Debate

Recepción: 31 Mayo 2021
Aprobación: 13 Diciembre 2021
DOI: https://doi.org/10.36551/2081-1160.2021.28.161-178
Resumo: : O presente artigo, baseado em parte da pesquisa realizada na tese de doutorado, intitulada “El río nos quedó adentro”: Direitos humanos e debates sobre desaparecimento forçado e genocídio na Justiça de Transição do território rio-platense”, pretende abordar as discussões precedentes na constituição dos territórios de memórias. Utilizando como exemplificação o caso Museo de las Memórias: Dictadura y Derechos Humanos, localizado em Assunção, Paraguai, analisaremos a transformação da narrativa do museu, ao longo de sua existência, a fim de entender como esses tipos de territórios são conformados.
Palavras-chave: Museu de Memórias, Paraguai, ditadura, direitos humanos, territórios de memórias.
Abstract: This article, based in a part of the research carried out as the doctoral thesis, entitled “El río nos quedó adentro”: Human rights and the debates about forced disappearance and genocide in the Transitional Justice of the rio-platense territory”, intends to address the discussions about the preceding constitution of territories of memories. Using as an example the case of Museo de las Memorias: Dictadura y Derechos Humanos, located in Asunción, Paraguay, it will analyze the transformation of the museum’s narrative, throughout its existence, in order of understanding how these types of territories are built.
Keywords: Museum of Memories, Paraguay, dictatorship, human rights, territories of memories.
En Agua Prieta, desierto de Arizona,
Vive el pez dorado.
Tiene una memoria que dura tres segundos.
Vive solo en el presente.
Nada sin parar.
Reinventa todo a cada instante,
pero no llega a ninguna parte,
porque su camino es siempre otro (Espinosa, 2017)
O trecho do poema que abre esse texto nos apresenta um ser que, debaixo d’água, possui uma memória curta, vive apenas no presente e, por isso, reinventa tudo, a todo instante. Com uma energia que o leva a não parar (e nadar por vários caminhos), esse peixe, quase sem memória, não é capaz de chegar a nenhuma parte.
Sabemos que a memória humana é distinta do animal descrito e, por isso, também extremamente complexa de se analisar. Ela pode ser considerada como o elemento que nos dá o rastro do passado vivido, consciente ou inconscientemente, confirmado ou não pelas memórias dos outros, porém certamente distinguindo o que foi o passado do que é o presente ou o que será o futuro (Lowenthal, 1998).
Nesta atividade cotidiana de distinção temporal, lembramos, esquecemos, revisamos, recuperamos, transmitimos, preservamos e, até mesmo, alteramos nossas lembranças (Pollak, 1989). Contudo, seja vivendo em pequenas comunidades ou grandes sociedades (quiçá globais), todos os seres humanos ainda estão sujeitados a conviver com as lembranças de outrem.
Essas inúmeras memórias, traspassadas de individualidades e coletividades, nem sempre convivem em harmonia: elas podem (e muitas vezes isso acontece), disputar e negociar espaços, inclusive como maneiras de se colocarem diante da conformação de projetos nacionais (ou regionais e globais). E, na medida em que ganham essas disputas de forças (para serem “verdadeiras memórias”), elas também silenciam outras memórias, nem sempre completamente esquecidas pelas pessoas que as têm.
Em nossas cidades contemporâneas, podemos perceber inúmeros lugares que remetem às memórias – os territórios de memórias, ora também conhecidos como marcas de memórias ou lugares de memórias. Fato é que esses territórios permitem que uma lembrança sobre o passado (uma interpretação dele) possa se estruturar como uma instância pedagógica social aos olhos de diferentes indivíduos, diferentes gerações, diferentes tempos. Placas, monumentos, leis, arquivos, museus, etc. são formas de marcar, nos espaços públicos, as memórias, representando uma visão de algo que aconteceu.
Logo, esses territórios são construídos atravessadamente por conquistas e escolhas estéticas, políticas, de representações, de fatos, de exemplificações ou, inclusive, por criações de mitos históricos. A partir dessas escolhas, os territórios de memórias são capazes de gerar sensibilidades sociais em torno de uma temática e de articular os interesses individuais e coletivos sobre ela, confirmando ou não memórias nacionais, identitárias ou Histórias Oficiais (Huyssen, 2000).
Entretanto, nem sempre, como expectadores, por mais críticos ou interessados pelo tema que sejamos, temos acesso ou pensamos nas formas que os territórios vão sendo conformados. Quais são as discussões que permearam a conformação de uma exposição que vemos? Quais foram os debates por detrás da decisão em homenagear determinada figura com uma estátua em uma praça pública? Como foi pensado aquele museu que adentramos?
Neste artigo, iremos trazer um pouco da história por detrás da conformação do Museo de las Memorias: Dictadura y Derechos Humanos .Museu de las Memorias) localizado em Assunção, Paraguai. Pensamos, assim, em analisar a complexidade da construção de um território de memória, exemplificando com o caso desse museu, um dos poucos lugares no país que tenta recuperar a memória dos acontecimentos da longa ditatura de Alfredo Stroessner.
O Museu de las Memorias: uma história do espaço
Inaugurado em 2002, o Museo de las Memorias ocupa uma antiga casa no centro da capital, que fora alugada pelo governo stronista[1] para funcionar como sede da Dirección de Asuntos Técnicos[2] (DNAT ou La Técnica). O desmantelamento dessa instituição e, consequentemente, a transformação do espaço que ela ocupava deram-se em alguns anos depois do fim da ditadura, em 1992.
Neste ano, há o marco da “descoberta” do Archivo del Terror, composto por diversos arquivos que conformam a “burocracia da repressão”. Sabemos que esse movimento em prol da visibilidade da documentação sobre as vítimas do sistema iniciou-se com dois pedidos judiciais de Martín Almada para obter seus expedientes policiais produzidos no país (Última Hora, 1992a).
Almada é um dos inúmeros paraguaios que, ex-militante do Partido Colorado, tornou-se alvo de perseguição durante o regime de Stroessner. Na época, professor do Instituto Juan Bautista Alberdi, em San Lorenzo, era acusado de subversão, cujas provas recolhidas variavam entre bilhetes enviados ao Ministério de Educação, a sua tese de doutorado sobre educação e dependência paraguaia, e relatos de “atividades suspeitas”, realizados por denunciantes, colegas do Instituto.
Em 1974, ele foi preso e enviado à Tercera Comisaría – conhecida, na cidade de Assunção, como o “sepulcro dos vivos”. No cárcere, Almada foi vítima de inúmeras torturas e encontrou-se com diversos detidos-desaparecidos de outros países. Desta forma, se inteirou da circulação de informações e pessoas no continente.
Em dezembro daquele mesmo ano, comunicaram-lhe o falecimento de sua esposa, Celestina Pérez de Almada. A polícia, cujo pronunciamento caracterizava tal morte como suicídio, foi contrariada pelo depoimento da mãe de Martín Almada, que afirmava haver ocorrido um infarto em consequência de torturas psicológicas sofridas por Celestina, desde a prisão do marido (Almada, 1988).
Contando com mais de mil dias preso e com a interferência do Comité de Iglesias e da Anistia Internacional sobre sua situação, Martín Almada foi colocado em liberdade. No entanto, ele continuava sendo acusado de abandonar seu emprego, de provocar os estudantes, de perturbar a cidade de San Lorenzo e de confundir a opinião pública com “comentários indevidos” sobre sua prisão. Logo, decidiu exilar-se no Panamá.
Em 1989, com o final da ditadura, Almada resolveu retornar ao país e denunciar internamente as violações cometidas pelo regime stronista aos direitos humanos. E, assim chegamos ao ano de 1992, quando ele entra com o pedido judicial de habeas data, a fim de exercer o direito constitucional de ver seu prontuário policial e embasar sua acusação de homicídio, sequestro e lesão corporal, contra si e sua falecida esposa.
A partir de então, passaram a ser frequentes os embates públicos entre a polícia, que negava saber o paradeiro dessa documentação ou declarava, inclusive, a sua destruição e os testemunhos que vinham à público afirmar a existência dela. O Chefe de Polícia da época, Germán Franco Vargas, tentava explicar que os expedientes, assim como os arquivos completos da dependência, onde Almada estava preso, haviam desaparecido nos dias posteriores ao golpe contra Stroessner (Boccia Paz et al., 2006).
Por outro lado, inúmeros depoimentos afirmavam a existência dos documentos da repressão. Luis Ocampos Alonso, por exemplo, dirigente do Partido Revolucionário Febrerista, declarou em entrevista que:
(...) durante varios interrogatorios, los responsables por ese organismo represivo (La Técnica), Antonio Campos Alum y el comisario Saldivar (quienes siguen hoy al frente de esa dependencia), hacían preguntas sobre personas que habían estado detenidas o estaban detenidas en Investigaciones, al tiempo que revisaban carpetas con fichas y datos de los presos políticos. Esos papeles se guardaban en un armario ubicado en la sala de Campos Alum.
Esos dos torturadores de La Técnica que hoy siguen tan campantes en esa dependencia del Ministerio del Interior tenían acceso a los archivos de los detenidos por razones políticas; y ciertamente conocen el destino de los mismos, e incluso es posible que parte de los documentos se encuentren aún en esa dependencia (Última Hora, 1992b, p. 29).
Esos dos torturadores de La Técnica que hoy siguen tan campantes en esa dependencia del Ministerio del Interior tenían acceso a los archivos de los detenidos por razones políticas; y ciertamente conocen el destino de los mismos, e incluso es posible que parte de los documentos se encuentren aún en esa dependencia (Última Hora, 1992b, p. 29).
Esta tensão pública entre a polícia e parte da sociedade complementava-se com a tensão interna do Partido Colorado, sob pressão de buscar um próximo candidato para as eleições de 1993. A querela entre Luis María Argaña – sucessor de Stroessner –, e Juan Carlos Wasmosy – vencedor das eleições nacionais –, resultou em informações sigilosas sobre a existência de documentação repressiva na dependência policial da cidade de Lambaré.
Com essa informação em mãos, Martín Almada acionou o canal de televisão Red Privada de Comunicación (RPC), que se dirigiu ao local para aguardar a chegada da Justiça e dar a notícia para seu público. Conduzida pelo juiz José Augustín Fernández, a comitiva judicial foi à delegacia e solicitou a abertura das salas, onde se deparou com a documentação (Corte Suprema de la Justicia; Museo de la Justicia, 2011).
Por medidas de proteção, os documentos foram trasladados ao Palácio de Justiça e, no dia seguinte, por ordem do Poder Executivo, o edifício da DNAT foi fechado e ali encontrou-se mais documentos. Os dias seguintes foram tomados de notícias sobre as “descobertas” das documentações e dos elementos e informações que elas continham.
O Paraguai foi um dos poucos países na América do Sul que conservou significativamente os arquivos das polícias (Boccia Paz et al., 2008). A decisão política de não os destruir baseou-se em dois pilares: na longa tradição de impunidade do país, que impulsionava o desinteresse em destruir os documentos, e na permanência de diversos atores ditatoriais dentro das instituições democráticas, incluindo os chefes de polícia, que pretendiam seguir utilizando os documentos dos “suspeitos” em democracia.
Fato é que toda a trama burocrática estava lá – folhas manuscritas, fotos, expedientes, cadernos, agendas, correspondências pessoais, informes, gravações, materiais de prisões, inventários e ordens judiciais de pessoas suspeitas, nacional e internacionalmente. Portanto, a opinião pública teve de se confrontar com a unilateralidade dos discursos sobre a ditadura até então e, tal como colocado pelo escritor paraguaio Roa Bastos, perceber que esse “encontro documental” poderia, finalmente, fundamentar ações contra crimes aos direitos humanos.
Es conocida, memorable, fantasmagórica, la historia de ese descubrimiento que en un primer momento pudo parecer un fenómeno de alucinación colectiva. Superaba todos los limites de lo posible, de lo razonable real. Era algo que no podía ocurrir en los marcos del tenebroso poder totalitario, aún después de decapitado a cañonazos por parte de las fuerzas que le habían sido aparentemente adictas hasta la víspera. Algo que no había ocurrido siquiera en el bunker de Hitler, donde sólo quedó su cadáver, el de su amante y los de algunos voluntariosos suicidas (Roa Bastos, 2006, p. 29).
Nesse contexto de extenso debate social sobre os documentos paraguaios, iniciaram-se as discussões sobre transformar La Técnica em um museu de memória. Os discursos principais giravam em torno de que a população paraguaia precisava entender a ditadura stronista enquanto uma história de “horror”. Contudo, no calor do momento, expressões pouco críticas em relação à transição da ditadura iam tomando espaços públicos para a defesa da constituição do museu com aquela documentação. E, por isso, não ganhavam adeptos de peso político para concretizar a ideia do museu.
No entanto, com o tempo, os ânimos foram acalmando e, posteriormente aos estudos e publicações da Comissão de Verdade paraguaia, os debates sobre o museu foram se tornando mais críticos, palpáveis e considerando as formas de transição do país.
Segundo Line Barreiro,
Muchas veces hemos creído que el Paraguay era un país amnésico. No es cierto. La sociedad paraguaya recuerda y una gran parte de ella equipara el bienestar y seguridad a las dictaduras. Eso viene de muy atrás. (...)
No es amnesia de lo que padecemos, sino que una parte de la población considera que la conducción autoritaria del país es mejor. Y esa parte de la población supo hacer cultura. (...) Es por eso que puede crecer un movimiento que considera a los crímenes de lesa humanidad del stronismo, como meras sombras de un buen gobierno (Barreiro, 2006, pp. 20–21).
Para Barreiro, portanto, não existiria uma amnésia da população sobre o contexto ditatorial, mas uma memória de que as ditaduras foram benéficas ao país, mesmo que tenham ocorrido violações aos direitos humanos. Barreiro expõe, pois, a necessidade de construção de uma nova cultura paraguaia, fundamentada na democracia e na obtenção de direitos fundamentais dos homens. Ou seja, confirmar uma associação entre bem-estar da população aos contextos e períodos democráticos.
Com este intuito, a Fundación Celestina Pérez de Almada, criada por Martín Almada, nos anos 1990, propôs a elaboração do Museo de las Memorias. Em seu projeto primordial, apresentou-se a realização de atividades educativas, dentro da ex-La Técnica, como forma de mostrar publicamente as estruturas policiais da época, com visitas de escolas, visitas individuais ou de movimentos e organizações, nacionais e internacionais, e expor, especialmente, a documentação do Archivo del Terror (Figura 1).

Com um início bastante precário, o Museo de las Memorias vai se transformando e acumulando novos materiais, doados à Fundação para complementar ou criar exposições, compostas, até aquele momento, pelas salas “Memória Oficial da Ditadura de Stroessner”, o “Culto à Personalidade”, “Coleção de Livros e Revistas” e “Memória das Vítimas”. Todas as salas, pensadas pela Fundação, acumulavam essas “lembranças quase individuais”, que contavam uma história um tanto quanto desorganizada (Figura 2).

Em 2007, entretanto, o Museo de las Memorias traçou um novo caminho, a partir de experiências trazidas por especialistas alemães ao Paraguai. No aniversário de 30 anos dos desaparecimentos de pessoas dentro do Sistema Condor[3], o museu se reformulou e reabriu com uma proposta reorganizada para posicionar-se diante da luta pelos direitos humanos no território regional.
Assim, passou a contar com novas exposições sobre a sua história, os contextos precedentes ao Terrorismo de Estado, a história da ditadura stronista, dos sistemas repressivos, das operações e sequestros, das torturas e repressões, dos interrogatórios, do exílio e das vítimas. Todas elas realizadas com o suporte de documentos, fotografias, objetos pessoais, imagens (Figura 3) e nomes (Museo de las Memorias, 2007).
Essas exposições, no interior do edifício, chegam ao pátio interno, onde foi dedicado um espaço para homenagear as vítimas do sistema repressivo stronista. E, com uma reprodução da cela da prisão da DNAT, recorre-se à representação material do sofrimento dos presos naquele ambiente.
O Museo de las memórias: a virada de 2007 e algumas discussões
Observamos acima que o Museo de las Memorias teve uma história de luta em torno do patrimônio situado em seu prédio. Vimos também que até o ano de 2006, o museu trabalhou, desde uma dimensão pessoal, organizada pela FundaciónCelestina Pérez de Almada, sem apoio estatal, com exposições provisórias, uma coleção de jornais, relatos de testemunhas, fotografias e documentos do Archivo del Terror.
No entanto, em março de 2007, esse cenário se modificou. Iremos trabalhar aqui com uma documentação sobre esse contexto do museu, composta de relatórios de instituições e do informe produzido pelo pesquisador responsável da visita de cooperação técnica, realizada pelo Senior Experten Service (SES), entre os dias 3 e 31 de maio de 2007.
Em 2006, o então presidente alemão Horst Köhler[4] visitou o Museo de las Memorias, em uma viagem que realizou ao Paraguai para estabelecer relações comerciais. A visita, guiada por algumas figuras importantes dos direitos humanos no país, entre elas Martín Almada, seguiu-se de uma reunião, na qual vítimas do regime stronista deram seus depoimentos.
Um desses testemunhos fora realizado por Idalina Tatter. Idalina era esposa de Federico Jorge Tatter, tenente de fragata, nascido na colônia de Nueva Germania (Departamento de San Pedro, Paraguai) e exilado na Argentina pelas atividades políticas contrárias à ditadura de Stroessner, em 1963. Sequestrado em Buenos Aires, no ano de 1976, seu marido continua desaparecido.
Em seu testemunho, Idalina enfatizou a relação e a responsabilidade alemã com as ditaduras argentina e paraguaia. Ela afirmou que, ao contatar a Embaixada Alemã sobre o desaparecimento do marido, nunca obteve resposta nem declarações que buscassem esclarecer o ocorrido. Em 1997, ela recebeu informações, por parte de grupos de direitos humanos, sobre a existência de fotografias de seu esposo, acompanhado por policiais paraguaios, confirmando, então, ter sido ele vítima do Sistema Condor (Mercosur, 2015).
Köhler, durante a visita, decidiu, portanto, apoiar o desenvolvimento do Museu, como medida reparatória, e enviar peritos da SES – fundação da indústria alemã dedicada à cooperação internacional. Desta forma, o patrimônio em questão passou a ter sua primeira conexão direta com o setor privado para desenvolver suas atividades como um território de memória.
No ano seguinte, foi enviado o historiador Albert Manke, que por seu trabalho no Nationalsozialismus Dokumentationszentrum der Stadt Köln (NS-Dok), em Colônia, Alemanha, foi indicado para realizar investigações e sugestões em função de melhorias na estrutura do museu paraguaio.
O NS-Dok é fruto da intensa reivindicação social nos anos 1980, para se identificar alguns lugares de terror nazista na cidade alemã. O edifício EL-DE, na Appelhofplatz, no qual funcionava a prisão temporária da Gestapo, era um dos poucos edifícios históricos não destruídos na cidade, cuja postura governamental aplicava uma espécie de “desnazificação incompleta”, devido à política cultural da RFA, que valorizava a oposição ao inimigo comunista da Guerra Fria, ao invés de repensar a história do Nacional Socialismo na região (Manke, 2014).
Contudo, no início dos anos 1980, o professor Kurt Holl e o fotógrafo Gernot Huber entraram clandestinamente neste edifício e divulgaram imagens de seu interior, incluindo quase 1800 inscrições de prisioneiros nas paredes, datadas entre os anos de 1943 e 1945, e escritas em alemão, russo, ucraniano, francês, polaco e holandês. Em 1985, formou-se uma iniciativa para criar o centro de documentação, cujo funcionamento começou dois anos depois. O museu foi aberto ao público, em 1997, depois da exposição “Colônia no Nacional-Socialismo”, transformando o NS-Dok em um dos mais importantes museus sobre o nazismo na Europa.

Manke, ao iniciar suas visitas na ex-La Técnica, chegou à conclusão de que a instituição alemã era similar ao edifício em Assunção, por suas atividades históricas comuns de violações: os dois foram instituições repressivas de governos ditatoriais e apresentavam características de prisões violentas com elementos (rastros) que recuperavam os testemunhos e as experiências naqueles ambientes.
Portanto, o NS-Dok, de acordo com o historiador, apresentava um exemplo metodológico para se trabalhar com o espaço paraguaio.
Por estar instalada en el antiguo edificio de la Policía Secreta de Estado (Gestapo), donde ejerce además función de museo, esta institución ofrece condiciones y metodologías muy parecidas a las que se están instalando en el Museo de la Memorias. Además, este museo fue condecorado con el European Museum Award y otros méritos, ya que cuenta con la experiencia profesional y didáctica más moderna del mundo (Senior Experten Service, 2007, p. 1).
Orientando-se pelo modelo aplicado em Colônia, principalmente no que se refere à instituição de um arquivo para a consulta pública e a constituição de um museu, que recuperasse as celas da DNAT, o especialista propôs reconstruir o espaço com móveis, mapas e equipamentos da polícia – advindos de outros lugares de repressão no país, já que, com o fechamento da DNAT, houve a retirada de seus pertences pelo poder público. Essa forma de representação material do espaço repressivo foi uma escolha de se reproduzir o ambiente e o cotidiano do edifício, tal como foi feito no lugar de memória alemão que seria o “exemplo de sucesso” para a nova formulação do Museo de las Memorias.
Desta forma, a missão alemã avaliou que as instalações do Museu e suas coleções eram precárias em relação aos demais museus de memórias no mundo. Segundo a avaliação, as instalações do Museo de las Memorias necessitavam tanto de reformas estruturais básicas – redes pluviais, tetos, muros, portão de entrada, proteção, climatização e alarmes de incêndio –, quanto de compra de equipamentos técnicos, que eram inexistentes – computadores, sistema de telefone, aparatos para digitalização de documentos, gravadores, câmaras de vídeo, televisão, microfones e cadeiras para o auditório, além de materiais de informação destinados aos visitantes (Senior Experten Service, 2007).
A comissão alemã também definiu critérios museológicos, desenhando uma proposta para melhorar as instalações, capacitando a equipe da Fundación Celestina Pérez de Almada e elaborando um documento de recomendações para apresentar às autoridades nacionais e internacionais envolvidas com este trabalho. A proposta desenhada para o espaço relacionava a exposição do museu a um centro de documentação, vinculado com o conteúdo do Centro de Documentación y Archivo para la Defensa de los Derechos Humanos, composto pelo Archivo del Terror. Desta forma, pretendia viabilizar a documentação existente, com um sistema de consulta integrado, e complementá-la com a produção de um arquivo oral e audiovisual, que recebesse constantemente testemunhos sobre a memória e a história de La Técnica.
A conexão entre o Archivo del Terror e o Museu é clara, tanto no sentido de construção das demandas para que o Museu existisse, quanto na elaboração de seu conteúdo expositivo e compositor. Assim, Manke afirmava
El Museo de las Memorias por la importancia de su contenido y la historia de su edificio es único en Latinoamérica. Es de destacar que se pudo hacer la combinación única de los documentos del Terror, compuestos por fuentes originales recuperadas por el Dr. Martín Almada el 22 de diciembre de 1992, que forman hoy el Archivo del Terror, con el lugar original del Terror que era la sede de la Dirección Nacional de Asuntos Técnicos (Técnica). Con el trabajo cívico incansable de la Fundación Celestina Pérez de Almada y las organizaciones integrantes de la Mesa de Memoria Histórica este edificio y estas fuentes se convirtieron en el Museo de las Memorias (Senior Experten Service, 2007, p. 8).
Com base nos critérios museológicos e arquivísticos do NS-Dok, portanto, o espaço do Museu fora dividido, no novo projeto, de acordo com um sistema “didático e lógico”, conformando uma exposição permanente. Esta explicaria, cronologicamente, o surgimento da ditadura stronista, o personalismo de Stroessner, a organização da repressão em espaços nacionais e internacionais e as estratégias de enfrentamentos, resistências e exílios.
Recuperando os sentidos múltiplos de resistências para a conformação identitária nacional, como analisados por Rollemberg (2016), o Museo de las Memorias passou a enfatizar, em sua narrativa, as vítimas urbanas, conectadas no sentido de manifestações diversas contra o regime stronista. Logo, se pensou o Patio de la Memoria, uma área exterior à casa principal, onde propôs-se reivindicar a memória das vítimas (vítimas oficiais em uma contabilização, na qual há grandes dificuldades de se incorporar a área rural paraguaia), através de um monumento e uma placa com os nomes dos presos, torturados e desaparecidos – esta última ainda não concretizada pelo museu.
Neste mesmo pátio, encontram-se as celas, onde se mantinham os presos, esperando por seus “interrogatórios”. Com a finalidade de demonstrar a violência propagada naquele espaço, decidiu-se pela reconstrução das celas, realizada com a pesquisa em material audiovisual gravado no momento de encerramento da ex-La Técnica, e com os objetos trazidos de outras instituições policiais. Assim, a representação se tornou explícita, relacionada ao cotidiano da prisão e às práticas de tortura, tornando-a o ápice das exposições, tal como realizado com as celas do museu alemão (Figura 5).

Ainda na visita alemã, programou-se uma capacitação dos trabalhadores do museu, efetuando oficinas, nas quais se empregou as didáticas de comparação, micro e macro história e métodos de exposição e conservação de objetos, documentos e materiais. Interessante destacar que a comparação central, nessas oficinas, fora realizada não apenas com o centro de documentação alemão, contudo também com o Museo de la Paz de Guernika[5], localizado na Espanha.
Logo, vê-se que os debates trazidos pelas duas instituições exemplos para a reestruturação do Museo de las Memorias são a reconstituição dos espaços, de acordo com seu funcionamento e a constituição de um centro de documentação, que possa complementar a narrativa dos museus. As recomendações, pois, para o museu paraguaio, foram: 1) o aumento de sua equipe com funções multidisciplinares (museologia, restauração, conservação, administração e arquivologia); 2) a busca de recursos financeiros em programas nacionais, latino-americanos e internacionais; e 3) a sua incorporação no sistema turístico nacional e no sistema de educação paraguaio.
A questão turística traz uma enorme discussão sobre os territórios de memórias relacionados às catástrofes em todo o mundo. As críticas à indústria cultural se unem aos debates sobre os processos de globalização, que ameaçariam os bens históricos, arquitetônicos, ambientais e culturais ditos originais, através da mercantilização, consumo e massificação.
Em contraponto, temos também a ideia de que um patrimônio é um objeto para se pensar não apenas com o viés de homogeneização da economia cultural, contudo trazendo outras temáticas consigo como suas lutas materiais ou simbólicas nos territórios de memórias, os grupos envolvidos na constituição dele, a inserção e importância desse patrimônio em um lugar de um mundo dividido hierarquicamente etc. (Canclini, 1997, pp. 57–85).
Neste sentido, a proposta de inserir o Museo de las Memorias no circuito turístico justificava-se pela motivação de aumentar o reconhecimento público sobre a história recente paraguaia e sobre aquele território de memória específico. Para além disso, inclui-se nessa proposta o aumento do interesse público para resolver alguns problemas de financiamento do Museu, já que este nunca possuiu um orçamento fixo ou apoio estatal permanente, dependendo, enfim, das políticas de cada governo e de fundos que a FundaciónCelestina Pérez de Almada consegue angariar com instituições e organizações públicas ou privadas.
Apesar desse viés econômico, a existência do Museu se justifica essencialmente pela questão da educação em matéria dos direitos humanos. Observamos que, durante os dias 16, 17 e 18 de maio de 2007, realizou-se na cidade de Assunção, a XIII Reunião da Comissão Regional Coordenadora de Educação Básica do MERCOSUL e Estados associados, com a presença das delegações argentina, paraguaia, uruguaia e brasileira. Nesta reunião, houve a apresentação do informe sobre materiais didáticos de direitos humanos e de um plano de trabalho sobre a temática, a ser realizado entre os anos 2006 e 2010 pelos países membros do Mercosul (Mercosur, 2007).
De acordo com a ata desta reunião,
El MERCOSUR manifiesta una firme voluntad de promoción y protección de los derechos humanos, y de profundización y consolidación de la democracia. En ese contexto, se inscribe la necesidad de impulsar todas las acciones que permitan la transmisión del pasado regional reciente a las nuevas generaciones. Por este motivo, se recomienda incluir en la presentación del material didáctico en elaboración, una referencia donde se explicite su pertinencia a las características del tiempo histórico de la región (Mercosur, 2007, p. 3).
Assim, buscando o financimento da Organização dos Estados Americanos, a ideia era debater um projeto regional, onde trabalhar-se-ia, no âmbito educativo, conceitos como democracia e cidadania, recuperando a trajetória histórica das violações aos direitos humanos na América Latina (Mercosur, s.d.). Definiu-se, portanto, a construção de uma biblioteca comum, o desenho de uma página web e um programa de capacitação dos profissionais para trabalharem com essa demanda.
E, neste sentido, a delegação paraguaia apresentou sua discussão sobre a tentativa de vincular, no programa nacional educativo, uma disciplina sobre direitos humanos e o autoritarismo na história recente paraguaia, tendo o Museo de las Memorias como espaço didático. Assim, o Museu ganharia um papel fundamental na educação do país.
No ano seguinte (2008), a Comisión de Verdad y Justicia junto ao Ministério de Educação e Cultura lançam o material básico para a disciplina e inicíam as capacitações de docentes para a aplicação da mesma. Desta forma, o museu ingressa no cenário educacional desse momento como referência e “inspiração para o conhecimento sobre o passado do país” e para a construção de um futuro pautado no respeito aos direitos humanos e na paz global.[6]
El Museo de las Memorias sirve y servirá de referencia cierta y permanente de los efectos de la violencia en los procesos que determinan cambios radicales negativos en las sociedades. Servirá además de fuente de inspiración para el conocimiento, la defensa y el trabajo en favor de los Derechos Humanos y la construcción de una sociedad cívica, democrática y consciente de su pasado, construyendo un presente que permita un futuro en paz (Senior Experten Service, 2007, p. 8).
Um modo de concluir
Neste artigo, tentamos demonstrar algumas das discussões que permearam a construção do Museo de las Memorias: Dictadura y Derechos Humanos, localizado em Assunção, Paraguai. Vimos que a proposta inicial, com uma visão particular e reativa da necessidade de se construir uma memória das vítimas da ditadura stronista em um espaço público e significante para a sociedade paraguaia, fora debatida e reestruturada em uma nova conformação do museu, em 2007.
Nesta, pensamentos de especialistas e exemplos internacionais foram levados em conta para a transformação dele. Por um lado, esse tipo de conformação, podemos dizer mais global, levou o Museu a pensar seu papel na educação e na divulgação dos documentos do Archivo del Terror tão caros à sociedade transicional paraguaia. Observamos, então, a conexão com um centro de documentação, com o planejamento para a educação e com a recuperação física dos espaços que pudessem reconstituir uma determinada história.
Por outro, podemos perceber algumas memórias deixadas de lado na narrativa do Museo de las Memorias. Apesar de uma tentativa de diálogo regional, através do Mercosul, por exemplo, o museu paraguaio não explorou profundamente a história que conecta esses países, através do evento do Plano Condor. Tampouco abordou materiais que pudessem colocar foco em outras vítimas do regime stronista com suas características específicas, como indivíduos que sofreram na área rural paraguaia ou os indígenas, uma grande parcela da população.
De toda maneira, com o que vemos e não vemos nos museus, podemos observar as escolhas realizadas nas constituições de marcas de memórias nas cidades, onde algumas memórias e discursos são preteridos, silenciando outras memórias e outros discursos. E, assim, procuramos nadar por águas que, mesmo por distintos caminhos, nos levam a algum lugar de lembrança do passado.
Referências bibliográficas
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Notas
Em uma primeira etapa, sob comando de Antonio Campos Alum, a DNAT, além de atuar nas informações e prisões, também aprofundava o treinamento de funcionários para realizarem uma espécie de “burocracia de repressão” – a produção de documentação sobre pessoas, instituições e movimentos (Comisión de Verdad y Justicia, 2008). Em finais dos anos 1970, ela perde a centralidade no sistema repressivo nacional para a Polícia de Investigações, sob a direção de Pastor Coronel. Então, torna-se um instrumento para obtenção de informações, majoritariamente, transnacionais.