Debate

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Bom dia a todos.
Gostaria de cumprimentar o Dr. Mariusz Malinowski, diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos (CESLA) da Universidade de Varsóvia, por meio de quem saúdo as demais instituições que organizam este simpósio, a saber: o Instituto de Etnologia e Antropologia Cultural, o Instituto de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos, o Instituto de Língua Polonesa e a Sociedade Polono-Brasileira e o Museu da História do Movimento Popular Polonês em Varsóvia. Estendo calorosas boas-vindas aos professores brasileiros que participam hoje deste simpósio. Desejo-lhes excelente estada na Polônia.
Participar da abertura deste evento é uma grande honra e também uma grande satisfação, pois vejo que o tema da comunidade polonesa no Brasil desperta grande interesse nos meios acadêmicos dos dois países. Para a Embaixada do Brasil esta é uma excelente oportunidade para compreender melhor as características dessa comunidade tão importante em nosso país.
Desde que cheguei a Varsóvia, há um ano e meio, pergunto-me como dois países tão distantes geograficamente como Brasil e Polônia mantêm uma relação bilateral tão profícua, que em breve completará 100 anos. Certamente o vínculo humano, criado pela migração de milhares de poloneses e seu estabelecimento em nosso país como cidadãos brasileiros, é fator importante para explicar essa questão.
No século XIX, o imperador do Brasil, Dom Pedro II, foi membro de uma associação de apoio à independência da Polônia, que à época estava partida e sob ocupação estrangeira. Pouco tempo depois, a independência polonesa foi defendida ativamente por Ruy Barbosa, durante a II Conferência Internacional da Paz, em Haia (1907). A posição do grande jurista brasileiro foi bastante apreciada pela comunidade polonesa no Brasil e reconhecida também na Polônia. Exemplo desse reconhecimento é o Liceu Ruy Barbosa, única escola secundária em Varsóvia que oferece ensino de português como segunda língua.
O Brasil foi o primeiro país latino-americano a reconhecer a independência da Polônia, ainda em 1918. Em 1919, estabelecemos relações diplomáticas. Neste mesmo ano, a Polônia abriu um Consulado Geral em Curitiba e, no ano seguinte, enviou seu primeiro embaixador ao Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Em 1921, o Brasil instalou sua embaixada em Varsóvia. A abertura de um consulado polonês em Curitiba apenas um ano após a reunificação da Polônia, em 1919, demonstra a importância que, já àquela época, tinha a comunidade de poloneses e seus descendentes, sobretudo na região sul do Brasil.
Os mais diversos aspectos da comunidade polonesa no Brasil serão objeto de aprofundado exame neste simpósio. Aproveito para parabenizar os organizadores pela inclusão na agenda de tamanha variedade de temas e perspectivas. Desejo, contudo, salientar dois pontos.
Em primeiro lugar, o alto grau de integração dos poloneses à sociedade brasileira – traço que é comum, aliás, à maioria das comunidades tradicionais de estrangeiros no Brasil, tais como portugueses, italianos, libaneses e japoneses. Como se trata de uma migração antiga, faz mais sentido hoje falarmos de comunidade de brasileiros de origem polonesa. O fato de serem cidadãos brasileiros, com pleno usufruto de direitos civis e políticos no Brasil, não significa que inexistem outras ligações culturais, familiares ou mesmo de cidadania com a Polônia. Esses elos precisam ser estimulados e preservados, papel que as diversas associações polônicas no Brasil desempenham tão bem.
Em segundo lugar, a comunidade de poloneses – ou de brasileiros de ascendência polonesa – é reconhecida por suas importantes contribuições ao desenvolvimento do Brasil, em diferentes áreas. Apenas para citar alguns exemplos notáveis nas artes: a artista plástica Fayga Ostrower, o diretor de teatro Zbigniew Ziembinski e o escritor Paulo Leminski. No campo jurídico, dois dos juízes da nossa mais alta corte, o Superior Tribunal Federal, são de origem polonesa: Ricardo Lewandowski e Teori Zavacki.
A comunidade polonesa no Brasil constitui a dimensão humana de um relacionamento bilateral muito sólido desenvolvido entre Brasil e Polônia, nos planos políticos, econômico-comercial, educacional, entre outros. Os contatos políticos têm se dado em alto nível. No ano passado, o então vice-presidente Michel Temer, hoje presidente da República, visitou a Polônia acompanhado de extensa delegação de ministros e empresários. Estamos trabalhando para a realização de uma visita do presidente Andrzej Duda ao Brasil no próximo ano. A manutenção de contatos políticos frequentes é importante para impulsionar atividades e cooperação em diferentes áreas.
O intercâmbio comercial é de aproximadamente 1.5 bilhão de dólares. O Brasil é o principal parceiro comercial da Polônia na América Latina. Além disso, seis empresas polonesas têm investimentos diretos no Brasil. Tanto no comércio quanto nos investimentos recíprocos, há potencial de expansão. Um acordo comercial entre os blocos de integração regionais de que são parte a Polônia e o Brasil – respectivamente a União Europeia e o Mercosul – está em negociação. Quando concluído, poderá assegurar melhores condições de acesso aos produtos poloneses no Brasil e brasileiros na Polônia.
Há também grande potencial de expansão do turismo de parte a parte. Creio que a Copa do Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016 projetaram imagens belas e interessantes do Brasil em todo o mundo, inclusive na Polônia. Do mesmo modo, a Jornada da Juventude em Cracóvia teve grande repercussão no Brasil, o país com maior número de católicos no mundo. O fato de abrigarmos no Brasil a segunda maior comunidade de poloneses no mundo também contribui para aumentar o interesse dos brasileiros pela Polônia. Nesse sentido, espero que aumente o número de turistas poloneses em visita ao Brasil e vice-versa. Para tanto, seria de grande valia a existência de ligação aérea direta entre os dois países.
A cooperação educacional se desenvolve com base em vários convênios entre universidades no Brasil e na Polônia, que balizam o intercâmbio de estudantes e professores, visitas de estudo e promoção de pesquisas conjuntas. O programa brasileiro Ciência sem Fronteiras concedeu, no ano passado, bolsas de estudos de pós-graduação a cerca de trinta estudantes brasileiros na Polônia.
A falta de programas contínuos de bolsas e a barreira da língua certamente são fatores que inibem uma maior cooperação educacional e acadêmica. Felizmente, o interesse pelo aprendizado da língua portuguesa na Polônia é grande. Exemplo disso é o fato de a Polônia ser o único país da Europa central em que se aplica o exame brasileiro de proficiência em língua portuguesa, o CELPE-Bras.
Em conclusão, o relacionamento bilateral Brasil-Polônia é muito tradicional, amplo e consolidado. Há, no entanto, muitas oportunidades de adensamento e melhor aproveitamento de seu potencial. Ou seja, há muito trabalho a se realizar. Parte desse trabalho está sendo feito hoje, com iniciativas como o presente simpósio, que promovem um olhar mais aprofundado sobre as comunidades polonesas no Brasil. Como disse anteriormente, este é o vínculo humano que une os nossos dois países. Compreendê-lo melhor em suas várias dimensões é, portanto, fundamental.
Desejo a todos excelente simpósio. Muito obrigado.