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<journal-title>Revista de Sociologia e Pol&#xED;tica</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rev. Sociol. Polit.</abbrev-journal-title></journal-title-group>
<issn pub-type="ppub">0104-4478</issn>
<issn pub-type="epub">1678-9873</issn>
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<publisher-name>Universidade Federal do Paran&#xE1;</publisher-name></publisher>
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<subject>Artigo</subject></subj-group></article-categories>
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<article-title>A arte do encontro: a paradiplomacia e a internacionaliza&#xE7;&#xE3;o das cidades criativas</article-title>
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<trans-title>The Art of Encounter: Paradiplomacy and Internationalization of Creative Cities</trans-title></trans-title-group>
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<name><surname>Jesus</surname><given-names>Diego Santos Vieira de</given-names></name><xref ref-type="aff" rid="aff1"/></contrib>
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<institution content-type="normalized">Escola Superior de Propaganda e Marketing</institution>
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<institution content-type="original">Diego Santos Vieira de Jesus (dvieira@espm.br) &#xE9; Doutor em Rela&#xE7;&#xF5;es Internacionais pela Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e Professor do Programa de Mestrado Profissional em Gest&#xE3;o da Economia Criativa da Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio de Janeiro (ESPM-Rio). V&#xED;nculo Institucional: Escola Superior de Propaganda e Marketing, Rio de Janeiro, RJ, Brasil</institution></aff></contrib-group>
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<!--<copyright-year>2017</copyright-year>-->
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<license-p>This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution Non-Commercial License which permits unrestricted non-commercial use, distribution, and reproduction in any medium provided the original work is properly cited.</license-p></license></permissions>
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<title>Resumo</title>
<p>O objetivo do artigo &#xE9; explicar por que cidades criativas buscam desenvolver a paradiplomacia em seus processos de internacionaliza&#xE7;&#xE3;o. O argumento central indica que o desenvolvimento da paradiplomacia na internacionaliza&#xE7;&#xE3;o de cidades criativas est&#xE1; relacionado a quatro fatores principais: (1) a busca de coopera&#xE7;&#xE3;o t&#xE9;cnica no exterior para o desenvolvimento de capacidades para neg&#xF3;cios criativos e o empreendedorismo cultural; (2) a constru&#xE7;&#xE3;o de parcerias em programas de requalifica&#xE7;&#xE3;o de espa&#xE7;os urbanos; (3) a divulga&#xE7;&#xE3;o das qualidades locais para a atra&#xE7;&#xE3;o de investidores em coprodu&#xE7;&#xF5;es e empreendimentos conjuntos e (4) a influ&#xEA;ncia em institui&#xE7;&#xF5;es internacionais para facilitar o acesso ao mercado global de atividades culturais. Foi utilizada como refer&#xEA;ncia a obra de Panayotis Soldatos, adaptada do tratamento original de estados federativos para cidades criativas. Argumenta-se que, quanto mais segmentadas forem as partes da cidade criativa, mais capacitadas forem as burocracias subnacionais para a atividade paradiplom&#xE1;tica, mais harm&#xF4;nicas forem as rela&#xE7;&#xF5;es entre governos central e municipal, mais autonomia for delegada &#xE0;s prefeituras e mais interdependente for a cidade criativa no n&#xED;vel externo, mais assertiva ser&#xE1; a sua atividade paradiplom&#xE1;tica para buscar corrigir assimetrias domesticamente e projetar a cidade internacionalmente. Utiliza-se a metodologia de compara&#xE7;&#xE3;o focada e estruturada de estudos de caso, aplicada &#xE0; investiga&#xE7;&#xE3;o de tr&#xEA;s cidades criativas que realizaram atividades paradiplom&#xE1;ticas em suas iniciativas de internacionaliza&#xE7;&#xE3;o: Barcelona, Toronto e Rio de Janeiro. Foi poss&#xED;vel verificar que, apesar de Barcelona e Toronto terem diferen&#xE7;as quanto aos determinantes de uma paradiplomacia assertiva em rela&#xE7;&#xE3;o ao Rio de Janeiro, essas tr&#xEA;s cidades pareceram ter objetivos comuns no desenvolvimento de suas atividades paradiplom&#xE1;ticas relacionadas &#xE0; economia criativa. Conclui-se que, para que se promova o encontro do potencial econ&#xF4;mico da criatividade, &#xE9; preciso influenciar acordos internacionais para que possibilitem a apropria&#xE7;&#xE3;o dos benef&#xED;cios da economia criativa por parte das comunidades que os originaram, promover acesso adequado a financiamento, garantir educa&#xE7;&#xE3;o e capacita&#xE7;&#xE3;o a par com novos perfis profissionais e profiss&#xF5;es e formar um ambiente que reconhe&#xE7;a o valor econ&#xF4;mico da criatividade e do intang&#xED;vel cultural, fun&#xE7;&#xF5;es para as quais a paradiplomacia tem um papel primordial.</p></abstract>
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<title>Abstract</title>
<p>The objective of this article is to explain why creative cities seek to develop paradiplomacy in their internationalization processes. The central argument indicates that the development of paradiplomacy in the internationalization of creative cities is related to four main factors: the search for technical cooperation abroad for capacity building for creative business and cultural entrepreneurship, the building of partnerships in programs of rehabilitation of urban spaces, the promotion of local qualities to attract investors in co-productions and joint ventures and the influence in international institutions to facilitate access to the global market of cultural activities. The work of Panayotis Soldatos was used as a reference, adapted from the original treatment of federal states for creative cities. It is argued that the more divided the parts of the creative city are, the more capable to paradiplomatic activity subnational units are, the more harmonic the relations between central and local governments are, the more autonomy is delegated to municipalities and the more interdependent a creative city is on the external level, its paradiplomatic activity will be more assertive to seek to correct imbalances domestically and promote the city internationally. The methodology of focused and structured comparison of case studies is applied to the research of three creative cities that performed paradiplomatic activities in their internationalization initiatives: Barcelona, Toronto and Rio de Janeiro. Although Barcelona and Toronto have different determinants of an assertive paradiplomacy in relation to Rio de Janeiro, these three cities seem to have common objectives in the development of their paradiplomatic activities related to creative economy. In order to promote the economic potential of creativity, it is necessary to influence international agreements that make possible the appropriation of the benefits of the creative economy by communities that originated them, promote adequate access to financing, ensure education and training along with new job profiles and professions and form an environment that recognizes the economic value of creativity and the cultural intangible, functions for which paradiplomacy has a key role.</p></trans-abstract>
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<title>PALAVRAS-CHAVE:</title>
<kwd>economia criativa</kwd>
<kwd>internacionaliza&#xE7;&#xE3;o</kwd>
<kwd>paradiplomacia</kwd>
<kwd>cidade criativa</kwd>
<kwd>ind&#xFA;stria criativa</kwd></kwd-group>
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<title>KEYWORDS:</title>
<kwd>creative economy</kwd>
<kwd>internationalization</kwd>
<kwd>paradiplomacy</kwd>
<kwd>creative city</kwd>
<kwd>creative industry</kwd></kwd-group>
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<sec sec-type="intro">
<title>I. Introdu&#xE7;&#xE3;o<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref></title>
<p>Desde a d&#xE9;cada de 1960, in&#xFA;meros centros urbanos industriais declinaram com a internacionaliza&#xE7;&#xE3;o da produ&#xE7;&#xE3;o. Concomitantemente, um n&#xFA;mero significativo de cidades elevou seu poder econ&#xF4;mico em n&#xED;vel mundial num contexto de intercruzamento de dois processos: o aumento da escala e da complexidade das transa&#xE7;&#xF5;es e a intensidade crescente dos servi&#xE7;os na organiza&#xE7;&#xE3;o da economia (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Sassen 1998</xref>, pp.16-17). Nesse contexto, governos locais e regionais podem ter dificuldade em exercer de maneira absoluta suas compet&#xEA;ncias, prestar servi&#xE7;os p&#xFA;blicos ou estimular a capacidade produtiva sem participar de uma din&#xE2;mica de rela&#xE7;&#xF5;es com atores estrangeiros, que podem trazer aprendizagem e oportunidades e contribuir para fazer do territ&#xF3;rio um espa&#xE7;o mais inclusivo, sustent&#xE1;vel e atrativo (<xref ref-type="bibr" rid="B54">Proyecto Allas 2015</xref>). In&#xFA;meras cidades vieram demonstrando interesse em processos de internacionaliza&#xE7;&#xE3;o em face dos benef&#xED;cios potenciais trazidos pela globaliza&#xE7;&#xE3;o. Dentre as caracter&#xED;sticas que passaram a apresentar, cabe destacar a adapta&#xE7;&#xE3;o e a flexibiliza&#xE7;&#xE3;o para que as transforma&#xE7;&#xF5;es urbanas fossem efetivas e ganhassem visibilidade e notoriedade para participarem do mercado mundial (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Ferreira, Fernandes &#x26; Hu&#xE7;ulak 2011</xref>, pp.18-19).</p>
<p>Nos processos de internacionaliza&#xE7;&#xE3;o, in&#xFA;meras cidades buscaram estrat&#xE9;gias de paradiplomacia, que pode ser entendida como o desenvolvimento, por parte de governos subnacionais, de uma agenda externa de atua&#xE7;&#xE3;o al&#xE9;m das fronteiras territoriais do Estado, com foco nos interesses locais, e engloba atividades como miss&#xF5;es internacionais, participa&#xE7;&#xE3;o em feiras e eventos internacionais, esquemas de coopera&#xE7;&#xE3;o t&#xE9;cnica, trocas de experi&#xEA;ncias e acordos entre cidades (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Milani &#x26; Ribeiro 2011</xref>, p.28). Em geral, cidades localizadas em Estados em desenvolvimento buscam ferramentas de governan&#xE7;a local a fim de lidar com desafios da urbaniza&#xE7;&#xE3;o &#x2013; como mobilidade, seguran&#xE7;a e infraestrutura &#x2013; por meio da intensifica&#xE7;&#xE3;o de sua atua&#xE7;&#xE3;o nos n&#xED;veis pol&#xED;ticos e de coopera&#xE7;&#xE3;o com entidades externas. J&#xE1; aquelas localizadas em Estados desenvolvidos buscam orientar a atua&#xE7;&#xE3;o internacional para o aprofundamento e a manuten&#xE7;&#xE3;o de vantagens econ&#xF4;micas, de forma a divulgar as qualidades locais &#x2013; como m&#xE3;o de obra capacitada, infraestrutura adequada, seguran&#xE7;a e altos n&#xED;veis de qualidade de vida &#x2013; com o prop&#xF3;sito de atrair investimentos e fortalecer a atividade tur&#xED;stica. A atividade externa por parte das cidades tem crescido significativamente, como se v&#xEA; na cria&#xE7;&#xE3;o de secretarias espec&#xED;ficas para a internacionaliza&#xE7;&#xE3;o e nas iniciativas de outras secretarias que tamb&#xE9;m executam fun&#xE7;&#xF5;es nesse processo de internacionaliza&#xE7;&#xE3;o. Se, num primeiro momento, a atua&#xE7;&#xE3;o internacional das cidades gerou a percep&#xE7;&#xE3;o de conflito com as a&#xE7;&#xF5;es do governo central, gradualmente os munic&#xED;pios passaram a atuar de maneira complementar ou em articula&#xE7;&#xE3;o &#xE0; diplomacia nacional (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Onuki &#x26; Oliveira 2013</xref>, pp.2-9; <xref ref-type="bibr" rid="B45">Vital 2015</xref>, p.2, p.16).</p>
<p>Tanto em Estados desenvolvidos como em Estados em desenvolvimento, pode-se dizer que grande parte das cidades que implementaram processos de internacionaliza&#xE7;&#xE3;o procurou estimular &#xE1;reas atrativas para empreendimentos criativos. A economia criativa refere-se a bens e servi&#xE7;os baseados em textos, s&#xED;mbolos e imagens e ao conjunto diversificado de atividades pautadas na criatividade, no talento ou na habilidade individual, tendo produtos que incorporam propriedade intelectual e abarcando um vasto conjunto de atividades, como o artesanato, a moda, as ind&#xFA;strias culturais cl&#xE1;ssicas &#x2013; do audiovisual, da m&#xFA;sica e do livro &#x2013; e as novas ind&#xFA;strias dos <italic>softwares</italic> e dos jogos eletr&#xF4;nicos (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Miguez 2007</xref>, pp.96-97). O conceito de &#x201C;ind&#xFA;stria criativa&#x201D; surgiu na Austr&#xE1;lia, na primeira metade da d&#xE9;cada de 1990, inspirado no projeto <italic>Creative Nation</italic>, em que o governo propunha a busca da identidade cultural australiana com a aplica&#xE7;&#xE3;o de verbas, por meio de um fundo de investimento, nas ind&#xFA;strias cinematogr&#xE1;fica, teatral e art&#xED;stica. Entretanto, o caso brit&#xE2;nico &#xE9; usado como refer&#xEA;ncia em face de seu pioneirismo e sua associa&#xE7;&#xE3;o com uma agenda pol&#xED;tico-econ&#xF4;mica. O Novo Partido Trabalhista defendeu, em seu manifesto pr&#xE9;-eleitoral, a ideia de identificarem as ind&#xFA;strias criativas como setores particulares da economia, reconhecendo-se a necessidade de pol&#xED;ticas p&#xFA;blicas espec&#xED;ficas para o segmento. O primeiro ministro Tony Blair estimulou tais ind&#xFA;strias visando a recupera&#xE7;&#xE3;o da competitividade diante do aumento da concorr&#xEA;ncia dos Estados asi&#xE1;ticos no n&#xED;vel internacional (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Duque 2015</xref>, pp.487-488). De acordo com a defini&#xE7;&#xE3;o do Reino Unido, a economia criativa abarca publicidade, arquitetura, mercado de artes e antiguidades, artesanato, <italic>design</italic>, <italic>design</italic> de moda, cinema, <italic>software</italic>, <italic>softwares</italic> interativos para lazer, m&#xFA;sica, artes perform&#xE1;ticas, ind&#xFA;stria editorial, r&#xE1;dio, TV, museus, galerias e atividades relacionadas &#xE0;s tradi&#xE7;&#xF5;es culturais (<xref ref-type="bibr" rid="B52">DCMS 1998</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B3">Bendassolli <italic>et al.</italic>, 2009</xref>, p.11).</p>
<p>Gradualmente, os governos de outros Estados e as organiza&#xE7;&#xF5;es internacionais come&#xE7;aram a dar destaque &#xE0;s ind&#xFA;strias criativas, bem como as universidades e as institui&#xE7;&#xF5;es de ensino ao redor do mundo, que abriram cursos de gradua&#xE7;&#xE3;o em ind&#xFA;strias criativas e realizaram simp&#xF3;sios e discuss&#xF5;es sobre o tema a partir da d&#xE9;cada de 2000. Em 2004, a Confer&#xEA;ncia das Na&#xE7;&#xF5;es Unidas sobre Com&#xE9;rcio e Desenvolvimento (UNCTAD) realizou no Brasil um <italic>workshop</italic> sobre empreendedorismo cultural em ind&#xFA;strias criativas. O Comit&#xEA; de Alto N&#xED;vel sobre as Ind&#xFA;strias Criativas e Desenvolvimento inseriu nesse encontro as ind&#xFA;strias criativas na agenda econ&#xF4;mica e de desenvolvimento internacional pela primeira vez em regime de recomenda&#xE7;&#xE3;o. O di&#xE1;logo da UNCTAD com a Organiza&#xE7;&#xE3;o Mundial do Com&#xE9;rcio (OMC) refor&#xE7;a o entendimento das ind&#xFA;strias criativas como ferramentas de mercado (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Duque 2015</xref>, pp.488-489). Segundo a pr&#xF3;pria <xref ref-type="bibr" rid="B57">UNCTAD (2010)</xref>, a economia criativa tem uma produ&#xE7;&#xE3;o de US$ 2 trilh&#xF5;es anuais e gera com&#xE9;rcio internacional de bens e servi&#xE7;os de cerca de US$ 600 bilh&#xF5;es. A taxa de crescimento entre 2003 e 2008 ficou acima de 14% ao ano.</p>
<p>O desenvolvimento de &#x201C;cidades criativas&#x201D; viabilizou conex&#xF5;es entre as cidades e o mundo ao coloc&#xE1;-las como polos de atra&#xE7;&#xE3;o para talentos criativos. A cultura agrega valor, aumenta a competitividade de setores tradicionais da economia e opera como fonte de inspira&#xE7;&#xE3;o e gera&#xE7;&#xE3;o de um ambiente mais inclinado &#xE0; valoriza&#xE7;&#xE3;o da criatividade. As ind&#xFA;strias criativas podem aprimorar a qualidade de vida, ajudando a aumentar a atratividade econ&#xF4;mica do ambiente. Os agentes propulsores de transforma&#xE7;&#xF5;es nas cidades criativas podem ser o governo, empresas privadas e/ou organiza&#xE7;&#xF5;es da sociedade civil, mas, para que se mantenham vivas essas mudan&#xE7;as, faz-se necess&#xE1;ria a participa&#xE7;&#xE3;o de todos os agentes socioecon&#xF4;micos e culturais (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Reis 2011</xref>, pp.24-28). Mostrou-se popular, em n&#xED;vel municipal, o apoio a <italic>clusters</italic> criativos &#x2013; concentra&#xE7;&#xF5;es geogr&#xE1;ficas de empresas ligadas &#xE0; economia criativa, como tecnologia, <italic>design</italic>, arquitetura, moda, literatura, gastronomia e artes visuais, entre outras &#x2013; que re&#xFA;nem institui&#xE7;&#xF5;es p&#xFA;blicas e privadas com o crescimento de empreendimentos e objetivos sociais de regenera&#xE7;&#xE3;o e inclus&#xE3;o (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Foord 2008</xref>, pp.91-93, p.111).</p>
<p>O objetivo deste artigo &#xE9; explicar por que cidades criativas buscam desenvolver a paradiplomacia em seus processos de internacionaliza&#xE7;&#xE3;o. O argumento central indica que o desenvolvimento da paradiplomacia na internacionaliza&#xE7;&#xE3;o de cidades criativas est&#xE1; relacionado a quatro fatores principais. O primeiro &#xE9; o interesse na coopera&#xE7;&#xE3;o t&#xE9;cnica no exterior para a constru&#xE7;&#xE3;o de capacidades para neg&#xF3;cios criativos e o empreendedorismo cultural, bem como a forma&#xE7;&#xE3;o e a consolida&#xE7;&#xE3;o de ambientes criativos por meio da agrega&#xE7;&#xE3;o de valor a setores econ&#xF4;micos tradicionais, da oferta de aux&#xED;lio e assist&#xEA;ncia na profissionaliza&#xE7;&#xE3;o dos agentes ligados &#xE0;s atividades das ind&#xFA;strias criativas e do fortalecimento da conviv&#xEA;ncia de diversidades com o maior interc&#xE2;mbio de experi&#xEA;ncias. O segundo &#xE9; a busca de empr&#xE9;stimos de institui&#xE7;&#xF5;es financeiras internacionais e de parcerias de governan&#xE7;as local e global em programas de mobilidade, seguran&#xE7;a e infraestrutura para estimular a requalifica&#xE7;&#xE3;o de espa&#xE7;os urbanos com base nas especificidades locais, viabilizar o potencial cultural e criativo dos habitantes, atrair talentos para &#xE1;reas revitalizadas e gerar emprego e renda utilizando a cultura como recurso. O terceiro &#xE9; a atra&#xE7;&#xE3;o de investidores em esquemas para coprodu&#xE7;&#xF5;es e empreendimentos conjuntos por meio da divulga&#xE7;&#xE3;o das qualidades locais, da promo&#xE7;&#xE3;o de <italic>clusters</italic> criativos e do posicionamento dos espa&#xE7;os e das comunidades criativos presentes na cidade no contexto das estruturas socioecon&#xF4;micas e estilos dominantes de governan&#xE7;a no n&#xED;vel internacional. O quarto &#xE9; a influ&#xEA;ncia em regimes e organiza&#xE7;&#xF5;es internacionais, em cuja agenda temas como inova&#xE7;&#xE3;o e economia criativa entram como partes das estrat&#xE9;gias de desenvolvimento socioecon&#xF4;mico a partir da facilita&#xE7;&#xE3;o do acesso ao mercado global de atividades culturais e de produtos e servi&#xE7;os criativos, bem como aos eventos comerciais e &#xE0;s novas tecnologias.</p>
<p>Para examinar o papel da paradiplomacia na internacionaliza&#xE7;&#xE3;o de cidades criativas, ser&#xE1; utilizado como refer&#xEA;ncia <xref ref-type="bibr" rid="B41">Soldatos (1990)</xref>, que ser&#xE1; adaptado do tratamento original de estados federativos para cidades criativas. <xref ref-type="bibr" rid="B41">Soldatos (1990)</xref> argumenta que as atividades paradiplom&#xE1;ticas &#x2013; articuladas em n&#xED;veis transfronteiri&#xE7;o, transregional e global &#x2013; podem ser desenvolvidas de forma coordenada e em apoio aos governos centrais, ou mesmo de maneira paralela, substituindo esses governos. Quando o acesso de atores subnacionais &#xE0; condu&#xE7;&#xE3;o de assuntos da pol&#xED;tica externa &#xE9; rejeitado, ocorre conflito, e as rela&#xE7;&#xF5;es podem se desenvolver de forma predat&#xF3;ria, levando-se inclusive a movimentos de natureza seccional e conduzindo a atividades externas de governos n&#xE3;o-centrais com interesses separatistas no que <xref ref-type="bibr" rid="B12">Ivo D. Duchacek (1986)</xref> chama de &#x201C;protodiplomacia&#x201D;. A coopera&#xE7;&#xE3;o tende a ocorrer quando o governo central busca o esfor&#xE7;o de racionaliza&#xE7;&#xE3;o do ingresso das unidades subnacionais na condu&#xE7;&#xE3;o dos assuntos de pol&#xED;tica externa. Para analisar essa coopera&#xE7;&#xE3;o, a pesquisa levar&#xE1; em conta determinantes da assertividade da paradiplomacia das cidades apontados por <xref ref-type="bibr" rid="B41">Soldatos (1990)</xref> nas dimens&#xF5;es subestatal, estatal e internacional &#x2013; em nosso caso, adaptados e modificados, levando-se em conta o foco nas cidades criativas. No n&#xED;vel subestatal, consideraremos a segmenta&#xE7;&#xE3;o cultural e pol&#xED;tico-econ&#xF4;mica nas cidades criativas e a capacita&#xE7;&#xE3;o das burocracias municipais para lidar com temas internacionais. No n&#xED;vel estatal, levamos em conta a capacidade da burocracia do governo central em lidar com problemas locais e a autonomia conferida &#xE0;s entidades subnacionais para a condu&#xE7;&#xE3;o de atividades internacionais em termos de suas compet&#xEA;ncias formais para temas de pol&#xED;tica externa. No internacional, ser&#xE1; apontada a interdepend&#xEA;ncia entre a cidade e atores externos, aqui observada na liga&#xE7;&#xE3;o da cidade em iniciativas bilaterais e multilaterais com outras cidades, incluindo redes de cidades. Detalhando o argumento e assumindo poss&#xED;veis altera&#xE7;&#xF5;es na concep&#xE7;&#xE3;o e nas conclus&#xF5;es originais de Soldatos em face da adapta&#xE7;&#xE3;o proposta, sustentamos que, quanto mais segmentadas forem as partes da cidade criativa, mais capacitadas forem as burocracias subnacionais para a atividade paradiplom&#xE1;tica, mais harm&#xF4;nicas forem as rela&#xE7;&#xF5;es entre governos central e municipal, mais autonomia for delegada &#xE0;s prefeituras e mais interdependente for a cidade criativa no n&#xED;vel externo, mais assertiva ser&#xE1; a sua atividade paradiplom&#xE1;tica para buscar corrigir assimetrias domesticamente e projetar a cidade internacionalmente. Utilizamos a metodologia de compara&#xE7;&#xE3;o focada e estruturada de estudos de caso (<xref ref-type="bibr" rid="B19">George &#x26; Bennett 2005</xref>, pp.67-72), aplicada &#xE0; investiga&#xE7;&#xE3;o de tr&#xEA;s cidades criativas que realizaram atividades paradiplom&#xE1;ticas em suas iniciativas de internacionaliza&#xE7;&#xE3;o: Barcelona, Toronto e Rio de Janeiro. A pergunta ser&#xE1; dirigida a cada caso estudado a fim de padronizar a coleta de dados e permitir a compara&#xE7;&#xE3;o sistem&#xE1;tica das informa&#xE7;&#xF5;es encontradas.</p>
<p>Na pr&#xF3;xima se&#xE7;&#xE3;o, apresentaremos os conceitos de &#x201C;ind&#xFA;strias criativas&#x201D;, &#x201C;economia criativa&#x201D; e &#x201C;cidades criativas&#x201D;. A seguir, buscaremos identificar as principais oportunidades e desafios para cidades criativas localizadas em Estados desenvolvidos e em desenvolvimento &#xE0; luz dos casos considerados neste artigo. Nos dois itens seguintes, examinaremos, respectivamente, os principais elementos que conduzem as cidades a processos de internacionaliza&#xE7;&#xE3;o e a relev&#xE2;ncia da paradiplomacia para cidades criativas. Antes de tecer as considera&#xE7;&#xF5;es finais, analisaremos como as atividades paradiplom&#xE1;ticas foram mobilizadas na internacionaliza&#xE7;&#xE3;o das tr&#xEA;s cidades criativas consideradas nesta pesquisa.</p>
</sec>
<sec>
<title>II. As ind&#xFA;strias criativas, a economia criativa e as cidades criativas</title>
<p>O surgimento de &#x201C;ind&#xFA;strias criativas&#x201D; est&#xE1; relacionado tanto a pol&#xED;ticas p&#xFA;blicas de desenvolvimento como a uma transforma&#xE7;&#xE3;o de valores socioculturais. Tal transforma&#xE7;&#xE3;o deu-se com a transi&#xE7;&#xE3;o de valores materialistas para p&#xF3;s-materialistas &#x2013; marcados pelo atendimento de necessidades de ordem est&#xE9;tica e intelectual e de envolvimento em processos de tomada de decis&#xE3;o aut&#xF4;nomos &#x2013; e a emerg&#xEA;ncia da sociedade do conhecimento, vista na mudan&#xE7;a de uma economia baseada no uso intensivo de capital e trabalho para uma na qual o capital tem base em recursos intelectuais do indiv&#xED;duo, na forma&#xE7;&#xE3;o de redes sociais e na troca de conhecimentos (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bendassolli <italic>et al.</italic>, 2009</xref>, p.11). Ressaltam-se a originalidade e a criatividade, bem como as mudan&#xE7;as, as rupturas e a inova&#xE7;&#xE3;o, de forma que os indiv&#xED;duos est&#xE3;o se afastando de comportamentos tradicionais, como o consumo de bens padronizados e a submiss&#xE3;o &#xE0; autoridade, e se identificando cada vez mais com o desejo de controle integral sobre a pr&#xF3;pria vida (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Howkins 2001</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B17">Florida 2002</xref>). A tecnologia aparece como parte fundamental das ind&#xFA;strias criativas n&#xE3;o somente ao modificar os processos de gest&#xE3;o e a cultura de mercado por meio da gera&#xE7;&#xE3;o de redes e modelos colaborativos. Ela impacta a pr&#xF3;pria produ&#xE7;&#xE3;o, trazendo novos ve&#xED;culos para conte&#xFA;dos criativos e a possibilidade de novos produtos e servi&#xE7;os com base na m&#xED;dia digital. Ela afeta tamb&#xE9;m a distribui&#xE7;&#xE3;o &#x2013; gerando canais alternativos, ampliando o acesso global e minimizando custos de transa&#xE7;&#xE3;o &#x2013; e o consumo, ao permitir que o consumidor oriente sua busca por bens e servi&#xE7;os criativos e at&#xE9; mesmo os acesse diretamente do produtor (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Reis 2008</xref>, pp.33-34).</p>
<p>Segundo o DCMS (<italic>Department for Culture, Media and Sport</italic>) do Reino Unido, a economia criativa abarca atividades que t&#xEA;m sua origem na criatividade, compet&#xEA;ncias e talento individual, com potencial para a cria&#xE7;&#xE3;o de trabalho e riqueza por meio da gera&#xE7;&#xE3;o e explora&#xE7;&#xE3;o de propriedade intelectual. Nessa economia, as ind&#xFA;strias criativas estariam baseadas em indiv&#xED;duos com capacidades criativas e art&#xED;sticas em alian&#xE7;a com gestores e profissionais da &#xE1;rea tecnol&#xF3;gica, que fazem produtos e servi&#xE7;os vend&#xE1;veis e cujo valor econ&#xF4;mico reside nas suas propriedades culturais ou intelectuais (<xref ref-type="bibr" rid="B52">DCMS 1998</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B29">Miguez 2007</xref>, p.102). <xref ref-type="bibr" rid="B20">Hartley (2005</xref>, p.5) argumenta que as ind&#xFA;strias criativas apontam para a converg&#xEA;ncia conceitual e pr&#xE1;tica das artes resultantes do talento individual com as ind&#xFA;strias culturais, no contexto de desenvolvimento de novas tecnologias midi&#xE1;ticas e uma nova economia do conhecimento. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B11">Cornford e Charles (2001</xref>, p.17), as ind&#xFA;strias criativas podem abarcar atividades totalmente dependentes do ato de levar o conte&#xFA;do &#xE0; audi&#xEA;ncia e em geral subsidiadas &#x2013; como apresenta&#xE7;&#xF5;es ao vivo, exibi&#xE7;&#xF5;es e festivais &#x2013; e pr&#xE1;ticas informacionais baseadas na reprodu&#xE7;&#xE3;o de conte&#xFA;do original e sua transmiss&#xE3;o a audi&#xEA;ncias, como m&#xFA;sicas gravadas, filmes, <italic>broadcasting</italic> e novas m&#xED;dias. Alguns &#xF3;rg&#xE3;os oficiais como o Minist&#xE9;rio da Cultura no Brasil optam por substituir o termo &#x201C;ind&#xFA;stria criativa&#x201D; por &#x201C;setor criativo&#x201D; &#x2013; enfatizando o valor simb&#xF3;lico como consequ&#xEA;ncia do ato criativo &#x2013; e apontam que a economia criativa inclui din&#xE2;micas sociais, culturais, econ&#xF4;micas e territoriais existentes a partir da cria&#xE7;&#xE3;o, produ&#xE7;&#xE3;o, distribui&#xE7;&#xE3;o e consumo dos bens e servi&#xE7;os produzidos pelos setores criativos, que englobam (1) patrim&#xF4;nio material e imaterial; (2) express&#xF5;es culturais; (3) artes de espet&#xE1;culo; (4) audiovisual e livro; e (5) cria&#xE7;&#xF5;es funcionais (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Figueiredo 2015</xref>, p.30).</p>
<p>No que diz respeito &#xE0; forma de produ&#xE7;&#xE3;o, as ind&#xFA;strias criativas utilizam como recurso-chave a criatividade, entendida como a express&#xE3;o do potencial humano de realiza&#xE7;&#xE3;o em atividades geradoras de produtos tang&#xED;veis e &#xE0; capacidade de manipula&#xE7;&#xE3;o de s&#xED;mbolos e significados visando a gera&#xE7;&#xE3;o de inova&#xE7;&#xF5;es. Nessas ind&#xFA;strias, as concep&#xE7;&#xF5;es est&#xE9;ticas e art&#xED;sticas influenciam as escolhas e o direcionamento de recursos. As ind&#xFA;strias criativas alimentam o uso intensivo de novas tecnologias de informa&#xE7;&#xE3;o e de comunica&#xE7;&#xE3;o &#x2013; o que descentraliza as atividades e enfraquece o dom&#xED;nio de organiza&#xE7;&#xF5;es de grande porte sobre os meios de produ&#xE7;&#xE3;o e de distribui&#xE7;&#xE3;o &#x2013; e utilizam equipes polivalentes, uma vez que o processo produtivo traz a necessidade de coordena&#xE7;&#xE3;o de compet&#xEA;ncias, especialidades e recursos distintos. Quanto aos produtos gerados, pode-se dizer que as ind&#xFA;strias criativas s&#xE3;o caracterizadas por uma variedade infinita, al&#xE9;m da diferencia&#xE7;&#xE3;o vertical desses produtos &#x2013; tendo em vista que distribuidores e intermedi&#xE1;rios exercem consider&#xE1;vel influ&#xEA;ncia na defini&#xE7;&#xE3;o de quem ser&#xE1; bem-sucedido &#x2013; e da perenidade. Com frequ&#xEA;ncia, os benef&#xED;cios de um produto criativo podem ser usufru&#xED;dos por per&#xED;odos longos, o que implica a gest&#xE3;o desses benef&#xED;cios por regras espec&#xED;ficas de direitos autorais (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bendassolli <italic>et al.</italic>, 2009</xref>, pp.13-14). Com rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0;s formas de consumo no &#xE2;mbito das ind&#xFA;strias criativas, pode-se dizer que a primordial &#xE9; a cultural, em particular diante da identifica&#xE7;&#xE3;o de uma nova classe de servi&#xE7;os que combina os capitais cultural e econ&#xF4;mico e da transforma&#xE7;&#xE3;o do consumo material em cultural com a estetiza&#xE7;&#xE3;o da vida cotidiana (Bourdieu 1990). No novo regime pol&#xED;tico-econ&#xF4;mico de constru&#xE7;&#xE3;o da subjetividade e da identidade pessoal, o consumidor se torna um agente na gera&#xE7;&#xE3;o de valor econ&#xF4;mico a partir da constru&#xE7;&#xE3;o da identidade individual no lazer, no entretenimento, nos novos regimes de distin&#xE7;&#xE3;o simb&#xF3;lica e na preocupa&#xE7;&#xE3;o com a sa&#xFA;de e com a forma f&#xED;sica. Em face da instabilidade da demanda, produtores e gestores de produtos culturais t&#xEA;m limita&#xE7;&#xF5;es na previs&#xE3;o de sucesso comercial, e os produtos nem sempre podem se beneficiar de experi&#xEA;ncias anteriores. Entretanto, a demanda dos consumidores por inova&#xE7;&#xF5;es &#xE9; ilimitada, o que for&#xE7;a as empresas &#xE0; busca de inova&#xE7;&#xF5;es sem retorno financeiro garantido (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bendassolli <italic>et al.</italic>, 2009</xref>, pp.13-14).</p>
<p>A economia criativa apresenta um amplo aspecto setorial ao congregar &#xE0;s novas m&#xED;dias e tecnologias elementos da economia solid&#xE1;ria que t&#xEA;m rela&#xE7;&#xE3;o com o artesanato e o conhecimento tradicional, apropriando-se das experi&#xEA;ncias exitosas (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Duque 2015</xref>, pp.492-493). Enquanto estrat&#xE9;gia de desenvolvimento, a economia criativa reconhece a import&#xE2;ncia do capital humano para o fomento da integra&#xE7;&#xE3;o de objetivos socioculturais e econ&#xF4;micos e, diante da altera&#xE7;&#xE3;o dos elos entre cultura e economia com as mudan&#xE7;as econ&#xF4;micas e tecnol&#xF3;gicas, abre um leque de oportunidades baseadas em empreendimentos criativos, permite a formaliza&#xE7;&#xE3;o de pequenos neg&#xF3;cios, promove a gera&#xE7;&#xE3;o de renda e emprego e incrementa o bem-estar da popula&#xE7;&#xE3;o ao estimular a express&#xE3;o e a participa&#xE7;&#xE3;o dos cidad&#xE3;os na vida pol&#xED;tica. A intangibilidade da criatividade pode gerar valor adicional ao incorporar caracter&#xED;sticas culturais, inimit&#xE1;veis por excel&#xEA;ncia, e criar sinergias entre o estilo de vida e o ambiente no qual ele floresce. Al&#xE9;m disso, por meio da tecnologia, a economia criativa amplia o acesso ao consumo e pode criar nichos culturais geradores de valor que atravessam setores m&#xFA;ltiplos em rede, como artesanato, bares, antiqu&#xE1;rios e feiras (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Reis 2008</xref>, pp.27-32).</p>
<p>Gradativamente, a presen&#xE7;a de uma grande &#x201C;classe criativa&#x201D; nesses locais, bem como comunidades de pesquisa e n&#xF4;mades do conhecimento, serviu para sinalizar a exist&#xEA;ncia de uma &#x201C;cidade criativa&#x201D;, na qual se desenvolve uma vis&#xE3;o de empoderamento para o est&#xED;mulo &#xE0; abertura mental, &#xE0; imagina&#xE7;&#xE3;o e &#xE0; participa&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica: ao se legitimar o uso da criatividade nas esferas p&#xFA;blica e privada da cidade, amplia-se o conjunto de ideias e solu&#xE7;&#xF5;es potenciais para problemas urbanos. A criatividade de uma cidade se aplicava a campos que transcendiam a presen&#xE7;a dessa &#x201C;classe criativa&#x201D;: a administra&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica deveria promover inova&#xE7;&#xF5;es sociais com criatividade em &#xE1;reas como sa&#xFA;de, servi&#xE7;os sociais e governan&#xE7;a. Al&#xE9;m disso, ambientes dotados de artes, caf&#xE9;s e parques poderiam permitir o desenvolvimento de criatividade e inova&#xE7;&#xE3;o e atrair uma nova classe de trabalhadores do conhecimento que lideram a gera&#xE7;&#xE3;o de riqueza nas cidades (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Florida 2002</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B23">Landry 2011</xref>, pp.10-14). A realiza&#xE7;&#xE3;o de obras e a constru&#xE7;&#xE3;o de equipamentos mostram-se atrelados &#xE0;s especificidades do local a fim de viabilizar o potencial cultural e criativo dos habitantes (<xref ref-type="bibr" rid="B46">Vivant 2012</xref>, pp.19-20). A criatividade aparece, assim, como componente fundamental n&#xE3;o apenas da competitividade das empresas, mas da diferencia&#xE7;&#xE3;o de lugares que procuram se destacar na competi&#xE7;&#xE3;o global por investimentos. Perante tal quadro, o questionamento das tradicionais pol&#xED;ticas de desenvolvimento urbano/regional aponta para o papel do conhecimento e da criatividade como recursos territoriais que potencializam compet&#xEA;ncias pela diferencia&#xE7;&#xE3;o. Tal desenvolvimento veio acompanhado do crescimento das atividades culturais e de entretenimento, com potencial para a gera&#xE7;&#xE3;o de emprego e renda (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Figueiredo 2015</xref>, p.34).</p>
<p>As cidades criativas passaram a referir-se mais comumente a espa&#xE7;os urbanos onde a articula&#xE7;&#xE3;o entre atividades sociais e art&#xED;sticas, ind&#xFA;strias criativas e governo foi capaz de produzir uma efervesc&#xEA;ncia cultural que atrai talentos, promove diversidade social e aumenta o potencial criativo de empresas e institui&#xE7;&#xF5;es (<xref ref-type="bibr" rid="B51">CCTC 2017</xref>). A popularidade do conceito de &#x201C;cidade criativa&#x201D; como estrat&#xE9;gia de desenvolvimento econ&#xF4;mico urbano pode ser explicada por mudan&#xE7;as estruturais em n&#xED;vel econ&#xF4;mico &#x2013; a globaliza&#xE7;&#xE3;o e a expans&#xE3;o da economia de servi&#xE7;os &#x2013;, pol&#xED;tico &#x2013; a flexibiliza&#xE7;&#xE3;o das fronteiras nacionais &#x2013;, tecnol&#xF3;gico &#x2013; desenvolvimentos em ci&#xEA;ncia e tecnologia e transporte &#x2013; e sociocultural, em especial as relacionadas ao consumo de valores simb&#xF3;licos (<xref ref-type="bibr" rid="B42">Trip 2009</xref>, p.3). As condi&#xE7;&#xF5;es para a emerg&#xEA;ncia de cidades criativas parecem estar na concentra&#xE7;&#xE3;o, diversidade e instabilidade. A concentra&#xE7;&#xE3;o permite um fluxo rico e uma maior densidade de ideias. A diversidade permite que as ideias sejam fertilizadas pela intera&#xE7;&#xE3;o. A instabilidade &#xE9; uma das principais condi&#xE7;&#xF5;es para cidades criativas, uma vez que elas t&#xEA;m de administrar diferentes choques e tens&#xF5;es que surgem no uso de ideias criativas (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Cohendet, Grandadam &#x26; Simon 2010</xref>).</p>
<p>Os projetos e as pol&#xED;ticas para cidades criativas devem ser constru&#xED;dos organicamente sobre o potencial j&#xE1; existente e espec&#xED;ficos para cada munic&#xED;pio em vez de estritamente baseados na replica&#xE7;&#xE3;o das melhores pr&#xE1;ticas (<xref ref-type="bibr" rid="B43">Trip &#x26; Romein 2010</xref>, pp.3-5). Uma cidade criativa deve contar com uma infraestrutura bruta de edif&#xED;cios, ruas e saneamento b&#xE1;sico, mas tamb&#xE9;m com uma infraestrutura branda que abarque uma for&#xE7;a de trabalho capacitada e flex&#xED;vel e infraestrutura intelectual formal e informal. Oferecem-se, assim, precondi&#xE7;&#xF5;es f&#xED;sicas para que as atividades criativas se desenvolvam e se crie um fluxo de ideias e inven&#xE7;&#xF5;es (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Chantelot, P&#xE9;r&#xE8;s &#x26; Virol 2011</xref>, pp.7-9). Dentre os tipos de interven&#xE7;&#xE3;o pr&#xE1;tica que podem ser englobados nas estrat&#xE9;gias de uma cidade criativa para promover e apoiar empreendimentos criativos em localidades espec&#xED;ficas, cabe citar as estrat&#xE9;gias de propriedade; desenvolvimento de neg&#xF3;cios; aconselhamento e constru&#xE7;&#xE3;o de redes; esquemas de aux&#xED;lios e empr&#xE9;stimos diretos para empreendedores e neg&#xF3;cios criativos; iniciativas fiscais; infraestrutura f&#xED;sica e de tecnologia de informa&#xE7;&#xE3;o; e infraestrutura branda. Muitas dessas interven&#xE7;&#xF5;es s&#xE3;o t&#xED;picas de iniciativas gen&#xE9;ricas de apoio a neg&#xF3;cios ao oferecer local de trabalho e treinamento, assist&#xEA;ncia, <italic>networking</italic>, &#xA0;empr&#xE9;stimos, pr&#xE1;ticas de gest&#xE3;o de neg&#xF3;cios, acesso a eventos comerciais e novas tecnologias. Algumas s&#xE3;o espec&#xED;ficas da economia criativa, tais como o levantamento de verbas para o investimento na infraestrutura art&#xED;stica. Muitas das iniciativas para a economia criativa s&#xE3;o dirigidas para <italic>startups</italic> e pequenas e m&#xE9;dias empresas e, quando as necessidades espec&#xED;ficas das ind&#xFA;strias criativas s&#xE3;o destacadas, tendem a enfatizar as peculiaridades do processo criativo e o desenvolvimento de habilidades para os neg&#xF3;cios entre os praticantes. As interven&#xE7;&#xF5;es s&#xE3;o enquadradas na perspectiva do desenvolvimento dos empreendimentos, mas, em alguns casos, pareceram respostas a falhas crescentes de mercado, em especial em ind&#xFA;strias tradicionais que ficaram para tr&#xE1;s na inova&#xE7;&#xE3;o de processos e produtos (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Foord 2008</xref>, pp.97-98).</p>
<p>Numa cidade criativa, os distritos criativos correspondem ao <italic>underground</italic>, que re&#xFA;ne as pessoas criativas interagindo em ambientes informais geradores de ideias e tend&#xEA;ncias. As empresas e as institui&#xE7;&#xF5;es criativas do <italic>upperground</italic> mais formal s&#xE3;o respons&#xE1;veis pela introdu&#xE7;&#xE3;o de produ&#xE7;&#xF5;es criativas no mercado. Entre essas duas camadas, uma camada intermedi&#xE1;ria &#x2013; o <italic>middleground</italic> &#x2013; garante o tr&#xE2;nsito de ideias ao identificar as ideias criativas do <italic>underground</italic> e as trazer para as ind&#xFA;strias criativas para que originem produtos ou servi&#xE7;os vi&#xE1;veis e comercializ&#xE1;veis (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Cohendet, Grandadam &#x26; Simon 2010</xref>). Diante dessa organiza&#xE7;&#xE3;o da cidade criativa, a promo&#xE7;&#xE3;o de estrat&#xE9;gias e a prolifera&#xE7;&#xE3;o de interven&#xE7;&#xF5;es coincidiram com a ascens&#xE3;o de estrat&#xE9;gias de <italic>clusters</italic> de neg&#xF3;cios ligados &#xE0;s agendas locais de crescimento (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Foord 2008</xref>, pp.99-101). Observa-se uma tend&#xEA;ncia a aglomera&#xE7;&#xF5;es de ind&#xFA;strias criativas e de m&#xE3;o de obra qualificada em &#xE1;reas onde se tem maior facilidade de deslocamento e maior articula&#xE7;&#xE3;o de fatores de produ&#xE7;&#xE3;o culturais e cognitivos em rede (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Figueiredo 2015</xref>, pp.39-41). Como aponta <xref ref-type="bibr" rid="B40">Scott (2000)</xref>, com a aglomera&#xE7;&#xE3;o das atividades criativas, as empresas economizam nas liga&#xE7;&#xF5;es espaciais, atingem vantagens do mercado de trabalho concentrado e se inserem em fluxos de informa&#xE7;&#xE3;o e inova&#xE7;&#xE3;o na congrega&#xE7;&#xE3;o de diferentes produtores complementares.</p>
</sec>
<sec>
<title>III. As cidades criativas em estados desenvolvidos e em desenvolvimento</title>
<p>As quest&#xF5;es relativas &#xE0; economia e &#xE0;s ind&#xFA;strias criativas s&#xE3;o marginalizadas em in&#xFA;meros Estados em desenvolvimento por conta do desconhecimento do potencial das atividades criativas, da falta de institui&#xE7;&#xF5;es e pol&#xED;ticas p&#xFA;blicas dedicadas &#xE0; economia criativa e da concentra&#xE7;&#xE3;o do mercado global de produ&#xE7;&#xE3;o e distribui&#xE7;&#xE3;o dos bens e servi&#xE7;os criativos nos Estados desenvolvidos. Entretanto, uma maior preocupa&#xE7;&#xE3;o com o tema j&#xE1; pode ser observada em Estados africanos &#x2013; em especial a &#xC1;frica do Sul &#x2013;, asi&#xE1;ticos &#x2013; particularmente a &#xCD;ndia, Cingapura e a China, que tem investido na institucionaliza&#xE7;&#xE3;o de pol&#xED;ticas para a economia criativa &#x2013;, e sul-americanos, como Brasil, Col&#xF4;mbia, Argentina e Chile. O setor cultural em blocos de integra&#xE7;&#xE3;o regional como o Mercosul tamb&#xE9;m se tem ocupado amplamente do debate em torno da economia criativa. Em particular desde o in&#xED;cio da d&#xE9;cada de 2000, multiplicaram-se os contatos internacionais em in&#xFA;meras cidades criativas, eventos de grande porte foram realizados, e estudos sobre economia criativa t&#xEA;m sido realizados (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Miguez 2007</xref>, pp.107-109). Entretanto, em v&#xE1;rios Estados em desenvolvimento, ainda se observa baixo n&#xED;vel de engajamento entre os setores p&#xFA;blico e privado e de envolvimento da sociedade civil, al&#xE9;m do prec&#xE1;rio alinhamento das pol&#xED;ticas p&#xFA;blicas setoriais em uma trajet&#xF3;ria comum e das dificuldades de identifica&#xE7;&#xE3;o das necessidades e potencialidades de cada agente privado e do terceiro setor. A institucionaliza&#xE7;&#xE3;o de &#xF3;rg&#xE3;os p&#xFA;blicos voltados especificamente para a economia criativa &#xE9; tardia, como se observa no caso brasileiro: ainda que o tema aparecesse em propostas do Minist&#xE9;rio da Cultura desde o in&#xED;cio da d&#xE9;cada de 2000, somente no come&#xE7;o da d&#xE9;cada de 2010 criou-se no Estado uma Secretaria de Economia Criativa, que lan&#xE7;ou o plano &#x201C;Brasil Criativo&#x201D; para pol&#xED;ticas voltadas para o desenvolvimento e a institucionaliza&#xE7;&#xE3;o de territ&#xF3;rios criativos e o apoio direto ao empreendedor (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Reis 2008</xref>, pp.35-36; <xref ref-type="bibr" rid="B13">Duque 2015</xref>, pp.495-497; <xref ref-type="bibr" rid="B38">Santos 2015</xref>, pp.1447-1448).</p>
<p>Em uma cidade criativa, busca-se o combate &#xE0;s desigualdades e &#xE0; viol&#xEA;ncia, bem como a atra&#xE7;&#xE3;o de talentos e investimentos para revitalizar &#xE1;reas degradadas, a promo&#xE7;&#xE3;o de <italic>clusters</italic> criativos, a transforma&#xE7;&#xE3;o em polo criativo mundial de forma articulada com a pol&#xED;tica do turismo e a reestrutura&#xE7;&#xE3;o do tecido socioecon&#xF4;mico urbano, com base nas especificidades locais. Por&#xE9;m, quando h&#xE1; falhas nessa busca, pode-se levar a um processo de gentrifica&#xE7;&#xE3;o, esfacelamento das rela&#xE7;&#xF5;es locais e exclus&#xE3;o de pequenos empreendimentos criativos e da diversidade (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Reis 2008</xref>, p.26). &#xC0; luz de tais considera&#xE7;&#xF5;es, cabe examinar os tr&#xEA;s casos considerados na pesquisa, observar como Barcelona, Toronto e Rio de Janeiro se desenvolveram e verificar se re&#xFA;nem os determinantes de uma atividade paradiplom&#xE1;tica mais assertiva, de acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B41">Soldatos (1990)</xref>. A <xref ref-type="table" rid="t1">Tabela 1</xref> traz os dados referentes ao Produto Interno Bruto (PIB), &#xE0; popula&#xE7;&#xE3;o e ao &#xCD;ndice de Desenvolvimento Humano (IDH) dessas cidades.</p>
<p>
<table-wrap id="t1">
<label>Tabela 1</label>
<caption>
<title>PIB, Popula&#xE7;&#xE3;o e IDH &#x2013; Barcelona, Toronto e Rio de Janeiro</title></caption>
<alternatives>
	<graphic xlink:href="t1.jpg"/>
<table frame="hsides" rules="groups">
<colgroup width="25%">
<col/>
<col/>
<col/>
<col/></colgroup>
<thead style="border-top: thin solid; border-bottom: thin solid; border-color: #000000">
<tr>
<th align="left"/>
<th align="center">PIB (em US$ bilh&#xF5;es)</th>
<th align="center">Popula&#xE7;&#xE3;o (milh&#xF5;es hab.)</th>
<th align="center">IDH</th></tr></thead>
<tbody style="border-bottom: thin solid; border-color: #000000">
<tr>
<td align="left">Barcelona</td>
<td align="center">171</td>
<td align="center">1,605</td>
<td align="center">0,895</td></tr>
<tr>
<td align="left">Toronto</td>
<td align="center">276,3</td>
<td align="center">2,615</td>
<td align="center">0,913</td></tr>
<tr>
<td align="left">Rio de Janeiro</td>
<td align="center">176,6</td>
<td align="center">6,320</td>
<td align="center">0,799</td></tr></tbody></table></alternatives>
<table-wrap-foot><attrib>Fontes: <xref ref-type="bibr" rid="B55">Statistics Canada (2011)</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B21">Herrero, Soler e Villar (2013)</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B53">PNUD (2013)</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B4">Berube <italic>et al.</italic> (2014)</xref>.</attrib></table-wrap-foot></table-wrap></p>
<p>Durante a transi&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica espanhola para a democracia e a crise do petr&#xF3;leo na d&#xE9;cada de 1970, Barcelona apresentava dificuldades motivadas pela transfer&#xEA;ncia da ind&#xFA;stria para fora da cidade e pela diminui&#xE7;&#xE3;o da atividade pol&#xED;tica. O d&#xE9;ficit hist&#xF3;rico de investimentos e dota&#xE7;&#xF5;es or&#xE7;ament&#xE1;rias do governo espanhol em mat&#xE9;ria de cultura juntava-se &#xE0;s dificuldades decorrentes do enfrentamento institucional entre o governo municipal e o Governo Aut&#xF4;nomo da Catalunha antes da realiza&#xE7;&#xE3;o dos Jogos Ol&#xED;mpicos. A partir de 1986, quando Barcelona foi nomeada sede dos Jogos Ol&#xED;mpicos de 1992, iniciou-se um processo de organiza&#xE7;&#xE3;o dos instrumentos de governan&#xE7;a, coordena&#xE7;&#xE3;o interinstitucional, financiamento e gest&#xE3;o do projeto ol&#xED;mpico, concebido como um instrumento poderoso para dotar a cidade de infraestruturas at&#xE9; ent&#xE3;o inexistentes ou deficientes, melhorar a qualidade do espa&#xE7;o p&#xFA;blico e finalizar equipamentos, servi&#xE7;os e elementos essenciais a uma capital cultural. A flexibilidade regulat&#xF3;ria nas constantes parcerias p&#xFA;blico-privadas acompanhava a realiza&#xE7;&#xE3;o de interven&#xE7;&#xF5;es urbanas em locais com alto potencial de valoriza&#xE7;&#xE3;o e projetos de revitaliza&#xE7;&#xE3;o de &#xE1;reas centrais e portu&#xE1;rias. O pacto entre o governo central e o local apontava para a busca pelo desenvolvimento econ&#xF4;mico e a internacionaliza&#xE7;&#xE3;o do Estado, da regi&#xE3;o da Catalunha e da cidade. A organiza&#xE7;&#xE3;o dos Jogos Ol&#xED;mpicos sustentou-se pelo acordo entre Barcelona, o governo da Espanha, o governo aut&#xF4;nomo da Catalunha, o Comit&#xEA; Ol&#xED;mpico Espanhol e o Comit&#xEA; Ol&#xED;mpico Internacional, al&#xE9;m de uma <italic>joint venture</italic> com administra&#xE7;&#xE3;o compartilhada do setor p&#xFA;blico e iniciativa privada nacional e internacional e da cria&#xE7;&#xE3;o de grupos especiais de administra&#xE7;&#xE3;o, com divis&#xE3;o de fun&#xE7;&#xF5;es organizacionais e de investimento (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Pardo 2010</xref>, pp.49-64, pp.69-78; <xref ref-type="bibr" rid="B35">Reis 2010</xref>, pp.23-41; <xref ref-type="bibr" rid="B7">Carvalho 2014</xref>, pp.12-19).</p>
<p>O planejamento urbano &#x2013; feito com base em indicadores e estudos, cruciais para o diagn&#xF3;stico, o monitoramento e a an&#xE1;lise do efeito das a&#xE7;&#xF5;es &#x2013; aproveitou o desenho das atividades de Barcelona para os Jogos Ol&#xED;mpicos de 1992 para situ&#xE1;-las em uma perspectiva muito mais ampla: a vis&#xE3;o da Barcelona do s&#xE9;culo XXI, que ressaltava a personalidade cultural urbana, o car&#xE1;ter cosmopolita e mediterr&#xE2;neo de cidade portu&#xE1;ria, o car&#xE1;ter empreendedor da popula&#xE7;&#xE3;o conectado &#xE0; sua tradi&#xE7;&#xE3;o comercial e manufatureira e o modelo de consenso e colabora&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blico-privada para o financiamento conjunto que, por sua vez, baseou-se em crit&#xE9;rios claros e incorporou a gera&#xE7;&#xE3;o de benef&#xED;cios p&#xFA;blicos e medidas de incremento da competitividade empresarial. Criou-se um sistema de gest&#xE3;o mista para projetos culturais. Os efeitos mais importantes decorrentes do sucesso dos Jogos Ol&#xED;mpicos foram o incremento da competitividade de Barcelona como cidade para neg&#xF3;cios e investimentos; o aumento da atratividade da cidade, relacionada &#xE0; sua qualidade de vida e de seus servi&#xE7;os e equipamentos; o desenvolvimento das condi&#xE7;&#xF5;es ligadas ao est&#xED;mulo &#xE0; inova&#xE7;&#xE3;o e &#xE0; economia criativa; e o est&#xED;mulo ao turismo internacional de car&#xE1;ter urbano. O reconhecimento da cultura como plataforma de desenvolvimento da cidade abarcou do fortalecimento da identidade regional &#xE0; expans&#xE3;o da infraestrutura de equipamentos, das Olimp&#xED;adas Culturais estendidas por quatro anos aos novos modelos de governan&#xE7;a. A mobiliza&#xE7;&#xE3;o dos moradores se baseou na cria&#xE7;&#xE3;o e nas atividades envolvendo espa&#xE7;o p&#xFA;blico, entendido como bem comum e elemento de cria&#xE7;&#xE3;o de um ambiente atraente. A incorpora&#xE7;&#xE3;o das ind&#xFA;strias criativas e da economia criativa no atual Plano Estrat&#xE9;gico Metropolitano, voltado a 2020, assenta-se no projeto ol&#xED;mpico de 1992 (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Pardo 2010</xref>, pp.49-64, pp.69-78; <xref ref-type="bibr" rid="B35">Reis 2010</xref>, pp.23-41).</p>
<p>O plano cultural de Barcelona promove a cidade como um projeto cultural, que agrega empreendimentos criativos e iniciativas territoriais. Essa &#xE9; uma estrat&#xE9;gia orientada para fora, que liga Barcelona a redes de cidades europeias e globais. A economia do conhecimento &#x2013; definida pela cidade como servi&#xE7;os culturais, de comunica&#xE7;&#xE3;o e <italic>design</italic> &#x2013; foi identificada como o motor de crescimento consider&#xE1;vel do n&#xED;vel de emprego desde 2003. Distritos espec&#xED;ficos t&#xEA;m suas pr&#xF3;prias especializa&#xE7;&#xF5;es criativas. Esses s&#xE3;o <italic>clusters</italic> criativos aspirantes, com baixos n&#xED;veis de atividade empreendedora, mas fortes liga&#xE7;&#xF5;es com culturas espec&#xED;ficas da vizinhan&#xE7;a. Entretanto, a economia de Barcelona &#xE9; pouco diversificada e muito concentrada em arquitetura, arte e <italic>design</italic>, al&#xE9;m de apresentar fraquezas como a perda de moradias e criminalidade urbana end&#xEA;mica. O crescimento econ&#xF4;mico ocorre na regi&#xE3;o metropolitana, deixando novas &#xE1;reas de migrantes potencialmente isoladas e as transformando em guetos (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Foord 2008</xref>, pp.102-103). Entretanto, &#xE9; poss&#xED;vel observar que, no n&#xED;vel subestatal, apesar de haver clara desigualdade pol&#xED;tico-econ&#xF4;mica no territ&#xF3;rio de Barcelona, as burocracias municipais se fortaleceram para tratar de temas internacionais. No estatal, a capacidade da burocracia do governo central em lidar com problemas locais e a autonomia conferida &#xE0;s entidades subnacionais para a condu&#xE7;&#xE3;o de atividades internacionais em termos de suas compet&#xEA;ncias formais para temas de pol&#xED;tica externa foram ampliadas ap&#xF3;s a nomea&#xE7;&#xE3;o da cidade como sede dos Jogos Ol&#xED;mpicos, bem como a interdepend&#xEA;ncia entre a cidade e atores externos em iniciativas bilaterais e multilaterais no n&#xED;vel internacional. Barcelona reunia, assim, determinantes sinalizados por <xref ref-type="bibr" rid="B41">Soldatos (1990)</xref> para uma atividade paradiplom&#xE1;tica mais assertiva, em particular nos temas voltados para a economia criativa, como se comprovar&#xE1; nas pr&#xF3;ximas se&#xE7;&#xF5;es.</p>
<p>Com uma das melhores qualidades de vida no mundo, Toronto apresenta uma grande concentra&#xE7;&#xE3;o de bancos de investimento e representa o centro financeiro do Canad&#xE1; (<xref ref-type="bibr" rid="B45">Vital 2015</xref>, p.12). Desde o in&#xED;cio da d&#xE9;cada de 2000, a cidade investiu na produ&#xE7;&#xE3;o de documentos de trabalho para posicionar-se como cidade criativa, como o documento <italic>The Creative City: A Workprint</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B56">Toronto Culture 2001</xref>). Na segunda metade da d&#xE9;cada de 2000, uma <italic>joint venture</italic> com Londres conduziu a um programa de pesquisa extensivo visando a usar a pesquisa e o di&#xE1;logo entre as duas cidades e o exame das melhores pr&#xE1;ticas internacionais para fortalecer o crescimento das artes e das ind&#xFA;strias criativas, como cinema e TV, livros e revistas, m&#xED;dia digital interativa, <italic>design</italic> e arquitetura. Pouco depois, o <italic>Creative City Planning Framework</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B50">Authenticity 2008</xref>) foi elaborado como um documento de apoio &#xE0; estrat&#xE9;gia de desenvolvimento econ&#xF4;mico da prefeitura, a &#x201C;Agenda para a Prosperidade&#x201D;, que reconhecia os recursos criativos e culturais como funda&#xE7;&#xF5;es do sucesso de Toronto como uma cidade mundial e uma economia regional. Esse documento afirma que Toronto pode ganhar uma vantagem competitiva ao manter ind&#xFA;strias criativas robustas, que ajudam a aumentar a produtividade e o crescimento econ&#xF4;mico por meio de pesquisa, desenvolvimento e comercializa&#xE7;&#xE3;o de ideias. O planejamento aponta a relev&#xE2;ncia de estrat&#xE9;gias de investimento verticalmente integradas pelas tr&#xEA;s ordens de governo e horizontalmente integradas por parcerias p&#xFA;blico-privadas e parcerias com o terceiro setor para estrat&#xE9;gias e mecanismos de constru&#xE7;&#xE3;o urbana. A criatividade contribu&#xED;a para os temas estrat&#xE9;gicos da agenda. Quanto &#xE0; internacionaliza&#xE7;&#xE3;o, os objetivos eram captar benef&#xED;cios econ&#xF4;micos adicionais das conex&#xF5;es e da diversidade global da cidade e ampliar o investimento, o com&#xE9;rcio e o turismo ao promover Toronto em mercados internacionais estrat&#xE9;gicos. Nesse contexto, inseriam-se o apoio a uma pol&#xED;tica de realiza&#xE7;&#xE3;o de grandes eventos e uma estrat&#xE9;gia de atra&#xE7;&#xE3;o de eventos; o investimento em infraestrutura cultural visando a um forte posicionamento de Toronto como uma capital global com suas atra&#xE7;&#xF5;es culturais e criatividade; a realiza&#xE7;&#xE3;o de <italic>showcasing</italic> da diversidade e da hist&#xF3;ria cultural de Toronto; e o apoio a organiza&#xE7;&#xF5;es art&#xED;sticas como embaixadores culturais em locais relevantes. Em termos da produtividade e do crescimento, o planejamento apontava, por exemplo, para pol&#xED;ticas e procedimentos urbanos para atrair e facilitar o investimento e a gera&#xE7;&#xE3;o de empregos, a expans&#xE3;o e o estabelecimento de centros de excel&#xEA;ncia pela cidade, o apoio &#xE0; constru&#xE7;&#xE3;o de centros de converg&#xEA;ncia criativa e o desenvolvimento de estrat&#xE9;gias para fortalecer as ind&#xFA;strias criativas. No que diz respeito a oportunidades econ&#xF4;micas e inclus&#xE3;o, pretendia-se maximizar o potencial da for&#xE7;a de trabalho e ampliar a aprendizagem pela juventude, bem como promover o engajamento cultural por meio do desenvolvimento de eixos culturais comunit&#xE1;rios e da facilita&#xE7;&#xE3;o de acesso a eventos culturais (<xref ref-type="bibr" rid="B50">Authenticity 2008</xref>, pp.3-17).</p>
<p>Em termos do apoio &#xE0;s ind&#xFA;strias criativas, o Plano Cultural para a Cidade Criativa de 2003 estabelecia orienta&#xE7;&#xF5;es para o desenvolvimento cultural, ligadas &#xE0;s agendas socioecon&#xF4;mica e ambiental urbanas, e enfatizava o uso da arte e da cultura para posicionar a cidade como uma capital cultural global. Entretanto, na segunda metade da d&#xE9;cada de 2000, o progresso na implementa&#xE7;&#xE3;o do plano foi paralisado por conta da situa&#xE7;&#xE3;o financeira (<xref ref-type="bibr" rid="B50">Authenticity 2008</xref>, pp.12-13). Somaram-se &#xE0;s dificuldades financeiras problemas relacionados ao modelo de crescimento ultrapassado e ao sistema de governan&#xE7;a. A cidade teve um grande crescimento populacional, mas n&#xE3;o poderia estar baseado em autom&#xF3;veis. Para implementar melhorias, fazem-se necess&#xE1;rios n&#xE3;o s&#xF3; investimentos pesados no tr&#xE2;nsito, mas regimes de zoneamento mais flex&#xED;veis que promovessem maior densidade tanto no centro da cidade como nas regi&#xF5;es suburbanas. Al&#xE9;m disso, o problema fundamental da desigualdade geogr&#xE1;fica crescente &#xE9; produto das mesmas for&#xE7;as que trouxeram a prosperidade sem precedentes: conforme empresas, trabalhos e pessoas se aglomeram em &#xE1;reas da cidade, os contrastes entre essas &#xE1;reas e as menos favorecidas crescem. &#xC1;reas mais ricas pr&#xF3;ximas ao centro de Toronto t&#xEA;m melhores escolas e mais instala&#xE7;&#xF5;es culturais, o que produz mais crescimento econ&#xF4;mico, enquanto as mais pobres t&#xEA;m desemprego end&#xEA;mico e n&#xED;veis menores de educa&#xE7;&#xE3;o (<xref ref-type="bibr" rid="B48">Florida 2013</xref>). O problema da desigualdade geogr&#xE1;fica se observa em Toronto. A cidade canadense re&#xFA;ne todos os demais determinantes de uma a&#xE7;&#xE3;o paradiplom&#xE1;tica mais assertiva, como o fortalecimento de burocracias municipais no tratamento de temas internacionais, a gest&#xE3;o de problemas locais pela burocracia do governo central, a autonomia subnacional para a condu&#xE7;&#xE3;o de atividades internacionais e a interdepend&#xEA;ncia entre a cidade e atores externos em iniciativas bilaterais e multilaterais, como colocado por <xref ref-type="bibr" rid="B41">Soldatos (1990)</xref>. Observa-se que, como em Barcelona, as atividades relacionadas &#xE0; economia criativa assumem papel fundamental na estrat&#xE9;gia de desenvolvimento econ&#xF4;mico e de internacionaliza&#xE7;&#xE3;o da cidade, situando-a como uma cidade criativa.</p>
<p>Em cidades localizadas em Estados em desenvolvimento, o processo de expans&#xE3;o urbana levou a uma grande polariza&#xE7;&#xE3;o socioespacial, o que exigiu pol&#xED;ticas para responder &#xE0;s necessidades por moradias, mobilidade, empregos, prote&#xE7;&#xE3;o ao meio ambiente, acesso a novas tecnologias e redu&#xE7;&#xE3;o da pobreza (<xref ref-type="bibr" rid="B45">Vital 2015</xref>, p.6). O Rio de Janeiro se situa nesse contexto. Para ampliar o poder de atra&#xE7;&#xE3;o de investimentos, a cidade busca desenvolver uma correla&#xE7;&#xE3;o mais forte entre inova&#xE7;&#xE3;o e qualidade de vida, al&#xE9;m de promover sua imagem internacionalmente por eventos socioculturais de m&#xE9;dio e grande porte que sedia e seus bairros e atra&#xE7;&#xF5;es tur&#xED;sticas, desde suas praias e &#xE1;reas verdes at&#xE9; as favelas, que hoje despontam como locais de explora&#xE7;&#xE3;o pelo turismo. A cidade recebeu boas classifica&#xE7;&#xF5;es de risco de cr&#xE9;dito por ag&#xEA;ncias internacionais, tendo entrado em transa&#xE7;&#xF5;es diretas com o Banco Mundial para promover o desenvolvimento socioecon&#xF4;mico. Em parceria com os governos federal e estadual, a Prefeitura veio se empenhando para garantir que grandes eventos que tenham impacto sobre a economia criativa fossem realizados na cidade, como os Jogos Ol&#xED;mpicos e Paral&#xED;mpicos de 2016 (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Aprigio 2015</xref>, pp.49-50). A implementa&#xE7;&#xE3;o do projeto Porto Maravilha para a revitaliza&#xE7;&#xE3;o da zona portu&#xE1;ria visa ao desenvolvimento econ&#xF4;mico sustent&#xE1;vel da regi&#xE3;o e &#xE0; atra&#xE7;&#xE3;o de investimentos, em especial de empresas da economia criativa. Al&#xE9;m disso, iniciativas arquitet&#xF4;nicas feitas para abrigar espa&#xE7;os culturais &#x2013; como a Cidade das Artes na zona oeste e o novo Museu da Imagem e do Som na praia de Copacabana &#x2013; inserem-se no contexto de revitaliza&#xE7;&#xE3;o cultural da cidade. Tal revitaliza&#xE7;&#xE3;o resulta das mudan&#xE7;as da estrutura de gest&#xE3;o p&#xFA;blica, do maior engajamento da cidade com as din&#xE2;micas internacionais e da maior preocupa&#xE7;&#xE3;o com sua identidade internacional e a capta&#xE7;&#xE3;o de capital estrangeiro necess&#xE1;rio ao desenvolvimento (<xref ref-type="bibr" rid="B28">M&#xE8;rcher 2013</xref>, p.105).</p>
<p>A cultura &#xE9; vista como uma forma importante de aliviar tens&#xF5;es sociais, sendo promovida pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Ela busca posicionar a cidade como capital cultural do Brasil e utilizar a cultura como uma ferramenta de transforma&#xE7;&#xE3;o urbana, desenvolvimento econ&#xF4;mico e inclus&#xE3;o social. Por meio de programas que focam o apoio e a implementa&#xE7;&#xE3;o de projetos criativos locais, as autoridades municipais procuram ampliar a produ&#xE7;&#xE3;o cultural, democratizar o acesso &#xE0; cultura, expandir a rede de espa&#xE7;os culturais p&#xFA;blicos e promover a cultura local nacional e internacionalmente. O programa de apoio &#xE0; economia criativa investe em produ&#xE7;&#xE3;o, comercializa&#xE7;&#xE3;o, infraestrutura e treinamento nas atividades criativas, com &#xEA;nfase no cinema e na TV. Al&#xE9;m disso, o setor privado tamb&#xE9;m se envolve no patroc&#xED;nio da cultura na cidade, particularmente com festivais de grande porte e projetos de infraestrutura cultural. Em termos do desenvolvimento das ind&#xFA;strias criativas, o Rio de Janeiro possui valor agregado elevado nas suas exporta&#xE7;&#xF5;es de moda por conta do conte&#xFA;do simb&#xF3;lico e intang&#xED;vel mais alto presente em seus produtos, atraindo consumidores dispostos a pagar mais caro. Os mercados teatral e editorial de livros tiveram crescimento consider&#xE1;vel desde o in&#xED;cio da d&#xE9;cada de 1990, e o Rio de Janeiro &#xE9; o maior centro industrial audiovisual no Brasil. Com a miss&#xE3;o de promover a ind&#xFA;stria audiovisual na cidade, a Empresa Distribuidora de Filmes S.A. (Riofilme) investiu em cerca de 300 filmes de longa-metragem e 130 filmes de curta-metragem desde 1992. Em 2012, o Carnaval do Rio de Janeiro movimentou mais de R$ 1 bilh&#xE3;o e favoreceu a rede hoteleira da cidade, que atingiu taxa de ocupa&#xE7;&#xE3;o acima de 95%. A cidade do Rio de Janeiro concentra grande parte da renda e tamb&#xE9;m do emprego da economia criativa do estado &#x2013; cerca de 80% (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Figueiredo 2015</xref>, pp.33-41; <xref ref-type="bibr" rid="B58">World Cities Culture Forum 2015</xref>).</p>
<p>Entretanto, al&#xE9;m dos evidentes contrastes socioecon&#xF4;micos entre regi&#xF5;es da cidade, o Rio de Janeiro apresenta outros problemas t&#xED;picos de cidades criativas em Estados em desenvolvimento, como dificuldades de financiamento, tendo em vista que a intangibilidade dos bens e servi&#xE7;os criativos representa um ativo de dif&#xED;cil valora&#xE7;&#xE3;o por parte dos investidores. Isso faz com que os empreendimentos criativos sejam frequentemente associados a alto risco, gerando-se taxas de juros escorchantes. Ademais, os produtos culturais e criativos de massa inundam os mercados locais num contexto de assimetria econ&#xF4;mica e circula&#xE7;&#xE3;o de valores simb&#xF3;licos diversos. O marco regulat&#xF3;rio &#xE9; inadequado para lidar com o conflito entre os direitos individuais de remunera&#xE7;&#xE3;o financeira do criador e os direitos de acesso p&#xFA;blico ao conhecimento gerado. Encontram-se tamb&#xE9;m dificuldades de apropria&#xE7;&#xE3;o das tecnologias por quest&#xF5;es de custo e regulamenta&#xE7;&#xE3;o, bem como um abismo de conhecimento e habilidades para permitir o entendimento e uso da informa&#xE7;&#xE3;o dispon&#xED;vel nas redes. Nas discuss&#xF5;es sobre o sistema educacional, parecem ter prioridade quest&#xF5;es de ordem t&#xE9;cnica, mas o fomento da capacidade de racioc&#xED;nio e da expans&#xE3;o do talento dos estudantes &#xE9; deixado em segundo plano (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Reis 2008</xref>, pp.35-46).</p>
<p>Em compara&#xE7;&#xE3;o com Barcelona e Toronto, o Rio de Janeiro apresenta mais desafios para o desenvolvimento de uma paradiplomacia assertiva levando-se em conta os determinantes enumerados por <xref ref-type="bibr" rid="B41">Soldatos (1990)</xref>, uma vez que as burocracias municipais ainda est&#xE3;o em processo de fortalecimento para tratar de temas internacionais, e a autonomia conferida &#xE0; cidade para a condu&#xE7;&#xE3;o de atividades internacionais foi ampliada apenas muito recentemente no contexto de sua nomea&#xE7;&#xE3;o para a realiza&#xE7;&#xE3;o de eventos esportivos, bem como a interdepend&#xEA;ncia entre a cidade e atores externos em iniciativas bilaterais e multilaterais no n&#xED;vel internacional. Dadas essas condi&#xE7;&#xF5;es, ficar&#xE1; claro nas pr&#xF3;ximas se&#xE7;&#xF5;es que a paradiplomacia voltada para atividades da economia criativa ainda se mostra incipiente no Rio de Janeiro, mas segue crescendo no contexto do pr&#xF3;prio desenvolvimento de sua internacionaliza&#xE7;&#xE3;o. A compara&#xE7;&#xE3;o entre os determinantes de uma paradiplomacia assertiva das tr&#xEA;s cidades fica mais clara na <xref ref-type="table" rid="t2">Tabela 2</xref>.</p>
<p>
<table-wrap id="t2">
<label>Tabela 2</label>
<caption>
<title>Determinantes da assertividade da paradiplomacia &#x2013; Barcelona, Toronto e Rio de Janeiro</title></caption>
<alternatives>
	<graphic xlink:href="t2.jpg"/>
<table frame="hsides" rules="groups">
<colgroup width="25%">
<col/>
<col/>
<col/>
<col/></colgroup>
<thead style="border-top: thin solid; border-bottom: thin solid; border-color: #000000">
<tr>
<th align="left"/>
<th align="center">Barcelona</th>
<th align="center">Toronto</th>
<th align="center">Rio de Janeiro</th></tr></thead>
<tbody style="border-bottom: thin solid; border-color: #000000">
<tr>
<td align="left">Segmenta&#xE7;&#xE3;o / Desigualdade urbana</td>
<td align="center">Alta</td>
<td align="center">M&#xE9;dia</td>
<td align="center">Alta</td></tr>
<tr>
<td align="left">Capacita&#xE7;&#xE3;o das burocracias municipais</td>
<td align="center">Alta</td>
<td align="center">Alta</td>
<td align="center">M&#xE9;dia</td></tr>
<tr>
<td align="left">Harmonia entre governos central e municipal</td>
<td align="center">M&#xE9;dia / Alta</td>
<td align="center">Alta</td>
<td align="center">M&#xE9;dia / Alta</td></tr>
<tr>
<td align="left">Autonomia delegada &#xE0;s prefeituras</td>
<td align="center">Alta</td>
<td align="center">Alta</td>
<td align="center">M&#xE9;dia / Alta</td></tr>
<tr>
<td align="left">Interdepend&#xEA;ncia</td>
<td align="center">Alta</td>
<td align="center">Alta</td>
<td align="center">M&#xE9;dia</td></tr></tbody></table></alternatives>
<table-wrap-foot><attrib>Fonte: O autor.</attrib></table-wrap-foot></table-wrap></p>
<p>Na pr&#xF3;xima se&#xE7;&#xE3;o, veremos mais a fundo as estrat&#xE9;gias de internacionaliza&#xE7;&#xE3;o de cidades e, logo ap&#xF3;s, a import&#xE2;ncia da paradiplomacia nesse processo, em especial em cidades criativas.</p>
</sec>
<sec>
<title>IV. A internacionaliza&#xE7;&#xE3;o de cidades</title>
<p>A globaliza&#xE7;&#xE3;o veio gradativamente estimulando in&#xFA;meras cidades a investir na fixa&#xE7;&#xE3;o de uma imagem competitiva no n&#xED;vel internacional, visando captar investimentos produtivos, imobili&#xE1;rios ou tur&#xED;sticos e atrair recursos humanos estrangeiros (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Bessa <italic>et al.</italic>, 2007</xref>). Como parte de uma estrat&#xE9;gia de internacionaliza&#xE7;&#xE3;o, as cidades precisam desenvolver uma plataforma log&#xED;stica competente para a atividade comercial &#x2013; sem a qual os fluxos de pessoas, investimentos e ideias s&#xE3;o limitados &#x2013; e a conectividade entre aeroportos, portos e sistemas de estradas e rodovias. A internacionaliza&#xE7;&#xE3;o requer a melhoria de infraestrutura, como acomoda&#xE7;&#xF5;es para receber trabalhadores estrangeiros e reter talentos dom&#xE9;sticos que possam ter ambi&#xE7;&#xF5;es internacionais, transporte p&#xFA;blico para garantir a mobilidade urbana de trabalhadores estrangeiros e profissionais dom&#xE9;sticos empregados em empresas globais e a cria&#xE7;&#xE3;o de <italic>clusters</italic> orientados para setores internacionais, incluindo a cria&#xE7;&#xE3;o de escolas internacionais, universidades e centros empresariais para facilitar as opera&#xE7;&#xF5;es de neg&#xF3;cios. Melhorias de infraestrutura ajudam a reduzir os custos de produ&#xE7;&#xE3;o, o que pode encorajar o investimento internacional. Instala&#xE7;&#xF5;es culturais adequadas servem aos residentes nacionais e internacionais, ajudam a atrair turistas e fortalecem a imagem da cidade em termos de qualidade de vida perante empresas que desejam investir (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Clark &#x26; Moonen 2009</xref>, pp.9-10).</p>
<p>Dentre as pol&#xED;ticas, pr&#xE1;ticas e atividades urbanas poss&#xED;veis para centros urbanos que visem &#xE0; internacionaliza&#xE7;&#xE3;o, pode-se citar o <italic>marketing</italic> urbano, que consiste no emprego de a&#xE7;&#xF5;es, estrat&#xE9;gias de an&#xE1;lise, planejamento, execu&#xE7;&#xE3;o e controle de processos a fim de atender &#xE0;s necessidades e &#xE0;s expectativas de moradores e empresas e de estimular a competitividade da cidade no ambiente concorrencial (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Bessa <italic>et al.</italic>, 2007</xref>). O <italic>marketing</italic> urbano desenvolveu-se como uma filosofia de gest&#xE3;o que busca criar um conjunto de mensagens que reajustam a imagem da cidade perante grupos internacionais para que ela corresponda &#xE0; realidade emergente no local. Muitas cidades ainda priorizam investidores e turistas como alvos de suas iniciativas de <italic>marketing</italic>, mas outras j&#xE1; se voltam para p&#xFA;blicos mais especializados, como talentos profissionais estrangeiros, estudantes ou empresas de setores espec&#xED;ficos (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Clark &#x26; Moonen 2009</xref>, pp.9-10). O <italic>marketing</italic> urbano n&#xE3;o se refere, assim, &#xE0;s tentativas de camuflagem dos problemas da cidade nem &#xE0; concentra&#xE7;&#xE3;o em solu&#xE7;&#xF5;es mercadol&#xF3;gicas ou ef&#xEA;meras. Ele busca interferir sobre decis&#xF5;es locacionais das empresas, de consumidores ou de turistas e n&#xE3;o est&#xE1; voltado apenas para trazer investimentos ligados &#xE0; esfera de produ&#xE7;&#xE3;o, mas atrair consumidores externos e ampliar os n&#xED;veis de consumo interno (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Moura 2007</xref>, pp.348-349). Cidades buscando vantagens competitivas tamb&#xE9;m favoreceram o crescimento da migra&#xE7;&#xE3;o, mas tenderam a se concentrar na melhoria do acesso a trabalhadores da economia do conhecimento. A <italic>expertise</italic> trazida pelos migrantes pode elevar os padr&#xF5;es das organiza&#xE7;&#xF5;es que operam nos diversos setores econ&#xF4;micos na &#xE1;rea urbana, permitindo o surgimento de <italic>clusters</italic> de atividade de alto conhecimento (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Clark &#x26; Moonen 2009</xref>, p.11).</p>
<p>A realiza&#xE7;&#xE3;o de grandes eventos internacionais &#x2013; como competi&#xE7;&#xF5;es esportivas ou eventos culturais de grande porte &#x2013; pode ser utilizada para justificar o desenvolvimento de projetos de transforma&#xE7;&#xE3;o urbana, inclusive no que diz respeito ao remodelamento dos desenhos das cidades. Essas cidades tamb&#xE9;m investem em &#xED;cones arquitet&#xF4;nicos n&#xE3;o apenas pela sua monumentalidade e escala: edifica&#xE7;&#xF5;es s&#xE3;o utilizadas para alavancar desenvolvimentos locais ou revitalizar &#xE1;reas, funcionando como catalizadores no processo de recupera&#xE7;&#xE3;o. &#xC1;reas hist&#xF3;ricas renovadas, obras e produ&#xE7;&#xF5;es urban&#xED;sticas peculiares, parques, pra&#xE7;as, circuitos paisag&#xED;sticos, centros de cultura, museus, salas de espet&#xE1;culos, feiras e mercados s&#xE3;o apresentados como atributos das cidades, bem como a diversifica&#xE7;&#xE3;o da oferta de bens e servi&#xE7;os. Simultaneamente, a evoca&#xE7;&#xE3;o de estilos de vida e de formas de ser e viver na cidade demarcam a ideia de que a vida naquele lugar pode ser melhor do que em outros locais (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Moura 2007</xref>, p.349).</p>
<p>Os marcos regulat&#xF3;rios assumem um papel importante para centros urbanos que visam &#xE0; internacionaliza&#xE7;&#xE3;o, pois constituem conjuntos de legisla&#xE7;&#xF5;es, normas e procedimentos institu&#xED;dos pelos governos que interferem na concep&#xE7;&#xE3;o, no planejamento, na implementa&#xE7;&#xE3;o ou no controle dos espa&#xE7;os p&#xFA;blicos, contribuindo para manter ou alterar a paisagem de uma cidade. Cabe citar, por exemplo, os planos diretores e as leis de uso e ocupa&#xE7;&#xE3;o do solo. Al&#xE9;m deles, destacam-se tamb&#xE9;m as legisla&#xE7;&#xF5;es ambientais com impacto sobre a ocupa&#xE7;&#xE3;o territorial, as fiscais &#x2013; que podem isentar de impostos ind&#xFA;strias, empresas e servi&#xE7;os que exer&#xE7;am impacto direto sobre o desenho urbano &#x2013; e as de controle social na &#xE1;rea de seguran&#xE7;a e migra&#xE7;&#xE3;o, que podem ampliar ou reduzir o fluxo de popula&#xE7;&#xE3;o local e turistas (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Bessa <italic>et al.</italic>, 2007</xref>). &#xC9; fundamental ressaltar que, em in&#xFA;meros Estados, o marco jur&#xED;dico e institucional em vigor n&#xE3;o reflete de maneira adequada a realidade da a&#xE7;&#xE3;o externa dos governos locais, o que aponta para a necessidade de revis&#xE3;o desse marco. A melhoria das disposi&#xE7;&#xF5;es legais &#xE9; necess&#xE1;ria &#xE0; oferta de maior seguran&#xE7;a jur&#xED;dica e sustentabilidade em face de mudan&#xE7;as nas administra&#xE7;&#xF5;es local e nacional. Marcos regulat&#xF3;rios adequados podem tornar mais f&#xE1;cil o desenvolvimento de conv&#xEA;nios e acordos com atores externos e gerar coordena&#xE7;&#xE3;o e coer&#xEA;ncia para a colabora&#xE7;&#xE3;o das autoridades locais com outras ordens de governo, o poder legislativo e as organiza&#xE7;&#xF5;es internacionais, numa articula&#xE7;&#xE3;o que viabilize a inser&#xE7;&#xE3;o de temas urbanos e territoriais nas agendas globais. O di&#xE1;logo do governo com diferentes atores que operem no territ&#xF3;rio &#x2013; sociedade civil, formadores de opini&#xE3;o, academia e setor privado &#x2013; sobre temas internacionais pode conferir perman&#xEA;ncia, legitimidade e sustentabilidade ao processo de internacionaliza&#xE7;&#xE3;o, o qual requer mecanismos de participa&#xE7;&#xE3;o cidad&#xE3; e instrumentos adequados de articula&#xE7;&#xE3;o, transpar&#xEA;ncia e presta&#xE7;&#xE3;o de contas. A internacionaliza&#xE7;&#xE3;o exige recursos para se desenvolver de maneira profissional e eficiente, como escrit&#xF3;rios e pessoal capacitado, recursos t&#xE9;cnicos, financiamento, mecanismos de avalia&#xE7;&#xE3;o de resultados, comunica&#xE7;&#xE3;o interna e coordena&#xE7;&#xE3;o para evitar dispers&#xF5;es e sobreposi&#xE7;&#xF5;es (<xref ref-type="bibr" rid="B54">Proyecto Allas 2015</xref>).</p>
<p>Quanto &#xE0;s pol&#xED;ticas urbanas, o planejamento estrat&#xE9;gico &#xE9; orientado para a gest&#xE3;o empresarial das cidades, que se torna vi&#xE1;vel pela a&#xE7;&#xE3;o de um conjunto de agentes pol&#xED;tico-econ&#xF4;micos voltados para a execu&#xE7;&#xE3;o de projetos de renova&#xE7;&#xE3;o urbana, inseridos em circuitos de valoriza&#xE7;&#xE3;o capitalista (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Moura 2007</xref>, p.348). Cumpre destacar o papel de parcerias estrat&#xE9;gicas para projetos de interven&#xE7;&#xE3;o urbana que envolvam entidades p&#xFA;blicas, empresas e organiza&#xE7;&#xF5;es n&#xE3;o-governamentais, em face da redu&#xE7;&#xE3;o do papel do Estado como investidor, desde a d&#xE9;cada de 1980. Deve-se lembrar que est&#xE3;o inseridas no desenvolvimento dessas parcerias as articula&#xE7;&#xF5;es de grandes grupos econ&#xF4;micos, as quais podem levar a problemas no exerc&#xED;cio da democracia local ao fazerem com que as cidades funcionem como agentes econ&#xF4;micos orientados por regras ditadas por mercados (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Bessa <italic>et al.</italic>, 2007</xref>).</p>
</sec>
<sec>
<title>V. A relev&#xE2;ncia da paradiplomacia para as cidades criativas</title>
<p>A exist&#xEA;ncia de coopera&#xE7;&#xE3;o descentralizada entre governos locais e as a&#xE7;&#xF5;es colocadas no &#xE2;mbito da paradiplomacia das cidades abarcam iniciativas a favor da paz, pol&#xED;ticas locais sobre migra&#xE7;&#xF5;es, promo&#xE7;&#xE3;o econ&#xF4;mica, respostas a problemas naturais e cat&#xE1;strofes e atratividade territorial em mat&#xE9;ria de turismo, esportes e investimento. A troca de experi&#xEA;ncias e boas pr&#xE1;ticas e a forma&#xE7;&#xE3;o de alian&#xE7;as para o desenvolvimento das pol&#xED;ticas p&#xFA;blicas locais podem ser prof&#xED;cuas em termos de aprendizagem m&#xFA;tua (<xref ref-type="bibr" rid="B54">Proyecto Allas 2015</xref>). Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B1">Aldecoa e Keating (1999)</xref>, uma nova forma de regionalismo definida pelo contexto global e mercadol&#xF3;gico d&#xE1;-se com a ascens&#xE3;o de cidades como atores no n&#xED;vel internacional. Coaliz&#xF5;es para o desenvolvimento surgiram nesses espa&#xE7;os com os objetivos de gerir a sua inser&#xE7;&#xE3;o no mercado global e controlar os efeitos socialmente desintegradores do mercado. Diante de tal fen&#xF4;meno, a literatura acad&#xEA;mica sobre a paradiplomacia &#x2013; particularmente a desenvolvida por cidades &#x2013; cresceu exponencialmente ao redor do mundo e tamb&#xE9;m no Brasil, onde as rela&#xE7;&#xF5;es de institui&#xE7;&#xF5;es subnacionais com suas cong&#xEA;neres ao redor do planeta contribuem para a inser&#xE7;&#xE3;o do Estado no cen&#xE1;rio internacional sem entrar em choque com a autoridade do governo central sobre tais iniciativas de atua&#xE7;&#xE3;o externa (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Marcovitch &#x26; Dallari 2014</xref>, p.5).</p>
<p>O conceito de paradiplomacia &#xE9; baseado em um arcabou&#xE7;o complexo de rela&#xE7;&#xF5;es internacionais conduzidas por governos subnacionais, regionais, locais ou n&#xE3;o centrais visando &#xE0; consecu&#xE7;&#xE3;o de seus pr&#xF3;prios objetivos (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Lessa 2007</xref>). Com a paradiplomacia, as cidades reproduzem a l&#xF3;gica de funcionamento pol&#xED;tico estrat&#xE9;gico dos Estados ao criarem institui&#xE7;&#xF5;es internacionais &#x2013; como as redes de cidades Eurocity e Mercocidades &#x2013; ou firmarem acordos bilaterais e minilaterais com outros munic&#xED;pios. Os governos subnacionais &#x2013; nesse caso, as prefeituras das cidades &#x2013; n&#xE3;o s&#xE3;o governos soberanos capazes de buscar o interesse nacional de forma unificada e coesa. Por isso, a paradiplomacia ocorre de forma paralela &#xE0; diplomacia do Estado e &#xE9; implementada por diferentes atores subnacionais, podendo atuar como propulsora de desenvolvimento regional e trazer inova&#xE7;&#xF5;es &#xE0;s pol&#xED;ticas p&#xFA;blicas de governos locais. A paradiplomacia pode ser justificada na medida em que governos locais est&#xE3;o interessados em coopera&#xE7;&#xE3;o t&#xE9;cnica no exterior, empr&#xE9;stimos de institui&#xE7;&#xF5;es financeiras internacionais e influ&#xEA;ncia nos regimes internacionais e nas pol&#xED;ticas das organiza&#xE7;&#xF5;es internacionais que afetam as cidades. Essa forma de coopera&#xE7;&#xE3;o focaliza problemas locais e territoriais e oferece compet&#xEA;ncia e <italic>know-how</italic> sem recorrer a consultorias ou especialistas externos. Por meio da paradiplomacia, pode-se estabelecer coopera&#xE7;&#xE3;o em m&#xE9;dio e longo prazos com a utiliza&#xE7;&#xE3;o de recursos pr&#xF3;prios, de forma que os atores envolvidos estabelecem as modalidades de coopera&#xE7;&#xE3;o e abrem caminhos para a inclus&#xE3;o de agentes sociais locais e uma rela&#xE7;&#xE3;o mais direta e participativa dos cidad&#xE3;os. Com a condu&#xE7;&#xE3;o de atividades paradiplom&#xE1;ticas, podem-se ter como objetivos o fortalecimento da dimens&#xE3;o local nas agendas nacionais ou regionais, a press&#xE3;o para uma maior descentraliza&#xE7;&#xE3;o das compet&#xEA;ncias e dos recursos dos Estados e a participa&#xE7;&#xE3;o nas agendas de integra&#xE7;&#xE3;o regional. Para ampliar sua influ&#xEA;ncia no mundo globalizado, os governos locais podem participar de feiras internacionais, atuar no processo de gemina&#xE7;&#xE3;o de cidades, fazer parte de redes internacionais que estimulem a aproxima&#xE7;&#xE3;o de entidades subnacionais e adquiram um car&#xE1;ter tem&#xE1;tico-setorial ou geogr&#xE1;fico ou desenvolver uma coopera&#xE7;&#xE3;o multin&#xED;vel, que conte com a participa&#xE7;&#xE3;o de inst&#xE2;ncias nacionais, regionais ou internacionais em dimens&#xF5;es t&#xE9;cnicas ou mesmo pol&#xED;tico-estrat&#xE9;gicas (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Fernandes &#x26; Ribeiro 2015</xref>, pp.309-315). A paradiplomacia pode acompanhar uma &#x201C;gest&#xE3;o internacional local&#x201D;, que implica o desenvolvimento de novas estrat&#xE9;gias organizacionais municipais e parcerias entre as governan&#xE7;as local e global, particularmente em termos de programas de infraestrutura, assist&#xEA;ncia t&#xE9;cnica e coopera&#xE7;&#xE3;o para o desenvolvimento. A constru&#xE7;&#xE3;o de capacidades e institui&#xE7;&#xF5;es em n&#xED;vel local assume papel importante nessa estrat&#xE9;gia (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Milani &#x26; Ribeiro 2011</xref>, p.34).</p>
<p>&#xC9; poss&#xED;vel verificar a relev&#xE2;ncia das estrat&#xE9;gias paradiplom&#xE1;ticas das cidades pela pr&#xF3;pria institucionaliza&#xE7;&#xE3;o das secretarias e &#xF3;rg&#xE3;os respons&#xE1;veis pelas a&#xE7;&#xF5;es internacionais e pelos enfoques dados aos projetos paradiplom&#xE1;ticos nos programas urbanos. A paradiplomacia pode articular-se nas dimens&#xF5;es pol&#xED;tica, econ&#xF4;mica e de coopera&#xE7;&#xE3;o (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Lecours 2008</xref>), mas a dimens&#xE3;o econ&#xF4;mica assume destaque para in&#xFA;meras cidades, uma vez que os focos de suas estrat&#xE9;gias paradiplom&#xE1;ticas t&#xEA;m sido a proje&#xE7;&#xE3;o de vantagens comparativas do local com rela&#xE7;&#xE3;o ao seu potencial econ&#xF4;mico &#x2013; como m&#xE3;o de obra qualificada e est&#xED;mulo &#xE0; inova&#xE7;&#xE3;o &#x2013;, a divulga&#xE7;&#xE3;o das potencialidades tur&#xED;sticas e o impulso para a competi&#xE7;&#xE3;o por investimentos estrangeiros por meio da atra&#xE7;&#xE3;o de novos neg&#xF3;cios ou da busca por investimentos de institui&#xE7;&#xF5;es internacionais. Em &#xE1;reas com altos n&#xED;veis de desenvolvimento, as cidades buscam predominantemente focar as estrat&#xE9;gias paradiplom&#xE1;ticas na dimens&#xE3;o econ&#xF4;mica para manter ou aprofundar esses n&#xED;veis. Em regi&#xF5;es em desenvolvimento, houve &#xEA;nfase maior na dimens&#xE3;o pol&#xED;tica e de coopera&#xE7;&#xE3;o pelas cidades, com os objetivos de aprofundamento dos mecanismos de constru&#xE7;&#xE3;o de agendas em comum e aprimoramento dos mecanismos da governan&#xE7;a local em vista dos desafios trazidos pela urbaniza&#xE7;&#xE3;o. Ao se acentuar a polariza&#xE7;&#xE3;o socioespacial com a expans&#xE3;o dos centros urbanos, gera-se uma demanda maior pela oferta de moradias acess&#xED;veis, transporte p&#xFA;blico, empregos e infraestrutura b&#xE1;sica. As crises econ&#xF4;micas mundiais trazem preocupa&#xE7;&#xF5;es adicionais para as cidades, j&#xE1; que se observam uma retra&#xE7;&#xE3;o de recursos dispon&#xED;veis para investimentos em infraestrutura e uma cautela maior na expans&#xE3;o de neg&#xF3;cios (<xref ref-type="bibr" rid="B45">Vital 2015</xref>, p.2, pp.4-7).</p>
<p>A economia criativa pode ser concebida como recurso capaz de estimular o desenvolvimento de pol&#xED;ticas voltadas para a inclus&#xE3;o social, a requalifica&#xE7;&#xE3;o de centros urbanos e a gera&#xE7;&#xE3;o de emprego e renda. Por conta disso, sua presen&#xE7;a foi garantida na agenda de institui&#xE7;&#xF5;es governamentais, ag&#xEA;ncias multilaterais, bancos de desenvolvimento e organiza&#xE7;&#xF5;es n&#xE3;o-governamentais. Nesse contexto, as cidades se configuram como espa&#xE7;os que permitem a maior participa&#xE7;&#xE3;o dos cidad&#xE3;os e que viabilizam a aplica&#xE7;&#xE3;o da criatividade para a solu&#xE7;&#xE3;o de problemas ou a antecipa&#xE7;&#xE3;o de oportunidades na forma de inova&#xE7;&#xF5;es. O conte&#xFA;do criativo &#x2013; na forma de produtos, servi&#xE7;os, patrim&#xF4;nio material e imaterial e manifesta&#xE7;&#xF5;es de car&#xE1;ter &#xFA;nico &#x2013; pode agregar valor a setores econ&#xF4;micos tradicionais dessas cidades e formar um ambiente criativo pela conviv&#xEA;ncia de diversidades e manifesta&#xE7;&#xF5;es. Reconhecendo-se a import&#xE2;ncia do conte&#xFA;do criativo, a paradiplomacia das cidades pode exercer um papel fundamental na forma&#xE7;&#xE3;o e na consolida&#xE7;&#xE3;o de ambientes criativos ao buscar financiamento em programas de coopera&#xE7;&#xE3;o internacional centrados no fortalecimento das capacidades dos governos locais, na promo&#xE7;&#xE3;o da democracia e no apoio &#xE0; descentraliza&#xE7;&#xE3;o. A articula&#xE7;&#xE3;o de parcerias e de projetos coletivos permite viabilizar a integra&#xE7;&#xE3;o fronteiri&#xE7;a, a maior circula&#xE7;&#xE3;o de pessoas, o interc&#xE2;mbio de experi&#xEA;ncias, a cidadania regional e a inclus&#xE3;o social. Nas discuss&#xF5;es sobre pol&#xED;ticas p&#xFA;blicas e projetos regionais dentro das redes de cidades, temas como inova&#xE7;&#xE3;o e economia criativa entram na agenda pol&#xED;tica como partes das estrat&#xE9;gias de desenvolvimento socioecon&#xF4;mico. Busca-se contribuir para a profissionaliza&#xE7;&#xE3;o dos agentes ligados &#xE0;s atividades das ind&#xFA;strias criativas e chamar a aten&#xE7;&#xE3;o de gestores p&#xFA;blicos e da sociedade sobre a import&#xE2;ncia da economia criativa como estrat&#xE9;gia de desenvolvimento. As trocas de experi&#xEA;ncias baseadas em estrat&#xE9;gias pol&#xED;ticas para o est&#xED;mulo &#xE0; economia criativa podem tamb&#xE9;m apontar para a constru&#xE7;&#xE3;o de um di&#xE1;logo mais robusto entre os setores p&#xFA;blico e privado (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Fernandes &#x26; Ribeiro 2015</xref>, pp.309-317), o que se mostra fundamental especialmente para Estados em desenvolvimento.</p>
<p>O engajamento com organismos internacionais por meio da paradiplomacia torna-se fundamental para cidades criativas, tendo em vista a import&#xE2;ncia dada por aquelas institui&#xE7;&#xF5;es ao papel da economia criativa como propulsora de desenvolvimento econ&#xF4;mico. Isso fica evidente no Relat&#xF3;rio de Economia Criativa 2010, confeccionado pela UNCTAD. Nele, resgatam-se os objetivos de desenvolvimento da Declara&#xE7;&#xE3;o do Mil&#xEA;nio, como a erradica&#xE7;&#xE3;o da pobreza e a redu&#xE7;&#xE3;o da desigualdade. As ind&#xFA;strias criativas podem gerar receita e trazer oportunidades de emprego concili&#xE1;veis com obriga&#xE7;&#xF5;es comunit&#xE1;rias. Ainda que se saiba que rela&#xE7;&#xF5;es de trabalho prec&#xE1;rias se sustentam tamb&#xE9;m na economia criativa, ela pode gradualmente contribuir para a igualdade de g&#xEA;nero ao oferecer oportunidades para que as mulheres se engajem na atividade criativa, tendo como fim recompensas econ&#xF4;micas e culturais, e estimular projetos de aprimoramento das capacidades que favore&#xE7;am pessoas carentes, especialmente no artesanato e na moda. As atividades criativas podem ser tamb&#xE9;m um meio eficiente de gerar renda e envolver em trabalho produtivo jovens que, de outra forma, poderiam estar desempregados ou envolvidos em atividades il&#xED;citas. Al&#xE9;m desses poss&#xED;veis benef&#xED;cios, as parcerias globais constru&#xED;das em organismos internacionais podem melhorar a produ&#xE7;&#xE3;o cultural e os ganhos comerciais dos Estados em desenvolvimento. Essa possibilidade se coloca uma vez que tais parcerias facilitem o acesso ao mercado global de atividades culturais e de produtos e servi&#xE7;os criativos, bem como ampliem a mobilidade de artistas e profissionais culturais do mundo em desenvolvimento aos principais mercados e criem programas de constru&#xE7;&#xE3;o de capacidades para a melhoria das habilidades para neg&#xF3;cios, do empreendedorismo cultural e da compreens&#xE3;o dos direitos de propriedade intelectual. Essas parcerias tamb&#xE9;m facilitam a transfer&#xEA;ncia de tecnologias de informa&#xE7;&#xE3;o e comunica&#xE7;&#xE3;o e outras ferramentas para a cria&#xE7;&#xE3;o e a distribui&#xE7;&#xE3;o de conte&#xFA;do criativo digitalizado, o acesso a financiamentos e a atra&#xE7;&#xE3;o de investidores em esquemas para coprodu&#xE7;&#xF5;es e empreendimentos conjuntos (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Duque 2015</xref>, pp.494-495; <xref ref-type="bibr" rid="B57">UNCTAD 2010</xref>).</p>
</sec>
<sec>
<title>VI. A paradiplomacia e a internacionaliza&#xE7;&#xE3;o das cidades criativas</title>
<p>A partir da identifica&#xE7;&#xE3;o dos determinantes das atividades paradiplom&#xE1;ticas nos estudos de caso desta pesquisa e da discuss&#xE3;o da relev&#xE2;ncia da paradiplomacia para a internacionaliza&#xE7;&#xE3;o das cidades criativas, cumpre examinar a paradiplomacia desenvolvida por cada uma das cidades criativas consideradas neste estudo. A paradiplomacia de Barcelona deu particular relev&#xE2;ncia &#xE0; coopera&#xE7;&#xE3;o t&#xE9;cnica internacional no contexto da revitaliza&#xE7;&#xE3;o da cidade, reunindo capitais internacionais diante da realiza&#xE7;&#xE3;o de um megaevento esportivo como os Jogos Ol&#xED;mpicos. Atores dom&#xE9;sticos e externos intensificaram a coopera&#xE7;&#xE3;o internacional ao venderem a atratividade da cidade aos investidores internacionais por meio da coes&#xE3;o social em torno dos objetivos de crescimento e da exist&#xEA;ncia de metas comuns entre os setores sociais, o que liderou a participa&#xE7;&#xE3;o de institui&#xE7;&#xF5;es financeiras, megaconstrutoras e incorporadoras, al&#xE9;m de profissionais como arquitetos e <italic>designers</italic>, ligados ao desenvolvimento da economia criativa. Acentuava-se a percep&#xE7;&#xE3;o de que as quest&#xF5;es locais estavam interligadas ao cen&#xE1;rio internacional, o que impactou a popula&#xE7;&#xE3;o e permitiu o apoio sociopol&#xED;tico &#xE0;s a&#xE7;&#xF5;es governamentais (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Carvalho 2014</xref>, p.p.15-20). O reconhecimento de Barcelona como um participante ativo no cen&#xE1;rio internacional est&#xE1; baseado na sua transforma&#xE7;&#xE3;o de uma economia industrial para uma economia criativa. Nesse contexto, o conselho da cidade, de forma semelhante a muitas outras autoridades de cidades operando em metr&#xF3;poles mundiais desde a d&#xE9;cada de 1980, iniciaram as atividades paradiplom&#xE1;ticas como uma estrat&#xE9;gia para a atra&#xE7;&#xE3;o de capital e a promo&#xE7;&#xE3;o do desenvolvimento local num novo sistema de governan&#xE7;a multin&#xED;vel. Diante da globaliza&#xE7;&#xE3;o econ&#xF4;mica, a emerg&#xEA;ncia da paradiplomacia &#x2013; em especial na dimens&#xE3;o cultural &#x2013; mostrou-se fortemente relacionada &#xE0; reestrutura&#xE7;&#xE3;o do Estado e &#xE0; intensifica&#xE7;&#xE3;o do uso das marcas culturais de Barcelona como ferramentas para concorr&#xEA;ncia global (<xref ref-type="bibr" rid="B47">Zamorano &#x26; Morat&#xF3; 2015</xref>). Em tal estrat&#xE9;gia paradiplom&#xE1;tica, tiveram especial relev&#xE2;ncia a atra&#xE7;&#xE3;o do investimento estrangeiro direto &#x2013; que tinha como condicionantes sistemas de transporte e telecomunica&#xE7;&#xF5;es, em torno dos quais as disputas entre governos locais e centrais foi atenuada em face da magnitude do evento esportivo &#x2013; e a dimens&#xE3;o de &#x201C;cidade global&#x201D;, que gerou chances &#xFA;nicas de exporta&#xE7;&#xE3;o dos produtos e servi&#xE7;os criativos da cidade por meio da promo&#xE7;&#xE3;o comercial e miss&#xF5;es empresariais que destacaram a m&#xE3;o de obra qualificada, os avan&#xE7;os tecnol&#xF3;gicos e as facilidades ao empreendedorismo. A abordagem cultural de cidade, empregada pelos grupos de arquitetos e <italic>designers</italic>, resultou de um &#x201C;tri&#xE2;ngulo virtuoso&#x201D;: um acontecimento gerou desenvolvimento urbano, que, por sua vez, impulsionou o crescimento econ&#xF4;mico, o que induziu &#xE0; organiza&#xE7;&#xE3;o de novos acontecimentos. Os v&#xE9;rtices, refor&#xE7;ados pela coopera&#xE7;&#xE3;o internacional, foram a cidade, o com&#xE9;rcio e a cultura, numa f&#xF3;rmula exportada para outras cidades ao redor do mundo baseada em um grande evento-&#xE2;ncora para investidores e na cria&#xE7;&#xE3;o de consenso local em torno de transforma&#xE7;&#xF5;es por vezes muito radicais (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Carvalho 2014</xref>, pp.29-30, pp.37-38).</p>
<p>O &#x201C;Modelo Barcelona&#x201D; pode ser dividido em tr&#xEA;s fases: a euforia pelo <italic>marketing</italic> urbano, a lideran&#xE7;a pol&#xED;tica na cria&#xE7;&#xE3;o de redes e organismos e a prioridade pelo aspecto institucional. Em todas elas, &#xE9; poss&#xED;vel perceber que a paradiplomacia foi usada para estimular o desenvolvimento da economia criativa na cidade. Na primeira fase, o <italic>marketing</italic> urbano a partir dos Jogos Ol&#xED;mpicos de 1992 permitiu potencializar ao m&#xE1;ximo os benef&#xED;cios do evento ao longo do tempo, pois Barcelona almejava continuar a promo&#xE7;&#xE3;o a fim de atrair turistas e mostrar seus projetos inovadores de gest&#xE3;o. O plano estrat&#xE9;gico da cidade foi exportado para outras cidades do mundo inteiro, em especial da Am&#xE9;rica Latina, ao mesmo tempo em que o <italic>marketing</italic> da cidade se consolidou com a cria&#xE7;&#xE3;o de outros eventos e <italic>slogans</italic>, como &#x201C;Barcelona: ciudad de negocios&#x201D;, e o destaque aos diferenciais de Barcelona, como a exist&#xEA;ncia de gestores com iniciativa, a abertura ao estrangeiro e a for&#xE7;a da sociedade civil catal&#xE3;. A paradiplomacia buscou atrair investidores das ind&#xFA;strias criativas e eventos internacionais de car&#xE1;ter cultural, art&#xED;stico e esportivo e posicionar Barcelona como refer&#xEA;ncia de arquitetura e desenho urban&#xED;stico para o mundo. A &#xE1;rea de rela&#xE7;&#xF5;es internacionais recebeu diversas delega&#xE7;&#xF5;es estrangeiras, que foram &#xE0; cidade conhecer a administra&#xE7;&#xE3;o e suas empresas de economia criativa. Na segunda fase, logo ap&#xF3;s a euforia com o &#xEA;xito de grandes eventos, a administra&#xE7;&#xE3;o municipal teve legitimidade para liderar processos alternativos de cria&#xE7;&#xE3;o de redes e organiza&#xE7;&#xF5;es que priorizassem as tem&#xE1;ticas urbanas no contexto internacional, dentre elas as atividades relacionadas &#xE0; economia criativa. Buscava-se influenciar e sensibilizar autoridades externas &#x2013; como a Comiss&#xE3;o Europeia e o Parlamento Europeu &#x2013; acerca da import&#xE2;ncia das tem&#xE1;ticas urbanas e da necessidade de pol&#xED;ticas de apoio ao desenvolvimento urbano, como mobilidade, emprego e seguran&#xE7;a. Na terceira fase, Barcelona priorizou, em sua aposta internacional, a presen&#xE7;a internacional das cidades por meio de uma institui&#xE7;&#xE3;o que pudesse oferecer uma voz &#xFA;nica &#xE0;s cidades frente &#xE0;s organiza&#xE7;&#xF5;es internacionais como a ONU. Com a capacidade de buscar aliados de diversas posi&#xE7;&#xF5;es pol&#xED;ticas, deixar de fora aspectos ideol&#xF3;gicos e partid&#xE1;rios na constru&#xE7;&#xE3;o de alian&#xE7;as e representar as cidades do mundo em organiza&#xE7;&#xF5;es internacionais, Barcelona conseguiu criar projetos internacionais e ocupar a secretaria geral de muitos deles, sendo pe&#xE7;a fundamental no movimento municipalista mundial e sediando a institui&#xE7;&#xE3;o Cidades e Governos Locais Unidos (CGLU), que representa e defende os interesses dos governos locais na conjuntura mundial (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Marx 2006</xref>, pp.52-58). Mais recentemente, a paradiplomacia de Barcelona identificou-se ainda mais com iniciativas voltadas para o desenvolvimento da economia criativa, como a assinatura de um acordo com S&#xE3;o Francisco em 2013 para fomentar novos conceitos de moda. A cidade tamb&#xE9;m pretende abrir escrit&#xF3;rios de representa&#xE7;&#xE3;o na China, no Leste Europeu, no Marrocos e na Am&#xE9;rica Latina (<xref ref-type="bibr" rid="B49">Saavedra 2015</xref>).</p>
<p>Com uma estrutura institucional complexa para a atividade paradiplom&#xE1;tica, Toronto tem como focos principais de suas estrat&#xE9;gias os programas voltados &#xE0; manuten&#xE7;&#xE3;o dos altos &#xED;ndices de desenvolvimento econ&#xF4;mico e atra&#xE7;&#xE3;o de investimentos e capital, nos quais a economia criativa assume papel primordial. Em 2001, houve um movimento rumo &#xE0; maior institucionaliza&#xE7;&#xE3;o das a&#xE7;&#xF5;es paradiplom&#xE1;ticas, que est&#xE3;o distribu&#xED;das entre v&#xE1;rios departamentos. O Departamento de Pol&#xED;tica Estrat&#xE9;gica e Corporativa coordena as rela&#xE7;&#xF5;es intergovernamentais da cidade com associa&#xE7;&#xF5;es municipais internacionais, e o Departamento de Desenvolvimento Econ&#xF4;mico e Cultura busca a promo&#xE7;&#xE3;o de oportunidades de investimentos e cria&#xE7;&#xE3;o de empregos, o fomento do car&#xE1;ter cultural da cidade interna e externamente, o desenvolvimento de parcerias para o planejamento dos recursos econ&#xF4;micos e culturais da cidade, o aux&#xED;lio a empresas para o aumento das exporta&#xE7;&#xF5;es, a atra&#xE7;&#xE3;o de m&#xE3;o de obra qualificada e a promo&#xE7;&#xE3;o da imagem de Toronto a partir dos altos n&#xED;veis de qualidade de vida e da sua capacidade como cidade criativa. Cabem a esse departamento a promo&#xE7;&#xE3;o dos atributos da cidade para atrair turistas e organizadores de feiras, conven&#xE7;&#xF5;es e eventos, a cria&#xE7;&#xE3;o de conex&#xF5;es com institui&#xE7;&#xF5;es culturais internacionais e as parcerias com cidades-irm&#xE3;s. O Departamento de Ambiente e Energia desenvolve a&#xE7;&#xF5;es e estrat&#xE9;gias voltadas &#xE0; preserva&#xE7;&#xE3;o do meio ambiente, realizando interc&#xE2;mbios com outras municipalidades do Canad&#xE1; e do exterior, bem como com organiza&#xE7;&#xF5;es internacionais ambientais. A ag&#xEA;ncia Invest Toronto busca promover e captar investimentos em &#xE1;reas estrat&#xE9;gicas para a economia da cidade, organizar miss&#xF5;es e visitas de neg&#xF3;cios nacionais e internacionais, coordenar estrat&#xE9;gias de neg&#xF3;cios com outros n&#xED;veis de governo e promover a ag&#xEA;ncia Build Toronto Inc., que procura promover o uso dos espa&#xE7;os dispon&#xED;veis para constru&#xE7;&#xF5;es de ind&#xFA;strias e novos neg&#xF3;cios, estimular a cria&#xE7;&#xE3;o de empregos e regenerar &#xE1;reas urbanas. Os programas municipais voltados para a a&#xE7;&#xE3;o paradiplom&#xE1;tica buscaram explorar a proximidade entre Canad&#xE1; e Estados Unidos e defender os interesses municipais frente ao <italic>Comprehensive Economic and Trade Agreement</italic> entre o Canad&#xE1; e a Uni&#xE3;o Europeia. O enfoque econ&#xF4;mico da paradiplomacia de Toronto fica vis&#xED;vel no interesse em atrair talentos e novos neg&#xF3;cios ambientalmente respons&#xE1;veis pela promo&#xE7;&#xE3;o de inova&#xE7;&#xE3;o, tecnologia e pesquisa, al&#xE9;m de construir um polo cultural internacional e promover eventos culturais e esportivos, como os Jogos Pan-Americanos de 2015 (<xref ref-type="bibr" rid="B45">Vital 2015</xref>, pp.12-16).</p>
<p>A Constitui&#xE7;&#xE3;o brasileira de 1988 reconhece a exist&#xEA;ncia de formas descentralizadas de exerc&#xED;cio de poder e espa&#xE7;os pol&#xED;ticos m&#xFA;ltiplos de formula&#xE7;&#xE3;o de decis&#xE3;o, mas n&#xE3;o institucionalizou a paradiplomacia no ordenamento jur&#xED;dico brasileiro. Ainda que a celebra&#xE7;&#xE3;o de tratados seja atribui&#xE7;&#xE3;o exclusiva da Uni&#xE3;o, n&#xE3;o existem impedimentos expressivos &#xE0; atua&#xE7;&#xE3;o internacional dos governos subnacionais, respeitados os limites de suas compet&#xEA;ncias constitucionais. Dentre as atividades primordiais desses governos, cabe destacar a busca de atra&#xE7;&#xE3;o de investimentos estrangeiros diretos e a capta&#xE7;&#xE3;o de recursos oriundos de institui&#xE7;&#xF5;es internacionais. Coloca-se em curso no Brasil um processo de conjuga&#xE7;&#xE3;o do interesse pelas rela&#xE7;&#xF5;es externas dos governos estaduais e municipais com os do Estado brasileiro, procurando-se minimizar os conflitos e maximizar a complementaridade de interesses (<xref ref-type="bibr" rid="B44">Vigevani 2006</xref>, p.133). A fim de estruturar sua atua&#xE7;&#xE3;o e interlocu&#xE7;&#xE3;o internacionais, o Rio de Janeiro empenhou-se em desenvolver uma estrutura formal destinada &#xE0;s atividades paradiplom&#xE1;ticas, primordialmente conduzidas pela Coordenadoria de Rela&#xE7;&#xF5;es Internacionais, vinculada ao Gabinete do prefeito com a tarefa de assessor&#xE1;-lo na elabora&#xE7;&#xE3;o e execu&#xE7;&#xE3;o de pol&#xED;ticas p&#xFA;blicas municipais relativas &#xE0; coopera&#xE7;&#xE3;o internacional. Tal Coordenadoria busca n&#xE3;o apenas facilitar projetos de cunho internacional entre a Prefeitura e &#xF3;rg&#xE3;os estaduais e federais, mas identificar oportunidades e acompanhar projetos internacionais de coopera&#xE7;&#xE3;o em &#xE1;reas como conhecimento e inova&#xE7;&#xE3;o, fundamentais ao funcionamento de uma economia criativa. Ela atua como interlocutora da Prefeitura com reparti&#xE7;&#xF5;es consulares, miss&#xF5;es diplom&#xE1;ticas e entidades internacionais de cunho regional e multilateral e administra acordos de coopera&#xE7;&#xE3;o com outras cidades, al&#xE9;m de formular e acompanhar a agenda pol&#xED;tica do Rio de Janeiro nas redes de articula&#xE7;&#xE3;o de governos locais, nas quais temas relativos a ind&#xFA;strias criativas s&#xE3;o constantemente debatidos. Cabe tamb&#xE9;m &#xE0; Coordenadoria a prospec&#xE7;&#xE3;o de projetos e a&#xE7;&#xF5;es de governos locais em outros Estados, que possam ser de interesse da Prefeitura por gerar benef&#xED;cios efetivos para a popula&#xE7;&#xE3;o carioca, bem como a organiza&#xE7;&#xE3;o e o apoio a eventos de cunho internacional. Ela capta recursos internacionais para a execu&#xE7;&#xE3;o de projetos de secretarias e outros &#xF3;rg&#xE3;os da cidade e elabora a candidatura de projetos da Prefeitura do Rio de Janeiro a pr&#xEA;mios internacionais (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Aprigio 2015</xref>, pp.32-46, pp.50-60).</p>
<p>Outros atores tamb&#xE9;m auxiliam a atividade paradiplom&#xE1;tica do Rio de Janeiro, mas cumpre lembrar que, ainda que a Prefeitura n&#xE3;o tenha tido responsabilidade exclusiva sobre a organiza&#xE7;&#xE3;o e a implementa&#xE7;&#xE3;o de in&#xFA;meras atividades relacionadas ao desenvolvimento da economia criativa na cidade, ela assumiu papel de protagonista na articula&#xE7;&#xE3;o institucionalizada de esferas governamentais e de agentes externos na realiza&#xE7;&#xE3;o de eventos como os Jogos Mundiais Militares e o F&#xF3;rum Econ&#xF4;mico Mundial em 2011, a Jornada Mundial da Juventude e a Copa das Confedera&#xE7;&#xF5;es da FIFA em 2013, a Copa do Mundo da FIFA em 2014 e os Jogos Ol&#xED;mpicos e Paral&#xED;mpicos de 2016. Esses &#xFA;ltimos foram concebidos como uma forma de promo&#xE7;&#xE3;o global do Rio de Janeiro, refor&#xE7;ando seu status de economia em pleno crescimento e destino tur&#xED;stico. Na realiza&#xE7;&#xE3;o de eventos culturais que contribuem para a economia criativa como os desfiles das escolas de samba durante o carnaval e festivais musicais como o Rock in Rio, a Prefeitura n&#xE3;o se limita a tarefas ligadas &#xE0; organiza&#xE7;&#xE3;o, mas promove internacionalmente a cidade pelos canais paradiplom&#xE1;ticos (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Aprigio 2015</xref>, p.60).</p>
<p>O Rio de Janeiro desenvolve uma paradiplomacia cultural intensa, investindo em eventos de cunho internacional e recepcionando circuitos internacionais de artes e exposi&#xE7;&#xF5;es, para os quais a manuten&#xE7;&#xE3;o e a cria&#xE7;&#xE3;o de espa&#xE7;os culturais se tornam fundamentais, valorizando-se s&#xED;mbolos art&#xED;sticos e facilitando o reconhecimento da cidade. Viabilizando a concretiza&#xE7;&#xE3;o de planos culturais mais complexos e custosos, as parcerias p&#xFA;blico-privadas permitiram que a Prefeitura n&#xE3;o dependesse apenas dos recursos federais e ganhasse mais autonomia na defini&#xE7;&#xE3;o de suas agendas culturais, particularmente quanto &#xE0; constru&#xE7;&#xE3;o da identidade cultural por meio da redefini&#xE7;&#xE3;o da pr&#xF3;pria est&#xE9;tica urbana, que exalta a contemporiza&#xE7;&#xE3;o cultural da cidade ao cen&#xE1;rio internacional e seus circuitos de artes e ci&#xEA;ncia. A coopera&#xE7;&#xE3;o entre os capitais p&#xFA;blico e o privado possibilitaram a cria&#xE7;&#xE3;o do Museu do Amanh&#xE3; e do Museu de Arte do Rio, cujos espa&#xE7;os, formas e conte&#xFA;dos voltam-se &#xE0;s responsabilidades assumidas pela cidade com as agendas culturais internacionais, trazendo-se, portanto, mais uma possibilidade de inser&#xE7;&#xE3;o internacional. Tais aparelhos culturais atendem aos interesses locais de revitaliza&#xE7;&#xE3;o da regi&#xE3;o da Pra&#xE7;a Mau&#xE1; e respondem &#xE0;s demandas internacionais assumidas pelo Rio de Janeiro em sua paradiplomacia cultural com organiza&#xE7;&#xF5;es internacionais como a Unesco com rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0; promo&#xE7;&#xE3;o da cultura. O esfor&#xE7;o de utilizar arquitetos renomados internacionalmente valoriza a forma e a oferta de espa&#xE7;os eficientes ao circuito internacional das artes. Tal esfor&#xE7;o visa &#xE0; manuten&#xE7;&#xE3;o da identidade internacional contempor&#xE2;nea em face das novas din&#xE2;micas art&#xED;sticas e demais manifesta&#xE7;&#xF5;es populares (<xref ref-type="bibr" rid="B28">M&#xE8;rcher 2013</xref>, pp.102-110), o que traz um potencial de atrair exposi&#xE7;&#xF5;es, festivais e talentos criativos para cidade. A paradiplomacia contribui para tal din&#xE2;mica ao enfatizar as modifica&#xE7;&#xF5;es implementadas no espa&#xE7;o urbano que viabilizam o desenvolvimento da economia criativa.</p>
<p>Encontros de neg&#xF3;cios como as <italic>Rio Conferences</italic> &#x2013; que contou com a presen&#xE7;a de ministros de Estado e presidentes de empresas nacionais e internacionais &#x2013; servem como eventos de atra&#xE7;&#xE3;o de investimentos para a economia criativa, tendo muitos desses encontros acontecido durante eventos esportivos. A Rio Neg&#xF3;cios &#x2013; Ag&#xEA;ncia de Promo&#xE7;&#xE3;o de Investimentos do Rio de Janeiro &#x2013; assume papel fundamental para a economia criativa ao ser respons&#xE1;vel pela atra&#xE7;&#xE3;o e facilita&#xE7;&#xE3;o de novos investimentos na cidade, bem como pelo suporte em &#xE1;reas como promo&#xE7;&#xE3;o comercial e intelig&#xEA;ncia de neg&#xF3;cios. J&#xE1; a Rio Eventos Especiais, ligada diretamente ao Gabinete do Prefeito, tem a fun&#xE7;&#xE3;o de organizar os grandes eventos com sede na cidade que n&#xE3;o fazem parte do calend&#xE1;rio cotidiano, promovendo a articula&#xE7;&#xE3;o com todas as esferas de governo e com demais &#xF3;rg&#xE3;os nacionais e internacionais envolvidos. A RioTur &#x2013; Empresa de Turismo do Munic&#xED;pio do Rio de Janeiro S.A. &#x2013; busca atrair o &#xEA;xodo tur&#xED;stico nacional e internacional trabalhando em conjunto com a iniciativa privada e o <italic>trade</italic> tur&#xED;stico para alcan&#xE7;ar esse objetivo. A <italic>Rio Film Commission</italic> busca apoiar a produ&#xE7;&#xE3;o de conte&#xFA;do audiovisual, atraindo produ&#xE7;&#xF5;es nacionais e internacionais e renovando acordos para produ&#xE7;&#xE3;o cinematogr&#xE1;fica (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Aprigio 2015</xref>, pp.80-83).</p>
<p>A partir da compara&#xE7;&#xE3;o focada e estruturada dos tr&#xEA;s estudos de caso considerados na pesquisa, &#xE9; poss&#xED;vel verificar que, apesar de Barcelona e Toronto terem diferen&#xE7;as quanto aos determinantes de uma paradiplomacia assertiva em rela&#xE7;&#xE3;o ao Rio de Janeiro, essas tr&#xEA;s cidades pareceram ter objetivos comuns no desenvolvimento de suas atividades paradiplom&#xE1;ticas relacionadas &#xE0; economia criativa: a busca de coopera&#xE7;&#xE3;o t&#xE9;cnica no exterior para o desenvolvimento de capacidades para neg&#xF3;cios criativos e o empreendedorismo cultural, a constru&#xE7;&#xE3;o de parcerias em programas de requalifica&#xE7;&#xE3;o de espa&#xE7;os urbanos, a divulga&#xE7;&#xE3;o das qualidades locais para a atra&#xE7;&#xE3;o de investidores em coprodu&#xE7;&#xF5;es e empreendimentos conjuntos e a influ&#xEA;ncia em institui&#xE7;&#xF5;es internacionais para facilitar o acesso ao mercado global de atividades culturais. Dentre essas atividades, Toronto pareceu dar mais &#xEA;nfase &#xE0; divulga&#xE7;&#xE3;o das qualidades locais &#x2013; como m&#xE3;o de obra capacitada, infraestrutura adequada, seguran&#xE7;a e altos n&#xED;veis de qualidade de vida &#x2013; com o prop&#xF3;sito de atrair investimentos para as ind&#xFA;strias criativas e fortalecer a atividade tur&#xED;stica. J&#xE1; Barcelona em um primeiro momento, e Rio de Janeiro mais recentemente, buscaram intensamente, al&#xE9;m da divulga&#xE7;&#xE3;o de suas qualidades locais, o desenvolvimento de capacidades para neg&#xF3;cios criativos e a constru&#xE7;&#xE3;o de parcerias para a requalifica&#xE7;&#xE3;o urbana em face de suas necessidades de lidar com desafios da urbaniza&#xE7;&#xE3;o, como mobilidade e infraestrutura. Atualmente, tendo atingido resultados claros com as a&#xE7;&#xF5;es anteriores, Barcelona n&#xE3;o s&#xF3; as intensificou como passou a priorizar a participa&#xE7;&#xE3;o em institui&#xE7;&#xF5;es internacionais para tratar de tem&#xE1;ticas urbanas como a economia criativa e oferecer uma voz &#xFA;nica &#xE0;s cidades frente a tais institui&#xE7;&#xF5;es.</p>
</sec>
<sec sec-type="conclusions">
<title>VII. Conclus&#xF5;es</title>
<p>Com a execu&#xE7;&#xE3;o da pesquisa emp&#xED;rica e a confronta&#xE7;&#xE3;o dos dados emp&#xED;ricos com o referencial te&#xF3;rico, foi poss&#xED;vel concluir que, nos casos examinados, sustentou-se o argumento de que o desenvolvimento da paradiplomacia na internacionaliza&#xE7;&#xE3;o de cidades criativas tinha rela&#xE7;&#xE3;o com a busca de coopera&#xE7;&#xE3;o t&#xE9;cnica externa para a constru&#xE7;&#xE3;o e a consolida&#xE7;&#xE3;o de capacidades para neg&#xF3;cios criativos e o empreendedorismo cultural, a realiza&#xE7;&#xE3;o de parcerias em programas de requalifica&#xE7;&#xE3;o de espa&#xE7;os urbanos, a divulga&#xE7;&#xE3;o das caracter&#xED;sticas urbanas para a atra&#xE7;&#xE3;o de investidores em coprodu&#xE7;&#xF5;es e empreendimentos conjuntos e a participa&#xE7;&#xE3;o em institui&#xE7;&#xF5;es internacionais com o objetivo de facilitar o acesso ao mercado de atividades culturais ao redor do planeta. Observou-se tamb&#xE9;m que as atividades paradiplom&#xE1;ticas foram mais assertivas quando se deram as seguintes condi&#xE7;&#xF5;es: as partes da cidade criativa foram mais segmentadas, as burocracias subnacionais se mostraram mais capacitadas para a atividade paradiplom&#xE1;tica, as rela&#xE7;&#xF5;es entre governos central e municipal foram mais harm&#xF4;nicas, as prefeituras foram mais aut&#xF4;nomas, e as cidades criativas foram mais interdependentes na dimens&#xE3;o internacional.</p>
<p>&#xC9; prov&#xE1;vel que as futuras estrat&#xE9;gias requeiram uma considera&#xE7;&#xE3;o mais sofisticada e realista do papel das ind&#xFA;strias criativas dentro da economia do conhecimento, incluindo um entendimento mais profundo das liga&#xE7;&#xF5;es entre inova&#xE7;&#xE3;o e produ&#xE7;&#xE3;o nessas ind&#xFA;strias e outros setores da economia. Tais estrat&#xE9;gias tamb&#xE9;m se beneficiariam de uma considera&#xE7;&#xE3;o maior de diferentes resultados que possam ser antecipados a partir de empreendimentos criativos e programas de desenvolvimento cultural. Se o objetivo &#xE9; facilitar o desenvolvimento de locais criativos, uma aten&#xE7;&#xE3;o maior precisa ser oferecida &#xE0;s particularidades do local, uma vez que nem todas as localidades podem se tornar locais criativos com vantagens competitivas (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Foord 2008</xref>, p.111). Al&#xE9;m do est&#xED;mulo ao desenvolvimento e manuten&#xE7;&#xE3;o de centros culturais, museus e galerias que permitam a vida como a &#x201C;arte do encontro&#x201D; entre artistas e grupos de interesse para a produ&#xE7;&#xE3;o de ideias originais para cidades, &#xE9; relevante o engajamento de secretarias de desenvolvimento locais e nacionais e ONGs na cria&#xE7;&#xE3;o e na colabora&#xE7;&#xE3;o em projetos de pequena ou grande escala que contemplem diversos setores da sociedade e promovam desenvolvimento de lideran&#xE7;as e gest&#xE3;o de mudan&#xE7;a (<xref ref-type="bibr" rid="B51">CCTC 2017</xref>).</p>
<p>Um dos principais desafios para cidades criativas &#xE9; a acentua&#xE7;&#xE3;o de polariza&#xE7;&#xF5;es, de forma que &#xE9; preciso desenvolver participa&#xE7;&#xE3;o, acesso &#xE0; infraestrutura, habita&#xE7;&#xE3;o, desenvolvimento de compet&#xEA;ncias, sa&#xFA;de e assist&#xEA;ncia social para mitigar tal problema. A implementa&#xE7;&#xE3;o dessas medidas exige o envolvimento das comunidades no processo pol&#xED;tico em termos racionais e emocionais, em especial na concretiza&#xE7;&#xE3;o de redes de colabora&#xE7;&#xE3;o e inclus&#xE3;o e na dissemina&#xE7;&#xE3;o de projetos e espa&#xE7;os por toda a cidade (<xref ref-type="bibr" rid="B37">Reis 2011</xref>, pp.28-29). A paradiplomacia pode estimular a blindagem em rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0;s polariza&#xE7;&#xF5;es ao refor&#xE7;ar as possibilidades de inclus&#xE3;o socioecon&#xF4;mica por meio do posicionamento dos espa&#xE7;os e das comunidades criativos presentes por diferentes &#xE1;reas da cidade no contexto das estruturas sociais e econ&#xF4;micas, narrativas urbanas e estruturas e estilos dominantes de governan&#xE7;a no n&#xED;vel internacional. As iniciativas paradiplom&#xE1;ticas podem permitir o investimento em for&#xE7;as promissoras a fim de explorar as vantagens comparativas da cidade, mobilizar recursos para proteger as &#xE1;reas amea&#xE7;adas e controlar o preju&#xED;zo das &#xE1;reas mais fracas ao se buscarem alternativas para o seu desenvolvimento (<xref ref-type="bibr" rid="B43">Trip &#x26; Romein 2010</xref>, pp.6-8). Para que se promova a &#x201C;arte do encontro&#x201D; de todo o potencial econ&#xF4;mico da criatividade, &#xE9; preciso, por exemplo, influenciar acordos internacionais para que possibilitem a apropria&#xE7;&#xE3;o dos benef&#xED;cios da economia criativa por parte das comunidades que os originaram, promover acesso adequado a financiamento, garantir educa&#xE7;&#xE3;o e capacita&#xE7;&#xE3;o a par com novos perfis profissionais e profiss&#xF5;es e formar um ambiente que reconhe&#xE7;a o valor econ&#xF4;mico da criatividade e do intang&#xED;vel cultural (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Reis 2008</xref>, p.47-48), fun&#xE7;&#xF5;es para as quais a paradiplomacia tem um papel primordial.</p>
</sec></body>
<back>
<fn-group>
<fn fn-type="other" id="fn1">
<label>1</label>
<p>Agradecemos aos coment&#xE1;rios e sugest&#xF5;es dos pareceristas an&#xF4;nimos da <italic>Revista de Sociologia e Pol&#xED;tica</italic>.</p></fn></fn-group>
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<title>Refer&#xEA;ncias</title>
<ref id="B1">
<element-citation publication-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name><surname>Aldecoa</surname><given-names>F.</given-names></name>
<name><surname>Keating</surname><given-names>M.</given-names></name></person-group>
<year>1999</year>
<source xml:lang="en">Paradiplomacy in Action: The Foreign Relations of Subnational Governments</source>
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<mixed-citation>World Cities Culture Forum, 2015. <italic>Rio de Janeiro</italic>. Dispon&#xED;vel em: http://www.worldcitiescultureforum.com/cities/rio-de-janeiro. Acesso em: 15 fev. 2017.</mixed-citation></ref></ref-list>
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