Relato de Caso

Rosetas em angiossarcoma cutâneo: uma nova pista dermatoscópica

Rosettes in cutaneous angiosarcoma: a new dermoscopic clue

Larissa Daniele Machado Góes
Reference Center for Tropical Diseases of Amapá, Brazil
Júnior José Genival Alves de Macedo
Universidade Federal do Amapá, Brasil
Manoel Benjamim de Almeida Barbosa
Centro de Oncologia do Estado do Amapá, Brasil
Tayenne da Silva Gomes
Diagnóstika - Patologia Cirúrgica e Citologia, Brasil
Lisandro Ferreira Lopes
Diagnóstika - Patologia Cirúrgica e Citologia, Brasil

Rosetas em angiossarcoma cutâneo: uma nova pista dermatoscópica

Surgical & Cosmetic Dermatology, vol. 14, e20220136, 2022

Sociedade Brasileira de Dermatologia

Recepção: 20 Fevereiro 2022

Aprovação: 12 Maio 2022

RESUMO: O angiossarcoma cutâneo é um câncer raro, de mau prognóstico, que acomete principalmente idosos do sexo masculino. Está relacionado à exposição solar crônica, linfedema crônico e procedimentos com uso de radiação. Relatamos o caso de um homem de 62 anos com presença de tumoração violácea de crescimento progressivo na região temporal esquerda. A dermatoscopia demonstrou áreas eritematosas de diferentes tons, estruturas semelhantes à pseudo-aberturas foliculares e rosetas. A biópsia da lesão e a análise imunohistoquímica confirmaram o diagnóstico de angiossarcoma cutâneo. O paciente atualmente está em tratamento quimioterápico no serviço de oncologia com melhora significativa da lesão.

Palavras-chave: Dermoscopia, Hemangiossarcoma, Neoplasias cutâneas.

ABSTRACT: Cutaneous angiosarcoma is a rare cancer with a poor prognosis that affects mainly elderly men. It is related to chronic exposure to sunlight, chronic lymphedema, and procedures using radiation. We report a case of a 62-year-old man with a progressively growing violaceous tumor in the left temporal region. Dermoscopy showed erythematous areas of diferent shades, pseudo-follicular openings structures, and rosettes. The biopsy and the immunohistochemical study confirmed the diagnosis of cutaneous angiosarcoma. The patient is currently undergoing chemotherapy treatment in the oncology service with significant improvement of the lesion.

Keywords: Dermoscopy, Hemangiosarcoma, Skin neoplasms

INTRODUÇÃO

O angiossarcoma cutâneo (AC) é um tumor vascular maligno raro, agressivo e de mau prognóstico, representando cerca de 1,6% dos sarcomas de partes moles.1 De acordo com sua origem, pode ser classificado em angiossarcoma cutâneo associado a linfedema crônico (síndrome de Stewart-Treves), angiossarcoma cutâneo induzido por radiação e angiossarcoma cutâneo de cabeça e pescoço.2 O angiossarcoma cutâneo pode se desenvolver em várias regiões do corpo, como mama, face, couro cabeludo e membros.3 No entanto, mais da metade de todos os casos ocorre na cabeça e no pescoço, principalmente no couro cabeludo.2 A doença acomete mais frequentemente homens acima de 60 anos, correspondendo a cerca de 85% dos casos.4

Pesquisas indicam que a expressão exacerbada do receptor tirosina quinase e fatores de crescimento angiogênicos são responsáveis pela desregulação da angiogênese no angiossarcoma cutâneo.5 Quanto à localização, o angiossarcoma cutâneo primário ocorre preferencialmente na pele fotoexposta6 enquanto o angiossarcoma cutâneo secundário geralmente ocorre em áreas que já foram submetidas à radioterapia ou com presença de linfedema crônico. Outros estudos associam angiossarcoma cutâneo com xeroderma pigmentoso, imunossupressão e hemodiálise, devido à sua relação com a neovasculogênese.6

As lesões iniciais apresentam-se como áreas violáceas a azuladas mal definidas e com bordas endurecidas.7 Nesse estágio, a doença deve ser diferenciada de hematoma, rosácea, lúpus eritematoso e infecções como erisipela e celulite.7

A avaliação das estruturas vasculares das lesões cutâneas é aplicada em diversos campos, desde lesões tumorais, infamatórias e do couro cabeludo até a avaliação dos capilares das pregas ungueais em doenças do tecido conjuntivo.8 No entanto, a avaliação das variações de cor das lesões tem sido negligenciada.9

Os achados dermatoscópicos do angiossarcoma são escassos, sendo descritos principalmente em relatos de casos. Estes apresentam tons variados de eritema, desde áreas rosa-púrpura com zona central branca ou cor da pele até tom violáceo periférico;9 área homogênea avermelhada com linhas brancas;10 regiões vaporosas com área central branca ou cor da pele e uma periferia violácea;11 eritema róseo a violáceo com zonas perifoliculares brancas; área violácea homogênea à preta coberta por véu esbranquiçado; ou eritema violáceo difuso com tampões foliculares.12

A roseta é um sinal dermatoscópico visível à luz polarizada, caracterizado por quatro pontos brancos dispostos em forma de trevo de quatro folhas.13 Essas estruturas podem ser encontradas em lesões melanocíticas e não melanocíticas, não sendo patognomônicas de nenhuma dermatose.14,13 Uma série de 6.108 dermatoscopias ex vivo encontrou rosetas em condições variadas, como cicatrizes (6,4%), dermatofibroma (6%), molusco contagioso (5,9%), carcinoma espinocelular (4,0%), carcinoma basocelular (1,7%), melanoma (1,4 %) e nevos (0,7%).14 Uma descrição recente na literatura brasileira identificou rosetas no pseudolinfoma de células T.15

As modalidades terapêuticas utilizadas no tratamento do angiossarcoma cutâneo são cirurgia, radioterapia e quimiotera-pia.2 Entretanto, ele tende a metastatizar para linfonodos regionais e pulmões, geralmente após repetidas excisões cirúrgicas do tumor primário.16 O prognóstico é ruim, com sobrevida em cinco anos de 10% a 35%.17

RELATO DE CASO

Homem de 62 anos, sem comorbidades, apresentava tumoração violácea de crescimento progressivo na região temporal esquerda (Figura 1) há duas semanas, acompanhada de dor e edema local, sem história prévia de trauma. A dermatoscopia revelou presença de áreas eritematosas de tons variados, estruturas semelhantes a aberturas pseudofoliculares e rosetas (Figura 2). As hipóteses diagnósticas iniciais foram abscesso cutâneo, linfoma cutâneo primário de células T do tipo centro folicular e angiossarcoma. Foi instituída antibioticoterapia sistêmica e, após 14 dias, houve aumento significativo da lesão (Figura 3), infiltração da face e couro cabeludo e áreas de ulceração e sangramento.

Tumor violáceo na região temporal esquerda
Figura 1
Tumor violáceo na região temporal esquerda

Áreas eritematosas de tons variados, estruturas semelhantes a
                            aberturas pseudofoliculares e rosetas
Figura 2
Áreas eritematosas de tons variados, estruturas semelhantes a aberturas pseudofoliculares e rosetas

Tumor violáceo friável com ulceração central sobre área infiltrada na
                            fronte
Figura 3
Tumor violáceo friável com ulceração central sobre área infiltrada na fronte

A tomografia computadorizada do crânio mostrou formação extracraniana no polo frontal esquerdo sem invasão intracraniana. As tomografias de tórax, abdome e tomografia foram normais. As sorologias para HIV, hepatite B, C e sífilis foram negativas. O exame histopatológico da biópsia incisional da lesão evidenciou a presença de canais vasculares anastomosados de formato irregular revestidos por células atípicas e também células fusiformes e epitelioides com amplo citoplasma eosinofílico, núcleos com cromatina grosseira, nucléolo evidente e figuras mitóticas frequentes (Figuras 4a e 4b). A imunohistoquímica foi positiva para ERG (Figura 5) e CD31 (Figura 6) e negativa para HHV-8, confirmando o diagnóstico de angiossarcoma.

Cortes histológicos demonstram neoplasia dérmica infiltrativa,
                            formada por canais vasculares anastomosados irregulares revestidos por
                            células endoteliais atípicas. A citomorfologia é variável e pode ser
                            poligonal, fusiforme, epitelioide ou pleomórfica. Observam-se figuras
                            mitóticas frequentes, muitas delas atípicas
Figura 4
Cortes histológicos demonstram neoplasia dérmica infiltrativa, formada por canais vasculares anastomosados irregulares revestidos por células endoteliais atípicas. A citomorfologia é variável e pode ser poligonal, fusiforme, epitelioide ou pleomórfica. Observam-se figuras mitóticas frequentes, muitas delas atípicas

Imunohistoquímica positiva para ERG
Figura 5
Imunohistoquímica positiva para ERG

Imunohistoquímica positiva para CD31
Figura 6
Imunohistoquímica positiva para CD31

O paciente foi encaminhado ao serviço de oncologia, onde atualmente está em tratamento com quimioterapia intravenosa neoadjuvante com ifosfamida 1,8 g/m2, em cinco ciclos, combinada a doxorrubicina 75 mg/m2 a cada três semanas, associada ao fator de crescimento de granulócitos (G-CSF) 300 mcg/dia, via subcutânea, com dose diária dividida em cinco aplicações. Após o tratamento, foi observada melhora substancial da lesão (Figura 7).

Após cinco ciclos de quimioterapia neoadjuvante com ifosfamida,
                            doxorrubicina e fator de crescimento de granulócitos
Figura 7
Após cinco ciclos de quimioterapia neoadjuvante com ifosfamida, doxorrubicina e fator de crescimento de granulócitos

CONCLUSÃO

A descrição de rosetas em um angiossarcoma é, até onde sabemos, um novo achado dermatoscópico. Acreditamos que o compartilhamento dessas informações com a comunidade científica pode ampliar o leque de diagnósticos diferenciais de doenças dermatológicas caracterizadas pela presença de rosetas à dermatoscopia, possibilitando o diagnóstico e o tratamento precoce do angiossarcoma.

REFERÊNCIAS

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Notas

Fonte de financiamento: Nenhuma

Autor notes

Correspondência: Larissa Daniele Machado Góes Email: larissadaniele55@gmail.com

Declaração de interesses

Conflito de interesse: Nenhum
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