Debate

Migrações forçadas como consequência de massacres no conflito armado colombiano: a trágica experiência de Caño Jabón

The Tragic Experience Behind the Processes of Forced Migration in Colombia: The History of the Caño Jabón Massacre

Erica Sarmiento da Silva [1]
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil
Ana Taisa da Silva Falcão [2]
Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHIS-UFRJ), Brasil

Migrações forçadas como consequência de massacres no conflito armado colombiano: a trágica experiência de Caño Jabón

Revista del CESLA, núm. 22, pp. 403-428, 2018

Uniwersytet Warszawski

Recepção: 13 Agosto 2018

Aprovação: 17 Dezembro 2018

Resumo: O objetivo deste trabalho é apresentar as migrações forçadas a partir das dinâmicas de organização e práticas de violência do paramilitarismo na Colômbia exemplificando um estudo de caso: o massacre no povoado de Caño Jabón – Meta (1998) e o testemunho de uma sobrevivente, uma migrante que fugiu da situação de violência. Através de quem vivenciou e sobreviveu a um massacre e de suas memórias, descreveremos o conflito armado colombiano. Em termos teórico-metodológicos, baseamo-nos na corrente da micro-história italiana, realizando um esforço por utilizar os objetos microhistóricos mais além da questão local, como um espaço de demonstração e lugar de experimentação para a reelaboração e reformulação de hipóteses de ordem claramente macrohistórico e global. Para tanto, partimos de um acontecimento particular, de um testemunho, para compreender a violência e os massacres que envolvem a história de um país e as migrações forçadas decorrentes dessa situação de calamidade. Em diálogo com a narrativa em primeira pessoa, encontram-se outras fontes que utilizamos para contar essa história: notícias de jornais sobre o massacre de Caño Jabón e os paramilitares responsáveis pelo crime, sentenças da Fiscalía General de la Nación, sentenças da Corte Interamericana de Direitos Humanos e os testemunhos dos próprios paramilitares frente à justiça colombiana. Entendemos, portanto, que as dinâmicas de acumulação capitalista na Colômbia atuam de maneira particular como produtoras de uma ordem de controle social baseada no uso irrestrito da violência, provocando o deslocamento de milhares de pessoas.

Palavras-chave: Colombia, migrações forçadas, conflito armado, violência, massacre, paramilitarismo, memória.

Abstract: The objective of this work is to present forced migrations due to the dynamics of paramilitary organization and violent practices in Colombia, exemplifying a case study: the massacre in Caño Jabón - Meta village (1998) and the testimony of a survivor, a migrant who fled the violent situation. We will describe the Colombian armed conflict from the perspective of those who survived the massacre and through their memories. In theoretical-methodological terms, we base ourselves in the current of Italian micro-history, making an effort to use micro-historical objects beyond the local question, as a space of demonstration and place of experimentation for the re-elaboration and reformulation of hypotheses of a clearly macro-historical and global order. To do so, we start with a particular event, a testimony, to understand the violence and the massacres that surround the history of a country and the forced migrations resulting from this situation of calamity. In dialogue with first-person narrative, we find other sources that we use to tell this story: newspaper reports on the Caño Jabón massacre and the paramilitaries responsible for the crime, judgments of the Attorney General's Office, judgments of the Inter-Human Rights and the testimony of the paramilitaries themselves before the Colombian justice system. We understand, therefore, that the dynamics of capitalist accumulation in Colombia act in a particular way as producers of an order of social control based on the unrestricted use of violence, causing the displacement of thousands of people.

Keywords: Colombia, forced migration, armed conflict, violence, massacre, paramilitarism, memory.

Nas últimas duas décadas do século XXI a humanidade tem experimentado fluxos de migrações forçadas cada vez maiores, em que cada vez mais pessoas têm sido vítimas de graves violações de direitos humanos, não lhes restando outra saída senão o abandono de seus lares, de seus vínculos afetivos, de suas histórias familiares desenhadas na relação entre seres humanos e território.

De acordo com o relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), Global Trends (UNHCR, 2017), nos últimos 20 anos a população de deslocados forçados mais que dobrou, saindo de cerca de 30 milhões, para 65,6 milhões em 2016. O principal país produtor de migrações forçadas, internas e externas, através de suas fronteiras, foi a Síria, país que enfrenta um grave conflito civil, com constantes intervenções militares externas em seu território, que têm mais contribuído para potencializar a violência contra a população civil do que diminuído o conflito. Os conflitos na Síria têm gerado diversos problemas nos quesitos básicos de responsabilidade do Estado, já que crises políticas, étnicas e religiosas marcam um cenário de desequilíbrio governamental e vêm ocasionando a fuga de muitos sírios para outros países, almejando melhor qualidade de vida. Nesse contexto, o acolhimento de sírios no Brasil tem liderado o ranking de refugiados no país (Lacerda, Silva, Nunes, 2015).

As migrações forçadas, presentes na América latina, cresceram nos últimos anos, principalmente como consequência da generalização da violência social vinculada ao crime organizado. Esse processo encontra-se muito latente na América Central, mais concretamente em países como El Salvador, Honduras e Guatemala, e vem repercutindo no México com a chegada de milhares de deslocados que tentam atravessar a fronteira sul desse país (Coraza De Los Santos, 2017).

Refletir sobre as migrações forçadas converte-se, assim, em uma tarefa relevante e necessária no momento de analisar o passado recente de certas sociedades que viveram processos traumáticos, decorrentes de guerras, governos autoritários e ditatoriais. Para a historiografia atual, que analisa o fenômeno das migrações forçadas, elas representam um tipo particular de deslocamento, que reúne características singulares no conjunto dos movimentos populacionais. Segundo Enrique Coraza:

Sus características, asociadas a la violencia directa o potencial de ver peligrada la integridad física, moral o los medios de vida de los individuos, parejas, hijos o grupo de pertenencia, las hacen revestir cierta especificidad y diferenciación dentro de los mismos. De igual forma, otro de los elementos particulares es la inmediatez, la urgencia de la salida que no permite o, en todo caso, reduce al mínimo las posibilidades de elaborar un proyecto migratorio, revistiendo ese carácter de in-voluntarias. Otro aspecto a destacar, es la sensación de trauma (derivados de la violencia y del despojo) y de paréntesis en el que la necesidad del retorno forma parte de los sentidos con que se dota a los exilios en la mayoría de los casos (Coraza De Los Santos, 2014: 201).

Na América Latina, o drama das migrações forçadas tem suscitado intensos debates em organizações não-governamentais, órgãos de apoio humanitário e espaços acadêmicos. Um dos casos mais preocupantes e que mereceu uma significativa quantidade de estudos nas últimas décadas foi a experiência migratória no México, na América Central e nos Estados Unidos. Essas migrações forçadas reúnem, por um lado, elementos tradicionais, fruto de um passado histórico, ainda pulsante, associado a constantes conflitos fronteiriços do México com Estados Unidos, além da América Central e México. Por outro lado, conflitos e dramas recentes, envolvendo grupos específicos, como o caso das lésbicas, gays, bissexuais e transexuais (LGBT) em El Salvador. Se os migrantes forçados, de uma forma geral, tornam-se vítimas em potencial da violência, da ausência de direitos humanos e da incompreensão (em muitos casos, do Estado e da sociedade de acolhida), os LGBTS encontram-se numa situação de dupla vulnerabilidade: pelo fato de serem migrantes forçados e pela ausência de proteção estatal em seu próprio país, devido ao sistema histórico, social e institucional de discriminação pela orientação sexual e identidade de gênero.

(...) la movilidad forzada contemporánea de personas salvadoreñas LGBT tiene sus características particulares y puede ser entendida como la movilización personal o colectiva no planificada y no deseada del lugar de residencia habitual como única forma de salvaguardar la vida, debido a amenazas manifiestas o latentes de cualquier forma de violencia provocada por las Maras que estimulen una sensación de peligro inminente sobre sus vidas –la espada-; y gracias al sistema histórico, social e institucional de discriminación por orientación sexual e identidad de género no encuentran la protección suficiente en las instituciones estatales para tal fin –la pared (Arévalo, 2017: 131)[3].

Dando prosseguimento ao mapa da América Latina e de suas migrações forçadas, chegamos ao segundo país no mundo com maior número de deslocamentos forçados internos e externos: a Colômbia. Esse país, que será o epicentro do recorte espacial do estudo a ser apresentado, possui, em seus registros, mais de sete milhões de pessoas que migraram forçadamente, dentro e fora das suas fronteiras[4]. Em relação ao conflito armado, no caso colombiano, Jefferson Jaramillo Marín destaca que, para além da dificuldade conceitual que envolve o termo, tantos os políticos como os técnicos e especialistas buscaram denotar, mais do que um enfretamento entre subculturas políticas ou modalidades de ação criminal, um processo de disputas históricas prolongado no tempo e com atores institucionais e ilegais que ostentam diversas lógicas de organização, interesses de ação, demandas de confrontação frente al Estado e condições diferentes de uso poder e de vitimização em território nacional (Marín, 2016: 249).

A vulnerabilidade de milhares de deslocados em situações de conflito armado e de extrema violência em solo colombiano transforma-os em pessoas ou coletividades à margem de seus próprios territórios. Desprovidos de seus bens materiais, afastados do que lhes é mais caro -seus familiares- esses migrantes forçados levam consigo uma arma valiosa: seu testemunho e sua memória[5]. E é a partir do testemunho de uma mulher colombiana, banida, desterrada do seu próprio povoado, que daremos início a essa história, como veremos a seguir.

Interlocuções entre fontes para entender a violência

A narrativa do Massacre de Caño Jabón (1998) parte do testemunho de uma mulher sobrevivente que, gentilmente, compartilhou conosco sua história de vida, desde sua infância até os dias de hoje, passando pelo trágico massacre que acabou com a paz do seu povoado. Tentamos manter ao máximo a essência do relato da nossa entrevistada, para que o leitor perceba todas as nuances emocionais[6], dentro do possível permitidas a um texto escrito, da narradora – desde já, Rosa[7].

A interlocução entre a história que Rosa nos apresentou, em sua entrevista realizada em agosto de 2016, em Bogotá, cidade para onde Rosa migrou forçadamente após o massacre, com as fontes que levantamos para dialogar com seu depoimento, bem como as nossas impressões sobre os fatos, conformam os objetivos deste trabalho. Dito de outra maneira, nosso objetivo aqui é descrever um dos eventos limites da história do conflito armado colombiano através das memórias de quem vivenciou e sobreviveu a um massacre. Compreendemos que a memória, tal como a define Halbwachs (1990) não se encontra no campo da representação, mas sim da apresentação, enquanto construção a partir do presente. Segundo Márcio Seiglmann-Silva não existe uma história neutra; nela a memória, enquanto uma categoria abertamente mais afetiva de relacionamento com o passado, intervém e determina em boa parte os seus caminhos. A memória existe no plural: na sociedade dá-se constantemente um embate (Seligmann-Silva, 2003)entre diferentes leituras do passado, entre diferentes formas de enquadrá-lo. Por isso, buscamos nos afastar da visão conservadora que define a separação entre a memória e a história, optando por ouvir a vítima e o relacionamento com o seu passado traumático, em diálogo com um conjunto de fontes documentais, jornalísticas e processuais que giram ao redor do massacre de Caño Jabón (1998) e Mapiripán (1997). Vale ressaltar que na história da América Latina, carregada de violência em seu passado e presente, as vítimas têm ocupado um papel fundamental na história da memória e na história do tempo presente. Seus depoimentos trazem à tona acontecimentos que a história oficial silenciou ou deixou cair no esquecimento.

Dessa forma, fizemos a opção metodológica por estabelecer uma interlocução de fontes que vão desde a narração em primeira pessoa (Rosa) aos dados, recortes de jornal, nossa própria fala sobre o caso, os depoimentos dos paramilitares envolvidos com este massacre e sentenças judiciais desses paramilitares, além dos processos contra o Estado colombiano que tramitam na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Partimos de um acontecimento particular, de um testemunho, para explicar uma situação de calamidade, de violência e massacres que envolve a história de um país. Dessa forma, através de relatos oficiais e não oficiais, baseamo-nos na corrente da micro-história italiana, realizando um esforço por utilizar os objetos microhistóricos, mais além da questão local, como um espaço de demonstração e lugar de experimentação para a reelaboração e reformulação de hipóteses de ordem claramente macrohistórico e global (Rojas, 2017: 9). Assim, para compreender o conflito colombiano e suas migrações forçadas foi necessário reduzi-lo a uma escala menor, ao povoado de Caño Jabón, de onde migrou nossa entrevistada.

A categoria de análise que orienta nossa discussão é massacre[8], uma vez que esta foi uma modalidade de violência extrema utilizada como fonte de terror e de desmobilização de zonas geoestratégicas. A categoria massacre está tipificada, pelo Estatuto de Roma[9], como um crime contra a humanidade ou Crime de Lesa Humanidade (CLH[10]), onde o ato de violentar, de maneira planejada, um determinado grupo de pessoas, causando danos físicos e psicológicos, é considerado como crime contra a humanidade. Como praticamente todos os massacres que tiveram efeito ao longo do conflito armado colombiano, em especial durante o tempo de vigência das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) que provocaram danos enormes à população civil com mortes, danos patrimoniais, violências sexuais, torturas de todo tipo e deslocamentos forçados, estes são, portanto, tratados como CLH.

De acordo com o Banco de Dados elaborado pelo Grupo de Memória Histórica (GMH) para o Centro Nacional de Memória Histórica (CNMH), entre os anos 1980 e 2012 foram cometidos 1.982 massacres que culminaram com a morte de 11.751 pessoas[11]. Os dados mostram que a cada dez massacres, seis foram cometidos por grupos paramilitares, o que demonstra a instrumentalização desse tipo de crime como tática contrainsurgente, de violação da população civil para atingir os grupos guerrilheiros.

Durante o período de articulação e vigência das Autodefensas Unidas de Colômbia (AUC), sob o comando dos irmãos Castaño, a violência deflagrada contra a população civil das zonas de influência das FARC converteu esses territórios em cemitérios a céu aberto.

Dentro de la estrategia paramilitar, la masacre ha sido importante como modalidad de violencia. Debido a su visibilidad y crueldad, ha desafiado y subvertido la oferta de protección de la guerrilla dentro del territorio. En su función de teatralización de la violencia, lleva —desde la perspectiva del perpetrador— un mensaje aleccionador para la población. Con la disposición espacial de los cuerpos de las víctimas y las huellas de sevicia en los cadáveres expuestos advierte sobre el costo de colaborar con la guerrilla. Pero también ha advertido a las guerrillas acerca del tipo de guerra que los paramilitares estaban dispuestos a librar para obtener el control total del territorio (Centro Nacional de Memoria Histórica, 2013: 48).

Os grandes massacres (Centro Nacional de Memória Histórica, 2013: 50)[12] cometidos pelos paramilitares correspondem a 158 ações dessa natureza, ao passo que foram cometidos por eles 880 massacres pequenos (entre 4 e 6 vítimas fatais), o que significa que os pequenos massacres, ao lado dos assassinatos sele­tivos[13] e as desaparições forçadas[14] foram as modalidades de violência homicida mais empregadas pelos paramilitares. Os grandes massacres, entretanto, não só pelo número de vítimas, mas pelo alto índice de crueldade, torturas e exposição dos corpos (como prática militar orientada), fizeram a reputação da violência dos grupos paramilitares, sobretudo das AUC. Nesse sentido, invadir um povoado e praticar diversas modalidades de violência, sair e deixá-los arrasados, queimando, com pilhas de corpos à mostra e toda uma população apavorada, fez com que os paramilitares aumentassem expressivamente seu poder ao longo da década de 1990 e elevasse o conflito a um nível apavorante de violações dos direitos humanos.

[…] entre 1996 y 2002 […] los ataques paramilitares se caracterizaron por un despliegue militar masivo y un accionar dilatado en varias horas o días. La violencia fue más indiscriminada que antes, no porque los paramilitares renunciaran a mecanismos de selectividad (porte de listas, presencia de milicianos encapuchados y perpetradores reconocidos por las víctimas), sino porque estos registros se combinaron con acciones aleatorias amparadas en la estigmatización de la población civil como pueblo guerrillero (Centro Nacional de Memoria Histórica, 2013: 51) (Grifos dos autores).

Em que pese o alto grau de crueldade dos ataques às populações que resultaram em massacres (grandes e pequenos) e assassinatos seletivos, marcando o caráter violador dos grupos armados, sobretudo os grupos paramilitares, no que se refere aos massacres, o Grupo de Memória Histórica aponta que havia um padrão nas vítimas desses massacres: homens (88%), adultos (96%), acusados de participação ou apoio aos grupos combatentes. O saldo de crianças vítimas dos massacres simboliza 3,4% dos casos, assim como idosos (as) que foram assassinados, cujo número foi de 85 pessoas (Centro Nacional de Memória Histórica, 2013: 54).

Vejamos a história de um desses eventos desde a perspectiva de quem sobreviveu.

Massacre de Caño Jabón: memórias de uma sobrevivente

Rosa[15] nasceu na Costa colombiana, em uma cidade chamada Agustín Codazzi, localizada no estado de Cesar. Lá viveu com sua mãe e sua irmã até mais ou menos os quatorze anos de idade, quando se mudaram para o município natal de sua mãe, em Ocaña[16]. Após terminar o ensino fundamental nessa cidade, Rosa mudou-se para a capital, Bogotá, onde foi cursar o ensino médio, e, mais tarde, ingressou no curso de Direito numa universidade privada. Entretanto, neste período, sua mãe e seu padrasto já haviam saído da Costa para viver em San José del Guaviare[17], mas, não encontraram lugar para montar seu armazém. Foi quando souberam de que Caño Jabón[18] como um bom lugar para os negócios, e, em seguida, se mudaram para a localidade e abriram o armazém. Passados alguns anos, a mãe de Rosa adoeceu e ela, então, decidiu interromper os estudos na faculdade e se mudar para Canõ Jabón para cuidar da mãe e administrar o arma­zém. Quando sua mãe melhorou de saúde, Rosa decidiu não retornar mais a Bogotá. Sua mãe lhe presenteou com algumas economias que ela usou para montar um comércio de roupas e assim, iniciou sua profissão de comerciante neste povoado. Posteriormente, passou a vender, também, joias, consolidando-se como a única mulher do local a trabalhar com ouro.

Mesmo trabalhando prioritariamente com ouro, ela seguia recebendo outros tipos de encomendas, uma vez que “havia gente que quase não saía a Villavicencio[19], pois estávamos na parte mais distante e as passagens eram sempre muito custosas” (Rosa, 2016). Apesar das pessoas quase não saírem do povoado, de acordo com Rosa, ali era um lugar de fértil comércio, o que fazia com que houvesse uma circulação de dinheiro muito grande na região, e assim, ela também prosperou com a venda de ouro. “E com isso, trabalhei vendendo joias de ouro mais ou menos entre os anos de 1984/85 até 1998” (Rosa, 2016).

Ao mesmo tempo em que Rosa fala da abundância de trabalho e de fraternidade entre os vizinhos, deixa a entender que havia na região reflexos da conjuntura política nacional, em que os conflitos entre os grupos paramilitares e as guerrilhas, sobretudo as FARC-EP, viviam seu momento mais sangrento. Podemos perceber isso no trecho que segue:

[...] mesmo havendo o dinheiro que o negócio gerava e tudo, também se viviam... se viviam momentos, não digamos difíceis, mas cheio de coisas que havia na região. E quando entramos nos anos de 1995/96, já começaram a ocorrer as greves que faziam na região e isso começou a marcar o ponto do problema, pois nós nunca havíamos ouvido falar nem de paramilitares nem nada dessa questão. E foi nesse período em que nós começamos a ouvir falar desse tema (Rosa, 2016).

Segundo Jefferson Jaramillo Marín, a partir de meados da década de 1980, a sociedade colombiana vê-se submersa ao que se chama de conflito armado interno. Nesse momento, a guerra contemporânea colombiana havia transitado do combate político e armado entre atores armados, ou da violência generalizada nas cidades para o massacre das populações civis. Desde a década de 1980 aos dias atuais acontecem mutação do conflito em direção à guerra de massacres (Marín, 2016).

No dia 20 de julho de 1997 culminou o massacre de Mapiripán[20] que durou cinco dias, de 15 a 20 de julho de 1997, e estava intimamente ligada ao caso ocorrido em Caño Jabón, pelo fato de ser cometido pelo mesmo grupo paramilitar – Bloque Centauros. Além disso, a geografia da região liga os dois massacres: Caño Jabón é distrito de Mapiripán. Inclusive, os próprios paramilitares desmobilizados no marco da Lei nº 975, Ley de Justicia y Paz, assumiram em suas versões livres que o objetivo militar do Bloque Centauros, desde 1997, quando decidem tomar os Llanos Orientales, foi atacar Caño Jabón, mas não o fizeram e desviaram o curso pelo Rio Guaviare em direção a Mapiripán, porque souberam que a guerrilha (FARC-EP) estaria a postos ao redor de Caño Jabón para interceptar a sua entrada no povoado.

Una fecha significativa para la constitución de lo que más adelante se llamó Bloque Centauros, el 15 de junio de 1997, un grupo de 80 hombres al mando de Jorge Humberto Victoria Oliverios, alias Don Raúl, antes alias Miguel; Elkin Casarrubia, alias El Cura y Dairo de Jesús Úsuga, alias Mauricio, viajan desde San Pedro de Urabá, hasta una localidad de San José de Guaviare; el objetivo principal de esta incursión paramilitar es la toma del corregimiento de Caño Jabón o Puerto Alvira por razones de tipo logístico y de presencia de la subversión. Cambian su objetivo y lo dirigen a la localidad de Mapiripán y se efectúa la masacre de Mapiripán y en esta época no solamente se efectúa la masacre de Mapiripán, sino otra serie de masacres contenidas desde el año de 1997 hasta el año 1999, para mencionar Caño Jabón o Puerto Alvira, El Anzuelo 1 y 2, La Picota 1 y 2, Caño Blanco etc. (Tribunal Superior del Distrito Judicial de Bogotá, 2016: 111).

A ocupação paramilitar da região dos Llanos Orientales foi planejada, organizada e financiada pelos irmãos Castaño, como parte do processo de unificação dos grupos paramilitares espalhados pelo país, denominado AUC (Autodefesas Unidas de Colômbia). O papel estratégico de Caño Jabón, tido pelos paramilitares como o “quartel general” das FARC, pode ser analisado na sentença dos paramilitares desmobilizados do Bloque Centauros (sob comando dos irmãos Castaño) e do Bloque Héroes de los Llanos Orientales. Sobre o papel que os irmãos Castaño desempenharam nesse processo, a sentença dos paramilitares dos Llanos diz o seguinte:

Esta expansión paramilitar en la segunda parte de la década de los noventas tiene su base en el grupo de los Castaño. No es gratuito, por ejemplo, que los proyectos de lucha ilegal antisubversiva en los Llanos orientales hayan iniciado su expansión y consolidación en la región del Urabá. A título de ilustración podemos mencionar la masacre de “Mapiripán” de julio de 1997, que según el jefe paramilitar Carlos Castaño Gil, “allí operaba un frente consolidado de la subversión, con el dominio absoluto de un territorio apropiado para el ciclo completo en materia de narcotráfico, cultivo, procesamiento y comercialización”. Así, bajo la nueva dirección de Carlos y Vicente Castaño inicia un proceso que buscó y consiguió la federalización de las estructuras paramilitares del todo el país, teniendo como nuez y núcleo del grupo nacional, a las ACCU (Tribunal Superior del Distrito Judicial de Bogotá, 2016: 84).

Na versão livre de Jorge Humberto Victoria, conhecido como “Capitán Victória”, ele afirmou que no início de 1997, Vicente Castaño se reuniu com ele para lhe mostrar, com o mapa da região nas mãos, os lugares estratégicos onde deveriam chegar as autodefesas – AUC. Dentre eles, estavam Mapiripán e Caño Jabón (El ‘capitán Victoria’, el enlace de los Castaño, 2011).

De acordo com a reportagem do projeto Rutas del Conflicto que mapeia os principais massacres ocorridos ao longo do conflito armado sobre o massacre de Mapiripán, em 12 de julho de 1997, mais ou menos 120 homens ligados às Autodefesas Unidas de Córdoba e Urabá (ACCU) chegaram ao município de San José del Guaviare, vindo de Urabá em dois aviões das Forças Armadas. Eles passaram por vários sítios e chácaras até chegarem ao centro do povoado no dia 15 de julho e ali permaneceram por cinco dias, deixando um rastro de cerca de 50 pessoas assassinadas.

Durante una semana los paramilitares sacaron de sus casas en la noche a sus víctimas, las llevaron al matadero del pueblo donde los torturaron y asesinaron con disparos o degollándolos. Varias personas fueron castradas y decapitadas, incluso los ‘paras’ jugaron futbol con la cabeza del despachador de aviones del pueblo y la mayoría de los cuerpos fueron desmembrados y arrojados al rio Guaviare con rocas dentro del estómago para que los familiares nunca los encontraran. El grupo armado dejó el pueblo el domingo 20 de julio y la fuerza pública solo apareció hasta el miércoles 23 (Masacre de Mapiripán 1997, s.a.).

A incursão dos paramilitar e militar em Mapiripán foi algo terrível. A história desse massacre foi bastante repercutida na história do conflito armado na Colômbia, pois muitas pessoas foram assassinadas, como nos conta Rosa: “pessoas que realmente não tinham nada a ver com o conflito que estava vivendo o país” (Rosa, 2016). E é nesse cenário, que nos narra Rosa, que se instala a situação de terror frente a uma comunidade vulnerável, vítimas indefesas que são submetidas à radicalidade da violência. O massacre das comunidades mais vulneráveis faz parte de um exercício coletivo e intencional de atores com poderes e recursos diferenciados de vitimização, como é o caso dos paramilitares, dos agentes do Estado e das guerrilhas. Citando mais uma vez Jefferson Jaramilho Marín, (2016: 269), “estaríamos frente a lógicas de muerte que no sólo se despliegan a nível macropolítico (por recursos y territórios), sino también micropolítico (por el control de las poblaciones)”.

O terror se instalou na região e as comunidades tornaram-se vítimas sem nenhuma capacidade de resistência frente ao extermínio e à crueldade. Rosa conta que todos em CañoJ abón ficaram amedrontados ao saber do ocorrido em Mapiripán, porque sabiam que o mesmo poderia se passar com elas estando em Caño Jabón que era uma localidade bastante afastada da capital do estado Villavicencio, onde um socorro provavelmente tardaria a chegar. Diante de tamanha violência, faz todo sentido que o pânico tenha se espalhado nos povoados ao redor de Mapiripán, como relata Rosa. O massacre de Mapiripán foi tema de uma sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) contra o Estado colombiano, levada a cabo em 15 de setembro de 2005 (Corte Interamericana de Direitos Humanos, 2015)[21].

Por esse motivo, algumas famílias com medo do que poderia ocorrer, saíram de Caño Jabón. Por outro lado, muitas pessoas decidiram ficar e continuaram em suas casas, também porque ali era onde elas tinham trabalho e vínculos familiares. Para aqueles que ficaram, apesar do medo, havia um certo despreparo coletivo em relação ao que estava por vir. No fundo, como afirma Rosa, “nunca nos preparamos pensando que o que ocorreu em Mapiripán se passaria conosco também”[22].

No dia 3 de maio de 1998, um domingo, os moradores de Caño Jabón fizeram uma festa para comemorar o matrimônio de um casal do povoado. Rosa, que a essa altura de sua vida já tinha casado, separado, tinha dois filhos e uma boa casa, ofereceu sua residência como local de núpcias dos noivos e foi com uma amiga dormir num hotel recém-inaugurado em Caño Jabón. Essa amiga de Rosa havia acabado de perder seu esposo assassinado. Pela manhã, quando elas voltaram para casa, o casal já tinha saído para ir à casa da mãe da noiva abrir os presentes de casamento.

Quando elas estavam na cozinha preparando almoço, por volta das 13:30 da tarde, ouviram um barulho e perceberam também que as pessoas na rua estavam correndo. Foi quando começaram a soar tiros e bombas. Havia começado o massacre no povoado de Caño Jabón.

Foi algo muito terrível, parecia o dia do juízo final! Porque era uma situação aterradora! Um povoado tão pequeno e eles entraram mais ou menos uns trezentos homens, uns com uniformes camuflados, outros só com a calça camuflada, com camisetas pretas ou brancas – que não eram nem brancas, porque eles vinham caminhando por toda a selva –, uns vieram caminhando, outros vinham em caminhões camuflados, ou seja, para que as pessoas realmente não percebessem que eles iam em direção ao povoado (Tribunal Superior del Distrito Judicial de Bogotá, 2016: 111).

A distância percorrida por dentro da mata pelos paramilitares, a fim de implementar o plano de ocupação dos Llanos Orientales, foi muito grande. Na sentença dos paramilitares envolvidos no massacre de Mapiripán, eles assumem que saíram de San Pedro de Urabá – Antioquia, até San José del Guaviare – Guaviare, um trajeto de 1.189 km, atravessando, para além do estado de Antioquia (cuja capital é Medellín), os estados de Cundinamarca (capital Bogotá) e o departamento de Meta para então chegar a San José del Guaviare, na fronteira entre os estados de Meta e Guaviare (Tribunal Superior del Distrito Judicial de Bogotá, 2016: 112). É uma viagem muito longa, que demanda planejamento e forte estrutura logística tanto de transporte quanto de alimentação. Este é um dos exemplos do nível de organização a que chegaram as AUC na Colômbia.

Rosa e sua amiga permaneceram dentro de casa, refugiadas, quando pediram abrigo em sua casa mais três pessoas: o médico do povoado, o enfermeiro e sua esposa. E ali os cinco começaram a discutir sobre o que estava acontecendo e chegaram à conclusão de que se tratava do Exército, pois os homens estavam com uniformes camuflados. De dentro de casa, era possível ouvir os gritos do lado de fora, os tiros, as bombas, pessoas chorando, pedindo por socorro, gritando porque algo estava pegando fogo. E Rosa nos conta, que de fato era possível escutar o som de cilindros de gás explodindo.

Quando eles pensaram que tudo já havia acabado, mais de cinco horas depois, homens armados entraram na casa, quebrando a porta de trás. Eram três homens: dois ficaram no jardim e um entrou na casa. Rosa e as outras quatro pessoas que estavam na casa ainda tentaram fugir, mas se depararam com os homens que ficaram de guarda no jardim e que imediatamente perguntaram por que eles não tinham saído de casa e ido para a pista, como todas as pessoas do povoado, supondo que estavam se escondendo. Então estes homens armados lhes disseram que era para todos irem para a pista[23] menos a dona da casa, que era a Rosa. Lá dentro o homem que havia entrado começou a interrogá-la sobre onde ela escondia as armas, e ela respondia que não possuía nenhuma. O interrogatório durou, segundo Rosa, muito tempo, pois ele não cansava de perguntar-lhe por supostas armas que ela estaria escondendo e não a deixavam sair de casa. Até que ele começou a ameaça-la de morte, caso não “entregasse as armas”, e, nesse momento, começou a revistar a casa.

Rosa nos conta que quando o homem armado chegou em seu quarto, deu de cara com um closet trancado que ela tinha mandado fazer, que era onde ela guardava o ouro e o dinheiro das suas vendas. “O closet estava trancado, porque aí eu tinha as minhas coisas de valor e tinha os materiais do meu trabalho, meu dinheiro, o ouro” (Rosa, 2016). Como ela não encontrava as chaves do closet, naquele momento de tensão, sozinha com aquele homem, ele quebrou as portas do closet e então encontrou e roubou todo o seu ouro e dinheiro, que, segundo ela chegavam, somados juntos a mais 60 milhões de pesos. Foi aí que ele a mandou para fora de casa, para que corresse, sem olhar para trás até a pista de pouso. “E tudo isso ele meteu em seus bolsos, porque ele sim estava vestido como militar e, portanto, tinha bolsos em toda a roupa. Porque ele era militar de San José del Guaviare” (Rosa, 2016).

Por isso em minha declaração eu tenho dito sempre e tenho asseverado que nós fomos sequestrados, porque quando te dizem que você não pode se mover, que tem de ficar onde está, estão te privando de tua liberdade! Então eu sempre tenho declarado que nós fomos sequestrados por mais de cinco horas que durou essa incursão paramilitar e militar. Porque vinham misturados, não eram só militares, não eram só paramilitares. Eram paramilitares e militares de Villavicencio e de San José del Guaviare, gente que estava ainda na ativa trabalhando no batalhão de San José del Guaviare e gente que estava trabalhando no batalhão de Villavicencio. Sempre tenho declarado assim, dessa forma, porque assim foi. A pessoa que roubou meu dinheiro, a pessoa que roubou meu ouro que era meu trabalho, foi um militar de San José del Guaviare (Rosa, 2016).

A participação de militares, especialmente de San José del Guaviare aparece na versão livre de Jorge Humberto Victória, conhecido como “Capitán Victória”. Em seu depoimento, Victoria cita os militares (alguns já mortos e/ou presos): Rito Alejo del Rio, comandante da XVII Brigada do Exército, que também foi citado na versão livre de Salvatore Mancuso; Juan Carlos Gamarra, segundo sargento da VII Brigada do Exército; Hernán Orozco, major da VII Brigada do Exército; o coronel Lino Sánchez, ex-comandante da II Brigada Móvel do Exército. De acordo com o site Verdad Abierta (especializado em acompanhar as versões livres e sentenças dos paramilitares colombianos), três militares envolvidos no massacre de Caño Jabón, Lino Sánchez, Juan Carlos Gamarra e Hernán Orozco, foram condenados a 40 anos pelos crimes de homicídio e sequestro, terrorismo e concerto para delinquir. Juan Carlos Gamarra e Lino Sanchéz foram condenados por uma sentencia proferida pelo Tribunal Superior de Bogotá no ano de 2005. Lino Sánchez faleceu em 2006. Por fim, o sargento Gamarra está preso na base militar de Tolemaida (Gaitán Mahecha..., 2012).

Em suas versões livres, os paramilitares envolvidos no massacre de Caño Jabón admitem que a operação não teria sido possível sem o apoio logístico das Forças Armadas. Podemos citar, como exemplo, o depoimento do ex-chefe paramilitar Savatore Mancuso que está preso nos Estados Unidos desde 2008, extraditado pelos crimes de envolvimento com o narcotráfico. Em seu depoimento, Mancuso afirma que, assim como em Mapiripán, os paramilitares que cometeram o massacre de CañoJabón atuaram em conjunto e receberam apoio logístico de militares. Segundo Mancuso, “os comandantes já tinham tudo organizado, inclusive possuíam total manejo das torres de controle da aeronáutica e de pessoas de dentro da Força Aérea” (“En Caño Jabón también ayudaron los militares”…, 2011).

Na América Latina, o caso colombiano de envolvimento das Forças Armadas em massacres de civis, lamentavelmente não é o único que serve de exemplo. Podemos mencionar, entre outros, a violência genocida na Guatemala exercida com determinados grupos da população rural e indígena por serem considerados a base social da subversão. Segundo Julieta Carla Rostica:

En los Planes de Campaña del ejército de 1982 y 1983 “subversión” era una cualidad que cualificaba a sujetos individuales o colectivos por realizar determinado tipo de acciones que se proponían quebrar el “orden establecido” y que se clasificaba en “áreas” con mayor o menor grado de desarrollo subversivo (Rostica, 2016: 300).

Os massacres da população indígena de Guatemala e as campanhas de terra foram responsáveis pelas migrações forçadas de, pelo menos 17% da população total do país na década de 1980. Muitos que não conseguiram migrar, pagaram com as próprias vidas sua permanência nas terras. O terrorismo de Estado, ao final dos anos 1970 e começo dos anos 1980 e as violações dos direitos humanos perpetradas nos massacres abundaram nas execuções arbitrárias, nas violações sexuais, nas torturas e nos desaparecimentos (Rostica, 2016).

Voltando ao relato de Rosa, ela então saiu correndo em direção à pista de pouso, descalça, e no caminho encontrou com mais dois paramilitares e uma mulher, que segundo ela, chegou a trabalhar por um tempo em um dos bares da cidade. Rosa nos disse que essa era a única mulher que acompanhava os paramilitares e, de fato, na sentença dos paramilitares envolvidos neste massacre há uma mulher que, também, foi condenada por participação em crimes cometidos pelo Bloque Centauros (Tribunal Superior del Distrito Judicial de Bogotá, 2016).

Chegando à pista de pouso, Rosa encontrou os demais moradores do povoado, bem como seus amigos que estavam refugiados em sua casa, e que nessa altura já a tinham dado por morta. Os paramilitares colocaram todos sentados no chão, obrigando-os a fixar o olhar no chão, sem que pudessem olhar para os homens armados. E lhes diziam que os moradores deviam ir embora de Caño Jabón, que eles, os paramilitares, estavam ali para “limpar” o povoado da guerrilha das FARC, pois eram todos apoiadores dos guerrilheiros. Ao mesmo tempo, outros homens estavam colocando fogo em postos de gasolina, farmácia, casas dos moradores e dinamitando a pista de pouso[24]. Segundo Rosa, eles procuravam por algumas pessoas específicas, moradores dali, e como ninguém dizia nada, eles colocaram fogo em várias casas que queimavam muito rápido, pois a maioria era de madeira.

E na reunião da pista, nos fizeram muitas perguntas, advertências e tudo isso. Havia gente encapuzada, o que me faz dizer a mim mesma que as pessoas encapuzadas eram pessoas que viviam conosco na cidade. Por que uma pessoa tem que tapar seu rosto para que não a vejamos? E mataram muitíssimas pessoas. Para dizer a verdade, nem nós que vivíamos no povoado podemos dar um número exato de todas as pessoas que mataram, porque muitos foram mortos e jogados no rio. Essa gente nunca se teve em conta, porque lá era um povoado de grande flutuação de pessoas; chegava muita gente e saía muita gente (Rosa, 2016).

Apesar de Rosa suspeitar e achar estranho o fato de os paramilitares atacarem o povoado utilizando capuz, essa prática é muito comum, mas sua suposição de que havia entre eles habitantes da região não é equivocada. Isso porque, nas versões livres dos paramilitares desmobilizados dos Bloque Centauros e Bloque Héroes de los Llanos, foi confirmado que pelo menos um dos homens que chegou com eles no dia do massacre, era um morador do povoado, sendo apelidado, inclusive, de “CañoJabón”. No depoimento de Jorge Humberto Victória sobre o “Capitán Victória”, ele afirmou que um dos caminhões que foram utilizados pelos paramilitares para cometer o massacre de Caño Jabón, em 1997 cuja rota foi desviada para Mapiripán, era de propriedade de um comerciante de Caño Jabón, que estava em contato com os irmãos Castaño para solicitar e apoiar a entrada dos paramilitares no povoado (El “capitán Victoria”, el enlace..., 2011).

Durante o massacre, os paramilitares escolhiam as pessoas que seriam mortas por possuírem, segundo eles, características de guerrilheiros, como ter o cabelo ou barba grandes. De acordo com Rosa, um senhor já idoso foi assassinado na frente de todos por ter a barba grande. Outras torturas foram cometidas diante dos que se encontravam na pista de pouso, sentados por horas no chão.

Ele era um senhor trabalhador, uma pessoa que não se metia com ninguém nem nada disso, mas assim mesmo o pegaram por causa da sua barba. E por isso o tiraram da reunião e o mete­ram na fila onde iam matar as pessoas. E lhe deram duas punhaladas e o jogaram na bomba de gasolina envolta em chamas. Isso o deixou com a carne queimada, como um torresmo[25]. Assim foi que o povoado ficou com um mau cheiro, como quando se faz um assado e a carne queima. Assim era, um mau cheiro nauseabundo que não se explicava, porque cheirava a carne queimada. E ainda mataram gente na savana, porque um senhor que tinha uma moto, o degolaram. E um amigo meu tinha ido dar uma volta em uma caminhonete na savana e eles o encontraram por lá e também o trouxeram, e ali na pista onde estava a reunião enquadraram a sua caminhonete e o amarraram. Nós conseguíamos vê-lo amarrado. Inclusive um dos joalheiros da cidade também foi amarrado na praça em frente a pista, depois de também ter sido capturado por eles na savana. Além disso, roubaram sua mercadoria (Rosa, 2016).

Rosa segue narrando diversas outras mortes que foram cometidas diante de todos, como o irmão do joalheiro, que estava amarrado. Esse jovem foi assassinado quando viram que ele não era dali e seu irmão, o joalheiro, amarrado, teve de vê-lo sendo jogado na mesma bomba de gasolina em chamas onde os paramilitares já tinham jogado o senhor por causa de sua barba. Outros três jovens foram assassinados porque trabalhavam raspando coca[26]. Segundo Rosa, estes jovens não viviam ali, mas “estavam no povoado, porque sempre que recebiam seus pagamentos se dirigiam a Caño Jabón, onde se metiam em negócios de prostituição até que acabava o dinheiro e, em seguida, voltavam mais uma vez a trabalhar” (Rosa, 2016).

Outras duas mortes que ficaram muito latentes na memória de Rosa, foram pai e filha, assassinados quando tentavam fugir pelo rio. Eles viviam rio abaixo e a menina estudava em Caño Jabón. Segundo Rosa, era dia do aniversário dela e eles tinham ido comemorar no centro do povoado. Rosa não chegou a dizer como a menina foi morta, mas na página Rutas del Conflicto eles apresentam uma matéria sobre o massacre de Caño Jabón em que tomamos consciência de que a menina de seis anos, que era indígena, foi morta no barco com seu pai pelos paramilitares no Rio Guaviare. A comprovação de que os paramilitares a mataram no momento em que ela e seu pai fugiam do massacre descendo o rio se dá com a junção da matéria do Rutas del Conflicto, o depoimento de Rosa e de uma notícia divulgada no site da Fiscalía General de la Nación que fala da condenação de 40 paramilitares envolvidos no massacre de Caño Jabón. Nessa notícia, a Fiscalía diz que a menina, chamada Anyi Carolina Ducuara Vieda, foi assassinada no momento que fugia com sua família numa lancha pelo rio (Masacre de Caño Jabón, s.a.).

Soma-se ao alto grau de violência dos paramilitares, o caráter econômico dessa incursão militar, pois tudo que lhes foi possível levar de bens materiais do povoado, eles levaram, desde roupas, joias, dinheiro, mercadorias das lojas e veículos. Rosa chega a afirmar, inclusive que para ela, apesar dos paramilitares o tempo todo dizerem que estavam ali porque Caño Jabón era uma vila de apoiadores das FARC, para ela o real objetivo deles era levar o máximo possível de coisas de valor, pois sabiam que se tratava de um lugar de comércio onde se manejava muita mercadoria. “Eu penso que a finalidade deles de entrar em Caño Jabón foi por dinheiro” (Rosa, 2016).

Nesse ponto é interessante destacar que nas versões livres dos paramilitares envolvidos nos massacres de Mapiripán e em Caño Jabón, dentre outras que ocorreram durante a presença das AUC organizadas nos Llanos Orientales, eles reforçam que Caño Jabón era, desde sempre, o objetivo estratégico dos paramilitares, por se tratar de um território de domínio privilegiado das FARC, chegando inclusive a dizer que ali se encontrava o quartel general da guerrilha. Embora eles admitam que saquearam estes povoados, reforçam o argumento de que o objetivo, de caráter tático contrainsurgente[27], era o desestabilizar as zonas de apoio civil dos guerrilheiros, tomando os territórios sob sua influência.

E como podemos ver no depoimento de Rosa, de fato os paramilitares lhes acusavam o tempo todo, durante o massacre, de apoiadores da guerrilha ou diretamente de participação no movimento guerrilheiro, o que torna os dois depoimentos, dos paramilitares e da sobrevivente que nos conta sua história, ao mesmo tempo, convergentes no ponto referente às acusações de apoio às FARC, mas divergentes quanto aos objetivos da ocupação. São divergentes porque, embora de fato os paramilitares dissessem aos moradores que eles estavam sendo punidos por serem guerrilheiros ou apoiadores da guerrilha, e por mais que eles tenham assumido em suas versões livres que cometeram furtos, para quem viveu a experiência do massacre, os danos econômicos foram altos demais para que o objetivo principal fosse a tortura dos civis supostamente apoiadores da guerrilha. As vantagens econômicas que eles obtiveram com a ocupação de Caño Jabón, da perspectiva de quem estava lá e teve seus bens roubados, foi alta e bastante vantajosa.

Em nota publicada pela Fiscalía General de la Nación, no dia 14 de fevereiro de 2014, sobre os paramilitares envolvidos no massacre em Caño Jabón:

según versiones libres y confesiones entregadas a fiscales de la Unidad de Fiscalías para la Justicia y la Paz por Dumar de Jesús Guerrero, alias Carecuchillo, y otros partícipes en la masacre, en ese lugar se cometieron saqueos, homicidios e incendios en la pista de aterrizaje, donde una estación de gasolina, un avión y varios vehículos fueron dinamitados (Condenado a 40 años por masacre de Caño Jabón, 2014).

O momento em que os paramilitares saíram do povoado foi, segundo Rosa, quase que imperceptível para os que sobreviveram, porque o pavor deles era tamanho que, de cara para o chão, demoraram a perceber que já se encontravam sós. Nesse momento, saíram à procura de algum telefone ou aparelho de rádio para pedir ajuda, quando se deram conta de que as casas que não tinham sido incendiadas, tiveram seus telefones quebrados e fios arrancados exatamente para que eles permanecessem isolados e sem comunicação. Por sorte, uma mulher encontrou seu radiotransmissor e chamou o padre da cidade para que ele chamasse por socorro.

E o sacerdote imediatamente foi ligar para Villavicencio, para avisar o que havia passado. Mas eles estavam, todavia, numa colina perto do povoado. E interceptaram nossa chamada, porque eles também traziam rádios. E quando se deram conta de que era o padre que estava chamando a Villavicencio, interromperam a ligação, xingando o padre e ameaçando voltar imediatamente ao povoado (Rosa, 2016).

Diante da possibilidade de retorno dos paramilitares, a maior parte dos habitantes de Caño Jabón subiu nos barcos que restavam e saíram com o que tinham no corpo, em massa, em busca de ajuda, deixando na cidade poucas pessoas, casas queimadas e muitos corpos estendidos pelo chão. No dia seguinte, quando muitos regressaram, a cidade já estava cheia de gente. Pessoas da Cruz Vermelha, da Fiscalía, da imprensa e do Exército. Mas uma coisa que Rosa ressalta é que muitos militares que acompanhavam essa comitiva de ajuda humanitária traziam consigo objetos, especialmente ouro, que imediatamente os moradores reconheceram como seus pertences que foram roubados durante o massacre. Era um recado, uma ordem de silenciamento. E então, quando a Fiscalía ofereceu transporte para que eles saíssem de Caño Jabón, todos aceitaram e a evacuação total levou ainda três dias. “E o povoado ficou sozinho. Ficou triste. Já não era o povoado onde por tantos anos nós havíamos vivido e havíamos trabalhado. Assim como conseguimos sair desse povoado, igualmente o perdemos”[28].

Já em Bogotá, Rosa nos conta que tudo que ela ainda tinha de bens, era o apartamento em Bogotá, onde, por sorte estavam a sua mãe e seus filhos quando ocorreu o massacre. Este apartamento, depois de alguns anos morando em Bogotá, teve de ser hipotecado como garantia de um empréstimo e, mais tarde, vendido, porque Rosa não conseguia dar conta do alto custo de vida na capital, sem seus fregueses fixos, agora precisava lutar para sobreviver. Assim, a perda material das pessoas que fogem da violência é incalculável.

Eu não perdi esse apartamento, inclusive eu o incluí em meu processo de deslocamento forçado, porque se eu não tivesse passado pelo que aconteceu em Caño Jabón, eu nunca, jamais!, teria me metido com essa hipoteca. Porque era a casa de minha mãe e de meus filhos e tudo isso, porque a essa altura minha mãe já havia se separado de meu padrasto e já estava vivendo aqui em Bogotá com meus filhos. Então, devido ao deslocamento forçado, eu me meti com essa hipoteca e perdi meu apartamento (Rosa, 2016).

O que fica muito evidente no depoimento da Rosa é o quanto a experiência do deslocamento forçado é danosa para a segurança econômica das vítimas[29]. Sua narrativa de vida é de suma importância para pensarmos mais sistematicamente a centralidade do empobrecimento da população vítima do conflito, tendo em vista que mesmo uma pessoa que possuía um bom emprego, imóveis, uma vida econômica estável, é jogada a uma situação de vulnerabilidade econômica após o deslocamento forçado. “Depois disso, tem sido uma tarefa e uma luta muito árdua que nós temos passado com esse governo. Porque eles sim têm culpa” (Rosa, 2016).

A revolta de Rosa, na qualidade de vítima e sobrevivente da violência sociopolítica do conflito armado colombiano, ao culpabilizar o Estado pelos atos violadores que sofreu não se encerra em sua dor por tudo que perdeu – em termos psicológicos e financeiros. Existe, além da vulnerabilidade econômica, outras marcas deixadas pela violência, a “ferida da alma”. Quando os indivíduos perseguidos não podem comprovar a violência com as marcas no seu corpo, restam-lhe como alternativa essas feridas da alma, ou seja, o trauma psíquico ou o transtorno de estresse pós-traumático (Fassin, 2017). Muitas vezes o corpo é o reduto da violência, é no corpo da vítima, através de suas marcas que se manifestam os atores sociais e nas denúncias contra o Estado. E no caso da nossa protagonista, Rosa, são os registros das memorias que possibilitam desvendar essas feridas provocadas pelo massacre de Caño Jabón.

É importante destacar que o Estado colombiano tem sido responsabilizado, para só citar uma instância, frente a Corte Interamericana de Direitos Humanos por diversas vezes ao longo da história do conflito armado. Inclusive, a respeito do massacre de Mapiripán, umbilicalmente ligado ao massacre de Caño Jabón, como já mostramos aqui. Sobre isso, a Corte Interamericana de Direitos Humanos afirma que:

La Corte observa que, si bien los hechos ocurridos entre el 15 y el 20 de julio de 1997 en Mapiripán fueron cometidos por miembros de grupos paramilitares, la preparación y ejecución de la masacre no habría podido perpetrarse sin la colaboración, aquiescencia y tolerancia, manifestadas en varias acciones y omisiones, de miembros de las Fuerzas Armadas del Estado, inclusive de altos funcionarios de éstas de las zonas. […] al analizar los hechos reconocidos por el Estado, surge claramente que tanto las conductas de sus propios agentes como las de los miembros de grupos paramilitares son atribuibles a Colombia en la medida en que éstos actuaron de hecho en una situación y en zonas que estaban bajo el control del Estado. […] las autoridades estatales que conocieron las intenciones del grupo paramilitar de realizar una masacre para infundir temor en la población, no sólo colaboraron en la preparación para que dicho grupo pudiera llevar a cabo estos actos delictuosos, sino también hicieron parecer ante la opinión pública que la masacre fue perpetrada por el grupo paramilitar sin su conocimiento, participación y tolerancia, situaciones que están en contradicción con lo ya acreditado en los hechos probados y reconocidos por el Estado (Corte Interamericana de Derechos Humanos, 2005: 110).

Rosa citou em sua entrevista que o padre de Caño Jabón chegou a pedir ajuda ao comandante do Exército em Mapiripán, Freddy Padilla de León, quando do massacre naquela região, em 1997, um ano antes do massacre em Caño Jabón, mas a proteção militar nunca veio. O General Freddy Padilla de León, bem como o Governador do departamento de Meta quando do massacre em Caño Jabón, junto de outros comandantes do exército, estão sendo investigados pela Fiscalía por participação no massacre. Na época, Padilla León era comandante da VII Brigada do Exército (Fiscalía investiga a general Padilla…, 2014).

Além de Padilla León, foi solicitada a investigação da participação do General Jaime Humberto Uscátegui, que já foi condenado por participação no massacre de Mapiripán. Os ex-governadores de Meta, Alfonso Urtiz Bautista Durán e Edmundo Alan Jara Usola são acusados por terem tido conhecimento do ocorrido, sem que prestassem socorro. A investigação apresenta sucessivos pedidos de ajuda e segurança realizados em outubro de 1997, pelos moradores de Puerto Alvira (Caño Jabón), através da Defensoría del Pueblo ao Ministério de Defensa e ao comandante da VII Divisão do Exército, sem que obtivessem uma resposta. Depois, em janeiro de 1998, mais duas vezes os habitantes pediram ajuda, através da Defensoría del Pueblo, solicitando efetivos de segurança e inteligência para a localidade (Fiscalía investiga a general Padilla…, 2014). Mas, todas essas petições não foram atendidas.

O massacre de Caño Jabón resultou na morte de 18 pessoas e no esvaziamento da cidade. Os ex-moradores vivem em diversos locais do país, e a maior parte reside em Bogotá onde ainda esperam as indenizações referentes aos danos do trágico 4 de maio de 1998. Rosa vive e trabalha em Bogotá e nunca mais voltou a Caño Jabón.

Reflexões finais

Para compreender o processo de acumulação de capital na Colômbia, é necessário levar em consideração a associação existente entre as dinâmicas de acumulação e o uso irrestrito da violência, que produz “uma maquinaria do terror, da morte e do extermínio físico e moral, produzindo o disciplinamento e o com­trole social baseado na violência” (Estrada Álvares, 2012: 128).

A associação entre o capital nacional e o capital internacional se dá mediante duas vias que caminham lado a lado, sendo, por um lado, a manutenção da dependência econômica frente ao capital estrangeiro e suas respectivas alianças estratégicas com os Estados Unidos, seja pela entrada de capital de empresas americanas ou pela entrada de capital militar, com a desculpa de combater os “inimigos internos”. Por outro lado, temos o desenvolvimento de uma economia cada vez mais voltada para as atividades ilícitas do capital, a saber: o tráfico de pessoas, drogas e armas, bem como a extração ilegal de recursos naturais. É importante pensar aqui na economia neoliberal como produtora de uma espécie de “neoliberalismo traficante” que lucra e se alimenta de setores criminosos, ilícitos e violentos da produção de riquezas. Soma-se a essa “empresa” de capital criminal o financiamento, a manutenção e a reprodução do conflito armado, gerando terror, força de trabalho ilegal e violência sistemática contra a população civil, como vimos no relato de Rosa.

A violência gerada pelos conflitos armados internos deixa marcas indeléveis na sociedade. Algumas dessas marcas são vistas a “olho nu” como os povoados esvaziados, onde o silêncio fala por si só, ou nos corpos torturados das vítimas; outras são silenciadas, por vezes esquecidas, e de mais difícil percepção. As migrações forçadas são um fenômeno derivado dessa violência, e os fluxos massivos compreendem a desumanização de um processo criminoso que transformam, segundo Didier Fassin, vidas em produtos descartáveis e, também, no grande desafio à ordem moral do século XXI para as sociedades ocidentais (Fassin, 2017).

A vulnerabilidade das comunidades, das vítimas indefesas onde enfrenta-se a uma lógica de morte, de guerra, do massacre e do poder dos grupos armados. Foi assim com a vida de muitas pessoas do povoado de Caño Jabón. Para compreender esse passado-presente, esse “passado que não passa”, é necessário munir-se de sentidos de uma narrativa do passado, de vozes que narram a partir de seu presente e também fazer leituras do futuro. Por mais que muitas instituições assumam a função de reconstruir o mapa do terror e as implicações de seus atores no cenário de extermínio de civis, como é o caso da Memória Histórica em Colômbia, as vítimas dessa violência e os milhões de deslocados, necessitam de políticas públicas que atendam às suas demandas da justiça e da verdade.

O relato de Rosa, essa colombiana que se encontra fora de seu lugar, arrancada de sua casa, nos traz o léxico do trauma, do sofrimento e o clamor de um pedido por justiça social. Suas memórias, advindas de uma situação ainda presente, representa para nós, historiadores, seguindo a Traverzo (2016), a interferência entre o distanciamento do historiador e a sensibilidade do vivido. Rosa é vítima de uma catástrofe que não cessou na sociedade colombiana. Ela nos apresentou a construção do passado a partir do presente, e possibilitou-nos conjugar as fontes oficiais com essa sensibilidade das experiências vividas. Enfim, foi por meio das suas lembranças que levou-nos a novos e diferentes campos interpretativos que devem ser explorados nessa ferida ainda aberta, que é o conflito armado colombiano

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Notas

[3] Para saber mais sobre o funcionamento, articulação e mecanismos de violência empreendidos pelas Maras no Triângulo Norte (El Salvador, Guatemala e Honduras) ver, entre outros textos: Carolina Sampó (2013).
[4] Sobre a experiência de colombianos que foram forçados a viver fora da Colômbia, ver: Ortiz, Kaminker (2014).
[5] O resgate da memória do conflito armado colombiano já a converteu em uma estratégia militante por justiça e reparação, uma vez que, nesse país, o levantamento da memória das vítimas ocorre concomitantemente a episódios de violência e tentativas de negociações de paz. “Colombia tiene una larga historia de violencia, pero también una renovada capacidad de resistencia a ella, una de cuyas más notorias manifestaciones en las últimas dos décadas ha sido la creciente movilización por la memoria. La memoria se afincó en Colombia no como una experiencia del posconflicto, sino como factor explícito de denuncia y afirmación de diferencias. Es una respuesta militante a la cotidianidad de la guerra y al silencio que se quiso imponer sobre muchas víctimas”. Prólogo de Sánchez Gomes (Centro Nacional de Memoria Histórica, 2013: 13).
[6] Reconhecemos a importância do rigor metodológico na análise de fonte oral, envolta em nuances emocionais, esquecimentos, traumas e cortada pelo peso da experienciação de um evento histórico. Para uma maior abordagem do tratamento que se espera de fontes dessa natureza, ver: Ferreira, 1996; Flier, Lvovich,2014; Girón Ortiz, et al., 2012; Sarlo, 2007.
[7] Por medida de segurança, este não é seu nome real.
[8] Para maiores informações sobre o impacto dos massacres na história do conflito armado colombiano, ver: GMH, 2011; GMH, 2012; GMH, 2011; GMH, 2010; GMH, 2008.
[9] O Estatuto de Roma foi concebido pela Conferência de Plenipotenciários das Nações Unidas, em 1998, e criou a Corte Penal Internacional, tendo entrado em vigor em 2002. A Colômbia aderiu ao Tratado de Roma através da Lei 742, de 2002.
[10] De acordo com o Estatuto de Roma, crime de lesa humanidade ou crimes contra a humanidade são quaisquer “atos violentos, quando cometidos no quadro de um ataque, generalizado ou sistemático, contra qualquer população civil, havendo conhecimento desse ataque”. O Estatuto ainda tipifica os principais atos violentos considerados como atentados contra a humanidade: “a) Homicídio; b) Extermínio; c) Escravidão; d) Deportação ou transferência forçada de uma população; e) Prisão ou outra forma de privação da liberdade física grave; f) Tortura; g) Agressão sexual, escravatura sexual, prostituição forçada, gravidez forçada, esterilização forçada ou qualquer outra forma de violência no campo sexual de gravidade comparável; h) Perseguição de um grupo ou coletividade que possa ser identificado, por motivos políticos, raciais, nacionais, étnicos, culturais, religiosos ou de gênero; i) Desaparecimento forçado de pessoas; j) Crime de apartheid”.
[11] O Grupo Memória Histórica entende por massacre as operações armadas – com ou sem enfrentamento entre os grupos combatentes – que culminam com quatro ou mais mortes (Centro Nacional de Memória Histórica, 2013: 47-48).
[12] De acordo com o Grupo de Memória Histórica (GMH), os grandes massacres ou massacres de grandes dimensões, são aqueles que possuem mais de 10 mortos, enquanto os pequenos massacres são os que possuem entre 4 e 6 vítimas fatais.
[13] De acordo com o Centro Nacional de Memória Histórica, os assassinatos seletivos representam a modalidade de violência mais letal e, ao mesmo tempo, são as mortes menos visíveis do conflito armado, sendo responsável por cerca de 150.000 assassinatos desde a década de 1980 até 2012. O Grupo de Memória Histórica considera como assassinato seletivo o ato violento perpetrado no marco do conflito em que são vítimas de homicídio três ou menos pessoas (Centro Nacional de Memoria Histórica, 2013: 36).
[14] Os processos de desaparecimento forçado são uma prática estendida do conflito armado, que já produziu 170.160 vítimas, das quais o Registro Único de Vítimas (RUV) as divide em vítimas diretas (47.194) e vítimas indiretas (122.966) até o momento. Dados atualizados em 1 de julho de 2018. Ver: Víctimas de conflito armado (2018, dic. 1) Reporte General. Recuperado de http://cifras.unidad­victimas.gov.co/Home/General.
[15] Nome fictício. Todos os nomes das entrevistadas foram modificados para sua segurança e de suas famílias. Suas regiões de origem, no entanto, são verdadeiras.
[16] Trata-se da cidade de Ocaña, localizada no departamento (estado) de Norte de Santander.
[17] Capital do departamento (estado) de Guaviare.
[18] Distrito de Mapiripán. Caño Jabón é a forma como o povoado é chamado, mas seu nome oficial é Puerto Alvira.
[19] Villavicencio é a capital do departamento (estado) de Meta, além de ser o principal centro comercial da região dos Llanos Orientales, onde fica inserida também a região da Amazônia colombiana.
[20] Mapiripán é um município localizado no departamento (estado) de Meta.
[21] Procuramos nos arquivos da CIDH sentenças relacionadas ao massacre de Caño Jabón, mas não encontramos. Sobre a sentença contra o Estado colombiano em relação ao massacre de Mapiripán,
[22] Aqui havíamos perguntado a que distância ficava Caño Jabón de Mapiripán, ao que ela respondeu que estão a duas horas de distância um do outro seguindo de barco pelo Rio Guaviare. E disse que lá não havia estradas ligando um povoado ao outro, embora eles tivessem carros, que chegavam em grandes barcos de carga pelo rio. Disse também que em Caño Jabón havia cerca de duas mil pessoas, mas que ao longo do Rio havia muitas pessoas, em povoados diferentes. Por isso, por haver, de uma certa forma, um “isolamento” entre as duas localidades, era possível experimentar um tipo de segurança, logo, uma crença de que o massacre de Mapiripán poderia não se repetir ali.
[23] Trata-se da pista de pousos e decolagens de aviões de Caño Jabón.
[24] A matéria do projeto Rutas del Conflicto, fala que metade do povoado foi incendiado. Ver: http://rutasdelconflicto.com/interna.php?masacre=93.
[25] O termo que ela usa é chicharrón.
[26] Raspar coca é uma expressão utilizada para traduzir o trabalho de colheita das folhas de coca nas plantações. O departamento de Meta, bem como o município de Mapiripán são localidades com alta produção de marijuana e coca. Na sentença dos paramilitares dos Bloque Centauros e Bloque Héroes del Llano y del Guaviare, quando narra a história do municipio de Mapiripán, afirma que “a partir del año 1968, el crecimiento del pueblo va ligado al fenómeno del narcotráfico, primero con la marihuana y posteriormente, cuando este cultivo dejó de ser rentable, se introdujo a la región la coca que actualmente se sigue cultivando en el municipio”. Ver: Tribunal Superior del Distrito Judicial de Bogotá (2016: 113).
[27] Sobre o caráter contrainsurgente do conflito armado colombiano, ver: Franco (2009); Gill (2005); Trinquier (1965).
[28] Aqui foi o momento em que Rosa mais se emocionou em todo o seu relato. A perda de seu espaço de sociabilização, de troca, de trabalho e, logo, vivência enquanto ser humano, na sua relação com os outros, com os seus; foi quebrada mediante um evento traumático, que se reflete de forma extremamente negativa – apesar de toda a sua força em resistir e sobreviver, bem como de lutar por justiça e paz – em sua vida pós deslocamento forçado. Nesse momento, algumas coisas mais foram ditas, mas ela pediu que não fosse divulgado. Tudo, entretanto, reflete seu pesar por ter perdido mais que a casa e seus bens materiais, por ter perdido o lugar onde tinha sido feliz. (Os grifos são todos de responsabilidade nossa, assim como a interpretação de suas palavras.)
[29] Sobre os traumas e consequências da violência sócio-política na vida da população vítima de migração forçada, ver: Martha Nubia Bello (2000); Donny Merteens, Nora Segura Escobar (1997).

Autor notes

[1] Professora Adjunta de História de América da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); Professora Titular do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO). Coordenadora do Laboratório de Estudos de Imigração (LABIMI-UERJ). E-mail erisarmiento@gmail.com.
[2] Doutoranda em História Social pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHIS-UFRJ). Mestre em História Política pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGH-UERJ). E-mail: taisafalcao@gmail.com.
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