Reflexões e tendências
Estrutura e redação de artigos em contabilidade e organizações
Writing and structuring articles in accounting and organizations
Estrutura e redação de artigos em contabilidade e organizações
Revista de Contabilidade e Organizações, vol. 11, núm. 31, pp. 4-10, 2017
Universidade de São Paulo
No período em que atuei como Editor-Chefe da Revista de Contabilidade e Organizações (RCO), quando realizei a avaliação editorial de centenas de artigos, algo que me chamou a atenção foi a presença constante de alguns elementos na correspondência em que os autores eram informados da rejeição do seu artigo. Praticamente todas as correspondências mencionavam que o texto não apresentava explicitamente as contribuições da pesquisa desenvolvida; que o artigo não dialogava com estudos anteriores recentemente publicados em periódicos; e que a qualidade da redação estava inaceitável.
Tal situação parece se repetir em outros periódicos. Falhas em demonstrar a contribuição do artigo, erros no uso da língua Inglesa e baixa qualidade da redação e da apresentação foram sugeridas como as principais razões para um periódico declinar a publicação de um artigo (de Villiers & Dumay, 2014). Stout, Rebele e Howard (2006) destacam que a rejeição de um artigo submetido ocorre quando a motivação é fraca, o desenho de pesquisa é inadequado e/ou contribuição é insignificante para o conhecimento. Os autores chamam a atenção para o fato de que a baixa qualidade da redação é uma causa secundária de rejeição de artigos.
Reuber e Sharma (2013) também observaram que editores e revisores frequentemente se frustram por ver ideias interessantes desperdiçadas, porque os autores nem sempre estruturam o texto de modo a apresentar suas ideias da melhor forma possível. As autoras argumentam que, apesar da expectativa de que um artigo apresente ideias novas, sua linguagem, estilo e organização devem se conformar ao formato no qual os revisores estão familiarizados.
Deste modo, apresento aqui algumas sugestões, embasadas na literatura e na experiência adquirida como autor, avaliador e editor de periódico, para autores que buscam melhorar suas habilidades de escrita de artigos científicos.
As sugestões devem ser encaradas como orientações gerais, e não como regras ou fórmulas, e são apresentadas seguindo a ordem da estrutura comumente encontrada em artigos científicos, ou seja, começo pela seção de introdução, depois abordo o desenvolvimento, que inclui a seção teórica, de métodos e de resultados e, subsequentemente, a conclusão. Ofereço breves comentários a respeito da seção de referências também. Finalizo com considerações a respeito do processo de elaboração e redação de artigos.
A SEÇÃO DE INTRODUÇÃO
Em uma das submissões que fiz a um periódico internacional, recebi o seguinte feedback do editor sobre o artigo que enviei:
The introduction does not motivate the paper well. Try to focus on a standard four paragraph, two page introduction. In the first paragraph, please describe what we already know. In the second paragraph, please outline the gap in the literature. In the third paragraph describe how you will close the gap and add to the current knowledge. Lastly, conclude with your contributions.
Conforme destacado pelo editor, a seção de introdução em um artigo deve motivar o leitor a continuar com a leitura do restante do texto. O autor deve sempre presumir que o leitor é uma pessoa com elevada capacidade crítica, e que precisa se decidir entre ler o seu artigo ou outro mais relevante, para ele leitor, dentre as dezenas de milhares de artigos disponíveis. Assim, o autor precisa apresentar, na introdução, uma síntese do conteúdo principal do artigo, de uma maneira lógica e ao mesmo tempo agradável de ler. Um aspecto fundamental é explicar ao leitor as contribuições oferecidas pelo artigo. Não basta afirmar que o artigo traz contribuições. É preciso enunciá-las e explicar a sua importância.
Os quatro parágrafos sugeridos na avaliação do citado editor podem incluir o seguinte conteúdo:
Apresentação do fenômeno de interesse e do contexto em que ele surge;
Apresentação sucinta dos estudos anteriores, nacionais e internacionais;
As lacunas identificadas a partir dos estudos anteriores;
O(s) objetivo(s) da pesquisa desenvolvida;
A teoria escolhida para embasar a análise;
As contribuições oferecidas pela pesquisa;
A estratégia de pesquisa;
Os principais resultados.
Mesmo que o autor decida usar mais do que quatro parágrafos para estruturar a sua introdução, é importante observar que raramente a introdução de artigos de periódicos é subdividida em tópicos. O usual é desenvolver os temas em texto corrido, para favorecer a fluidez da leitura.
Em outras palavras, o autor começa o diálogo com o leitor apresentando seu fenômeno de pesquisa e o contexto em que ele ocorre. Depois, apresenta uma síntese dos estudos anteriores e aponta as lacunas no conhecimento atual sobre o fenômeno, destacando as oportunidades de pesquisa. Ressalto que tal síntese deve ser construída a partir da análise de artigos recentes, dos últimos cinco anos, que tenham sido publicados em periódicos relevantes (Huff, 1999). Há pouco espaço para uso de trabalhos de congressos, dissertações de mestrado, teses de doutorado e até mesmo livros nas citações que embasam a motivação da pesquisa. Tendo apresentado uma ou duas lacunas relevantes e explicado ao leitor a importância delas, o autor prossegue declarando o objetivo que foi perseguido no artigo.
A justificativa para a existência de qualquer pesquisa é a contribuição ao conhecimento que a mesma oferece. Assim, em um artigo o leitor espera que os autores demonstrem claramente que seus resultados constituem um avanço teórico e/ou metodológico em relação ao que se sabe a respeito do fenômeno. Para conseguir isso o autor pode, na segunda metade da introdução, redigir um texto mesclando elementos teóricos, metodológicos e os resultados da pesquisa, de modo que fique clara a originalidade do manuscrito. Como as contribuições derivam de escolhas teóricas e metodológicas que viabilizaram a produção de conhecimento novo, alguns autores escolhem apresentar ao leitor a teoria e os aspectos metodológicos antes de enunciar as contribuições. Usualmente, também se espera que o autor compare seus resultados e suas contribuições em relação ao conhecimento mais recente existente sobre o fenômeno.
Em síntese, os aspectos importantes da seção de introdução são:
Estabelecer um diálogo, uma conversa, entre o artigo que você está escrevendo e três ou quatro artigos recentes sobre o fenômeno, que tenham sido publicados em periódicos relevantes nos últimos cinco anos;
Apresentar duas ou três contribuições do artigo que interessariam aos autores dos artigos recentes que você escolheu dialogar;
Ancorar as contribuições nas escolhas teóricas e metodológicas realizadas.
A introdução é uma síntese de todo o trabalho, à exceção da conclusão. Por este motivo, de Villiers e Dumay (2013) recomendam que os autores deixem para escrever a introdução apenas no final, logo antes de escrever o resumo.
É importante também lembrar a necessidade de concisão. O texto da introdução, contendo todos os elementos sugeridos aqui, preferencialmente deve ser sintético e utilizar entre 1.000 e 1.200 palavras. Entretanto, dependendo do número de palavras que o periódico permite aos autores, pode ser necessária uma concisão ainda maior.
A SEÇÃO DE DESENVOLVIMENTO
A seção de desenvolvimento é usualmente composta pela apresentação dos estudos anteriores e das lacunas identificadas no conhecimento a respeito do fenômeno, e pelo desenvolvimento de hipóteses, se o estudo busca desvendar relações de causa e efeito. Se o estudo for interpretativista e baseado em pesquisa qualitativa, ao invés de apresentar hipóteses a seção de desenvolvimento estabelece o quadro teórico, além de apresentar os estudos anteriores e as lacunas.
É importante investir tempo na definição dos títulos das seções e da ordem com que as informações serão apresentadas no texto. Provavelmente, será preciso fazer várias tentativas de organização na apresentação dos estudos anteriores e da fundamentação teórica, e sugiro que o autor procure se colocar no lugar do leitor para decidir qual estrutura é mais apropriada para construir a base que fundamenta seu argumento. Para se colocar no lugar do leitor, uma sugestão é fazer a leitura do próprio texto bem devagar, quase palavra por palavra, de modo que fique evidente a construção do argumento.
Em estudos positivistas, nos quais se busca desvendar as causas da ocorrência do fenômeno, frequentemente, se espera que o autor apresente a teoria escolhida para fundamentar o estudo. Pode-se iniciar com um breve contexto histórico, com a apresentação de trabalhos teóricos seminais que definiram as premissas, os principais conceitos e as conexões causais entre eles. Se for pertinente, trabalhos recentes envolvendo extensões da teoria podem também ser incluídos na argumentação.
Entretanto, os autores devem ficar atentos ao estilo do periódico a que pretendem submeter seu artigo. Por exemplo, nos três periódicos de contabilidade de maior reputação dos Estados Unidos que são: Journal of Accounting and Economics, Journal of Accounting Research e The Accounting Review, é comum que os artigos passem diretamente da introdução para o desenvolvimento de hipóteses, especialmente quando o artigo usa a teoria da agência (de Villiers & Dumay, 2014). O mesmo não ocorre em periódicos de contabilidade mais generalistas e de outros países, nos quais os artigos tendem a ser mais explícitos e descritivos a respeito da teoria adotada. Ou seja, os autores usualmente apresentam a teoria, discutem sua adequação ao fenômeno e depois desenvolvem as hipóteses, mesclando os estudos anteriores no texto.
Caberá ao autor avaliar se a apresentação da teoria será feita em seção separada dos estudos empíricos anteriores ou não. Complementarmente, cada periódico tende a desenvolver suas próprias preferências de estilo a respeito de qual material será apresentado em cada seção e em qual formato (Reuber & Sharma, 2013). Uma das responsabilidades do autor é se familiarizar com artigos que tenham sido publicados recentemente no periódico a que pretende submeter, e identificar exemplos que o ajudem a se inspirar na organização do seu argumento (Huff, 1999).
Em estudos interpretativistas, com abordagem qualitativa, usualmente os autores estabelecem um quadro teórico que irá guiar a investigação, e tal quadro pode envolver uma ou mais teorias. Uma característica importante, entretanto, é que as teorias usadas em tais estudos sejam abrangentes e flexíveis o suficiente para orientar a investigação, e não determinar o seu curso (Laughlin, 1991).
Diferentemente dos estudos positivistas - cujas hipóteses guiam a coleta de dados, a operacionalização das variáveis e a escolha das técnicas de análise -, os estudos com abordagem qualitativa são desenvolvidos com objetivos mais flexíveis, que frequentemente se transformam durante a condução do estudo, conforme a coleta de dados progride.
Apesar das diferenças quanto aos pressupostos ontológicos, epistemológicos e metodológicos que caracterizam as abordagens positivistas, interpretativas e críticas na pesquisa em contabilidade, a estrutura dos artigos é muito similar, independentemente da abordagem selecionada. Ou seja, os artigos interpretativos e críticos também precisam apresentar de modo consistente a teoria que os fundamenta e os estudos anteriores mais relevantes a respeito do fenômeno que é objeto da pesquisa.
A SEÇÃO DE MÉTODOS
Na seção de métodos o autor deve apresentar e justificar a estratégia de pesquisa selecionada. O uso de taxonomias e classificações quanto aos fins, aos procedimentos, entre outras, nada esclarece a respeito do que realmente importa, que é a descrição dos procedimentos de amostragem, das técnicas de coleta de dados e as técnicas de análise empregadas.
Todas as escolhas metodológicas devem ser explicadas, descritas e justificadas quanto à sua pertinência. Falta de clareza, nível insuficiente de detalhes e pouca credibilidade das informações apresentadas na seção de métodos são motivos suficientes para resultar na rejeição de artigos (Reuber & Sharma, 2013).
Como exemplo, vamos supor um artigo que apresenta um estudo quase-experimental, com uso de dados secundários e análise envolvendo regressão com dados em painel. Espera-se que o autor explique como os dados foram coletados e quais os critérios usados na obtenção da amostra. Também é necessário que o autor estabeleça a conexão entre as variáveis operacionalizadas no estudo e os conceitos teóricos. Finalmente, o autor deve explicar os fundamentos da regressão com dados em painel, e discutir sua adequação para o teste das hipóteses desenvolvidas. Além disso, é cada vez mais comum, em periódicos nacionais e internacionais, que os artigos explicitamente abordem o problema da endogeneidade, que leva à necessidade de incluir não apenas variáveis de controle, mas também de usar métodos de estimação adequados para contornar o problema.
As seções da metodologia em um artigo com estratégia quase-experimental, como descrito no parágrafo anterior, poderiam ser intituladas:
Estratégia de pesquisa;
Dados e amostra;
Variáveis selecionadas;
Modelos econométricos
Algumas informações preliminares a respeito da amostra e das variáveis podem ser apresentadas na seção de métodos, como a estatística descritiva e as correlações entre as variáveis. Entretanto, é prudente que o autor analise os artigos recentemente publicados no periódico a que pretende submeter para identificar como e em qual seção do texto os autores usualmente apresentam as estatísticas da amostra.
Uma das dificuldades de escrever a seção de métodos em estudos interpretativistas com abordagem qualitativa é a ausência de um padrão razoavelmente aceito a respeito de como apresentar as informações (Pratt, 2009; Reuber & Sharma, 2013). Usualmente, editores e avaliadores requerem que os autores de estudos qualitativos sejam muito mais claros e detalhistas na explicação dos métodos utilizados (Reay, 2014). O autor de um estudo qualitativo precisa demonstrar que compreende a estratégia e os métodos adotados na pesquisa qualitativa, e que mostre, ao menos parcialmente, como os métodos foram usados para analisar os dados. Ou seja, o autor precisa mostrar como uma determinada estratégia de pesquisa foi executada, como os temas foram identificados, as categorias refinadas, e assim por diante (Reay, 2014).
Na mesma linha, Baxter e Chua (2008) reforçam que o autor de um estudo de campo interpretativista precisa convencer o leitor da autenticidade do estudo. A seção de métodos precisa conter informações capazes de transmitir segurança ao leitor de que o autor efetivamente esteve no campo por tempo suficiente e alcançou uma compreensão profunda do mesmo (Baxter & Chua, 2008).
Uma recomendação oferecida por Pratt (2009) é que, independentemente das orientações ontológicas e epistemológicas que sustentam um estudo qualitativo, o autor deixe claro no texto: (i) se está construindo uma teoria nova ou contribuindo com uma teoria existente; (ii) os critérios para escolha do contexto específico e da unidade de análise; (iii) os critérios de amostragem aplicados para selecionar pessoas, eventos ou casos; e (iv) como o autor alcançou suas conclusões a partir dos dados.
Por fim, cada estratégia de pesquisa tem seus pontos fortes e suas limitações, e usualmente os avaliadores tendem a focar nas últimas (de Villiers & Dumay, 2014). Tal tendência coloca no autor a responsabilidade de explicar as abordagens usadas para lidar com as limitações dos métodos adotados.
Neste sentido, recomendo que antes de realizar a pesquisa seja feita uma análise da literatura recente a respeito do fenômeno, com o objetivo de mapear como artigos publicados em diferentes periódicos lidaram as limitações de cada método, quais informações a respeito são evidenciadas, e quais procedimentos são usualmente adotados. É importante que o texto a ser submetido não destoe negativamente dos artigos recentes pelo nível de rigor adotado nos procedimentos.
A SEÇÃO DE RESULTADOS E DISCUSSÃO
Ao apresentar os resultados de seu estudo, é preciso desenvolver uma discussão a respeito da conexão entre os resultados obtidos e as expectativas teóricas. Independente dos resultados confirmarem ou não as expectativas, é necessário discutir aspectos que fortaleçam a confiança nos resultados, como atendimento das premissas teóricas das técnicas de estimação utilizadas, por exemplo. Testes de robustez com especificações diferentes dos modelos, partição de amostras, entre outras abordagens, têm sido cada vez mais solicitados por avaliadores e editores. Os resultados de tais procedimentos, caso fortaleçam as conclusões do estudo, podem ser apresentados como material suplementar, para evitar o excesso de apresentação de tabelas que pode prejudicar a fluidez da leitura. Entretanto, vale a recomendação de analisar artigos recentes do periódico alvo e avaliar se tal prática é usual.
Na discussão, é importante estabelecer conexões com os resultados de estudos anteriores, destacando as semelhanças e, principalmente, as diferenças observadas. O autor deve ser capaz de oferecer tentativas de explicações plausíveis para os resultados quando estes contrariarem as expectativas teóricas construídas nas hipóteses. Fundamentalmente, é necessário discutir além da significância estatística e da rejeição ou não das hipóteses nulas.
Em estudos interpretativistas e com abordagem qualitativa, além da descrição detalhada é preciso verdadeiramente alcançar e oferecer ao leitor uma interpretação a respeito do fenômeno, articulando descrição e elaboração teórica (Pratt, 2009). Ou seja, os autores precisam estabelecer um diálogo com a teoria e mostrar, por meio da aplicação das técnicas de análise, como a interpretação construída a partir dos dados permite oferecer contribuições à teoria.
Quero ressaltar que o texto de um artigo fica mais interessante quando o foco da discussão recai no significado dos resultados, além da significância estatística dos mesmos, ou da mera apresentação dos trechos selecionados de entrevistas ou documentos. O objetivo principal da discussão é destacar a contribuição teórica da pesquisa desenvolvida, de modo a demonstrar como os resultados da pesquisa preenchem lacunas ou corrigem rumos na pesquisa existente sobre o fenômeno (Reuber & Sharma, 2013).
Outro ponto que merece destaque é que a apresentação dos dados em estudos interpretativistas-qualitativos é um aspecto fundamental para avaliar se a teorização desenvolvida pelo autor é plausível (Pratt, 2009). O equilíbrio entre o desenvolvimento da teoria e a apresentação dos dados é importante, mas, nas versões iniciais do artigo, os autores destes estudos devem dar uma importância um pouco maior para a apresentação de trechos de entrevistas, dos documentos, e das notas de observação, pois isso permite que editores e avaliadores façam sugestões a respeito de como desenvolver a narrativa (Pratt, 2009).
A parte final da seção de análise pode ser usada para discutir as limitações do estudo. Entretanto, a discussão deve deixar claros os pontos fortes do estudo, a despeito das limitações. Reuber e Sharma (2013) destacam que todos os estudos possuem várias limitações, mas usualmente há espaço nos artigos para discutir apenas duas ou três, preferencialmente com uma avaliação do seu provável impacto.
A SEÇÃO DE CONCLUSÃO
Na conclusão os objetivos e procedimentos do estudo são brevemente resgatados. Os resultados são interpretados, mas não devem ser enunciados novamente e sim comparados com a literatura, de preferência sem citações. Em seguida, espera-se que o autor desenvolva uma discussão a respeito de como os achados do estudo trazem implicações para os demais pesquisadores interessados no fenômeno. Não é suficiente sugerir que novos estudos ampliem a amostra ou o período de análise. O autor deve argumentar a respeito do impacto que sua pesquisa traz, em termos das novas oportunidades de pesquisa que se abrem a partir dos resultados alcançados e das contribuições oferecidas.
Recentemente, muitos periódicos também têm solicitado uma discussão sobre as implicações práticas dos estudos submetidos. Neste sentido, é importante que os autores reflitam, desde o início dos projetos, sobre como a sua pesquisa aborda questões da prática e, posteriormente, como os resultados obtidos trazem contribuições para a melhoria da regulação ou das práticas individuais e/ou organizacionais. Em outras palavras, pode ser necessário informar quem potencialmente pode se beneficiar do conhecimento gerado na pesquisa.
AS REFERÊNCIAS
Conforme mencionado anteriormente, a contribuição de uma pesquisa é estabelecida em comparação com a literatura recentemente publicada em periódicos importantes sobre o mesmo fenômeno (Pearson & Sharma, 2015). As citações e referências são, portanto, a conexão entre o estudo em questão e a literatura relevante.
As referências também sinalizam com quem os autores intencionam se engajar no diálogo acadêmico, além da extensão com que esforços de pesquisa foram devotados sobre o fenômeno (Huff, 1999). de Villiers e Dumay (2014) recomendam que sejam citados apenas trabalhos que contribuam para a qualidade do argumento, e que não sejam feitas citações apenas para impressionar. Mais do que fornecer uma lista exaustiva, portanto, a seção de referências sinaliza a respeito da qualidade do diálogo estabelecido no artigo.
Assim, além da checagem obrigatória para assegurar que todas as obras citadas estejam referenciadas e formatadas adequadamente, é importante avaliar se as referências incluem (Pearson & Sharma, 2015): (i) trabalhos originais que são chave para a abordagem teórica adotada; (ii) artigos diretamente relacionados e publicados recentemente em periódicos importantes; (iii) artigos dos principais periódicos da área em que o fenômeno tem sido pesquisado; (iv) um número suficiente de trabalhos que demonstre a profundidade e a amplitude do conhecimento que o autor possui sobre o fenômeno em estudo.
O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO E REDAÇÃO DE ARTIGOS PARA PERIÓDICOS
As sugestões apresentadas nas seções anteriores refletem o fato de que a estrutura de um artigo é razoavelmente constante em diferentes periódicos, sendo composta pelo título, resumo, introdução, referencial teórico e estudos anteriores, métodos, resultados e discussão, conclusão e referências. Um aspecto, que talvez não fique claro para autores inexperientes, é que a atividade acadêmica é um empreendimento coletivo, dialógico, e o texto escrito ocupa um papel central nessa coletividade (Huff, 1999). Assim, apesar da distribuição dos conteúdos do artigo em cada uma das seções ser razoavelmente padronizada, a forma como o texto é organizado dentro de cada seção, a sequência de assuntos, o desenvolvimento do argumento e o encadeamento das ideias, requerem que o autor faça escolhas.
Neste sentido, ao escrever um artigo, o autor não escreve para si, mas para os leitores que fazem parte de uma determinada comunidade. Assim, o autor precisa constantemente se colocar no papel de leitor, de modo a avaliar a pertinência das suas escolhas sobre a apresentação do argumento e das ideias centrais do seu texto. A redação de artigos científicos, mesmo sujeita a um conjunto de regras e padrões, formais e informais, pode ser comparada a um trabalho artesanal. A obtenção de uma publicação em periódico é resultado de dezenas de etapas de revisão, refinamento e polimento do texto. E, provavelmente, a primeira dezena dessas etapas ocorra antes mesmo do texto ser lido por outras pessoas que não o próprio autor.
Pessoalmente, ao me colocar no papel de leitor, durante a escrita dos meus artigos, usualmente preciso refletir por bastante tempo a respeito das seguintes questões: (i) qual é meu argumento central? (ii) como devo ordenar e apresentar as ideias que compõem meu argumento, de modo que o mesmo fique convincente e claro para o leitor? Para ajudar a responder tais questões, eu sigo um processo semelhante ao recomendado por Guthrie, Parker e Gray (2004). Eu começo pela definição dos títulos das subseções do artigo e, para cada subseção, escrevo a sequência de tópicos representando os assuntos e a ordem em que eles irão aparecer no texto.
Depois, reflito sobre o encadeamento do texto das seções e procuro definir o conteúdo, parágrafo por parágrafo, antes de escrever. Por vezes, elaboro figuras ou diagramas que me ajudam a enxergar melhor a sequência das ideias. Ainda assim, as decisões que tomo relativas ao conteúdo e à estrutura do artigo são revistas inúmeras vezes ao longo da redação do artigo. Quando a primeira versão do artigo está finalizada, depois de passar alguns dias afastado do texto, eu volto e o leio calmamente, buscando avaliar a coerência do argumento.
Ainda seguindo Guthrie, Parker e Gray (2004), comparo a introdução e a conclusão, para avaliar se fui bem sucedido ao responder as questões apresentadas, ou se os objetivos estabelecidos foram alcançados satisfatoriamente. Avalio se as limitações do meu argumento foram apresentadas, e se o mesmo ainda permanece robusto. Por fim, reflito se fui capaz de destacar adequadamente a importância dos resultados obtidos e da contribuição oferecida. Depois de várias etapas adicionais de revisão, o artigo provavelmente estará no ponto de ser submetido a um congresso, ou apresentado em um seminário de pesquisa, para obter feedback dos colegas.
Por fim, quero ressaltar a importância de redigir um texto que efetivamente atraia o leitor, que o faça querer continuar a leitura. Neste sentido, Basu (2012) reforça que a pesquisa contábil precisa ser mais acessível aos praticantes, aos leitores interessados que são leigos e aos colegas acadêmicos de outras áreas, e que isso pode ser conseguido tornando os artigos mais curtos e menos impregnados de jargões.
Carr e Voordeckers (2015) lembram que os leitores de artigos não são especialistas em todas as teorias e em todos os métodos, de modo que é importante o texto ser bem estruturado e livre de jargões, para que sua leitura seja acessível a qualquer interessado.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Todo autor, quando submete um artigo a um periódico, busca obter uma resposta positiva de editores e avaliadores. Tal tarefa não é fácil, considerando que as taxas de rejeição de periódicos internacionais importantes situam-se em torno de 90%. O que nem sempre fica claro para os autores, especialmente aqueles que estão no início da carreira acadêmica, é que realizar uma pesquisa de qualidade não é suficiente para ter um artigo publicado em um periódico importante. Claro que uma pesquisa de baixa qualidade dificilmente resultará em um artigo publicado, não importa quão bem escrito esteja. Mas, por mais que a leitura de bons artigos revele a qualidade da pesquisa desenvolvida, ela não permite inferir quanto tempo foi gasto na elaboração do artigo.
No texto apresentado aqui, eu quis enfatizar que é necessário um grande esforço direcionado para que uma boa pesquisa seja comunicada de maneira efetiva. Esforços neste sentido terão o efeito de aumentar significativamente a probabilidade de aceite de um artigo para publicação em um periódico científico relevante para o autor.
A prática da escrita acadêmica é uma habilidade que pode ser desenvolvida ao longo do tempo, como ressalta de Villiers e Dumay (2013). Na verdade, é uma habilidade que precisa ser desenvolvida, pois em geral não é natural e precisa de muito treino até que o jovem pesquisador seja capaz de comunicar seus resultados de pesquisa no formato aceito pelos periódicos, mas ao mesmo tempo com seu estilo próprio. Neste texto, busquei oferecer sugestões, baseadas na experiência e na literatura, com o objetivo de contribuir para tal desenvolvimento.
REFERÊNCIAS
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Baxter, J., & Chua, W.F. (2008). The field researcher as author-writer. Qualitative Research in Accounting & Management, 5(2), p.101-121.
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Autor notes
Autor Correspondente: Tel. (16) 3602-3889. E-mail: marcelosp@usp.br (M. S. Pagliarussi). Universidade de São Paulo. Av. Bandeirantes, 3900 - Monte Alegre, Ribeirão Preto - SP, 4040900, Brasil. UFSC - Campus Reitor João David Ferreira Lima, s/n - Trindade, Florianópolis - SC, 88040-900, Brasil.