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				<journal-title>Revista Brasileira de História</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rev. Bras. Hist.</abbrev-journal-title>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.1590/1806-93472017v37n76-05</article-id>
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					<subject>Dossiê: Centenário 1917: Grande Guerra, greves e revoluções</subject>
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				<article-title>Antonio Gramsci e a Revolução Russa: uma reconsideração (1917-1935)</article-title>
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					<trans-title>Antonio Gramsci and the Russian Revolution: A Reconsideration (1917-1935)</trans-title>
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					<institution content-type="original">Università degli Studi di Roma “Tor Vergata”. Roma, Italia. pons.silvio@gmail.com</institution>
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				<season>Sep-Dec</season>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>Na ocasião do centésimo aniversário da Revolução Russa e do octogésimo da morte de Gramsci, o presente ensaio se propõe a contribuir para a contextualização histórica da personalidade e do pensamento desse pensador, seguindo uma abordagem que se consolidou sensivelmente nos estudos mais recentes. O tema da relação de Gramsci com o leninismo e o bolchevismo foi debatido infinitas vezes, mas hoje, um quarto de século depois do fim do comunismo na Europa e na Rússia, podemos nos libertar de limitações definidoras e ideológicas. Um modo de fazê-lo é reconstruir os vários fios que ligam o percurso de Gramsci antes da prisão e depois, no cárcere, com a experiência central da Revolução Russa. Esses fios são entrelaçados com toda a sua biografia de 1917 em diante, a tal ponto que não é fácil isolar o próprio tema e fornecer pistas interpretativas capazes de unir comentários, percepções, análises, estratégias e reflexões. Mas é necessário fazê-lo se quisermos compreender melhor o nexo entre a ação política e o pensamento. Pretende-se sugerir que justamente isolando o tema da Revolução Russa podemos ver com mais precisão a formação das principais categorias do pensamento político de Gramsci.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>On the occasion of the 100th anniversary of the Russian Revolution and the 80th of Gramci’s death, the present essay aims at contributing to the historical contextualization of his personalty and his thought, following an approach clearly consolidated in the most recent studies. The subject of the relation between Gramci and Leninism and Bolchevism was debated infinite times, but today, a quarter of a century after the end of Communism in Europe and in Russia, we can free ourselves from definitory and ideological limitations. A way of doing it is reconstructing the many threads that linked Gramci’s trajectory before prison and after, in jail, with the central experience of the Russian Revolution. These threads are interlaced with his entire biography from 1917 on, to the point that it is not easy to isolete the subject itself and furnish interpretative clues capable of putting together comentaries, perceptions, analysis, strategies or reflexions. It has, nevertheless, to be done if we want to better understand the nexus between political action and thought. What we suggest is that isolating the theme of the Russian Revolution it will be possible to see the formation of the main cathegories of Gramci’s political thought.</p>
			</trans-abstract>
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				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Gramci</kwd>
				<kwd>Revolução Russa</kwd>
				<kwd>Estado soviético</kwd>
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				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Gramsci</kwd>
				<kwd>Russian Revolution</kwd>
				<kwd>Soviet State</kwd>
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		<sec>
			<title>O IMPACTO DA REVOLUÇÃO E O NASCIMENTO DE UMA NOVA ESTATALIDADE (1917-1921)</title>
			<disp-quote>
				<p>A revolução dos bolcheviques é feita de ideologias mais do que de fatos. (Por isso, no fundo, pouco nos importa saber mais do que sabemos). Essa é a revolução contra <italic>O Capital</italic> de Karl Marx. <italic>O Capital</italic> de Marx era, na Rússia, o livro dos burgueses, mais do que dos proletários. Era a demonstração crítica da necessidade fatal de que na Rússia se formasse uma burguesia, se iniciasse uma era capitalista, se instaurasse uma civilização de tipo ocidental, antes que o proletariado pudesse sequer pensar na sua emancipação, nas suas reivindicações de classe, na sua revolução. Os fatos superaram as ideologias. Os fatos fizeram explodir os esquemas críticos dentro dos quais a história da Rússia deveria se desenvolver de acordo com os cânones do materialismo histórico. Os bolcheviques renegam Karl Marx e afirmam, com o testemunho da ação explícita, das conquistas realizadas, que os cânones do materialismo histórico não são tão férreos como se poderia pensar e se pensou.<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>
				</p>
			</disp-quote>
			<p>É esse o célebre primeiro comentário de Gramsci sobre a Revolução de Outubro, menos de um mês após a tomada do poder pelos bolcheviques. Ponto de chegada das reflexões dedicadas por ele à Rússia depois da Revolução de fevereiro, mas também antecipação de muitas problemáticas futuras, a “revolução contra o Capital” tornou-se, retrospectivamente, uma chave de acesso à biografia política e intelectual gramsciana, e até mesmo às motivações de uma geração inteira de jovens revolucionários que viveram o trauma da Guerra Mundial (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Eley, 2017</xref>). De fato, aquelas palavras de Gramsci continuam a nos parecer penetrantes e emblemáticas. Penetrantes porque apreendem um núcleo essencial do pensamento e da ação de Lenin e dos bolcheviques, que revisa o marxismo da Segunda Internacional. Emblemáticas porque constituem o embrião de uma cultura política centrada no papel da subjetividade, a base de uma visão antideterminista e antimecanicista da história. Nesse sentido, emerge logo a trama entre o impacto da revolução e a reflexão sobre categorias da política moderna, destinada a permanecer traço distintivo de Gramsci por muitos anos.</p>
			<p>Essa trama se enriquece rapidamente de significados no contexto da luta política e dos conflitos sociais na Itália e na Europa no final da guerra. Gramsci desenvolve juntamente uma idealização da Revolução Russa, própria naquele momento de muitos jovens intelectuais socialistas e marxistas, e uma leitura não convencional das suas características, que se liga a uma precisa visão das consequências da Guerra Mundial: a emergência de uma nova consciência social da mobilização total, o salto de qualidade da modernidade política como a participação de massa na vida pública, a exigência de uma reconfiguração radical da ordem mundial. Por essa via, Gramsci legitima sem reservas a ação de Lenin e dos bolcheviques, que vê não como utópicos mas realistas, organizadores da consciência de massa e portadores de ordem no caos russo, aderindo à ideia e à prática da ditadura do proletariado como instituto de garantia da liberdade. Ele parece não ter sido tocado nem minimamente pela dúvida, presente entre os socialistas europeus da época, de que o poder do partido possa desautorizar o autogoverno dos Conselhos Operários. Ao contrário, ele pensa que os sovietes e o partido bolchevique sejam os “organismos” integrados da nova ordem, capazes de criar novas hierarquias baseadas em uma “autoridade espiritual”, fonte de socialização e de uma cidadania responsável (Il Grido del Popolo, 22 jun. 1918; Avanti!, 25 jul. 1918). Assim, participa da construção de um mito da revolução. Bem consciente da lição de Sorel a respeito da importância de um mito fundador na moderna sociedade de massas, como fator de organização de uma vontade coletiva, instaura uma dialética entre a narração meta-histórica de nascimento de uma “nova ordem” e a sua posição no tempo histórico do pós-guerra. Ele continua a ver a revolução como fruto de uma profunda agitação da sociedade, uma combinação entre o crescimento espontâneo da consciência de massa e a ação da subjetividade política. Identifica logo o cenário da “nova ordem” com a figura do Estado bolchevique, seu monopólio da força e seu grupo dirigente. A centralidade dessa visão historicamente determinada foi talvez subestimada pelos estudiosos e, pelo contrário, merece um foco particular pelas suas implicações no longo prazo.<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref>
			</p>
			<p>Ao final da Guerra Mundial e após a eclosão da guerra civil na Rússia, Gramsci desenvolve sua própria visão do Estado revolucionário, acrescentando novas peças ao aparato delineado na “revolução contra o Capital”. A República dos Sovietes é para ele “um Estado orgânico, constitucionalmente e historicamente justificado”, cuja legitimação reside em sua força militar (Avanti!, 9 fev. 1919). A instauração de uma nova estatalidade lhe parece “o fato essencial da Revolução Russa”, e Lenin, “o maior estadista da Europa contemporânea” (L’Ordine Nuovo, 5 maio e 7 jun. 1919). Não parece sensato nem possível separar a visão do Estado bolchevique da ideologia conselhista que Gramsci desenvolve com a fundação do movimento <italic>Ordine Nuovo</italic> (Nova Ordem), em Turim. A experiência conselhista extrai alimento original do novo protagonismo operário que na Alemanha e na Itália adquire uma dimensão mais ampla do que na Rússia, mas que é inconcebível, nas suas formas e dinâmicas, sem a interação com a Revolução Russa. Os escritos de Gramsci estabelecem uma constante interdependência entre a politização das massas, a revolução bolchevique, a crise da ordem liberal e capitalista pré-bélica, o problema de reconstruir uma ordem internacional e o colapso da configuração tradicional da sociedade italiana. A idealização da Revolução Russa e a análise do pós-guerra europeu convivem entre si. Entre o fim de 1918 e o início de 1919, com a queda dos impérios centrais, generaliza-se a percepção de uma possível onda de levantes revolucionários, que suscita esperanças e medos. O colapso da velha ordem europeia é uma realidade, não uma imaginação. A ideia que a revolução na Europa e o autogoverno dos trabalhadores fosse atual, mais que a construção de Estados democráticos, corresponde à percepção de muitos no inverno 1918-1919, no contexto de uma crescente radicalização e mobilização de forças opostas. Gramsci não assume o “modelo” de revolução mas pensa que a agitação profunda provocada pela guerra leva à construção de uma “nova ordem” que a Rússia está antecipando e revelando.</p>
			<p>No rastro da Internacional comunista, Gramsci adota uma visão catastrófica do pós-guerra. O quadro da vida internacional lhe parece “uma espantosa tempestade em uma paisagem de ruínas”, a mesma “organização da civilização mundial ... desintegrada na sua totalidade”, uma vez que “os Estados liberais metropolitanos se desfazem em seu interior” e “o sistema das colônias e das esferas de influência se desintegra” (L’Ordine Nuovo, 1 maio 1919). Gramsci não considera uma autêntica possibilidade a reconstrução da Europa burguesa, em formas democráticas ou autoritárias, que ele apresenta como uma perspectiva e uma tentativa contingente. Todavia, foge de visões deterministas e inscreve as próprias considerações no campo das possibilidades históricas. A sua ênfase recai sobretudo na possibilidade salvadora de que “uma classe dirigente nova ... construa uma nova ordem internacional que unifique a consciência universal do mundo”. Nesse sentido, as forças revolucionárias e soviéticas na Rússia, na Baviera, na Hungria e também na Itália lhe parecem a única barreira contra a dissolução da sociedade e a guerra civil europeia. A distância entre o mundo institucional e cultural e o socialismo é radical: os comunistas devem se opor com sua cultura política, sabendo que “a crise catastrófica na qual se debate a civilização europeia só pode ser detida pela substituição radical do Estado democrático-parlamentar por um sistema de Conselhos operários e camponeses” (L’Ordine Nuovo, 2 ago. 1919).</p>
			<p>Tal ótica visionária não impede análises baseadas no realismo, sobretudo construídas com base em categorias geopolíticas. Ele se faz intérprete de sentimentos transversais na opinião política europeia e percebe as figuras de Lenin e Wilson como protagonistas de duas visões opostas da ordem pós-bélica, ambas inovadoras, uma alternativa entre a paz obtida pela revolução socialista e a paz relacionada à democracia capitalista (Avanti!, 5 jul. 1918; Il Grido del Popolo, 12 out. 1918). A oposição entre Lenin e Wilson é, na realidade, uma simplificação que não dá conta da complexidade política e social das opções em campo no fim da guerra. As trajetórias do leninismo e do wilsonismo estão ambas destinadas, em diversos modos, a deixar uma marca fundamental, mas também a declinar precocemente na contingência do pós-guerra.</p>
			<p>Todavia, tal chave captura a entrada em cena de forças destinadas a modificar a política mundial de modo irreversível. Não é exagero afirmar que os escritos gramscianos desses anos mostram uma visão global, ainda que concentrada na Europa. Gramsci entrevê a emergência de uma hegemonia mundial anglo-americana após a queda dos impérios centrais e põe em questão a crise do Estado-nação europeu, na qual enquadra a crise do Estado italiano (Avanti!, 10 maio e 18 jul. 1919). Percebe as incongruências geopolíticas da paz de Versalhes, que não atingem somente a Alemanha, mas todo o ordenamento da Europa oriental e da Rússia (L’Ordine Nuovo, 15 maio 1919).</p>
			<p>Em tal contexto, a força do poder bolchevique na guerra civil e a onda de violência que abala a Europa em tempo de paz levam-no a deslocar gradualmente o foco do tema da consciência social e da iniciativa de baixo para a noção de relações de força e à consolidação de uma nova ordem política. Como já se observou, elas representam “duas correntes de base” do seu pensamento político, que compreende a revolução socialista não só como automobilização das massas e libertação individual, mas também como coesão e ordenamento do corpo social, sobretudo pela figura e autoridade do Estado (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Rapone, 2011</xref>, p.409). Ele dirige atenção crescente ao segundo dos dois polos, quanto mais se fundem aos seus olhos a atualidade da revolução na Europa e a emergência do poder bolchevique da guerra civil na Rússia.</p>
			<p>Gramsci não se debruça sobre o principal paradoxo da Revolução Russa: ter realizado o que Lenin e os outros líderes bolcheviques consideravam impossível, sobreviver apesar do isolamento internacional, defender com sucesso seu poder na guerra civil apesar da ausência da revolução na Europa. Só mais tarde as consequências de tal paradoxo tornam-se evidentes. Ele delineia principalmente a ideia de que a derrota das revoluções na Europa central implica o abandono da noção de uma “revolução em dois tempos”, a exemplo daquela realizada na Rússia entre fevereiro e outubro de 1917 (L’Ordine Nuovo, 3 jul. 1920). É uma mudança ainda parcial e incompleta, que confia os sucessos revolucionários à construção de fortes partidos comunistas na Europa, segundo o projeto anunciado pelo Comintern. Assim, a perspectiva de uma revolução europeia que não se destina a seguir o exemplo russo reforça e não enfraquece o nexo com o “partido mundial da revolução” em Moscou. Ainda mais no contexto da derrota sofrida pelas lutas operárias na Itália na primavera-verão de 1920, já visível antes do seu auge na ocupação das fábricas em setembro (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Tasca, 1973</xref>, p.113-114). A guerra russo-polonesa e o seu êxito consolidam essa passagem. O objetivo da tomada de Varsóvia, a expectativa de uma insurreição proletária na Polônia e na Alemanha e a esperança de exportar a revolução “na ponta das baionetas” movimentam o segundo Congresso do Comintern entre julho e agosto. Gramsci nutre as mesmas esperanças. Ele abraça a ideia de que a Rússia soviética é uma “potência mundial”, visão expressa antes da clamorosa derrota do Exército Vermelho (L’Ordine Nuovo, 14 ago. 1920). Todavia, essa noção se aplica à força real manifestada pelo Estado construído pelos bolcheviques e à perspectiva da sua difusão em escala mundial, independentemente dos resultados da guerra na Polônia. Nesse sentido, a consonância de Gramsci com Lenin é particularmente significativa, porque não está confinada à ilusão revolucionária que se esvai repentinamente e olha além da contingência estratégica do verão de 1920. A presença do Estado bolchevique não parece então decisiva somente pela sua constituição interna e por seu exemplo revolucionário, mas pela sua projeção e influência no sistema internacional dos Estados e no poder mundial. A oposição Lenin-Wilson desvanece e nenhuma das duas figuras espelha retrospectivamente os significados e as tendências do imediato pós-guerra. Mas as forças de mudança postas em movimento pela Guerra Mundial estão igualmente em ação. O projeto leninista permanece atual pela mutação da guerra civil e marca o tempo histórico do pós-guerra.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>O ESTADO SOVIÉTICO, O MOVIMENTO COMUNISTA E A HEGEMONIA REVOLUCIONÁRIA (1922-1926)</title>
			<p>A partir do nascimento do Partito Comunista d’Italia (PCd’I), em janeiro de 1921, a experiência de Gramsci se desloca do terreno da intervenção militante e da criação de cultura política ao da ação voltada à construção do partido. Tal ação revelará em diversos momentos a influência dos paradigmas de leitura originários e lançará luz sobre o acúmulo de experiências também do ponto de vista analítico, destinadas a recuperar, afinar e também a modificar profundamente aqueles paradigmas. Sobrepõem-se então dois registros diferentes: de um lado, o da estratégia do movimento comunista e do PCd’I, e de outro, o dos acontecimentos da Rússia soviética, que entram em estreita interação entre si. O advento do fascismo na Itália, as convulsões da reconstrução europeia e a “construção do socialismo” na Rússia tornam-se os cenários essenciais no interior dos quais se desenvolvem as análises políticas e estratégicas gramscianas. No período transcorrido em Moscou em 1922 e 1923, Gramsci vive por experiência própria o nexo entre a consolidação do governo bolchevique após guerra civil e a reformulação de uma estratégia do movimento comunista, em muitos aspectos contrastantes com as convicções amadurecidas por ele até aquele momento. Gramsci toma consciência de três passagens decisivas que refletem o fim da fase de movimento aberta no último ano da Guerra Mundial e o isolamento da Revolução Russa: o rígido vínculo da unidade do grupo dirigente imposto por Lenin como condição de existência da “ditadura do proletariado”; o discurso sobre a aliança operária e camponesa ligado à Nova Política Econômica (NEP) como condição de uma base social da construção socialista; a “frente única” considerada como redefinição estratégica após a derrota da revolução europeia. Somente após o período moscovita, emergem paulatinamente uma ideia processual da revolução e uma análise do fascismo como fenômeno não efêmero de reorganização do poder na sociedade de massa, reflexão inspirada pelo Comintern (sobretudo por Bukharin) e comum a todo o grupo dirigente italiano, ainda imerso em seus sonhos revolucionários.</p>
			<p>Nessa evolução, o momento de virada é representado pelo fracasso da tentativa revolucionária de outubro de 1923 na Alemanha e pela morte de Lenin. O outubro alemão mostra como a construção de partidos comunistas organizados era condição necessária, mas não suficiente, para a revolução na Europa. Gramsci aceita a interpretação do fracasso formulada pelos dirigentes do Comintern, que atribuem toda a responsabilidade aos comunistas alemães. Todavia, não se limita a isso e formula em Viena, em fevereiro de 1924, a primeira ideia de uma visão diferenciada da revolução no Ocidente, escrevendo que</p>
			<disp-quote>
				<p>a determinação, que na Rússia era direta e lançava as massas nas ruas ao assalto revolucionário, na Europa central e ocidental se complica por todas aquelas superestruturas políticas, criadas pelo maior desenvolvimento do capitalismo, o que torna mais lenta e mais prudente a ação da massa e demanda, portanto, do partido revolucionário toda uma estratégia e uma tática mais complexa e de maior fôlego em relação às que foram necessárias aos bolcheviques no período entre março e outubro de 1917. (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Togliatti, 1974</xref>, p.197)</p>
			</disp-quote>
			<p>Essa é uma novidade no discurso político e um elemento de reflexão único no panorama do comunismo europeu, não somente no confronto com Bordiga. As palavras empregadas por Gramsci são mais ricas de implicações da crítica à revolução “em dois tempos” formulada em 1920, porque reconhecem a complexidade política das sociedades europeias e vinculam as características da Revolução Russa a uma contingência histórica. Vale a pena observar que tal afirmação precede um pouco a primeira análise autêntica de Gramsci, já de volta à Itália, sobre o fascismo como um fenômeno de massa original (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Gramsci, 1971</xref>, p.33-34). Nessa mesma passagem, Gramsci insiste na incapacidade dos comunistas italianos em obter uma adesão de massa entre os operários no momento da cisão de Livorno, apesar “da autoridade e do prestígio” da Internacional comunista, êxito julgado impiedosamente como uma derrota: “fomos derrotados, porque a maior parte do proletariado organizado politicamente não nos deu razão ... Fomos - é necessário dizer - arrastados pelos acontecimentos; fomos, involuntariamente, um aspecto da dissolução geral da sociedade italiana” (L’Ordine Nuovo, 15 mar. 1924). Gramsci emprega palavras duras que retornarão no ano seguinte nas “Teses de Lyon” e que deixarão uma marca na sua trajetória intelectual e política.</p>
			<p>Entrementes, seu elogio fúnebre representa plenamente a identificação, realizada logo após a revolução, entre a liderança leniniana e a ditadura do proletariado como fator de ordem e de autogoverno das massas: Lenin é “o expoente e o último e mais individualizado momento de todo um processo de desenvolvimento da história passada, não somente da Rússia, mas do mundo inteiro”. No seu legado, Gramsci põe em primeiro plano “a ideia de hegemonia do proletariado ... concebida historicamente e concretamente”, que se expressou na NEP e na fórmula da aliança entre os camponeses pobres (L’Ordine Nuovo, 15 mar. 1924). Ele emprega a noção de hegemonia seguindo a acepção prevalente no bolchevismo do início dos anos 1920, que pôde apreender durante a sua permanência em Moscou. Ainda mais do que na linguagem de Lenin, tal noção é explícita nos discursos de Zinoviev, o presidente do Comintern. Já em 1922, ele invoca a exigência de que a classe operária no poder, em um país prevalentemente componês e sitiado pelo capitalismo, adquira uma visão “estatal geral”, afastando-se dos seus “interesses corporativos” para exercitar o próprio papel “hegemônico” e de “guia da revolução em escala nacional e internacional”.<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref> Em 1923, o próprio Zinoviev eleva a noção de hegemonia à principal categoria do bolchevismo, com boa dose de aproximação e propagandismo, indicando como exemplo dela também a construção do Exército Vermelho (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Brandist, 2015</xref>, p.101). Os termos “hegemonia” e “direção” aparecem amplamente sobrepostos. De qualquer modo, institui-se uma continuidade entre o papel das alianças sociais antes da revolução e após a revolução que serve como ensinamento para todos os comunistas, começando por aqueles dos países de industrialização recente como a Itália. Filtrada pela experiência moscovita, a combinação gramsciana entre consciência social, subjetividade política e organização estatal se manifesta assim de forma diversa em relação ao “biênio vermelho” de 1919-1920. E todavia, ele mantém firme a interdependência entre a estatalidade revolucionária na Rússia e a revolução na Europa, tematizada então na chave de influência, exemplo e potência mundial. A diferenciação entre Rússia e Ocidente não significa perder o senso de interdependência dos cenários revolucionários e dos processos mundiais. Para Gramsci não existe uma dimensão separada da revolução no Ocidente, mas sobretudo um problema persistente de “tradutibilidade” da revolução bolchevique no plano nacional e europeu. Justamente por isso, a morte de Lenin abre uma interrogação dramática sobre a capacidade do grupo dirigente russo e do “partido mundial” revolucionário em preservar o próprio projeto.</p>
			<p>Gramsci é consciente das divisões do grupo dirigente bolchevique que se delineiam entre o fim de 1923 e o início de 1924, especialmente em torno do regime interno de partido e do êxito do outubro alemão, mas em uma situação ainda fluida. A questão reemerge clamorosamente no outuno de 1924, em seguida ao célebre texto de Trotsky sobre “As lições de outubro”, destinado a suscitar paixões e interrogações bem mais substanciais e angustiantes. A luta entre os sucessores de Lenin apresenta uma dupla implicação para todos os comunistas da época: uma ruptura que atravessa de modo transversal todo o movimento comunista, com consequências imprevisíveis; um descolamento entre a “construção do socialismo” na União Soviética e o destino da revolução mundial. Como todos, Gramsci segue uma lógica de alinhamento. Mas não a segue até as extremas consequências e até opõe a ela uma vigilância crítica. Não é difícil ver os elementos políticos e intelectuais que o levam a defender posições não conformistas, mostrando uma relação peculiar com a herança de Lenin. Ele se preocupa sobretudo com o perigo constituído pelo fato de que “a falta de unidade no partido, em um país no qual há um só partido, cinde o Estado”.<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref> Uma constatação crítica em relação à oposição trotskista mas também em relação à maioria staliniana do partido soviético, que rotulando a oposição como um corpo estranho ao Comitê Central constrói uma unidade fictícia do partido. Mas também uma constatação desligada da contingência e muito enraizada na visão gramsciana da “ditadura do proletariado” como Estado orgânico, desenvolvida desde os anos da guerra civil. Nesse ínterim, propõe-se a manter aberto um discurso sobre a atualidade da revolução e desconfia de análises instrumentais do conflito político. Por isso acolhe sem entusiasmo a noção da “estabilização relativa” do capitalismo que se destaca nas análises de Stalin e Bukharin na metade dos anos 1920 e que se liga à teoria do “socialismo em um só país”. Embora a sua linguagem seja amplamente bolchevizada, ele não tolera as fórmulas onicompreensivas cunhadas pelo Comintern no plano analítico. Assim, ele delineia uma análise diferenciada dos países capitalistas europeus ao longo de um esquema centro-periferia, que não se encontra nas concepções do Comintern e ressoa sobretudo as suas análises geopolíticas que remontam a anos anteriores.<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref> Em síntese, Gramsci adere com convicção à ideia da “construção do socialismo”, mas sua visão política não segue fielmente as coordenadas do pós-Lenin.</p>
			<p>A célebre carta de 14 de outubro de 1926 ao Comitê central do partido soviético constitui o momento no qual a visão gramsciana se cristaliza antes da prisão. Sua trama se articula sobre dois pontos: primeiro, o nexo entre “socialismo em um só país” e revolução mundial não é resolvido de uma vez por todas, mas deve ser definido nas distintas ocasiões, à luz dos interesses estatais da União Soviética, do papel desempenhado pelo partido russo no movimento comunista internacional, da análise das realidades nacionais no mundo capitalista; segundo, a condição para realizar essa tarefa é reforçar, e não enfrquecer, a unidade do grupo dirigente russo, sobretudo nas condições da NEP e da “aliança” entre operários e camponeses. O perigo de uma “cisão” da qual revelava temor desde o início da carta é por isso ligado estreitamtente ao risco de perder o papel de “propulsão revolucionária” desempenhado pelo Estado soviético. Embora sustentando politicamente a maioria do partido russo, Gramsci endereça aos seus dirigentes a advertência mais severa: a de “anular a função dirigente” própria do partido russo no “partido mundial” e de “perder de vista os aspectos internacionais das próprias querelas russas”. Dada a sua visão do Estado revolucionário, o tema da unidade não é para ele um dado interno das lógicas do partido russo, mas um problema internacional, decisivo para os militantes comunistas e para as “grandes massas trabalhadoras”. No risco de uma cisão ele vê postos em discussão “o princípio e a prática da hegemonia do proletariado” e “as relações fundamentais de aliança entre operários e camponeses”, isto é, “os pilares do Estado operário e da Revolução”. A sua crítica à oposição trotskista está centrada no argumento fundamental de que ela tenha traído a ideia de que o proletariado “não pode manter a sua hegemonia e a sua ditadura” sem sacrificar os próprios “interesses corporativos” e ressuscite, portanto, “toda a tradição da social-democracia e do sindicalismo”, obstáculo principal ao “organizar-se como classe dirigente” do proletariado ocidental. Mas a sua preocupação é que a maioria staliniana pretenda ganhar com vantagem esmagadora e favorecer uma cisão que produziria danos “irreparáveis e mortais”.<xref ref-type="fn" rid="fn6"><sup>6</sup></xref> Replicando pouco depois a Togliatti - que como se sabe, de Moscou julga um erro político a crítica gramsciana e invoca uma adesão incondicional à linha da maioria do partido bolchevique -, Gramsci repete com firmeza que o problema levantado na carta envolve “a hegemonia do prolet[ariado]” e a estabilidade do Estado na Rússia, a sua percepção dele entre as massas de trabalhadores, portanto o sentido e a missão dos comunistas. O seu ponto essencial é que o papel da União Soviética como “organizador das massas mais potentes que já apareceram na história” não deve ser considerado “já adquirido de forma estável e decisiva” porque, pelo contrário, “ele é sempre instável”. Assim se exprime Gramsci:</p>
			<disp-quote>
				<p>hoje, 9 anos depois do outubro de 1917, não é mais <italic>o fato da tomada do poder</italic> pelos bolcheviques que pode revolucionar as massas ocidentais, porque isso já foi dado como certo e produziu os seus efeitos; hoje é ativa, ideologicamente e politicamente, a persuasão (se existe) de que o proletariado, uma vez tomado o poder, <italic>pode construir o socialismo</italic>. A autoridade do P[artido] está ligada a essa persuasão, que não pode ser inculcada nas grandes massas com métodos de pedagogia escolástica, mas somente de pedagogia revolucionária, isto é, somente pelo <italic>fato político</italic> de que o P[artido] R[usso] no seu conjunto está persuadido e luta unitariamente.<xref ref-type="fn" rid="fn7"><sup>7</sup></xref>
				</p>
			</disp-quote>
			<p>Essa tomada de posição é atípica no contexto do comunismo ocidental, como os historiadores sempre souberam. Mas hoje vemos melhor como ela implica um nexo essencial entre a questão da revolução no Ocidente e a questão da evolução na União Soviética, que ele desenvolverá nos anos do cárcere (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Pons, 2008</xref>, p.403-430). Gramsci continua a ver a figura do partido bolchevique como partido de governo e aglutinador de um Estado proletário, como havia feito desde os anos da guerra civil. Seu apelo apresenta, entretanto, uma implicação muito significativa. Ele enfatiza a importância do recurso simbólico e político constituído pela autoridade do Estado e pela credibilidade da “construção do socialismo” no plano internacional não menos que na União Soviética. Estabelece assim um nexo entre hegemonia e autoridade como um objetivo político a ser conquistado e não como um dado de fato. Essa conexão se distingue da linguagem bolchevique, que enfatiza o momento da direção, e também do emprego precedente daquele termo criado pelo próprio Gramsci, que era de tipo convencional (hegemonia como supremacia) ou referente às alianças de classe no rastro da concepção leninista da NEP. Delineia-se uma acepção específica do conceito e uma centralidade cultural que ele nunca havia ocupado no bolchevismo, apesar da sua recorrência lexical (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Di Biagio, 2008</xref>, p.379-402). As suas consequências políticas não foram expostas, as intelectuais foram desenvolvidas nos <italic>Cadernos do cárcere</italic>.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>O OLHAR DO CÁRCERE: “GUERRA DE POSIÇÃO” E “REVOLUÇÃO PASSIVA” (1929-1935)</title>
			<p>No cárcere, Gramsci não se distanciará mais dos princípios enunciados nas cartas de 1926 e desenvolverá as interrogações implícitas neles. Muitas notas dos <italic>Cadernos</italic> constituem um esforço intelectual solitário de encontrar respostas sobre a evolução vivida pela União Soviética e pelo Comintern, voltando a pensar nas próprias fontes originais e colocando-as no contexto analítico do mundo do pós-guerra. No período compreendido entre a sua prisão (outubro de 1926) e o planejamento da escrita (fevereiro de 1929), Trotsky e a oposição empreendem sua última batalha e são condenados e expulsos do partido, o grupo dirigente staliniano lança violentas “medidas excepcionais” no campo, e o Comintern adota uma linha “de esquerda” no sexto Congresso. A escrita de Gramsci começa a tomar corpo entre 1929 e 1930, depois que o Comintern realizou a virada extremista resumida nas palavras de ordem do conflito “classe contra classe” e do “social-fascismo”, que ele julga um erro pagando o preço de uma séria marginalização nas relações com o partido italiano. Assim, a condição de prisioneiro não é o único impedimento e a única fonte de solidão na relação com o mundo externo. A dimensão que lhe pertence não é, porém, a do distanciamento e do desencanto, mas a da dissensão e da revisão.</p>
			<p>O elemento primário de análise é constituído pelo paralelo estabelecido entre a revolução francesa e a Revolução Russa. A analogia se refere em primeira instância à relação cidade-campo, à forma política da ditadura, à função nacional e modernizadora (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Gramsci, 1975</xref>, Q1, p.43; Q3, p.337).<xref ref-type="fn" rid="fn8"><sup>8</sup></xref> Mas se expande depois a metáfora para a compreensão do papel e da influência mundial da Revolução Russa no pós-guerra, tornando-se assim uma fonte de juízo crítico nos <italic>Cadernos</italic>. A reflexão de Gramsci se concentra na Revolução Russa e em sua herança, sobretudo em algumas notas da mesma época (fim de 1930 - início de 1931) que compõem um quadro integrado ou integrável. Gramsci pensa retrospectivamente as características da revolução e insere a “construção do socialismo” na modernidade dos anos 1920. Como se sabe, ele considera a Revolução de 1917 como último episódio da “guerra de movimento” e da “tática de assalto” ao poder (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Gramsci, 1975</xref>, Q7, p.860). Como estratégia política, a passagem da “guerra de movimento” à “guerra de posição” ou “de assédio”, lhe parece por isso “a questão de teoria política mais importante posta pelo pós-guerra” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Gramsci, 1975</xref>, Q6, p.801). Nesse período, Gramsci lê a autobiografia de Trotsky e faz dele objeto explícito da crítica que anima a própria reflexão retrospectiva. Trotsky é “o teórico político do ataque frontal no período em que este é somente causa de derrota” e o autor da doutrina da “revolução permanente”, que lhe parece “o reflexo político da teoria da guerra de movimento” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Gramsci, 1975</xref>, Q6, p.801-802; Q7, p.866). Gramsci contrapõe Lenin e Trotsky: o primeiro “profundamente nacional e profundamente europeu”, enquanto o segundo é, ao contrário, “um cosmopolita, isto é, superficialmente nacional e superficialmente ocidentalista ou europeu”. Na sua análise, somente Lenin tinha entendido a necessidade de passar da guerra de movimento à guerra de posição, “a única possível no Ocidente”, mas não tinha disposto do tempo para desenvolver a fórmula da “frente única”. As implicações de tal crítica se estendem por isso além da figura de Trotsky e se referem a toda experiência revolucionária do pós-guerra. A tarefa de passar à “guerra de posição”, ele escreve, implicava “um acurado reconhecimento de caráter nacional” porque “no Oriente o Estado era tudo, a sociedade civil era primordial e frágil; no Ocidente, entre o Estado e a sociedade civil havia uma justa relação ... O Estado era somente uma trincheira avançada, atrás do qual estava uma robusta cadeia de fortalezas e casamatas” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Gramsci, 1975</xref>, Q7, p.866). Os <italic>Cadernos</italic> retomam aqui a visão diferenciada do Ocidente em relação à Rússia, formulada pela primeira vez em fevereiro de 1924, agora inserida na concepção gramsciana da “guerra de posição”.</p>
			<p>É importante observar como Gramsci, enquanto analisa o núcleo da fracassada experiência revolucionária do pós-guerra, dirige simultaneamente a própria atenção à experiência soviética. Mais uma vez é Trotsky o objeto da crítica, neste caso como voz principal do projeto de industrialização realizada com métodos coercitivos. Para Gramsci, tal tendência, se não tivesse sido derrotada, teria desembocado em “uma forma de bonapartismo” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Gramsci, 1975</xref>, Q4, p.489). Mas o perigo inerente ao industrialismo não é constituído somente pelo bonapartismo, também pelo “egoísmo econômico-corporativo”, a incapacidade do novo “grupo hegemônico” de realizar com responsabilidade autolimitações e sacrifícios para manter em vida os equilíbrios sociais e as perspectivas de transformação socialista (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Gramsci, 1975</xref>, Q4, p.461). Um tema claramente retomado pela carta de outubro de 1926, que reemerge após a crise terminal da NEP e no contexto da modernização que se está realizando sob Stalin. O ponto de vista expresso por Gramsci é que a modernização seja compreendida dentro dos parâmetros produtivos e organizativos da modernidade global, no seu entender representados pelo americanismo (por isso reconhece que o interesse de Trotsky pelo americanismo vinha de “justas preocupações”, ainda que as soluções fossem “erradas”) (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Gramsci, 1975</xref>, Q4, p.489). Mas ela deve ser também avaliada segundo o princípio de uma tarefa histórica precisa, a de construir uma nova ordem pós-revolucionária. Os representantes da “nova ordem em gestação”, que tem como referência “o mundo da produção” - ele escreve - “por ódio ‘racionalista’ ao velho, difundem utopias e planos sem critérios”. E, todavia, está convencido de que “o desenvolvimento das forças econômicas das novas bases e a instauração progressiva da nova estrutura sanarão as contradições que não podem faltar” e “permitirão novas possibilidades de autodisciplina, isto é, de liberdade também intelectual” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Gramsci, 1975</xref>, Q7, p.863). Em outras palavras, ele se pergunta se naquele preciso momento histórico os construtores da “nova ordem” estão à altura de exercer uma hegemonia política e econômica concreta. A sua fé na “construção do socialismo” não é cega, ainda que continue a acreditar em tal perpectiva.</p>
			<p>De modo diverso, os temas até aqui tratados estão destinados a voltar e a sofrer revisões nas notas posteriores dos <italic>Cadernos</italic>, escritas entre a metade de 1932 e o início de 1935. Revisões muito significativas, pois podem ser facilmente decodificadas como um balanço substancialmente negativo da grande transformação soviética sob Stalin. Tal balanço não se refere às realizações econômicas do plano quinquenal nem à construção da potência soviética, mas se refere, ao contrário, ao tema do Estado e das superestruturas políticas. É esse o autêntico fio condutor que percorre o seu pensamento desde os escritos juvenis sobre o nascente Estado bolchevique como “Estado orgânico” nos anos da guerra civil até as notas tomadas no cárcere na época da “revolução do alto” de Stalin, mas estas últimas revelam também uma mudança radical. É preciso perguntar-se se o próprio ajustamento das principais categorias políticas ­gramscianas entre 1932 e 1933 não devam ser relacionadas com os êxitos visíveis da “revolução do alto” na União Soviética. As fontes a que Gramsci tinha acesso eram limitadas, mas suficientes para mostrar o projeto de onipotência do Estado, o domínio da propaganda, o peso das medidas administrativas e dos corpos burocráticos, a militarização das relações sociais (sobretudo entre cidade e campo) na União Soviética do início dos anos 1930. Sua questão fundamental torna-se, agora, verificar se é realmente possível desenvolver recursos hegemônicos em semelhante cenário. É visível um deslocamento do tema do industrialismo e da modernidade produtivista ao tema do regime político de massa, enquanto se destaca a questão do papel da União Soviética na ordem mundial do pós-guerra.</p>
			<p>Um sinal inequívoco de tal deslocamento é constituído pela nota de abril de 1932, na qual Gramsci reconhece que o período de “estatolatria” parece “necessário e até oportuno” quando os grupos subalternos iniciam uma “vida estatal autônoma”, mas sublinha que com o fim de desenvolver “novas formas de vida estatal” tal “estatolatria” não deve se tornar um dado permanente nem tranformar-se em “fanatismo teórico” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Gramsci, 1975</xref>, Q8, p.1020). É difícil não pensar que aqui Gramsci exprime a sua visão retrospectiva sobre a evolução conhecida da “ditadura do proletariado” na década precedente e sobre as consequências da ruptura entre os sucessores de Lenin, que parece indicar não mais a temida “cisão” do Estado mas a emersão de um culto cego do Estado. Gramsci está já muito distante da sua visão juvenil da “ditadura do proletariado” como transição em direção a uma nova ordem e como condição da liberdade. Chega mesmo a inverter aquela perspectiva, aludindo ao perigo de que a ditadura pós-revolucionária se torne um fim em si mesmo, um autoritarismo privado de hegemonia, destinado a reproduzir violência e dogmatismo. Um obstáculo e uma negação da nova relação entre governantes e governados que constitui, na sua concepção, o teste decisivo da “construção do socialismo”.</p>
			<p>A escrita controlada e hamletiana de Gramsci se faz mais transparente em algumas notas de fevereiro de 1933 ou pouco depois, que apresentam uma consonância temática junto à coincidência temporal. Ele afronta explicitamente, caso único nos <italic>Cadernos</italic>, o tema do “socialismo em um só país” - a perpectiva staliniana que ele mesmo tinha acolhido na década anterior e que então é apresentada na União Soviética como fato consumado. Ele repensa o conflito entre Trotsky e Stalin “como intérprete do movimento majoritário”, isto é, do bolchevismo, do ponto de vista da hegemonia. Esta pode se dizer garantida somente pela combinação correta dos elementos nacional e internacional. Por isso “as acusações de nacionalismo são incorretas se se referem ao núcleo da questão”. Para Gramsci, a originalidade do boschevismo pré-revolucionário foi justamente a de “depurar o internacionaslimo de todo elemento vago e puramente ideológico” para lhe dar “um conteúdo de política realista”. Todavia, Gramsci atribui a Trotsky e a Stalin as mesmas deficiências. A fase atual do socialismo, escreve, é caracterizada por um “napoleonismo” anacrônico, por “uma forma moderna do velho mecanicismo” e por uma “teoria geral da revolução permanente” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Gramsci, 1975</xref>, Q14, p.1730). Escritas no fim do primeiro plano quinquenal, essas palavras parecem um código que se refere à ditadura staliniana, ao caráter teleológico do planejamento soviético e ao ultrarradicalismo da estratégia do Comintern. É lícito pensar que Gramsci emprega tal código para evidenciar a incapacidade dos sucessores de Lenin de compreender a “guerra de posição” e os limites mostrados pela “construção do socialismo” em termos de hegemonia.</p>
			<p>Contemporaneamente, Gramsci escreve sobre a “revolução passiva” - isto é, a realização de mudanças históricas necessárias pelas próprias classes dominantes, capazes de conter as forças autenticamente revolucionárias. O tema aparece nos <italic>Cadernos</italic> muito cedo como um paradigma interpretativo da história italiana, extensível aos outros Estados da Europa moderna, mas somente nos anos 1932 e 1933 o seu significado se configura como categoria analítica fundamental (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Vacca, 2017</xref>, p.95-99). É essencial destacar a coincidência temporal entre as notas que se referem ao “socialismo em um só país” sob Stalin e as que estendem a noção de “revolução passiva” a categoria essencial para entender o pós-guerra. Tal extensão da “revolução passiva” se verifica pela ligação com a noção de “guerra de posição”, que Gramsci adota como um critério de periodização histórica em uma nota do <italic>Caderno</italic> 10, escrita em maio de 1932:</p>
			<disp-quote>
				<p>na Europa de 1789 a 1870 houve uma guerra de movimento (política) na revolução francesa e uma longa guerra de posição de 1815 a 1870; na época atual, a guerra de movimento se teve politicamente de março de 1917 a março de 1921 e se seguiu uma guerra de posição cujo representante, além de prático (para a Itália), ideológico, para a Europa, é o fascismo. (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Gramsci, 1975</xref>, Q10, p.1229)</p>
			</disp-quote>
			<p>A “guerra de movimento” do século XX, pontuada pelo impulso da revolução comunista na Rússia e na Europa, apresenta por isso uma duração muito breve em relação à do século precedente. Sua origem está na Revolução de Fevereiro, e seu fim não é datado no Outubro alemão de 1923 mas até mesmo na chamada “ação de março” de 1921 na Alemanha.</p>
			<p>Todavia, as noções de “guerra de posição” e de “revolução passiva” apresentam implicações muito mais amplas da estratégia do comunismo internacional. Também no <italic>Caderno</italic> 10, Gramsci integra uma das suas notas iniciais sobre o nexo entre o Estado moderno francês nascido da Revolução e os outros Estados modernos europeus. A interrogação original é se o modelo de mudança sem revolução posto em prática pela Restauração do século XIX pode se repetir na história europeia e mundial também após a Guerra Mundial. Inicialmente ele havia excluído essa hipótese (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Gramsci, 1975</xref>, Q1, p.134). Agora ele se pergunta se “ao menos em parte é possível ter desenvolvimentos semelhantes, sob a forma de advento de economias programáticas”. Em outras palavras, Gramsci alude à intervenção estatal na economia como resposta à crise de 1929, que caracteriza também a Itália fascista, como agente de uma “revolução passiva” no século XX. Essa noção aparece na mesma nota, quando ele define a formação dos Estados modernos na Europa continental como “reação-superação nacional” da Revolução francesa, acrescentando ser esse um “motivo essencial para compreender o conceito de ‘revolução passiva’” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Gramsci, 1975</xref>, Q10, p.1358 e 1361).</p>
			<p>Em nota escrita logo em seguida, ele volta às analogias entre o período pós-napoleônico e o período sucessivo à Guerra Mundial para observar que a “revolução passiva” é “a característica mais importante a ser estudada” do pós-guerra (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Gramsci, 1975</xref>, Q15, p.1824). O ano de 1917 é compreendido na “fratura histórica” da Guerra Mundial. O pós-guerra constitui o momento genético da resposta das classes dirigentes europeias nos termos de uma “revolução passiva” adaptada à sociedade de massa, que na grande depressão dos anos 1930 assume forma mais definida. Desse modo, Gramsci chega a inverter toda a perspectiva adotada nos primeiros anos do pós-guerra, que não contemplava entre as possibilidades históricas a de uma “revolução sem revolução”. Qual teria sido o lugar reservado à experiência soviética na “revolução passiva” do pós-guerra permanece um ponto não esclarecido nos <italic>Cadernos</italic>. Gramsci parece deixar intencionalmente aberta essa questão, ainda que a sua crítica do <italic>deficit</italic> de hegemonia política visível na União Soviética pareça implicar uma perspectiva de subalternidade à forma de hegemonia representada pela “revolução passiva”.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>CONCLUSÕES</title>
			<p>Diferentemente de muitos intelectuais europeus que na época têm liberdade de informação e de movimento (e até mesmo a possibilidade de visitar a União Soviética), Gramsci não adota a grande depressão de 1929 como um critério para estabelecer o primado da “civilização” soviética sobre o capitalismo liberal. E diferentemente da maior parte dos comunistas, ele não vê a “modernidade alternativa” soviética como uma experiência dotada de um sentido de autossuficiência completo, dado o seu caráter não capitalista. O seu foco analítico se concentra nas conexões entre a cesura representada pela Guerra Mundial, a longa crise europeia do pós-guerra e a difícil afirmação de novas forças hegemônicas globais. Nesse contexto ele insere a experiência soviética. O seu dilema não é constituído somente pelos motivos do fracasso da revolução no Ocidente, mas junto a isso pelo desenvolvimento insuficiente de uma força hegemônica na Rússia pós-revolucionária. Um ceticismo e pessimismo transparentes levam-no a elaborar uma ideia de que a “revolução passiva” do século precedente se reapresente após a Guerra Mundial sob a forma da supremacia do americanismo em escala global e do fascismo na Europa, enquanto a nova ordem ligada à “construção do socialismo” luta para emergir. O campo de possibilidades aberto pela “revolução contra o Capital”, a menos de 20 anos de distância, parece enfraquecido e circunscrito, vinculado à interação de forças complexas, limitado pela capacidade efetiva das subjetividades pós-revolucionárias.</p>
			<p>Assim, a escrita dos <italic>Cadernos</italic> revela a distância que se estabeleceu entre Gramsci e o mundo ideal e político a que ele pertencia, que é documentada por diversos aspectos na sua correspondência, nos testemunhos póstumos e em outros documentos (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Vacca, 2012</xref>). A angústia pela libertação fracassada e as crescentes suspeitas em relação à possibilidade de que os seus companheiros de partido o tenham condenado uma segunda vez ao cárcere de Mussolini exercem um peso opressor que os biógrafos não podem deixar de avaliar. Ao mesmo tempo, sua dissensão sobre a estratégia política do Comintern e a doutrina do “social-fascismo” apresenta reflexões nos <italic>Cadernos</italic>. Todavia, isso não esgota de modo algum as motivações e o espaço problemático das notas dedicadas à experiência soviética e comunista. Os traços de continuidade e de (prevalente) descontinuidade visíveis entre o período pré-carcerário e os anos da prisão nos induzem a desenvolver mais uma consideração.</p>
			<p>O olhar retrospectivo de Gramsci no cárcere implica a exigência de se confrontar com uma derrota histórica. Em 1924 ele havia estigmatizado a experiência dos comunistas italianos como uma derrota, um argumento que depois do outubro alemão podia se estender a todos os comunistas europeus. Em 1926, ele advertira a maioria do partido russo acerca do perigo de destruir a unidade do grupo dirigente e com ela a herança revolucionária, separando os interesses do Estado soviético do movimento mundial. A ruptura entre os sucessores de Lenin tinha se realizado no modo mais traumático que, dadas as premissas gramscianas, não podia não constituir uma perda de perspectiva. No início dos anos 1930, a sua reflexão solitária emana essa preocupação e ele chega a elaborar uma categoria política que é metáfora da derrota sofrida pelos revolucionários no pós-guerra, a “revolução passiva”. Aqui se pode entrever a dupla face da noção gramsciana de hegemonia. A hegemonia é nos <italic>Cadernos</italic> um conceito voltado a iluminar a complexidade das estratégias das classes dirigentes que não podem se reduzir a mero exercício de poder, mas implicam uma concepção sofisticada da autoridade, da soberania, da relação entre governantes e governados. Ao mesmo tempo, constitui uma lente para ler os motivos da derrota sofrida pelo “partido mundial da revolução” na Europa e para medir as características e os limites do socialismo soviético, sua autêntica capacidade de incorporar e construir consenso, sua legitimidade doméstica e internacional, seu lugar no mundo.</p>
			<p>Essa ótica distingue radicalmente Gramsci dos outros comunistas da época. Ele não pode ser inserido em nenhuma das principais tendências do bolchevismo e do comunismo dos anos 1920, ainda que compartilhe amplamente suas linguagens (começando pelas metáforas militares) e a cultura política. Mas isso não nasce simplesmente de uma posição política peculiar, nem mesmo de uma trágica condição psicológica. Nasce de uma dimensão intelectual e cultural que lhe permite reconhecer e pensar sobre a derrota fora dos cânones do drama necessário e providencial ao longo do caminho irreversível em direção ao futuro socialista, que marca a mentalidade comunista do seu tempo (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Hobsbawm, 2003</xref>). A experiência da derrota leva Gramsci a pensar na multiplicidade das possibilidades históricas e a interrogar-se sobre as inadequações da própria instrumentação conceitual e política: um antídoto às formas de identificação que ele mesmo praticara e que atingem o ápice dogmático nos anos 1930. No panorama do comunismo da época seria vão procurar uma abordagem dessa natureza, não somente no mundo oficial staliniano e no Comintern, mas até mesmo na dissensão de matriz trotskista. Nesse sentido, é mais fácil aproximar a visão gramsciana, com todas as óbvias diferenças do caso, à dos intelectuais caracterizados por uma ética da responsabilidade mais do que por uma militância política, como Walter Benjamin e a sua concepção da história como possibilidade, ou como o Marc Bloch da “estranha derrota”.</p>
			<p>Gramsci mantém firme uma compreensão dos eventos contemporâneos em termos antideterministas, dirigindo-se a uma posteridade que ele sabe não lhe ser dada, muito provavelmente, a conhecer. A sua é uma visão ao mesmo tempo dilemática e analítica, que continua a ver a cesura da Guerra Mundial e da Revolução e deixa abertas possibilidades diversas ao futuro, mas se faz consciente dos vetores e das forças historicamente determinantes. Essas considerações podem contribuir para iluminar o sentido último da relação entre Gramsci e a Revolução de 1917, mas também para explicar a longa duração das categorias de pensamento político por ele criadas na sua prisão.</p>
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			<title>REFERÊNCIAS</title>
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				<mixed-citation>BRANDIST, Craig. The Dimensions of Hegemony. Language, Culture and Politics in Revolutionary Russia. Chicago: Haymarket Books, 2015.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>DI BIAGIO, Anna. Egemonia leninista, egemonia gramsciana. In: GIASI, Francesco (Org.) Gramsci nel suo tempo. Roma: Carocci, 2008. v.1, p.379-402.</mixed-citation>
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				<label>1</label>
				<p><italic>Avanti!</italic>, 24 dez. 1917 in <xref ref-type="bibr" rid="B7">GRAMSCI, 2015</xref>, p.618.</p>
			</fn>
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			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>A visão gramsciana do Estado bolchevique foi bem analisada, em relação aos anos 1918-1919, por <xref ref-type="bibr" rid="B10">RAPONE, 2011</xref>, p.375-379.</p>
			</fn>
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		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p><italic>Protokoly Odinadcatogo s’ezda RKP(b) Mart’-Aprel’ 1922g.</italic>, Moskva, Partizdat ­CK VKP(b), 1936, p.410.</p>
			</fn>
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		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>Relazione al Comitato centrale del PCd’I, fev. 1925, p.473, in Archivio del Partito Comunista (APC).</p>
			</fn>
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			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>Relazione al Comitato centrale del PCd’I, ago. 1926, in APC.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p><italic>Gramsci a Roma, Togliatti a Mosca. Il carteggio del 1926</italic>, doc. 42, <xref ref-type="bibr" rid="B2">DANIELE, 1999</xref>, p.404-412.</p>
			</fn>
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		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>7</label>
				<p>Ibidem, doc. 49, p.435-439.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>8</label>
				<p>Todas as citações dos <italic>Quaderni</italic> de Gramsci provêm da edição organizada por Valentino Gerratana (Einaudi, 1975). Estão referenciadas com “Q”, o número do caderno e a página na coletânea, e foram traduzidas para esta publicação.</p>
			</fn>
		</fn-group>
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			<fn fn-type="other" id="fn16">
				<label>16</label>
				<p>Tradução: Edilene Toledo</p>
			</fn>
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	</back>
	<!--<sub-article article-type="translation" id="s1" xml:lang="it">
		<front-stub>
			<article-categories>
				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Articles</subject>
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			<title-group>
				<article-title>Antonio Gramsci e la Rivoluzione russa: una riconsiderazione (1917-1935)</article-title>
			</title-group>
			<contrib-group>
				<contrib contrib-type="author">
					<name>
						<surname>Pons</surname>
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					<xref ref-type="aff" rid="aff2">*</xref>
				</contrib>
				<aff id="aff2">
					<label>*</label>
					<institution content-type="original">Università degli Studi di Roma “Tor Vergata”. Roma, Italia. pons.silvio@gmail.com</institution>
				</aff>
			</contrib-group>
			<abstract>
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>Cogliendo l’occasione del centesimo anniversario della Rivoluzione russa e dell’ottantesimo della morte di Gramsci, il presente saggio si propone di contribuire alla contestualizzazione storica della sua personalità e del suo pensiero, seguendo un approccio che si è sensibilmente consolidato negli studi più recenti. Il tema del rapporto di Gramsci con il leninismo e il bolscevismo è stato dibattuto infinite volte, ma oggi, a un quarto di secolo di distanza dalla fine del comunismo in Europa e in Russia, possiamo liberarci da costrizioni definitorie e ideologiche. Un modo per farlo è ricostruire i vari fili che legano il percorso di Gramsci prima dell’arresto e poi nella prigionia con l’esperienza centrale della Rivoluzione russa. Questi fili sono intrecciati con tutta la sua biografia dal 1917 in avanti, al punto tale che non è facile isolare il tema stesso e fornire tracce interpretative capaci di t enere insieme commenti, percezioni, analisi, strategie, riflessioni. Ma è necessario farlo se intendiamo comprendere meglio il nesso tra l’azione politica e il pensiero. Si intende anzi suggerire che proprio isolando il tema della Rivoluzione russa possiamo vedere con maggiore precisione la formazione delle principali categorie del pensiero politico di Gramsci.</p>
			</abstract>
			<kwd-group xml:lang="it">
				<title>Parole chiave:</title>
				<kwd>Gramsci</kwd>
				<kwd>Rivoluzione russa</kwd>
				<kwd>Stato sovietico</kwd>
			</kwd-group>
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			<sec>
				<title>L’IMPATTO DELLA RIVOLUZIONE E LA NASCITA DI UNA NUOVA STATUALITÀ (1917-1921)</title>
				<disp-quote>
					<p>La rivoluzione dei bolsceviki è materiata di ideologie più che di fatti. (Perciò, in fondo, poco ci importa sapere più di quanto sappiamo). Essa è la rivoluzione contro <italic>Il Capitale</italic> di Carlo Marx. <italic>Il Capitale</italic> di Marx era, in Russia, il libro dei borghesi, più che dei proletari. Era la dimostrazione critica della fatale necessità che in Russia si formasse una borghesia, si iniziasse un’èra capitalistica, si instaurasse una civiltà di tipo occidentale, prima che il proletariato potesse neppure pensare alla sua riscossa, alle sue rivendicazioni di classe, alla sua rivoluzione. I fatti hanno superato le ideologie. I fatti hanno fatto scoppiare gli schemi critici entro i quali la storia della Russia avrebbe dovuto svolgersi secondo i canoni del materialismo storico. I bolsceviki rinnegano Carlo Marx, e affermano, con la testimonianza dell’azione esplicita, delle conquiste realizzate, che i canoni del materialismo storico non sono cosí ferrei come si potrebbe pensare e si è pensato.<xref ref-type="fn" rid="fn9"><sup>1</sup></xref>
					</p>
				</disp-quote>
				<p>E’ questo il celebre primo commento di Gramsci sulla Rivoluzione d’Ottobre, meno di un mese dopo la presa del potere dei bolscevichi. Punto di arrivo delle riflessioni da lui dedicate alla Russia dopo la Rivoluzione di febbraio, ma anche anticipazione di molte problematiche future, la ‘rivoluzione contro il Capitale’ è divenuta, retrospettivamente, una chiave di accesso alla biografia politica e intellettuale gramsciana, e persino alle motivazioni di un’intera generazione di giovani rivoluzionari che vivono il trauma della Grande Guerra (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Eley, 2017</xref>). In effetti, quelle parole di Gramsci continuano ad apparirci penetranti ed emblematiche. Penetranti perché colgono un nucleo essenziale del pensiero e dell’azione di Lenin e dei bolscevichi, che revisiona il marxismo della Seconda Internazionale. Emblematiche perchè costituiscono l’embrione di una cultura politica incentrata sul ruolo della soggettività, il fondamento di una visione anti-deterministica e anti-meccanicistica della storia. Sotto questo profilo, emerge subito l’intreccio tra l’impatto della rivoluzione e la riflessione sulle categorie della politica moderna, destinato a restare tratto distintivo di Gramsci per molti anni a venire.</p>
				<p>Tale intreccio si arricchisce rapidamente di significati nel contesto della lotta politica e dei conflitti sociali in Italia e in Europa alla fine della guerra. Gramsci sviluppa insieme un’idealizzazione della rivoluzione russa, propria allora di molti giovani intellettuali socialisti e marxisti, e una lettura non convenzionale dei suoi caratteri, che si lega a una precisa visione delle conseguenze della Grande Guerra: l’emergere di una nuova coscienza sociale dalla mobilitazione totale, il salto di qualità della modernità politica quale partecipazione di massa alla vita pubblica, l’esigenza di una radicale riconfigurazione dell’ordine mondiale.</p>
				<p>Per questa via, Gramsci legittima senza riserve l’operato di Lenin e dei bolscevichi, che vede non come utopisti ma realisti, organizzatori della coscienza di massa e portatori di ordine nel caos russo, aderendo all’idea e alla pratica della dittatura proletaria quale istituto garante della libertà. Egli non sembra sfiorato dal dubbio, presente tra i socialisti europei dell’epoca, che il potere del partito possa esautorare l’autogoverno consiliare. Pensa invece che i soviet e il partito bolscevico siano gli “organismi” integrati del nuovo ordine, capaci di creare nuove gerarchie fondate su una “autorità spirituale”, fonte di socializzazione e di una cittadinanza responsabile (<italic>Il Grido del Popolo</italic>, 22/06/1918. <italic>Avanti!</italic>, 25/07/1918). Così partecipa alla costruzione di un mito della rivoluzione. Ben consapevole della lezione di Sorel circa l’importanza di un mito fondativo nella moderna società di massa, quale fattore di organizzazione di una volontà collettiva, instaura una dialettica tra la narrazione metastorica della nascita di un “nuovo ordine” e la sua collocazione nel tempo storico del dopoguerra. Continua a vedere la rivoluzione come il frutto di un profondo rivolgimento della società, una combinazione tra la spontanea crescita della coscienza di massa e l’azione della soggettività politica. Identifica molto presto lo scenario del “nuovo ordine” con la figura dello Stato bolscevico, il suo monopolio della forza e il suo ceto dirigente. La centralità di questa visione storicamente determinata è stata forse sottovalutata dagli studiosi e merita invece un fuoco particolare per le sue implicazioni a lungo termine.<xref ref-type="fn" rid="fn10"><sup>2</sup></xref>
				</p>
				<p>Alla fine della guerra mondiale e dopo lo scoppio della guerra civile in Russia, Gramsci sviluppa la propria visione dello Stato rivoluzionario, aggiungendo nuovi tasselli all’impianto delineato nella ‘rivoluzione contro il Capitale’. La Repubblica dei Soviet è per lui “uno Stato organico, costituzionalmente e storicamente giustificato”, la cui legittimazione risiede nella sua forza militare (<italic>Avanti!</italic>, 09/02/1919). L’instaurazione di una nuova statualità gli appare “l’essenziale fatto della Rivoluzione Russa” e Lenin “il più grande statista dell’Europa contemporanea” (<italic>L’Ordine Nuovo</italic>, 05/05 e 07/06/1919). Non appare sensato nè possibile separare la visione dello Stato bolscevico dall’ideologia consiliare che Gramsci sviluppa tramite la fondazione del movimento dell’Ordine Nuovo a Torino. L’esperienza consiliare trae alimento originale dal nuovo protagonismo operaio che in Germania e in Italia acquisisce una dimensione più ampia di quanto non avesse in Russia, ma che è inconcepibile nelle sue forme e dinamiche senza l’interazione con la Rivoluzione russa. Gli scritti di Gramsci stabiliscono una costante interdipendenza tra la politicizzazione delle masse, la rivoluzione bolscevica, la crisi dell’ordine liberale e capitalistico prebellico, il problema di ricostruire un ordine internazionale e il collasso degli assetti tradizionali della società italiana. L’idealizzazione della rivoluzione russa e l’analisi del dopoguerra europeo convivono tra loro. Tra la fine del 1918 e l’inizio del 1919, con il crollo degli Imperi centrali, si generalizza la percezione di una possibile ondata di sconvolgimenti rivoluzionari, che suscita speranze e paure. Il collasso del vecchio ordine europeo è una realtà, non un’immaginazione. L’idea che la rivoluzione in Europa e l’autogoverno dei lavoratori sia attuale, anche più che la costruzione di stati democratici, corrisponde alla percezione di molti nell’inverno 1918-19, nel contesto di una crescente radicalizzazione e mobilitazione di forze opposte. Gramsci non assume un “modello” di rivoluzione ma pensa che il sommovimento profondo provocato dalla guerra porti alla costruzione di un “nuovo ordine” che la Russia sta anticipando e rivelando.</p>
				<p>Nella scia dell’Internazionale comunista, egli adotta una visione catastrofista del dopoguerra. Il quadro della vita internazionale gli apparire “una spaventosa bufera in un paesaggio di rovine”, la stessa “organizzazione della civiltà mondiale ... sgretolata nella sua totalità”, dato che “gli stati liberali metropolitani si disfanno all’interno” e “il sistema delle colonie e delle sfere d’influenza si sgretola” (<italic>L’Ordine Nuovo</italic>, 01/05/1919). Gramsci non considera un’autentica possibilità la ricostruzione dell’Europa borghese, in forme democratiche o autoritarie, che presenta come una prospettiva velleitaria e un tentativo contingente. Tuttavia, rifugge da visioni deterministiche e iscrive le proprie considerazioni nel campo delle possibilità storiche. Il suo accento cade prevalentemente sulla possibilità salvifica che “una classe dirigente nuova ... costruisca un ordine nuovo internazionale che unifichi la coscienza universale del mondo”. Sotto questo profilo, le forze rivoluzionarie e sovietiche in Russia, in Baviera, in Ungheria, e anche in Italia gli appaiono come l’unico argine contro la dissoluzione della società e la guerra civile europea. Il distacco dal mondo istituzionale e culturale del socialismo è radicale: i comunisti devono opporsi con la loro cultura politica, sapendo che “la crisi catastrofica in cui si dibatte la civiltà europea può essere arrestata solo dalla radicale sostituzione di un sistema di Consigli operai e contadini allo Stato democratico-parlamentare” (<italic>L’Ordine Nuovo</italic>, 02/08/1919).</p>
				<p>Una simile ottica visionaria non impedisce analisi improntate al realismo, per lo più costruite su categorie geopolitiche. Egli si fa interprete di sentimenti trasversali nell’opinione politica europea e percepisce le figure di Lenin e Wilson come protagoniste di due visioni opposte dell’ordine postbellico, entrambe innovative, un’alternativa tra la pace tramite la rivoluzione socialista e la pace tramite la democrazia capitalistica (<italic>Avanti!</italic>, 05/07/1918; <italic>Il Grido del Popolo</italic>, 12/10/1918). L’opposizione tra Lenin e Wilson è, in realtà, una semplificazione che non rende conto a sufficienza della complessità politica e sociale delle opzioni in campo alla fine della guerra. Le traiettorie del leninismo e dello wilsonismo sono destinate entrambe, in modi diversi, a lasciare un’impronta fondamentale ma anche a declinare precocemente nella contingenza del dopoguerra.</p>
				<p>Tuttavia, tale chiave coglie l’irrompere sulla scena di forze destinate a modificare comunque la politica mondiale in un modo irreversibile. Non è una forzatura affermare che gli scritti gramsciani di questi anni mostrano una visione globale, sebbene concentrata sull’Europa. Gramsci intravede l’emergere di un’egemonia mondiale angloamericana dopo il crollo degli imperi centrali e mette a tema la crisi dello stato-nazione europeo, nella quale inquadra la crisi dello Stato italiano (<italic>Avanti!</italic>, 10/05 e 18/07/1919). Coglie le incongruenze geopolitiche della pace di Versailles, che non riguardano soltanto la Germania, ma l’intero assetto dell’Europa orientale e della Russia (<italic>L’Ordine Nuovo</italic>, 15/05/1919).</p>
				<p>In un simile contesto, la tenuta del potere bolscevico nella guerra civile e l’ondata di violenza che scuote l’Europa in tempo di pace lo spingono a spostare gradualmente il fuoco dal tema della coscienza sociale e dell’iniziativa dal basso alla nozione dei rapporti di forza e al consolidamento di un nuovo ordine politico. Come è stato notato, queste rappresentano “due correnti di fondo” del suo pensiero politico, che intende la rivoluzione socialista sia come automobilitazione delle masse e liberazione individuale, sia come coesione e ordinamento del corpo sociale, anzitutto tramite la figura e l’autorità dello Stato (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Rapone, 2011</xref>, p.409). Egli rivolge crescente attenzione al secondo dei due poli quanto più si fondono ai suoi occhi l’attualità della rivoluzione in Europa e l’emergere del potere bolscevico dalla guerra civile in Russia.</p>
				<p>Gramsci non si sofferma sul paradosso principale della rivoluzione russa: aver compiuto ciò che Lenin e gli altri leader bolscevichi ritenevano impossibile, sopravvivere malgrado l’isolamento internazionale, difendere con successo il loro potere nella guerra civile pur in mancanza della rivoluzione in Europa. Le conseguenze di un simile paradosso risulteranno evidenti soltanto più tardi. Egli delinea piuttosto l’idea che la sconfitta delle rivoluzioni nell’Europa centrale implichi l’abbandono della nozione di una “rivoluzione in due tempi” sull’esempio di quella realizzatasi in Russia tra il febbraio e l’ottobre 1917 (<italic>L’Ordine Nuovo</italic>, 03/07/1920). E’ un ripensamento ancora parziale e incompiuto, che affida le sorti rivoluzionarie alla costruzione di forti partiti comunisti in Europa, secondo il progetto annunciato dal Comintern. Così la prospettiva di una rivoluzione europea che non è destinata a ricalcare l’esempio russo rafforza e non indebolisce il nesso con il “partito mondiale della rivoluzione” a Mosca. Ancor più nel contesto della sconfitta subita dalle lotte operaie in Italia nella primavera-estate 1920, già visibile prima del loro culmine nell’occupazione delle fabbriche in settembre (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Tasca, 1973</xref>, pp. 113-114). La guerra russo-polacca e il suo esito consolidano questo passaggio. L’obiettivo della presa di Varsavia, l’aspettativa di un’insurrezione proletaria in Polonia e in Germania, la speranza di esportare la rivoluzione “sulla punta delle baionette” accendono il secondo Congresso del Comintern tra luglio e agosto. Gramsci nutre le medesime speranze. Egli fa propria l’idea che la Russia sovietica sia una “potenza mondiale”, una visione espressa prima della clamorosa sconfitta dell’Armata Rossa (<italic>L’Ordine Nuovo</italic>, 14/08/1920). Tuttavia questa nozione si applica alla forza reale manifestata dallo Stato costruito dai bolscevichi e alla prospettiva del suo futuro dispiegarsi su scala mondiale, indipendentemente dalle sorti della guerra in Polonia. In questo senso, la consonanza di Gramsci con Lenin è particolarmente significativa, perché non è confinata all’illusione rivoluzionaria che si brucia repentinamente e guarda oltre la contingenza strategica dell’estate 1920. La presenza dello Stato bolscevico non appare ora decisiva soltanto per la sua costituzione interna e per il suo esempio rivoluzionario, ma per la sua proiezione e influenza nel sistema internazionale degli stati e nel potere mondiale. L’opposizione Lenin-Wilson è tramontata e nessuna delle due figure rispecchia retrospettivamente i significati e le tendenze dell’immediato dopoguerra. Ma le forze di cambiamento messe in moto dalla Grande Guerra sono ugualmente all’opera. Il progetto leninista resta attuale tramite la mutazione della guerra civile e segna il tempo storico del dopoguerra.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>LO STATO SOVIETICO, IL MOVIMENTO COMUNISTA E L’EGEMONIA RIVOLUZIONARIA (1922-1926)</title>
				<p>A partire dalla nascita del PCd’I (gennaio 1921), l’esperienza di Gramsci si sposta dal terreno dell’intervento militante e della creazione di cultura politica a quello dell’azione rivolta alla costruzione del partito. Tale azione rivelerà in diversi momenti l’influenza dei paradigmi di lettura originari e aprirà squarci sull’accumulo di esperienze anche sotto il profilo analitico, destinate a recuperare, affinare e anche modificare profondamente quei paradigmi. Si sovrappongono ora due diversi registri, quello della strategia del movimento comunista e del PCd’I, e quello degli sviluppi della Russia sovietica, che entrano in una stretta interazione tra loro. L’avvento del fascismo in Italia, le convulsioni della ricostruzione europea e la “costruzione del socialismo” in Russia divengono gli scenari essenziali entro i quali si svolgono le analisi politiche e strategiche gramsciane. Nel periodo trascorso a Mosca nel 1922-23, Gramsci vive per diretta esperienza il nesso tra il consolidamento del governo bolscevico dopo la guerra civile e la riformulazione di una strategia del movimento comunista, per molti aspetti stridente con le convinzioni da lui maturate sino a quel momento. Prende coscienza di tre decisivi passaggi che riflettono la fine della fase di movimento apertasi nell’ultimo anno della guerra mondiale e l’isolamento della Rivoluzione russa: il rigido vincolo dell’unità del gruppo dirigente imposto da Lenin come condizione di esistenza della “dittatura proletaria”; il discorso sull’alleanza tra operai e contadini collegato alla NEP come condizione di una base sociale della costruzione socialista; la strategia del “fronte unico” come ridefinizione strategica dopo la sconfitta della rivoluzione europea. Solo dopo il periodo moscovita emergono faticosamente un’idea processuale della rivoluzione e un’analisi del fascismo quale fenomeno non effimero di riorganizzazione del potere nella società di massa, ispirata dal Comintern (anzitutto da Bucharin) all’intero gruppo dirigente italiano, ancora attardato nei suoi sogni rivoluzionari.</p>
				<p>In questa evoluzione, il momento di svolta è rappresentato dal fallimento del tentativo rivoluzionario dell’ottobre 1923 in Germania e dalla morte di Lenin. L’ottobre tedesco mostra come la costruzione di partiti comunisti organizzati sia la condizione necessaria ma non sufficiente per la rivoluzione in Europa. Gramsci accetta l’interpretazione del fallimento formulata dai dirigenti del Comintern, che addossano tutta la responsabilità ai comunisti tedeschi. Tuttavia non si limita a questo e formula da Vienna, nel febbraio 1924, il primo spunto di una visione differenziata della rivoluzione in occidente, scrivendo che</p>
				<disp-quote>
					<p>la determinazione, che in Russia era diretta e lanciava le masse nelle strade all’assalto rivoluzionario, nell’Europa centrale e occidentale si complica per tutte quelle superstrutture politiche, create dal più grande sviluppo del capitalismo, rende più lenta e più prudente l’azione della massa e domanda quindi al partito rivoluzionario tutta una strategia e una tattica più complessa e di lunga lena di quelle che furono necessarie ai bolscevichi nel periodo tra il marzo e l’ottobre 1917. (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Togliatti, 1974</xref>, p.197)</p>
				</disp-quote>
				<p>E’ questa una novità del suo discorso politico e un elemento di riflessione unico nel panorama del comunismo europeo, non soltanto nel confronto con Bordiga. Le parole impiegate da Gramsci sono più ricche di implicazioni della critica alla rivoluzione “in due tempi” formulata nel 1920, perché riconoscono la complessità politica delle società europee e legano i caratteri della Rivoluzione russa a una contingenza storica. Vale la pena osservare che una simile affermazione precede di poco la prima autentica analisi di Gramsci, nel frattempo rientrato in Italia, sul fascismo come un originale fenomeno di massa (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Gramsci, 1971</xref>, pp. 33-34). In questo stesso passaggio Gramsci insiste sull’incapacità dei comunisti italiani di ottenere un seguito di massa tra gli operai al momento della scissione di Livorno malgrado “l’autorità e il prestigio” dell’Internazionale comunista, un esito giudicato impietosamente come una sconfitta: “fummo sconfitti, perché la maggioranza del proletariato organizzato politicamente ci diede torto ... Fummo - bisogna dirlo - travolti dagli avvenimenti; fummo, senza volerlo, un aspetto della dissoluzione generale della società italiana” (<italic>L’Ordine Nuovo</italic>, 15/03/1924). Gramsci impiega parole pesanti che torneranno l’anno dopo nelle <italic>Tesi di Lione</italic> e che lasceranno il segno sulla sua traiettoria intellettuale e politica.</p>
				<p>Nel contempo, il suo elogio funebre ripresenta appieno l’identificazione, compiuta subito dopo la rivoluzione, tra la leadership leniniana e la dittatura proletaria quale fattore di ordine e di autogoverno delle masse: Lenin è “l’esponente e l’ultimo più individualizzato momento, di tutto un processo di sviluppo della storia passata, non solo della Russia, ma del mondo intero”. Nel suo lascito, Gramsci pone in primo piano “l’idea dell’egemonia del proletariato ... concepita storicamente e concretamente” che si è espressa nella NEP e nella formula dell’alleanza con i contadini poveri (<italic>L’Ordine Nuovo</italic>, 15/03/1924). Egli impiega la nozione di egemonia seguendo l’accezione prevalente nel bolscevismo dei primi anni Venti, che ha potuto apprendere durante il suo soggiorno a Mosca. Più ancora che nel linguaggio di Lenin, tale nozione è esplicita nei discorsi di Zinov’ev, il capo del Comintern. Già nel 1922 questi invoca l’esigenza che la classe operaia al potere, in un paese a prevalenza contadina e accerchiato del capitalismo, acquisisca una visione “statuale generale” distaccandosi dai suoi “interessi corporativi” per esercitare il proprio ruolo di “egemone” e di “guida della rivoluzione su scala nazionale e internazionale”.<xref ref-type="fn" rid="fn11"><sup>3</sup></xref> Nel 1923 lo stesso Zinov’ev eleva la nozione di egemonia a categoria principale del bolscevismo, con un buona dose di approssimazione e propagandismo, indicandone come un esempio anche la costruzione dell’Armata Rossa (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Brandist, 2015</xref>, p.101). I termini di “egemonia” e “direzione” appaiono largamente sovrapponibili. In ogni caso, si istituisce una continuità tra il ruolo delle alleanze sociali prima della rivoluzione e dopo la rivoluzione, che serve da insegnamento per tutti i comunisti, a cominciare da quelli dei paesi di recente industrializzazione come l’Italia. Filtrata dall’esperienza moscovita, la combinazione gramsciana tra coscienza sociale, soggettività politica e organizzazione statuale si manifesta così in una forma diversa rispetto al “biennio rosso” del 1919-20. E tuttavia, egli mantiene ferma l’interdipendenza tra la statualità rivoluzionaria in Russia e la rivoluzione in Europa, tematizzata allora in chiave di influenza, esempio e potenza mondiale. La differenziazione tra Russia e Occidente non significa smarrire il senso dell’interdipendenza degli scenari rivoluzionari e dei processi mondiali. Per Gramsci non esiste una dimensione separata della rivoluzione in occidente, ma piuttosto un persistente problema di “traducibilità” della rivoluzione bolscevica sul piano nazionale ed europeo. Proprio per questo, la morte di Lenin apre un interrogativo drammatico sulla capacità del gruppo dirigente russo e del “partito mondiale” rivoluzionario di preservare il proprio disegno.</p>
				<p>Gramsci è consapevole delle divisioni del gruppo dirigente bolscevico che si delineano tra la fine del 1923 e l’inizio del 1924, specie attorno al regime interno di partito e all’esito dell’ottobre tedesco, ma in una situazione ancora fluida. La questione riemerge clamorosamente nell’autunno 1924 a seguito del celebre scritto di Trockij su <italic>Le lezioni dell’ottobre</italic>, destinato a suscitare passioni e interrogativi ben più sostanziali e angosciosi. La lotta tra i successori di Lenin presenta una duplice implicazione per tutti i comunisti dell’epoca: una spaccatura che attraversa in modo trasversale l’intero movimento comunista, con conseguenze imprevedibili; uno scollamento tra la “costruzione del socialismo” in Unione Sovietica e il destino della rivoluzione mondiale. Come tutti, Gramsci segue una logica di schieramento. Ma non la segue fino alle estreme conseguenze e anzi vi oppone una vigilanza critica. Non è difficile vedere gli elementi politici e intellettuali che lo portano a difendere posizioni non conformiste, mostrando un rapporto peculiare con l’eredità di Lenin. Egli si preoccupa anzitutto del pericolo costituito dal fatto che “la mancanza di unità nel partito in un paese in cui vi è un solo partito, scinde lo Stato”.<xref ref-type="fn" rid="fn12"><sup>4</sup></xref> Una constatazione critica verso l’opposizione trockista ma anche verso la maggioranza staliniana del partito sovietico, che bollando l’opposizione come un corpo estraneo al Comitato Centrale costruisce un’unità fittizia del partito. Ma anche una constatazione slegata dalla contingenza e molto radicata nella visione gramsciana della “dittatura proletaria” quale Stato organico, sviluppata sin dagli anni della guerra civile. Nel contempo, si propone di mantenere aperto un discorso sull’attualità della rivoluzione e diffida di analisi strumentali al conflitto politico. Perciò accoglie tiepidamente la nozione della “stabilizzazione relativa” del capitalismo che campeggia nelle analisi di Stalin e Bucharin alla metà degli anni Venti e che si lega alla teoria del “socialismo in un solo paese”. Benchè il suo linguaggio sia largamente bolscevizzato, egli è insofferente verso le formule onnicomprensive coniate dal Comintern sul piano analitico. Così delinea un’analisi differenziata dei paesi capitalistici europei lungo uno schema centro-periferia, che non è dato riscontrare nelle concezioni cominterniste e riecheggia piuttosto le sue analisi geopolitiche risalenti ad anni prima.<xref ref-type="fn" rid="fn13"><sup>5</sup></xref> In sintesi, Gramsci aderisce con convinzione all’idea della “costruzione del socialismo” ma la sua visione politica non ricalca fedelmente le coordinate del dopo Lenin.</p>
				<p>La celebre lettera del 14 ottobre 1926 al Comitato centrale del partito sovietico costituisce il momento nel quale la visione gramsciana si cristallizza prima dell’arresto. La sua trama si articola su due punti: primo, il nesso tra “socialismo in un solo paese” e rivoluzione mondiale non è risolto una volta per tutte, ma va definito di volta in volta alla luce degli interessi statali dell’URSS, del ruolo svolto dal partito russo nel movimento comunista internazionale, dell’analisi delle realtà nazionali nel mondo capitalistico; secondo, la condizione per assolvere questo compito è rafforzare, e non indebolire, l’unità del gruppo dirigente russo, tanto più nelle condizioni della NEP e della “alleanza” tra operai e contadini. Il pericolo di una “scissione” paventato sin dall’inizio della lettera è perciò collegato strettamente al rischio di perdere il ruolo di “propulsione rivoluzionaria” svolto dallo Stato sovietico. Pur sostenendo politicamente la maggioranza del partito russo, Gramsci indirizza ai suoi dirigenti l’ammonimento più severo: quello di “annullare la funzione dirigente” propria del partito russo nel “partito mondiale” e di “perdere di vista gli aspetti internazionali delle quistioni russe stesse”. Data la sua visione dello Stato rivoluzionario, il tema dell’unità non è per lui un dato interno alle logiche del partito russo, ma un problema internazionale, decisivo per i militanti comunisti e per le “grandi masse lavoratrici”. Nel rischio di una scissione egli vede messi in discussione “il principio e la pratica dell’egemonia del proletariato” e “i rapporti fondamentali di alleanza tra operai e contadini”, vale a dire “i pilastri dello Stato operaio e della Rivoluzione”. La sua critica all’opposizione trockista è incentrata sull’argomento fondamentale che essa abbia tradito l’idea che il proletariato “non può mantenere la sua egemonia e la sua dittatura” senza sacrificare i propri “interessi corporativi” e resusciti perciò “tutta la tradizione della socialdemocrazia e del sindacalismo”, ostacolo principale all’ “organizzarsi in classe dirigente” del proletariato occidentale. Ma la sua preoccupazione è che la maggioranza staliniana intenda “stravincere” e favorire una scissione che produrrebbe danni “irreparabili e mortali”.<xref ref-type="fn" rid="fn14"><sup>6</sup></xref> Replicando poco dopo a Togliatti, - che come è noto, da Mosca giudica un errore politico la critica gramsciana e invoca un’adesione incondizionata alla linea della maggioranza del partito bolscevico - Gramsci ripete con fermezza che il problema sollevato nella lettera investe “l’egemonia del prolet[ariato]” e la tenuta dello Stato in Russia, la sua percezione tra le masse lavoratrici, quindi il senso e la missione dei comunisti. Il suo punto essenziale è che il ruolo dell’Unione Sovietica come “l’organizzatore di masse più potente che sia mai apparso nella storia” non deve essere considerato “ormai acquisito in forma stabile e decisiva” perché invece “esso è sempre instabile”. Così si esprime Gramsci:</p>
				<disp-quote>
					<p>oggi, dopo nove anni dall’ottobre 1917, non è più <italic>il fatto della presa del potere</italic> da parte dei bolscevichi che può rivoluzionare le masse occidentali, perché esso è già stato scontato ed ha prodotto i suoi effetti; oggi è attiva, ideologicamente e politicamente, la persuasione (se esiste) che il proletariato, una volta preso il potere, <italic>può costruire il socialismo</italic>. L’autorità del P[artito] è legata a questa persuasione, che non può essere inculcata nelle grandi masse con metodi di pedagogia scolastica, ma solo di pedagogia rivoluzionaria, cioè solo dal <italic>fatto politico</italic> che il P[artito] R[usso] nel suo complesso è persuaso e lotta unitariamente.<xref ref-type="fn" rid="fn15"><sup>7</sup></xref>
					</p>
				</disp-quote>
				<p>Questa presa di posizione è atipica nel contesto del comunismo occidentale, come gli storici hanno sempre saputo. Ma oggi vediamo meglio come essa implichi un nesso essenziale tra la questione della rivoluzione in occidente e la questione dell’evoluzione dell’URSS, che svilupperà negli anni del carcere (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Pons, 2008</xref>, p.403-430). Gramsci continua a vedere la figura del partito bolscevico come partito di governo e collante di uno Stato proletario, non diversamente da quanto aveva fatto sin dagli anni della guerra civile. Il suo appello presenta però un’implicazione molto significativa. Egli enfatizza l’importanza della risorsa simbolica e politica costituita dall’autorità dello Stato e dalla credibilità della “costruzione del socialismo” sul piano internazionale non meno che nell’Unione Sovietica. Stabilisce così un nesso tra egemonia e autorità come un obiettivo politico da conquistare e non come un dato acquisito. Un simile nesso si distingue dal linguaggio bolscevico, che fa cadere l’accento sul momento della direzione, e anche dal precedente impiego di quel termine fatto dallo stesso Gramsci, che era di tipo convenzionale (egemonia come supremazia) o riferito alle alleanze di classe nella scia della concezione leninista della NEP. Si delinea un’accezione specifica del concetto e una centralità culturale che esso non aveva mai rivestito nel bolscevismo, malgrado la sua ricorrenza lessicale (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Di Biagio, 2008</xref>, p.379-402). Le sue conseguenze politiche restano inespresse, quelle intellettuali vengono sviluppate nei <italic>Quaderni del carcere</italic>.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>LO SGUARDO DAL CARCERE: “GUERRA DI POSIZIONE” E “RIVOLUZIONE PASSIVA” (1929-1935)</title>
				<p>Nel carcere Gramsci non si distaccherà più dai principi enunciati nelle lettere del 1926 e svilupperà gli interrogativi in esse impliciti. Molte note dei <italic>Quaderni</italic> costituiscono un solitario sforzo intellettuale di venire a capo dell’evoluzione conosciuta dall’URSS e dal Comintern, tornando a pensare le proprie fonti originarie e collocandole in un contesto analitico che abbraccia il mondo del dopoguerra. Nel periodo compreso tra il suo arresto (ottobre 1926) e la progettazione della scrittura (febbraio 1929), Trockij e l’opposizione combattono la loro ultima battaglia e vengono condannati ed espulsi dal partito, il gruppo dirigente staliniano vara violente “misure eccezionali” nelle campagne, il Comintern adotta una linea “di sinistra” al VI Congresso. La scrittura di Gramsci inizia a prendere corpo, tra il 1929 e il 1930, dopo che il Comintern ha compiuto la svolta estremista riassunta nelle parole d’ordine dello scontro “classe contro classe” e del “socialfascismo”, che egli giudica un errore pagando il prezzo di una seria emarginazione nei rapporti con il partito italiano. Così la condizione di prigioniero non è l’unico impedimento e l’unica fonte di solitudine nel rapporto con il mondo esterno. La dimensione che gli appartiene non è però quella del distacco o del disincanto, semmai quella del dissenso e della revisione.</p>
				<p>L’elemento primario di analisi è costituito dal parallelo stabilito tra la rivoluzione francese e la rivoluzione russa. L’analogia riguarda in prima istanza il rapporto città-campagna, la forma politica della dittatura, la funzione nazionale e modernizzatrice (Q1, 43; Q3, 337). Ma si espande poi a metafora per la comprensione del ruolo e dell’influenza mondiale della Rivoluzione Russa nel dopoguerra, divenendo in tal modo una fonte di giudizio critico nei <italic>Quaderni</italic>. La riflessione di Gramsci si appunta sulla rivoluzione russa e la sua eredità anzitutto in alcune note coeve (tardo 1930 - inizio 1931) che compongono un quadro integrato o integrabile. Gramsci pensa retrospettivamente i caratteri della rivoluzione e colloca la “costruzione del socialismo” nella modernità degli anni Venti. Come è noto, egli considera la rivoluzione del 1917 come l’ultimo episodio della “guerra manovrata” e della “tattica d’assalto” al potere (Q7, 860). Sotto il profilo della strategia politica, il passaggio dalla “guerra manovrata” alla “guerra di posizione” o “di assedio”, gli appare perciò “la quistione di teoria politica la più importante, posta dal dopo guerra” (Q6, 801). In questo periodo, Gramsci legge l’autobiografia di Trockij e fa di lui l’oggetto esplicito della critica che anima la propria riflessione retrospettiva. Trockij è “il teorico politico dell’attacco frontale in un periodo in cui esso è solo causa di disfatta” e l’autore della dottrina della “rivoluzione permanente”, che gli appare “il riflesso politico della teoria della guerra manovrata” (Q6, 801-2; Q7, 866). Gramsci contrappone Lenin a Trockij: il primo “profondamente nazionale e profondamente europeo”, laddove il secondo è invece “un cosmopolita, cioè superficialmente nazionale e superficialmente occidentalista o europeo”. A suo giudizio, soltanto Lenin aveva capito la necessità di passare dalla guerra manovrata alla guerra di posizione, “la sola possibile in occidente”, ma non aveva avuto il tempo per sviluppare la formula del “fronte unico”. Le implicazioni di una simile critica si estendono perciò oltre la figura di Trockij e si riferiscono all’intera esperienza rivoluzionaria del dopoguerra. Il compito di passare alla “guerra di posizione”, egli scrive, implicava “un’accurata ricognizione di carattere nazionale” perché “in Oriente lo Stato era tutto, la società civile era primordiale e gelatinosa; nell’Occidente tra Stato e società civile c’era un giusto rapporto ... Lo Stato era solo una trincea avanzata, dietro cui stava una robusta catena di fortezze e di casematte” (Q7, 866). I <italic>Quaderni</italic> riprendono qui la visione differenziata dell’occidente dalla Russia formulata la prima volta nel febbraio 1924, che ora è inserita nella concezione gramsciana della “guerra di posizione”.</p>
				<p>Ciò che preme osservare è come Gramsci, mentre analizza il nocciolo della fallita vicenda rivoluzionaria del dopoguerra, rivolga simultaneamente la propria attenzione all’esperienza sovietica. Ancora una volta è Trockij l’oggetto della critica, in questo caso quale voce principale del progetto di industrializzazione realizzata con metodi coercitivi. Per Gramsci tale tendenza, se non fosse stata sconfitta, sarebbe sboccata in “una forma di bonapartismo” (Q4, 489). Ma il pericolo insito nell’industrialismo non è soltanto costituito dal bonapartismo bensì anche dall’ “egoismo economico-corporativo”, l’incapacità del nuovo “raggruppamento egemone” di compiere responsabilmente auto-limitazioni e sacrifici per mantenere in vita gli equilibri sociali e le prospettive di trasformazione socialista (Q4, 461). Un tema chiaramente ripreso dalla lettera dell’ottobre 1926, che ora riemerge dopo la crisi terminale della NEP e nel contesto della modernizzazione che si sta realizzando sotto Stalin. Il punto di vista espresso da Gramsci è che la modernizzazione vada compresa entro gli standard produttivi e organizzativi della modernità globale, a suo giudizio rappresentati dall’americanismo (perciò riconosce che l’interesse di Trockij per l’americanismo muoveva da “giuste preoccupazioni” anche se le sue soluzioni erano “errate”) (Q4, 489). Ma essa va anche valutata all’insegna di un preciso compito storico, quello di costruire un nuovo ordine postrivoluzionario. I rappresentanti del “nuovo ordine in gestazione”, che hanno come riferimento “il mondo della produzione” - egli scrive - “per odio ‘razionalistico’ al vecchio diffondono utopie e piani cervellotici”. E tuttavia, è convinto che “lo sviluppo delle forze economiche delle nuove basi e l’instaurazione progressiva della nuova struttura saneranno le contraddizioni che non possono mancare” e “permetteranno nuove possibilità di autodisciplina, cioè di libertà anche intellettuale” (Q7, 863). In altre parole, egli si chiede se in quel preciso momento storico i costruttori del “nuovo ordine” siano all’altezza di esercitare una concreta egemonia politica ed economica. La sua fede nella “costruzione del socialismo” non è cieca, anche se continua a credere in tale prospettiva.</p>
				<p>In modi diversi, i temi sin qui trattati sono destinati a tornare e a subire revisioni nelle note più tarde dei <italic>Quaderni,</italic> scritte tra la metà del 1932 e l’inizio del 1935. Revisioni tanto più significative in quanto si possono decodificare senza difficoltà come un bilancio sostanzialmente negativo della grande trasformazione sovietica sotto Stalin. Tale bilancio non riguarda le realizzazioni economiche del piano quinquennale né la costruzione della potenza sovietica, ma riguarda invece il tema dello Stato e delle sovrastrutture politiche. E’ questo l’autentico filo rosso che percorre il suo pensiero dagli scritti giovanili sul nascente Stato bolscevico come “Stato organico” negli anni della guerra civile alle note appuntate in carcere nell’epoca della “rivoluzione dall’alto” di Stalin, ma queste ultime rivelano anche un cambiamento radicale. C’è anzi da chiedersi se la stessa messa a punto delle principali categorie politiche gramsciane tra il 1932 e il 1933 non vada messa in rapporto con gli esiti visibili della “rivoluzione dall’alto” in Unione Sovietica. Le fonti in possesso di Gramsci sono limitate ma sufficienti a mostrare il progetto di onnipotenza dello Stato, il dominio della propaganda, il peso delle misure amministrative e dei corpi burocratici, la militarizzazione delle relazioni sociali (anzitutto quelle tra città e campagna) nell’Unione Sovietica dei primi anni Trenta. Il suo interrogativo fondamentale diviene se sia davvero possibile sviluppare risorse egemoniche in un simile scenario. E’ visibile uno slittamento dal tema dell’industrialismo e della modernità produttivistica al tema del regime politico di massa, mentre si accentua l’interrogativo sul ruolo dell’Unione Sovietica nell’ordine mondiale del dopoguerra.</p>
				<p>Un segno inequivocabile di tale slittamento è costituito dalla nota dell’aprile 1932, nella quale Gramsci riconosce che un periodo di “statolatria” appare “necessario e anzi opportuno” quando i gruppi subalterni si affacciano a una “vita statale autonoma”, ma sottolinea che al fine di sviluppare “nuove forme di vita statale” tale “statolatria” non deve divenire un dato permanente né trasformarsi in “fanatismo teorico” (Q8, 1020). E’ difficile non pensare che qui Gramsci esprima la sua visione retrospettiva sull’evoluzione conosciuta dalla “dittatura proletaria” nel decennio precedente e sulle conseguenze della rottura tra i successori di Lenin, che sembra indicare non più nella paventata ‘scissione’ dello Stato ma nell’emersione di un cieco culto dello Stato. Gramsci è ormai molto lontano dalla sua visione giovanile della “dittatura proletaria” come transizione verso un nuovo ordine e come condizione di libertà. Giunge anzi a rovesciare quella prospettiva, alludendo al pericolo che la dittatura postrivoluzionaria divenga un fine in sè, un autoritarismo privo di egemonia destinato a riprodurre violenza e dogmatismo. Un ostacolo e una negazione della nuova relazione tra governanti e governati che costituisce, nella sua concezione, la cartina di tornasole della “costruzione del socialismo”.</p>
				<p>La scrittura vigilata e amletica di Gramsci si fa più trasparente in alcune note risalenti al febbraio 1933 o poco dopo, che presentano una consonanza tematica insieme alla coincidenza temporale. Egli affronta esplicitamente, caso unico nei <italic>Quaderni</italic>, il tema del “socialismo in un solo paese” - la prospettiva staliniana che egli stesso aveva accolto nel decennio precedente e che ora viene presentata in Unione Sovietica come un fatto compiuto. Ripensa il conflitto tra Trockij e Stalin “come interprete del movimento maggioritario”, cioè del bolscevismo, dal punto di vista dell’egemonia. Questa può dirsi garantita soltanto dalla corretta combinazione degli elementi nazionale e internazionale. Perciò “le accuse di nazionalismo sono inette se si riferiscono al nucleo della quistione”. Per Gramsci, l’originalità del bolscevismo prerivoluzionario è stata proprio quella di “depurare l’internazionalismo di ogni elemento vago e puramente ideologico” per dargli “un contenuto di politica realistica”. Tuttavia, Gramsci attribuisce a Trockij e a Stalin le medesime deficienze. L’attuale fase del socialismo, scrive, è caratterizzata da un “napoleonismo” anacronistico, da “una forma moderna del vecchio meccanicismo” e da una “teoria generale della rivoluzione permanente” (Q14, 1730). Scritte alla fine del primo piano quinquennale, queste parole appaiono un codice che rimanda alla dittatura staliniana, al carattere teleologico della pianificazione sovietica e all’ultraradicalismo della strategia del Comintern. E’ lecito pensare che Gramsci impieghi tale codice per evidenziare l’incapacità dei successori di Lenin di comprendere la “guerra di posizione” e i limiti mostrati dalla “costruzione del socialismo” in termini di egemonia.</p>
				<p>Contemporaneamente, Gramsci scrive sulla “rivoluzione passiva” - cioè la messa in atto di cambiamenti storici necessari da parte delle stesse classi dominanti, in grado di contenere le forze autenticamente rivoluzionarie. Il tema compare nei <italic>Quaderni</italic> molto presto come un paradigma interpretativo della storia italiana estendibile agli altri stati dell’Europa moderna, ma soltanto nel 1932-33 il suo significato si configura come una categoria analitica fondamentale (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Vacca, 2017</xref>, p.95-99). E’ essenziale rilevare la coincidenza temporale tra le note che rimandano al “socialismo in un solo paese” sotto Stalin e quelle che estendono la nozione di “rivoluzione passiva” a categoria essenziale per capire il dopoguerra. Tale estensione della “rivoluzione passiva” si verifica tramite il legame con la nozione della “guerra di posizione”, che Gramsci adotta come un criterio di periodizzazione storica in una nota del <italic>Quaderno</italic> 10 scritta nel maggio 1932:</p>
				<disp-quote>
					<p>nell’Europa dal 1789 al 1870 si è avuta una guerra di movimento (politica) nella rivoluzione francese e una lunga guerra di posizione dal 1815 al 1870; nell’epoca attuale, la guerra di movimento si è avuta politicamente dal marzo 1917 al marzo 1921 ed è seguita una guerra di posizione il cui rappresentante, oltre che pratico (per l’Italia), ideologico, per l’Europa, è il fascismo. (Q10, 1229)</p>
				</disp-quote>
				<p>La “guerra di movimento” del Novecento, scandita dall’impulso della rivoluzione comunista in Russia e in Europa, presenta perciò una durata molto breve rispetto a quella del secolo precedente. La sua origine è nella Rivoluzione di Febbraio e la sua fine non è datata all’Ottobre tedesco del 1923 ma addirittura alla cosiddetta “azione di marzo” del 1921 in Germania.</p>
				<p>Tuttavia, le nozioni di “guerra di posizione” e di “rivoluzione passiva” presentano implicazioni molto più ampie della strategia del comunismo internazionale. Sempre nel <italic>Quaderno 10</italic>, Gramsci integra una delle sue note iniziali sul nesso tra lo Stato moderno francese nato dalla Rivoluzione e gli altri stati moderni europei. L’interrogativo originario è se il modello di cambiamento senza rivoluzione messo in atto dalla Restaurazione del XIX secolo possa ripetersi nella storia europea e mondiale anche dopo la Grande Guerra. Inizialmente lo aveva escluso (Q1, 134). Ora si chiede invece se “almeno in parte si possono avere sviluppi simili, sotto forma di avvento di economie programmatiche”. In altre parole, Gramsci allude all’intervento statale nell’economia come risposta alla crisi del ’29, che caratterizza anche l’Italia fascista, quale agente di una “rivoluzione passiva” nel XX secolo. Questa nozione compare nella medesima nota, quando definisce la formazione degli stati moderni nell’Europa continentale come “reazione-superamento nazionale” della Rivoluzione francese, aggiungendo essere questo un “motivo essenziale per comprendere il concetto di ‘rivoluzione passiva’” (Q10, 1358 e 1361).</p>
				<p>In una nota di poco successiva, torna sulle analogie tra il periodo post-napoleonico e quello successivo alla Grande Guerra per osservare che la “rivoluzione passiva” è “il più importante tratto da studiare” del dopoguerra (Q15, 1824). Il 1917 è ricompreso nella “frattura storica” della Grande Guerra. Il dopoguerra costituisce il momento genetico della risposta delle classi dirigenti europee nei termini di una “rivoluzione passiva” adattata alla società di massa, che nella grande depressione degli anni Trenta assume una forma più definita. In questo modo, Gramsci giunge a rovesciare l’intera prospettiva adottata nei primi anni del dopoguerra, che non contemplava tra le possibilità storiche quella di una ‘rivoluzione senza rivoluzione’. Quale sia il posto riservato all’esperienza sovietica nella “rivoluzione passiva” del dopoguerra resta un punto interrogativo nei <italic>Quaderni</italic>. Gramsci sembra lasciare intenzionalmente aperta una simile questione, anche se la sua critica del deficit di egemonia politica visibile nell’Unione Sovietica sembra implicare una prospettiva di subalternità alla forma di egemonia rappresentata dalla “rivoluzione passiva”.</p>
			</sec>
			<sec sec-type="conclusions">
				<title>CONCLUSIONI</title>
				<p>A differenza di molti intellettuali europei che all’epoca hanno libertà di informazione e di movimento (e persino la possibilità di visitare l’Unione Sovietica), Gramsci non adotta la grande depressione del 1929 come un criterio per stabilire il primato della ‘civilizzazione’ sovietica sul capitalismo liberale. E a differenza della maggior parte dei comunisti, non vede la ‘modernità alternativa’ sovietica come un’esperienza dotata di un completo senso di autosufficienza, dato il suo carattere non capitalistico. Il suo fuoco analitico si concentra sulle connessioni tra la cesura rappresentata dalla Grande Guerra, la lunga crisi europea del dopoguerra e la difficile affermazione di nuove forze egemoniche globali. In questo contesto egli inserisce l’esperienza sovietica. Il suo dilemma non è soltanto costituito dai motivi del fallimento della rivoluzione in occidente, ma insieme ad esso dall’insufficiente sviluppo di una forza egemonica nella Russia postrivoluzionaria. Un trasparente scetticismo e pessimismo lo porta a elaborare l’idea che la “rivoluzione passiva” del secolo precedente si ripresenti dopo la Grande Guerra sotto forma della supremazia dell’americanismo su scala globale e del fascismo in Europa, mentre il nuovo ordine legato alla “costruzione del socialismo” stenta a emergere. Il campo di possibilità aperto dalla ‘rivoluzione contro il Capitale’, a meno di vent’anni di distanza, appare deperito e circoscritto, vincolato dall’interazione di forze complesse, limitato dall’effettiva capacità delle soggettività postrivoluzionarie.</p>
				<p>Così la scrittura dei <italic>Quaderni</italic> rivela la distanza consumatasi tra Gramsci e il mondo della sua appartenenza ideale e politica, che è documentata per diversi aspetti nella sua corrispondenza, nelle testimonianze postume e in altra documentazione (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Vacca, 2012</xref>). L’angoscia per la mancata liberazione e i crescenti sospetti circa la possibilità che i suoi compagni di partito lo abbiano condannato una seconda volta al carcere di Mussolini esercitano un peso opprimente che i biografi non possono cessare di valutare. Nello stesso tempo, il suo dissenso sulla strategia politica del Comintern e la dottrina del “socialfascismo” presenta riflessi nei <italic>Quaderni.</italic> Tuttavia, esso non esaurisce in alcun modo le motivazioni e lo spazio problematico delle note dedicate all’esperienza sovietica e comunista. Le tracce di continuità e di (prevalente) discontinuità visibili tra il periodo pre-carcerario e gli anni della prigionia ci inducono a svolgere un’ulteriore considerazione.</p>
				<p>Lo sguardo retrospettivo di Gramsci in carcere implica l’esigenza di fare i conti con una sconfitta storica. Nel 1924 egli aveva stigmatizzato l’esperienza dei comunisti italiani come una sconfitta, un argomento che dopo l’ottobre tedesco poteva estendersi a tutti i comunisti europei. Nel 1926 aveva ammonito la maggioranza del partito russo circa il pericolo di distruggere l’unità del gruppo dirigente e con essa l’eredità rivoluzionaria, separando gli interessi dello Stato sovietico dal movimento mondiale. La rottura tra i successori di Lenin si era poi consumata nel modo più traumatico, che date le premesse gramsciane non poteva non costituire una perdita di prospettiva. Nei primi anni Trenta, la sua riflessione solitaria emana un simile assillo ed egli giunge a elaborare una categoria politica che è metafora della sconfitta subita dai rivoluzionari nel dopoguerra, la “rivoluzione passiva”. Qui si può vedere in controluce il duplice volto della nozione gramsciana di egemonia. L’egemonia è nei <italic>Quaderni</italic> un concetto volto a illuminare la complessità delle strategie delle classi dirigenti che non si possono ridurre al mero esercizio del potere ma implicano una concezione sofisticata dell’autorità, della sovranità, della relazione tra governanti e governati. Nello stesso tempo, costituisce una lente per leggere i motivi della sconfitta subita dal “partito mondiale della rivoluzione” in Europa e per misurare i caratteri e i limiti del socialismo sovietico, la sua autentica capacità di incorporare e costruire consenso, la sua legittimità domestica e internazionale, il suo posto nel mondo.</p>
				<p>Una simile ottica distingue radicalmente Gramsci dagli altri comunisti dell’epoca. Egli non è collocabile in nessuna delle principali tendenze del bolscevismo e del comunismo degli anni Venti, anche se ne condivide largamente i linguaggi (a cominciare dalle metafore militari) e la cultura politica. Ma ciò non nasce semplicemente da un peculiare posizionamento politico e neppure da una tragica condizione psicologica. Nasce da una dimensione intellettuale e culturale che gli consente di riconoscere e pensare la sconfitta fuori dal canone del dramma necessario e provvidenziale lungo il cammino irreversibile verso un avvenire socialista, che segna la mentalità comunista del suo tempo (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Hobsbawm, 2003</xref>). L’esperienza della sconfitta porta invece Gramsci a pensare la molteplicità delle possibilità storiche e a interrogarsi sulle inadeguatezze della propria strumentazione concettuale e politica: un antidoto alle forme di identificazione che egli stesso aveva praticato e che raggiungono l’apice dogmatico negli anni Trenta. Nel panorama del comunismo dell’epoca sarebbe vano cercare un approccio di questa natura, non soltanto nel mondo ufficiale staliniano e nel Comintern, ma persino nel dissenso di matrice trockista. Sotto questo profilo, è più facile accostare la visione gramsciana, con tutte le ovvie differenze del caso, a quella di intellettuali contraddistinti da un’etica della responsabilità piuttosto che dalla militanza politica, come Walter Benjamin e la sua concezione della storia come possibilità o come il Marc Bloch della “strana disfatta”.</p>
				<p>Gramsci tiene ferma una comprensione degli eventi contemporanei in termini anti-deterministici, rivolgendosi a una posterità che sa non essergli dato, molto probabilmente, di conoscere. La sua è una visione nel contempo dilemmatica e analitica, che continua a vedere la cesura della Grande Guerra e della Rivoluzione e lascia aperte possibilità diverse al futuro, ma si fa consapevole dei vettori e delle forze storicamente determinanti. Queste considerazioni possono contribuire a illuminare il senso ultimo della relazione tra Gramsci e la Rivoluzione del 1917, ma anche a spiegare la lunga durata delle categorie di pensiero politico da lui create nella sua prigione.</p>
			</sec>
		</body>
		<back>
			<fn-group>
				<fn fn-type="other" id="fn9">
					<label>1</label>
					<p><italic>Avanti!</italic>, 24/12/1917 in <xref ref-type="bibr" rid="B7">GRAMSCI, 2015</xref>, p.618.</p>
				</fn>
			</fn-group>
			<fn-group>
				<fn fn-type="other" id="fn10">
					<label>2</label>
					<p>La visione gramsciana dello Stato bolscevico è stata ben rimarcata, limitatamente al 1918-19, da <xref ref-type="bibr" rid="B10">RAPONE, 2011</xref>, pp. 375-379.</p>
				</fn>
			</fn-group>
			<fn-group>
				<fn fn-type="other" id="fn11">
					<label>3</label>
					<p><italic>Protokoly Odinadcatogo s’ezda RKP(b) Mart’-Aprel’ 1922g.</italic>, Moskva, Partizdat CK VKP(b), 1936, p. 410.</p>
				</fn>
			</fn-group>
			<fn-group>
				<fn fn-type="other" id="fn12">
					<label>4</label>
					<p>Relazione al Comitato centrale del PCd’I, febbraio 1925, in CPC, p. 473.</p>
				</fn>
			</fn-group>
			<fn-group>
				<fn fn-type="other" id="fn13">
					<label>5</label>
					<p>Relazione al Comitato centrale del PCd’I, agosto 1926, in APC.</p>
				</fn>
			</fn-group>
			<fn-group>
				<fn fn-type="other" id="fn14">
					<label>6</label>
					<p><italic>Gramsci a Roma, Togliatti a Mosca. Il carteggio del 1926</italic>, doc. 42, <xref ref-type="bibr" rid="B2">DANIELE, 1999</xref>, pp. 404-412.</p>
				</fn>
			</fn-group>
			<fn-group>
				<fn fn-type="other" id="fn15">
					<label>7</label>
					<p>Ivi, doc. 49, pp. 435-439.</p>
				</fn>
			</fn-group>
		</back>
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