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				<journal-title>Revista Brasileira de História</journal-title>
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					<subject>Resenha</subject>
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				<article-title>Iumatti, Paulo Teixeira. História, Dialética e Diálogo com as Ciências: a gênese de Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr. (1933-1942)</article-title>
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						<given-names>Leonardo Octavio Belinelli de</given-names>
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					<institution content-type="original">Doutorando, Universidade de São Paulo (USP), Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, São Paulo, SP, Brasil. belinelli.leonardo@gmail.com</institution>
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						<given-names>Paulo Teixeira</given-names>
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		<p>Como produzir uma grande obra de pensamento em um contexto periférico? É com essa pergunta que Paulo Teixeira Iumatti abre o seu <italic>História, dialética e diálogo com as ciências: a gênese de</italic> Formação do Brasil contemporâneo<italic>, de Caio Prado Jr. (1933-1942)</italic>, livro originado de sua tese de doutorado, produzida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade de São Paulo (USP) e concluída em 2001<italic>.</italic> De saída, cabe destacar a potência que o qualificativo “contexto periférico” dá à pergunta, pois afasta dela o idealismo próprio às posições que frisam o talento superior do indivíduo ou àquelas que acreditam numa espécie de circulação mundial igualitária de ideias. Já aqui a dimensão materialista, tão ao gosto do seu objeto, aparece com discreta precisão.</p>
		<p>Perseguindo sua indagação inicial, Iumatti apresenta uma pesquisa alentada. Embora partes dela já houvessem aparecido em outras publicações, inclusive na forma de livro (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Iumatti, 2007</xref>), a exposição da pesquisa completa revela um fôlego que talvez não se dimensione com facilidade e que requer do leitor certa paciência com a busca incessante pela comprovação, o que, se por um lado pode comprometer o prazer da leitura, é, por outro, próprio à verificação científica.</p>
		<p>Se situada historicamente, a pesquisa de Iumatti ganha um interesse não evidente. A partir dos anos 1990, surgiram trabalhos muito competentes sobre Caio Prado Júnior, entre os quais podemos destacar os de Bernardo <xref ref-type="bibr" rid="B5">Ricupero (2000</xref>)<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref> e Paulo Henrique <xref ref-type="bibr" rid="B3">Martinez (2008</xref>);<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref> na década seguinte, foi a vez de Lincoln <xref ref-type="bibr" rid="B7">Secco (2008</xref>). Na atual, Luiz Bernardo <xref ref-type="bibr" rid="B4">Pericás (2016</xref>) publicou uma biografia política de Prado Júnior, aliás já comentada por <xref ref-type="bibr" rid="B1">Iumatti (2016)</xref>. Cada um a seu modo, todos chamam a atenção para a dimensão criativa do pensamento de Caio Prado Júnior, caracterizado por Iumatti como “<italic>experimental, inquieto e iconoclasta</italic>” (p. 19, grifo no original). Embora não convenha a este texto, dadas as restrições que cabem a uma resenha, seria o caso de ler tal bibliografia em conjunto e de modo comparado, tendo em mente os motivos pelos quais Prado Júnior passou a ser resgatado por pesquisadores justamente em um momento no qual o marxismo estava “em baixa e passa[va] por ser uma ladainha” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Schwarz, 2014</xref>, p. 104). É razoável supor que a criatividade de Caio Prado Júnior fosse um dos motivos de tal resgate. Seja como for, vamos nos limitar a chamar a atenção para a <italic>forma</italic> com a qual Iumatti segue essa percepção e alguns de seus desdobramentos, pois é ela que articula os planos que conferem originalidade à sua pesquisa.</p>
		<p>A pista inicial é revelada logo no subtítulo do livro: em pesquisa muito detalhada e rigorosa, repleta de dados pouco conhecidos, Iumatti persegue o processo que deu origem ao livro mais importante de Caio Prado Júnior, <italic>Formação do Brasil contemporâneo</italic> (1942), tendo em vista “<italic>compreendê-lo em seus próprios termos</italic>” (p. 20, grifo no original).</p>
		<p>Os resultados da pesquisa são apresentados de acordo com uma forma que não tem nada de casual. O livro começa com um capítulo no qual são investigadas as condições que propiciaram o surto modernizante na cidade de São Paulo entre os anos 1930-1940 (capítulo 1) e termina com uma discussão sobre o problema do tempo no pensamento de Caio Prado Júnior (capítulo 7). Entre esses capítulos, há aqueles nos quais são investigados a importância de <italic>Formação do Brasil contemporâneo</italic> na historiografia brasileira e internacional (capítulo 2); os primeiros livros de Caio Prado Júnior e sua atuação na Faculdade de Direito (capítulo 3), marcados pelo evolucionismo marxista; os seus estudos de Geografia, Antropologia e Sociologia (capítulos 4 e 5), e aquele no qual se investigam a forma e o método de Prado Júnior na escrita de seu principal clássico (capítulo 6). Vista assim, percebe-se que a estrutura do livro parece conduzir ao estudo da <italic>introjeção</italic> das injunções <italic>externas</italic> à própria forma do livro. Ou seja: passamos das linhas históricas gerais (e no plano explicativo, mais abstratas) ao plano das particularidades - isto é, o modo pelo qual Prado Júnior incorporou em seu trabalho as circunstâncias vividas pessoal e coletivamente.</p>
		<p>Nesse caso, na argumentação de Iumatti é decisivo o sentido <italic>modernizante</italic> das práticas historiográficas de Caio Prado Júnior. Orientadas desse modo, elas se aliavam aos acontecimentos de sua época, como atesta a criação de universidades (especialmente a da Universidade de São Paulo) e instituições culturais, e mesmo um forte adensamento do mercado editorial. Além disso, teriam contado para a renovação do ambiente intelectual os desdobramentos éticos e estéticos do modernismo. Exemplo disso é a disseminação, iniciada nos anos 1920, de reflexões sobre questões referentes à integração social dos excluídos, as quais alimentaram nossa literatura e nosso pensamento social. No que se refere ao último, passava-se a prestar atenção aos impasses da população rural, tema de pesquisas e interpretações desenvolvidas entre os anos 1930 e 1940. Eis um dos pontos altos do livro, na medida em que a análise de Iumatti logra demonstrar como uma questão socialmente disseminada se converteu em tema de pesquisa de Prado Júnior, que a combinou com as discussões teórico-metodológicas feitas na USP e na Associação dos Geógrafos Brasileiros. Ou seja: como questões <italic>externas</italic> se convertem em dínamo <italic>interno</italic> de <italic>Formação do Brasil contemporâneo</italic>.</p>
		<p>No que se refere à escrita da obra, Iumatti demonstra, por meio do cotejamento entre relatos de viagens de Prado Júnior e passagens de seu livro, a forma como o autor vinculava seus estudos às suas viagens, momentos nos quais colocava em prática a teoria aprendida em suas leituras de História e Geografia. Uma forma que, se por um lado, destaca a dimensão <italic>pessoal</italic> do pesquisador, por outro relativiza-a, pois frisa a importância do conhecimento sobre as perspectivas dos objetos acerca dos quais escreve. Digamos que se trata de uma dialética peculiar, própria à prática científica que busca o <italic>concreto</italic>.</p>
		<p>Notando a complexificação que Caio Prado Júnior empresta ao problema das temporalidades no decorrer de sua obra, Iumatti encerra seu livro tratando da relação desse autor com Fernand Braudel e da forma como o historiador paulista trata a questão do tempo em <italic>Formação do Brasil contemporâneo</italic>. Esta, aliás, parece ser uma das boas sugestões da obra: entender a evolução intelectual de Prado Júnior a partir do problema do tempo em seu pensamento, tema que constitui um dos prismas pelos quais se pode averiguar a densidade de uma reflexão historiográfica. Agregue-se a isso a importância que a questão assume em um país periférico, ele mesmo costumeiramente regido por determinações desiguais e combinadas; o resultado será uma conjugação que repõe a pergunta com a qual Iumatti começou sua obra.</p>
		<p>Tendo tudo isso em vista, o livro de Iumatti é uma aquisição importante ao debate brasileiro sobre a história intelectual do país, com destaque para as áreas de história da historiografia e pensamento político e social brasileiro. Preocupado com a dimensão epistemológica do trabalho de Caio Prado Júnior, talvez se possa indicar que faltou ao livro destacar seu engajamento político, sem o qual ela parece abstrata. É bem verdade que talvez isso se deva ao fato de que o engajamento de Prado Júnior é um dos elementos mais destacados de sua personalidade, o qual, frequentemente, torna secundária a dimensão teórico-historiográfica de seu pensamento, elemento caro ao trabalho de Iumatti. Sorte a do leitor, que ganha com trabalhos ricos e com perspectivas diferentes.</p>
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			<title>REFERÊNCIAS</title>
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				<mixed-citation>IUMATTI, Paulo Teixeira. A biografia política de Caio Prado Jr. (Resenha). Revista Pesquisa Fapesp, São Paulo, n. 247, set. 2016. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://revistapesquisa.fapesp.br/2016/09/23/a-biografia-politica-de-caio-prado-jr/">http://revistapesquisa.fapesp.br/2016/09/23/a-biografia-politica-de-caio-prado-jr/</ext-link>.</mixed-citation>
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