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				<journal-title>Revista Brasileira de História</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rev. Bras. Hist.</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">1806-9347</issn>
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				<publisher-name>Associação Nacional de História - ANPUH</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="publisher-id">00017</article-id>
			<article-id pub-id-type="doi">10.1590/1806-93472016v36n73-017</article-id>
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				<article-title>Magri, Lucio. <italic>O alfaiate de Ulm</italic>: uma possível história do Partido Comunista Italiano</article-title>
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						<surname>Pomar</surname>
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					<label>*</label>
					<institution content-type="original">Universidade Federal do ABC. São Bernardo do Campo, SP, Brasil. pomar.valter@gmail.com</institution>
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					<label>1</label>
					<p>Doutor em História Econômica, Universidade de São Paulo (USP). Professor de economia política internacional no Bacharelado de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC.</p>
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			<pub-date pub-type="epub-ppub">
				<season>Sep-Dec</season>
				<year>2016</year>
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			<issue>73</issue>
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						<surname>Magri</surname>
						<given-names>Lucio</given-names>
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				</person-group>. <source><italic>O alfaiate de Ulm</italic>: uma possível história do Partido Comunista Italiano</source>. <publisher-name>Boitempo</publisher-name>: <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>, <year>2014</year>. <size units="pages">415</size>p.</product>
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		<p><italic>O alfaiate de Ulm</italic> é a última obra de Lucio Magri (1932-2011), intelectual comunista italiano e um dos responsáveis pela criação de <italic>Il Manifesto</italic>, periódico lançado em 1969 e que segue sendo publicado (http://ilmanifesto.info/).</p>
		<p><italic>O alfaiate de Ulm</italic> pode ser lido em várias claves: relato autobiográfico e testamento político, panorama do século XX, ensaio sobre a história e as perspectivas do movimento comunista italiano (especialmente o apêndice, um documento de 1987 intitulado &quot;Uma nova identidade comunista&quot;).</p>
		<p>O movimento comunista da Itália tem gênese histórica distinta, onde confluem as características próprias daquele país, o impacto da revolução russa de 1917, a luta contra o fascismo e as batalhas da Guerra Fria.</p>
		<p>Nesse contexto, o Partido Comunista não foi apenas uma organização política: foi também uma instituição cultural com imenso enraizamento na classe trabalhadora, na juventude e na intelectualidade, que teve na obra de Antonio Gramsci sua feição teórica mais conhecida e reconhecida.</p>
		<p>Apesar disso tudo - ou por causa disso tudo, como fica claro da leitura de <italic>O alfaite de Ulm</italic> - o Partido Comunista Italiano cometeu suicídio em 1989.</p>
		<p>Diferente das pequenas seitas militantes, que conseguem sobreviver em condições variadas e inóspitas, os partidos de massa parecem sobreviver apenas em determinadas condições. E como demonstra Lucio Magri, várias das condições que tornaram possível a existência de um forte comunismo reformista italiano e europeu desapareceram com a União Soviética e com a reestruturação capitalista simultânea à ofensiva neoliberal.</p>
		<p>Dito de outra forma, a força das duas grandes famílias da esquerda europeia (o reformismo social-democrata e o reformismo comunista), assim como o brilho dos grupos de ultraesquerda que viviam à sombra daquele duplo reformismo, dependiam das condições &quot;político-ecológicas&quot; existentes na Europa enquanto durou a chamada bipolaridade entre União Soviética e Estados Unidos.</p>
		<p>Quando esse conflito cessou, com a vitória dos Estados Unidos, a social-democracia experimentou uma deriva neoliberal, e o reformismo comunista, uma deriva social-democratizante.</p>
		<p>Claro que esse não foi um processo uniforme. Uma das qualidades de <italic>O alfaiate de Ulm</italic> é apresentar uma interpretação do que teria ocorrido no caso italiano. Vale destacar esta palavra: <italic>interpretação</italic>. Há muitas outras interpretações, e sempre haverá o que estudar acerca das desventuras em série que atingiram o movimento comunista, o conjunto da esquerda e da classe trabalhadora, especialmente na Europa dos anos 1980 e 1990. A Itália constitui caso destacado, em boa medida pelo fato de lá estar baseado o tantas vezes denominado de maior partido comunista do Ocidente.</p>
		<p><italic>O alfaiate de Ulm</italic> pode ser lido com muito proveito por quem tem interesse em compreender os dilemas da classe trabalhadora, da esquerda brasileira e especialmente do Partido dos Trabalhadores.</p>
		<p>Época e circunstâncias muito diferentes, obviamente. A começar pelo fato de que as variáveis internacionais que fortaleciam o reformismo social-democrata e comunista na Europa produziam efeitos muito distintos na América Latina e no Caribe, inclusive no Brasil.</p>
		<p>Isso ajuda a entender por que, na mesma época em que o PCI cometia suicídio, abandonando suas tradições e até mesmo seu nome, o Partido dos Trabalhadores estava convertendo-se em força hegemônica na esquerda brasileira.</p>
		<p>Guardadas essas diferenças, é impossível não enxergar certas semelhanças entre os dilemas vividos pelo Partido Comunista Italiano nos anos 1970 e 1980 e os impasses vividos mais de 20 anos depois pelo Partido dos Trabalhadores brasileiro.</p>
		<p>Os dilemas do PCI são descritos detalhadamente em <italic>O alfaiate de Ulm</italic>. Segundo Lucio Magri, a &quot;peculiaridade do PCI ... era a de ser um 'partido de massas' que 'fazia política' e agia no país, mas também se instalava nas instituições e as usava para conseguir resultados e construir alianças&quot; (p.333).</p>
		<p>Magri demonstra que a atuação na institucionalidade não foi apenas uma estratégia. Mais do que isso, converteu o PCI em parte estrutural do Estado italiano, naquilo que Magri chama de um &quot;elemento constitutivo de uma via democrática. Uma medalha que, no entanto, tinha um reverso&quot; (p.333).</p>
		<p>Esse &quot;reverso&quot;, que soa tão familiar aos que acompanham as vicissitudes atuais da esquerda brasileira, é assim apresentado por Lucio Magri:</p>
		<disp-quote>
			<p>Não me refiro apenas ou sobretudo às tentações do parlamentarismo, à obsessão de chegar a todo custo ao governo, mas a um processo mais lento. No decorrer das décadas, e em particular em uma fase de grande transformação social e cultural, um partido de massas é mais do que necessário, assim como sua capacidade de se colocar problemas de governo. Mas, por essa mesma transformação, ele é molecularmente modificado em sua própria composição material. (p.333)</p>
		</disp-quote>
		<p>Talvez esteja nisto a maior contribuição de <italic>O alfaiate de Ulm</italic>: essa abordagem profundamente <italic>histórica</italic> da vida de um partido político, ou seja, a compreensão de que a história de um partido só pode ser adequadamente compreendida como parte da história de uma sociedade, enquanto processo integrado entre as opções estritamente políticas, as tradições culturais e as relações sociais mais profundas, num ambiente nacional e internacional determinado.</p>
		<p>A descrição que Lucio Magri faz do processo de seleção e promoção dos dirigentes partidários fala por si:</p>
		<disp-quote>
			<p>a formação de novas gerações, mesmo entre as classes subalternas, ocorria sobretudo na escola de massas e mais ainda por intermédio da indústria cultural; os estilos de vida e os consumos envolviam toda a sociedade, inclusive os que não tinham acesso a eles, mas alimentam a esperança de tê-lo; as &quot;casamatas&quot; do poder político cresciam em importância, mas descentralizavam-se e favoreciam aqueles que ocupavam as sedes; a classe política, mesmo quando permanecia na oposição e incorrupta, à medida que a histeria anticomunista diminuía, criava relações cotidianas de amizade, amálgama, hábitos e linguagem com a classe dirigente. (p.333)</p>
		</disp-quote>
		<p>Essa &quot;mescla de costumes&quot; da &quot;classe política&quot; com a &quot;classe dirigente&quot;, como sabemos, não é uma peculiaridade italiana. Tampouco seus efeitos organizativos, assim descritos por Magri:</p>
		<disp-quote>
			<p>as seções não estavam mais acostumadas a funcionar como sede de trabalho das massas, de formação cotidiana de quadros; eram extraordinariamente ativas apenas na organização das festas do Unità, e mais ainda nos períodos de eleição nacional e local; as células nos locais de trabalho eram poucas e delegavam quase tudo ao sindicato. Nos grupos dirigentes, a distribuição dos papéis havia mudado muito: o maior peso e a seleção dos melhores haviam se transferido das funções políticas para as funções administrativas (municípios, regiões e organizações paralelas, como as cooperativas). Portanto, mais competência e menos paixão política, mais pragmatismo e horizonte político mais limitado. Os intelectuais sentiam-se estimulados para o debate, mas sua participação na organização política havia declinado e o próprio debate entre eles era frequentemente eclético. A exceção era o setor feminino, em que um vínculo direto entre cúpula e base criava uma agitação fecunda. (p.334)</p>
		</disp-quote>
		<p>Noutras palavras, Lucio Magri descreve como as transformações &quot;moleculares&quot; causaram uma metamorfose no Partido Comunista: pouco a pouco foi deixando de ser um fator de subversão, transformando-se em peça importante na engrenagem do Estado e da política italiana. Uma peça diferente das outras, como demonstraria a Operação Mãos Limpas, a qual confirmaria que o PCI soubera resistir à corrupção sistêmica. Mas uma peça da engrenagem, como demonstra o fato de o PCI não ter sobrevivido ao colapso da estrutura política italiana.</p>
		<p>Nesse sentido, a interpretação feita por Lucio Magri parece demonstrar que o Partido Comunista Italiano não foi vítima do fracasso, mas sim do sucesso da &quot;estratégia&quot; que alguns denominaram, na Itália e aqui no Brasil, de &quot;melhorista&quot;.</p>
		<p>Essa estratégia não apenas melhorou a vida da classe trabalhadora italiana, como converteu o comunismo numa força influente e vista como ameaçadora pela classe dominante e pelos Estados Unidos, que atuaram tanto aberta quanto secretamente para evitar o êxito da aliança entre o PCI e a Democracia Cristã. Lucio Magri trata dessas operações, especialmente visíveis no caso Aldo Moro.</p>
		<p>Bloqueado pela direita, o PCI tentou - sob a direção de Berlinguer - uma saída pela esquerda. Os capítulos que tratam dessa fase são talvez os mais interessantes de <italic>O alfaiate de Ulm</italic>, em parte por discutirem se a história poderia ter seguido um caminho diferente.</p>
		<p>Como sabemos, entretanto, não foi isso o que ocorreu. Ao longo dos anos 1970 e 1980, alteraram-se profundamente os parâmetros dentro dos quais se movera a política no pós-Segunda Guerra Mundial, tanto na Itália quanto no mundo. O PCI não conseguiria chegar ao poder nos marcos daqueles parâmetros em vias de desaparecimento. Não conseguiria tampouco defendê-los frente à ofensiva neoliberal e à crise do socialismo. Nem conseguiria sobreviver para atuar nas novas condições.</p>
		<p>Lucio Magri descreve, num tom profundamente autocrítico e em certo momento impiedoso consigo mesmo, as opções feitas pela maioria dirigente do PCI, que levaram à mudança do nome e das tradições políticas e culturais do Partido. Mostra como havia energias vivas na base militante do comunismo italiano, energias que não foram suficientes para dar vida ao projeto da <italic>Refundação Comunista</italic>.</p>
		<p>Enfim, pelo que descreve, pelas conclusões a que chega e pelas perguntas que deixa, <italic>O alfaiate de Ulm</italic> de Lucio Magri é leitura mais do que relevante para os que têm interesse em compreender os dilemas atuais do Partido dos Trabalhadores e do conjunto da esquerda e os rumos da política brasileira neste terceiro milênio.</p>
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