Resumo: O artigo representa os resultados das pesquisas etnográficas e linguísticas baseadas nas entrevistas e nas análises de fontes escritas. A tarefa principal era determinar o papel da língua polonesa nas antigas revistas publicadas no Brasil, mas também entender como mudou este idioma e como funciona atualmente. A análise linguística dos textos escritos do final do século XIX e da primeira metade do século XX revela que a variante da língua polonesa existente no Brasil desempenhou um papel muito importante na identificação e na união dos emigrantes poloneses, por ser um idioma da ciência e da cultura polônica. O estudo dos dados etnolinguísticos contemporâneos mostra que o dialeto polonês-brasileiro, embora diferente da linguagem cotidiana utilizada na Polônia, é altamente valorizado e faz parte do patrimônio cultural praticado pelos descendentes dos Poloneses no dia a dia.
Palavras-chave:BrasilBrasil, emigrantes poloneses emigrantes poloneses, língua língua, etnografia etnografia, periódicos periódicos, patrimônio cultural patrimônio cultural.
Abstract: The paper presents the results of ethnographic and linguistic research based on interviews and analysis of written sources. Our primary task was to define the role that Polish language was playing in old periodicals published in Brazil, how it was changing, and how it has been functioning today. Linguistic analysis of texts written in the late 19th century to the first half of the 20th century shows that the variant of the Polish language in Brazil had a crucial meaning in identifying and uniting Polish emigrants. It was the language of education and culture of the Polish Diaspora in Brazil. The analysis of contemporary ethnolinguistic data shows that the Polish-Brazilian dialect, although different from the everyday language used in Poland, is highly valued and has been part of the cultural heritage practiced on a daily basis by descendants of Poles.
Keywords: Brazil, Polish emigrants, language, ethnography, periodicals, cultural heritage.
Debate
Língua como patrimônio cultural. Práticas linguísticas dos descendentes dos poloneses no Sul do Brasil
Language as a Cultural Heritage. Linguistic Practices of the Descendants of Poles in Southern Brazil

Recepção: 22 Maio 2017
Aprovação: 30 Agosto 2017
Publicado: 30 Dezembro 2017
A emigração ou a colonização polonesa no Brasil está relacionada com as mudanças econômicas e políticas, tanto na Europa como nas Américas, na segunda metade do século XIX. A partir de meados da década de oitenta do século XIX, até aos meados da década de noventa, observamos uma crise agrária (chamada da crise dos grãos) por causa dos grãos mais baratos vindos dos Estados Unidos e do Canadá que inundaram os mercados da Europa Ocidental, abastecidos anteriormente pelos poloneses. A consequência disto foi a queda dos preços dos grãos na Europa. “Nas últimas décadas do século XIX – escreve Adam Walaszek – cerca de dois terços da população rural oriunda das terras sob ocupação austríaca e prussiana, bem como um terço daquelas sob ocupação russa foram forçados a procurarem atividades fora da sua própria aldeia” (Walaszek, 2001: 13). A mesmo tempo, as pessoas começaram a migrar de uma forma maciça com fim de trabalharem na agricultura (Dinamarca, Alemanha, Áustria), na indústria (Alemanha, Áustria, Estados Unidos, Canadá) ou com objetivo de se estabelecerem no território de algum país (Argentina, Brasil) (Walaszek, 2001: 13). Ao mesmo tempo no Brasil, após a abolição da escravatura, havia uma necessidade urgente de uma mão-de-obra que pudesse ser utilizada nas plantações do café e, em geral, na agricultura, que passava pelo processo de modernização. O governo do Brasil (em grande medida para acalmar os plantadores de café que incorreram em perdas) assinou um contrato com três empresas privadas, as quais deviam trazer 50 mil pessoas da Europa. Além disso, os imigrantes em causa poderiam “branquear” a população brasileira, onde em 1890, em cada 14 milhões de pessoas, cerca de 2 milhões eram negros (Mazurek, 2006: 33-34). Os camponeses poloneses vinham para o Brasil junto dos emigrantes da Alemanha e da Itália, notando que eles resolveram não ficar nas plantações do café de São Paulo, mas se dirigir para o sul, onde, em seguida, recebiam a terra e conseguiram trabalhar como agricultores. Estima-se que, na virada dos anos 80 e 90 do século XIX, entre 40-80 pessoas do Reino da Polônia desembarcaram no Brasil. Em meados dos anos 90, vieram mais 25 mil pessoas da Galícia Oriental, e nos anos 1910-11 cerca de 10 mil emigrantes de Podlasie e Lubelszczyzna (Kula, 2001: 118).
A maior onda de migração dos poloneses é datada dos anos 1890-1891, e na literatura é denominada como a febre brasileira. Os poloneses instalaram-se em três estados do sul do país, a saber, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, porém é no Paraná, onde moram mais descendentes de poloneses. Curitiba é considerada a capital da comunidade polonesa no Brasil – é lá que fica o consulado polonês e muitas associações, organizações e editoras.
A especificidade da migração dos poloneses para o Brasil se expressa em vários aspectos. Em primeiro lugar, a migração envolvia toda a família ou aldeia (por exemplo, na mesma época, para os EUA, migravam principalmente os homens jovens com objetivo de trabalhar nas fábricas). No Brasil, os emigrantes queriam e podiam tornar-se camponeses rurais, o que mostram os dados do jornal: “Todos os poloneses residentes aqui são majoritariamente agricultores, isto é, na fala local se chamariam colonos” (GPwB, 1912/48: 4)[3]. O principal objetivo da política brasileira da colonização foi a criação de áreas de produção agrícola – o chamada “cinturão verde” (Budakowska, 2014: 101) – em torno das cidades, o que resultou em aumento da demanda dos agricultores europeus, especialmente destes, que já tinham famílias e mostravam interesse em trabalhar no campo. Conforme o acordo de emigração, celebrado entre Brasil e Polônia, os que podiam emigrar eram apenas as famílias dos agricultores que consistiam de, pelo menos, 3 pessoas e que eram capazes de trabalhar no campo (GPwB, 1927/11: 1). Isso é especialmente importante, porque ainda se lembrava dos tempos de antes do fim do regime de latifúndio (1848 sob a ocupação prussiana, 1848 no Congresso da Polônia), quando o camponês polonês não trabalhava por conta própria, mas para o seu patrão no regime chamado servidão, cumprindo desta forma seus deveres feudais. No Brasil, o camponês recebeu uma terra como propriedade, assim, de fato, se tornou o patrão e dono desta terra. A sua família constituía o núcleo da vida cultural, da vida polonesa. Em cartas escritas pelos emigrantes, apareceram inúmeras dicas sobre aonde deviam ir os futuros colonizadores, por exemplo: “Me faça um favor, seja tão bom e diga a todos para que não venham para São Paulo, mas para Santa Catarina, porque lá todos são chicotados e aqui podemos fazer o que queremos”[4] (Kula, Kula, Assorodobaj-Kula, 2012: 115).
A medida do sucesso, na visão do imigrante, era levar uma vida como um patrão (roupas, comida), por exemplo: “Se Deus nos der saúde e nos deixar viver mais, assim por graça de Deus esperamos que a nossa vida veja melhor do que a do Senhor em uma boa fazenda”[5] (Kula, Kula, Assorodobaj-Kula, 2012: 115) – escreveu um emigrante de Porto Alegre à sua mãe em 1891.
Em segundo lugar, os migrantes poloneses não recebiam nenhum apoio por parte do Estado que os mandava para lá (porque eram sujeitos da Rússia, Áustria ou Prússia). Em terceiro lugar, a grande maioria deles, era analfabeta (Mazurek, 2006: 34, Miodunka, 1990: 13). Convém assinalar um fato relevante: durante quase 70 anos, os emigrantes poloneses – como em outras nações – tinham direito de falar a sua língua materna nas igrejas e nas escolas, bem como de publicar algumas revistas e livros poloneses. Em consequência disto, as próximas gerações de comunidades polonesas no Brasil cresceram em um ambiente extraordinário de caráter migratório, no qual a língua polonesa foi a única a ser falada, apesar do fato de que seus membros já tinham sido nascidos e criados no Brasil.
Por este motivo, apesar das circunstâncias adversas, como por exemplo o estereótipo negativo do camponês-polonês ou da lei de Getúlio Vargas que proibia o uso de línguas étnicas, em muitas aldeias permaneceram vários elementos da cultura polonesa (Miodunka, 1990). É necessário acrescentar que, na maioria dos casos, foi a cultura do campo polonês (e mais especificamente a cultura local dos lugares determinados) do século XIX e a cultura de um determinado grupo social, isto é, dos camponeses. Graças a vários métodos interdisciplinares desta pesquisa (tais como a entrevista livre e estruturada, a observação participante, os inquéritos indenitários) que combinam os processos linguísticos com os psicológicos, sociolinguísticos e etnolinguísticos, podemos explorar mais profundamente o grau da preservação da língua materna e identificar as circunstâncias nas quais esta ainda é utilizada. A comparação dos dados das revistas polônicas mais antigas com a língua contemporânea dos colonos no Brasil, poderia fornecer alguns resultados interessantes sobre o grau da preservação da língua étnica e a ligação entre a função da língua, consciência linguística e identidade nacional com a integração da sociedade no país de residência.
Neste artigo, gostaríamos de mostrar alguns resultados de nossa pesquisa etnográfica e linguística, baseada nas entrevistas, observação participante de práticas cotidianas e nas análises de fontes escritas. Pretendemos responder à pergunta sobre o papel da língua polonesa nas fontes escritas brasileiras: como ela tem mudado ao longo dos anos e como funciona hoje. A análise linguística dos textos escritos datados dos finais do século XIX e do início do século XX revela que o idioma dos colonos poloneses, apesar de ter sido adaptado rapidamente às então condições locais, desempenhava um papel importante de identificar e unir os migrantes poloneses. A análise dos dados etnolinguísticos e contemporâneos mostra que a língua polonesa, embora diferente da linguagem cotidiana falada na Polônia, é altamente valorizada e faz parte do identidade e patrimônio cultural praticado pelos descendentes dos poloneses no seu dia-a-dia.
A análise linguística da escrita de idioma polonês no sul do Brasil abrange o período entre os anos 90 do século XIX até os anos 40 do século seguinte. Durante este tempo, foram lançados vários títulos de revistas polonesas, as mais importantes eram Gazeta Polska w Brazylii (Jornal Polonês no Brasil), Lud (Povo), Polak w Brazylii (Polones no Brasil) Świt (Amanhecer) entre outras. Todas estas revistas pertencem ao patrimônio cultural material da imigração polonesa no Brasil. A tarefa destas revistas em causa era combinar a emigração polonesa com a divulgação das notícias da Europa e, principalmente, com o papel de ser um difusor das informações sobre os acontecimentos locais para os colonos poloneses do estado de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nestes artigos, concentravam-se nos acontecimentos políticos e sociais ocorridos nas colônias localizadas no sul do Brasil, bem como nos eventos culturais e religiosos de grande relevância. No artigo mostramos o resultado do estudo mais aprofundado sobre o conteúdo de caráter nacional e católico do Jornal Polonês no Brasil, publicado entre 1892-1941[6]. Porém, esta revista era principalmente informativa, tendo uma das suas tarefas mais importantes a promoção da língua, da cultura e da educação polonesa:
Da nossa Pátria amada arrancados e jogados para uma terra estrangeira e entre os estrangeiros, poderíamos esquecer que nós somos poloneses, mas despertar e apoiar o sentimento de nacionalidade e manter a ligação com a nossa Pátria e Compatriotas do outro lado do Oceano - eis a nossa tarefa[7] (GPwB,1893/1: 1).
Fé e Pátria! Igreja e Escola![8] (GPwB, 1914/ 1: 1).
Educação e formação (...) podem ser alcançadas apenas através da língua materna[9] (GPwB, 1893/6: 1).
Se você é polonês, então fala polonês! (...) tenha o jornal polonês, coleta livros poloneses[10] (GPwB, 1910/29: 2).
Como mostram as citações acima, já nos primeiros números observa-se uma tendência muito forte de identificação da polonidade com o idioma. O polonês é aquele, que mantêm contato com o seu país e a fé católica, aquele que fala polonês, manda as crianças à escola polonesa e compra revistas polonesas. Como revela a pesquisa, “a sobrevivência da comunidade polonesa depende da relação de seus membros ao sistema étnico e cultural” (Sękowska, 2010: 85-86). Este sistema pode ser construído à base de vários fatores (idioma, religião, costumes) que naturalmente podem passar por alterações. Segundo alguns pesquisadores (por exemplo, segundo J.J. Smolicz), é a língua que decide o caráter da cultura polonesa (por. Sękowska, 2010: 86).
No estrangeiro, quando a Polônia não existia nos mapas do mundo contemporâneo, o idioma era um dos principais determinantes da identificação dos emigrantes poloneses. O polonês foi identificado com a polonidade e a religião católica, enquanto a tarefa de comprar e distribuir as revistas polonesas entre os colonos foi comparada aos “Dez Mandamentos de Deus”:
Os Dez Mandamentos para os leitores do Jornal Polonês no Brasil
Eu sou o Jornal Polonês do Brasil, que te tirarei da casa da servidão, da escuridão da sua alma.
1. Não terás outros jornais estrangeiros diante de mim.
2. Não quererás pedir Jornal de graça.
3. Lembrarás que nos dias santos lerias Jornal Polonês, não apenas tu sozinho, mas também compartilharás com os seus vizinhos, parentes e os analfabetos, lendo da primeira até à última página.
4. Honrarás o Jornal Polonês pois apenas ele quer dar a Colônia Polonesa um bom rumo...
5. Não matarás Jornal por não pagares a subscrição ou por seres indiferente.
6. Uma vez fizeste a subscrição do “Jornal Polonês”, sejas fiel até o fim da vida, tu e teus filhos.
7. Pagarás honestamente a subscrição e quaisquer atrasos, porque assim requerem Os Mandamentos de Deus.
8. Não falarás mal do Jornal Polonês que francamente tenta satisfazer os seus leitores.
9. Não cobiçarás o Jornal Polonês sem pagar a subscrição com antecedência para o ano em curso.
10. Nem os anúncios, nem informações, nem calendários, nem coisa alguma que é nosso lucro honesto e que deveria ser pago imediatamente[11] (GPwB,1932/3: 1).
Muitas vezes, o idioma foi identificado com a história e a tradição polonesa, o que, em seguida, foi associado a uma convicção de que apenas uma nação que cuidava e lembrava da sua própria história, tinha direito de existir. Nas páginas do Jornal Polonês no Brasil incentivava-se a cultivar as tradições: “Amemos as lembranças dos tempos passados”[12] (GPwB, 1912/22: 1). “A canção da Pátria. Cada boa polonesa e cada bom polonês devem pertencer ao coro polonês”[13] (GPwB, 1911/11: 3).
Além da religião e da tradição, o terceiro fator importante responsável pela preservação da polonidade no estrangeiro foi a educação, isto é, a escola polonesa. O jornal incentivava para que as crianças fossem matriculadas nas escolas de língua polonesa (as quais muitas vezes foram fechadas devido
Não deixemos que os nossos filhos falem a língua estrangeira[14] (GPwB, 1912/22: 1).
Todas as nossas escolas polonesas em Curitiba sofrem com a escassez dos alunos[15] (GPwB, 1926/35: 2).
Preferem enviar-lhes às escolas americanas (...), e outras (...) escolas ou inclusive às escolas brasileiras, só não para as polonesas[16] (GPwB, 1926/35: 3).
Despertem-se os Senhores Pais, ainda há tempo para recuperar o mal... gastem menos com extravagâncias e festas e mais com a educação dos filhos[17] (GPwB, 1926/35: 2).
Nas páginas do Jornal Polonês no Brasil houve também os artigos que provaram a igualdade da língua polonesa em relação a outras línguas do mundo, especialmente a outras línguas europeias:
A língua polonesa falada corretamente não é inferior a outra língua qualquer do mundo. Enquanto à riqueza de formas, supera todas as línguas do mundo, é mais flexível do que latim e grego (...). Em nossa língua, é mais fácil expressar os sentimentos humanos mais elevados e sofisticados[18] (GPwB, 1932/3: 1).
Em uma situação, quando os poloneses não tinham o seu país, nem bandeira, não tinham o próprio governo e nenhuma instituição que ajudassem aos seus cidadãos no estrangeiro, da mesma forma a língua foi percebida como algo sem razão para ser continuada. Diante dos estereótipos vigentes na Europa daquela época e, da mesma forma, no Brasil, a língua polaca foi considerada feia e incompreensível (que soava estranho e era diferente das línguas românicas).
Infelizmente, alguns artigos deste jornal provam que os próprios autores e alguns representantes da inteligência polonesa no Brasil, não respeitavam a língua falada por colonos poloneses. As variações dialetais faladas por estes são referidas em artigos como “os piores dialetos”, o que certamente ocasionou que, ainda hoje, muitos descendentes dos poloneses sentem vergonha da sua fala. Eles têm consciência de que a língua falada por eles é diferente daquela falada na Polônia. As opiniões semelhantes resultaram provavelmente da falta de conhecimentos sobre a diversidade dialetal da língua polonesa e de um sentimento de superioridade da língua literária sobre os dialetos:
Observemos que língua estranha usam estes emigrantes poloneses (...). Desenvolveu-se aqui uma gíria composta dos piores dialetos de origem alemã, russa e até tcheca, e se ainda tomarmos esta mistura das palavras feias e tortas de origem portuguesa, podemos imaginar como uma terrível miscelânea linguística pode agradar os nossos ouvidos[19] (GPwB, 1932/3: 1).
A crítica da fala do colono polonês e a consciência dos mesmos de falar uma “variante pior” resultavam de um sentimento de vergonha entre os colonos que consequentemente evitavam falar polonês nos lugares públicos, o que foi perceptível, em particular, entre a geração mais nova:
Quando entrei à sala (…) em vez de poloneses, encontrei brasileiros, talvez fossem poloneses, só que tinham vergonha da língua materna, por isso conversaram em português[20] (GPwB, 1911/29: 3).
Já virou costume que as crianças e os jovens têm vergonha da língua materna[21] (GPwB, 1912/22: 1).
Por outro lado, no Jornal Polonês no Brasil foram publicados não apenas os artigos informativos, mas também as cartas dos colonos, as histórias, os anúncios e as memórias, que, muitas vezes, representavam um dos dialetos da Polônia daquela época. Em particular, os artigos literários (histórias, poemas, memórias) mostram a diversidade da língua polonesa usada no Brasil:
E a espingarda você não leva? Perguntou Maciej[22] (GPwB, 1909/ 64: 2).
E você está em casa? Alguém chamou[23] (GPwB, 1909/ 64: 2).
O cavalo e o burro marcados foram roubados[24] (GPwB, 1917/ 2: 3).
Procura-se uma cozinheira que saiba cozinhar pelo menos um pouco[25] (GPwB, 1921/ 6: 5).
Em uma das histórias, o autor aponta a semelhança de certas características fonéticas do dialeto da Galícia e da língua portuguesa:
Porque vocês devem saber que o russo usava o dialeto de Lviv e em vez de “był” dizia “beł”, em vez de kto – “chto”, em vez de kazdy – “kuzden”. Todas as palavras mais longas que terminam em “o” pronunciava como português enfatizando “u”. Não dizia dobrego, mas “dobregu”, pociesznego pronunciava “pociesznegu”[26] (GPwB, 1935/43: 4).
Por um lado, cuidava-se da forma correta da língua polonesa, especialmente na sua forma literária (escrita), por outro, criticava-se os empréstimos linguísticos de português (chamado “brasileiro”), os quais foram frequentemente usados na língua dos colonos:
É proibido!!! É proibido machucar a nossa fala com as influências estrangeiras[27] (GPwB, 1911/29: 3).
Mas já é hoje que dezenas de palavras brasileiras, desnecessariamente usadas, deformam a nossa língua[28] (GPwB, 1913/21: 2).
Desgraça a aquele, que põe na fala polonesa as palavras estrangeiras ou emprestadas da língua estrangeira, porque isso a suja[29] (GPwB, 1924/21: 1).
Ao mesmo tempo, em vários artigos nota-se uma consciência dos autores sobre a singularidade da variedade da língua polonesa falada por emigrantes poloneses no Brasil e sobre a sua variedade em relação à língua polonesa geral. Prova-se, esta consciência, através de expressões como “como se diz aqui”, “da nossa maneira”, “polonês paranaense” ou, inclusive, a fala “neopolonesa”:
beneficiando apenas os médicos e os motoristas de carros fúnebres, os quais de qualquer maneira tem estes benefícios garantidos, como se diz aqui, frequegia[30] (GPwB, 1933/50: 3).
Ele agradava os seus convidados tocando, com uma paixão, “gaita” como se diz em polonês paranaense[31] (GPwB, 1935/48: 2).
Havia aqui um contador, em polonês “buchalter”, em nossa língua “gwardaliwros” com um bom nome de grandes espanhóis[32] (GPwB, 1938/48: 3).
Eles estão cantando uma música em neopolonês: “Vou a uma floresta, eu e minha mãe/. Vou arrancando as flores, dana minha dana”[33] (GPwB, 1934/43: 1).
Os falantes da língua polonesa no Brasil perceberam que a sua língua evoluía e mudava diante a realidade que enfrentaram na sua nova pátria (um novo ambiente e cultura, contatos estreitos com outras nacionalidades). A língua dos jovens e a linguagem cotidiana mudaram mais rápido do que a língua do Jornal Polonês no Brasil. A partir do início do século XX, o número dos empréstimos linguísticos adotados na língua polonesa estava consequentemente crescendo nos artigos deste jornal. Geralmente, era um vocabulário ligado com as novas realidades que os emigrantes confrontavam no Brasil, vocabulário relacionado à agricultura, natureza, organização da vida, medicina, por exemplo:
Não preciso da terra nos faxinales, a preferia ter nas serras[34] (GPwB, 1910/42: 2).
Vai cortando uma picada quando a erva tiver bom preço, mas quando ficar mais barata, você voltaria à erva[35] (GPwB, 1910/3: 2).
Chácara à venda[36] (GPwB, 1911/22: 3).
Hoje, a carne só pode ser comprada com câmara no mercado[37] (GPwB, 1913/23: 5).
Polícia está à procura de um “curandeiro” que mora na cidade e, fingindo o “médico”, enganou o povo[38] (GPwB, 1917/10: 2).
Apesar do impacto significativo da língua portuguesa brasileira na fala da migração polonesa, a língua permaneceu um dos fatores mais importantes da identidade polonesa. Os exemplos de citações acima indicam claramente que as palavras portuguesas adaptadas à linguagem polonesa são diferentes e continuam sendo escritas de acordo com a ortografia polonesa. Os dados precisamente escolhidos do jornal revelam que a língua polonesa no Brasil tem sido desenvolvida e tem funcionado em duas variantes – coloquial (dialeto) e literário (semelhante ao idioma polonês, embora não livre da influência portuguesa). Em consequência do decreto do governo de Getúlio Vargas sobre a liquidação das escolas nacionais e a redução da imprensa estrangeira em 1938, muitas escolas e jornais editados nas línguas nacionais pararam de existir. Desta maneira, o desenvolvimento da forma literária do dialeto polonês foi impedido e a única variedade, preservada até aos dias de hoje nos estados do sul do Brasil, é a versão coloquial (a mesma que foi falada em casa). Hoje em dia ainda há muitos descendentes de poloneses que usam o dialeto polonês no seu dia-a-dia.
Um dos lugares habitados majoritariamente pelos descendentes dos poloneses é uma colônia Rio Claro do Sul no município de Mallet, no interior do estado do Paraná. Em 2015 e 2016 Karolina Bielenin-Lenczowska realizou a pesquisa de campo sobre o património cultural dos brasileiros de origem polonesa, concentrando principalmente nas práticas de linguagem e alimentares. A pesquisa incluiu vários tipos de entrevistas e observação participante. Para este artigo foram usados aproximandamente 30 horas de gravações de entrevistas, material fotográfico e de vídeo, bem como notas de campo.
Os poloneses que foram para lá nos finais do século XIX, em grande parte eram camponeses analfabetos de vários lugares do Congresso da Polônia e (um pouco mais tarde) das terras sob ocupação austríaca (Deina, 1990). Em apenas poucas casas permaneceram algum tipo de documentação daquela época, por exemplo, livros de oração, fotografias ou imagens sagradas. A maioria dos moradores não sabe de onde vinham os seus ancestrais - sabe apenas que vinham da Polônia, mas na documentação oficial estes figuravam como cidadãos da Áustria ou Rússia.
As fontes históricas dizem que Rio Claro na virada do século XIX/XX foi a maior colônia polonesa no estado de Paraná (Deina, 1990: 36). Os imigrantes vieram praticamente a uma selva (Bodaj same bory były – Houve apenas as selvas – dizem os interlocutores) a qual deviam desbravar e lá construir casas e estradas. Em seguida, construía-se a igreja e a escola. Os moradores de Rio Claro, em 1896, edificaram uma grande igreja de madeira sob invocação da Nossa Senhora do Rosário, que atualmente já não existe mais, e a qual chamaram a “Częstochowa de Paraná” e também umas escolas de várias turmas (1ª-4ª série) nas colônias. Em Rio Claro, houve também uma “Associação Esportiva Junak”, escola, biblioteca, igreja, e entre os moradores houve as freiras que ensinavam a religião. Em Mallet, entre 1911-1937, existia também uma escola polonesa de ensino médio com nome de Mikołaj Kopernik (Wachowicz, 1971: 54).
A maioria dos moradores de Rio Claro, e especialmente da colônia, fala polonês. Trata-se, porém, do conhecimento de um código falado, isto é, de um dialeto derivado de lugares de origem dos seus antepassados. Quanto à língua escrita, os moradores de Rio Claro dominam principalmente a língua portuguesa, ou seja, o português é o único código escrito para a grande maioria destes habitantes. Mesmo aqueles que falam muito bem polonês (quer dizer – o polonês contemporâneo, porque, por exemplo estavam na Polônia ou participaram em vários cursos) geralmente, na comunicação escrita, preferem a língua portuguesa. O idioma polonês escrito não foi transmitido para os descendentes por duas razões – muitos eram analfabetos e até a década de oitenta do século XX o ensino de polonês foi proibido.
A língua é ainda muito importante para os brasileiros de descendência polonesa. Um dos meus interlocutores diz: “O polonês que não fala polonês, é um polonês estupido”[39] porém a língua polonesa é cultivada basicamente apenas pelas pessoas mais velhas. Há pouca gente jovem, e muito menos crianças, que falam polonês livremente. Isto é devido a vários fatores, tais como, a falta de possibilidade de ensinar a língua polonesa, uma alta taxa da mobilidade das pessoas e a ignorância do código escrito. Mas, como se nota na análise das fontes escritas antigas, acreditava-se também que o dialeto polonês era pior (incorreto) nieakuratny, misturado.
Quando em 1938, a lei de Getúlio Vargas proibiu o uso de línguas estrangeiras, em consequência disto, foram fechadas as escolas que ensinavam outras línguas além do português. Os interlocutores de Rio Claro, lembram que na idade de 6-7 anos, quando começaram o ensino fundamental, ainda não falam português. Muitos deles terminaram a educação na segunda ou, no máximo, quarta série do ensino fundamental e, atualmente escrevem mal em português. A principal língua falada por eles continua sendo ainda o polonês. Os mais jovens têm melhor escolarização, são mais familiarizados com a língua escrita e a língua da mídia – o português. Porém, não conseguem dizer tudo que queriam em polonês, porque não conhecem a sua variedade contemporânea. Portanto, praticamente a principal língua que usam os meus interlocutores é o código misto (aqui uso o termo do sociolinguístico belga Jan Blommaert, 2013) que contém os elementos de dialeto polonês/dialetos poloneses e da língua coloquial portuguesa. Portanto, quando falamos da língua polonesa como de um patrimônio cultural dos brasileiros de origem polonesa, temos que levar em conta o fato de que é um dialeto do polonês formado no decorrer de 120 anos de convivência em uma diáspora. É um dialeto de origem de colônia, que foi falado por um determinado grupo social, nomeadamente pelos camponeses, dos quais a maioria era analfabeta. Porém, quando se fala do patrimônio cultural desta diáspora, inclui-se a literatura e outros textos escritos, por exemplo, os jornais, mas é o idioma de outras pessoas, isto é, dos intelectualistas das cidades.
Da mesma forma, quando se introduz o idioma polonês nos programas das escolas ou quando se ministra as aulas em várias associações, os palestrantes são geralmente da Polônia e, portanto, não conhecem o dialeto local. Obviamente ensina-se o idioma polonês padronizado na sua forma contemporânea, mas em muitas situações é incompreensível e parece estranho. Talvez bastaria ministrar algumas aulas sobre os dialetos locais na Polônia e mostrar que hoje em dia as pessoas também falam de maneiras diferentes e isso não deveria causar nenhuma vergonha ou discriminação. Ou talvez bastaria tentar modificar o dialeto polonês-brasileiro, da mesma forma como aconteceu com pomerano (a língua usada por descendentes dos imigrantes da Pomerânia) e talian (a versão brasileira do dialeto italiano veneto) (Morello, 2015).
O patrimônio cultural é hoje definido de forma bastante ampla. Portanto, pode significar algo muito específico, como um edifício ou monumento, mas também algo intangível – língua, melodia ou festival. Geralmente, tem conotações positivas – representa algo que vale a pena e deve ser preservado e algo, que está associado com a história e a memória de um grupo étnico ou nacional. Além disso, o conceito do patrimônio cultural é também fortemente politizado, isto é, recebe apoio da parte das instituições do estado e das organizações, dos programas governamentais e não-governamentais. Contudo, vale a pena observar que a diferenciação introduzida pela UNESCO entre patrimônio material e imaterial é artificial porque, conforme provam alguns antropólogos (por exemplo Herzfeld, 2004), as duas formas de patrimônio estão fortemente interligadas. No entanto, conforme foi apontado corretamente por Michael A. Di Giovine e Ronda L. Brulotte, o conceito do patrimônio pode ser entendido de forma bem diferente entre os seus praticantes, políticos e cientistas. E, ao mesmo tempo, enquanto um grupo pode considerar algo por seu patrimônio, outro pode reivindicar seu direito a isto (Brulotte, de Giovine, 2014). Pois, conforme observou uma antropóloga Ewa Klekot, “patrimônio é uma categoria de legitimar uma comunidade, o que ao mesmo tempo pode também excluir – ao incluir os herdeiros à uma sociedade, automaticamente exclui dela os que não tem direito ao “encontro comum” (Klekot, 2014: 60-61).
Além disso, segundo Klekot, o patrimônio refere-se não apenas ao passado de um grupo de pessoas, mas também a seu presente e futuro. Em outras palavras, o patrimônio é a materialização da herança contemporânea em relação ao passado.
Nesta pesquisa, o nosso foco é a prática diária do patrimônio cultural refletido na língua. Entendemos que estas práticas são movidas “de baixo” pelos indivíduos da sociedade. Podem ser parecidas ao conceito da tradição entendida como algo que um grupo de pessoas considera valioso (porque está relacionado ao passado migratório e à pátria dos ancestrais), que vale a pena reproduzir e que deveria ser transmitido às próximas gerações. Uma vez que estas atitudes são individuais, podem ser diferentes dependendo do sexo, da idade ou da educação. Tanto o uso diário da língua polonesa pelos agricultores poloneses na zona rural de Paraná, bem como os depoimentos nos jornais publicados pelos primeiros imigrantes, fazem parte do patrimônio cultural comum, sendo este patrimônio extremamente dinâmico e variável.
Alguns autores acreditam que existe uma relação única entre o conceito da diáspora e a identidade nacional ou étnica. Enquanto isso, muitas ações resultam de uma cultura do país de origem e da cultura do país que as acolhe. A prova disso são os artigos do Jornal Polonês no Brasil que já representam uma variação polônica da língua polonesa, alterada de acordo com as novas realidades sócio-políticas e culturais. Nota-se que esta variação contém muitas palavras adotadas do idioma português e – conforme assinalam os próprios autores destes artigos – ilustra bem “a língua polaca paranaense” e a fala “neopolonesa”.
Convém lembrar que os Poloneses chegaram ao Brasil nos finais do século XIX e vieram de aldeias pobres, sendo muitos destes recém-chegados analfabetos e pouco móveis. Portanto, se falarmos destas práticas, a afirmação de que eram “polonesas” pode ser um pouco exagerada. De fato, estas práticas eram locais, fortemente relacionadas à terra de onde vieram os migrantes.
Assim, a língua deles foi baseada no dialeto local, falada no local de origem e adaptada às condições etno-linguísticas de dada região. Ao mesmo tempo, isto não mudou o fato de que os descendentes dos Poloneses dizem de si mesmos que são “poloneses” e a língua deles é a língua “polonesa”.
Uma das ondas migratórias para Rio Claro do Sul são de poloneses e ucranianos. Eles vinham juntos das zonas fronteiriças que, atualmente, se encontram dentro da Polônia e da Ucrânia – lembrando que naquela época faziam parte da ocupação austríaca. Existem muitos casamentos mistos como também entre pessoas que estão profundamente imersas em uma cultura comum polonesa- -ucraniana. Neste caso, as diferenças são mitigadas. Como disse uma das interlocutoras que foi criada em uma família polonesa-ucraniana: “Eles [ucranianos] também são católicos, mas só tem outro rito”[40].
Os moradores de Rio Claro são cidadãos brasileiros, falam português (brasileiro). No entanto, na prática não são definidos assim. Eles dizem de si próprios que são poloneses ou usam os termos que os identificam com o lugar de residência (aldeia, município). Já nos jornais encontramos os termos “Rioklareńczyk” (do nome da comunidade polônica Rio Claro) assim como os termos “Kataryńczyk” ou “Kataryneńczyk” (variação polonesa de designar o morador de Santa Catarina), “Felicjanin” (a mesma só da região de de Falicjanowo (São Feliciano) e “Mateuszanin” (de São Mateus do Sul). Os moradores identificam-se mais com as comunidades menores, muitas vezes majoritariamente habitadas pelos colonos poloneses ou eslavos.
Brasileiros são outros, não-poloneses, não-ucranianos (Machado Batista, Menasche, Salamoni, 2015: 127). São, portanto, as pessoas de uma origem desconhecida ou de outra região e/ou têm outra cor da pele. Para ilustrá-lo, convém mostrar a resposta de outra interlocutora à pergunta se os filhos dela falam polonês:
– A filha ainda sabe [falar polonês], mas os netos já não porque ela é casada com um brasileiro.
– Eles moram aqui?
– Não, em Minas Gerais.
– Aí, lá não tem poloneses, né?
– Não tem, só os brasileiros, os pretos[41].
Portanto, talvez os pesquisadores brasileiros tenham razão quando vão além da ótica nacional e étnica e escrevem sobre “uma identidade rural compartilhada” (Machado Batista, Menasche, Salamoni, 2015: 127), mostrando que, isto reflete as práticas cotidianas das pessoas que vivem em condições semelhantes de estilo de vida ou provenientes da mesma região.
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Em conclusão, gostaríamos de assinalar que os dados de apenas um jornal polônico, publicado entre 1892-1941, mostram claramente que existiam duas variedades da língua polonesa no Brasil. A primeira era uma variedade literária, perceptível nos jornais, nos livros didáticos da aprendizagem de polonês, nos manuais, bem como na literatura polônica lançada no Brasil. Esta variedade foi ensinada nas escolas polonesas no Brasil e falada nas instituições públicas e polônicas. Apenas após o decreto de Vargas ter entrado em vigor e após uma longa discriminação de línguas dos imigrantes no Brasil, a variedade literária praticamente parou de existir. Hoje em dia, ainda se mantem a variedade coloquial do dialeto polônico, sendo esta uma mistura de polonês regional, uma gíria rural de onde vinham os colonos e de língua regional ou rural do país de recepção. É uma fala característica das comunidades pequenas, estreitamente ligada às realidades da sua vida cotidiana ou familiar. Um fato extremamente importante é que ainda hoje muitos membros das famílias que continuam a falar polonês, frequentaram as escolas polonesas, preservaram os antigos livros e documentos e sempre se lembram daqueles dias quando polonês era uma das línguas das escolas e dos periódicos no Brasil.