Debate
Promovendo a vitalidade linguística das línguas macuxi e wapixana em Roraima (Brasil) em ações para a reversão no processo de substituição de língua[1]
Promoting linguistic vitality of the Makushi and Wapishana languages in Roraima (Brazil) in actions for reversing language shift
Promovendo a vitalidade linguística das línguas macuxi e wapixana em Roraima (Brasil) em ações para a reversão no processo de substituição de língua[1]
Revista del CESLA, vol. 30, pp. 155-176, 2022
Uniwersytet Warszawski

Recepción: 30 Junio 2022
Aprobación: 30 Diciembre 2022
Resumo: As línguas macuxi e wapixana são as línguas indígenas mais conhecidas no estado de Roraima, dentre Taurepang, Yanomami, etc. São cooficiais nos municípios do Bonfim e Cantá. Apesar disso, as duas línguas são consideras línguas em risco de extinção. Este trabalho examina o caso particular dessas duas línguas indígenas brasileiras tomando como partida as ações já implementadas que visam a revitalização e manutenção das mesmas. Toma-se como estudo de caso programas radiofônicos que foram executados para o conhecimento e aprendizagem das línguas. Essas ações são consideradas enquanto se discutem pontos relacionados à possibilidade ou não de uma reversão do processo de substituição de língua (reversing language shift) da qual as duas línguas em foco são passíveis. Encerram-se as reflexões com a enumeração não exaustiva de ações complementares que focalizem a vitalidade dessas línguas mais do que os fatores que as colocam em risco.
Palavras-chave: vitalidade, wapixana, macuxi, reversão da substituição de língua.
Abstract: The Macuxi and Wapixana languages are the most well-known indigenous languages in the state of Roraima, among Taurepang, Yanomami, etc. They are co-official languages in the municipalities of Bonfim and Cantá. Despite this, both languages are considered in danger of extinction. This paper examines the particular case of these two Brazilian indigenous languages, taking as a starting point the actions already implemented that aim at revitalizing and maintaining them. Radio programs that were produced for spreading their use and learning of those languages are taken as a case study. These actions are considered while discussing points related to the possibility or not of a reverse language shift process which affects those two languages. Some reflections end the discussion with a non-exhaustive list of complementary actions that focus on the vitality of these languages more than the factors that put them in danger.
Keywords: vitality, Makushi, Wapishana, reversing language shift.
Introdução
O estado brasileiro de Roraima possui uma diversidade linguística considerável, como se vê: línguas indígenas; línguas de fronteira ou migração; e diferentes línguas de sinais (Araújo & Oliveira, 2021). Roraima faz fronteira com o único país anglófono da América do Sul, a República Cooperativista da Guiana e com a Venezuela. Com a onda migratória deste último país nos últimos anos, a presença do espanhol tem feito parte da paisagem linguística das cidades roraimenses dentro da faixa de fronteira de forma mais evidente, a exemplo de outros estados fronteiriços com países hispanofalantes.
Tal diversidade linguística traz em seu bojo o fenômeno conhecido como substituição de língua (language shift), conforme discutido por Fishman (2013) e se relaciona ao campo conhecido como manutenção e substituição de língua (Pauwels, 2016). A substituição de língua decorre geralmente da relação de línguas minoritárias e minoritarizadas frente a uma língua majoritária, geralmente a língua oficial de um país. A substituição de língua acontece quando falantes de línguas minoritárias como a língua taurepang na fronteira entre Brasil e Venezuela ou línguas minoritarizadas[2], como a libras, deixam de ser faladas por diversos motivos, sejam por questões geracionais quando os filhos deixam de falar as línguas dos pais, ou por questões, principalmente, econômicas e de ascensão social, dentre outros. Quando uma língua já está em processo de substituição de língua, algumas ações são efetivadas com o intuito de reverter essa situação, o que é chamado de “substituição de língua reversa” (reversing language shift) (Fishman, 2013; Pauewls, 2016).
Das línguas indígenas de Roraima, duas se sobressaem pelo número de falantes ou pela presença em diferentes espaços: o macuxi e o wapixana[3]. Apesar de terem uma certa tradição de estudos linguísticos, datando das primeiras décadas do século XX, essas línguas ainda encaram o processo de substituição de língua tendo como língua alvo o português. Nos últimos anos o engajamento de linguistas, na sua maioria de fora de Roraima, e a participação de falantes nativos têm contribuído com a produção de material de estudos sobre essas línguas. No entanto, os esforços têm sido empreendidos sem um treinamento básico voltado para questões de descrição e documentação que focalizem a vitalidade dessas línguas (Mufwene, 2017). Sendo assim, focalizo neste trabalho, como estudo de caso, uma experiência de produção de programas radiofônicos utilizados como tentativa de reversão no processo de substituição das línguas macuxi e wapixana em Roraima, além de algumas ponderações sobre a adequação de material didático produzido para o ensino das línguas, elaborado em grande parte por falantes nativos sob a supervisão de linguistas de formação. Faço algumas reflexões sobre o alcance e limitações dessas publicações para um conhecimento efetivo das línguas. Destaco ainda o tratamento dado ao corpo de trabalhos voltados para descrição das línguas macuxi e wapixana como indicadores da sua vitalidade.
O artigo segue em três seções e suas subseções: a primeira faz uma apresentação teórica sobre a situação de vitalidade das línguas minoritárias de Roraima e o que chamo aqui de “capital simbólico documental”, tomando como referência os conceitos de capital simbólico da sociologia bourdieuana (Bourdieu, 1989). A segunda seção enfoca os materiais de ensino disponíveis, tomando como estudo de caso dois programas radiofônicos de ensino das línguas macuxi e wapixana. Por fim, na terceira e última seção, trago reflexões sobre a produção dos materiais examinados e o (re)direcionamento de ações que busquem focalizar a vitalidade das línguas em detrimento dos processos de substituição de língua observados.
Um retrato das línguas de Roraima
Roraima possui uma significativa diversidade linguística, onde podem ser encontradas pelo menos três famílias linguísticas com mais de dez línguas indígenas: caribe (macuxi, taurepang, ingaricó, wai-wai, patamona, waimri-atroari e yekuana); aruake (wapixana) e yanomami (sanöma, yanomae, ninam, yanomamö e yaroami), além de uma língua indígena de migração, o warao (isolada). Além das línguas indígenas, encontram-se o espanhol e o inglês, aquele da vizinha Venezuela e este da Guiana. Essas duas línguas carregam o estatuto de línguas de migração. O francês é identificado entre os migrantes haitianos, estes muito mais marginalizados do que os venezuelanos e os guianenses na capital Boa Vista. O francês e o crioulo haitiano entrariam na categoria de línguas de herança. O creolese, língua crioula da Guiana, é identificado como língua de alguns migrantes guianenses. A esse cenário multilíngue juntam-se o português popular de migrantes brasileiros como maranhenses, gaúchos e cearenses.
À parte das línguas faladas, existem ainda as línguas de sinais, a Língua Brasileira de Sinais, a libras, utilizada pela comunidade surda local, e a Língua de Sinais Venezuelana-LSV, utilizada por migrantes surdos venezuelanos (Araújo & Bentes, 2020). Juntam-se a essas duas línguas de sinais a existência de línguas de sinais indígenas como atestado por Araújo e Oliveira (2021) para a Língua de Sinais Macuxi e uma possível Língua de Sinais Yanomami do Papiú[4].
Tais informações são válidas para contextualizar a situação de fundo deste trabalho. Todas as línguas mencionadas nos dois últimos parágrafos, com exceção do português, são línguas minoritárias ou minorizadas no contexto fronteiriço de Roraima. Dentre as línguas indígenas, o macuxi e o wapixana são as línguas com maior visibilidade, seja pelo número dos seus falantes, seja pela presença histórica na região. Acrescenta-se a isso o estatuto delas como línguas cooficiais em dois municípios do estado, Bonfim e Cantá. Entretanto, o estatuto que essas duas línguas possuem como cooficiais pouco contribui para o conhecimento de sua vitalidade linguística nos mais variados contextos em que elas figuram como línguas minorizadas.
Por questão de delimitação de tema, detalho mais sobre a vitalidade das línguas macuxi e wapixana, deixando uma abordagem sobre as demais línguas indígenas do estado para um outro momento
A vitalidade linguística do macuxi e wapixana
Não existe ainda um levantamento dos usos e da vitalidade das línguas indígenas de Roraima. Os trabalhos que se preocupam com o tema são esparsos em teses e dissertações em diferentes campos do saber. Como já mencionado, das línguas originárias de Roraima, apenas o macuxi e wapixana recebem uma maior atenção por parte dos estudiosos residentes em Boa Vista. O trabalho de Elango et al. (2020) é a pesquisa mais recente sobre a vitalidade das duas línguas indígenas em questão, além do inglês na fronteira com a Guiana. As autoras, baseadas nos instrumentos de avaliação de vitalidade de línguas da UNESCO (2003), elaboraram a seguinte tabela (Tabela 1) para a vitalidade das línguas de seu estudo:
| Fator | Nota | Etiqueta |
| 1. Transmissão linguística intergeracional | ¾ | Definitivamente em perigo/em perigo |
| 2. Número absoluto de falantes | 3. 950 wapichana 5.806 macuxi | - |
| 3. Proporção de falantes na população total | 2/3 | Severamente em perigo/ definitivamente em perigo |
| 4. Tendências em domínios linguísticos existentes | 3 | Domínios minguantes |
| 5. Resposta a novos domínios e mídia | 2 | Cópia |
| 6. Materiais para ensino linguístico e literário | 3 | - |
| 7. Atitudes institucionais e governamentais e políticas, incluindo estatuto oficial e uso | 3 | Assimilação passiva |
| 8. Atitudes comunitárias diante da própria língua | 4 | |
| 9. Quantidade e qualidade da documentação | 3 | Boa |
Seguindo outros parâmetros, Moore (2011) agrupa o alcance dos estudos de línguas minoritárias ou em risco de extinção com indicadores de 0 a 3. Para ele (Moore, 2011, p. 223): as línguas recebem indicador 0 se não possuem “nenhuma descrição científica significativa”; recebem 1 se contam com uma dissertação de mestrado ou vários artigos; as línguas com “um bom esboço geral ou uma tese de doutorado em algum aspecto da língua” levam 2; por fim, “aquelas com descrição razoavelmente completa são classificadas como 3”. Para o caso das línguas indígenas de Roraima, apenas as línguas macuxi e yanomami são classificadas com 3, enquanto wapixana recebe 1 (apesar de haver dissertação e tese sobre a gramática da língua (Cf. Santos, 2006), e as demais línguas do estado ficam com 2.
A busca por quantificar a qualidade do material descritivo e documental de línguas minoritárias e em perigo de extinção lembra de alguma forma o conceito de capital simbólico de Bourdieu (1989), transferido, grosso modo, para a relação de línguas em perigo e seu arsenal descritivo. Tomando emprestado os termos daquele pensador francês, seria válido parafraseá-lo em algo como um “capital simbólico documental” de línguas minoritárias. Em termos gerais, línguas com um extenso corpo de documentos sobre sua gramática e usos teriam um capital simbólico documental maior. Entretanto, esse capital simbólico documental não evita de ocorrer processos de substituição de língua, podendo provocar a obsolescência e morte de língua, apesar de existir uma quantidade considerável de materiais disponíveis ou produzidos sobre determinada língua (Fishman, 2013).
O que se percebe com a tentativa de aferir a saúde documental e descritiva das línguas minoritárias e em perigo de extinção é o risco de tomar parâmetros avaliativos que não atentem para a real qualidade dos produtos decorrentes dos esforços de documentação e descrição. Veja-se o exemplo das línguas macuxi e wapixana. Elango et al. (2020, p. 137) enumeram uma lista não exaustiva de trabalhos sobre as duas línguas abarcando as principais áreas dos estudos gramaticais como fonologia, morfossintaxe, semântica, sociolinguística, etc. (Quadro 1).
No entanto, as autoras não deixam de atestar o seguinte sobre a vitalidade daquelas línguas:
O contato constante com a cultura não indígena e a proximidade com a cidade tornam essencial o conhecimento do português e garantem que continuará substituindo o uso de macuxi e wapichana sem esforços de revitalização e expansão do uso dos idiomas em novos domínios. Embora as línguas sejam ensinadas nas escolas, as aulas de línguas são limitadas no tempo e não produzem falantes fluentes se a criança ainda não a adquiriu. Além disso, não há tantos materiais acessíveis para o ensino de macuxi e wapichana, e pouca mídia impressa em qualquer idioma. (Elango et al., 2020, p. 137, tradução nossa)
| Áreas | macuxi | wapixana |
| Gramática descritiva | Santos (2006) | |
| Esboços Gramaticais | Abbott (1991) Carson (1982, 1983) Williams (1932) | |
| Fonologia | Hawkins (1950) Kager (1997) Cunha (2004) MacDonell (1994) | Santos (1995)Tracy (1972) |
| Morfossintaxe | Derbyshire (1987) Abbott (1976; 1985) Gildea (2008)Gouvêa (1993) | Tracy (1974)Almeida (2017)Pinho (2019)Amaral (2018) |
| Semântica | Hodsdon (1976)Derbyshire (1991)Miguel (2018) | Sanchez-Mendes (2016) |
| Sociolinguística | MacDonell et al. (2000) MacDonell (2003) | Van Diermen (2015)Carneiro (2007) |
| Ling. Aplicada | Leandro (2017) | |
| Linguística antropológica | Farage (1997) | |
| História social | Machado (2016) | |
| Gramáticas Pedagógicas | Amodio et al. (1996) Abbott (2003) Juvêncio (2012) McDonell (2020) | Oliveira et al. (2017) Amaral et al. (2017) |
| Dicionários | Raposo (2008) | Cadete (1990) Silva, Silva e Oliveira (2013) |
| Textos e narrativas | Mayer (1951)Scannell (2018) | |
| Gravações | Raposo et al. (2019)George et al. (1965) |
A questão que se pode levantar é em que medida o corpo de trabalhos realizados sobre as línguas macuxi e wapixana desde o início do século passado tem refletido positivamente na vitalidade dessas línguas? Tal tradição de descrição tem contribuído para uma reversão no processo de substituição de língua (reversing language shift)? Uma análise mais aprofundada sobre a literatura linguística dessas duas línguas poderá vislumbrar o papel que os trabalhos descritivos oferecem para as línguas objetos de suas análises. Resultados preliminares apontam uma baixa inovação nos trabalhos descritivos. Por exemplo, para a língua macuxi, os trabalhos da primeira metade do século XIX, de Abbott e Carson são repetidos sem uma devida atualização ou recontextualização das variedades da língua descrita. Uma exceção é o caso da língua wapixana que tem na tese de Santos (2006) ainda a referência para o estudo linguístico da língua baseado em dados primários de pesquisa de campo.
Talvez o ponto crucial no que diz respeito à existência de todo o material descritivo e documental das línguas apresentado no quadro 1 seja a questão da acessibilidade, mencionada no final da citação de Elango et al., acima. Mesmo com as facilidades de compartilhamento de arquivos via Internet, apenas os trabalhos mais recentes sobre as línguas são mais facilmente encontrados por serem, alguns, de acesso aberto na Web. As autoras insistem na pouca utilização e visibilidade das duas línguas em outros meios.
Que o macuxi e wapixana estão em processo de substituição de língua é indiscutível (Elango et al., 2020), apesar de tal processo não ser abordado diretamente na literatura descritiva das duas línguas apresentada no quadro 1. Com essa realidade de substituição de língua, algumas ações têm sido tomadas nas últimas duas décadas visando a manutenção e mesmo a revitalização dos seus usos, mas sem necessariamente direcionar para uma reversão da substituição de língua conforme Fishman (2013) e Pauwels (2016, cap. 6). Dessas ações, chama a atenção uma em particular por utilizar o meio radiofônico e por ser ainda lembrada por indígenas e não indígenas que acompanharam os programas nos anos em que foram veiculados, conforme passo a detalhar na próxima seção.
Ações de promoção de línguas minoritárias: o caso das línguas macuxi e wapixana nas ondas do rádio
Dos materiais mencionados no quadro 1 não foram incluídos dois programas que foram veiculados pela Rádio FM Monte Roraima entre os anos de 2004 e 2008,[5] produzidos pela Organização dos Professores Indígenas de Roraima-OPIRR e pela Pastoral Indigenista da Diocese de Roraima. São eles: Watuminhap wapichan da’y! “Vamos aprender wapichana!” (OPIRR & PIDRR, 2006) com 26 lições e Makusi pe esenupan painîkon “Vamos aprender makuxi” (OPIRR & PIDRR, 2005), com 25 lições. Elango et al. (2020, p. 134) mencionam os dois programas, mas atestam não terem tido acesso a eles: “No domínio da mídia de transmissão, dois participantes relataram a existência de programas de rádio em macuxi e wapichana, embora muitos participantes parecessem não saber sobre eles; ao nosso conhecimento, esses programas não estão mais disponíveis."[6] No entanto, os programas têm circulado entre pesquisadores e estudiosos das línguas em pdf e os áudios em formato MP3.
A estrutura dos dois cursos segue o modelo de cursos de línguas em que são privilegiadas as situações de comunicação entre falantes. As temáticas são as comumente encontradas em cursos de línguas, iniciando com “saudações” até situações interacionais mais complexas, como em rituais e relações familiares e sociais. Para se ter uma ideia da organização das lições, abaixo são apresentados no quadro 2 as 12 primeiras lições de macuxi e wapixana, já que até a lição 12 os programas compartilhavam das mesmas temáticas:
| Aula | Tema | Macuxi | Wapixana |
| Lição 1 | Saudações | Pri’ya nan? | Kaimenkidkary |
| Lição 2 | Como é teu nome? | Anî’ ayese’? | Na’apam py yy? |
| Lição 3 | Aonde vai? | O’non pata attî? | Na’itim pymakun? |
| Lição 4 | Comer e beber | Entamo’ka moropai enîrî | Nik na’ik tyz |
| Lição 5 | Nosso trabalho | Uurînîkon Esenyakamanto’ | Wakaydinkiz |
| Lição 6 | Igreja (Parte 1) | Sosi | Chuchi |
| Lição 7 | Igreja (Parte 2) | Sosi | Chuchi |
| Lição 8 | Os Parentes (Parte 1) | Uyonpayamî’ | Iribennau |
| Lição 9 | Os Parentes (Parte 2) | Uyonpayamî’ | Iribennau |
| Lição 10 | Os Parentes (Parte 3) | Uyonpayamî’ | Iribennau |
| Lição 11 | Saúde | Pri’yawon | Ziu |
| Lição 12 | Escola | Esenupanto’ Yewî’ | Tuminhapkizai |
As demais lições se diferenciam pelas temáticas (Quadro 3), mas têm um fundo comunicativo comum:
| Aula | Tema macuxi/Tema wapixana | macuxi | wapixana |
| Lição13 | Na minha roça/ Caça | Unmîîri ya | Baiaytkary |
| Lição 14 | Construindo a casa/ Pescaria | Wîttî koneekanen | Na’apam Kubawyapkary |
| Lição 15 | Criação no quintal/ Pajuaru | O’non Î’ rî pannînto pororoi po | Parakari |
| Lição 16 | Alimentação/ Ajuri | Yo’ | Manurykary |
| Lição 17 | Roupa nova/ Casamento | Amenan pon wanî | Mazidiakary |
| Lição 18 | Meu parente me visita/ Fio de algodão | Uyonpa iisa uupiya | Tinhapkary |
| Lição 19 | Viagem para outro lugar/ Nascimento | Wîtîto’ tiaron pata pona | Xakatkary daya’u |
| Lição 20 | Convidando o pajé/ Caxiri | Piya’san etaasa | Sawarauapkary |
| Lição 21 | Remédio caseiro/ O Pajé | Epi wanî | Marynau |
| Lição 22 | Ritual da morte/ Cantos | Sa’mantansa’ | Kynyitinkery |
| Lição 23 | Celebração de Natal/ Bebendo | Keriximoxi koneekato | Tyzapkary |
| Lição 24 | Namoro e casamento/Briga | Ekumananto moroopai emarimanto | Tu’urutakary |
| Lição 25 | Língua/Crenças | Maimu | Mixidkary |
| Lição 26 | Língua wapichan | Tuminhapkary wapichan da’y | |
| Anexo 1 | Cantos em makuxi/Cantos em Wapichana | Kynyi wapichan idia’na | |
| Anexo 2 | Fonética do makuxi/Fonética do Wapichana |
Conforme relata Silva (2009), a programação do “Vamos aprender macuxi” teve três horários diferentes, mas apenas em um texto jornalístico de Brianezi em 2008 é que se tem um relato de como a audiência não indígena foi pega de surpresa com as aulas de uma língua indígena em plena manhã[8] e as atitudes negativas por parte dessa audiência[9]. Por outro lado, os dois programas permanecem na memória de indígenas, conforme citação de Elango et al. (2020, p. 134) já citados aqui.
Silva (2009) relata ainda como se deu a criação dos programas, focalizando sobre o programa “Vamos aprender macuxi”. A autora entrevistou os professores da OPIRR e o Pe Ronaldo MacDonell, idealizador, juntamente com o professor de língua macuxi, professor Sobral. Vale a pena transcrever as palavras do Pe. MacDonell, entrevistado por Silva (2009) sobre as finalidades da criação do programa, apesar da citação longa:
Há várias finalidades. A primeira finalidade é mais óbvia, que é ensinar ou motivar pessoas a aprender makuxi e poder aprender certas expressões de base, como as saudações; onde você está indo, como é seu nome. Então, mas, só ouvindo o programa não vai dar para aprender, então, realmente, o programa funciona como tipo de ísca (sic) para que as pessoas procurem falantes ou que estudem com livros, dicionários, etc. A segunda finalidade seria valorizar a língua indígena, colocando a língua indígena nas mídias. Enquanto a gente fala da vitalização ou da vitalidade, aliás, a vitalidade lingüística entre muitos fatores, como o da maneira da população, se existem escolas nas línguas, se existem leis que protegem, que promovem aquela língua, e neste caso se existe a língua nos meios de comunicação, seja na televisão, na rádio, nos jornais e nos livros. As línguas indígenas como a makuxi têm bem pouca presença nos meios de comunicação. Então, a finalidade era lógica no sentido de dar uma voz nos meios de comunicação eletrônicos, nesse contexto de Roraima pluricultural. Então, agora só para voltar para primeira finalidade que seria ensinar a língua para os que não sabem falar makuxi e querem aprender. Uma audiência era os makuxi que moram na cidade que talvez tenham filhos que nesse contexto não ouvem a língua todo dia, mas outra finalidade era para os próprios falantes sentirem a valorização da língua. (Silva, 2009, p. 80)
A particularidade do programa de ensino das línguas macuxi e wapixana por meio radiofônico com a participação de professores indígenas traz alguns pontos interessantes concernentes à acessibilidade do material, ou seja, da audiência almejada pelos programas, e a produção de material de ensino voltado para as comunidades (Juvêncio, 2012), como também para uma audiência de não indígenas. Um outro ponto que chama a atenção dos programas de ensino das duas línguas é a falta da especialização dos professores de línguas indígenas em técnicas do meio radiofônico nem do campo linguístico. O programa foi sendo aperfeiçoado com as lições de macuxi, sendo um pouco mais elaborado nas lições de wapixana. Mesmo sendo produzido por leigos, a iniciativa foi mais que louvável. O Pe. Ronaldo MacDonell atuou como assessor linguístico para as duas línguas, ele mesmo falante do macuxi. Como as lições das duas línguas foram pensadas para uma audiência mais ampla, de falantes e não falantes, para indígenas e não indígenas, as particularidades gramaticais de cada língua foram sempre apontadas em comparação com a língua portuguesa.
Um aspecto peculiar da forma de explicar as particularidades das línguas indígenas nas apostilas dos programas da Rádio Monte Roraima é o caso das diferenças tipológicas dessas línguas como o português, a exemplo da ordem das posposições (OPIRR & PIDRR, 2006, p. 15): “Notemos que it vem depois do substantitvo zakap (roça, acréscimo nosso) e portanto (sic) é chamado uma ‘posposição’. A ordem é ao contrário da ordem do português, onde a preposição ‘para’ vem antes do substantivo ‘roça’.” (Grifo meu) Ou a insistência de apontar que em wapixana não se usa os verbos “estar” em algumas construções. Na apostila do curso de macuxi, os ouvintes se deparavam com alguns termos técnicos como “sufixo ergativo”, explicado para o público leigo (OPIRR & PIDRR, 2005, p. 23). Uma reelaboração dos programas poderá oferecer um glossário de termos técnicos voltados para esse público[10] e disponibilização em diversas plataformas. Outro ponto a ser levado em conta na produção de programas como estes é a necessidade de gramáticas de referência das línguas como suporte teórico para a produção do conteúdo, considerando que até o momento nenhuma das duas línguas possui gramáticas de referência, mesmo considerando o rol de trabalhos existentes sobre as línguas (Cf. Tabela 1). Tomo aqui, no entanto, a perspectiva de gramáticas de referência nos moldes discutidos por Baraby (2012).
A ênfase na descrição dos dois programas radiofônicos das línguas aqui vem ao encontro de alguns dos argumentos utilizados por Mufwene (2017) sobre questões de perda e perigo de extinção de línguas e a necessidade não apenas de produzir materiais descritivos para essas línguas, como também buscar formas de motivar os falantes a utilizar suas línguas ao perceberem que elas são valorizadas, conforme o final da fala transcrita do Pe. Ronald MacDonell na citação acima. Esse pode ser um caminho para ações similares na promoção de outras línguas indígenas brasileiras. Por enquanto, a Rádio Yandê[11] é a primeira na sua modalidade no Brasil, mas numa rápida análise de sua programação não foi constatado nenhum programa semelhante como estes produzidos em Roraima. Foram observados na grade de programação da Rádio Yandê horários dedicados à literatura, cantos e outras produções nas línguas indígenas, mas nenhum programa com o cunho educativo e de ensino de línguas indígenas foi verificado. Infelizmente, desde a descontinuação dos programas sobre as línguas macuxi e wapixana em 2008, nenhum outro programa similar foi planejado ou implementado nos últimos anos na Rádio FM Monte Roraima.
Antes de passar para as minhas reflexões sobre as possíveis ações para a reversão do processo de substituição de línguas, me detenho rapidamente sobre outras ações que almejam os mesmos objetivos apontados pelo Pe. Ronald MacDonell.
Outras ações
Outras ações têm sido executadas para uma maior visibilidade das línguas em Roraima. Uma ação exemplar é o “Programa de Valorização das Línguas e Culturas Macuxi e Wapichana-PVLCMW” coordenado pela professora Ananda Machado do Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena, da Universidade Federal de Roraima-UFRR. O Programa é executado desde 2009 e tem se desmembrado em outras atividades de extensão e pesquisa universitárias. Como resultado das atividades do PVLCMW, os professores envolvidos no Programa estão trabalhando para a inclusão das línguas macuxi e wapixana no Inventário Nacional da Diversidade Linguística-INDL do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional-Iphan, dentre outras ações contínuas (Machado & Buenafuente, 2020).
Mais recentemente foram produzidas gramáticas pedagógicas do wapixana (Amaral et al., 2017) via PRODOCLIN[12] do Museu Nacional. Mais recentemente uma gramática pedagógica do macuxi foi publicada (MacDonell, 2020)[13]. Entretanto, cada uma dessas produções teve diferentes metodologias e participação de indígenas falantes das línguas em questão. Além das gramáticas pedagógicas, outros projetos individuais ou em pequenas parcerias são desenvolvidos por professores das universidades públicas de Roraima, como a UFRR e a Universidade Estadual de Roraima-UERR[14], voltados para a produção de dicionários, gramáticas ou teses e dissertações sobre algum aspecto gramatical das línguas indígenas de Roraima. No entanto, essas ações acabam se tornando relativamente fragmentárias por não haver uma articulação coordenada das diversas iniciativas de uma forma que permita uma atuação mais propositiva e positiva voltada para a vitalização das línguas indígenas.
O que se observa com as ações aqui elencadas é o foco que se busca dar sobre a vitalidade das línguas, muito mais do que sobre os fatores que as colocam em perigo de extinção. Faço minhas ponderações na seção seguinte tomando como ponto de partida a questão do estado da arte da descrição e documentação das línguas macuxi e wapixana da primeira seção e o estudo de caso apresentado na segunda seção, além dos demais exemplos de promoção linguística brevemente apresentados aqui. Teoricamente, tomo como interlocução a resposta de Di Carlo e Good (2017) e Campbell (2017) para artigo de Mufwene (2017) com a proposta deste autor de que os estudos teóricos sobre morte e perigo de extinção de línguas (Language Endangerment and Loss-LEL) focalizem o outro lado da discussão: o da vitalidade muito mais do que o do perigo de extinção. Acredito que esse seja o ponto mais positivo dos programas radiofônicos apresentados aqui em relação com outras ações que enfatizam os procedimentos clássicos de descrição e documentação linguística, que muitas vezes não alcançam o principal público, o de possíveis falantes (Baraby, 2012).
Ações possíveis com foco sobre a vitalidade das línguas
Passo agora a elencar alguns encaminhamentos possíveis e passíveis de serem executados como forma de implementar ações mais favoráveis ao fortalecimento da vitalidade linguística de línguas em processos de mudança de língua como o macuxi e wapixana. Os programas radiofônicos Watuminhap wapichan da’y! “Vamos aprender wapichana!” (OPIRR & PIDRR, 2006) com 26 lições e Makusi pe esenupan painîkon “Vamos aprender makuxi” (OPIRR & PIDRR, 2005) surgem como exemplos de ações que apontam muito mais para o aspecto da vitalidade linguística do que da perda ou do perigo de extinção, seguindo implicitamente algumas linhas de Mufwene (2017) e seus comentaristas (Campbell, 2017; Di Carlo & Good, 2017).
Com isso, detenho-me agora sobre algumas colocações postas por Di Carlo e Good (2017) e Campbell (2017) frente ao posicionamento de Mufwene (2017) tomando como exemplo o caso das línguas macuxi e wapixana apresentadas nas seções anteriores. Considerando que as duas línguas foco deste trabalho estão, sim, em processo de substituição de língua tendo como língua alvo o português, sabe-se que a quantidade de falantes da língua exibe a casa de milhares (Cf. Tabela 1), propiciando possibilidades de uma reversão na substituição de língua (Reversing Language Shift) (Elango et al., 2020, p. 138) nos termos de Fishman (2013) e Pauwels (2016).
Mufwene (2017) traz um debate interessante sobre a teorização da vitalidade linguística, criticando alguns pressupostos dos estudos da linguística documental e dos esforços de revitalização linguística. O autor propõe que os linguistas ativistas dos direitos linguísticos e que se engajam em projetos de documentação e revitalização linguística deem mais atenção para os fatores que favorecem a vitalidade das línguas, muito mais do que os fatores que agem de forma contrária. A perspectiva de Mufwene enseja novos questionamentos. Por exemplo: muito se discute sobre línguas minoritárias, mas as teorizações sobre o como e porquê línguas se tornam majoritárias não chegam a tomar tanta a atenção de teóricos e linguistas aplicados. Exemplo paralelo seria o caso do bilinguismo. Pouco se discute sobre o monolinguismo, suas causas e invenção[15].
Uma mudança de foco como essa pode contribuir com outras relacionadas, dando uma amplificação do que se conhece sobre as línguas minoritárias e em perigo de extinção. Enquanto a resposta de Di Carlo e Good (2017) são mais favoráveis a Mufwene, a opinião de Campbell (2017) se mostra mais crítica ao apresentar algumas lacunas nas propostas de Mufwene por ignorar os trabalhos das últimas décadas da linguística documental e áreas correlatas. A percepção que se tem sobre o diálogo entre esses quatro autores é de que o processo de substituição de língua decorre principalmente por questões extralinguísticas (Campbell, 2017, p. 230). Fatores linguísticos como os de documentação e descrição não parecem ser diretamente relacionados à vitalidade ou não das línguas. Talvez este seja o caso das línguas macuxi e wapixana neste estudo. É indiscutível que a documentação de línguas em perigo permite uma fotografia do como poderá ser conhecida a diversidade linguística mundial após as previsões de que metade das línguas de hoje (cerca de 7.000) desaparecerão até o fim deste século.
Di Carlo e Good (2017) oferecem um exemplo de vitalidade linguística no Camarões, África, e discutem que a ecologia e atitudes culturais dos falantes relacionados às línguas são fatores determinantes para a sua vitalidade. Olhar para as línguas sob a perspectiva de sua vitalidade e não dos processos que as tornam línguas em perigo mostra-se não apenas como uma mudança de perspectiva, mais positiva, mas a implementação de atividades clássicas de manutenção e revitalização linguística que valorize os pontos forte para a vitalidade linguística, deixando os fatores de perigo mais enfraquecidos. Pela apresentação feita na primeira e segunda seção deste artigo, confirma-se que a extensão de trabalhos descritivos sobre uma língua terá seu valor maior se esse material chegar às mãos dos seus interessados, indígenas e não indígenas. A exemplo dos programas radiofônicos de aprendizagem das línguas macuxi e wapixana apresentados na segunda seção.
A documentação do material produzido do macuxi e wapixana merecem e devem ser revisitados. Algumas ações que podem ser iniciadas nesse sentido são relacionadas à documentação e acessibilidade do material produzido. Não basta produzir materiais de descrição ou ensino das línguas, é preciso torna-los acessíveis e adequados para cada público, seja de indígenas, não indígenas, de falantes que tenham as línguas como língua materna (primeira língua ou L1) ou falantes que aprendem as línguas como segunda língua (L2):
˗ (i) Reelaboração de programas similares para divulgação nas rádios comunitárias e universitária ou no formato podcast;
˗ (ii) produção de materiais linguísticos como esboços gramaticais ou gramáticas de referência que acompanhem a realidade e necessidade dos falantes;
˗ (iii) elaboração de avaliações de proficiência para línguas indígenas a partir da utilização dos materiais de ensino e aprendizagem de línguas e participação nos programas de ensino de línguas;
Para a aplicabilidade dessas ações, é necessário a busca por maior apoio institucional, considerando que algumas das ações mais diretamente voltadas para a revitalização das línguas indígenas no estado partem de professores e pesquisadores das universidades. Dentre alguns pontos a serem considerados:
˗ (a) Implementação de políticas linguísticas dentro das universidades e a integração das atividades de pesquisa e extensão com essas políticas linguísticas;
˗ (b) criação de corpora de línguas indígenas;
˗ (c) criação de centros de documentação linguística para as línguas indígenas;
˗ (d) cursos de treinamento em descrição e documentação de línguas em programas de pós-graduação;
˗ (e) formação de linguistas nativos;
˗ (f) equipes multidisciplinares e trabalho conjunto entre diferentes especialistas de áreas dos estudos linguísticos como fonólogos, sintaticistas, semanticistas, linguistas descritivistas, etc.
Soma-se a essa ação a necessidade de execução de projetos de pesquisa de longo termo com a criação de um time de pesquisadores nacionais e internacionais que trabalhem direta ou indiretamente com as línguas de Roraima. A formação de tradutores e intérpretes das línguas indígenas tem se mostrado uma real necessidade após a cooficialiação das línguas macuxi e wapixana nos municípios do Cantá e Bonfim e tem recebido alguma atenção de professores e pesquisadores indígenas e não indígenas.
Considerações finais
O cenário multilíngue de Roraima apresenta uma realidade desfavorável para os povos originários no tocante às suas línguas, o fenômeno de substituição de língua (language shift), demostra a baixa/pouca vitalidade dessas línguas atualmente. Mesmo com algumas ações significativas como a cooficialização do macuxi e do wapixana em dois municípios do estado, medidas de documentação e revitalização são ainda insuficientes. Uma análise breve de trabalhos descritivos sobre as duas línguas demonstra que, apesar de haver um número considerado razoável para uma língua indígena brasileira (Elango et al., 2020, p. 137), o acesso aos materiais referentes às línguas não é amplo o suficiente e não se atestou ainda um retorno avaliativo desses materiais.
Pensando nas possibilidades de um maior alcance das línguas indígenas no estado considerado o mais indígena do Brasil em números proporcionais (IBGE, 2012, p. 11), foram apresentados dois programas radiofônicos para o ensino das línguas: “Vamos aprender macuxi” e “Vamos aprender wapichana!” e como esses dois programas primaram pelo aspecto da vitalidade das línguas muito mais do que da perda ou da obsolescência. Tal iniciativa ainda hoje reflete o anseio de pessoas, falantes ou não dessas línguas e confirmam que os interesses acadêmicos devem se preocupar com os anseios das comunidades nas quais as línguas minoritárias são utilizadas (Baraby, 2012).
Discutiu-se ainda a proposta de Mufwene (2017) de encarar as línguas focalizando sua vitalidade, mais que os fatores que as inclinam para a zona de risco de extinção. Além dessa perspectiva, foram elencadas algumas ações complementares que podem ser realizadas com os materiais descritivos e documentais existentes atualmente sobre essas línguas. Por fim, foram elencadas três frentes de ações que podem contribuir para a melhor utilização dos materiais disponíveis ou para elaboração dos efetivamente implementados se seguidos por ações de suporte institucional na execução das atividades de pesquisa sobre as línguas. Como adendo, reforço que as observações e reflexões delineadas aqui para o caso do macuxi e do wapixana valem também para as demais línguas indígenas de Roraima, assim como para as línguas de sinais presentes no estado, guardas as devidas especificidades da modalidade das línguas, além das línguas de migração e fronteira.
Referências bibliográficas
Abbott, M. (1976). Estrutura oracional da língua Makuxi. Série Lingüística, (4), 231–266.
Abbott, M. (1985). Subordinate clauses in Macushi. In D. L. Fortune (Org.), Porto Velho Workpapers(pp. 254–267). Summer Institute of Linguistics.
Abbott, M. (1991). Macushi. In D. C. Derbyshire & K. P. Geoffrey (Orgs.), Handbook of Amazonian Languages (pp. 23–160). De Gruyter.
Abbott, M. (2003). Let’s read and write Makusi: A transition manual. Guyana Book Foundation; North Rupununi District Development Board.
Almeida, M. N. P. (2017). Aspectos sintáticos das posposições em Wapixana (Aruák). [Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Roraima].
Amaral, L., Leandro, L., & Autuori, A. (2017). Gramática pedagógica da língua Wapichana. Museu do Índio.
Amaral, L. (2018). Describing Wapichana asymetric negation. In B. Hollebrandse, J. Kim, A. Pérez-Leroux & P. Sshulz (Orgs.), Thoughts on mind and grammar: A festschrift in honor of Tom Roeper. University of Massachusetts Occasional Papers in Linguistics.
Amodio, E., Vicente, P., & Silveira, P. S. (1996). Língua Makuxi: Makusi Maimu: Guias para a aprendizagem e dicionário da língua Makuxi. Diocese de Roraima.
Araújo, P. J. P., & Bentes, T. (2020). Línguas de sinais fronteira: O caso da LSV no Brasil. Revista Humanidades & Inovação, (7), 125–135.
Araújo, P. J. P., & Oliveira, A. F. (2021). Línguas de sinais emergentes no Brasil: O caso da língua de sinais Macuxi. Norte@mentos, (14), 224–240. https://doi.org/10.30681/rln.v14i37.7756
Baraby, A.-M. (2012). Reference grammars for speakers of minority languages. Language Documentation & Conservation Special Publication, (4). 78–101.
Bourdieu, P. (1989). O poder simbólico. DIFEL.
Cadete, C. M. (1990). Dicionário Wapichana-Português, Português-Wapichana. Loyola.
Campbell, L. (2017). On how and why languages become endangered: Replay to Mufwene. Language, 93(4), 224–233. https://doi.org/10.1353/lan.2017.0066
Carneiro, J. P. (2007). A morada dos Wapichana: Atlas toponímico da região indígena Serra da Lua – RR [Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo].
Carson, N. M. (1982). Phonology and morphosyntax of Macuxi (Carib). University of Kansas.
Carson, N. M. (1983). Recentes Desenvolvimentos em Macuxi (Caribe). Cadernos de Estudos Lingüísticos, (4), 89–104.
Cunha, C. M. (2004). Um estudo de fonologia da língua Makuxi (karib): Interrelações das teorias fonológicas [Tese de doutorado, Universidade Estadual de Campinas]. Base Acervus, Sistema de Bibliotecas da Unicamp. https://doi.org/10.47749/T/UNICAMP.2004.304133
Derbyshire, D. C. (1987). Morphosyntactic areal characteristics of Amazonian languages. International Journal of American Linguistics 53(3), 311–326. https://doi.org/10.1086/466060
Derbyshire, D. C. (1991). Are Cariban languages moving away from or towards ergative systems? Work papers of the Summer Institute of Linguistics, University of North Dakota Session, 1–29. https://doi.org/10.31356/silwp.vol35.06
Di Carlo, P., & Good, J. (2017). The vitality and diversity of multilingual repertoires: Commentary on Mufwene. Language, 93(4), 254–262. https://doi.org/10.1353/lan.2017.0069
Elango, V., Coutinho, I., & Lima, S. (2020). A language vitality survey of Macuxi, Wapichana and English in Serra da Lua, Roraima (Brazil). In W. de L. Silva & K. Riestenberg (Orgs.), Collaborative approaches to the challenge of language documentation and conservation: Selected papers from the 2018 Symposium on American Indian Languages (SAIL) (pp. 123-151). University of Hawai'i Press.
Farage, N. (1997). As flores da fala: Práticas retóricas entre os Wapishana [Tese de doutorado, Universidade de São Paulo]. https://doi.org/10.1590/S0102-69091998000300007
Fishman, J. A. (2013). Language maintenance, language shift, and reversing language shift. In T. K. Bhatia & W. Ritchie (Eds.), The handbook of bilingualism and multilingualism. Wiley-Blackwell. https://doi.org/10.1002/9781118332382.ch19
George, C., Joseph, L., Xavier, F., & Noble Jr., K. G. (1965). Linguistic materials on Indigenous languages of Guyana. Survey of California and Other Indian Languages, University of California at Berkeley.
Gildea, S. (2008). Explaining similarities between main clauses and nominalized clauses. Amérindia, (32), 57–75.
Gouvêa, A. C. de S. L. (1993). O parâmetro da ergatividade e a língua karibe macuxi [Tese de doutorado, Universidade Federal do Rio de Janeiro].
Gramling, D. (2016). The invention of monolingualism. Bloomsbury.
Hawkins, W. N. (1950). Patterns of vowel loss in Macushi (Carib). International Journal of American Linguistics 16(2), 87–90. https://doi.org/10.1086/464069
Hodsdon, C. A. (1976). Análise de cláusulas semânticas na língua makúsi. Série Lingüística, (5), 267–300.
IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística]. (2012). Os indígenas no Censo Demográfico 2010: Primeiras considerações com base no quesito cor ou raça. IBGE.
Juvêncio, V. F. (2012). Senuwapainîkon maimukonta: Makuusi maimu [Vamos estudar na nossa língua]. Universidade Federal de Roraima.
Kager, R. (1997). Rhythmic vowel deletion in Optimality Theory. In I. Roca (Org.), Derivations and constraints in phonology (pp. 463–499). Oxford University Press.
Leandro, W. M. (2017). Instrumento de testagem para investigar o conhecimento linguístico de crianças bilíngues em comunidades indígenas [Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Roraima].
Macdonell, R. B. (1994). La phonologie du Makuxi, langue caribe: Une analyse fonctionnelle [Tese de mestrado, Université Laval].
Macdonell, R. B. (2003). Le renard et le singe : Les emprunts et les alternances de code entre le Makuxi, langue Caribe et le Portugais du Brésil [Tese de doutorado, Université Laval].
Macdonell, R. B. (org.). (2020). Makuusipe karemet’pe awanî = uma gramática pedagógica da língua Macuxi. EdUFRR.
Macdonell, R. B., Deshaies, D., & Paradis, C. (2000). Emprunts et alternances de code entre le makuxi, langue caribe, et le portugais bresilien. In É. Kavanagh (Org.), Actes des XIIIes Journées de linguistique et tenues les 25 et 26 mars 1999 à l’Université Laval (pp. 121–129). Université Laval.
Machado, A. (2016). Kuadpayzu,tyzytaba’u na’ik marynau: Aspectos de uma história social da língua Wapixana em Roraima (1932-1995) [Tese de doutorado, Universidade Federal do Rio de Janeiro].
Machado, A., & Buenafuente, S. M. F. (2020). Fortalecimento e expansão das línguas indígenas Macuxi e Wapichana em Roraima/Brasil. Diadorim, 22(1), 129–153. https://doi.org/10.35520/diadorim.2020.v22n1a31714
Mayer, R. P. A. (1951). Lendas Macuxís. Journal de la société des Américanistes, (40), 67–87. https://doi.org/10.3406/jsa.1951.2540
Miguel, F. F. (2018). Plural em Macuxi [Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Roraima].
Moore, D. (2011). Línguas indígenas. In H. Mello, C. V. Altenhofen & T. Raso (Orgs.), Os contatos linguísticos no Brasil. UFMG.
Mufwene, S. S. (2017). Language vitality: The weak theoretical underpinnings of what can be an exciting research area. Language, 93(4), 202–223. https://doi.org/10.1353/lan.2017.0065
Oliveira, K. da S., Silva, M. S. de S., & Camilo, M. (2015). Wapichan Paradan Idia’na Aichapkary Pabinak na’ik Kadyzyi kid. Museu do Índio; FUNAI.
OPIRR & PIDRR. (2005). Makusi pe esenupan painîkon. “Vamos aprender Makuxi”: apostila das lições do Programa de língua makuxi para a Rádio FM Monte Roraima.
OPIRR & PIDRR. (2006). Watuminhap wapichan da’y! “Vamos aprender Wapichana!”: apostila das lições 1 A 26 do Programa de língua wapichana para a Rádio FM Monte Roraima.
Pauwels, A. (2016). Language maintenace and shift. Cambridge University Press. https://doi.org/10.1017/CBO9781107338869
Pinho, T. M. S. (2019). Negação morfológica na língua Wapichana [Tese de mestrado, Universidade Federal de Roraima].
Raposo, C. A. (2008). Dicionário da língua Makuxi. Edufrr.
Raposo, D., Raposo, J., Carson, B., & Carson, N. M. (2019). The Neusa Martins Carson and Bill Carson collection of Macuxí sound recordings. Survey of California and Other Indian Languages, University of California, Berkeley. http://cla.berkeley.edu/collection/10116
Santos, M. (1995). Os sons e a sílaba da língua Wapichana: Uma perspectiva não-linear [Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Santa Catarina].
Santos, M. (2006). Uma gramática do Wapixana (Aruák): Aspectos da fonologia, da morfologia e da sintaxe. Tese (Linguística), Universidade Estadual de Campinas.
Scannell, K. (2018). Crúbadán language data for Macushi. The Crúbadán Project. http://crubadan.org/languages/mbc
Silva, A. C. da. (2009). Educação Indígena Makuxi pelas Ondas da FM Monte Roraima (2003-2008) [Dissertação de mestrado, Universidade Federal do Amazonas].
Silva, B. da, Silva, N. de S., & Oliveira, O. (2013). Paradakaryurudnaa: Dicionário Wapichana/português, português/ Wapichana. Universidade Federal de Roraima.
Tracy, F. V. (1972). Wapishana phonology. In J. E. Grimes (Org.), Languages of the Guianas (pp. 78–84). Summer Institute of Linguistics; University of Oklahoma.
Tracy, F. V. (1974). An introduction to Wapishana verb morphology. International Journal of American Linguistics, 40(20), 120–125. https://doi.org/10.1086/465294
UNESCO. (2003). Language vitality and endangerment. UNESCO. http://www.unesco.org/culture/ich/doc/src/00120-EN.pdf
Van Diermen, L. (2015). Saving Wapishana: Evaluating the chances for revitalization of an endangered language [Dissertação de mestrado, Universidade de Utrecth].
Williams, J. (1932). Grammar, notes and vocabulary of the language of the Makuchi Indians of Guiana. Anthropos, (8).
Notas