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				<journal-title>Revista Brasileira de História</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rev. Bras. Hist.</abbrev-journal-title>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.1590/1806-93472018v38n78-05</article-id>
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					<subject>Articles</subject>
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				<article-title>Arquivos pessoais e a escrita da história no Brasil: um balanço crítico</article-title>
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					<trans-title>Personal Archives and Historical Writing in Brazil: A Critical Review</trans-title>
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				<institution content-type="original"> Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), Departamento de História. Campinas, SP, Brasil. tnicodemo@gmail.com</institution>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>RESUMO</title>
				<p>Considerando o crescente interesse por documentos de arquivos pessoais no mundo atual, procuramos, neste artigo, apresentar um balanço do modo como esses documentos têm sido utilizados, no Brasil, em um campo particularmente aberto para reflexões de cunho teórico e epistemológico: o da história da historiografia - ao qual somamos o da história intelectual e congêneres. Com isso, pretendemos mostrar, a um público mais amplo, resultados teóricos e reflexões que podem ser aproveitados tanto por especialistas como por pesquisadores pouco afeitos a essas áreas, mas que se beneficiam de seus resultados teóricos ao procurarem utilizar documentos de arquivos pessoais em suas pesquisas - tendência crescente à medida que se consolidam e aumentam as instituições de guarda e seus repertórios documentais, no Brasil e no mundo. Inversamente, pretendemos também, ao fazer tal balanço, abrir os campos específicos da história da historiografia e da história intelectual para as reflexões que se fazem em outras áreas, como a teoria literária, com base em documentos de arquivos pessoais. O objetivo é aprofundar o diálogo interdisciplinar e contribuir para um uso mais crítico das fontes em obras de história intelectual e biografias, de forma geral.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>Responding to the growing interest in personal papers and archives in the contemporary world, in this article we aim to present an overview of how these documents have been used in Brazil within a field particularly open to theoretical and epistemological reflections: the history of historiography - to which we have added intellectual history and other analogous fields. In so doing, we seek to demonstrate to a wider audience theoretical results and reflections that can be used by both specialists and researchers not entirely familiarized with these areas, but who can benefit from the theoretical implications of using documents from personal archives in their historical research. Conversely, we also look to expand the debate on the history of historiography and intellectual history towards more interdisciplinary approaches, including the use of personal archives in areas such as comparative literature and literary theory. In short, the overall goal is to deepen interdisciplinary dialogues in the history of historiography and intellectual history, contributing to a more critical use of sources in works of intellectual history and biographies in general.</p>
			</trans-abstract>
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				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>arquivos pessoais</kwd>
				<kwd>história da historiografia</kwd>
				<kwd>história intelectual</kwd>
				<kwd>memória</kwd>
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				<title>Keywords:</title>
				<kwd>personal archives</kwd>
				<kwd>history of historiography</kwd>
				<kwd>intellectual history</kwd>
				<kwd>memory studies</kwd>
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		<p>Intimamente ligada à teoria da história, a história da historiografia é um campo suscetível a apropriações de métodos e técnicas desenvolvidos em campos correlatos como o da teoria literária, da história da ciência, da história intelectual, da sociologia dos intelectuais e da história da cultura, os quais vêm se servindo de documentos de arquivos pessoais de forma crescente. Em interação com esses campos, ela tem abordado de forma sistemática, nos últimos 20 anos, questões relativas ao estudo das ideias em seu contexto; à relação, em diversas instâncias, entre discurso histórico e a construção de identidades; aos vínculos entre discurso histórico e formas narrativas; à relação entre a produção do saber e o poder político e social; às políticas da memória e do esquecimento e às formas e regras de sociabilidade da vida intelectual. Essas questões vêm sendo estudadas em pesquisas acadêmicas sobre a obra e a trajetória de historiadores específicos, sobre grupos ou gerações de historiadores e sobre os espaços institucionais mais amplos pelos quais a produção do conhecimento histórico é amparada e veiculada.</p>
		<p>Em tais pesquisas, as formas de análise historiográfica vêm se tornando cada vez mais multifacetadas no mesmo compasso em que o acesso a documentos de arquivos pessoais<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref> vem crescendo. Nesse quadro, o recurso a do­cumentos de arquivos pessoais tem se dado de forma concomitante ao adensamento de uma postura mais autorreflexiva no que diz respeito à exploração dos aspectos teóricos e metodológicos da pesquisa histórica. Talvez essa seja uma das formas de inserção da historiografia brasileira em um panorama historiográfico cada vez mais mundializado (<xref ref-type="bibr" rid="B54">Revel, 2010</xref>, p.69) - o que envolve, também, pesquisas desenvolvidas, parcial ou integralmente, no exterior, em arquivos de historiadores estrangeiros (<xref ref-type="bibr" rid="B52">Palmeira, 2013</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B7">Benthien, 2014</xref>) - panorama no qual uma “mescla de epistemologia e de historiografia” emerge como chão comum, especialmente a partir das décadas de 1980 e 1990 (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Hartog, 2011</xref>, p.247-251). Seja como for, o importante é notar que tal postura tem possibilitado uma visão mais aprofundada de aspectos relativos à utilização de documentos de arquivos pessoais de historiadores e intelectuais de forma geral, o que coincide com uma consciência mais acurada no tocante à importância de sua preservação.</p>
		<p>À primeira vista, a proliferação da presença de arquivos pessoais de intelectuais em instituições públicas de guarda e seu crescente emprego em pesquisas acadêmicas parecem significar um mergulho no passado; porém, o que essa tendência demonstra é exatamente o contrário. Tal proliferação é um claro sintoma de transformações profundas, em nível global, que têm levado a uma multiplicação das formas e da velocidade dos sistemas de produção e circulação de informações e a uma revolução de seus suportes. Em face desse contexto, torna-se urgente, para o historiador, o refinamento das ferramentas para a compreensão desses processos de transformação acelerada e de seu significado social (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Castells, 1999</xref>) - já que o momento de aceleração também abre um terreno propício para o florescimento de propostas perigosas, como a do projeto de lei que legaliza a destruição de documentos originais em meio analógico após sua “digitalização e armazenamento em mídia óptica ou digital autenticada” (PLS 146/2007), e que multiplicam as possibilidades de abafamento do potencial corrosivo da história como disciplina e método crítico.</p>
		<p>O fato é que sabemos pouco sobre como lidaremos no âmbito da pesquisa histórica com os “hiperarquivos” pessoais produzidos pela cultura digital (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Enniss, 2015</xref>, p.232-233), especialmente no que diz respeito a características tais como a “multiplicidade e superposição de temporalidades” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Castro, 2016</xref>, p.185). No entanto, é importante enfatizar que os processos radicais que ora observamos têm suas raízes no desenvolvimento algo caótico, do ponto de vista dos <italic>países periféricos ou semiperiféricos</italic> (ver <xref ref-type="bibr" rid="B67">Wallerstein, 2004</xref>), de processos tecnológicos e comunicacionais que se precipitaram entre finais do século XX e inícios do XXI e se estenderam a partir do centro do capitalismo. Para construir um ponto de vista crítico em meio ao turbilhão, é fundamental reconhecer não apenas que, visto inicialmente com desdém pela ciência histórica, o documento de arquivos pessoais ganha pertinência epistemológica ao longo das primeiras décadas do século XX (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Heymann, 2009</xref>, p.42-43). O uso de arquivos na história da disciplina histórica sempre operou como um termômetro e um laboratório dos procedimentos disciplinares em sedimentação. O arquivo foi um elemento fundamental para a estabilização de uma cultura disciplinar; como nos lembra Wimmer, a história da avaliação arquivística é uma história da escrita da história <italic>avant la lettre</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B71">Wimmer, 2015</xref>, p.166). Seguindo essa mesma linha, pensar sobre o futuro dos arquivos nos leva inevitavelmente a problematizar o futuro da história como forma disciplinar.</p>
		<p>Neste artigo nos propomos a realizar uma avaliação do emprego dos documentos de arquivos pessoais em trabalhos de história da historiografia e campos congêneres tais como o da história intelectual, com vistas a divulgar seus resultados e apontar caminhos para a pesquisa e o pensamento crítico. Nossa intenção é identificar os pontos de maior adensamento do debate teórico-metodológico, tendo em mente o contexto mais amplo de transformações da escrita da história nas últimas décadas. Para isso, consideraremos quatro temas: 1. A ideia de “redes” intelectuais; 2. A historicidade da relação entre intelectuais e esfera pública; 3. Os processos de criação; e, finalmente, 4. O arquivo pessoal como memória retrospectiva.</p>
		<sec>
			<title>SOBRE AS “REDES” INTELECTUAIS</title>
			<p>Um dos potenciais presentes na pesquisa em arquivos pessoais de intelectuais é o da compreensão das redes sociointelectuais e institucionais evidenciadas pela documentação. Entender melhor como se situa determinado autor ou trajetória em relação aos seus “pares” oferece indício para configurarmos as redes frequentemente muito dinâmicas e heterogêneas nas quais eles se projetavam. Essa questão tem claros desdobramentos teórico-metodológicos pois essas “redes” são naturalmente inseridas em contextos mais largos e nos ajudam a compreender melhor como o conhecimento circulava em determinado espaço e tempo. Tais condicionantes estão muito longe de serem apenas aspectos cenográficos, pois determinam a própria natureza do conhecimento, sua epistemologia. Em poucas palavras, a forma com que o conhecimen­to circula determina, em parte, sua natureza; sendo assim, entender a circulação implica entender os valores, pressupostos e protocolos da própria produção do conhecimento.</p>
			<p>O debate teórico ou conceitual no que concerne à ideia de redes e circulação intelectual vem sendo capitaneado, em grande medida, nos últimos 10 ou 20 anos, pelo afluxo de tendências e autores franceses, dentre os quais podemos destacar o historiador Jean-François Sirinelli. Propondo-se como problema a compreensão dos papéis dos intelectuais ligados à história política e à história sociocultural, tal autor procura refletir sobre os conceitos de itinerário, geração e estruturas de sociabilidade. Estas últimas, as estruturas de sociabilidade, também chamadas de redes, referem-se aos laços que ligam os intelectuais, bem como aos espaços em torno dos quais eles se constroem - sejam tais espaços salões literários, a redação de uma revista ou o conselho editorial de uma editora. Ainda segundo Sirinelli, em torno dessas estruturas formam-se forças de adesão - pelas amizades que as subentendem, as fidelidades que arrebanham e a influência que exercem - e de exclusão - pelas posições tomadas, os debates suscitados, as cisões advindas etc. (<xref ref-type="bibr" rid="B61">Sirinelli, 2003</xref>, p.248-254).</p>
			<p>Pode-se afirmar que o uso do conceito de “redes” intelectuais e seus correlatos na historiografia brasileira das últimas duas décadas interagiu, em boa medida, com o contexto historiográfico internacional - e, especificamente, francês - de revalorização da história política e de fortalecimento da chamada história do tempo presente, as quais reverberaram nas universidades brasileiras sobretudo na primeira década do século XXI. Isso inclui não só o destaque dado a Sirinelli, mas também o afluxo menos sistemático, porém significativo, de modelos teóricos advindos de outras vertentes igualmente importantes, como a das “histórias conectadas” de Trebitsch e <xref ref-type="bibr" rid="B20">Espagne (1999</xref>) ou a “história cruzada” de <xref ref-type="bibr" rid="B69">Werner (2004</xref>) e de <xref ref-type="bibr" rid="B70">Werner e Zimmermann (2003</xref>), construídas nos países centrais em instituições interdisciplinares, envolvendo amplas perspectivas transnacionais. Esse peso pode ser medido, por exemplo, em obra coletiva recente, editada por Ângela de Castro Gomes e Patrícia Hansen, intitulada <italic>Intelectuais Mediadores</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Gomes; Hansen, 2016</xref>). Apesar de seu ecletismo metodológico, nela se evidencia, desde a introdução, o trabalho com a “nova” história política francesa de fins do século XX. Na visão das autoras, o emprego do repertório dessa vertente permitiria uma maior atenção para os aspectos concretos da mediação cultural e da sociabilidade intelectual, emancipando-se, assim, o pensamento, de uma história das ideias de tendência abstrata, bem como de tendências antiquadas que projetavam no intelectual a condição de “gênio”, de homem de exceção (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Gomes; Hansen, 2016</xref>, p.10-11).</p>
			<p>A propósito das redes transnacionais e da interdisciplinaridade, mencione-se o trabalho de <xref ref-type="bibr" rid="B16">Christino (2007</xref>) sobre as redes internacionais de Capistrano de Abreu. Nele, a autora lida com os “mecanismos de produção e circulação dos trabalhos linguísticos dos sul-americanistas entre 1890 e 1929 e seus referenciais teóricos” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Christino, 2007</xref>, p.29), mobilizando documentação que permite a reconstituição de uma rede teuto-sul-americana: fundos do Museu Etnológico de Berlim e do acervo de Walter Lehman e Paul Ehrenreich, no Instituto Ibero-Americano, bem como a Coleção Etnográfica da Phillips Universität, além do próprio acervo de Capistrano de Abreu, no Instituto do Ceará (Histórico, Geográfico e Antropológico). Os parâmetros metodológicos da pesquisa de Christino provieram da linguística e da historiografia dessa área, e a levaram a considerar fatores como conhecer o “circuito de produção e recepção dos trabalhos sobre línguas indígenas sul-americanas escritos por especialistas entre 1890 e 1929”, com vistas a “precisar o que significava um ‘autêntico’ sul-americanista nos anos entre 1890 e 1920” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Christino, 2007</xref>, p.40-41).</p>
			<p>Não têm faltado esforços importantes de compreensão das “redes” locais, nacionais ou transnacionais; muito pelo contrário: em um universo bastante plural, podemos destacar pesquisas que adotam tal perspectiva e que abordam dois autores pertencentes a uma mesma “rede”: Gilberto Freyre e Oliveira Lima. Note-se que muitos dos estudos sobre esses importantes intelectuais foram possibilitados pela própria existência da Biblioteca Oliveira Lima na Catholic University of America, desde finais da década de 1920, bem como pela organização dos acervos pessoais de Freyre na Casa de Gilberto Freyre, no Recife. Mencione-se, nesse sentido, o estudo de Ângela de Castro Gomes, “Em família: a correspondência entre Oliveira Lima e Gilberto Freyre” (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Gomes, 2005</xref>), o qual demonstra a inserção do autor, em posição central, em uma rede internacional que reunia brasileiros, latino-americanos, norte-americanos e europeus, e voltada para o estudo de temas e questões referentes às Américas. O poder hegemônico dos Estados Unidos era contrabalançado por um desejo crescente de representatividade cultural por parte das Américas portuguesa e espanhola, segundo uma concepção original de pan-americanismo postulada desde o século XIX. Nesses termos, a biblioteca de Oliveira Lima inseria-se em um “circuito pan-americano” que era tão político quanto intelectual e que, beneficiando-se do interesse dos Estados Unidos pela América Latina, propunha a afirmação, no “Norte”, das pesquisas e da visibilidade do “Sul”.</p>
			<p>O conhecimento dessa “rede” pan-americana de intelectuais em torno de Oliveira Lima e, depois da sua morte, parcialmente continuada por Freyre, foi aprofundado nos estudos de Maria Lúcia Pallares-Burke, <italic>Gilberto Freyre: um vitoriano nos trópicos</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B50">Pallares-Burke, 2005</xref>) e, sobretudo, em <italic>O triunfo do fracasso</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B51">Pallares-Burke, 2012</xref>). Em ambos os casos, pesquisas largamente apoiadas em documentação pessoal e devedoras da correspondência de Oliveira Lima. Um dos aspectos mais interessantes desses trabalhos é a compreensão de como o Brasil ajudou a pautar o debate racial norte-americano graças à hipertrofia do conceito de miscigenação. Do ponto de vista teórico, essa ideia contribui muito para o adensamento da qualidade dos trabalhos de história intelectual e história da historiografia, pois ajuda a romper com um pressuposto de “influência” rígido e, via de regra, condicionado do país “mais desenvolvido” (seja a Alemanha, a França, os Estados Unidos) para o “menos desenvolvido”. A reconstituição das redes intelectuais por meio de documentação pessoal joga luz sobre a natureza complexa das trocas de ideias e ensina que, mesmo quando lidamos com conceitos que remetem ao pensamento europeu, devemos estar atentos para os processos de transformação, adaptação criativa e de eventual “retorno”; bem como de modificação do suposto “original” por influência do suposto “periférico” (<xref ref-type="bibr" rid="B70">Werner; Zimmermann, 2003</xref>).</p>
			<p>A crítica das relações de subordinação intelectual tem sido outra das tônicas de trabalhos historiográficos ou de história intelectual, incluindo o investimento na compreensão de outro fenômeno aparentemente recorrente na vida intelectual brasileira: o da figura do “intelectual estrangeiro” e de um tipo de relação que Rouanet, em seu estudo sobre Ferdinand Denis, denominou como um exercício consciente de tutela intelectual. Essa relação assume diferentes aspectos. Desde uma <italic>contaminação programática</italic> - Denis e a geração romântica; até a <italic>desleitura pragmática</italic>, que orientou as relações entre a nascente historiografia do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) no século XIX e a figura emblemática de von Martius. Nesse sentido, mencione-se também o trabalho de Lúcia Paschoal Guimarães e Valdei Araújo sobre a rede de John Casper Branner, com base em sua correspondência, levantada nos arquivos da Stanford University (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Guimarães; Araújo, 2004</xref>, p.93-109). Em seu estudo, os autores procuraram compreender a proximidade de Branner com pessoas-chave da vida intelectual brasileira. Ainda que apoiados na ótica da elucidação dos vínculos de dependência da vida intelectual brasileira em relação ao exterior, tais trabalhos fornecem subsídios que permitem compreender esses mesmos contextos na perspectiva da multidirecionalidade dos fluxos de ideias.</p>
			<p>Também não podemos ignorar as “redes” domésticas e estruturas de sociabilidade baseadas em afeto que remetem muito frequentemente não só para “microclimas”, mas também para importantes redes de produção de identidades regionais. Veja-se, por exemplo, o estudo de Karina Anhezini, “Correspondência e escrita da história na trajetória intelectual de Afonso Taunay” (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Anhezini, 2003</xref>), que, partindo da análise das relações no IHGB e no IHGSP como <italic>locais de sociabilidade</italic>, com inspiração em Sirinelli, procura identificar alguns sentidos assumidos pelas posições ocupadas por Taunay nessas instituições no que se refere à sua produção historiográfica. A autora utiliza como fonte, além das atas do IHGB e do IHGSP, a Coleção Taunay do Museu Paulista da USP. Como se sabe, Taunay foi diretor do Museu Paulista, e sua coleção é parte de seu arquivo pessoal, o qual foi reunido e doado ao longo de anos. Para <xref ref-type="bibr" rid="B2">Anhezini (2003</xref>), essa trajetória esteve permeada por uma rede de sociabilidade capaz de indicar relações cujas trocas, observadas, principalmente, por meio da correspondência, compuseram elementos importantes na formação e consagração do autor entre 1911 e 1929. A propósito, a coleção de Taunay no Museu Paulista vem sendo utilizada por uma série de investigadores motivados pelas discussões em torno da invenção das tradições e dos processos de construção/invenção de identidades, como por exemplo o de <xref ref-type="bibr" rid="B8">Brefe (2005</xref>), o qual se vale do acervo depositado nessa instituição.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A HISTORICIDADE DA RELAÇÃO ENTRE INTELECTUAIS E ESFERA PÚBLICA</title>
			<p>Pensar em termos como os de “intelectuais” ou “letrados” no Brasil deve ser um exercício cuidadoso no que se refere à própria historicidade das categorias. Sobretudo entre os séculos XIX e XX, lidamos com processos de transição, em diferentes graus, de um perfil de intelectual “polígrafo”, em outras palavras, com capacidade de mobilização de saberes múltiplos, para um perfil de intelectual especializado, ligado ao desenvolvimento das disciplinas universitárias bem como a outras instituições como museus, arquivos e bibliotecas que se multiplicam ao longo do século XX. Essa consideração nos leva a investigar uma tendência de estudos que propõe como objeto a própria especialização, disciplinarização ou profissionalização dos conhecimentos.</p>
			<p>Dentre as questões que vêm sendo abordadas nos estudos sobre historiadores que se apoiam em documentos de arquivos pessoais, destaca-se, em primeiro plano, o difícil e complexo problema das características e limites do “espaço público” e sua relação com a esfera privada. Com efeito, os arquivos pessoais parecem particularmente aptos a possibilitar respostas a questões relativas aos vínculos entre esfera pública e esfera privada na trajetória de historiadores e intelectuais. Examinando-os, podem-se identificar, por exemplo, determinadas informações, relações, filiações ou perguntas que permaneceram encobertas, não tendo sido desenvolvidas na atuação pública. Nesse universo de reflexões, porém, algumas dificuldades significativas têm aparecido, como por exemplo aquelas relativas à própria definição das fronteiras entre o público e o privado ou à natureza desse “espaço público” e da própria “vida intelectual” brasileiros, já que enquanto historiadores lidamos com categorias instáveis, que mudam bastante no tempo. Assim, quanto aos arquivos de políticos, deve-se observar que não raro políticos brasileiros se fizeram ou foram historiadores, como o Barão do Rio Branco, e alguns deles, como Washington Luís, tiveram atuação marcante quanto à publicação de fontes no começo do século XX.</p>
			<p>É interessante, pois, que Amed, em estudo da correspondência pessoal de Capistrano de Abreu - publicada em sua maior parte, nos anos 1950, por José Honório Rodrigues -, utilize um estudo de Trebitsch como um de seus principais referenciais teóricos. Há, em comum entre os trabalhos, a perspectiva de que as cartas devem ser consideradas como um documento político e um testemunho agudo sobre as redes de sociabilidade e ideias que foram marginalizadas ou esquecidas tanto na academia quanto no plano político (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Amed, 2006</xref>, p.190-191). Fernando Amed enfatiza sobremaneira a autenticidade das considerações de Capistrano de Abreu em sua correspondência - que con­trapõe à exiguidade das alternativas que se colocavam no meio intelectual ­bra­sileiro da época, sufocado pela ausência de público leitor (altas taxas de anal­fabetismo) e pelo ciframento (preponderância das relações pessoais e de poder sobre critérios alicerçados no mérito) dos espaços públicos viabilizadores da divulgação do conhecimento - as poucas editoras, jornais, revistas e instituições de pesquisa. Caracterizando dessa forma a vida intelectual e o espaço público no Brasil, a autor afirma que o exercício epistolar de Capistrano “se configurou como uma resposta privada - subjetiva - frente a um impedimento que se deu na esfera pública” (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Amed, 2006</xref>, p.46).</p>
			<p>Em relação ao arquivo pessoal de Capistrano de Abreu, é de se salientar o grupo pertencente à Universidade Federal do Ceará (UFC) que se organizou em torno do projeto “Organização do Acervo Capistrano de Abreu”, no Instituto do Ceará. Partindo de referenciais teóricos da nova história cultural, como os de Chartier, o estudo de Paula Batista, <italic>Capistrano de Abreu e a correspondência feminina</italic>, também busca resgatar a rede de sociabilidade do intelectual, centrando-se em seus mecanismos de “troca de favores” e chegando a algumas conclusões diferentes das do estudo de Amed. Investigando sua correspondência com mulheres, a autora observa que as casas que Capistrano visitava eram “locais de sociabilidade”, que tinham “o mesmo papel das agremiações acadêmicas das quais Capistrano afirmava esquivar-se” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Batista, 2006</xref>, p.88). Correspondendo-se com “figurões políticos” como o ministro e historiador Pandiá Calógeras, Capistrano recorria frequentemente a práticas clientelistas (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Batista, 2006</xref>, p.89-90).</p>
			<p>Note-se que uma das coordenadoras do projeto de organização do Acervo de Capistrano de Abreu é a historiadora Giselle Venancio, cujo trabalho investiu largamente na pesquisa do acervo pessoal de Oliveira Vianna (Casa de Oliveira Vianna - Funarj), levando em consideração diversos aspectos tais como o recurso à biblioteca na sua dinâmica criativa e processo de escrita (<xref ref-type="bibr" rid="B64">Venancio, 2006</xref>, p.87-110), bem como sua vasta rede de sociabilidade, implicando relações pessoais, políticas e intelectuais, evidenciada pelo envio de suas publicações. Valendo-se de reflexões presentes em pesquisadores franceses da epistolografia, como Vincent-Buffault e Dauphin, e principalmente das considerações de Chartier sobre as comunidades de leitores e o surgimento dos homens de letras do século XVIII, Venancio demonstra como Vianna buscava estabelecer sua comunidade de leitores, sua prática epistolar podendo ser compreendida como uma estratégia de organização e desenvolvimento de suas relações de sociabilidade e principalmente de estruturação de uma comunidade que garantiria a propaganda e a propagação de suas ideias (<xref ref-type="bibr" rid="B66">Venancio, 2001</xref>, p.23-47; <xref ref-type="bibr" rid="B65">Venancio, 2015</xref>).</p>
			<p>Uma das figuras centrais na história intelectual brasileira para se compreender a institucionalização da produção de conhecimento é sem dúvida Capistrano de Abreu, pois mesmo em um momento no qual a universidade ainda não estava colocada como problema concreto, militou a favor de um campo especializado dos “estudos históricos”, ajudando a sedimentar novos padrões analíticos e servindo como um modelo para as gerações seguintes de intelectuais que se tornaram especializados. Essa é uma percepção bastante aprofundada, especialmente nos estudos de Gontijo e Oliveira, apoiados, ao menos parcialmente, na correspondência do historiador. Em ambos os casos, as autoras mobilizam a correspondência de Capistrano para a compreensão dos processos de “canonização” do intelectual cearense, avaliando o problema do acesso ao seu arquivo pessoal, só liberado décadas após sua morte (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Gontijo, 2006</xref>, p.11-12; <xref ref-type="bibr" rid="B49">Oliveira, 2006</xref>, p.29-35), bem como aprofundando o conhecimento sobre a sua rede de interlocutores em torno ao campo dos estudos históricos e de discípulos (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Gontijo, 2006</xref>, p.204-206). Esses elementos concorrem para a compreensão de “como Capistrano planejou escrever a história, considerando as práticas relativas ao ofício de historiador de sua época” (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Gontijo, 2006</xref>, p.228) ou como, através do exercício da crítica, “circunscreve atributos de seu ofício e, com eles, assinala algumas fronteiras - então em vias de demarcação - de sua disciplina” (<xref ref-type="bibr" rid="B49">Oliveira, 2006</xref>, p.48), tema ainda aprofundado por trabalhos mais recentes que se utilizam de forma mais ou menos sistemática da correspondência de Capistrano de Abreu para a compreensão dos processos disciplinares da escrita da história do Brasil entre finais do século XIX e início do século XX (<xref ref-type="bibr" rid="B57">Santos, 2009</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B4">Batalhone, 2015</xref>).</p>
			<p>Um caminho significativo para compreender os processos de especialização e disciplinarização do conhecimento histórico - e também de áreas congêneres como a geografia e a sociologia - baseia-se na disponibilização de documentação pessoal/profissional/institucional. Nesse ponto, a história da historiografia ganha muito com a organização e formação dos acervos das primeiras gerações de professores universitários e de outros autores que tiveram papel pioneiro na construção da universidade. Esse avanço esbarra em problemas estruturais, já que poucas universidades no Brasil têm condições de cuidar de sua própria memória e de armazená-la adequadamente, o que felizmente ocorre nos casos do Proedes-UFRJ, que guarda documentação até mesmo da efêmera Universidade do Distrito Federal (UDF); do Siarq (fundo Sérgio Buarque de Holanda), do Cedae e do Arquivo Edgard Leuenroth, na Unicamp; e do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) e do Centro de Apoio à Pesquisa em História (CAPH), na USP. Nesse universo, destaca-se o estudo sistemático de Marieta de Moraes Ferreira, <italic>A história como ofício</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Ferreira, 2013</xref>), que mobiliza depoimentos de professores, articulados com o uso de material privado de docentes que marcaram época como Deffontaines, Hauser, Camilo e Delgado de Carvalho, dentre outros. O trabalho sobre a atuação institucional de figuras como Caio Prado Jr. (<xref ref-type="bibr" rid="B38">Iumatti et al., 2008</xref>) e Sérgio Buarque de Holanda (<xref ref-type="bibr" rid="B47">Nicodemo, 2008</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B45">Nicodemo, 2014</xref>) vem avançando com o adensamento de reflexões sobre outros autores chave, tal como no estudo de Alessandra Soares Santos sobre Francisco Iglésias e a historiografia universitária em Minas Gerais (<xref ref-type="bibr" rid="B56">Santos, 2013</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B55">Santos, 2013a</xref>). Outro estudo recente busca construir uma biografia coletiva dos professores e alunos da USP que constituíam o grupo de leitura d’<italic>O Capital</italic> a partir de 1958, amiúde com base em referenciais sociológicos e recorrendo a arquivos pessoais de professores, como os do CAPH, na USP, e o de Florestan Fernandes, na Unesp (Rodrigues, 2011).</p>
			<p>Por fim, note-se que, tradicionalmente, o arquivo pessoal tem relação com o caráter público ou “consagrado” do seu titular. No entanto, nos últimos anos vários fatores têm ajudado a fortalecer uma agenda alternativa e, de certa forma, contra-hegemônica, a qual inclui questões relativas a gênero, raça e resistência política, lançando luz sobre aspectos importantes da “tradição intelectual” brasileira, bem como sobre a natureza de seu “espaço público”. Estudos recentes, como os de Erbereli Jr., baseado na documentação pessoal de Alice Canabrava, e de Machado, assentado na documentação de Cecília Westphalen, podem ajudar a compreender melhor as dificuldades de ascensão e estratégia de afirmação das mulheres numa universidade controlada por uma vasta maioria de homens (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Erbereli Jr., 2016</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B40">Machado, 2016</xref>). No campo da resistência política, os estudos de Schmidt destacam-se na incorporação de documentação de arquivos pessoais, como seu estudo sobre a trajetória de Flávio Koutzil (<xref ref-type="bibr" rid="B59">Schmidt, 2009</xref>).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>OS PROCESSOS DE CRIAÇÃO E OUTROS DIÁLOGOS INTERDISCIPLINARES</title>
			<p>Uma tendência de importância crescente nos últimos anos, diretamente ligada à exploração de documentos de arquivos pessoais e mesmo bibliotecas de intelectuais, tem sido a da leitura minuciosa ou microscópica das obras. Cabe lembrar, todavia, que tal tendência não foi desenvolvida predominantemente no Brasil a partir dos estudos historiográficos, mas sim, e de forma pioneira, por estudiosos da literatura, em interação com a vertente francesa da chamada crítica genética, a partir dos anos 1970 (ver <xref ref-type="bibr" rid="B72">Zular, 2002</xref>). Essas possibilidades foram abertas pelo longo processo de organização do acervo de Mário de Andrade no IEB-USP, coordenado por Telê Ancona Lopez e dedicado, em sua fase inicial, a compreender os bastidores da criação de <italic>Macunaíma</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Lopez, 1975</xref>). Envolvendo, ao longo dos anos, tipologias documentais diversas, além do estudo aprofundado da marginália dos livros da biblioteca de Mário de Andrade, tal vertente produziu grande número de pesquisas e sugestões metodológicas. Assim, por exemplo, no que se refere aos documentos epistolares, vislumbra-se neles, segundo Moraes, uma possibilidade de compreender os “bastidores da vida artística de um determinado período”, bem como atentar de forma mais minuciosa para as cartas como “arquivo da criação” (<xref ref-type="bibr" rid="B43">Moraes, 2007</xref>, p.30). O terreno que se abriria então seria o do diálogo interdisciplinar entre história da historiografia e teoria literária, por intermédio da crítica genética - a qual considera a “epistolografia um ‘canteiro de obras’ ou um ‘ateliê’, buscando descortinar a trama da invenção, o desenho de um ideal estético, quando examina as faces do processo de criação” (<xref ref-type="bibr" rid="B43">Moraes, 2007</xref>, p.30; <xref ref-type="bibr" rid="B44">Moraes, 2002</xref>).</p>
			<p>Apesar da já mencionada relativa ausência de diálogo com a vertente brasileira da crítica genética, pesquisadores brasileiros se debruçaram, a partir dos anos 1990, sobre o estudo do processo de construção de obras históricas, utilizando-se, para tanto, de acervos pessoais. Assim, e mais estritamente no campo da historiografia, alguns trabalhos procuraram articular documentação contida em arquivos pessoais para compreender o processo de desenvolvimento de uma obra, tal como realizado com a gênese das obras <italic>Monções</italic> e <italic>Caminhos e Fronteiras</italic> e <italic>Visão do Paraíso</italic>, de Sérgio Buarque de Holanda (<xref ref-type="bibr" rid="B68">Wegner, 2000</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B47">Nicodemo, 2008</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B45">Nicodemo, 2014</xref>), e <italic>Formação do Brasil Contemporâneo</italic>, de Caio Prado Jr. (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Iumatti, 2001</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B35">Iumatti, 2018</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B38">Iumatti et al., 2008</xref>). Evidentemente, esse tipo de estudo depende da qualidade e quantidade dos documentos em questão, o que, no caso do acervo Caio Prado Jr., pertencente ao IEB-USP, implica um universo de milhares de documentos, entre os quais manuscritos inéditos, cartas, fichas de leitura e marginália de livros; fica evidente, no estudo de Iumatti, que se debruça sobre esse vasto material, todo um conjunto de reflexões epistemológicas subterrâneas e transformações por que passou o pensamento de Caio Prado em seu percurso para a redação de <italic>Formação do Brasil contemporâneo</italic>.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>O ARQUIVO PESSOAL COMO MEMÓRIA RETROSPECTIVA</title>
			<p>Um dos pontos de interseção mais frutíferos entre história da historiografia e arquivos pessoais é o da reflexão sobre a constituição do acervo pessoal como um ato de memória, que opera ativamente nos significados que atribuímos a autores e problemas. Dessa perspectiva, a investigação sobre o arquivo pessoal pode contribuir para compreender melhor como certas interpretações sobre o Brasil se tornaram predominantes, na medida em que foram construídas na agregação de estratos de tempo e de significados. Esses condicionantes que formam nosso próprio olhar, bem como nossas práticas acadêmicas podem ser encarados como camadas de significados contingentes que se acumulam, e podem ser submetidos a interpretações mnemônicas regressivas, partindo do presente e indo ao passado, considerando as várias camadas de historicidade que ajudaram a dar forma a um objeto ou tema, tal qual nos foi legado (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Feindt, 2014</xref>, p.36)<italic>.</italic> Nessa perspectiva, a formação de um arquivo pessoal pressupõe um conjunto complexo de fatores que vão desde o eventual desejo de construção de certa memória por parte de seu titular e seu círculo à trajetória do espólio <italic>post-mortem</italic> (o que inclui a trajetória de inventário, doação ou compra etc.), bem como a sua eventual incorporação em uma instituição de guarda. Evidentemente, isso é só o início, pois muitas decisões relacionadas ao armazenamento e organização concorrem para que o arquivo atinja o público (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Campos; Bezerra, 2015</xref>, p.230-231). </p>
			<p>Entendemos que a questão da memória retrospectiva ou, quem sabe, “multidirecional” vinculada aos arquivos pessoais, a qual deve ser, sem dúvida, incorporada à investigação da história de cada arquivo - tal história devendo abranger desde a sua formação até as intervenções, mudanças e infinitas vicissitudes sociais, políticas etc. que o podem ter levado ou não a uma instituição de guarda -, merece mais adensamento e melhor aproveitamento no campo da história da historiografia. Nesse sentido, destaquemos as reflexões de Ulpiano Bezerra de Meneses, as quais contribuem para elucidar a relação. Comentando os vários aspectos que envolvem a escolha da problemática da memória nos últimos anos, relacionada à sua crise, a qual comporta diversas dimensões, Meneses reiterou um ponto fundamental da discussão sobre documentos e arquivos, o qual perpassa qualquer discussão contemporânea sobre os processos de classificação de documentos de arquivos: a produção do conhecimento histórico deve ser indissociável do conhecimento (histórico) da produção do documento, no seu sentido mais amplo. A complexidade introduzida pela sociedade da informação não só acarreta novas exigências técnicas ao conhecimento, quanto as torna mais diversificadas em relação à documentação tradicional, pela maior amplitude do horizonte sociocultural em que se situam (<xref ref-type="bibr" rid="B42">Meneses, 1999</xref>, p.24).</p>
			<p>A reflexão sobre os processos de classificação dos arquivos por seus próprios titulares, diferentes do conjunto de processos operados pelo arquivista <italic>a posteriori</italic>, pode ser incorporada mais sistematicamente pela história da historiografia, de modo que eles sejam considerados como “laboratórios” que escancaram o <italic>modus operandi</italic> de pequenas usinas de produção do conhecimento. Esse exercício permite o desenvolvimento de formas de reflexão teórico-metodológica que podem efetivamente adensar o debate em história da historiografia e teoria da história: trata-se da exploração da arquitetura interna dos acervos (ver, por exemplo, <xref ref-type="bibr" rid="B65">Venancio, 2015</xref>), a qual pode dar a chave para o entendimento dos métodos de trabalho (a “oficina” do historiador), dos projetos e do próprio pensamento dos historiadores. No campo da história da historiografia, observamos alguns trabalhos recentes que abrem caminho para a exploração dessas possibilidades, tais como o artigo de Iumatti sobre sua experiência de organização do Fundo Caio Prado Jr., no IEB-USP (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Iumatti, 2005</xref>), de Miguel Palmeira a respeito da trajetória intelectual de Moses Finley (2008; 2013), de Rafael Benthien sobre sua experiência de pesquisa com arquivos pessoais franceses (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Benthien, 2014</xref>) e de Rafael Pereira da <xref ref-type="bibr" rid="B60">Silva (2015</xref>) e Raphael Guilherme de <xref ref-type="bibr" rid="B13">Carvalho (2017</xref>), que procuram “escovar a contrapelo” a memória disciplinar construída em torno a Sérgio Buarque de Holanda, considerando até mesmo os sentidos produzidos ou ressignificados sobre seu legado após a morte (ver também <xref ref-type="bibr" rid="B46">Nicodemo, 2016</xref>).</p>
			<p>Essa preocupação “meta-histórica” não nos parece entrar em contradição com as proposições do campo da arquivística, como no caso da metodologia propugnada por Ana Maria Camargo, que defende padrões de organização que considerem os “atributos funcionais” da documentação pessoal - em outras palavras, o “vínculo de estreita correspondência entre os documentos e atividades do organismo produtor, de modo a reforçar e tornar estável o efeito probatório que decorre dessa relação <italic>sui generis</italic>”, o que é evidenciado pela inserção social e institucional do sujeito na multiplicidade das atividades desempenhadas em sua vida (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Camargo, 2009</xref>, p.34-35; <xref ref-type="bibr" rid="B10">Camargo, 1998</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B11">Camargo; Goulart, 2007</xref>).</p>
			<p>Apesar dos caminhos ainda a serem trilhados no adensamento teórico, devemos considerar os marcos importantes existentes, representados pelo trabalho desenvolvido por historiadores e arquivistas a respeito da própria história dos arquivos e coleções. De maneira geral, os trabalhos que refletem sobre a formação e construção dos arquivos pessoais buscam se fixar nas estratégias de monumentalização, de construção da memória e do eu. Nesse contexto, Ângela de Castro Gomes alertou para o “feitiço” dos documentos de arquivos pessoais, refletindo sobre a criação no Brasil dos anos 1970 de duas das mais importantes instituições de guarda de arquivos privados: o CPDOC da FGV e o arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp. Lembrando sua própria trajetória como pesquisadora do CPDOC, a historiadora afirmou que o grande feitiço do arquivo privado consistiria no fato de, por guardar uma documentação pessoal, produzida com a marca da personalidade e não destinada explicitamente ao espaço público, ele revelar seu produtor de forma “verdadeira”: aí ele se mostraria “de fato”, o que seria atestado pela espontaneidade e pela intimidade que marcariam boa parte dos seus registros (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Gomes, 1998</xref>). Prochasson também reforça a necessidade de cautela aos mediadores que dão forma aos arquivos pessoais. O desejo de consagração por parte dos próprios autores das cartas e sua consciência de que o material um dia poderia ser publicizado geravam certamente “armadilhas”. Pensando no sobredimensionamento que o editor da correspondência trocada por Bloch e Febvre, Bertrand Muller, a ela conferiu, na medida em que a apresentou como peça decisiva para toda a história dos <italic>Annales</italic>, Prochasson chama atenção para a provisoriedade das ideias e projetos contidos nas cartas que, “frequentemente, são modificadas ou até descartadas no curso do processo de pesquisa” (<xref ref-type="bibr" rid="B53">Prochasson, 1998</xref>, p.105-112).</p>
			<p>Malatian, para a biblioteca de Oliveira Lima, e Venancio, para o acervo de Oliveira Vianna, já buscaram aprofundar a questão de como o lugar de legitimação erudita impulsionou a criação de arquivos, bibliotecas e museus, além da publicação de coleções de documentos (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Malatian, 2001</xref>, p.11-28). Nessa perspectiva, os arquivos pessoais se destacam como <italic>lócus</italic> privilegiado da análise histórica, pois registrariam uma forma de acumulação privada que possuiria como marca identitária específica o nome próprio do titular (<xref ref-type="bibr" rid="B66">Venancio, 2001</xref>, p.26-27).</p>
			<p>Se o processo de constituição de um arquivo está relacionado com os próprios processos de consagração e de desejo de memória do seu titular ainda atuante, cabe à teoria e história da historiografia assumir o desafio hermenêutico de pesquisas de maior abrangência e articuladas em dois planos temporais entrecruzados: a evolução cronológica do pensamento e sociabilidade de determinado autor e sua rede, em contraposição ao desafio retrospectivo de se compreender como determinadas interpretações foram se cristalizando ao longo do tempo, informando a imagem que nos foi historicamente produzida sobre autores e temas. Como nos alerta Rebeca Gontijo, cabe conhecer o processo de publicação de uma correspondência, quando isso ocorre, assim como o lugar atribuído às missivas na vida e na obra de um autor (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Gontijo, 2004</xref>, p.166-167), bem como investigar melhor os processos sociais de produção dos arquivos, desde o manuseio dos documentos pelos próprios titulares até os critérios explícitos e ocultos na produção social do arquivo - tal como propõem Heymann ao tratar dos arquivos de Darcy Ribeiro e de Filinto Müller; Olívia Cunha, ao tratar do arquivo da antropóloga Ruth Landes; Priscila Fraiz, ao tratar da construção do acervo Gustavo Capanema; e Juliana Amorim de Souza, ao abordar a constituição do acervo Roquete Pinto na ABL (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Heymann, 2005</xref>, p.43-58; <xref ref-type="bibr" rid="B33">Heymann, 1997</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B17">Cunha, 2004</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B23">Fraiz, 1994</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B62">Souza, 2015</xref>).</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
			<p>Entendemos que o momento político atual vivenciado pelo Brasil de desmonte e cortes nos orçamentos de instituições públicas e privadas de acervos é preocupante. Essa tendência que vivenciamos contrasta com a importância crescente que vêm ganhando os acervos pessoais no mundo, com a proliferação de arquivos, bem como com a urgência em propor reflexões e ferramentas teórico-metodológicas que deem conta das formas múltiplas que ganham os documentos considerados pessoais na era digital. Esse contexto paradoxal de aumento de importância global, contrastado com iniciativas locais de desmonte, concorre para conferir pertinência social ao debate sobre arquivos pessoais no Brasil hoje.</p>
			<p>Conclusivamente, propomos seis pontos fundamentais para refletirmos sobre os acervos privados e a escrita da história - os quais não necessariamente foram desenvolvidos de forma explícita ao longo do artigo -, considerando em especial os aproveitamentos em história da historiografia, história intelectual e congêneres:</p>
			<p>
				<list list-type="order">
					<list-item>
						<p>Necessidade de “descolonização” do debate teórico. A reflexão sobre o conceito de “redes” e sobre a historicidade da relação entre intelectuais e esfera pública evidenciou a consistência teórico-metodológica de muitos trabalhos empíricos. Ao mesmo tempo, a massa crítica produzida no Brasil depende do influxo de alguns autores internacionais que parecem predominar durante um tempo, em alguns casos com efeito de autoridade que predomina sobre a sua pertinência empírica. Sem desconsiderar a necessidade de manter o debate internacional, entendemos que muito frequentemente os trabalhos em elaboração podem ter ganhos metodológicos debatendo as categorias de experiências análogas, em âmbito local ou global, sem que privilegiem, porém, de antemão, determinados autores. Nesse sentido, este texto procurou se apresentar como um pequeno guia.</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Necessidade de ampliação da interdisciplinaridade; esse ganho de densidade teórica dos trabalhos depende fortemente de uma agenda de trabalho interdisciplinar ou multidisciplinar, que considere os avanços das pesquisas em arquivos pessoais em diversas áreas, como apontamos ao refletir sobre trabalhos que privilegiam a “dinâmica da criação”. Nesse mesmo sentido, observamos que o documento privilegiado na grande maioria das pesquisas que se valem de acervos pessoais é a correspondência. É necessário chamar atenção, assim, para a necessidade de ampliação desse espectro documental na pesquisa histórica, com a incorporação de marginália de livros, fichas de leitura e manuscritos, dentre tantos outros documentos disponíveis em arquivos pessoais.</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>A importância de historicizar as categorias teórico-metodológicas. A começar pela própria categoria de “intelectual”, o repertório de categorias relacionadas às atividades intelectuais deve estar atento às mutações históricas locais, em especial em momentos cruciais de transformação, tal como na segunda metade do século XIX e no século XX, quando se acirra a tendência de especialização.</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Como ficou claro em nosso item sobre as “redes” intelectuais, as pesquisas hoje tendem a dar mais atenção para recortes transnacionais e globais. No entanto, muitas vezes, o uso de arquivos pessoais em trabalhos de história intelectual, história da historiografia e congêneres no Brasil tende ainda a partir de uma agenda doméstica, com fontes e/ou objetos problemas, autores e/ou obras abordadas de uma perspectiva nacional/local (<xref ref-type="bibr" rid="B58">Santos et al., 2017</xref>, p.161-162); muitos dos autores abordados, como em vários casos aqui demonstrados ou mencionados (Oliveira Lima, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. etc.), estiveram inseridos em redes transnacionais muito dinâmicas. Essa postura também pode facilitar a consolidação de temas transversais, que superem os recortes em torno de um autor ou obra específicos, ainda predominantes nas pesquisas brasileiras (incluindo as dos autores deste artigo).</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>A necessidade de consideração da meta-história dos arquivos e das evidências arquivísticas. Procuramos mostrar que os estudos sobre documentação pessoal no Brasil ganharam muito ao considerar as camadas de significado socialmente produzidas ao longo dos processos de transformação que inscrevem o documento pessoal.</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Finalmente, chamamos atenção para a necessidade de aprofundamento de uma agenda progressista, combativa e enredada nos problemas do presente: seja em direção a recortes socialmente engajados e democráticos, tais como o problema do autoritarismo e da repressão, ou da história das mulheres e de outras “minorias” (como sugerimos ao final do item sobre a historicidade da relação entre intelectuais e esfera pública), seja criando subsídios para entendermos melhor as mudanças tão significativas pelas quais a produção, a seleção e a conservação de documentos pessoais vêm passando pelo mundo, o que inclui os problemas das humanidades na era digital.</p>
					</list-item>
				</list>
			</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<ref-list>
			<title>REFERÊNCIAS</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>AMED, Fernando. As cartas de Capistrano de Abreu: sociabilidade e vida literária na belle époque carioca. São Paulo: Alameda, 2006.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>AMED</surname>
							<given-names>Fernando</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>As cartas de Capistrano de Abreu: sociabilidade e vida literária na belle époque carioca</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Alameda</publisher-name>
					<year>2006</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B2">
				<mixed-citation>ANHEZINI, Karina. Correspondência e escrita da história na trajetória intelectual de Afonso Taunay. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v.2, n.32, p.51-88, jan. 2003.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>ANHEZINI</surname>
							<given-names>Karina</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Correspondência e escrita da história na trajetória intelectual de Afonso Taunay</article-title>
					<source>Estudos Históricos</source>
					<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
					<volume>2</volume>
					<issue>32</issue>
					<fpage>51</fpage>
					<lpage>88</lpage>
					<month>01</month>
					<year>2003</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B3">
				<mixed-citation>ARQUIVO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Guia de Arquivos Privados do Arquivo do Estado de São Paulo. São Paulo: Imesp, 1992.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<collab>ARQUIVO DO ESTADO DE SÃO PAULO</collab>
					</person-group>
					<source>Guia de Arquivos Privados do Arquivo do Estado de São Paulo</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Imesp</publisher-name>
					<year>1992</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B4">
				<mixed-citation>BATALHONE JR., Vitor. O Cavalo de Troia da nação: tempo, erudição, crítica e método em Capistrano de Abreu. Tese (Doutorado em História) - PPGH, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Porto Alegre, 2015.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="thesis">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>BATALHONE</surname>
							<given-names>Vitor</given-names>
							<suffix>JR.</suffix>
						</name>
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					<source>O Cavalo de Troia da nação: tempo, erudição, crítica e método em Capistrano de Abreu</source>
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					<source>Roquete-Pinto imortal: constituição, tratamento e usos do arquivo Roquete Pinto na Academia Brasileira de Letras</source>
					<comment content-type="degree">Mestrado em História, Política e Bens Culturais</comment>
					<publisher-name>CPDOC, Fundação Getulio Vargas</publisher-name>
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				<mixed-citation>TREBITSCH, Michel. Correspondance d’intellectuels: le cas des lettres d’Henri Lefeb­vre à Norbert Guterman (1935-1947). Les Cahiers de L’IHTP (Sociabilités Intellectuelles: lieux, milieux, réseaux), n.20, p.70-84, mars 1992.</mixed-citation>
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					<source>Les Cahiers de L’IHTP (Sociabilités Intellectuelles: lieux, milieux, réseaux)</source>
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				<mixed-citation>VENANCIO, Giselle M. Da escrita impressa aos impressos da biblioteca: uma análise da trajetória de leitura de Francisco José de Oliveira Vianna. In: DUTRA, Eliana de F. (Org.) Política, nação e edição. São Paulo: Annablume, 2006.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>_______. Por uma história política Oliveira Vianna entre o espelho e a máscara. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>_______. Presentes de papel: cultura escrita e sociabilidade na correspondência de Oliveira Vianna. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n.28, p.23-47, 2001.</mixed-citation>
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					<article-title>Presentes de papel: cultura escrita e sociabilidade na correspondência de Oliveira Vianna</article-title>
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				<mixed-citation>WALLERSTEIN, Immanuel. World-System Analysis: An Introduction. Durham, NC: Duke University Press, 2004.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>WEGNER, Robert. A conquista do oeste: a fronteira na obra de Sérgio Buarque de Holanda. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2000.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>WERNER, Michael. De la comparaison à l’histoire croisée. Paris: Seuil, 2004.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>WERNER, Michael; ZIMMERMANN, Bénédicte. Penser l’histoire croisée: entre empirie et réflexivité. Annales. Histoire, Sciences Sociales, v.58, n.1, p.7-36, 2003.</mixed-citation>
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					<article-title>Penser l’histoire croisée: entre empirie et réflexivité. Annales</article-title>
					<source>Histoire, Sciences Sociales</source>
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				<mixed-citation>WIMMER. Mario. The Present as Future Past: Anonymous History of Historical Times. Storia della Storiografia, v.68, p.165-183, 2015.</mixed-citation>
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					<article-title>The Present as Future Past: Anonymous History of Historical Times</article-title>
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				<mixed-citation>ZULAR, Roberto (Org.) Criação em processo: ensaios de crítica genética. São Paulo: Iluminuras, 2002.</mixed-citation>
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			<fn fn-type="supported-by" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>O autor agradece à Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (Capes), à Fundação Alexander von Humboldt - Freie Universtät Berlin, ao PPG História da Uerj/Bolsa Prociência-Faperj e à Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, por diversas modalidades de apoio durante a pesquisa e elaboração do texto.</p>
			</fn>
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				<label>2</label>
				<p>“The conceptualization of personal archives is embedded in the general definition of private archives when these are said to consist of papers produced/received by private entities or individuals. What can be specified here is that, as papers linked to the life, work and activities of a person, they are not functional and administrative documents in the sense possessed by those linked to the administration of a commercial establishment or a trade union. They are papers linked to the family, civil and professional life and to the political and/or intellectual, scientific and artistic output of state figures, politicians, artists, literary figures, scientists and so on. In sum, the papers of any citizen who shows an interest in historical research, supplying data on the quotidian, social, religious, economic and cultural life of the time in which the person lived and on his or her own personality and behaviour” (<xref ref-type="bibr" rid="B9">BELLOTTO, 2006</xref>, p. 256). Camargo, however, interrogates the meaning of the expression ‘personal archives,’ observing that although “their use is accepted in the Brazilian archival community, it would be more accurate to say archives of people (of this or that person, treated individually) or of occupational categories (state figures, literary figures, scientists, etc.), at least to avoid conflicting with three distinct situations, equally questionable, in which the epithet is applied. I refer to the documents on persons, present in the institutional archives, and, in the sphere of the documents effectively accumulated by individuals in specific sections of the archive; to those that do not result from the exercise of public functions; and to those represented by identity documents” (<xref ref-type="bibr" rid="B9">CAMARGO, 2009</xref>, p. 28). Despite the caveat, here we adopt the prevailing terminology.</p>
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	</back>
	<!--sub-article article-type="translation" id="s1" xml:lang="en">
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					<subject>Articles</subject>
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			<title-group>
				<article-title>Personal Archives and Historical Writing in Brazil: A Critical Review</article-title>
			</title-group>
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				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-8038-6606</contrib-id>
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						<surname>Iumatti</surname>
						<given-names>Paulo Teixeira</given-names>
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						<surname>Nicodemo</surname>
						<given-names>Thiago Lima</given-names>
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					<xref ref-type="aff" rid="aff4">**</xref>
					<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>1</sup></xref>
				</contrib>
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			<aff id="aff3">
				<label>*</label>
				<institution content-type="original"> Universidade de São Paulo, Instituto de Estudos Brasileiros (IEB). São Paulo, SP, Brasil. ptiumatt@usp.br</institution>
			</aff>
			<aff id="aff4">
				<label>**</label>
				<institution content-type="original"> Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), Departamento de História. Campinas, SP, Brasil. tnicodemo@gmail.com</institution>
			</aff>
			<abstract>
				<title>ABSTRACT</title>
				<p>Responding to the growing interest in personal papers and archives in the contemporary world, in this article we aim to present an overview of how these documents have been used in Brazil within a field particularly open to theoretical and epistemological reflections: the history of historiography - to which we have added intellectual history and other analogous fields. In so doing, we seek to demonstrate to a wider audience theoretical results and reflections that can be used by both specialists and researchers not entirely familiarized with these areas, but who can benefit from the theoretical implications of using documents from personal archives in their historical research. Conversely, we also look to expand the debate on the history of historiography and intellectual history towards more interdisciplinary approaches, including the use of personal archives in areas such as comparative literature and literary theory. In short, the overall goal is to deepen interdisciplinary dialogues in the history of historiography and intellectual history, contributing to a more critical use of sources in works of intellectual history and biographies in general.</p>
			</abstract>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>personal archives</kwd>
				<kwd>history of historiography</kwd>
				<kwd>intellectual history</kwd>
				<kwd>memory studies</kwd>
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		<body>
			<p>Closely linked to the theory of history, the history of historiography is a field open to the appropriation of methods and techniques developed in correlated fields such as literary theory, the history of science, intellectual history, the sociology of intellectuals and the history of culture, all of which have been making increasing use of documents from personal archives. In interaction with these fields, over the last twenty years the discipline has systematically explored questions relating to the study of ideas in their context; to the relation, in diverse instances, between historical discourse and the construction of identities; to the connections between historical discourse and narrative forms; to the relation between the production of knowledge and political and social power; to the politics of memory and forgetting and to the forms and rules of sociability in intellectual life. These questions have been studied in academic research on the work and career of specific historians, on groups or generations of historians, and on the broader institutional spaces through which the production of historical knowledge is supported and disseminated.</p>
			<p>In these studies, the forms of historiographic analysis have become ever more multifaceted at the same time as access to documents from personal archives has been increasing.<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref> In this setting, the recourse to such documents has taken place concomitantly with the deepening of a more self-reflexive stance with regard to exploration of the theoretical and methodological aspects of historical research. This is perhaps one of the main ways through which Brazilian historiography has become inserted in an increasingly globalized historiographic panorama (<xref ref-type="bibr" rid="B54">Revel, 2010</xref>, p. 69) - which also involves research developed partially or entirely abroad, in the archives of foreign historians (<xref ref-type="bibr" rid="B52">Palmeira, 2013</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B7">Benthien, 2014</xref>) - a panorama in which a “mixture of epistemology and historiography” emerges as the common ground, especially from the 1980s and 1990s onward (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Hartog, 2011</xref>, pp. 247-251). Whatever the case, it is important to note that this stance has enabled a deeper insight into aspects relating to the utilization of documents from personal archives of historians and intellectuals in general, which coincides with a more acute awareness of the importance of their preservation.</p>
			<p>At first glance, the proliferating presence of the personal archives of intellectuals in public institutions and their employment in academic research seems to signify a dive into the past. However, what this tendency demonstrates is precisely the opposite. Such proliferation is a clear symptom of deep transformations at a global level, which have led to a multiplication of the forms and speed of the systems of information production and circulation and a revolution in their physical media. Faced by this context, it became urgent for historians to refine the tools used to comprehend these processes of accelerating transformation and their social meaning (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Castells, 1999</xref>) - since the moment of acceleration also opens up fertile ground for the flourishing of dangerous proposals, such as the law bill legalizing the destruction of original analogue documents after their “digitalization and storage on authenticated optic or digital media” (PLS 146/2007), and which multiply the possibilities for dampening the corrosive potential of history as a discipline and a critical method.</p>
			<p>The fact is that we know little about how to deal in the sphere of historical research with the personal ‘hyperarchives’ produced by digital culture (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Enniss, 2015</xref>, pp. 232-233), especially with respect to characteristics such as the “multiplicity and overlapping of temporalities” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Castro, 2016</xref>, p. 185). However, it is important to emphasize that the radical processes that we know observe have their roots in the somewhat chaotic development, from the viewpoint of the <italic>peripheral or semiperipheral countries</italic> (see <xref ref-type="bibr" rid="B67">Wallerstein, 2004</xref>), of technological and communicational processes that rapidly proliferated between the end of the twentieth century and the beginning of the twenty-first and expanded out from the centre of capitalism. To construct a critical viewpoint amid the turmoil, it is essential to recognize not only that, although initially regarded with disdain by historical science, documents from personal archives acquired an epistemological relevance over the first decades of the twentieth century (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Heymann, 2009</xref>, pp. 42-43). The use of archives in the history of historiography as a discipline has always functioned as a thermometer and a laboratory for the sedimentation of disciplinary procedures. The archive was a fundamental element in the stabilization of a disciplinary culture. As Wimmer reminds us, the history of archival evaluation is a history of the writing of history <italic>avant la lettre</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B71">Wimmer, 2015</xref>, p. 166). Following this same line, thinking about the future of archives inevitably leads us to problematize the future of history as a disciplinary form.</p>
			<p>In this article we propose to evaluate the use of documents from personal archives in works from the history of historiography and similar fields such as intellectual history, with the aim of divulging their results and highlighting paths for future research and critical thought. Our intention is to identify the points where the theoretical-methodological debate has deepened, taking into account the broader context of transformations in the writing of history over recent decades. To this end, we consider four themes: 1. The idea of intellectual ‘networks’; 2. The historicity of the relation between intellectuals and the public sphere; 3. The processes of creation; and, finally, 4. The personal archive as retrospective memory.</p>
			<sec>
				<title>ON INTELLECTUAL ‘NETWORKS’</title>
				<p>One of the potential contributions of research on the personal archives of intellectuals is a better comprehension of the sociointellectual and institutional networks made evident in the documents. Acquiring a clearer understanding of how particular authors or trajectories are situated vis-à-vis their ‘peers’ provides us with an insight into the configuration of the often highly dynamic and diverse networks in which they were inserted. This question has clear theoretical-methodological repercussions since these ‘networks’ are naturally inserted in wider contexts and help us comprehend more clearly how knowledge circulates within a determined space and time. Such conditioning factors are very far from being merely scenographic aspects given that they determine the very nature of knowledge, its epistemology. In short, the form in which knowledge circulates determines, in part, its nature. Understanding this circulation thus implies understanding the values, premises and protocols of knowledge production itself.</p>
				<p>Over the last 10 or 20 years, the theoretical or conceptual debate on the idea of networks and intellectual circulation has been led to a considerable extent by the influx of French trends and authors, among whom we can highlight the historian Jean-François Sirinelli. Exploring the problem of how to understand the roles of intellectuals connected to political and sociocultural history, the author seeks to reflect on the concepts of itinerary, generation and structures of sociability. The latter, structures of sociability, also called networks, refer to the ties that connect intellectuals, as well as to the spaces around which they are constructed - whether such spaces are literary salons, the offices of a journal or the editorial board of a publishing house. As Sirinelli further argues, forces of adhesion are formed around these structures - through their underlying friendships, unifying loyalties and exerted influences - as well as forces of exclusion - through the positions taken, the debates provoked, the splits arising as a consequence, and so on (<xref ref-type="bibr" rid="B61">Sirinelli, 2003</xref>, pp. 248-254).</p>
				<p>The use of the concept of intellectual ‘networks’ and their correlates in Brazilian historiography over the last two decades has primarily been linked to the international - and especially French - historiographic context of revalorizing political history and strengthening the so-called history of the present, which reverberated in Brazilian universities, especially in the first decade of the twenty-first century. This not only includes the prominence given to Sirinelli, but also the less systematic, yet still significant, influx of theoretical models deriving from other equally important approaches, such as the ‘connected histories’ of Trebitsch and <xref ref-type="bibr" rid="B20">Espagne (1999</xref>) or the ‘cross history’ of <xref ref-type="bibr" rid="B69">Werner (2004</xref>) and <xref ref-type="bibr" rid="B70">Werner and Zimmermann (2003</xref>), constructed in interdisciplinary institutions located in central countries, involving broad transnational perspectives. This influence can be measured, for example, in a recent collective work edited by Ângela de Castro Gomes and Patrícia Hansen, entitled <italic>Intelectuais Mediadores</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Gomes; Hansen, 2016</xref>). Despite its methodological eclecticism, the book reveals from its introduction on a close interaction with the ‘new’ French political history developed at the end of the twentieth-century. In the authors’ view, the use of the repertoire of this approach allows greater attention to be paid to the concrete aspects of cultural mediation and intellectual sociability, thus emancipating thought from the abstract tendency of a history of ideas, as well as antiquated tendencies that projected the condition of ‘genius’ on the intellectual, an exceptional man (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Gomes; Hansen, 2016</xref>, pp. 10-11).</p>
				<p>Apropos transnational networks and interdisciplinarity, we can mention the work of <xref ref-type="bibr" rid="B16">Christino (2007</xref>) on the international networks of Capistrano de Abreu. In this work, the author explores the “mechanisms for producing and disseminating the linguistic works of South Americanists between 1890 and 1929 and their theoretical reference points” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Christino, 2007</xref>, p. 29), mobilizing documentation that enables the reconstruction of a Teuto-South-American network: the archives of the Ethnological Museum of Berlin and the Walter Lehman and Paul Ehrenreich Collection at the Ibero-American Institute, as well as the Ethnographic Collection of the Phillips Universität, as well as the collection of Capistrano de Abreu himself, held at the Institute of Ceará (Historical, Geographical and Anthropological). The methodological parameters of Christino’s research stemmed from the linguistics and historiography of this area, and led her to consider factors such as knowing about the “circuit of production and reception of works on South American indigenous languages written by specialists between 1890 and 1929,” in order to “specify what an ‘authentic’ South Americanist meant in the years between 1890 and 1920” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Christino, 2007</xref>, pp. 40-41).</p>
				<p>There has been no lack of major efforts to comprehend local, national or transnational ‘networks.’ Much the opposite: in a highly diverse universe, we can highlight studies that adopt this perspective to explore the work and careers of two authors belonging to the same ‘network’: Gilberto Freyre and Oliveira Lima. Notably many of the studies on these leading intellectuals were made possible by the existence of the Oliveira Lima Library itself at the Catholic University of America since the end of the 1920s, as well as the organization of Freyre’s personal archives at the Casa de Gilberto Freyre in Recife. Along these lines, we can mention the study by Ângela de Castro Gomes, “Family life: the correspondence between Oliveira Lima and Gilberto Freyre” (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Gomes, 2005</xref>), which demonstrates the insertion of the authors at the centre of an international network that united Brazilians, Latin Americans, North Americans and Europeans, and focused on the study of themes and questions relating to the Americas. The hegemonic power of the United States was counterbalanced by a growing desire for cultural representation on the part of the Portuguese and Spanish Americas, following an original conception of Pan-Americanism postulated from the nineteenth century on. In these terms, the Oliveira Lima Library formed part of a ‘Pan-American circuit’ that was as political as it was intellectual, and that, benefitting from the United States interest in Latin America, sought to foster affirmation in the ‘North’ of the research and visibility of the ‘South.’</p>
				<p>Knowledge of this Pan-American ‘network’ of intellectuals surrounding Oliveira Lima and, following his death, partially continued by Freyre, was deepened through the studies of Maria Lúcia Pallares-Burke, <italic>Gilberto Freyre: um vitoriano nos trópicos</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B50">Pallares-Burke, 2005</xref>) and, above all, <italic>O triunfo do fracasso</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B51">Pallares-Burke, 2012</xref>). In both cases, the research was broadly supported by personal documents and indebted to Oliveira Lima’s correspondence. One of the most interesting aspects of these works is the comprehension of how Brazil helped guide the North American race debate thanks to the hypertrophic effect of the concept of miscegenation. From the theoretical viewpoint, this idea contributed greatly to consolidating the quality of the works in intellectual history and the history of historiography, since it broke from the premise of ‘influence’ generally being exerted by the ‘most developed’ countries (whether Germany, France, the United States) on the ‘less developed.’ The reconstruction of intellectual networks through personal documentation sheds light on the complex nature of the exchange of ideas, and teaches us that, even when dealing with concepts that can be traced back to European thought, we need to be attentive to the processes of transformation, creative adaptation and sometimes ‘return,’ as well as modification of the supposed ‘original’ under the influence of the equally supposed ‘peripheral’ (<xref ref-type="bibr" rid="B70">Werner; Zimmermann, 2003</xref>).</p>
				<p>Critique of relations based on intellectual subordination has been another of the key features of works of historiography or intellectual history, including the investment in understanding other phenomenon recurrent in Brazilian intellectual life: the figure of the ‘foreign intellectual’ and a type of relation that Rouanet, in his study on Ferdinand Denis, called a conscious exercise in intellectual tutorship. This relation assumes different aspects. From a <italic>pragmatic contamination -</italic> Denis and the romantic generation - to the <italic>pragmatic misreading</italic> that guided the relations between the nascent historiography of the Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (Brazilian Historical and Geographic Institute, IHGB) in the nineteenth century and the emblematic figure of von Martius. Here we may also cite the work of Lúcia Paschoal Guimarães and Valdei Araújo on the network of John Casper Branner, based on his correspondence kept at the Stanford University archives (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Guimarães; Araújo, 2004</xref>, pp. 93-109). In their study, the authors seek to comprehend Branner’s proximity to key people from Brazilian intellectual life. Although focused on elucidating the relations that maintain Brazilian intellectual life dependent on the exterior, these works provide the material for us to understand these same contexts from the perspective of the multidirectionality of the flow of ideas.</p>
				<p>Neither can we ignore the domestic ‘networks’ and structures of sociability based on affect that are very often associated not only with ‘microclimates,’ but also with networks important to the production of regional identities. Take, for example, the study by Karina Anhezini, “Correspondence and writing history in the intellectual trajectory of Afonso Taunay” (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Anhezini, 2003</xref>): setting out from an analysis of the relations in the IHGB and the IHGSP as <italic>locales of sociability</italic>, Anhezini - drawing inspiration from Sirinelli - seeks to identify some of the meanings of the positions occupied by Taunay in these institutions in terms of his own historiographic production. In addition to the records of the IHGB and the IHGSP, the author uses as a source the Taunay Collection of the Museu Paulista at the Universidade de São Paulo (USP). Taunay was director of the Museu Paulista and his collection forms part of his personal archive, which was assembled and donated over years. For <xref ref-type="bibr" rid="B2">Anhezini (2003</xref>), this trajectory was permeated by a network of sociability capable of pointing to relations whose exchanges - observed mainly through his correspondence - played an important role in the author’s intellectual development and establishment as a leading figure in the area between 1911 and 1929. Indeed, the Taunay collection at the Museu Paulista has been utilized by a series of investigators wishing to explore the invention of traditions and processes of constructing/inventing identities, such as, for example, <xref ref-type="bibr" rid="B8">Brefe (2005</xref>), whose work makes use of the collection held at the institution.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>THE HISTORICITY OF THE RELATION BETWEEN INTELLECTUALS AND THE PUBLIC SPHERE</title>
				<p>Thinking in terms such as ‘intellectuals’ or ‘men of letters’ in Brazil requires a careful analysis of the historicity of the categories themselves. Between the nineteenth and twentieth centuries, in particular, we are dealing with processes that involve varying degrees of transition from a profile of the ‘polymath’ intellectual - in other words, someone capable of mobilizing many kinds of knowledge - to the profile of the specialist, linked to the development of university disciplines, as well as other institutions like the museums, archives and libraries that multiplied in number over the twentieth century. This observation prompts us to investigate a trend towards studies that take the specialization, disciplinarization and professionalization of knowledge itself as their principal topic of inquiry.</p>
				<p>Among the questions explored in studies of historians based on documents from personal archives, we can firstly highlight the difficult and complex problem of the characteristics and limits of ‘public space’ and its relation to the private sphere. In fact, personal archives seem particularly capable of supplying answers to questions about the links between the public and private spheres in the trajectories of historians and intellectuals. Examining them, we can identify, for example, particular sets of information, relations, affiliations or questions that remained hidden from view, undeveloped in their public work. In this universe of reflections, however, a number of significant difficulties have appeared, including, for example, those relating to the very definition of the boundaries between the public and the private, or the nature of this Brazilian ‘public space’ and ‘intellectual life’ itself, given that, as historians, we are dealing with unstable categories that shift considerably over time. When it comes to the archives of politicians, for instance, it is worth noting that Brazilian politicians frequently were originally or became historians, such as the Baron of Rio Branco, while others of them, like Washington Luís, played a prominent role in the publication of sources at the start of the twentieth century.</p>
				<p>It is interesting, therefore, that in a study of the personal correspondence of Capistrano de Abreu - the bulk of which was published in the 1950s by José Honório Rodrigues - Amed utilizes a study by <xref ref-type="bibr" rid="B63">Trebitsch (1992</xref>) as one of his main theoretical reference points. These works share the view that letters should be considered political documents and crucial testimony to networks of sociability and ideas that were marginalized or forgotten both in academia and at a political level (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Amed, 2006</xref>, pp. 190-191). Fernando Amed especially emphasizes the authenticity of Capistrano de Abreu’s ideas expressed in his correspondence - which contrasts with the dearth of alternatives found in the Brazilian intellectual sphere of the time, suffocated by the absence of a reading public (high levels of illiteracy) and by the cryptic nature (preponderance of personal and power relations over merit-based criteria) of public spaces capable of disseminating knowledge - the small number of publishing houses, newspapers, journals and research institutions. Following this description of Brazilian intellectual life and public space, the author argues that Capistrano’s letter writing “amounted to a private - subjective - response to an obstruction existing in the public sphere” (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Amed, 2006</xref>, p. 46).</p>
				<p>In relation to Capistrano de Abreu’s personal archive, we should highlight the group attached to the Federal University of Ceará (UFC) that formed around the “Organization of Capistrano de Abreu’s Collection” project at the Ceará Institute. Setting out from the theoretical works of the new cultural history, such as those produced by Chartier, the study by Paula Batista, <italic>Capistrano de Abreu e a correspondência feminina</italic>, also seeks to reconstruct the intellectual’s network of sociability, centring on the mechanisms for ‘exchanging favours’ and reaching a number of different conclusions to those of Amed’s study. Investigating his correspondence with women, the author observes that the homes visited by Capistrano were “locales of sociability,” which performed “the same role as the academic bodies that Capistrano claimed to avoid” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Batista, 2006</xref>, p. 88). Corresponding with “major political figures” like the minister and historian Pandiá Calógeras, Capistrano often resorted to clientelist practices (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Batista, 2006</xref>, pp. 89-90).</p>
				<p>Notably one of the coordinators of the project responsible for organizing the Capistrano de Abreu Collection is the historian Giselle Venancio, whose work has invested heavily in research on the personal archive of Oliveira Vianna (Casa de Oliveira Vianna - Funarj). Her work tackles diverse aspects such as the recourse to the library as part of his creative dynamic and writing process (<xref ref-type="bibr" rid="B64">Venancio, 2006</xref>, pp. 87-110), as well as Vianna’s vast social network, involving personal, political and intellectual relations, made evident by the dispatch of his publications. Employing the ideas of French researchers of epistolography like Vincent-Buffault and Dauphin, and principally Chartier’s observations on communities of readers and the emergence of the men of letters of the eighteenth century, Venancio shows how Vianna sought to establish his own community of readers. In this sense, his letter writing can be apprehended as a strategy for organizing and developing his relations of sociability and principally for the structuring of a community that ensured the propagation and extolling of his ideas (<xref ref-type="bibr" rid="B66">Venancio, 2001</xref>, pp. 23-47; <xref ref-type="bibr" rid="B65">Venancio, 2015</xref>).</p>
				<p>One of the central figures in Brazilian intellectual history in terms of understanding the institutionalization of knowledge production in the country is without doubt Capistrano de Abreu. Even at a time when the university was yet to become a concrete problem, he campaigned for a specialized field of ‘historical studies,’ helping sediment new analytic procedures and serving as a model for subsequent generations of intellectuals who would become specialists. This is a view substantially supported, especially in the studies of Gontijo and Oliveira, at least partially by the historian’s correspondence. In both cases, the authors mobilize Capistrano’s correspondence to comprehend the processes of ‘canonization’ of the intellectual from Ceará state, evaluating the problems involved in gaining access to his personal archive, only released decades after his death (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Gontijo, 2006</xref>, pp. 11-12; <xref ref-type="bibr" rid="B49">Oliveira, 2006</xref>, pp. 29-35), as well as deepening our knowledge of his network of interlocutors in the field of historical studies and his disciples (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Gontijo, 2006</xref>, pp. 204-206). These elements contribute to our understanding of “how Capistrano planned to write history, taking into account the practices relating to the profession of historian during his era” (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Gontijo, 2006</xref>, p. 228) or how, through the work of critique, “he delineates the attributes of his profession and, with them, signals some of the boundaries - then being demarcated - of his discipline” (<xref ref-type="bibr" rid="B49">Oliveira, 2006</xref>, p. 48). This theme has been explored in further depth by more recent works that make more or less systematic use of Capistrano de Abreu’s correspondence as a basis for understanding the disciplinary processes of writing the history of Brazil between the final years of the nineteenth century and the start of the twentieth (<xref ref-type="bibr" rid="B57">Santos, 2009</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B4">Batalhone, 2015</xref>).</p>
				<p>One important avenue for comprehending the specialization and disciplinarization of historical knowledge - and also neighbouring areas like geography and sociology - has been the increased availability of personal/professional/institutional documentation. On this point, the history of historiography has gained much from the organization and formation of the personal collections of the first generations of university professors and other authors who played a pioneering role in the development of the country’s universities. Progress in this direction encounters various structural problems, however, since few universities in Brazil have the resources to safeguard their own institutional memory and store it adequately. Fortunately one exception is Proedes-UFRJ, which even holds documents from the short-lived University of the Federal District (UDF), Siarq (the Sérgio Buarque de Holanda Papers), Cedae and the Edgard Leuenroth Archive at Unicamp, and the Institute of Brazilian Studies (IEB) and Support Centre for Historical Research (CAPH) at USP. In this area, we can highlight the systematic study by Marieta de Moraes Ferreira, <italic>A história como ofício</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Ferreira, 2013</xref>), which makes use of the testimony of professors, combined with the private material of academic staff who helped shape their era, like Deffontaines, Hauser, Camilo and Delgado de Carvalho, among others. The work on the institutional activities of figures like Caio Prado Jr. (<xref ref-type="bibr" rid="B38">Iumatti et al., 2008</xref>) and Sérgio Buarque de Holanda (<xref ref-type="bibr" rid="B47">Nicodemo, 2008</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B45">Nicodemo, 2014</xref>) has also advanced through more in-depth explorations of other key authors, including Alessandra Soares Santos’s study of Francisco Iglésias and university historiography in Minas Gerais (<xref ref-type="bibr" rid="B56">Santos, 2013</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B55">Santos, 2013a</xref>). Another recent study has sought to construct a collective biography of the USP professors and students who formed the <italic>Capital</italic> reading group from 1958, often based on sociological references and turning to the personal archives of professors, such as those of CAPH at USP and Florestan Fernandes’s at Unesp (Rodrigues, 2011).</p>
				<p>Finally, we can note that the personal archive has traditionally been associated with the public prominence or the ‘established’ reputation of its author. Over the last few years, however, various factors have helped strengthen an alternative and, to some extent, counter-hegemonic agenda, including questions relating to gender, race and political resistance, which has shed light on important aspects of Brazil’s ‘intellectual tradition,’ as well as the nature of its ‘public space.’ Recent studies like those of Erbereli Jr., based on the personal documents of Alice Canabrava, and Machado, turning to the documents of Cecília Westphalen, enable a better understanding of the difficulties faced by women in rising professionally and achieving recognition in a university world controlled by a vast majority of men (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Erbereli Jr., 2016</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B40">Machado, 2016</xref>). In the field of political resistance, Schmidt’s studies emphasize the incorporation of documents from personal archives, as in his study of the trajectory of Flávio Koutzil (<xref ref-type="bibr" rid="B59">Schmidt, 2009</xref>).</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>PROCESSES OF CREATION AND OTHER INTERDISCIPLINARY DIALOGUES</title>
				<p>An increasingly important trend over recent years, one directly linked to the exploration of documents from personal archives and even the libraries of intellectuals, has been minutely detailed or even microscopic readings of works. It is worth recalling, however, that this tendency was not primarily developed in Brazil through historiographic studies, but rather - and in pioneering form - by scholars of literature, in interaction with the French school of so-called genetic criticism from the 1970s onward (see <xref ref-type="bibr" rid="B72">Zular, 2002</xref>). These possibilities were opened up by the lengthy process of organizing the Mário de Andrade Collection at IEB-USP, a project coordinated by Telê Ancona Lopez and initially dedicated to understanding the background to the creation of <italic>Macunaíma</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Lopez, 1975</xref>). Involving diverse documental typologies over the years, as well as a deeper study of the marginalia of the books stored in the Mário de Andrade Library, this approach has produced a large number of studies and methodological suggestions. In relation to letters, for example, Moraes has taken these documents as a source for understanding “behind the scenes aspects of the artistic life of a particular period,” as well as exploring letters in closer detail as an “archive of creation” (<xref ref-type="bibr" rid="B43">Moraes, 2007</xref>, p. 30). The terrain opened up in the process involves an interdisciplinary dialogue between the history of historiography and literary theory, via the intermediation of genetic criticism - which considers “epistolography a ‘worksite’ or a ‘workshop,’ seeking to unveil the web of invention, the design of an aesthetic idea, when it examines the diverse aspects of the creative process” (<xref ref-type="bibr" rid="B43">Moraes, 2007</xref>, p. 30; <xref ref-type="bibr" rid="B44">Moraes, 2002</xref>).</p>
				<p>Despite the relative absence of dialogue with Brazilian adherents of genetic criticism, as mentioned earlier, Brazilian researchers invested heavily in studying the process of constructing historical works from the 1990s onward, making use of personal archives for this purpose. Thus, and more strictly in the field of historiography, some works sought to interconnect the documents contained in personal archives in order to comprehend the process of developing a particular work. Examples include the explorations of the genesis of the works <italic>Monções</italic>, <italic>Caminhos e Fronteiras</italic> and <italic>Visão do Paraíso</italic> by Sérgio Buarque de Holanda (<xref ref-type="bibr" rid="B68">Wegner, 2000</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B47">Nicodemo, 2008</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B45">Nicodemo, 2014</xref>), and <italic>Formação do Brasil Contemporâneo</italic> by Caio Prado Jr. (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Iumatti, 2001</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B35">Iumatti, 2018</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B38">Iumatti et al., 2008</xref>). Evidently, this type of study depends on the quality and quantity of the available documents, which, in the case of the Caio Prado Jr. Collection, held at IEB-USP, encompasses thousands of documents, including unpublished manuscripts, letters, reading cards and book marginalia. In Iumatti’s study, it becomes clear that examining this vast material reveals an entire series of subterranean epistemological reflections and transformations undergone by Caio Prado’s thought during the writing of <italic>Formação do Brasil contemporâneo</italic>.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>THE PERSONAL ARCHIVE AS RETROSPECTIVE MEMORY</title>
				<p>One of the most fruitful points of intersection between the history of historiography and personal archives is the study of the constitution of personal archives as an act of memory, actively shaping the meanings that we attribute to authors and problems. Seen from this viewpoint, investigations of personal archives can contribute to a clearer apprehension of how certain interpretations of Brazil became predominant, insofar as they were constructed through the aggregation of strata of time and meanings. These conditioning factors configuring our subjective gaze, as well as our academic practices, can be seen as layers of contingent meanings that accumulate and can become subject to regressive mnemonic interpretations, setting out from the present and extending into the past, taking into account the various layers of historicity that have helped give form to an object or theme handed down to us (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Feindt, 2014</xref>, p. 36)<italic>.</italic> From this perspective, the forming of a personal archive presupposes a complex set of factors ranging from the desire to construct a certain memory on the part of the intellectual and his or her circle, to the trajectory of the post-mortem estate (which includes the trajectory of the inventory, donation or purchase, etc.), as well as its potential incorporation by an institution. Clearly, this is just the beginning of the process, since many decisions concerning storage and organization contribute to the archive eventually reaching the public (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Campos; Bezerra, 2015</xref>, pp. 230-231). </p>
				<p>We believe that the question of the retrospective or perhaps ‘multidirectional’ memory associated with personal archives - an aspect that should undoubtedly be incorporated into the investigation of the history of each archive, a history encompassing everything from its formation to interventions, changes and the infinite social, political, etc. vicissitudes that may or may not have led it to be stored at the institution - is something that merits deeper study and better utilization in the field of the history of historiography. Along these lines, we can highlight the work of Ulpiano Bezerra de Meneses, which helps elucidate this relationship. Commenting on various aspects involved in the focus on memory as a problematic issue over recent years, related to the multiple dimensions involved its crisis, Meneses stresses a fundamental point contained in the discussion on documents and archives, one that pervades any contemporary discussion on the processes of classifying archival documents: the production of historical knowledge should be indissociable from the (historical) knowledge of the production of the document in its broadest sense. The complexity introduced by the information society not only generates new technical demands for knowledge, it increases their diversity compared to traditional documentation due to the greater expanse of the sociocultural landscape in which they are situated (<xref ref-type="bibr" rid="B42">Meneses, 1999</xref>, p. 24).</p>
				<p>Inquiry into the classification processes used in archives by the authors themselves, as distinct from the set of processes mobilized by the archivist a posteriori, can be more systematically incorporated by historiography. Here they are considered as ‘laboratories’ that expose the <italic>modus operandi</italic> of small workshops of knowledge production. This analytic exercise enables the development of forms of theoretical-methodological reflection that can effectively deepen the debate in the history of historiography and the theory of history - an approach that involves exploration of the internal architecture of the collections (see, for example, <xref ref-type="bibr" rid="B65">Venancio, 2015</xref>), which can provide a key to understanding the working methods (the historian’s ‘workshop’), projects and actual thought of the historians. In the field of the history of historiography, a number of recent works have paved the way for further development of these possibilities, including Iumatti’s article on his experience of organizing the Caio Prado Jr. Fund at IEB-USP (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Iumatti, 2005</xref>), Miguel Palmeira’s study of the intellectual career of Moses Finley (2008; 2013), Rafael Benthien account of his experience of researching French personal archives (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Benthien, 2014</xref>) and the works of Rafael Pereira da <xref ref-type="bibr" rid="B60">Silva (2015</xref>) and Raphael Guilherme de <xref ref-type="bibr" rid="B13">Carvalho (2017</xref>), which have sought to explore the disciplinary memory constructed around Sérgio Buarque de Holanda “with a fine-tooth comb,” considering even the meanings of his legacy produced or reworked after his death (see too <xref ref-type="bibr" rid="B46">Nicodemo, 2016</xref>).</p>
				<p>This ‘metahistorical’ concern does not seem to us to conflict with the proposals of the archival field, such as the methodology advocated by Ana Maria Camargo, who argues for standards of organization that take into account the ‘functional attributes’ of personal documentation - in other words, the “close correspondence between the documents and the activities of the person producing them, so as to reinforce and stabilize the evidentiary effect that arises from this <italic>sui generis</italic> relation,” made evident by the social and institutional insertion of the subject in the multiplicity of activities performed in his or her life (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Camargo, 2009</xref>, pp. 34-35; <xref ref-type="bibr" rid="B10">Camargo, 1998</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B11">Camargo; Goulart, 2007</xref>).</p>
				<p>Despite the paths still to be explored at a deeper theoretical level, we need to recognize the important landmarks that already exist, represented by the work developed by historians and archivists on the history of archives and collections themselves. Generally speaking, the works exploring the formation and construction of personal archives tend to focus on the strategies of monumentalization and the construction of memory and the self. In this context, Ângela de Castro Gomes warned of the ‘fetish’ cast by the documents from personal archives, reflecting on the creation in Brazil during the 1970s of two of the most important institutions responsible for holding private archives: CPDOC at the FGV and the Edgard Leuenroth Archive at Unicamp. Recalling her own trajectory as a CPDOC researcher, the historian affirmed that the main illusion generated by private archives is the idea that, by storing personal documents not explicitly intended for public consumption, their examination can reveal their producer in a ‘true’ form: the author is revealed ‘for real,’ as attested, supposedly, by the spontaneity and intimacy seen to mark much of the records (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Gomes, 1998</xref>). Prochasson also urges the need for caution with respect to the mediators who effectively shape personal archives. The desire for consecration on the part of the authors of letters themselves and their awareness that the material might eventually be publicized undoubtedly generated various ‘traps.’ Thinking about the excessive importance conferred by Bertrand Muller, editor of the correspondence exchanged by Bloch and Febvre, to their letters, which Muller presents as an element decisive to the entire history of the <italic>Annales</italic>, Prochasson calls attention to the provisional nature of the ideas and projects contained in the letters, ideas that “are frequently modified or even discarded over the course of the research process” (<xref ref-type="bibr" rid="B53">Prochasson, 1998</xref>, pp. 105-112).</p>
				<p>Malatian, discussing the Oliveira Lima Library, and Venancio, studying the Oliveira Vianna Archive, have already provided more in-depth explorations of how the place of erudite legitimization drove the creation of archives, libraries and museums, as well as the publication of document collections (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Malatian, 2001</xref>, pp. 11-28). From this perspective, personal archives stand out as a privileged locus for historical analysis, since they register a form of private accumulation possessing the name of the author him or herself as a specific identificatory mark (<xref ref-type="bibr" rid="B66">Venancio, 2001</xref>, pp. 26-27).</p>
				<p>If the process of constituting an archive is related to the process of consecrating the still living author and reflects their desire to be remembered, then it is up to the theory and history of historiography to pursue the hermeneutic challenge of more wide-ranging research. Such research is connected on two intersecting temporal planes: the chronological evolution of the thought and sociability of a particular author and his or her network, in contrast to the retrospective challenge of understanding how particular interpretations became crystallized over time, informing the image of authors and themes ­bequeathed to us historically. As Rebeca Gontijo advises us, we need to know the process through which correspondence becomes published, when this took place, as well as the place attributed to the letters concerned in an author’s overall life and work (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Gontijo, 2004</xref>, pp. 166-167). We also need to investigate better the social processes through which archives are produced, from the handling of documents by the authors themselves to the explicit and hidden criteria implicated in the social production of the archive - as proposed by Heymann in her work on the archives of Darcy Ribeiro and Filinto Müller; Olívia Cunha, in her study of the archive of anthropologist Ruth Landes; Priscila Fraiz, on the construction of the Gustavo Capanema Collection; and Juliana Amorim de Souza, in her exploration of how the Roquete Pinto Collection at ABL was formed (<xref ref-type="bibr" rid="B31">Heymann, 2005</xref>, pp. 43-58; <xref ref-type="bibr" rid="B33">Heymann, 1997</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B17">Cunha, 2004</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B23">Fraiz, 1994</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B62">Souza, 2015</xref>).</p>
			</sec>
			<sec sec-type="conclusions">
				<title>FINAL REMARKS</title>
				<p>We believe that the political moment being experienced by Brazil today, involving the cutting and dismantling of budgets for public and private archival institutions, is deeply worrying. This current trend at national level contrasts with the growing importance of personal archives observable at international level, including the proliferation of collections and the urgency in proposing theoretical-methodological analyses and tools that can account for the multiple forms that documents considered personal have acquired in the digital age. This paradoxical context of an increase in global importance, contrasted with local initiatives to dismantle infrastructure, makes the debate on personal archives in present-day Brazil an issue of high social relevance.</p>
				<p>To conclude we propose six fundamental points for us to reflect on private collections and the writing of history - which were not necessarily developed explicitly over the course of the article - taking into account especially the advances made in the history of historiography, intellectual history and neighbouring fields:</p>
				<p>
					<list list-type="order">
						<list-item>
							<p>The need to ‘decolonize’ the theoretical debate. Reflecting on the concept of ‘networks’ and on the historicity of the relation between intellectuals and the public sphere has shown the theoretical-methodological consistency of many empirical works. At the same time, the critical mass produced in Brazil has depended on the influx of a number of international authors who seem to predominate for a time, in some cases with an effect of authority that prevails over their empirical relevance. Without ignoring the need to maintain the international debate, we believe that very often the works under elaboration can gain methodologically by debating the categories involved in similar experiences at local or global level, though without privileging particular authors a priori. Along these lines, the present text has sought to present itself as a small guide.</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>The need to amplify interdisciplinarity; this gain in the theoretical density of works depends strongly on an interdisciplinary or multidisciplinary work agenda, which considers the advances in research on personal archives in diverse areas, as we pointed out in reflecting on works that foreground the “dynamics of creation.” Along the same lines, we have observed that the kind of document privileged in the vast majority of studies that make use of personal archives is correspondence. Attention should be given, therefore, to the need to expand this spectrum of documents in historical research through the incorporation of book marginalia, reading cards and manuscripts, among the many other kinds of document available in personal archives.</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>The importance of historicizing theoretical-methodological categories. Beginning with the category of ‘intellectual’ itself, the repertoire of categories related to intellectual activities should be responsive to local historical mutations, especially at crucial moments of transformation, such as during the second half of the nineteenth century and throughout the twentieth when the trend towards specialization intensified.</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>As became clear in our item on intellectual ‘networks,’ research today tends to give more attention to the transnational and global. However, very often the use of personal archives in works on intellectual history, the history of historiography and similar fields in Brazil also tends to set out from a domestic agenda, with sources and/or research topics, authors and/or their texts explored from a national/local perspective (<xref ref-type="bibr" rid="B58">Santos et al., 2017</xref>, pp. 161-162). Many of the authors studied, including in various cases discussed or cited here (Oliveira Lima, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., etc.), were embedded in highly dynamic transnational networks. This posture can also help in the consolidation of transversal themes, which go beyond the focus on a specific author or work, still widely prevalent in Brazilian studies (including those of the authors of this article).</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>The need to consider the meta-history of archives and archival evidence. We seek to show that studies of personal documentation in Brazil have gained much by considering the layers of meaning socially produced over the course of the processes of transformation that inscribe the personal document.</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>Finally, we draw attention to the need to deepen a progressive and combative agenda implicated in the problems of the present: whether by examining socially engaged and democratic issues, such as the problem of authoritarianism and repression, or the history of women and other ‘minorities’ (as we suggested at the end of the section on the historicity of the relation between intellectuals and the public sphere), or by creating the bases for a better understanding of the huge changes seen in the production, selection and conservation of personal documents at a global level, including here the problems of the humanities in the digital age.</p>
						</list-item>
					</list>
				</p>
			</sec>
		</body>
		<back>
			<fn-group>
				<fn fn-type="other" id="fn2">
					<label>2</label>
					<p>“A conceituação de arquivos pessoais está embutida na própria definição geral de arquivos privados, quando se afirma tratar-se de papéis produzidos/recebidos por entidades ou pessoas físicas de direito privado. O que se pode aqui especificar é que, sendo papéis ligados à vida, à obra e às atividades de uma pessoa, não são documentos funcionais e administrativos no sentido que possuem os de gestão de uma casa comercial ou de um sindicato laboral. São papéis ligados à vida familiar, civil, profissional e à produção política e/ou intelectual, científica, artística de estadistas, políticos, artistas, literatos, cientistas etc. Enfim, os papéis de qualquer cidadão que apresente interesse para a pesquisa histórica, trazendo dados sobre a vida cotidiana, social, religiosa, econômica, cultural do tempo em que viveu ou sobre sua própria personalidade e comportamento” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">BELLOTTO, 2006</xref>, p.256). Camargo, no entanto, examina o sentido da expressão “arquivos pessoais”, observando que embora “se admita seu uso na comunidade arquivística brasileira, o mais correto seria dizer arquivos de pessoas (desta ou daquela pessoa, tratada individualmente) ou de categorias ocupacionais (de estadistas, de litetatos, de cientistas etc.), ao menos para não conflitar com três situações distintas, igualmente questionáveis, em que o epíteto é aplicado. Refiro-me aos documentos sobre pessoas, presentes nos arquivos institucionais, e, no âmbito dos documentos efetivamente acumulados por indivíduos, a parcelas específicas do arquivo: àquelas que não resultam do excercício de funções públicas e àquelas representadas por documentos identitários” (<xref ref-type="bibr" rid="B9">CAMARGO, 2009</xref>, p.28). Apesar da ressalva, adotamos aqui a terminologia consagrada.</p>
				</fn>
			</fn-group>
			<fn-group>
				<fn fn-type="supported-by" id="fn3">
					<label>1</label>
					<p>The authors thank the Coordination for the Improvement of Higher Level Personnel (CAPES), the Alexander von Humboldt Foundation at the Freie Universtät Berlin, PPG History at UERJ/Prociência Grant-Faperj and the Guita and José Mindlin Brazilian Library at USP for their various kinds of support during the research undertaken for this text and during its elaboration.</p>
				</fn>
			</fn-group>
			<fn-group>
				<fn fn-type="other" id="fn5">
					<label>5</label>
					<p>English version: David Rodgers</p>
				</fn>
			</fn-group>
		</back>
	</sub-article-->
</article>