Debate
O Trabalho e a Cidade: Uma análise do serviço doméstico e a circulação de criadas estrangeiras na cidade do Rio de Janeiro (1880-1930)
Work and the City: An analysis of domestic service and the circulation of foreign maids in the city of Rio de Janeiro (1880-1930)
O Trabalho e a Cidade: Uma análise do serviço doméstico e a circulação de criadas estrangeiras na cidade do Rio de Janeiro (1880-1930)
Revista del CESLA, vol. 27, pp. 75-94, 2021
Uniwersytet Warszawski

Recepción: 30 Noviembre 2020
Aprobación: 20 Junio 2021
Resumo: Desde a escravidão, o serviço doméstico era uma das atividades laborais que mais empregava mulheres, sobretudo as de cor, que até hoje é a parcela da população que mais ocupa tal atividade, no Brasil. Entretanto, a pesquisa apresentada tem como objetivo analisar a participação das criadas europeias no serviço doméstico carioca, destacando as formas pelas quais se inseriam na dita atividade; quais as nacionalidades eram mais demandadas e ofertadas; bem como investigar a circulação dessas personagens na cidade do Rio de Janeiro. Para isso, lançaremos mão de documentos como anúncios de jornais presentes em periódicos cariocas, como o Jornal do Commercio, mapas confeccionados a partir de dados coligidos em tais anúncios, que serão analisados a partir de uma perspectiva da História Global do Trabalho. Assim, a partir dos endereços disponibilizados nos anúncios, foi realizado um mapeamento de tais localizações das demandas por criadas/os estrangeiras/os e de sua oferta, verificando, portanto, a espacialização dessas personagens na Capital Federal e as condições de trabalho provenientes.
Palavras-chave: serviço doméstico, imigração europeia, mundos do trabalho, anúncios, Rio de Janeiro.
Abstract: Since slavery, domestic service was one of the work activities that most employed women, especially those of color, which to this day is the portion of the population that most occupies such activity in Brazil. However, the research presented aims to analyze the participation of European maids in the carioca domestic service, highlighting the ways in which they inserted themselves in said activity; which nationalities were most in demand and offered; as well as investigating the circulation of these characters in the city of Rio de Janeiro. For this, we will make use of documents such as newspaper advertisements present in Rio de Janeiro periodicals, such as Jornal do Commercio, maps made from data collected in such advertisements, which will be analyzed from a perspective of Global Labor History. Thus, from the addresses available in the advertisements, a mapping of such locations of demands by foreign servants and their offer was carried out, thus verifying the spatialization of these characters in the Federal Capital and the resulting working conditions
Keywords: domestic service, European immigration, worlds of work, newspaper ads, Rio de Janeiro.
Introdução
O serviço doméstico, portanto, mostra-se, até hoje, um espaço privilegiado para se observar a precarização das relações laborais e da concepção de trabalho livre assalariado. Para isto, pensar a intersecção entre raça, classe, gênero e etnia se faz necessário para a compreensão das relações de trabalho envolvendo mulheres nacionais negras, mas também algumas europeias, que muitas vezes experienciavam relações de trabalho degradantes e as desconfianças por serem estrangeiras. É evidente que o peso racial operava desigualdades na determinação das relações de trabalho. Ser uma mulher negra, pobre e empregada doméstica evidentemente era mais penoso do que ser uma criada europeia na mesma condição laboral. Entretanto, não podemos desconsiderar as amarguras de ser uma criada estrangeira tentando fazer a vida, mesmo em regiões mais abastadas como a Zona Sul carioca, que apesar da opulência, poderia encobrir duras condições de vida e trabalho.
O serviço doméstico é uma atividade que arregimenta uma parcela significativa das mulheres economicamente ativas no Brasil[1] que experimentam desigualdades de gênero, classe e raça em sua labuta. Essas desigualdades vivenciadas por empregadas domésticas assumem cada vez mais um papel de destaque em estudos das diversas disciplinas das Ciências Humanas que apresentam outras/os agentes sociais que também vivenciam preconceitos e estigmas em sua condição de outsider - os/as imigrantes (Andall, 2017; Momsen, 1999). Trabalhos como o de Cole e Booth (2007) buscam trazer à tona a relação entre imigração e serviço doméstico, em cenários de busca por melhores condições de vida das populações que experimentam condições político-econômicas desfavoráveis em sua terra natal. Ao analisar como a Sicília se converteu em destino privilegiado para “centenas de Tunisianos, Bangladeshis, Filipinos, Nigerianos, Sri Lankas, e outros”, por exemplo, é identificado que os referidos imigrantes, uma vez estabelecidos, se lançavam em três tipos de “dirty work”: serviço doméstico, prostituição e agricultura – “caracterizados pela disparidade de pagamento, segurança e prestígio” (Cole & Booth, 2007).
No cenário da circulação de pessoas, é notório perceber que mulheres cruzaram países e buscaram melhores condições de vida, seja com suas famílias e companheiros, seja individualmente, por toda a história. Entretanto, na historiografia brasileira, só muito recentemente as experiências migratórias femininas estão sendo consideradas dados de pesquisa. Conforme, de Medeiros e de Matos, a “invisibilidade do feminino nos estudos dos processos de e/imigração tendeu a ser justificada pela menor porcentagem de mulheres nas partidas oficialmente computadas”. (de Medeiros & de Matos, 2017).
É a partir da análise da presença da imigração europeia no serviço doméstico que buscamos analisar as formas de inserção destes/as trabalhadores/as ao mundo do trabalho[2] carioca e sua circulação na cidade, no período de 1880 a 1930. Tal recorte temporal, justifica-se por englobar diversas mudanças sociais, como o processo de emancipação e o fortalecimento do pensamento liberal. Além disso, o recorte engloba o que se convencionou chamar de “grande imigração”, período pelo qual milhões de imigrantes europeus/ias aportaram em territórios do continente americano, como Argentina, EUA, Canadá e Brasil. No caso brasileiro, alguns autores, como Herbert S. Klein, por exemplo, enquadram a “grande imigração”, ou “imigração em massa”, ao período de 1880-1915, uma vez verificada uma queda na taxa de imigração com o início da Primeira Guerra Mundial (Klein, 2000). Entretanto, autores como Érica Sarmiento da Silva e Jair de Souza Ramos, estendem este período até 1930 pelo fato da imigração ainda se mostrar relevante (de Silva, 2009; Ramos, 1996). Seguindo estes últimos autores, a justificativa para a escolha do período de 1880-1930 dar-se-á pelo fato de ser um período importante para o processo de imigração, além da década de 1880, representar um momento decisivo tanto para a consolidação do fim da escravidão como para a imigração que já alcançava taxas significativas. De acordo com da Costa Leite (2000), a década de 1880 foi um ponto alto na imigração de portugueses, italianos e alemães para o Brasil.
Assim, definidos os objetivos e recortes, passemos às análises sobre a presença de mulheres imigrantes no serviço doméstico carioca, a partir de uma investigação feita nos documentos supracitados, mas, sobretudo, em anúncios de ofertas e demandas de criadas, presentes no periódico Jornal do Commercio.
A imigração europeia no serviço doméstico carioca a través de anúncios de oferta e demanda
Ao final do século XIX, o Brasil experimentou mudanças sociais significativas. Se a abolição foi um dos processos mais impactantes em relação a vida política, social e em relação aos mundos do trabalho, a “grande imigração” também teve uma relevância a ser destacada. Para ter um melhor entendimento desse contexto, as cifras sobre as grandes migrações do final do século XIX e início do século XX, nos mostram um número crescente de homens e mulheres partindo de países europeus rumo às Américas, favorecidos por avanços tecnológicos que permitiram a comunicação mais ágil e mais barata entre a Europa e a América.[3] Assim, cerca de 31 milhões de pessoas cruzaram o Atlântico rumo ao Novo. Para o Brasil, entre 1890 e 1914, cerca de 2,5 milhões de europeus migraram, sendo 987 mil subsidiados pelo Estado sob a forma de custeio das viagens.[4] No caso do Rio de Janeiro, no ano de 1872, havia 190.689 brasileiros e 84.283 estrangeiros, sendo 158.766 homens e 116.206 mulheres (69% de nacionais e 31% de estrangeiros). Em 1890, o percentual de estrangeiros em relação aos nacionais permanece parecido: 367.449 nacionais para 155.202 estrangeiros (70% de nacionais e 30% de estrangeiros) (Ribeiro, 1987).
Muitos vinham de regiões como o Leste e Sul europeu, até então em cifras inferiores, frente à imigração do Norte que prevaleceu até a década de 1880. Esses imigrantes do Leste e Sul da Europa, geralmente eram homens, jovens pouco qualificados, que pretendiam “fazer a América” e regressar à sua terra natal. O retorno aconteceu para cerca de 65% dos imigrantes desembarcados, entre 1899 e 1912, no Brasil. Só não sabemos se esse retorno estava associado ao sucesso em terras estrangeiras ou as desilusões frente às condições de vida experimentadas (Galeano, 2012, p. 73). O mais provável é que o retorno por sucesso tenha sido inferior aos motivados por desilusões e/ou extradições.
Mulheres e homens que permaneciam e tentavam manter a vida, a adaptação ao novo país, geralmente, se dava pela inserção no trabalho. No caso das mulheres, o caminho mais fácil era a sua contratação para o serviço doméstico, seja através de um contato prévio estabelecido por um/a patrício/a que já residia aqui e intermediava alguma casa de família para a recém-chegada se instalar; seja pela intermediação de agências de locação que enchiam as páginas do Jornal do Commercio, com centenas de anúncios que colocavam à disposição das famílias, as mais variadas demandas de pessoas especializadas em algum serviço doméstico.
Nas tabelas a seguir (Tabela 1, Tabela 2), verificam-se as diversas nacionalidades de criadas ofertadas e demandadas nos anúncios do Jornal do Commercio.[5]
| 1882 | 1887 | 1892 | 1897 | 1902 | 1907 | 1912 | 1917 | 1922 | 1928 | 1932 | Total | |
| Portuguesa | 7 | 1 | 1 | 2 | 6 | 52 | 5 | 2 | 1 | 77 | ||
| Espanhola | 1 | 1 | 2 | 4 | ||||||||
| Francesa | 2 | 1 | 1 | 2 | 6 | |||||||
| Alemã | 2 | 1 | 1 | 1 | 1 | 6 | ||||||
| Americana | 1 | 1 | ||||||||||
| Europeia | 1 | 1 | ||||||||||
| Estrangeira | 2 | 1 | 2 | 4 | 1 | 2 | 1 | 13 | ||||
| Inglesa ou Alemã | 1 | 1 | ||||||||||
| Chegada da Europa | 1 | 2 | 3 | |||||||||
| Nacional | 4 | 1 | 2 | 7 | ||||||||
| Não inf. | 107 | 9 | 41 | 43 | 23 | 24 | 48 | 15 | 2 | 12 | 5 | 329 |
| 1882 | 1887 | 1892 | 1897 | 1902 | 1907 | 1912 | 1917 | 1922 | 1928 | 1932 | Total | |
| Portuguesa | 1 | 1 | 1 | 2 | 1 | 1 | 1 | 8 | ||||
| Espanhola | 1 | 1 | 2 | |||||||||
| Francesa | 1 | 1 | 2 | |||||||||
| Alemã | 1 | 1 | 2 | |||||||||
| Inglesa | 1 | 1 | ||||||||||
| Estrangeira | 1 | 4 | 1 | 2 | 1 | 1 | 10 | |||||
| Nacional ou estrangeira | 1 | 1 | ||||||||||
| Francesa, Suíça ou Belga | 1 | 1 | ||||||||||
| Portuguesa ou Alemã | 2 | 2 | ||||||||||
| Oriental | 1 | 1 | ||||||||||
| Nacional | 1 | 1 | 1 | 3 | ||||||||
| Não inf. | 60 | 68 | 108 | 61 | 42 | 79 | 38 | 13 | 8 | 6 | 43 | 526 |
A tabela nos revela um padrão bem conhecido da imigração europeia em solo carioca – a presença majoritária de portugueses.[6] Tal dado, pode justificar o predomínio de anúncios de empregadas/os portuguesas/es em relação às outras nacionalidades. Estamos falando de um processo de imigração em que há um número significativamente maior de portugueses em relação às outras nacionalidades. Este fenômeno, além de gerar um número considerável de trabalhadores economicamente ativos disponíveis ao mercado de trabalho, gerava também, um outro fenômeno que foi bem característico até os primeiros anos republicanos – o antilusitanismo ( Chalhoub, 2001; Ribeiro, 1987), que se faz presente também nos anúncios analisados que seguem:
Precisa-se de uma boa e carinhosa ama de leite, branca ou de cor, não sendo portuguesa; trata-se na rua do Souto n. 17. [grifo meu]. (“Precisa-se de uma boa e carinhosa ama de leite”, 1920)
Criada estrangeira - precisa-se de uma (que não seja portuguesa); na Avenida Atlântica n. 250, Leme. [grifo meu]. (“Criada estrangeira - precisa-se de uma”, 1910)
Apesar de verificarmos as tensões e rixas que muitos nacionais possuíam em relação aos portugueses, é fato a integração desses imigrantes à população nativa. Os anúncios revelam que, apesar das desconfianças que portugueses geravam à parcela dos nacionais, é notório que a imagem da/o portuguesa/ês morigerada/o sobressaía quando se precisava de criadas/os estrangeiras/os.
Precisa-se de uma arrumadeira; na Avenida Gomes Freire n. 129, prefere-se portuguesa. (“Precisa-se de uma arrumadeira”, 1910)
Precisa-se de uma criada para cozinhar e mais serviços de duas senhoras; na rua Visconde do Rio Branco n. [ileg.], sobrado. Prefere-se portuguesa. (“Precisa-se de uma criada para cozinhar e mais serviços”, 1915)
Precisa-se de uma copeira e arrumadeira para casa de família, prefere-se portuguesa; trata-se na praia do Flamengo. (“Precisa-se de uma copeira e arrumadeira”, 1915)
Além da construção da narrativa de que o imigrante europeu era a expressão do bom trabalhador, outro aspecto poderia se destacar em relação a preferência por uma criada imigrante: a elevação do status social. Analisando alguns costumes da sociedade carioca do século XIX, verifica-se a aversão, entre a população livre, sobretudo mais abastada, aos trabalhos manuais.[7] Por isso, possuir uma quantidade significativa de escravos domésticos, representava não só a repulsa dos senhores a essas atividades, como também uma questão de status social. Quanto maior o número destes serviçais, mais se poderia ostentar a posição social de uma família (Soares, 2007). Entretanto, nas últimas décadas do século XIX, observa-se uma alteração nesse padrão. A criada europeia passa a ocupar o nível mais alto no status social da casa que cabia a uma trabalhadora. Luiz Edmundo, ao descrever os grandes palacetes de início do século XX, destaca que as “famílias tomam governantas inglesas e alemãs para seus filhos. E não mandam, em geral, as filhas a internatos. Educam-nas em casa, para isso contratando os mais afamados professores” (Edmundo, 2003, p. 200).
Os grandes palacetes de Botafogo e Flamengo, por exemplo, certamente eram destinos de muitas dessas criadas europeias que se inseriam no serviço doméstico carioca. Entretanto, cabe verificar através dos anúncios, como se dava essa circulação geográfica na cidade. Será que essas criadas estrangeiras eram demandadas apenas por regiões marcadas pela presença de uma elite carioca? Ou será que pelo perfil dessa imigração, tais criadas poderiam ser demandas em regiões não tão elitistas assim? Os anúncios, portanto, poderão nos ajudar a responder tais questões.
Essas localizações geográficas verificadas a partir dos anúncios, implicitamente, permitem acompanhar o processo de reformas urbanas pela qual a Capital Federal passou entre 1868 (primeiras concessões para linhas de bondes) e 1905 (auge das reformas urbanas empreendidas pelo Governo Federal e pelo Prefeito Pereira Passos) (Benchimol, 1992, p. 97). Essas reformas propiciaram um deslocamento urbano de uma parcela da sociedade mais abastada para regiões mais afastadas da região central do Rio.[8] Além disso, facilitou a circulação de trabalhadores/as que, a partir da segunda metade do século XIX, eram, em sua maioria numérica, cada vez mais de condição civil livre.[9] Essa facilidade, se deu graças à evolução dos meios de transportes experimentada, a partir de 1868, quando há a inauguração dos carris urbanos da Botanical Garden Company, que ligava a Rua Gonçalves Dias ao Largo do Machado (Mapa 1), contribuindo para a história da urbanização da Zona Sul Carioca (Benchimol, 1992, p. 97).
Conforme se proliferavam os bairros residenciais de caráter mais “aristocrático”, um mercado de trabalho local começou a se desenvolver em torno de atividades como o comércio (tanto formal quanto informal); a exploração de pedreiras e a prestação de serviços domésticos, como o caso da Casa de consignação de compra, venda e aluguel de escravos (de Souza, 2010).
A contratação através dos anúncios de jornais, como já mencionado, era uma prática muito comum e popularizada entre a população carioca. A partir deles, destacam-se diversos aspectos da sociedade, como a localização geográfica em que as/os criadas/os europeias/us estavam fixados ao se lançarem no serviço doméstico. Desta maneira, foi traçado um mapa de parte da cidade do Rio de Janeiro, que abarca parte das Zonas Central, Sul e Norte para marcar a porcentagem referente à demanda (precisa-se) e oferta (aluga-se e oferece-se) criadas/os europeus/eias, em que o endereço do ofertado ou demandado está exposto. Todavia, para que as mudanças fossem perceptíveis ao longo do tempo, no que se refere à localização geográfica, foram elaborados mapas representando dois períodos históricos: 1882-1907 e 1912-1932.
![Localização de criadas/os europeias/eus em anúncios de “precisa-se” (1882-1907)[10]](../243368478005_gf3.png)
![Localização de criadas/os europeias/eus em anúncios de “precisa-se” (1912-1932)[11]](../243368478005_gf4.png)
![Localização de criadas/os europeias/eus em anúncios de “Aluga-se” (1882-1907)[12]](../243368478005_gf5.png)
![Localização de criadas/os europeias/eus em anúncios de “aluga-se” (1912-1932)[13]](../243368478005_gf6.png)
Nos mapas acima, observamos uma concentração maior de imigrantes europeias/eus na região central e sul do Rio de Janeiro. No mapa 2, que se refere ao período de 1882 a 1907, observa-se uma concentração de demanda por criadas/os europeias/eus na Zona Central do Rio de Janeiro. Dos 19 endereços de patrões demandando criadas/os estrangeiras/os, 11 referiam-se a residentes do centro da cidade. Entretanto, no mapa 3, onde se observa a demanda por criadas/os no período de 1912 e 1932, consta-se uma concentração maior de demanda se afastando da região central e partindo para regiões mais afastadas, como Vila Isabel e, sobretudo, a Zona Sul. Esta característica representa uma tendência que vinha-se desenhando no final do século XIX.[14] Desde o segundo reinado, foram intensificadas as obras de melhorias e criação de vias de transportes, além do loteamento das antigas chácaras e fazendas da Zona Sul, convertendo-se em novos bairros residenciais de “elite”, como Copacabana. Este processo se intensificou a partir de 1890. Entretanto, não se pode desconsiderar o fato de que tais regiões não foram áreas exclusivas de uma elite aristocrática carioca. A Zona Sul foi ocupada, também, por uma população “não aristocrática”, principalmente por imigrantes portugueses ligados ao comércio, que trataram de ocupar terrenos menos valorizados nas intermediações do cemitério de São João Batista (Benchimol, 1992, pp. 102–103). De acordo com Jaime Benchimol,
[à] medida que floresciam os bairros residenciais da “elite”, desenvolvia-se um mercado local de trabalho relacionado ao comércio (tanto formal como ambulante), à prestação de serviços domésticos, ao exercício de certas profissões e pequenos ofícios, à exploração das pedreiras e outros ramos ligados à construção. (Benchimol, 1992, p. 103)
Se observarmos os mapas referentes aos anúncios em que criadas/os eram ofertadas ou se colocavam ao aluguel (mapas 4 e 5), verificamos uma significativa parcela destes anúncios partindo da Zona Sul, publicados no Jornal do Commercio:
Aluga-se uma moça portuguesa para ama seca; na rua S. Clemente n. 341, Botafogo. (“Aluga-se uma moça portuguesa para ama seca”, 1912).
Aluga-se uma moça portuguesa para arrumadeira em prática de pensão e casa de tratamento; dá referências de sua conduta: na praia do Flamengo n. 10 (“Aluga-se uma moça portuguesa para arrumadeira”, 1912)
GOVERNANTE – Uma moça alemã, de boa educação, chegada há pouco, oferece-se para casa de família para ensinar meninas, sabendo alemão, inglês, português e piano, não faz questão de ordenado, mas exige bom tratamento; carta a E. 13, no Allens Hotel, rua Humaitá. (“Governante – Uma moça alemã, de boa educação”, 1897)
Como tal região se converteu também em uma área com grande concentração de europeus, sobretudo portugueses, a presença de mulheres imigrantes nesta região, bem como de agências de locação, poderia explicar a oferta dessas criadas partindo desta localidade. Além disso, a mobilidade geográfica, da Zona Central para a Zona Sul, ao longo dos anos, por parte dos criados, pode ter acompanhado um movimento realizado pelos patrões. Nos anúncios selecionados das famílias estrangeiras que demandavam por criados, percebe-se uma tendência do deslocamento para a Zona Sul do Rio de Janeiro
Precisa-se de uma perfeita lavadeira e engomadeira, podendo dormir fóra; na praia de Botafogo n. 88 (“Precisa-se de uma perfeita lavadeira e engomadeira”, 1882)
Precisa-se de um pequeno de 10 a 12 anos, para serviços leves e ajudara copa, tendo casa, comida, bom tratamento e pequeno ordenado, na rua das Laranjeiras n. 11(ileg) (“Precisa-se de um pequeno de 10 a 12 anos”, 1902)
Apesar desse direcionamento geográfico rumo à Zona Sul ter se mostrado uma tendência, a área central ainda era uma região com grande concentração de criadas/os estrangeiras/os se ofertando ao serviço doméstico carioca. Se observarmos os dados censitários referentes à presença de estrangeiros em freguesias do Rio de Janeiro (Tabela 3), verifica-se uma significativa presença dessas pessoas, frente a freguesias não englobadas à região central, como por exemplo, a Lagoa, com 1.637, em 1890 e 3.461, em 1906.
| Freguesias | 1890 | 1906 |
| Candelária | 351 | 294 |
| São José | 4.622 | 4.421 |
| Santa Rita | 4.354 | 5.299 |
| Sacramento | 2.554 | 2.831 |
| Glória | 4.106 | 4.744 |
| Sant'Anna | 5.296 | 4.147 |
| São Antônio | 2.289 | 5.161 |
| Espírito Santo | 2.382 | 4.358 |
| Engenho Velho | 2720 | 2266 |
| Lagoa | 1.637 | 3.461 |
| São Cristóvão | 850 | 2.456 |
| Gávea | 273 | 1.142 |
| Engenho Novo | 1493 | 1229 |
Ribeiro destaca que, no Primeiro Reinado, a região central do Rio era uma área bastante ocupada pelos lusitanos.
Na freguesia da Candelária ficava parte da rua da Vala e essa região abrigava a maior percentagem de filhos de Portugal (...) Quanto a Santa Rita, onde localizavam a Prainha e o Valongo, se é verdade que homiziava negros e era o local preferido dos líberos, era fronteiriça com o mar, fácil de desembarque nas suas muitas ilhotas, de onde os portugueses em situação de ilegalidade podiam alcançar a terra ou escapar em pequenos botes para o interior da baía de Guanabara. (Ribeiro, 1987, p. 84)
Em relação à população hispânica, ela aglomerava-se nos distritos de Santa Rita, Sacramento, São José, Santo Antônio, Espírito Santo, Glória e Gamboa. Eram áreas densamente povoadas, que não passaram pelas reformulações implementadas pelas obras de remodelação organizadas pelo Prefeito Pereira Passos, iniciadas em 1902. Estas regiões eram ocupadas por habitações coletivas (a maior incidência da cidade), o que nos permite deduzir que “recém-chegados compartilhavam com os segmentos mais baixos da população carioca do mesmo padrão de moradia” (Guimarães, 1997, p.188)[15]. E, certamente, compartilhavam com a população nacional, todas as dificuldades enfrentadas no mundo do trabalho, onde o serviço doméstico poderia se converter em uma atividade de inserção desses imigrantes à sociedade e ao mercado de trabalho carioca.
Essas pessoas, por mais que não vislumbrassem uma carreira mais duradoura no serviço doméstico, exerciam-na como um meio de não caírem na penúria, e, também, de se livrarem das desconfianças e perseguições policiais ao comprovarem serem trabalhadoras lícitas. Mas, é importante deixar destacar que a precarização das relações de trabalho, no final do século XIX e início do século XX, impunha condições de trabalho compulsório e relações arbitrárias, não só à população negra livre e liberta, mas também a alguns imigrantes que poderiam iniciar o processo de precarização e tolhimento de sua total liberdade através dos contratos firmados com as agências de locação, como algumas que pudemos observar através dos anúncios de jornais analisados. De acordo com Luiz Felipe de Alencastro, há uma sobreposição do tráfico de escravos e o tráfico de engajados, a partir de meados do século XIX. Os traficantes e fazendeiros ligados ao comércio atlântico, após a proibição do tráfico legal, em 1831, passaram a utilizar a frota negreira para transportar os engajados de Portugal para o Rio de Janeiro, sobretudo os açorianos (de Souza, 2010).[16]
Em uma escritura de locação de serviços assinada entre Caetano Vargas e sua mulher Claudina Peres, ele espanhol e ela portuguesa, com o Dr. Antônio Coelho Rodrigues, fica evidente o papel dessas agências. No contrato analisado, percebe-se que os locadores “obrigam-se a prestar ao locatário durante três anos (...) todos os serviços domésticos internos e externos” e que o locatário:
(...) obriga-se a pagar aos locadores a mensalidade de trinta e dois mil réis em moeda corrente do Brasil dos quais poderá deduzir todos os meses a metade por conta da quantia de duzentos e setenta e seis mil réis que nesta data paga por eles aos senhores Agostinho Pires Companhia.[17]
No contrato estabelecido, fica evidente o papel das agências na locação dos criados, bem como o estabelecimento de dívidas em que os imigrantes ficavam à mercê dos contratos de trabalhos que firmavam o pagamento da dívida aos agenciadores, criando um vínculo de dependência entre esses trabalhadores e o seu futuro patrão, pelo menos até que a dívida com a agência fosse paga. Desta forma, apesar do papel de “facilitador” de inserção de trabalhadoras/es imigrantes, nacionais, livres, libertos e escravizados, no mercado de trabalho, essas agências eram envoltas de desconfianças, seja por parte dos trabalhadores que poderiam se envolver em uma dívida que os levaria a trabalhos compulsórios para o pagamento dela, mas também, sobretudo, pelos patrões.
Portanto, analisar a circulação dessas/es empregadas/os estrangeiras/os por áreas mais abastadas da cidade, não quer dizer que necessariamente, as relações de trabalho estabelecidas seriam melhores do que as de um/a criado/a de cor da região central. A linha que separava o trabalho escravo do livre, mesmo após a abolição da escravidão, ainda era muito tênue. Ser trabalhador/a no Rio de Janeiro, no final do século XIX e início do XX, mesmo sendo europeu, não era uma tarefa fácil. Violências, tolhimento de sua liberdade, baixos ou nenhum salário, eram situações que estes/as trabalhadores/as estavam vulneráveis por não buscar “fazer a América”.
Considerações finais
A presente pesquisa, teve como objetivo, realizar um breve panorama das ocupações e circulações de imigrantes europeias no cenário dos mundos do trabalho carioca. Imigrantes essas, que adensavam a Capital Federal, sobretudo a partir dos anos de 1880, quando vimos iniciar a chamada “grande migração”, que foi responsável pela entrada considerada de imigrantes europeus no Brasil.
Neste sentido, verifica-se a importância de se pensar sobre a participação das mulheres europeias no serviço doméstico carioca, que apesar de ser composto majoritariamente, por mulheres negras, não deixava de ser um espaço para a inserção dessa onda de imigrantes pobres que avolumavam a Capital Federal a partir das últimas décadas Oitocentistas.
Perceber como se dava a circulação dessas pessoas, nos permite acompanhar um processo de elitização das regiões mais afastadas da área central da cidade configurando a Zona Sul como um ambiente de predomínio da elite branca, em contraposição a área central que se caracteriza pela massa de trabalhadoras/es pobres, sobretudo, de cor. E nos permite também, verificar que a elitização da Zona Sul, onde muitos criados estrangeiros se fixaram, não representava, necessariamente, melhores condições de trabalho. As relações laborais, no final do século XIX e início do século XX, não estabeleciam um corte entre trabalho livre e compulsório. Muitas vezes, a força da escravidão precarizava a experiência de liberdade de negros livres e dos demais trabalhadores, incluindo os/as estrangeiros/as. (Chalhoub, 2012, p. 28).
O serviço doméstico, portanto, mostra-se, até hoje, um espaço privilegiado para se observar a precarização das relações laborais e da concepção de trabalho livre assalariado. Para isto, pensar a intersecção entre raça, classe, gênero e etnia se faz necessário para a compreensão das relações de trabalho envolvendo mulheres nacionais negras, mas também algumas europeias, que muitas vezes experienciavam relações de trabalho degradantes e as desconfianças por serem estrangeiras. É evidente que o peso racial operava desigualdades na determinação das relações de trabalho. Ser uma mulher negra, pobre e empregada doméstica evidentemente era mais penoso do que ser uma criada europeia na mesma condição laboral. Entretanto, não podemos desconsiderar as amarguras de ser uma criada estrangeira tentando fazer a vida, mesmo em regiões mais abastadas como a Zona Sul carioca, que apesar da opulência, poderia encobrir duras condições de vida e trabalho.
Referências
Alencastro, L. F. (1988). Proletários e escravos: imigrantes portugueses e cativos africanos no Rio de Janeiro, 1850-1872. Novos Estudos Cebrap, (21), 30–56.
Aluga-se uma moça portuguesa para ama seca. (1912, 4 de novembro). Jornal do Comercio.
Aluga-se uma moça portuguesa para arrumadeira. (1912, 4 de novembro). Jornal do Comercio.
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Notas