RESUMO: O edema tardio intermitente e persistente (ETIP) é uma reação inflamatória imunomediada decorrente da interação de fatores imunológicos e características intrínsecas do produto. Tal reação ocorre em geral após 30 dias e persiste enquanto houver ácido hialurônico (AH) no local. Vimos, por meio deste relato de caso, apresentar uma reação do tipo ETIP ocorrida após cinco anos da injeção do produto.
Palavras-chave: Reação a corpo estranho, Preenchedores dérmicos, Ácido hialurônico.
ABSTRACT: Persistent Intermittent Delayed Swelling (PIDS) is an immune-mediated inflammatory reaction resulting from the interaction of immunological factors and the product's intrinsic characteristics. Such a reaction generally occurs after 30 days and persists while hyaluronic acid (HA) is in the area. We present through this case report a PIDS-type reaction that occurred five years after the injection of the product.
Keywords: Foreign body reaction, Dermal fillers, Hyaluronic acid.
Relato de Caso
Edema tardio intermitente e persistente (ETIP) por preenchedor de ácido hialurônico: relato de complicação tardia
Persistent Intermittent Delayed Swelling (PIDS) caused by Hyaluronic Acid filler after five years: report of late complication
Recepção: 01 Maio 2023
Aprovação: 03 Agosto 2023
O edema tardio intermitente e persistente (ETIP) ocorre de forma transitória, recorrente e intermitente após preenchimento com ácido hialurônico (AH), caracterizado por edema não depressível e disseminado na região da aplicação do produto, com surgimento após 30 dias e persistente enquanto houver AH no local.1 O uso de ultrassonografia tem se mostrado uma valiosa ferramenta para o manejo de tal complicação.
Paciente, 59 anos, relatou início súbito de área dolorosa e elevada na região de transição palpebromalar esquerda, no mesmo local de aplicação de preenchimento de ácido hialurônico (ácido hialurônico 20mg/ml) para correção de olheira profunda, realizada há cinco anos com a mesma profissional. Negou episódios prévios semelhantes, bem como qualquer outro procedimento injetável na face, além de negar adoecimento ou vacinação nos últimos seis meses prévios à referida queixa. Ao exame físico, apresentava edema e eritema na região palpebromalar esquerda (Figura 1). Como complementação diagnóstica, foi realizada ultrassonografia (USG) da região, que demonstrou formação hipoecogênica, circunscrita e alongada localizada em meio ao tecido subcutâneo, medindo 1,8 x 0,4 x 0,3cm (volume estimado de 0,1ml), compatível com material exógeno, além de estruturas vasculares mediais à formação (Figura 2).


Devido ao relato de alergia à picada de abelha, foi contraindicado o tratamento com hialuronidase. Optou-se por ciclo curto e de baixa dose (<1mg/kg/dia) de prednisona 60mg/dia, por três dias e 20mg/dia por mais quatro dias mais massagem leve local. Evoluiu com melhora importante do edema e da dor após término do tratamento (Figura 3), permanecendo sem novos episódios semelhantes após dois anos da referida complicação (seguimento bimestral nos primeiros seis meses e semestral posteriormente).

O edema tardio intermitente e persistente secundário ao preenchimento de ácido hialurônico é uma reação inflamatória, de mecanismo ainda não totalmente esclarecido, mas com crescente evidência de interação imunológica e características intrínsecas do produto utilizado.2,3 Pode ser desencadeado por infecções virais ou bacterianas bem como após vacinação.4,5,6 Diversos estudos apontam complicações semelhantes ao ETIP, mas ainda não há sistematização definida por especialistas sobre as reações adversas ao AH.
A utilização de exames de ultrassonografia tem crescido na Dermatologia, sendo útil para implantação de AH e avaliação de complicações, sendo possível determinar a natureza do material injetado, comprometimento da vascularização adjacente e identificação de processos inflamatórios e/ou necrose, podendo ainda ser utilizado para a realização de biópsias e injeção guiada de hialuronidase e corticoides, tendo ainda a vantagem de ser um exame não invasivo e sem riscos ou desconforto para o paciente.7,8 O aspecto comum do AH na USG é o de uma formação ovalada, bem definida e anecoica, semelhante a cistos verdadeiros. No ETIP, observa-se AH na respectiva área edemaciada, com incremento da espessura e ecogenicidade do tecido subdérmico, correspondendo à paniculite.7,8
As condutas preconizadas entre especialistas incluem hialuronidase, corticoide sistêmico e intralesional e antibioticoterapia (na suspeita de biofilme associado), além de manejo expectante.9,10
Estudos anteriores, com duração entre dois anos11 e 68 meses12, relataram episódios compatíveis com ETIP, com um único caso de edema surgido após dois meses de tratamento11 e 23 casos de nódulos surgidos entre um e 13 meses após preenchedor.12 Como demonstrado no presente relato, tal complicação é possível enquanto houver AH no tecido, sendo necessários mais estudos observacionais de longo prazo, além de vigilância ativa dos profissionais injetores quanto à possibilidade deste evento.
Correspondência: João Victor Bezerra, Email: jvb.jvbezerra@gmail.com


