Educação, a 15 de outubro de 1927, à sua irmã D. Izabel Gondim, já falecida, como benemérita do ensino primário no Estado do Rio Grande do Norte” (Rihgrn, 1937, p. 222).

O conjunto de itens ofertados ao sodalício potiguar expressa diferentes momentos da trajetória de Isabel Gondim no âmbito dos fazeres historiográficos. O primeiro livro enviado era a principal publicação historiográfica da autora, que versava sobre uma questão fulcral do passado estadual. Certamente, a doação vislumbrava uma intenção de que o livro fosse avaliado e ela passasse a integrar a lista de sócios. É possível aludir essa afirmativa com considerável margem de segurança, pois outros livros recebidos no mesmo período passaram pelo crivo, receberam parecer, e os autores foram recrutados para compor o instituto.

Estranhamente, Isabel Gondim não foi arregimentada. Além disso, em 1917, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte realizou uma grande efeméride, permeada de palestras alusivas aos impactos da sedição de 1817 em terras potiguares. Nesse caso, o nome de Isabel Gondim não apareceu entre os expositores convidados, tampouco foi citado pelos demais conferencistas. No centenário da sedição, a principal intérprete do evento foi sufocada.

Desprovida de espaço institucional que abrigasse os seus fazeres historiográficos em Natal e ignorada pelos homens que falavam e escreviam sobre a história da sedição de 1817 no Rio Grande do Norte, Isabel Gondim passou a investir em outras veredas, ao deslocar-se para o debate no âmbito da geografia. Assim, em 1915, ela participou do 4º Congresso Brasileiro de Geografia, realizado na cidade de Recife. Naquela ocasião, ela foi a única mulher que participou do evento, apresentando a memória “Águas Thermaes do Estado do Rio Grande do Norte” (Gondim, 1916). O aludido trabalho recebeu o parecer favorável da Comissão de Hidrografia do congresso e foi publicado nos anais. No ano seguinte, já com 77 anos, ela participou do 5º Congresso Brasileiro de Geografia, sediado em Salvador. Após esses eventos, Gondim passou a tentar publicar parte de seus livros que ainda se encontravam no prelo.

Isabel Gondim se tornou sócia do IHGRN somente em 1928, quando Nestor Lima, amigo da professora, ocupava o cargo de presidente. Essa posse ocorreu já nos últimos anos de vida da estudiosa, o que justifica a recomendação para que a sua medalha fosse entregue para compor o acervo institucional. Com a morte de Isabel Gondim, Nestor Lima prestou homenagens na sessão do dia 24 de fevereiro de 1935:

Em seguida, o Sr. Presidente declarando inaugurados os retratos dos consócios Desembargador Hemeterio Fernandes, 4º presidente do Instituto, e de Da. Izabel Gondim, fez a apologia da vida e da acção patriótica de ambos: do primeiro como notável jurisconsulto e da segunda como esforçada historiógrapha e educadora, que conseguiu renome nas nossas leras, e expressou em comoventes phrases, a admiração e a saudade do Instituto, por tão dignos consócios, já desaparecidos. (Rihgrn, 1937, p. 207).

Nestor dos Santos Lima referiu-se à professora primária pelo predicativo de “esforçada historiógrapha”. Trata-se de um dos raros momentos no qual a prerrogativa historiográfica da autora narrativamente suplantou a sua atuação como professora primária, que, em vários momentos, foi mobilizada como estratégia para menoscabar os seus escritos e as efetivas contribuições no tocante à história pátria, fosse para a pesquisa, fosse para o ensino.

Os livros escolares de história pátria da lavra de Isabel Gondim eram fortemente marcados por uma perspectiva cívica. “Brasil, poema histórico do paiz”, por exemplo, foi dedicado, nos termos da própria autora, “ao meu paiz, aos meus concidadãos, à história pátria”. O passado era, ao mesmo tempo, objeto da análise e alvo da louvação. Na segunda edição do chamado “poemeto”, a autora explicitou as suas intenções com o livro:

Assim mais correcta, expurgada daquelas e ampliada com um prólogo metrificado sobre o descobrimento do paiz, bem como pelo maior desenvolvimento do resumo histórico (...) conquanto por certo imperfeito, sem o completo resumo do assumpto histórico que ora procuramos melhor desenvolver e não tendo os apurados requintes que embelezam taes composições, todavia o poemeto - O Brazil - sendo o único em seu gênero, sob o ponto de vista geral de nossos successos históricos, desvanecia-nos a ideia de sua apreciação pelos concidadãos distinctos, em cujos peitos palpitassem patrióticos sentimentos; e essa animadora ideia, folgamos de patentear não fora illudida; excedeu mesmo a nossa expectativa. (Gondim, 1913 [1903], p. 09).

A proposta de ensino de história acionada por Isabel Gondim estava amparada em uma proposição pragmática, de fomento ao patriotismo, de formação do sentimento de pertença à nação. Para isso, ela esperava que os seus escritos possibilitassem a palpitação de sentimentos patrióticos no peito da nova geração. O poema histórico foi dividido em três partes. Nelas, a autora discorre em versos sobre o descobrimento e colonização, a independência e o Império, além das guerras nas fronteiras orientais e da Proclamação da República.

A primeira parte foi publicada no jornal natalense “A República”, sob o título de “Poema épico”. A narrativa histórica em versos seguia a ordem cronológica dos principais acontecimentos do Brasil, de forma muito similar ao que se encontrava proposto nos currículos das escolas primárias, iniciando com as navegações portuguesas e conquista do território, culminando com a república. O passado nacional era pensado como um grande legado da colonização portuguesa. O país era fruto do ato heroico lusitano:



No séc’lo de heroicas, de grandes empresas,
Volvendo os annaes em dois terços d’Abril,
Dos mares qu’a rota Colombo traçara
Surgiu este imenso gigante Brazil. (Gondim, 1913 [1903], p. 20).

O passado nacional pensado pela historiadora encontrava-se coadunado com os preceitos pedagógicos defendidos nas diretorias estaduais da instrução pública. Costurava-se a ideia de civilização atrelando o passado do país ao de Portugal. O tempo se fazia especializado, no qual os rudimentos de uma pré-história nacional encontravam-se ancorados na outra margem do Atlântico, na história de Portugal. Contudo, Isabel Gondim também enfatizou o protagonismo histórico na conquista da independência, no qual o país emergia como um gigante. Essa leitura teve uma ênfase considerável nos episódios da sedição de 1817:



Horrores, ferezas não teme o gigante!
De novo projetcta soerguer a cerviz;
Ao Norte, em seguida convém Pernambuco
E três suas irmãs libertar o paiz
Ainda baldados tivera os esforços!...
Os ódios, rancores, tremenda vingança,
A morte, o patib’lo, os tormentos, supplícios,
Jamais de vencer lhe trahiu a esperança.
Impávido affronta esta sanha oppressora!
Em ondas de sangue se afoga o martyrio!...
Um sonho fagueiro lhe fora o triunpho...
Anceio offegante... uma insânia... delírio...
Decorrem os tempos, os astros perpassam,
Do brilho emergido sua fronte gentil;
Arroubos e glórias de altiva potência
Sorriam, afagavam constante o Brazil. (Gondim, 1913 [1903], p. 24).

O Brasil foi narrado como um espaço gigante que lutou pela liberdade. Ao contrário de outros livros escolares e de programas nos quais o passado nacional deveria ser visto como a ênfase de um povo pacífico, em que o “brasileiro sempre estivera unido”, Isabel Gondim dotou a sua narrativa de um passado disputado, marcado por conflitos para expulsar invasores das capitanias de Pernambuco, São Vicente, Bahia e Rio de Janeiro. Um país que, para galgar a liberdade plena como nação soberana, passou por conflitos e martírios em Minas, Bahia e Pernambuco, auxiliado “por três irmãs”. O Brasil independente era o legado de homens que haviam lutado e morrido por uma causa. O texto foi pensado inicialmente como um poemeto a ser declamado, conforme a autora:

Venho trazer um grão de areia para o edifício da nossa litteratura, repito agora, ao dar publicidade a este pequeno poema - O Brasil - o que disse a 3 de maio do anno vigente numa imponente sessão litteraria, em commemoração ao 4º centenário do descobrimento do paiz, quando, após o discurso do orador da sociedade me dirigi à mesa, onde estava o seu presidente com outros consócios e exhibi a primeira parte do mesmo poema, que recitei e offereci ao chefe do governo do Estado, ahi presente. (Gondim, 1913 [1903], p. 9).

A efeméride citada pela autora era a comemoração do quarto centenário da independência do Brasil, realizada em Natal, no dia 3 de maio de 1900. O evento ficou a cargo do Grêmio Polimático, que tinha como presidente Antônio de Souza. A referida associação foi fundada em 1898 e reunia alguns dos mais importantes nomes das letras potiguares, tornando-se um embrião do que viria a ser o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Naquela sessão, o orador do evento foi Henrique Castriciano, importante letrado, próximo do grupo político que governava o Estado, inclusive, do governador, Alberto Maranhão.

A intervenção de Isabel Gondim com a leitura do poema histórico sinaliza um possível empenho da historiadora em se aproximar do grupo de letrados do estado, o que poderia resultar em sua filiação no Grêmio Polimático. Evidencia, antes de tudo, a prática de uma professora aposentada que se enveredava entre os palanques e a prensa na divulgação de seus escritos patrióticos. Em versos, a historiadora elucidava o passado heroico do país, com os poemas “Heróis da Liberdade da Pátria” ou “Saudação aos Voluntários da Pátria”:



Benvindo sejais à nossa Província
Do Império uma estrela tão pouco fulgente,
Por vosso heroísmo, garbosa, luzindo,
Iguala das outras o brilho nitente.
À sombra dos louros que, bravos, colhestes
Das marciais fadigas, no frio lidar,
Repousem as frontes, de glória cercadas,
E os peitos cansados de tanto lutar.
Difunda-se o arroubo de franca alegria
À face risonha do grato prazer,
Que logo se expanda nas flores singelas
Que nesta grinalda vos venho trazer
Aos vossos troféus gloriosos, fulgentes,
Se enlace este indício de amor fraternal:
A of’renda aceitai, provinda do afeto,
Que é dele o mais tênue, singelo sinal.
Ditosa, esta plaga recolhe no seio
De galas repleto, juncado de flores,
Os filhos prezados, heroicos, altivos,
Que ouviram da Pátria severos clamores.
Saudosos irmãos constantes saúdam
De sua bravura fiéis emissários,
Repostos felizes nos lares queridos,
Oh! Vivam da Pátria os seus Voluntários. (Gondim, 1933, p. 94-95).

Nas palavras proferidas por Isabel Gondim em 1870 e publicadas em 1933, o heroísmo dos voluntários teria sido responsável por igualar o Rio Grande do Norte às demais províncias. As terras potiguares foram apresentadas como o lar, que se regozijava ao receber os seus filhos que retornavam do campo bélico. Assim, a poesia da autora se deslocava por longos decênios, entre declamação em tempos de império e a publicação na nova ditadura republicana.

Considerações finais

Neste artigo, discorremos sobre os principais aspectos que atravessaram os fazeres historiográficos de Isabel Gondim, uma professora primária do Rio Grande do Norte, que investiu na pesquisa e no ensino de história pátria. Preocupada com a questão da formação de crianças e jovens, ela se dedicou à escrita de livros escolares voltados para o ensino primário, como “Reflexões às minhas alumnas”, “O sacrifício do amor” e “Brasil, poema histórico do paiz”. Em tais escritos, a autora explicita a sua concepção de pátria e emoldura uma forma de ler o passado nacional, marcado pela ideia de ser um legado da colonização portuguesa e, contraditoriamente, de ser o resultado de um longo processo de luta de seu povo em defesa da liberdade.

Ao longo de sua trajetória, a docente galgou importantes espaços, nos quais difundiu os seus escritos, proferiu palestras, declamou poesias e subiu aos palanques para difundir o seu pensamento historiográfico. Assim, ela deslocou-se por agremiações, a exemplo do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano, do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, além do Grêmio Polimático. De igual forma, atuou em eventos cívicos e acadêmicos, apresentando os resultados de suas investidas nos fazeres científicos em geografia e, primordialmente, em história. Com isso, fosse na sala de aula, nos salões de pesquisa dos institutos ou nos palcos de eventos cívicos, Isabel Gondim buscou ser a “voz altissonante”, a qual “nunca os heróis da pátria brasileira, poderia esquecer um só instante”.

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Notes

1 No caso de Isabel Gondim, o falecimento não foi mencionado em nenhuma ata de reunião do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano, assim como também não foi publicado o necrológio. Realizamos a pesquisa no arquivo do sodalício, mas não conseguimos localizar o manuscrito autobiográfico.
Financiamento Pesquisa desenvolvida com financiamento com a Bolsa de Produtividade CNPq 2.

Author notes

Dossiê História ensinada, história pesquisada Organizadores: Raquel Discini de Campos e Ronaldo Cardoso Alves

E-mail:magno.santos@ufrn.brE-mail: ane.mecenas@ufrn.br



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