Dossiê
Presente, passado e futuro: o projeto de nação brasileira entre a “Cruz e a Espada” da Brasil Paralelo
Present, past and future: The Brazilian nation project between the “Cruz e a Espada” of Brasil Paralelo
Presente, passado e futuro: o projeto de nação brasileira entre a “Cruz e a Espada” da Brasil Paralelo
História (São Paulo), vol. 43, e20240024, 2024
Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho
Received: 13 April 2024
Accepted: 17 June 2024
Resumo: Partindo do princípio de que o conhecimento histórico é um “campo de batalhas” entre programas, concepções, pontos de vistas e perspectivas desiguais, dispares, distintas e opostas de (re)configurações do debate temporal, ou se preferirem, de sínteses sobre o pretérito, presente e do (desejo de) devir. A hegemonia pela leitura da temporalidade é obtida em um campo de luta disputadíssimo, portanto, trata-se de um objeto de disputas, contestações e apropriações estruturadas e estruturantes, porém possíveis de alterações, da realidade. Nesse sentido, o presente texto se propõe a pensar como a produção “A Última Cruzada”, lançada pela think tank Brasil Paralelo em 2017, constituiu-se, a partir de uma determinada leitura de Idade Média, como um projeto de futuro derivado de uma narrativa revisionista que procura (re)construir uma identidade nacional brasileira pelo viés supremacista.
Palavras-chave: Negacionismo histórico, Brasil Paralelo, Think Tank.
Abstract: Starting from the principle that historical knowledge is a “battlefield” between unequal, disparate, distinct and opposing programs, conceptions, points of view and perspectives of (re)configurations of temporal debate, or if you prefer, of syntheses about the past, present and (desire for) becoming. In this sense, hegemony through the reading of temporality is obtained in a highly contested field of struggle, therefore, it is an object of structured and structuring disputes, contestations and appropriations, although possible changes, of reality. In this sense, this text proposes to think about how the production “A Última Cruzada”, launched by the think tank Brasil Paralelo in 2017, was constituted, based on a certain reading of the Middle Ages, as a future project derived from a revisionist narrative that seeks to (re)construct a Brazilian national identity through a supremacist bias.
Keywords: Historical denialism, Brasil Paralelo, Think Tank.
Este artigo visa analisar como o “documentário” intitulado “A Última Cruzada” (2017), produzido pela Think Tank Brasil Paralelo, configura-se, baseando-se em uma narrativa conservadora e obsoleta sobre a Idade Média, como um projeto de devir procedente de uma suposta leitura revisionista da história que, ao fim e ao cabo, pretende (re)construir nossa identidade nacional pela perspectiva supremacista e reacionária. De início, destacamos que partimos de uma realidade hodierna em que tanto os campos científicos com as Universidades Públicas estão sob assalto. Nesse cenário, nos parece que são muito mais evidentes as múltiplas e seguidas imposições exigidas aos cientistas da área de Ciências Humanas para ratificarem tanto a pertinência como a indispensabilidade, e por que não a defesa da ampliação, deste campo de conhecimento.
Ademais, se são as Ciências Humanas o campo científico mais atacado por essa falsa narrativa “utilitarista”, podemos certamente afirmar que é a história e, mais especialmente, a história das sociedades pré-capitalistas, as áreas que têm recebido “condenação particular redobrada” (Bastos, 2020). Tais admoestações foram escancaradas, por exemplo, na primeira versão da Base Nacional Curricular (BNCC) (Lima, 2019). Documento que o Ministério da Educação (MEC) lançou, em sua primeira versão, em setembro de 2015 e oficializou em março de 2016.
Nesse ínterim, houve um período de consulta pública que mobilizou mais de 12 milhões de contribuições e que dividiu os profissionais da educação entre contrários e favoráveis. Nessa conjuntura de inúmeras disputas ideológicas, a BNCC foi objeto de muitas críticas, notadamente, alusivas ao componente curricular história. Esta foi previsivelmente, pelo conteúdo crítico natural desta ciência, bem como pelas disputas revisionistas já em curso, a última disciplina a ser divulgada para a consulta. Entre as inúmeras polêmicas e desafios presentes nesse texto está a exclusão do rol de conteúdos que deveriam ser lecionados na Educação Básica, cujas temáticas são convencionalmente ligadas ao que chamamos de História Antiga e Medieval (Lima, 2019)
Lembramos que os ataques e contestações à história das sociedades pré-capitalistas não são exclusivas à realidade brasileira. O professor Mário Bastos (Bastos, 2017) reuniu em um artigo intitulado “La Historia Medieval en Brasil”, várias dessas infucas produzidas na América Latina, Ásia e até mesmo na Europa. Porém, se existe algo de profícuo em todo esse panorama, fazendo aqui um hercúleo exercício de esperança de tempos melhores, creio eu que seja na urgente realização de uma reflexão de nosso ofício, de nossas práticas de pesquisa e de ensino, da organização e exercício do nosso campo de conhecimento, por exemplo via Associação Brasileira de Estudos Medievais (ABREM) ou via Associação Nacional de História (ANPUH). É válido lembrar ainda que nos trabalhos científicos dedicados às sociedades pré-capitalistas, em geral, exige-se (conscientemente ou inconscientemente) um labor extra para promover premissas de sua legitimidade, reconhecimento, atualização e de sentido para o presente.
Importa, primeiramente, reiterar que a história e, por extensão, os historiadores, em seu exercício, possuem uma função social de extrema importância nas formações sociais, haja vista que esta última, demanda incessantemente por autoconhecimento, ainda que por vezes, a leitura hegemônica da realidade se dê por outros meios menos qualificados que o do conhecimento histórico científico. Portanto, concordamos mais uma vez com Mário Bastos (Bastos, 2020, p. 437-438) quando este afirma que:
O historiador, mesmo o das sociedades mais remotas (ou talvez esse, em especial) é, fundamentalmente, um “perspectivador” do presente, que só assume especificidade histórica e só é compreensível pela sua retroprojeção temporal. O conhecimento histórico é sempre o desvelamento de um contexto, o que só atingimos plenamente pelo contraste (com outros contextos). Toda História é sempre, ainda que quase nunca se assuma como tal, comparativa, e é realizada em benefício do presente, visando a um futuro.
Logo, o historiador, em seu ofício, parte sempre do presente. Tempo histórico que ele mesmo faz parte, portanto, a narrativa histórica que produz está embebecida de emoções e de convicções, está mergulhada nas conflituosas e antagônicas relações sociais do seu tempo (Keith, 2011). Dessa assertiva deriva-se uma premissa insofismável: toda narrativa histórica construída sob esteio das formações sociais fragmentadas em classes sociais é, incontornavelmente, um discurso enviesado pelas contradições e posições de classe. Em outras palavras, entendemos que as ciências, incluindo evidentemente a história, não estão apartadas das relações sociais como um todo; ao contrário, estão integradas ao desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo, ainda que no plano discursivo se apregoem como neutra, autossuficiente e desprovida de ideologia (Lowy, 1982; Frigotto, 2014; Freitas, 2017; Mészáros, 2014).
Assim sendo, os antagonismos e posições de classe que estão no presente do historiador são, direta ou indiretamente, projetados sobre quaisquer formações sociais ao qual a pesquisa está dedicada. Daqui decorre, um segundo princípio inconcusso: o conhecimento histórico é um “campo de batalhas” entre programas, concepções, pontos de vistas e perspectivas desiguais, dispares, distintas e opostas de (re)configurações do debate temporal, ou se preferirem, de sínteses sobre o pretérito, presente e do (desejo de) devir. Nesse sentido, a hegemonia pela leitura da temporalidade é obtida em um campo de luta disputadíssimo, portanto, trata-se de um objeto de disputas, contestações e apropriações estruturadas e estruturantes, porém possíveis de alterações, da realidade.
Com essa série de premissas em mente, passamos para o segundo passo do texto. Isso é, tentaremos a seguir fazer um enquadramento da empresa, com perfil de think tank, Brasil Paralelo. Organização supostamente “entusiasta” em criar e propagar “conhecimento neutro” sobre as mais diversificadas temáticas como política, economia, ciência, etc. A própria empresa, em seu site1 autointitula-se como “uma empresa de entretenimento e educação [...] Somos orientados pela busca da verdade histórica, ancorada na realidade dos fatos e sem qualquer tipo de ideologização na produção de conteúdo” (grifos nossos).
Porém, uma análise mais próxima dos seus produtos evidencia que se trata de um negacionismo enviesado da história brasileira pela extrema-direita.
Em tempo, deliberadamente usaremos o termo “negacionismo”, em consonância com Arthur Lima de Avila (2021, p. 161-184), para fazer menção ao que julgamos falsificações do nosso passado ou (im)posturas intelectuais voltadas propositalmente para as obliterações de determinados fatos e episódios de nossas imaginações coletivas. Dessa maneira, denominá-las de “revisionistas” seria conferir-lhes uma reputação que não são dignas, uma vez que suas versões do pretérito não são pautadas em um exercício sério e ajuizado de nossas histórias, mas na sobreposição de falsidades para atribuir consentimento e legitimidade aos projetos de futuro da extrema direita.
A narrativa desta empresa baseia-se, como um de seus pontos nevrálgicos, no discurso de que existe uma “história paralela”, “verdadeira” e escondida da população. No fundo, tais discursos pretendem, a todo custo, desvalorizar e deslegitimar os modelos até então prestigiados de construção e propagação da ciência histórica - notadamente, o espaço dedicado pelas universidades e escolas (em especial, as públicas), bem como pelos historiadores profissionais e pelos professores de história atuantes na Educação Básica, denunciados como espaços e agentes “ideológicos”, “políticos” (como se houvesse algum espaço ou indivíduo que não o fosse) e vinculados a uma lógica da “conspiração doutrinadora esquerdista” (Santos, 2022). Afinal, como a própria empresa afirma em sua página,2 sua missão é “resgatar os bons valores, ideias e sentimentos no coração de todos os brasileiros”.
Uma conclusão parcial que tiramos até aqui é que estamos presenciando uma (re)atualização, por meio de uma narrativa atraente - tanto em termos de linguagem, de imagens e produção -, de teses antidemocráticas e supremacistas antigas, veiculadas no Brasil do século XIX, que atinge um alto número de consumidores e apoiadores. Tal assertiva é altamente alarmante para o nosso futuro, principalmente se essa narrativa é, repito, fundada em falsificações e apagamentos históricos e estruturada ainda mais nos currículos escolares e nos projetos políticos relacionados ao campo cultural e educacional. Daí a justificativa do presente texto, isso é, entender como a Think Tank Brasil Paralelo se insere nesse projeto de leitura de passado e projeto de futuro.
Brasil Paralelo como Think Tank
Mais acima enquadramos a empresa Brasil Paralelo como uma think tank. Mas, o que entendemos por esse conceito? Para responder, de forma sintética, utilizaremos os trabalhos de Ian Neves (2022), Jonathan Frade Araújo (Araujo, 2019), Fernando Preusser de Mattos (2015), Thiago Aguiar de Moraes (2013), Juliana C. Rosa Hauck (2015) e Camila Carneiro Dias Rigolin e Maria Cristina P. Innocentini Hayashi (2012)
O termo think tank normalmente é traduzido para o português como: “centro de pensamento”, “banco de ideias, “viveiro de ideias” e “tanque de pensamento”. Tal conceito tem uma carga histórica, isso é, o termo nasce nos anos de 1940, a partir da Rand Corporation. Instituição organizada no final de 1945, como o nome inicial de Rand Project. É somente em 1948 que ela assume o nome Rand Corporation. Ela era composta pelo Departamento de Guerra dos EUA, pelo escritório de pesquisa e desenvolvimento científico e industrial. Tal empresa foi criada para desenvolver projetos de pesquisa e análise para as Forças Armadas estadunidenses. Destacamos também que ela foi financiada pelo Estado americano, mas principalmente por fundos privados de corporações, universidades e particulares. Em outras palavras, era uma organização institucionalizada, não governamental, que procurava influenciar a política pública e a opinião pública sobre guerra e ciência.
A Rand Corporation, portanto, surgiu de uma iniciativa de desenvolver tecnologia, estratégia de guerra e um programa de “bem-estar” civil depois da Segunda Guerra. Genericamente, ela pretendia despolitizar o processo decisório por meio de decisões “puramente técnicas”. Ou seja, essa organização se propunha a funcionar como um intermediário e, desta forma, desresponsabilizar o Estado das decisões públicas. Para tal, ela vendia a imagem de ser uma instituição independente, neutra, composta por “experts” e sem fins ideológicos. Na mesma linha discursiva (e falaciosa), não seria “contaminada” por decisões do governo ou de políticos, pois contava majoritariamente por técnicos, por especialistas. Esse discurso também está presente no Brasil Paralelo, especialmente quando ela própria afirma ser uma “Empresa de mídia independente. Não recebemos nenhum tipo de financiamento de partidos, políticos, movimentos, leis, etc. Desde a fundação da empresa, nunca recebemos e nunca receberemos nem mesmo um real do dinheiro público”.
O fato é que toda empresa que, de certo modo, se aproxima do modelo de corporação, que faz uso da roupagem e discurso semelhante ao da Rand Corporation, passou a ser chamada de think tank. Mas seja como for, uma característica inerente de todas as think tanks é que são sempre rebento genético de quem as financia. Portanto, se uma think tank é financiada pela burguesia, logicamente, ela defenderá os interesses da burguesia. Como já dissemos acima, não existe ciência “desinteressada”, e como diria Mészáros (2014), não existe nenhum tipo de ciência alheia à ideologia, não existe ciência alheia à sociedade. A sentença acima é importante, pois não podemos esquecer que as think tanks evocam o tempo todo o falacioso discurso da neutralidade, imparcialidade e da autoridade objetiva.
Concluindo parcialmente, de forma geral, o conceito “think tank” se refere a organizações institucionalizadas, no sentido de não serem clandestinas, que buscam influenciar políticas públicas e/ou a opinião pública, via criação e/ou produção, bem como, divulgação de materiais “intelectuais” - como textos, artes, vídeos, material audiovisual, panfletos, livros - defendendo valores, em sua maioria, ligados aos interesses da burguesia. Que são, como classe hegemônica, portanto, detentora dos meios de produção e recursos, os principais financiadores dessas produções. Trazendo a discussão para termos práticos, acreditamos que precisamos colocar a seguinte questão: qual o problema de a burguesia financiar uma think tank para que elas façam “pesquisas” / “estudos” e propagarem tais conteúdos e/ou “resultados”? Empiricamente, em nossa visão, há duas implicações. Uma relacionada com a produção do conhecimento/ciência, e outra vinculada ao “fazer política”.
A primeira, no nosso entendimento, significa que tais organizações acabam atuando similarmente como as “Instituições de Ensino Superior”. Porém, diferentemente das faculdades e universidades, os resultados propagados pelas think tank não passam por uma série de filtros e avaliações de pares especializados. Ou seja, não há qualquer avaliação do trabalho dessas empresas feito por uma ou mais pessoas com competências científicas nas áreas de interesses desses “produtos”. Portanto, não estão submetidos às regras e normativas que regem a cultura de pesquisa, seja no Brasil ou no restante do mundo. Dito de outra maneira, as think tank atuam como universidades, principalmente quando tentam criar visão/interpretação de mundo, sem seguir qualquer critério exigido para as universidades. A segunda implicação refere-se ao próprio objetivo de “ser” das think tanks, isso é, uma organização que procura persuadir/nortear as políticas públicas. Muitas vezes, tais intituições acabam atuando como partidos políticos informais. E, nesta condição, não estão sujeitos aos processos eleitorais e muito menos a mecanismos de freios e contrapresos do Estado e do interesse público.
Em suma, uma think tank praticamente não precisa lidar com as consequências da difusão de suas pesquisas. Portanto, se uma dessas instituições publica um trabalho puramente falacioso raramente elas arcarão com as consequências, seja no nível jurídico, político ou qualquer outro. De forma geral, há poucos mecanismos para punir tais organizações. Diferentemente das universidades, cientistas e partidos políticos que são pautados/norteados/fiscalizados por comissões e cômites, órgãos de controle, bancas de julgamentos, pareceres técnicos, leis e normatizações internas e externas (jurídicas e sociais), entre tantas outros procedimentos.
Realizada essa rápida discussão sobre o conceito de think tank, acreditamos que podemos passar para o próximo item deste trabalho. Isso é, analisar o episódio “A Cruz e Espada” do documentário “A Última Cruzada”, criado pela empresa Brasil Paralelo.
A “Cruz e a Espada”, como releitura de passado e de projeto de futuro
De imediato chamo atenção aqui para a “forma” de apresentação desses produtos e conteúdo. Tais construções claramente são pensadas estrategicamente para terem impacto “positivo”, ou seja, criados para potencializar a recepção, engajamento e a difusão de seus materiais. Nesse sentido, tanto o título do documentário, “A Última Cruzada”, bem como do episódio, “A Cruz e a Espada” não são aleatórios. Um bom exemplo é a própria propaganda desse documentário, disponível na própria página da Brasil Paralelo,3 em que temos o reforço da narrativa de que há uma história paralela, não contada, escamoteada, e que eles, a empresa, vão descortiná-la, afinal, trata-se da “maior produção histórica sobre o Brasil, que a TV e a escola não contam”.
Em termos de visualizações, o documentário, produzido em 2017 e lançado no YouTube pela tkink tank Brasil Paralelo, tem números muito expressivos. O episódio mais assistido, intitulado “Independência ou Morte” (capítulo 4), teve em dezembro de 2023 mais de 5 milhões de visualizações.4 O episódio “A Cruz e a Espada” (episódio 1), o segundo em termos de visibilidade, tem na mesma data 4,2 milhões de visualizações.5 O canal da empresa conta, em dezembro de 2023, com mais de 3,6 milhões de inscritos. Segundo uma reportagem da revisa Exame a empresa Brasil Paralelo ultrapassou a número de 500 mil assinantes e fechou o ano de 2022 com mais de R$ 150 milhões de faturamento.6 O tamanho do canal e a quantidade de visualizações é mais um indício a se considerar, com ressalvas, sobre a força social que essas ideias têm, não apenas com a população que se considera de direita no Brasil.
Mas qual seria essa ressalva? Não estamos lidando com números brutos? Sim e não! Afinal, sabemos que existe uma “indústria de falsificações” (da história), nesse caso, devemos ter relativa desconfiança ao considerarmos apenas os índices de visualizações e inscrições, pois, no mercado dos bens simbólicos da internet é conhecida a prática de “comprar cliques, visualizações e inscrições”. O que não significa necessariamente que seja o caso da Brasil Paralelo e do episódio em questão.
O episódio inaugural do documentário, como dissemos acima, se intitula “A Cruz a Espada". Esse capítulo, em termos de tempo, tem pouco mais de 51 minutos de duração e, em termos de conteúdo, se propõe a exibir uma suscinta história da dita civilização ocidental, a partir do recorte histórico conhecido como ldade Média. Para tormar mais claro, o viéis eurocêntrico, cito o discurso presente no episódio, segue a seguinte passagem: “Quando vivemos nosso dia a dia, no século XXI, desfrutamos desse legado: a filosofia grega, o direito romano, a moral judaíco-cristã e a experiência acumulada de nossos ancestrais fazem parte de nós. Essa é a herança que chamamos de Civilização Ocidental” (Brasil Paralelo, 2017, 9m08s a 9m28s.)
A ideia de “civilização ocidental” se configurou como uma narrativa orientada a legitimação de processos históricos e políticos, como o imperialismo, de países hegemônicos, especialmente os localizados na Europa. De forma geral, o episódio direciona maior parte do tempo para “discutir” o conflito que opôs Cristãos e Muçulmanos na Península Ibérica entre os séculos VIII e XV. O discurso presente no “documentário” é carregado de tons islamofóbicos, como o que se segue:
No dia 10 de outubro de 732, milhares de soldados estavam na linha de frente de uma ‘Guerra Santa”. Foi na Batalha de Poitiers que Carlos Martel fez lembrar os antigos espartanos na sua resistência e coragem saindo vitorioso. Para a maior parte dos historiadores, essa era a última chance de resistência do Ocidente. A vitória significava um suspiro de esperança para os inimigos do islã. (Brasil Paralelo, 2017, 14m19s a 15m00s ).
Também se destaca negativamente a narrativa ultrapassada e deveras superestimada do que fora realmente a Batalha de Poitiers. O discurso desse episódio reitera a ideia de que essa batalha emblemou, no imaginário social europeu mediterrâneo, o suposto triunfo da “cristandade” contra o inimigo Islã. Aqui os islâmicos são classificados como antagônicos em tudo ao que se relaciona a ideia de Ocidente. Lembramos que essa versão “eurocentrada” tem sido contestada por diversos autores, entre eles citamos o trabalho de David Levering Lewis (2010). Nessa segunda versão, tal campanha que viria a aproximar-se de Tours, não é entendida como uma empreitada militar que visava à conquista, mas a rapina. Dito de outro modo, as tropas mobilizadas estavam mais motivadas a invadir, pilhar e retornar. Esse tipo de investida é substancialmente menos oneroso e mais rentável. A narrativa menos ufanista já tem sido adota e propagada até em grandes manuais, como o “A Civilização Feudal” de Jerôme Baschet (2006, p. 51):
A expansão muçulmana submerge a Península Ibérica e põe fim ao reino visigótico em 711, enquanto bandos armados muçulmanos avançam até o centro da Gália com a intenção de pilhar Tours, até serem vencidos em Poitiers, em 732, pelo chefe franco Carlos Martel, o que os obriga a bater em retirada para além dos Pireneus.
É muito interessante destacarmos que o narrador do documentário usa a palavra “inimigo do islã” em seu enunciado. Mas, para além da islamofobia, também é muito presente no discurso, em sentido contrário, à exaltação da função desempenhada pelos cavaleiros templários no curso da história da Europa e de Portugal, com destaque para os processos convencionalmente conhecidos como Reconquista e Grandes Navegações. Vamos a mais uma passagem do episódio, agora destacando a idealização do papel dos cavaleiros:
Com a Terra Santa reconquistada, surgiram massas de peregrinos marchando em busca da paz espiritual, mas o caminho até Jerusalém era para poucos. Além de frequentes assaltos, havia constantes ataques de exércitos muçulmanos ao longo do percurso [...] Para proteger os cristãos nessa jornada, começaram a se formar diversas ordens militares para acompanhá-los na viagem. [...] Ao serem adimtidos como cavaleiros, deveriam jurar viver em castidade e pobreza. Ser obediente ao mestre do templo e nunca recuar em campo de batalha. (Brasil Paralelo, 2017, 20m31s a 21m50s).
Sobre o conceito de “Reconquista”, ela, como qualquer outra, porta tanto peso historiográfico como usos políticos e ideológicos desse termo. A sua utilização - ou recusa - tem atualmente apontado opções de abordagem teórica e metodológica nas pesquisas que se dedicam a estudar os mais diversos ângulos desse episódio que envolveu o confronto entre Cristandade e Islão peninsulares durante a Idade Média. Aqui destacamos o trabalho de Diego Vicente Sánches (2023) que mostra como o passado medieval ibérico, notadamente a “Reconquista” e as “Cruzadas”, foram politicamente usadas para legitimar o franquismo (1939-1975), na Espanha. Dito de outra forma, o regime, utilizou de forma marcante e com fins políticos alguns dos mitos, personagens e acontecimentos medievais num sentido propagandístico, com fins de obter legitimidade social, especialmetne nos anos iniciais do governo.
As Cruzadas também são tratadas no episódio “A Cruz e a Espada”. Para conferir maior “credibilidade”, a think tank Brasil Paralelo “convoca” para tecer alguns comentários sobre essas investidas cristãs um dos principais “intelectuais” da nova direita: Olavo de Carvalho. Segundo ele: “as Cruzadas foram uma resposta parcial e tardia à maior agressão imperialista que a Europa já havia sofrido. Vejam que nem os romanos fizeram tanta devastação quantos os muçulmanos fizeram” (Brasil Paralelo, 2017, 18m58s a 19m09s). Para variar, um pouco mais de intolerância religiosa.
Sobre a fundação do estado português temos mais uma vez a narrativa “heróica” dos cavaleiros templários diante do bárbaro/mouro. Conforme o narrador do “documentário”: “Segundo os documentos da época [quais documentos?], foi nesse momento que o comandante Afonso Henriques jura ter tido uma visão no qual Cristo aparece e profetiza sua vitória [sobre os mouros]. Entregando a missão de espalhar a fé pelos quatro cantos do mundo. Afonso Henriques venceu a batalha e foi aclamado primeiro rei de Portugal” (Brasil Paralelo, 2017, 23m04s a 23m22s).
Os produtores constatemente sublinham que a invação portuguesa na América e, por extensão a exploração colonial, “enraizaram” no Brasil o legado europeu como a natureza mais profunda de nosso país, unindo a vindoura nação à história da Europa medieval. Para dar força ao argumento, trazemos a passagem a seguir:
A história merece ser contada pela sorte, pela providência, pela virtude ou por todas elas. Chegamos até aqui. Nossa trajetória tem nome. E cada vez que olhamos para trás, lembramos de cada personagem que construiu o palco de nossas vidas. Temos a oportunidade de escolher nossas referências, apreender com nossos erros e elevar nossa moral. [...] A preservação desse lugar cabe a nós, não podemos deixar que roubem [grifo nosso] os degraus da nossa civilização. Sempre que estivermos perdidos e sem saber para onde ir, eles estarão lá de braços abertos para nos contar tudo que sacrficaram para dar um passo para além do que era possível. Não se trata apenas de não esquecermos de onde viemos, se trata de não esquecermos para onde estamos indo. (Brasil Paralelo, 2017, 48m:28s a 49m57s).
Nessa passagem destacamos, logo de início, que entre tantos motivos que podem ser listados para se escrever a história, o Brasil Paralelo preferiu não mencionar a necessidade da ciência e do conhecimento humano. Também é nítido que eles retormam a tradição historiográfica da Antiguidade Clássica e da Modernidade em que se vincula a história como Magistra Vitae, isto é, a história como história utilidade, verdade e exemplo (Momigliano, 1972; Bastos Marques, 2013). Também se percebe a narrativa de que a “verdadeira” história está em perigo ou sendo roubada por qualquer um que não se enquadre no espectro ideológico propagado pela extrema direita. E, por fim, a ideia de que podemos encontrar na história de Portugal um lugar seguro, uma referência, a “nossa civilização”. Afinal, serão eles o Norte que nos balizam tanto no passado como no futuro. Retomaremos o projeto de futuro mais à frente.
Tal assertiva abre inúmeras reflexões. A começar pela compartimentação da história, da mesma maneira que a intelligentsia europeia havia feito no século XVII, quando dividiram a história em Antiga, Idade Média e Moderna. Tal concepção - a compartimentação da história - se mantém viva em nossos dias, como as representações iluministas da Idade Média, como um período estático e fechado. Ainda que devamos reconhecer, como bem nos lembra Christian Amalvi (2017, p. 599), que, “A Idade Média não existe. Esse episódio de quase mil anos (...) é uma fabricação, uma construção, um mito, quer dizer, um conjunto de representações e de imagens em perpétuo movimento, amplamente difundidas na sociedade, de geração em geração”.
Esses pré-conceitos, amplamente generalizados na formação social, para além de difundirem mormente a ideia de Idade Média como um período marcado pelas “Trevas em oposição à luz. Como uma ruptura entre a “áurea” Antiguidade greco-romana e a razão progressista e cientificista” (Silveira, 2019, p. 213), também reforçam a concepção de que a Idade Média está circunscrita ao “universo” geográfico da Europa (leia-se, o que hoje chamamos de Itália, França, Inglaterra, Alemanha e pinceladas de Espanha e Portugal), ao mundo étnico do quase exclusivismo de brancos e, do pondo de vista do âmbito religioso, restrito ao mundo cristão latino. Tais críticas não são novas. Um exemplo são as denúncias que Alain De Libera (1998, p. 12) fez sobre os historiadores da filosofia medieval, na década de 1990:
(...) como se o historiador adotasse espontaneamente, a respeito dos romanos do Oriente, o ponto de vista de um romano do Ocidente (...) No fundo, a visão de Idade Média confunde-se com o que é chamado de “Ocidente Cristão”, ela está nela centrado, e o que não é, simultaneamente, ocidental e cristão é posto à margem, considerado apêndice exótico, sem legitimidade própria. O fenômeno tem duas consequências perversas: a dificuldade de admitir os cristãos orientais e a igual dificuldade em aceitar os ocidentais não cristãos. Dessa forma, a Idade Média é confiscada em proveito de um só grupo: os ocidentais cristãos ou cristãos ocidentais.
Com essa crítica em mente, evidencia-se atualmente inúmeros intelectuais e vertentes historiográficas, como a História Global, tanto no nível nacional como internacional, que procuram entender o período conhecido como Idade Média, não como um locus fechado em múltiplas variáveis, mas a partir da interação entre Europa, África e Ásia. Dito de outra forma, com perspectivas que procuram compreender o espaço afroeuroasiático: “como integrado e conectado em sua diversidade, onde integrado significa que só seria possível compreender amplamente um fenômeno histórico de uma região, quando se tivesse em perspectiva as interações, conectividades e interdependência entre as demais regiões (Silveira, 2019, p. 213).
Descolonizar a Idade Média no imaginário social não tem sido uma tarefa fácil. Afinal, trata-se de um duplo processo que envolve tanto o mundo acadêmico como o da cultura popular: primeiro, o de despir a roupagem eurocentrada para, concomitantemente, trajá-la com uma vestimenta mais adequada, isso é, reintegrá-la à história do mundo; e, segundo, trazer essa abordagem tanto para o campo do ensino formal de história7 como para os conteúdos ligados à cultura popular (literatura, filmes, quadrinhos, documentários, etc).
E mais, ainda devemos considerar, como aponta Hellen Young (2017), que existem indícios que abalizam que a maioria das pessoas tecem sua visão sobre o período medieval, principalmente, pelas narrativas e imagens presentes na cultura popular. Acreditamos que seja pertinente ressaltar que não usamos o conceito de “cultura popular” nesse trabalho sob a ótica da antítese da “cultura erudita”. Assim sendo, concordamos com Petrônio Domingues (2011, p. 403-404) que afirma:
Na visão tradicional, cultura popular consiste em todos os valores materiais e simbólicos (música, dança, festas, literatura, arte, moda, culinária, religião, lendas, superstições etc) produzidos pelos extratos inferiores, pelas camadas iletradas e mais baixas da sociedade, ao passo que cultura erudita (ou de elite) é aquela produzida pelos extratos superiores ou pelas camadas letradas, cultas e dotadas de saber ilustrado. No entanto, esta divisão rigorosa não se confirma empiricamente, pelo menos é o que as pesquisas no terreno da história cultural, antropologia, sociologia e teoria literária vêm demonstrando ultimamente.
Portanto, partimos da concepção da impossibilidade de se estabelecer uma fronteira entre cultura popular e cultura de elite de forma clara, estática, imutável e polarizada. Ao contrário, ambas as formas culturais se interagem, isso é, exercem ação e influências recíprocas e; sobretudo, são polissêmicas, alteráveis, manifestadas por mediações, atualizadas e reatualizadas em cada contingência histórica específica. Para além de enfatizar que tanto o ambiente escolar como os inúmeros livros e artigos produzidos por especialistas tem peso menor na concepção compartilhada pelo senso comum sobre a Idade Média europeia, como afirma Mário Bastos (2020, p. 445), estes produtos comumente idealizam uma representação distorcida de Idade Média, como por exemplo em um espaço em que praticamente só existissem pessoas que são branco(a)s.
Essa construção ficcional de uma “Idade Média europeia branca”, retomando os apontamentos de Hellen Yong, é produto de um árduo trabalho da intelligentsia europeia do século XVIII e XIX, como a obra “The Reliques of Ancient English Poetry”, de Thomas Percy. Portanto, o embranquecimento medieval foi edificado em um presente europeu de afirmação de identidades nacionais e de corrida imperialista, portanto, tal concepção racial sobre a Idade Média (ainda muito presente no imaginário social) serviu a interesses políticos e econômicos: “Uma vez que a ideia de raça foi amplamente aceita, a Idade Média europeia precisava ser entendida como um território “exclusivo para brancos” para que essas “raças” pudessem ter a origem “pura” que elas precisavam” (Yong, 2017).
Dessa forma, quando a think tank Brasil Paralelo, via o episódio “A Cruz e a Espada”, em um contexto em que a esquerda, dita progressista, estava em baixa - basta lembrarmos da força do antipetismo nas eleições de 2018 -, esforça-se para apresentar a ldade Media europeia como o “verdadeiro” passado de nosso país, ela, e como vimos não há produto sem ideologia, acaba reforçando o embranquecimento de nossa própria história e, por extensão, justificando no presente e tentando perenizar no futuro, uma vez que estes tempos estão profundamente conectados com o passado (Koselleck, 2006), a crueldade de discursos e ações políticas, notadamente (mas não unicamente essas) a continuidade, como aponta Paulo Pachá (2019), de “racismo ativo, misoginia, homofobia e intolerância religiosa”.
Ainda que a Brasil Paralelo tente escamotear essa marca negativa, é notório que o racismo no Brasil é um fenômeno estrutural da nossa formação social, a começar pelo fato de que o Brasil foi o último país das Américas a proscrever no plano formal/jurídico a “abolição” do trabalho escravo, sem embargo, tal deliberação desdobra-se atualmente discussões dos “porques” que a revogação da escravatura não suprimiu todas as formas de opressão e violência contra a população negra no país. Aqui trazemos a baila o trabalho de Murilo Cleto (2021), que estuda como a temática da escravidão é tratada no cojunto de capítulos da série “Brasil: a última Cruzada”. Esse autor afirma que nas mais de seis horas de exibição, a think tank não faz nenhuma referência à desumanidade gerada pela escravidão no território nacional. Se esse dado não fosse suficente, o supracitado autor ainda continua.
Mais do que isso, a produção também não se debruça sobre as marcas deixadas pelo labor escravo após a abolição. O objetivo parece simples: tratar a escravidão uma página virada, embora lamentável, da nossa história. No segundo episódio, Bruno Garschagen admite: “Se fala muito de reparação histórica com relação à raça e à etnia [grifo nosso], mas o fundamento da escravidão nunca foi a origem étnica. No Brasil nunca foi”. (Cleto, 2021, p. 11).
Diferentemente do que prega a Brasil Paralelo, o que se assiste no Brasil são pessoas negras ainda experienciando cotidianamente as consequências continuas e nefastas da precarização das condições materiais de vida e trabalho. Ou seja, a perpetuaçao da violação de direitos e garantias que dantes experimentaram e que marcaram a constituição histórica e social da nossa pátria como produto da lógica de funcionamento do modo de produção capitalista. O racismo, longe de ser uma página virada, mantém-se efetiva nas nossas relações sociais. A natureza da exploração racial que durou por mais de três séculos tem sempre sido reeditada e, para além disso, e efetivada na marcante presença da população negra no Brasil nos piores indicadores de bem-estar social. Tal quadro origina-se e derriva-se do racismo que está alicerçado no nosso país como forma de oprimir e coagir à população negra.
Dessa forma, quando trazemos para o primeiro plano a fonte principal desse trabalho, percebemos um incômodo, relativamente velado, dos produtores desse discurso eurocêntrico. Nessa perspectiva o “documentário” analisado nesse texto, ao reforçar a já embranquecida história do Brasil, pode também ser enquadrada como uma “re-ação” as incipientes conquistas, resultado de uma complexa e duradoura a luta, dessa população, seja no campo dos direitos quanto na produção de outras histórias que vem, ainda que lentamente, ganhando espaço no campo historiográfico.
Dito isso, traremos a seguir uma tentativa de atualização dos dados trazidos por Paulo Pachá (2019) no texto “Por que a extrema direita brasileira ama a Idade Média europeia?”. Desse modo, se em 2017, segundo Pachá (2019), 70% dos assassinatos no país vitimizaram a população negra, em 2022, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2023), tal dado foi dilatado para 76,9%. Se em 2017 a população carcerária negra em mais de 60%, em 2022 ela se aproxima dos 70%, para ser mais exato, 68,2% são negros. De igual natureza, a violência de gênero e a misoginia também se apresentam como elementos alarmantes na vida brasileira. Segundo Pachá, o Brasil, em 2017, ocupava a quinta posição no mundo no que tange a mortes violentas de mulheres. Em nossa opinião, o feminicídio representa não mais que a ponta de um imenso iceberg da agressividade contra as mulheres, ou seja, configurando-se apenas como o arremate mais extremado da questão. De acordo com as informações presentes no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2022 houve crescimento de todos os indicadores de violência doméstica quando comparados com os dados de 2021, como veremos a seguir.
As agressões por violência doméstica aumentaram na casa dos 2/9%, total de casos: 245.713. Ameaças às mulheres, houve um crescimento de 7,2%, endo o total de registros 613.529. Chamadas ao 190, ocorreu o acréscimo de 8,7%, total de chamadas 899.485. Esse dado representa uma média de 102 acionamentos por hora do 190. Por fim, os índices relativos ao feminicídio. Esse crime, quando comparado com 2021, foi ampliado em 6,1%, em 2022, totalizando 1.437 denúncias. Um dado adicional, 61,1% das vítimas eram negras. Lembrado que tais referências podem ser ainda maiores, uma vez que muitas mulheres não chegam a formalizar a denúncia aos agressores. Em 83,7% dos casos registrados, o criminoso tem ou teve algum tipo de relacionamento íntimo com a vítima. Essa última porcentagem é assim distribuída: parceiro íntimo (53,6%), ex-companheiros (19,4%) e outros familiares (10,7 %).
E nesse momento, depois de trazer todos esses números, nos parece impossível não fazermos uma crítica a outra produção da Brasil Paralelo, correndo o risco de, mesmo que rapidamente, sairmos da proposta original desse texto. Trata-se do o primeiro episódio da 3ª temporada da série intitulada “Investigação Paralela”, que possuim 1 hora e 24 minutos de duração, e foi lançada em julho de 2023, Nesse episódio, a Brasil Paralelo se propõe, de acordo com seu próprio site, a proporcionar um quadro “completo do caso originário e das consequências da Lei Maria da Penha”.8 Em linhas gerais, trata-se de trazer a versão do agressor da Maria da Penha, o senhor chamado Marco Antônio Heredia Viveros, narrada por vários entrevistados, que naturalmente possuem interesses nessa lei. Mais um indício de que se trata de um discurso reacionário a toda e qualquer conquista de setores subalternos. Nesse caso relacionado à temática de gênero.
Talvez o leitor mais desavisado perguntará: “Por que diabos a Brasil Paralelo está se envolvendo no caso da lei Maria da Penha”? A extrema-direita no Brasil, via discursos e ações das antifeministas e dos conservadores, já algum tempo, provavelmente usando a tática do “balão de ensaio”, tem tentado criar certa repercussão e, por extensão, uma guerra de narrativas em torno da questão da violência doméstica e do feminícidio. Um exemplo desses “testes” preparatórios foi quando o Deputado Estadual do PSL (Partido Social Liberal) de Santa Catarina compartilhou uma foto, reproduzida abaixo (figura 1) com o agressor Marco Antônio Heredia Viveros. Ele também afirmou que a história desse senhor é “intrigante”.

A think tank Brasil Paralelo, como produtora especializada em criar material “intelectual”, financiada principalmente pela extrema-direita e pela burguesia, em conjunto com outras narrativas, procura influenciar seu público a ser favorável a determinadas políticas públicas. Segundo a historiadora Mayara Balestro, em entrevista Revista Fórum, ao responder a questão sobre quem financia essa empresa:
Não há dados que comprovam que eles tenham recebido financiamento das direitas brasileiras, no caso do Instituto Liberal, Mises Brasil ou Millenium. Mas o que acontece? Eles se articulam junto a essas organizações e se projetam enquanto empresa [...] Retomando o início da resposta, não há uma comprovação do quanto recebem desses empresários, mas há, sim, uma operação conjunta em que conseguem se projetar a partir da relação com os empresários e institutos da chamada “nova direita” ultraliberal. Isso se soma uma significativa estratégia de marketing no Facebook, Instagram e no Youtube. Eles investem muito em anúncios nessas plataformas e a partir desses investimentos se projetam nas redes não apenas como uma empresa, mas como um projeto político, orgânico, relacionado diretamente com a direita empresarial. (Balestro, 2022).
Em outras palavras, esse episódio (mas não só ele), provavelmente tem como fim preparar psicologicamente as pessoas para eventuais rupturas em políticas públicas, em especial, aquelas voltadas para as minorias e/ou com tons progressistas. Esses textos, materiais e documentários servem como uma antesala que, a depender da repercussão e adesão da narrativa, podem ou não virar projetos de leis, por exemplo. Portanto, o objetivo dessa guerra de narrativas é, no primeiro plano, tanto preparar psicologicamente como dilatar a base de apoio, para que um número considerável de pessoas consigam “engolir” um eventual projeto que envolva o nome do agressor, que esteja relacionado com supostas falsas denúncias, que alterasse, revogasse ou abolisse a Lei Maria da Penha, ou mesmo a criação de uma lei de “proteção” ao homem, etc. Mas, para não nos perdemos no próposito de nosso texto, voltemos a relacionar o episódio “A Cruz e a Espada” e seus usos políticos com dados que rebatem essa versão ficcional de realidade.
Como dissemos acima, quando os produtores exaltam nosso passado vinculando-à Idade Média, nos deparamos com um projeto de embranquecimento de nossa história. Por extensão, normalizamos o racismo, o patriarcado, a homofobia e a intolerância religiosa. Traremos dados a seguir sobre os dois últimos. De acordo com Paulo Pachá, o Brasil de 2017 se apresentava como um dos países mais inseguros para a população LGBTQIAP+, “com dezenas de assassinatos homofóbicos registrados a cada ano”. Tal realidade infelizmente não mudou. Segundo uma reportagem publicada pela Folha de S. Paulo,9 em 2022 foram registrados 273 mortes violentas de pessoas com orientação LGTBQIAP+. Desses casos, 228 foram assassinatos, 30 suicídios e 15 de causas diversas, como falecimento em decorrência de lesões por agressão. Esse número representa a média de uma morte a cada 32 horas.
Ainda citando a reportagem da Folha de S. Paulo, o inventário desses números, uma vez que não há dados oficiais, foi realizado pelo Observatório de Mortes Violentas contra LGBTI+, em colaboração com a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) e ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexos).
Por fim, porém não menos importante, a questão da intolerância religiosa, que no episódio “A Cruz e a Espada” vem em tons de islamofobia, como por exemplo no trecho a seguir, no qual o narrador afirma que os muçulmanos apos ocuparem boa parte da Península Ibérica:
Os muçulmanos continuaram a conquista para o leste da Europa até se depararem com o Reino Franco. Uma tropa de 50 mil soldados mouros cruzou a fronteira para atacá-los. Era o prenúncio do fim do Ocidente. Carlos Martel, comandante do exército franco, sabia ter nas mãos a história de uma civilização para defender. (Brasil Paralelo, 2017, 13m36s a 14m00s).
No Brasil a maioria das pessoas se identifica com a religião cristã (especialmente a católica e evangélica), mas, evidentemente, existe uma abundante heterogeneidade de práticas espirituais. Subscrevendo Paulo Pachá (2019), que afirmava que em 2017: 1) a discriminação religiosa tem se intensificado nas úlitmas décadas; e, 2) o grupo religioso que mais sofre com o preconceito religioso no país são os prosélitos das religõoes afro-brasileiras. Sobre a intolerância no Brasil de 2022, sublinhamos, conforme publicado pela BBC, que a quantidade de denúncias de perseguição religiosa aumentou 106%, em somente um ano. Em números: galgou os 583 registros em 2021, para 1,2 mil em 2022. Isso representa uma média de três denúncias por dia. A maioria delas foi realizada por adeptos de religiões afro-brasileiras, como a umbanda e o candomblé. Um último dado, retirado do site BBC News:10 seis em cada dez vítimas são mulheres.
Edson Teles (2018, p. 67), no texto “A produção do inimigo e a insistência do Brasil violento e de exceção”, em que trata da militarização da política e da vida, tão evidente a partir do momento em que a extrema direita ocupou importantes espaços políticos, acredita que em “certos regimes de produção de subjetividades binárias e antagônicas, aliados às condições históricas de dominação, implicam fortalecimento e incremento de estratégias e tecnologias de controle social”. Tal assertiva vincula-se em grande medida aos discursos e materiais produzidos e publicados do Brasil Paralelo, como o episódio em análise nesse texto, pois, em face de uma formação social racista, patriarcal e etnocida, que historicamente foi estruturada para beneficiar os grupos hegemônicos, temos experienciado diversas formas de invalidar, infundar ou de desmantelar qualquer ação de resistência.
É nesse ambiente, carregado de contradições, que a think tank Brasil Paralelo especialmente no episódio “A Cruz e a Espada”, promove, em uma área historicamente fecundante, uma “exegese” ficcional sobre a Idade Média europeia, com o locus exclusivo da branquitude, patriarcalismo e cristandade. “Valores” que são, em grande medida, apontandos pela extrema direita com marcas indeléveis da “cultura ocidental”. Dessa forma, ao sublinhar o vínculo entre Brasil e Portugal, a Brasil Paralelo procura suprimir não só a relevância histórica dos povos originários e africanos na formação e composição do nosso país, como também, ao mobilizar um discurso reacionário contra as pautas desses movimentos sociais, principalmente ao, implicitamente desmerecer as incontáveis contribuicões desses grupos em todos os âmbitos de nossa realidade.
Nesse pretérito idealizado pelo episódio “A Cruz e a Espada”, Portugal nos é apresentado como a “patria mãe” que legou ao povo brasileiro uma língua, uma religião e uma cultura europeia e não como uma metrópole colonial longínqua, invasora e exploradora de nossas riquezas, se aproximando do projeto historiográfico de Von Martius e do IHGB (Reis, 2007). Em diversas passagens o “documentário” trabalha com a ideia, já descontruída historiograficamente, de “descobrimento”: Dessa Ínclita Geração ia nascer o Império dos Descobrimentos” (Brasil Paralelo, 2017, 32m16s a 32m21s).
Gilberto Freyre (1997), notoriamente em “Casa Grande e Senzala”, mas não apenas nesse clássico da historiografia nacional, defendeu que no Brasil havia a existência de uma “democracia racial”. Em outras palavras, esse intelectual da primeira metade do século XX, acreditava que a miscigenação em nosso território teria criado um povo mais forte e, por extensão, com capacidade para maior desenvolvimento. A principal crítica a essa tese freiriana é que ela ajuiza a existência de um vínculo cordial entre senhores e escravos no nosso passado colonial. Como destaca Paulo Pachá (2019), “Na versão de extrema-direita da história, estamos de volta a uma visão ante-freiriana: um passado limpo e branco para o Brasil”.
Defendemos a hipótese de que o objetivo dos produtores da think tank Brasil Paralelo ao ficcionarem essa versão de Idade Média europeia não seja unicamente reeditar o passado. Como já dissemos acima, passado, presente e futuro estão interligados. Dessa forma, ao tentar propagar uma determinada história do Brasil, norteando nossos laços com uma construção idealizada de Europa, como espaço por excelência de uma sociedade branca, patriarcal, cristã...., também é, simultanemante, uma forma de fazer pressão para um projeto particular de futuro ultraconservador. Recorremos aqui ao slogan do livro “1984”, de George Orwell (2009, p. 49), quando ele afirma que “Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”.
Mas que projeto de futuro seria esse? Na nossa visão, o ex-presidente Jair Bolsonaro, um dos principais nomes da extrema direita brasileira, responde a essa questão quando, na cidade de Campina Grande (PB), em 2017, afirma: “Vamos construir um Brasil para as maiorias! Minorias devem se curvar para as maiorias! A lei deve existir para defender maiorias! Minorias devem se adaptar ou simplesmente desaparecer”.11
Declarações e ações desse tipo foram uma constante nos 4 anos de governo desse presidente (2019 a 2022). Já como presidente, em encontro com um grupo de evangélicos em Juiz de Fora (MG), em 2022, Bolsonaro reiterou que: “Outro dia falei que a mãe quer que o Joãozinho continue Joãozinho. “Ah declaração homofóbica”. Meu Deus do céu. Para onde nós iremos cedendo às minorias? As leis existem, no meu entender, para proteger as maiorias. As minorias têm que se adequar”.12
Em consonância com Paulo Pachá (2019), entendemos que o programa político da extrema direita no Brasil, ao qual à think tank Brasil Paralelo é um dos braços “intelectuais” e “propagandísticos”, tem entre seus objetivos erigir um país no qual “o cristianismo conservador desfrute de um domínio incontestado, a família patriarcal seja a sede do autoritarismo doméstico e o racismo, a homofobia, a misoginia e a intolerância religiosa estejam codificados na vida cotidiana”. Portanto, ao propagar uma versão ficcional de Idade Média europeia como pura e branca, pré-conceitos que já estavam presentes e difundidos no senso comum muito antes do lançamento do episódio em questão, entrevemos um reforço de boa parte dos preceitos basilares que estruturam os discursos e ações da extrema direita brasileira.
É importante, antes de finalizarmos o texto, fazermos duas pontuações. A primeira, de que os usos políticos da ldade Média pela extrema direita, no tempo presente, tem se apresentado como um problema global, não restrito apenas ao Brasil (Pereira; Giacomoni, 2019). A segunda, não acreditamos que seja o objetivo da extrema direita, especificamente quando analisamos o episódio “A Cruz e a Espada” da Brasil Paralelo, “tornar o Brasil medieval de novo”. Ao contrário, acreditamos, como hipótese, que essa construção imaginada de Idade Média europeia seja um recurso para evocar a ideia de um passado idealizado, mas que viabilize subsídios para um eventual e determinado projeto de futuro.
Há muito trabalho a ser empreendido pela medievalística brasileira tanto dentro como fora do mundo acadêmico. Isso é, defendemos que nossa área, seja na docência, na pesquisa e nas ações de extensão se coloquem no debate e passem a construir narrativas que se oponham a determinados usos políticos do período medieval mobilizados pela extrema direita e seus braços operacionais, como a Brasil Paralelo.
Há várias alternativas sendo pensadas e discutidas no meio acadêmico hodiernamente, entre elas destacamos a Idade Média “global”. Essa perspectiva procura entender a Idade Média em sentido ampliado, rompendo com o recorte geográfico, étnico e religioso vinculados a uma visão particular e enviesada de Europa Ocidental; dessa forma, essa concepção historiográfica enfatiza as reais complexidades de um universo que sempre foi “multiétnico e polireligioso, com sujeitos ativos de diversos gêneros” (Pachá, 2019). Nós precisamos avançar nessa direção, cobrando que tais discussões acadêmicas saíam dos muros das universidades e cheguem com maior rapidez na educação básica e nos discursos e produções dos criadores de cultura pop. Precisamos potencializar a consciência histórica de que existem outras versões de Idade Média que não estejam mergulhadas nas concepções racistas, eurocêntricas, de “Idade das Trevas”....criadas e difundidas entre os séculos XVII ao XX. Fica-nos o desafio/convite: A Idade Média foi tornada exclusivamente como branca, cristã, patriarcal e europeia, mas ela não precisa conservar-se dessa maneira.
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Notes
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