ESTUDOS DE CULTURA MATERIAL

Objetos mundanos e ofícios banais: desabilidade dos gestos e genealogia da exclusão moderna

Mundane objects and banal crafts: disability of gestures and genealogy of modern exclusion

Vinícius MELQUÍADES
Universidade Federal do Piauí, Brasil
Victória Carolina Pinheiro LOPES DIAS
Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil

Objetos mundanos e ofícios banais: desabilidade dos gestos e genealogia da exclusão moderna

Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, vol. 33, e15, 2025

Museu Paulista, Universidade de São Paulo

Received: 30 May 2024

Accepted: 14 February 2025

RESUMO: Através dos conceitos de materialidade, objetos mundanos e ofícios banais propomos uma reflexão sobre o potencial da arqueologia e dos estudos de cultura material na percepção de genealogias da exclusão moderna. Utilizaremos, para tal, nossas etnografias desenvolvidas com artesãos que confeccionam panelas de pedra-sabão na região de Ouro Preto e Mariana (Minas Gerais), enfatizando ser este um ofício indisciplinado e percebendo as sociabilidades das quais participam artesãos e artefatos que, no caso em questão, é marcado por um abandono ontológico. A partir da materialidade e do processo de constituição mútua que caracterizam as relações coletivas, portanto também sociais, foi possível perceber estigmas das atividades manuais e da desabilidade dos gestos que contribuem com a invisibilidade ou marginalização de seres humanos (artesãos) e materiais (panelas de pedra) desde o período colonial brasileiro até os dias de hoje. Atualmente, esse processo se manifesta na maneira como os museus tratam e expõem os artefatos e as panelas de pedra-sabão, além de questões políticas e de legislação que afetam as comunidades de artesãos.

PALAVRAS-CHAVE: Arqueologia do mundo moderno, Estudos de cultura material, Estudos de materialidade, História de Minas Gerais, Artífices e artesãos, Panelas de pedra-sabão.

ABSTRACT: Through the concepts of materiality, mundane objects, and banal crafts, we propose a reflection on the potential of Archaeology and Material Culture Studies in the perception of genealogies of modern exclusion. We will use our ethnographies developed with craftsmen who make soapstone pots in the Ouro Preto and Marina regions of Minas Gerais, Brazil, emphasizing that this is an unofficial occupation. We will explore the sociabilities in which both craftsmen and artifacts participate, noting that this occupation is marked by an ontological abandonment. Through the materiality and mutual constitution processes that characterize collective and social relations, it was possible to identify stigmas associated with manual activities and the disability of gestures, indicating the invisibility and marginalization of both humans (craftsmen) and materials (soapstone pots) from the colonial period to the present day. Today, this process is manifested in how museums treat and display the soapstone pots, as well as in political and legislative issues affecting artisan communities.

KEYWORDS: Archaeology of Modern World, Material Culture Studies, Materiality Studies, History of Minas Gerais, Craftsmen an Artisans, Soapstone Pots.

INTRODUÇÃO

De artesãos a geólogos, é comum ouvirmos que a pedra-sabão1 é boa para trabalhar. Suas qualidades e propriedades, tais como a maleabilidade, a dureza, as capacidades térmicas, a absorção e liberação de materiais, a resistência ao choque, a “raridade” de pedreiras e das fontes de matéria-prima, demonstram uma versatilidade de capacidades que compõem sua materialidade e colaboram com sua vida, circulação, múltiplos (re)usos, além de seus sentidos e significados, e de sua marcante presença e persistência no tempo e no espaço.2

No Brasil, a pedra-sabão esteve bastante presente na consolidação de políticas públicas de patrimônio cultural durante a primeira metade do século XX. Esse processo de consolidação esteve associado ao Movimento Modernista brasileiro, passando pela criação do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN, posteriormente Iphan) em 1934, às leis de proteção, registro e salvaguarda de bens patrimoniais (materiais e imateriais), e à perspectiva ampliada de patrimônio cultural conquistada com a Constituição Federal de 1988, entre várias outras questões e desdobramentos que chegam ao presente.

Junto à arquitetura e às obras de arte de Aleijadinho, mestre do Barroco mineiro, a pedra-sabão foi e é diariamente exaltada e eternizada como patrimônio mundial da humanidade. Obras como o frontispício da Igreja São Francisco de Assis (Ouro Preto) e os profetas do Santuário de Bom Jesus do Matozinhos (Congonhas do Campo), que incorporam Aleijadinho e o Barroco mineiro, foram tombados em 1938 e em 1939, por exemplo.

Em 1927, mais de uma década antes, foi publicada no Boletim do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio do Rio de Janeiro, pelo químico alemão Oskar von Burguer, uma análise feita com base na observação da produção de panelas de pedra-sabão na comunidade de Cachoeira do Brumado (Mariana, Minas Gerais), a mesma na qual o presente estudo foi desenvolvido há alguns anos. Na publicação de 1927, constam desenhos do torno hidráulico e de parte do processo produtivo, além de identificações e categorizações que (re)afirmam a baixa capacidade e qualidade técnica dos artesãos e artefatos, a precariedade na organização e nas relações com o mercado, a mobilidade e a intermitência produtiva enquanto marcantes de uma produção com baixo potencial para o comércio e inadequação a parâmetros estabelecidos pela modernidade.3

Um momento e processo marcadamente importante de construção de uma genealogia da exclusão moderna em torno das panelas de pedra-sabão, portanto, é a primeira metade do século XX, com os processos de patrimonialização e a instituição de políticas públicas sobre o patrimônio cultural no Brasil, quando elas ficam nas fronteiras ou à margem dos patrimônios culturais brasileiros, situação que permanece até os dias atuais.

Além deste, no entanto, serão também abordados outros contextos espaço-temporais na região do quadrilátero ferrífero mineiro entre os séculos XVIII e XXI, dialogando com os conceitos de objetos mundanos4 e de ofícios banais,5 que se unem a outras perspectivas e metodologias - das quais destacamos a etnoarqueologia e as etnografias arqueológicas, a arqueologia do mundo moderno e contemporâneo, e os estudos de cultura material - para a percepção do estigma da desabilidade dos gestos que marcou e ainda marca artesãos e artefatos, e que, levado ao extremo, pode chegar a violências epistêmicas e ao abandono ontológico.6

Além de boa para talhar, portanto, também consideramos a pedra-sabão boa para pensar!7 Pensar com os materiais e as pessoas durante e sobre a produção e circulação das panelas de pedra-sabão em Minas Gerais pode nos levar a percepções sobre as formas como as materialidades participam da vida cotidiana e comum, e como essas manifestações e eventos cotidianos se relacionam individual e coletivamente formando redes ou malhas abertas. Como as articulações e emaranhamentos entre pessoas e coisas, de uma maneira geral, e artesãs/ãos e artefatos, especificamente, se (des)envolvem? Por mais que inicialmente sejam simples e amplas, essas questões nos trazem reflexões e mostram possibilidades de construções e narrativas que considerem atores ou agentes até então desconsiderados.

Nesse sentido, nos valemos de nossas etnografias feitas na comunidade de artesãos atuais de Cachoeira do Brumado (Mariana, MG), da análise técnica e tecnológica dos artefatos presentes nas coleções de museus e instituições de pesquisa, do estudo de documentação primária, dos processos de patrimonialização e de musealização, para a construção da abordagem. Destacamos que alguns artesãos escultores da mesma região relatam que no passado produziam também suas próprias panelas e que, portanto, também serão considerados na presente pesquisa sem desconsiderar, no entanto, as suas especificidades.8

“NO RITMO ANTIGO”: ALGUMAS TÉCNICAS E TECNOLOGIAS

Atualmente, a produção de panelas de pedra-sabão em torno elétrico se sobressai ao hidráulico. Em Cachoeira do Brumado, este último é feito apenas em uma oficina, pelo artesão Geraldo Teixeira (Gegê), mestre artesão atualmente com mais de setenta anos e que começou a fazer panela de pedra ainda criança. Em diferentes momentos etnográficos,9 Gegê afirmou que sua produção de panelas de pedra segue o “ritmo antigo”10, dos seus pais e avós, do torno hidráulico e do manejo hídrico, fazendo referência clara e direta à temporalidade e ao movimento associados às transformações engendradas pela participação/instituição de novos elementos, como, neste caso, a eletricidade e a água. Refere-se também ao ritmo das atividades desenvolvidas no lugar que também se transformam em sons através dos gestos e interatividades dos artesãos com os elementos e materiais.

Durante o desbaste e a lapidação, por exemplo, o som da ferramenta batendo na pedra é pontual e em ritmos com intervalos relativamente constantes. Já durante o torneamento, o som da ferramenta em contato com a pedra no torno é constante e agudo, variando com a velocidade de rotação da roda e os gestos do artesão, caso o torno seja elétrico ou hidráulico. O som constante da água girando a roda do torno se distancia marcadamente do som do torno elétrico.

O “ritmo antigo” é indicativo também da presença do torno hidráulico, variando de acordo com a participação ou não de uma polia de metal para fixação da pré-forma. Outros ritmos consistem nos tornos elétricos e consideram a organização (familiar ou industrial) e a participação de outros maquinários (serra policorte, entre outros).

É importante destacar que, enquanto sincronicamente temos a produção em torno hidráulico sem a polia de metal, posteriormente com a polia de metal, daí para a elétrica familiar e industrial, terminando com as de alta tecnologia. Diacronicamente, temos uma série de habilidades, gestos, técnicas e tecnologias multitemporais se manifestando simultaneamente nos diferentes lugares e eventos. Diferentes gestos e etapas da cadeia operatória de confecção dos artefatos compartilhados em diferentes tempos e espaços com pessoas com diversas habilidades, saberes e fazeres. Assim, há várias técnicas e tecnologias em convívio e nuances de relações que se alteram com a participação de novos atores, elementos e materiais.

No “ritmo antigo”, a confecção de panelas de pedra começa com a edificação da oficina e do torno, envolvendo a escolha e o preparo do terreno, a abertura de canais d’água, a construção de cercas, muros, coberturas e do próprio torno, composto por roda d’água, eixo, correia de couro, entre muitos outros detalhes de encaixe e funcionamento. As oficinas e tornos, em muitos casos, eram/são herdadas ou compradas.

A localização e mobilidade das oficinas, portanto, está fortemente associada a esses diferentes atores, elementos e materiais que participam dessas relações e agenciam coletivamente sua instituição. Por exemplo, a proximidade com cursos d’água e com as fontes de matéria-prima são fatores relacionados, pois há necessidade de abertura de canais de água para movimentar o torno, e os blocos de pedra eram carregados das pedreiras para as oficinas pelos artesãos ou por intermédio de animais de carga, como burros e mulas.11 Outro fator a ser considerado é a presença da matéria-prima e a escolha pelos veios e pedreiras de acordo com os parâmetros e conhecimentos dos artesãos, que optam preferencialmente por afloramentos rochosos e pedras que contenham menos impurezas, como a pirita (FeS2). A descrição feita no início do século passado é indicativa de ritmos de atividades que são termômetro para o quão dinâmico e móvel poderia ser o trabalho nas oficinas de pedra-sabão.

Acabado o veio de onde se extrai a matéria-prima ou encontrado qualquer dificuldade, por exemplo, uma pedra mais dura ou menos homogênea, o fabricante de panelas desmonta simplesmente sua oficina e move-a para um outro lugar, a pequena distância, onde acha uma jazida de fácil exploração.12

A alavanca ou o ferro de torno (Figura 1) é uma ferramenta de extrema importância que participa de todo o processo de confecção, desde a coleta de matéria-prima até o acabamento. Por isso, o artesão conta com uma coleção de ferros de torno que têm entre um e um metro e meio de comprimento, com diferentes tipos de ponta em ambas as extremidades.

Ferro de torno.
Figura 1
Ferro de torno.
Fonte: acervo dos autores (2017).

Após trabalhar a face externa do bloco, o artesão remove, com os mesmos gestos e ferramenta, quase todo o preenchimento interno, deixando apenas um cilindro central, chamado por eles de poste ou torre, que auxiliará na fixação da pré-forma no torno. Enquanto na produção hidráulica atual o fundo da pré-forma se prende à polia de metal por pressão, no passado a correia era presa à própria pré-forma, no botão confeccionado em sua base.

A diferença básica é que na produção hidráulica descrita em 1927 e observada através das coleções, a pré-forma se prende diretamente à correia, e não por intermédio do disco de metal, como percebido atualmente. Já nos tornos elétricos há possibilidade de que as pré-formas tenham seus fundos colados no disco de metal, não havendo a necessidade de confecção nem do botão e nem da torre para a fixação no torno. Novamente, a maneira como determinados elementos e materiais (ferro, madeira, água, pedra, entre outros) participam da confecção das panelas, compõe as técnicas que chegam aos gestos e habilidades.

Na produção elétrica atual não há a necessidade da torre, já que os blocos são colados no torno e possibilitam um ângulo de torneamento livre, aberto, o que aumenta a possibilidade de formas dos artefatos.13 No “ritmo antigo” havia e há essa necessidade, o que restringe as possibilidades formais. Oskar von Burguer cita uma restrição formal ao afirmar que “fabrica-se quase exclusivamente um único tipo com ligeiras variações na forma e no tamanho”14. Portanto, a utilização de um disco de metal ao qual a peça é presa no torno por pressão e atrito gera transformações técnicas e tecnológicas significativas.

As transformações tecnológicas neste caso estão associadas ao afastamento de elementos, materiais e suas materialidades participantes na confecção dos artefatos (como a pedreira e a água) e aproximação com outros (como os metais e a eletricidade). Visto que há uma permuta de características e propriedades entre os seres (artesãos e artefatos) que participam das relações, as qualidades dos materiais e elementos ausentes não são mais acionadas, pois participam como realidades exteriorizadas.15 Por outro lado, os novos materiais são instituídos e passam a participar da produção. Isso chega às habilidades, às técnicas e corporalidades dos artesãos, agindo também sobre seus modos de saber e fazer, de vida e existência.

Não obstante a sutileza das transformações descritas, elas nos remetem a gradações nas relações das ontologias mecânicas.16 Considerando os ritmos de produção de panelas de pedra-sabão, é possível perceber que “[…] a transição da técnica para a tecnologia, no nível do conhecimento, tem sua contrapartida, no nível dos instrumentos materiais, na transição da ferramenta para a máquina” e que “a tecnologia foi removida da esfera do conhecimento e da experiência pessoal dos profissionais, de modo que a máquina chegou a representar independência das operações técnicas a partir da sensibilidade humana”17. No caso da produção industrial e com alta tecnologia, há um afastamento do processo criativo do artesão e, de um modo geral, “a evolução do dualismo clássico de tekhnê/mêkhanê para o dualismo moderno da tecnologia/máquina” que caracteriza o deslocamento do “sujeito humano - tanto como agente quanto um repositório de experiência” do centro para a periferia do processo laboral.

No entanto, enquanto no esquema apresentado por Ingold há um deslocamento do ser humano produtor (subjetividades, conhecimentos, experiências, sensibilidades) do centro para a periferia das relações, no caso em questão os artesãos aparentemente se mantêm na área central do esquema. Mesmo com as mudanças tecnológicas trazidas pelos tornos elétricos, não há uma transição completa das técnicas para as tecnologias nem das ferramentas para as máquinas. Em Cachoeira do Brumado elas aparentemente ocorrem e se manifestam simultaneamente e de maneira relacional.18

Isso tem três implicações iniciais. A primeira está relacionada ao fato de que, no caso específico das panelas de pedra, o uso de novas máquinas e tecnologias na maioria dos casos ainda não excluiu a centralidade dos artesãos, mesmo modificando sua participação. A segunda consiste em perceber essa produção como uma atividade não totalmente tecnológica e industrializada, aproximando-a de uma produção e fazer artesanal, simultaneamente tradicional e moderno.19 O terceiro ponto consiste em demonstrar que o que permanece no centro das relações, junto aos artesãos, é a pedra-sabão, a partir da qual se desenvolvem técnicas e tecnologias, ferramentas e máquinas. Esse ponto torna-se importante, pois segue em consonância com a virada ontológica e retoma o papel fundamental dos materiais e suas materialidades nos processos de constituição mútua que caracterizam as relações técnicas. Além disso, é possível perceber que parte dos resultados da produção volta a ser a constituição mútua de pessoas e coisas, e as habilidades e as técnicas aparecem como “propriedades de todo sistema de relação constituído pela presença do agente (seja humano ou não humano)”20.

Dentro dessa dinâmica de elementos, materiais e materialidades nas oficinas de panelas de pedra-sabão, as técnicas e tecnologias parecem ser mais bem compreendidas em função da redistribuição de capacidades entre os seres. Tecnologia, nesse caso, pode ser percebida em uma rede itinerante de ações redistribuindo competências e performances entre os seres a fim de formar uma associação mais duradoura entre humanos e materiais para resistir às múltiplas interpretações de outros atores que tendem a dissolver essa associação.21

A partir dessas concepções e compreendendo as técnicas, gestos e corporalidades relacionadas à produção de panela de pedra dentro das relações coletivas, portanto também sociais, o tópico seguinte tratará da abordagem sobre os ofícios mecânicos em Minas Gerais.

APONTAMENTOS SOBRE OS OFÍCIOS MECÂNICOS EM MINAS GERAIS: OBJETOS MUNDANOS E OFÍCIOS BANAIS

O termo “oficiais mecânicos” surge no final do século XVI para se referir a pessoas que se dedicavam ao exercício de atividades manuais.22 Envolve, portanto, todas as profissões manuais e seus praticantes eram marcados socialmente com o “defeito mecânico”23.

Essas relações com os trabalhos manuais, estigmatizadas através do defeito mecânico, chegaram a Minas Gerais com a colonização europeia e a crescente exploração mineral. Ao lado da subalternização - também política - dos oficiais mecânicos, o conceito de defeito mecânico é bastante presente nas considerações sobre as ações dos artesãos nesses contextos, correspondendo a um “preconceito, que marcaria a atividade manual, e um rol de justificativas culturais para a sua fundamentação na cultura lusa”24.

Junto à intensificação dos ritmos da colonização na região das Minas Gerais no século XVIII, há uma diversificação econômica e aumento na demanda por atividades e produtos de uso cotidiano ligados a trabalhos manuais diversos. Com o intuito de manter o controle dessa produção e circulação, junto à manutenção da ordem social e controle de mercado, surge uma burocracia baseada em documentos necessários para o exercício de tais atividades.25

Nas certidões e cartas de exame constam as atividades que a pessoa está apta a executar, e as licenças e regimentos deviam ficar expostos nas tendas, lojas e oficinas à disposição da fiscalização e dos clientes e usuários dos serviços.26

Essas e outras condutas por parte do governo tinham como objetivo normalizar, disciplinar e controlar as atividades (incluindo gestualidade e corporalidade) e os produtos dos oficiais mecânicos, assim como os locais, o tempo, as ferramentas de trabalho, a circulação e o valor dos produtos. Nesse contexto, toda a atividade praticada está sujeita à “fiscalização das corporações de ofícios e das Câmaras, através dos Juízes dos ofícios e dos funcionários da vereança, almotacés e escrivães”27.

Diversos ofícios mecânicos na região das Minas Gerais nos séculos XVIII e XIX - tais como alfaiate, barbeiro, cabeleireiro, carpinteiro, canteiro, cuteleiro, cerqueiro, escultor, espadeiro, espingardeiro, ferrador, ferreiro, latoeiro, marceneiro, oleiro, ourives, pedreiro, sangrador, sapateiro, seleiro, serralheiro, torneiro, entre outros, tinham seus ofícios disciplinados e controlados.

A examinação é apontada como momento primordial, pois “é um enquadramento preventivo na ordem e no funcionamento do mundo do trabalho” e “normalizada nos regimentos de ofícios”28. Os exames consistem na realização de uma ou mais obras que permitam aos juízes avaliar os processos de aprendizagem, habilidades, capacidades e resultados das atividades desenvolvidas e performadas.

Estudos apontam que, na medida em que o colonizador não superou a aversão aos trabalhos manuais, é também através dessas atividades “que há possibilidades de inserção de determinados grupos no quadro social, inclusive com certa mobilidade”29.

A historiografia mineira e brasileira, baseada em robusta pesquisa com documentos primários oficiais, tem apontado já há algum tempo especificidades e maneiras pelas quais as pessoas envolvidas com atividades manuais (artífices e artesãos ligados a ofícios diversos) participaram da malha social nos séculos XVIII e XIX. Essas pessoas deram vida - também material - a processos e eventos cotidianos essenciais para o andamento do mundo comum, sendo, portanto, componentes essenciais de nossas histórias, memórias e culturas.

Parte desses estudos abordam a existência de uma Cultura dos Ofícios que tem suas raízes na Europa, que perdurou na longa duração e que atualmente é parte de nosso patrimônio cultural.30 Segundo Maria Eliza Linhares Borges, a Cultura dos Ofícios pode ser definida como

[…] um conjunto de modos artesanais de produzir, pautados por regras, saberes, gestos, valores, crenças, comportamentos e rede de sociabilidades específicas. Em meio a variações, ambiguidades, tensões e oposições, ela engendrou um modo social próprio e crucial para o funcionamento longevo das sociedades pré-industriais no Ocidente e no Oriente. Assim concebida, a Cultura dos Ofícios não se limitou ao universo das corporações e confrarias/irmandades. Também incluiu os artesãos que atuavam autonomamente dentro e fora das fronteiras dos Impérios Europeus.31

Ainda segundo a autora, trata-se de um fenômeno cuja durabilidade e variabilidade estariam associadas ao binômio tradição e inovação, e parte dela teria se transformado na Cultura Operária com o advento do Neoliberalismo no século XX. Na produção de panelas de pedra-sabão em Cachoeira do Brumado, atualmente há coexistência dos dois fenômenos, de manutenção de uma proximidade com a Cultura dos Ofícios, como o caso do artesão Gegê e do “ritmo antigo”, por exemplo; e com a Cultura do Operariado, como nas oficinas/indústrias nas quais há divisão do trabalho, por exemplo. Nesse caso, fica evidente que não há uma sobreposição, mas uma história de relação, com gradações e manifestações diversificadas. Indica também que, se há uma transição de uma para outra, as panelas de pedra se encontram no lugar e momento em que ambas podem ser percebidas em coexistência.

O conceito de Cultura dos Ofícios deve ser considerado

[…] tanto por seus atributos recorrentes, quanto por aqueles que quebram suas regularidades. Dentre os atributos que dão identidade à Cultura dos Ofícios destaca-se seu ethos. Fundada numa rígida hierarquia social, constituída por mestres, artífices e aprendizes, ela pressupunha um longo aprendizado (que podia variar de 2 a 10 anos, dependendo do ofício) de saberes que requeria habilidades específicas, inclusive com a domesticação do corpo para lidar com os instrumentos de trabalho. Estes saberes eram segredos (mistérios) transmitidos oralmente e na prática cotidiana, de geração em geração.32

Mesmo que seja necessário relativizar a rigidez desse ethos, na medida em que as próprias transformações e inovações são consideradas pela Cultura dos Ofícios, são latentes as agências de artesãos e artefatos nos diferentes contextos espaço-temporais. De início, nos referimos ao conceito de agência em sua concepção mais simples e inicial, conforme já utilizada no final do século passado pela arqueologia e pelos estudos de cultura material. Ou seja, se referindo às capacidades de ação (também cotidiana, social e política) de coletivos humanos (grupos sociais) e suas relações, envolvimentos e emaranhamentos com grandes estruturas, das quais são simultaneamente sujeito e objeto. Agência, nesta concepção, “é uma manipulação de uma estrutura existente, uma estrutura que é externa ao indivíduo no sentido durkheimiano e que se apresenta ao agente como um construto sincrônico, algo a ser delineado a partir dele”33. No âmbito dos estudos de cultura material e da arqueologia, diversas concepções de agência são utilizadas, entre as quais destacamos a que compreende a agência dos artefatos34 como extensão de seus produtores; e a virada ou o retorno material que tem levado a uma ampliação conceitual vinda da materialidade.35 Uma incursão sobre esses conceitos e concepções, no entanto, requer muito mais do que seria possível colocar neste artigo e será deixado para outra ocasião. Em substituição ao estudo bibliográfico detalhado da história de vida e aplicabilidade das diferentes concepções de agência e materialidade, o texto aqui apresentado priorizou a apresentação de um estudo de caso que demonstrasse como se deram parte dessas transformações conceituais.

Retornando aos historiadores, as pesquisas abordam também o estigma do defeito mecânico que teria marcado (e, em nossa opinião, em alguns casos ainda marca) as pessoas envolvidas diretamente na atividade manual nos séculos passados, aos quais acrescentamos o tempo presente. Ao abordar o defeito mecânico em sua relação com percepções de trabalho, Guedes36 pontua que “o trabalho propicia espaços de ascensão social” e que “o defeito mecânico, o rebaixamento da posição social dos oficiais mecânicos e comerciantes e os valores depreciativos do trabalho” não podem ser percebidos como “estáticos, sem alteração no tempo e no espaço. São pontos de partida, não de chegada”37.

Partindo deste estigma do defeito mecânico, as abordagens atentam para as inserções dos artesãos nas redes de sociabilidade e demonstram muitos casos de enriquecimento, mobilidade social, conquista de alforria, organização e ação política, educação e aprendizado, entre muitas outras questões vinculadas às atividades manuais e artesanais, aos saberes, aos fazeres e, claro, aos materiais e suas materialidades. Neste contexto, a agência, em suas diferentes concepções, das pessoas junto com os artefatos, é potente e pode ser percebida como possibilitadora de experiências de liberdade dentro do regime escravista brasileiro. Antes, demonstraram uma intensa e constante troca entre os participantes, no caso dos historiadores com atenção especial aos coletivos e mobilidade social, ação política na época, enriquecimento, classe, cor, gênero, entre muitas outras.

Um dos muitos exemplos de mobilidade dados pelo historiador José Newton de Meneses foi de um abastado carapina de Santa Luzia (Minas Gerais), que:

Para aproveitar produtivamente suas posses e os seus saberes ele possui 31 escravos, entre homens e mulheres, jovens e velhos. Alguns ajudam com seus jornais e outros trabalham em suas terras e na oficina. O escravo José, preto Mina, de 35 anos, trabalha no ofício de barbeiro, “como se livre fosse”, e lhe atende com o jornal combinado. Como o seu dono, José é artesão de ofício que lhe possibilita ganhar a vida, sustentar o senhor e assegurar, um dia, a sua liberdade.38

A “inserção e mobilidade social”, nestes casos, não são características exclusivas do humano artesão se não relacionada aos artefatos (através de suas materialidades) e aos modos de saber, fazer e viver. Portanto, é possível apontar que, assim como as técnicas de produção, as mobilidades são compartilhadas entre pessoas e coisas, e que podem permutar propriedades e qualidades enquanto vão adiante juntos. Ao comentar um debate entre Pierre Lemonnier39 e Bruno Latour40 em torno da agência e/ou agentividade de humanos e armas de fogo, Knappett41 pondera que as duas coisas têm que ser consideradas juntas, que “os dois se levam adiante”, “que o agente ativo não é nem o humano, nem a arma, mas um humano com a arma” e que “qualquer tentativa de isolar qualquer elemento individual é sem esperança”.

Na busca de documentação histórica sobre os ofícios mecânicos na região (Minas Gerais) e períodos estudados (séculos XVIII e XIX) que pudessem fazer referência às panelas, às vasilhas e aos utensílios de pedra-sabão, foram feitas prospecções no Arquivo Público Mineiro (APM), em Belo Horizonte; no Arquivo Histórico da Casa do Pilar (AHCP), em Ouro Preto; no Arquivo Público Municipal de Ouro Preto (APMOP); e no Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Mariana (AHCMM).42

Visto que na bibliografia ou na documentação histórica consultada não foram encontradas referências sobre a produção de panelas de pedra-sabão, somada às características das oficinas, dos materiais e da produção, defendemos a hipótese de que a atividade de artesãos paneleiros foi um ofício não oficial, indisciplinado. Diferentemente dos ofícios mecânicos regulamentados, formalizados e normalizados, muito provavelmente não havia necessidade de licença para a confecção e troca ou venda de panelas de pedra, talvez pela falta de interesse do governo e/ou baixo custo de mercado, talvez pelas dinâmicas de associações que envolvem artesãos e artefatos.

Não havendo encontrado documentação histórica, parte das contribuições de nossas pesquisas foi trazer à tona personagens que não são visíveis na documentação histórica, tais como os artesãos e as panelas de pedra. Neste sentido, “os documentos de época revelam que as atenções dos oficiais camaristas se centravam sobre um grupo especial de ofícios, nitidamente àqueles que eram mais requisitados”43. Mesmo na historiografia que trata das artes e ofícios mais requisitados e recorrentes, o acesso a determinados aspectos do modo de vida dos artesãos e oficiais mecânicos nos séculos XVIII e XIX é dificultado pela documentação existente.44 Neste ponto, destacamos o potencial da arqueologia e dos estudos de cultura material em suprir algumas dessas lacunas.

Ao abordar os ofícios banais, Meneses45 toma a banalidade como “o caráter de ser trivial, vulgar, corriqueiro, cotidiano, sem perder, com isso, a característica de utilidade”, sendo essencial e relacionado a “necessidades reais indispensáveis” à qualidade de vida. “Seu uso corrente o torna, muitas vezes, imperceptível a uma averiguação intelectual sem, contudo, o tornar menos importante por isso”46. Pierre Lemonnier47 define como objetos mundanos aqueles que parecem comuns para o ser humano porque não são considerados “rituais”, “arte” ou construtores de identidade, nem que eles contêm algum tipo de agência ou “poder encapsulado”.

Incorporando criticamente esses conceitos, pensando junto e partindo da materialidade das panelas de pedra, é possível acompanhar, mesmo que parcial e pontualmente, aspectos das relações vividas. Os gestos e as técnicas de confecção indicam habilidades, conhecimentos e experiências de vidas compartilhadas, bem como engajamentos com os materiais e artefatos que podem ser porta de entrada para os estudos sobre ofícios mecânicos, atividades manuais, saberes e fazeres artesanais desde a invasão europeia até os dias de hoje. No caso da produção de panelas e artesanatos de pedra-sabão em Minas Gerais, materiais, gestos, corporalidades e outros elementos, habilidades e conhecimentos circulam e são compartilhados com outros ofícios mecânicos e trabalhos manuais.

MATERIALIDADES, HABILIDADES E GESTOS COMPARTILHADOS

No caso das panelas de pedra-sabão, quando a extração da matéria-prima é feita de maneira direta, o artesão segura a alavanca de ferro com as duas mãos e estica e dobra os cotovelos, movimentando também ombros e braços, gerando uma sequência de gestos que lapida o bloco, retirando-o da pedreira. Em se tratando da confecção de artefatos maiores, há utilização de uma serra ou serrote.48 Os gestos (desbaste e entalhe), as ferramentas (ferro de torno, alavanca ou serrote) e as maneiras como se extrai a própria matéria-prima (pedra) sugerem uma aproximação inicial com os ofícios de pedreiros e canteiros.

Os retoques para fixação da pré-forma no torno apontam no mesmo sentido, na medida em que, no topo da torre, esses acabamentos envolvem gestos precisos com a ponta da alavanca para a confecção de um umbigo no qual será acoplada a rolha. Para a confecção desse umbigo, além da utilização da alavanca de ferro, também há utilização de puas ou puás (Figura 2). Elas são feitas com material abundante no local, como couro, madeira e a própria pedra-sabão, havendo apenas uma pequena ponta de ferro. Na extremidade inferior do eixo vertical, está a ponta de ferro e, em alguns casos, logo acima dela há um disco de pedra-sabão que empresta seu peso para o funcionamento da ferramenta, indicando um fluxo de propriedades entre os materiais.

Puas ou puás.
Figura 2
Puas ou puás.
Fonte: acervo dos autores (2017).

A participação da pua na confecção das panelas de pedra-sabão traz consigo características potencialmente compartilhadas com outras atividades e ofícios mecânicos pois é um “instrumento de marceneiro e carpinteiro, que fura”49. A utilização de um compasso, também ligado a atividades de cantaria, marcenaria, entre outras.

Relacionando os gestos e as técnicas às habilidades dos artesãos paneleiros, aparentemente a produção esteve e está ligada a conhecimentos e experiências híbridas e compartilhadas com outras atividades manuais, artesanais e/ou outros ofícios mecânicos. Somam-se à equação as atividades relacionadas à construção e ao uso da oficina, tais como a escolha do local, a construção dos canais e do torno hidráulico, marcando relações de encontros, desencontros e reencontros com as paisagens.50

Sobre o torno hidráulico utilizado por Gegê, destaca-se que sua estrutura e funcionamento se aproximam de tornos de marcenaria.51

Em Cachoeira do Brumado, a história do tropeirismo também se confunde com a das panelas de pedra-sabão, sendo recorrente nas falas de moradores, de artesãos e de tropeiros a existência de famílias e pessoas que trabalhavam em ambas as atividades, e de uma relação bastante próxima entre elas. Um morador de Cachoeira do Brumado, Sr. Mario Eleutério Ramos (in memoriam) abriu ao público em 2017 um pequeno museu particular feito ao lado da indústria de pedra-sabão da família. O museu leva o nome de seu pai, “Rancho do Tropeiro: Antônio Pedro Eleutério”, e foi dividido a partir das duas influências existentes na família, os tropeiros e os artesãos paneleiros. Assim, o lado direito do museu foi reservado para os tropeiros e o lado esquerdo para os artesãos. Em ambos havia pendurados na parede, em cima dos materiais expostos, um memorial com fotos e nomes dos tropeiros e dos artesãos, em seus respectivos lados.

Von Burguer também nos dá indícios dessa possível associação entre a produção de panela de pedra-sabão e os tropeiros, ao afirmar que

[…] a mesma gente que fabrica as panelas, transporta-as em geral também ao mercado próximo. Quando o fabricante tem pronto um número suficiente de panelas para formar uma ou duas cargas (numa carga de burro cabem cerca de 20 panelas do tamanho regular), ele carrega o seu burro e vai à cidade, onde há negociante seu amigo. Ali, vende seus produtos, ou melhor, troca-os por outras mercadorias, carrega seu burro com suas compras e volta para sua aldeia.52

A ventaneira (Figura 3) também teve importante participação na confecção de panelas de pedra-sabão nos séculos passados, mas que atualmente não foi registrado seu uso. Um dos artesãos nos mostrou a ventaneira feita e utilizada por seu falecido pai.53 Trata-se de uma pré-forma de panela com três orifícios.

Ventaneira.
Figura 3
Ventaneira.
Fonte: Melquiades (2017).

Nela há um circular, na base que corresponde à entrada de água, e dois retangulares, na borda e no bojo, que correspondem respectivamente a uma saída de água e uma saída de ar. Para o funcionamento do esquema de fole, segundo o artesão, inicialmente a peça/pré-forma de panela era colocada de ponta-cabeça, emborcada, em uma superfície plana na estrutura do tanque, no entorno do torno.

A partir daí, era colocada uma canaleta de bambu captando água do tanque (o mesmo que abastecia a roda do torno) para o interior da peça. A princípio, a água circula dentro da ventaneira entrando pelo orifício situado na base e saindo pelo orifício da borda, deixando o interior da peça preenchido de ar. Quando o artesão quisesse ativar o sistema, ele vedava a saída de água, aumentando seu volume no interior da vasilha emborcada, que vai enchendo de água e diminuindo, por sua vez, a área ocupada pelo ar, que é liberado pelo orifício situado no bojo da peça em alta pressão. Completando o esquema, adjacente à ventaneira, no centro da corrente de ar que sai do orifício do bojo, havia uma pequena fogueira e/ou braseiro, que era alimentada e potencializada pelo ar em alta pressão. Ao lado do fogo ou braseiro, o artesão esquentava a ponta da alavanca de ferro e martelava, fazendo a manutenção da sua principal ferramenta de trabalho (ferro de torno) e desenvolvendo atividades próximas às de ferreiros.

É necessário destacar que, seja na produção em torno hidráulico ou elétrico, a participação do ferro de torno é constante, atuando desde a coleta de matéria-prima até o torneamento. O intenso contato direto do ferro com a pedra, na lapidação, no desbaste ou no torneamento, desgasta rapidamente o metal, havendo necessidade de manutenção constante de suas pontas.

Atualmente, os artesãos de Cachoeira do Brumado fixam um pedaço de vídea na ponta da alavanca de ferro. Por ser um metal mais resistente que o ferro, utilizando a vídea não há perda significativa de metal e, portanto, não há necessidade de manutenção constante e nem perda rápida e considerável de massa e volume. No entanto, no passado, esse material não participava da produção e havia ainda o condicionante da dificuldade de acesso a ferramentas e materiais simples, como a própria alavanca e o ferro do qual é feita. Na descrição do torno hidráulico, Von Burguer enfatiza essa relação com o metal ao explicar que “os dois pontos de ferro (aliás, as únicas partes feitas de ferro no torno inteiro) são fixados sobre dois suportes […]”54. Fabrício Luiz Pereira, ao abordar os oficiais da construção, nomeadamente carpinteiros, canteiros e pedreiros, em Mariana e seu termo (1730-1808), pontua que: “os compassos, martelos e ferros do ofício de carapina de Antônio Martins de Araújo, por exemplo, não foram dados suficientes para identificá-lo como carpinteiro, visto que eram objetos facilmente encontrados em outros inventários da época”55.

Nessa relação diária e constante com o metal, uma alternativa criada pelos artesãos foi a ventaneira, que auxiliava na manutenção da alavanca de ferro. Neste evento, o artesão trabalha com a pedra, o ar, a água, o ferro e o fogo, martelando para amolar a ponta do ferro de torno, que, por sua vez, coopera com a confecção das panelas de pedra no interior das oficinas (Figura 4).

Manutenção do ferro de torno na ventaneira.
Figura 4
Manutenção do ferro de torno na ventaneira.
Fonte: Melquiades (2017). Desenho: Erêndira Oliveira.

Concordamos com Normak56 que seria mais produtivo a arqueologia entender os elementos e materiais como poliagentes (polyagents), caracterizados como “qualquer coisa com uma existência física que interaja com o mundo”. Percebendo a materialidade como poliagentiva, “temos uma ponte para a agência humana passada” e, neste caso, “o agente humano pode ser comparado a um catalisador que ajuda os objetos a passar de um estado real para outro”.

A perspectiva aqui levantada com base na materialidade, qual seja, a hipótese de que em torno das panelas de pedra-sabão circulam conhecimentos e habilidades ao mesmo tempo diversas e específicas, ganha força se retomado o caráter indisciplinado e extraoficial da produção, bem como os conceitos de objetos mundanos e ofícios banais. Aproximando essa produção das relações vividas pelos oficiais mecânicos em contextos passados, historiadores já deixaram marcada a possibilidade de trânsito entre as diferentes ocupações, atividades, fazeres ou ofícios. Levado ao extremo, a produção de panelas de pedra-sabão pode ser compreendida também como um ofício móvel, tanto pela circularidade de saberes e gestos, quanto por sua propensão em esquivar-se das categorias de controle oficial, ou seja, por ser uma atividade indisciplinada.

Nos séculos XVIII e XIX, por exemplo, além dos oficiais livres, cujo trânsito entre as diferentes atividades e ofícios é citado na historiografia, havia também os “escravos de aluguel” que “circulavam pelas vilas à procura de trabalhos imediatos e temporários, pagos ao jornal, que lhes propiciassem ganhos pecuniários ou mesmo em espécie”57. Ganhos esses que iam em parte para seus senhores e em parte para o sustento de suas necessidades diárias, tais como alimentação, vestuário e moradia. Não só o prestígio do artesão está em jogo, como o dos donos de tendas,58 oficinas ou de escravizados com habilidades manuais e artesanais. Há casos em que a pessoa escravizada, por ser boa artífice ou artesã, tinha relação de privilégio com seu senhor e perante a sociedade e o governo. Em outros casos, um escravizado negocia sua alforria e conquista a liberdade por ser um bom artesão, qualidade que se estende a seu senhor através de lucro e prestígio.59

Nas pesquisas de historiadores existem inúmeros exemplos dessas relações e das mobilidades dos artesãos, como um sapateiro do Tejuco, livre e solteiro, que “possui as ferramentas e demais apetrechos de um sapateiro”, mas sua renda e capital “mais evidente está no grupo de homens escravos que aluga para a Real Extração dos Diamantes, em alguns escravos de ganho que lhe pagam jornal e em outros que trabalham com ele”60.

Em todos esses casos as relações sociais se estendem através dos materiais. Durante as atividades de produção, portanto, enquanto constitui o artefato, o humano também se constitui (por exemplo, aprendiz, mestre, artesão, livre, escravizado, forro entre muitas outras), se relacionando com questões mundanas (como os lugares que frequenta, com quem, o que come, o que veste, onde mora, entre outros). A confecção dos artefatos ou “fabricação” envolve, assim, “fazer o mundo ao mesmo tempo em que nos tornamos nós mesmos”61. No universo da Cultura dos Ofícios, o convívio entre pares reforçava e ampliava seu capital social; “nutria cumplicidades” e valorizava a confiança mútua, a solidariedade e o “mistério em torno de seus modos de fazer”62.

Nas etnografias por nós produzidas e que compõem esta pesquisa nota-se esse senso de comunidade de modo muito latente entre os artesãos, principalmente no que se refere à transmissão e à troca de conhecimento entre os pares. Podemos citar o ateliê/a casa dos irmãos Bretas, reconhecidos escultores da região de Ouro Preto, que na década de 1970 foi um lugar de vivências e aprendizados coletivos, especificamente um espaço informal de educação, uma escola não oficial de arte e ofícios para aprendizes interessados na pedra-sabão.63

Ao analisar a documentação sobre os ofícios mecânicos nos séculos XVIII e XIX, Meneses,64 indica uma dinâmica específica de fazeres ao afirmar que, em um dos casos por ele analisado, “fica evidente a distinção entre práticas que, a princípio, são desempenhadas pelo mesmo oficial, mas que demandam saberes de complexidades diferentes”. Nos dois volumes do “Dicionário de artistas e artífices dos séculos XVIII e XIX em Minas Gerais”65, também constam oficiais com mais de um ofício, tais como carpinteiro e torneiro, pedreiro e carpinteiro, pedreiro e canteiro, ferreiro e serralheiro, entre outros.

Assim, é possível levantar a hipótese de que, em períodos passados, um artífice ou artesão trabalhasse para um mestre de algum ofício (já que a produção de panelas, em si, não era considerada um ofício) e, em outros horários, momentos e/ou períodos, confeccionasse panelas de pedra para venda ou troca. Também é possível que um artesão ou oficial de algum ofício (como canteiro, torneiro, pedreiro e marceneiro, por exemplo) confeccionasse panelas de pedra eventualmente e/ou sazonalmente. A aprendizagem pode estar igualmente vinculada a mestres de outros ofícios e/ou à esfera familiar e de parentesco ou apadrinhamento, com necessidade de habilidades que requerem engajamentos fortes com a pedra-sabão e conhecimentos em movimento e compartilhados com outros ofícios. Além das oficinas, as obras públicas e privadas da época também podem ser percebidas como lugares de aprendizado e intensa circulação de conhecimento relacionados aos ofícios mecânicos e trabalhos manuais. Numa obra de grande porte, como a da Casa de Câmara e Cadeia da Vila de Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo (atual Mariana), por exemplo, os ofícios de carpinteiro, pedreiro, canteiro e ferreiro se cruzavam.66

Junto à mobilidade (física e social) compartilhada entre os oficiais mecânicos e na qual se inserem parcialmente os artesãos e as panelas de pedra, é possível uma alusão ao conceito de “homens móveis”, conforme vem sendo colocado por historiadoras67 e arqueólogas brasileiras.68 Estes seriam emigrantes desenraizados, livres e libertos, que tinham, vinculados à mobilidade prática de suas atividades e trabalhos (tais como as atividades agrícolas não especializadas), formas de sociabilidade, criação de vínculos, (des)enraizamentos e experiências práticas de liberdade.69

José Newton de Meneses nos dá indícios dessas relações de liberdade em Minas Gerais nos séculos XVIII e XIX ao pontuar realidades passadas em que os ofícios mecânicos, respondendo também às necessidades básicas da formação da sociedade mineira, “teriam gerado sobrevivência, além de possibilidades sociais e econômicas ímpares aos homens e mulheres que a eles se dedicaram, alçando alguns a situações de reconhecimento social, propiciando liberdade e dignidade a outros, promovendo o exercício civil de vários, ordenando e estabelecendo fundamento a setores e a grupos significativos de indivíduos”70.

Além dos casos já mencionados, vale citar a história de um “homem de ofício” que viveu na órbita da Vila de Sabará, na qual ele

[...] oferece serviços e produtos e carrega seus petrechos e sua tenda. Requisitado aqui e ali, ele se desloca a fazer ferraduras, dobradiças, pregos, cravos e as imprescindíveis foices e enxadas. Não possui animais e as costas de seus quatro escravos transportam produtos e até a pesada bigorna. […] Fora da Vila, no Sítio dos Papudos, na Freguesia do Rio das Pedras, está a esposa com os dois filhos legítimos menores e as duas escravas. Ela cuida dos filhos e elas das roças de mandioca e de milho, do engenho de roda onde produzem farinhas, ajudadas por outro escravo. [...] Na Vila, Arcângelo tem amante, uma preta forra, de nome Maria Ribeiro, sua ex-escrava, que lhe deu três filhos mulatões e três filhas mulatas [...]. Dos seus escravos (6) sabemos apenas o nome de um: é João, negro Angola de 29 anos, avaliado em duzentos mil réis com “princípios de ferreiro”. Ele é, provavelmente, seu auxiliar/aprendiz de utilidade vital em sua ocupação.71

Outro exemplo de parte do cotidiano vivido em torno das atividades artesanais em Minas Gerais pode ser verificado na história de um sapateiro que também viveu na Vila de Sabará:

Próximo à Roça Grande, no mesmo termo da Vila de Sabará, na barra do riacho D’Anta, vive o sapateiro Antônio de Matos Prestes. Casado com Anna de São Joaquim Leal, tem 4 filhos pequenos e 11 escravos que lhe ajudam na oficina e cuidam de sua roça, onde possui um cavalo e 16 cabeças bovinas. [...] Da atividade mista de oficial mecânico e agricultor sustenta a família e a vida rústica.72

No caso das panelas de pedra-sabão, as técnicas e os conhecimentos vinculados a essa atividade são compartilhados com outros ofícios, dando ritmo e amplitude a essas relações também em seu cotidiano. Ao falar da inconstância e/ou sazonalidade da produção no início do século XX, Von Burguer73 afirma que “ele [o artesão] interrompe seu trabalho industrial nos tempos da colheita e em qualquer outro tempo, quando há um serviço mais urgente ou mais rendoso” [acréscimos nossos].

Assim, uma das hipóteses levantadas é a de que as atividades dos artesãos paneleiros dos séculos XVIII ao XX tinham características particulares que qualificam uma mobilidade e intermitência, além da participação de conhecimentos que circulam entre diferentes atividades artesanais e ofícios que só são perceptíveis nas materialidades das panelas. Na medida em que o domínio de um ofício, atividade especializada e/ou envolvimento com mais de uma atividade pode ser indicativo de experiências próprias de liberdade ou mobilidades vividas no contexto escravista brasileiro, as panelas de pedra podem ser vistas como colaboradoras em algumas dessas experiências, sendo, nesse sentido, pedras artesãs construtoras de experiências de liberdade.74

Outros materiais de longa duração no mesmo contexto foram e ainda são construtores de subjetividades coloniais, entre elas, violências diversas e a ausência de liberdade. Eles (os materiais) “vão adiante juntos” com quem os mobiliza e por eles são mobilizados. Para o bem ou para o mal, as implicações políticas, a depender dos envolvidos em um processo técnico, são diversas. A pedra-sabão é realmente boa para pensar, principalmente em questões que ultrapassam a razão técnica, pois elas expandem a sua existência para compreensão de outras dinâmicas que têm se colocado ao longo de sua mobilidade espaço-temporal.

DINÂMICAS IDENTITÁRIAS E IDENTIFICAÇÕES

Na primeira metade do século XX, enquanto o Barroco e a Arte da Cantaria se envolviam com a pedra-sabão e participavam fortemente dos processos de formação de uma identidade mineira e nacional, exaltada pelo movimento modernista,75 outros objetos mundanos e ofícios banais, como os artesãos e as panelas de pedra-sabão, participavam de outras maneiras.

Uma das indústrias mais antigas e originais do Estado de Minas Geraes, aliás uma das poucas indústrias indígenas, ainda existentes, é sem dúvida a indústria da pedra de sabão, o fabrico de panelas para cozinha desse material. É como um resto ainda persistente dos tempos remotos da idade da pedra e como tal merece interesse especial sob o ponto de vista etnográfico e histórico.76

Von Burguer não aborda diretamente a identidade social dos artesãos paneleiros da época de sua visita, mas deixa explícito alguns aspectos da produção que ele considera em sua identificação. Ele destaca o caráter industrial da produção - em função da utilização do torno hidráulico e da organização coletiva, do ritmo e movimento -, a baixa capacidade e a qualidade técnica dos artesãos e artefatos, a precariedade na organização e nas relações com o mercado e a mobilidade e intermitência da produção. Com base nesses aspectos e imerso em seu contexto, o químico alemão conclui seu estudo dizendo que as panelas de pedra-sabão são de baixo potencial para comércio. Entre os argumentos do autor, está o de que:

A fabricação e o comércio das panelas, não obstante sua venerável antiguidade, são muito mal organizados ou para melhor dizer, quase sem organização alguma. Os numerosos pequenos centros da indústria estão situados na maior parte bastante afastados das estradas de ferro e têm meios de comunicação inferiores, com os centros do comércio.77

Ao falar sobre a possibilidade de as panelas de pedra substituírem artefatos de outros materiais, ele cita “metais e produtos cerâmicos, cuja fabricação exige uma técnica mais desenvolvida e conhecimentos mais aprofundados”78. Um termômetro do quão mundanas e desconsideradas podem ser as panelas de pedra-sabão, em sua etnografia, o mesmo autor aponta que “poucas são as pessoas que reparam as panelas de pedra colocadas a um canto escuro da venda, em geral cobertas de poeira e que perguntam por curiosidade, para que serve”79.

No presente, esses mesmos aspectos podem ser percebidos através da situação dos artesãos e das panelas que permanecem em relativo abandono por parte das instituições (entre as quais os museus) e órgãos de gestão dos patrimônios culturais, mas que continuam participando na construção das identidades e dos modos de vida e existência dos artesãos e usuários. Não se trata, no entanto, de perceber estes atores exclusivamente pelo viés do defeito mecânico como demarcador de identidade social,80 mas de apontar que no ato de confecção dos artefatos, ontem e hoje, suas identidades, laços e relações são atualizados. Esses laços e relações são também partícipes de suas vidas, de suas mobilidades (física e social), de seu cotidiano e de suas experiências de liberdade.

A “simplicidade” e os conhecimentos e habilidades “rasos” e/ou “menos aprofundados” necessários para a produção de panelas de pedra, tal como percebido e descrito por Von Burguer em 1927, não condizem com os observados atualmente e aqui descritos.

Assim, aparentemente um resquício do defeito mecânico parece ainda agir na identificação das panelas de pedra-sabão e dos artesãos no discurso do início do século passado. Visto que há uma permuta de características e propriedades, no caso entre artesãos e panelas de pedra, estas passam a ser também portadoras do defeito mecânico. Ao retomar o conceito de objetos mundanos, pode-se apontar uma possível troca, ou seja, os artesãos seriam também “artesãos mundanos” vinculados aos “objetos banais”?

Mais uma vez, é necessário destacar que as categorizações e identificações foram construídas socialmente no passado e mostram uma confluência de qualidades constitutivas da exclusão e marginalização das pessoas e coisas envolvidas nas atividades manuais e não representam nem as especificidades e complexidades das habilidades e conhecimento envolvidos nas relações; nem os modos de vida e existência dos artesãos. Na atualidade, essas questões podem ser percebidas nas situações em que esses artefatos se encontram nos museus, nos quais não há referências aos artesãos ou à produção de panelas de pedra, bem como nas maneiras como se tem lidado com estes patrimônios no presente. As tentativas de perceber essas categorizações como antiproducentes e excludentes, com as quais este estudo se coaduna, vêm de perspectivas como as dos autores anteriormente citados que entendem os objetos mundanos81 e os ofícios banais82 com as mesmas capacidades, potencial interpretativo e em mesmo patamar dos artistas, objetos de arte e artefatos rituais, por exemplo. Segundo essas perspectivas, considerar categorias como “objetos mundanos” e “ofícios banais” não é um problema, mas sim as interpretações de que esses objetos tidos como mundanos e ofícios tidos como banais não têm significância, capacidades e potências de ação.

DESABILIDADE DOS GESTOS

De início, é necessária uma aproximação com perspectivas que abordam o conceito de “deficiência”, “incapacidade” e/ou “desabilidade” (disability)83 do corpo humano como demarcador de identidades.84 Ao diferenciar o “modelo médico” do “modelo social”, Morag Cross aponta que o primeiro percebe deficiência ou desabilidade como “condição médica”, “doença”85, enquanto o segundo a aborda como “socialmente construída” e muda o foco da limitação e prejuízo funcional para o ambiente físico externo.

Ao pontuar a historicidade e contingência da identificação, a autora aponta para a associação de “desabilidade” à palavra “estigma” - originalmente uma marca de escravizados na Grécia Antiga -, além da atenção na deficiência como uma criação social das sociedades industrializadas, podendo envolver a falta de habilidade, inaptidão e/ou inadequação aos esquemas e regimes de trabalho modernos, capitalistas e industriais. Aparentemente, essas identificações e construções sociais são compartilhadas com o estigma do defeito mecânico e afetaram/afetam a produção de panelas de pedra-sabão.

Ao citar o desenvolvimento do termo percebido através de definições encontradas em verbetes de dicionários de inglês, Timothy Insoll as transcreve:

Incapacidade - coisa ou falta que impede que alguém esteja fazendo algo, incapacidade física causada por lesão ou doença (1986: 237); Coisa que incapacita ou desqualifica (1931: 150); (Nenhuma entrada, 1882) desativar - “tornar impossível, desqualificar” (1882: 168); Inaptidão, incapacidade (1786: 122); Incapaz ou impróprio (1719: 165).86

Nos verbetes encontrados em dicionários de língua portuguesa no Brasil - Raphael Bluteau (1728), Antônio de Moraes Silva (1789) e Luiz Maria da Silva Pinto (1832) - “deficiência” refere-se à “falta”87, à “falta e quebra”88 e à “Falta: quebra, falha no que se tenha esmado ou orçado”89.

Já “incapacidade” refere-se à “incapacidade para qualquer coisa” e à “ignorância”90; à “Falta de capacidade. Falta de habilidade, de talento”91; e à “Falta de capacidade física. Falta de habilidade, talento, de suficiência. Inhabilidade jurídica”92.

O termo “desabilidade” não consta nos dicionários. No entanto, Inhabilidade93 aparece em dois deles como “falta de habilidade”. Qualidade que faz uma pessoa inhabil94 para alguma coisa”. Já Inhabil é “O que não tem as qualidades e disposições necessárias para fazer, ou para receber alguma coisa”95.

As habilidades, antônimas das inhabilidades, são citadas nos três dicionários consultados e com maior ocorrência de verbetes. No primeiro, habilidade é definida como “Disposição, capacidade. Destreza para alguma coisa. Homem que não necessita da indústria de ninguém, que tem habilidade para tudo”96. No segundo, habilidade é definida como a “Capacidade para qualquer coisa, falando das pessoas. Também se torna figuradamente pela própria pessoa que tem habilidade”97. Hábil, por sua vez, aparece como “Capaz, quer no moral, quer no físico” e habilidoso “o que tem habilidade”98. Em outro dicionário, habilidade refere-se a “Capacidade mental, ou moral, para alguma coisa. Pessoa dotada de bom engenho para as letras”99. Habilidoso aparece como “que tem habilidade para as letras” e “Hábil, capaz, sujeito hábil para empregos, por prudência, costumes”100.

Os verbetes contêm uma série de identificações e categorizações que devem ser consideradas principalmente no que concerne às habilidades e inhabilidades. Para trabalhar entre extremos, optamos pelo termo “desabilidade” para, inicialmente, referir-se a habilidades estigmatizadas e marginalizadas, que perpassam a corporalidade e chegam à desabilidade do gesto.

Retornando aos verbetes, em um deles as habilidades aparecem associadas ao “homem que não necessita da indústria de ninguém, que tem habilidade para tudo”101 A passagem remete ao “modelo de indivíduo autônomo” vinculado ao humanismo e à dicotomia corpo/mente. Ao abordar esses aspectos vinculados à materialidade do corpo, Julian Thomas102 relativiza a potência de ação da “ordem cósmica” do humanismo e aponta que, mesmo no ocidente moderno, é discutível que as pessoas sejam entidades tão delimitadas e autossuficientes.

No caso dos artesãos e das panelas de pedra, aparentemente a habilidade relacionada à autossuficiência e ao indivíduo autônomo, por mais que possam ter lugar nos modos de vida e existência dos artesãos paneleiros, não os define e não são manifestações extremas. Conforme vem sendo colocado neste artigo, na constituição de seres dentro das oficinas também participam outros seres além dos humanos, elementos e materiais que, através das suas materialidades, agem conjuntamente para a constituição e transformação dos corpos. As desabilidades dos gestos dos artesãos entram como um possível desvio ou alternativa a essa habilidade normalizadora e disciplinar e não são também representadas, da mesma maneira, pela inhabilidade (ausência de habilidade). Um dos exemplos vindos da pedra-sabão seria a presença de materiais, gestos, técnicas, habilidades e conhecimentos circulares e compartilhados com outras atividades artesanais, como canteiros, carpinteiros, ferreiros, ferradores, marceneiros e pedreiros.

Qualificações como desorganizados, de baixa qualidade técnica e conhecimentos rasos, e sem potencial para comércio, conforme aparecem no texto de Von Burguer,103 nos remetem às desabilidades enquanto falta de habilidade, inaptidão e/ou inadequação aos esquemas e regimes de trabalho modernos, neste caso intimamente ligados às tecnologias e mobilidades compartilhadas entre os artesãos e a pedra.

Nos corpos dos artesãos, as mãos calejadas, os problemas de articulação (ombros, costas e pernas) e outras características também remetem às experiências de incorporação das técnicas e tecnologias e aos fluxos de materiais. O artesão paneleiro Gegê, por exemplo, faz uso de uma munhequeira para proteção do pulso, além de eventualmente ficar com os antebraços inchados. Ele confecciona suas panelas em torno hidráulico cuja produção se faz “a seco”, diferentemente dos tornos elétricos que muitas vezes esguicham água na peça durante o torneamento para que ela não dissipe talco ou pó de pedra durante esta atividade.104 Esse pó de pedra contém sílica e outros minerais que atingem o corpo do artesão com uma força considerável, penetrando na pele e gerando o inchaço no antebraço.105

Compreendendo as relações e os materiais enquanto poliagentes, além dos artesãos e das pedras, a água, o fogo, o metal, a madeira, as puas, as ventaneiras, os tornos e muitos outros seres além dos humanos, elementos e materiais cooperam com a confecção das panelas e vão adiante juntos.

Nessa mesma ótica pode ser percebido o verbete no qual consta referências à “habilidade para as letras”106, à qual se acrescentam questões de diferenciação entre o conhecimento manual prático e através da leitura. Essa dicotomia pode ser vinculada ao letramento, ao surgimento das universidades e em seu histórico de relações com outros lugares de conhecimento, como as confrarias e congregações de ofícios na Europa107 e as próprias oficinas mecânicas em Minas Gerais no século XVIII.108

Outro exemplo é a presença de “figuradamente” na permuta de capacidades entre coisas e pessoas no verbete que diz: “Capacidade para qualquer coisa, falando das pessoas. Também se torna figuradamente pela própria pessoa que tem habilidade”109, bem como as “capacidades” mentais, morais e/ou físicas, e as “habilidades para empregos”.

É necessário trazer para debate questões envolvendo habilidades e conhecimentos circulares, contextuais e específicos como variáveis-chave nas manifestações de identidade que necessitam de (re)conhecimento. Ao abordar a participação dos conhecimentos nas identificações e/ou categorizações associados principalmente a questões de idade, Timothy Insoll afirma que:

No entanto, no mundo ocidental moderno isso pode ser facilmente esquecido como um conceito de qualquer importância onde, rotineiramente, acreditamos frequentemente que o conhecimento é uma mercadoria facilmente adquirida e descartada, e, inversamente, a experiência e a idade são subvalorizadas.110

No caso das panelas de pedra-sabão, os conhecimentos dos artesãos nos remetem ao domínio de habilidades vinculadas a diferentes materiais e experiências. Essas habilidades que chegam a corporalidades não são facilmente adquiridas, havendo necessidade de um engajamento constante por um tempo longo do aprendiz com os materiais e, principalmente, com a pedra. Culmina que a produção de panelas de pedra-sabão é um fazer único que representa diferentes fazeres dentro de uma dinâmica de conhecimento circular e compartilhado, perceptíveis somente através das materialidades das panelas.

Ao mesmo tempo, o termo “desabilidade” abarca estigmas de inferioridade, incapacidade, ignorância e deficiência dos trabalhos manuais mundanos e ofícios banais. Conforme vem sendo colocado, esse termo está presente, com gradações de intensidades e em manifestações diversas, ao menos desde o início do século XVIII em Minas Gerais, associados aos modos de vida e existência de artesãos e artífices, oficiais mecânicos e outros trabalhadores e trabalhadoras manuais que tinham, e em parte têm, suas capacidades de participação diminuídas e suas histórias e memórias abandonadas ou apagadas. Esse tipo de identificação, em certa medida violenta epistêmica e ontologicamente, além de marcadamente política, ainda tem resquícios e grande potência de ação sobre o presente, percebida na desconsideração dos artesãos paneleiros enquanto agentes no processo histórico e nas tomadas de decisão sobre questões públicas que afetam diretamente suas vidas. Assim, categorizações e identificações desse tipo, se não forem (re)vistas com cautela, acabam alimentando um esquema de dominação e colonialismo histórico.

Meskell111 aponta que o pluralismo teórico possibilitou a expansão da ontologia social e a (re)definição e (re)descrição da experiência a partir da perspectiva daqueles que são mais frequentemente vistos como simples “objetos da teoria”. Sem essas sensibilidades, corremos um risco maior de exercer violências epistêmicas e interpretativas.

As experiências baseadas nessas identificações e na materialidade das panelas de pedra reside na percepção de que, no passado, elas possivelmente auxiliaram na construção de experiências de liberdades e mobilidades dentro do regime escravista vigente nos séculos XVIII e XIX. Isso se efetivou na medida em que essas experiências compõem os modos de vida e existência dos artesãos e influem, portanto, nos lugares em que vão, pessoas com quem vivem, nas relações de reciprocidade e engajamento e no estabelecimento de vínculos não apenas sociopolíticos e culturais, como também afetivos, com pessoas, lugares e coisas.

Atualmente, e com as mudanças nas concepções e variedade de manifestações de liberdades em uma sociedade que se pretende livre, as mesmas características, tais como a indisciplina e extraoficialidade, técnicas, mobilidades e o estigma da desabilidade do gesto confluem para a situação de marginalidade que ocupam artesãos e artefatos.

A existência de vasilhas e tigelas de pedra-sabão em contextos arqueológicos pré-coloniais no Brasil,112 ou sua relação com povos indígenas, africanos, europeus ou outros povos ao redor do mundo, não determina uma ancestralidade direta, mas indicam possíveis misturas que podem e devem ser estudadas.

Os artesãos dos últimos séculos aparentam ter modos de vida e existência dinâmicos, marcados por conhecimentos, habilidades, gestos e corporalidades híbridas e compartilhadas entre diferentes ofícios, saberes e fazeres, além de grande mobilidade e engajamento com as atividades manuais e com a pedra-sabão. Essas características demonstram uma intensa dinâmica relacional na constituição e vivência das identidades mineiras, percebidas, neste caso, tanto como categorizações e identificações, quanto na prática cotidiana do fazer panela de pedra, quando atualizam suas identidades enquanto artesãos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A confecção e a utilização de panelas e vasilhas de pedra-sabão em Minas Gerais remetem a períodos anteriores à colonização europeia, porém as poucas coleções arqueológicas conhecidas desses períodos ainda carecem de levantamento e estudos sistemáticos. No período colonial, frente à ampla utilização da pedra-sabão como matéria-prima, as panelas de pedra ocuparam lugar marginal, vistas como objetos mundanos e comuns, oriundos dos trabalhos manuais e ofícios banais que existiam e, no caso dos artesãos paneleiros, permanecem até hoje. Atualmente, além da produção e do comércio, esses artefatos podem ser encontrados em museus, antiquários, lojas, feiras e mercados, além de aparecerem em sítios arqueológicos históricos urbanos e rurais, principalmente no estado de Minas Gerais e na região do Quadrilátero Ferrífero, na qual também se encontram as comunidades e pessoas artesãs aqui mencionadas.

Os fluxos de materiais e suas materialidades remetem a uma permuta de propriedades vinculadas às capacidades desses artefatos enquanto participantes na composição do mundo comum, o que consideramos parte de sua materialidade. A partir delas, por exemplo, percebem-se conhecimentos que se apresentam de maneira coletiva e estão em constante movimento e circulação, associados também às propriedades, habilidades e capacidades dos materiais junto aos humanos. Por exemplo, os estigmas da desabilidade dos gestos e dos trabalhos manuais, no caso da produção de panelas de pedra-sabão, têm impacto amplo e profundo, talvez ontológico e epistêmico, que afeta simultaneamente artesãos e artefatos, e chegam aos dias de hoje potencializando e justificando seu abandono ou exclusão.

Em uma genealogia da exclusão moderna, pretendeu-se demonstrar que as panelas de pedra e os artesãos que as produziram lidaram e lidam com estigmas que envolvem os trabalhos manuais e os ofícios mecânicos, chegando a desabilidades dos gestos e dos corpos. As corporalidades e gestualidades, junto aos conhecimentos e às técnicas incorporadas, envolvidas na produção, associadas aos ritmos e fluxos de vida em torno das panelas de pedra-sabão nos séculos XVIII e XIX, sugerem uma atividade dinâmica e rica de conhecimentos e mobilidades compartilhadas, que podem influir em experiências de liberdade e certamente participar dos modos de vida dos artesãos. São marcas profundas e violentas que remetem a estigmas de “inadequações aos esquemas e regimes de trabalho modernos”. É sintomático que nos séculos XVIII e XIX houvesse uma recorrente desconsideração ou falta de atenção por parte do governo a determinados ofícios mecânicos e atividades manuais.

O reforço da exclusão moderna pode ser percebido na primeira metade do século XX quando, influenciado pelo movimento modernista, houve seleções, requalificações e exaltações de patrimônios culturais mineiros e nacionais, nos quais os olhares institucionais se voltaram majoritariamente para igrejas, edificações e lugares públicos e privados que remetessem diretamente aos “grandes eventos e personagens da história” e ao Barroco mineiro. Poucos anos depois da comemoração do bicentenário de Ouro Preto, em 1924, evento que marcou o movimento modernista da época, o químico alemão Von Burguer (1927) nos dá uma ideia do quão invisibilizadas poderiam ser as panelas de pedra-sabão no período, ao pontuar que “poucas são as pessoas que reparam as panelas de pedra colocadas a um canto escuro da venda, em geral cobertas de poeira e que perguntam, por curiosidade, para que serve”113.

Atualmente, temos a pedra-sabão, de uma maneira geral, e o fazer panela de pedra, especificamente, associados a uma identidade mineira, mas não há inclusão dos artesãos e de pessoas com as quais estes se relacionavam e relacionam, o que pode ser percebido pela situação atual de algumas comunidades de artesãos.

Em se tratando das relações entre pessoas e coisas nas quais esses artefatos participaram, eles foram/são constituídos nas oficinas, passando, durante sua vida, por lugares de comércio e troca, habitando também lugares de pouso nos caminhos das estradas reais, grandes fazendas e pequenas propriedades rurais, bem como casarões e habitações urbanas, prédios públicos e privados, participando de eventos e realidades que, ora evocam sua presença em ambientes “sagrados”, ora no fogão da cozinha ou em cima da mesa com comida. Em outros casos, panelas e utensílios de pedra-sabão habitam esses mesmos ambientes relacionados à alimentação e à refeição, porém atuando como pote de água e pequenos barris utilizados no acondicionamento de grãos. Existem ainda os artefatos que, após as experiências anteriores, entraram em processo de patrimonialização e musealização, a partir do século XX, e que atualmente são instituídos de qualidades enquanto patrimônio e bem cultural representativos de uma identidade mineira e nacional, sem, no entanto, nenhuma referência clara e direta aos artesãos ou comunidades atuais.114 De uma maneira geral, esses artefatos, os artesãos e a produção estiveram associados a uma identidade mineira e nacional estática, excludente e compartimentada, vinculada às artes, ao Barroco mineiro e a Aleijadinho. Essas associações diretas acabam por desconsiderar e/ou reduzir a participação de outros agentes ou atores, como é o caso dos artesãos e das panelas de pedra.

A partir do que foi exposto, aparentemente há um abandono destes objetos mundanos e ofícios banais que pode ser percebido a partir das materialidades das panelas de pedra-sabão e dentro de uma genealogia da exclusão moderna. É sintomático que nos séculos XVIII e XIX houvesse uma recorrente desconsideração ou falta de atenção dada aos ofícios banais, bem como seu reforço no início do século XX e a situação atual de algumas comunidades de artesãos. A produção de panelas de pedra apenas foi registrada como patrimônio imaterial municipal recentemente,115 e, mesmo assim, sem políticas e programas públicos efetivos e consistentes. Nos museus, a presença desses artefatos e temáticas em torno da pedra-sabão não trazem consigo as comunidades de artesãos e outras pessoas e coletivos que até hoje se relacionam cotidianamente com esses materiais. No extremo, a ausência de políticas públicas pode ser indicativo de uma redução dos direitos básicos dos artesãos enquanto cidadãos, retornando à desabilidade enquanto “Inhabilidade jurídica”, aqui entendida também como falta de capacidade e, por extensão, representatividade jurídica.

Em meio a essas relações que envolvem gestualidade, corporalidade e materialidade, uma questão se coloca para reflexão: e se fossem todos Aleijadinhos? E se os artesãos mundanos e seus ofícios banais fossem considerados inicialmente em mesmo patamar aos grandes nomes das artes e do Barroco mineiro? Estaria sendo proposta uma revolução das coisas e pessoas mundanas e comuns a partir da qual não haveria mais a ditadura das obras e monumentos de pedra e cal? Estaria se propondo que as capacidades e criatividades dos seres devem ser consideradas anteriormente aos estigmas e identificações? Independentemente das respostas, aparentemente as realidades e entidades exteriorizadas dos debates e instituições há séculos começam a povoar a fronteira do coletivo insistindo para que sejam consideradas e demonstrando sua plena participação no mundo, representando e defendendo seus pontos de vista.

Obviamente, não se trata de defender que os entalhes e acabamentos no frontispício de uma igreja sejam a mesma coisa que os gestos e marcas de produção existentes em uma panela. Também não estamos afirmando que necessariamente são as mesmas pessoas envolvidas nesses diferentes fazeres. No entanto, reconhecendo as particularidades e prezando pela não hierarquização desses saberes e fazeres, estes seres humanos (artesãos e escultores) e coisas (panelas e outros artesanatos e artefatos de pedra-sabão) podem ser considerados em equidade no que diz respeito à sua participação e gestão do mundo comum, no qual se encontram a princípio ontologicamente misturados.

Conforme se pretendeu demonstrar, os conhecimentos, os gestos e as técnicas presentes nos eventos e processos de produção desses artefatos sugerem dinâmicas das quais participam seres humanos diversos, que se constituem enquanto artesãos ao mesmo tempo em que constituem os artefatos. Uma identidade mineira, cultural e/ou social associada a essas pessoas e coisas seria, portanto, mais ampla e dinâmica do que a forjada a partir do Movimento Modernista na primeira metade do século passado. Percebida dessa maneira, as abordagens aqui propostas e desenvolvidas seguem na contramão das informações oficializadas e difundidas sobre esses artefatos, as quais historicamente vêm contribuindo com a institucionalização e naturalização de perspectivas simplistas e excludentes que têm impacto direto na vida dos seres e coletivos envolvidos.

Por fim, é necessário destacar que em nossa leitura, a arqueologia do mundo moderno e contemporâneo, do passado recente e do presente, junto aos estudos de cultura material no Brasil, no nosso caso talvez mais bem definido como estudos de materialidades, têm o imenso potencial em devolver o protagonismo aos muitos objetos mundanos e aos ofícios banais, de ontem e de hoje.

Os apontamentos finais, tal como aqui desenvolvemos, são reflexões pontuais de uma ampla discussão ainda em aberto, que, em nossa opinião, necessita de mais investimento, espaço, tempo e esforço coletivo e, por isso, também será deixada para uma outra oportunidade. Cabe destacar, no entanto, que nessa pesquisa percebemos a materialidade dos materiais, dos corpos e dos gestos, enquanto partícipes das relações coletivas, de constituição e andamento do mundo comum. Por materialidade entendemos também - e entre muitas outras características - os processos de e as subjetivações envolvidas com os materiais, mantendo uma associação entre mente e matéria e entre “sujeitos” e “objetos”, que, no caso das panelas de pedra-sabão, nos permitiu abordar uma genealogia da exclusão moderna partindo das materialidades.

Mais do que discussões teóricas exaustivas, mesmo que por vezes necessárias, o presente artigo teve como objetivo a apresentação de um estudo de caso em torno da produção de panelas de pedra-sabão em Minas Gerais que pudesse trazer à tona algumas questões que avaliamos ser importantes para a arqueologia do mundo moderno e contemporâneo, e os estudos de cultura material no Brasil, e de uma maneira particular para as ciências em geral.

AGRADECIMENTOS

Às Instituições de ensino: Universidade do Estado de São Paulo, Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade Federal do Piauí e Universidade Estadual de Minas Gerais. À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Apoio da UFMG (Fundep). Às pessoas da cidade de Ouro Preto e Mariana e de seus respectivos distritos, a saber: Cachoeira do Campo e Cachoeira do Brumado.

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Notes

1 Tecnicamente chamada esteatita.
2 Existem referências a artefatos de pedra-sabão na Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia e Itália, além da ocorrência da matéria-prima em vários países, como Rússia, Índia, Estados Unidos, Canadá, China, Itália, Ucrânia e em diversos pontos do continente africano (Dias, 2018, p. 25). Neste último, encontram-se referências a vasilhas de pedra-sabão no sítio arqueológico Grande Zimbábue (Fagan, 1965, 1988; Phillips, 1999).
5 Cf. Meneses (2013).
6 Cf. Melquíades (2014).
9 Os “momentos etnográficos” são parte fundamental da vida da pesquisa etnográfica e funcionam como exemplos e manifestações “de uma relação que junta o que é entendido (que é analisado no momento da observação) à necessidade de entender (o que é observado no momento da análise)” (Strathern, 2014, p. 317) e ocorrem em diferentes contextos espaço-temporais, como em campo, em sala de aula, em laboratórios e, para este caso principalmente, durante a escrita e através das memórias. “Todo momento etnográfico, que é um momento de conhecimento ou de discernimento, denota uma relação entre a imersão e o movimento” (Idem). O “aspirante a etnógrafo”, em meio a estes movimentos, “reúne material cujo uso não pode ser previsto, fatos e questões coletados com pouco conhecimento de suas conexões. O resultado é um ‘campo’ de informação ao qual é possível retornar, do ponto de vista intelectual, para fazer novas perguntas sobre desenvolvimentos posteriores cuja trajetória de início não era evidente” (Ibid.).
11 Atualmente, os artesãos acessam a matéria-prima de diferentes maneiras e há um desencontro dos artesãos com as pedreiras, pois em muitos casos eles não as acessam diretamente, mas compram o estéril de grandes mineradoras, o que restringe as possibilidades de escolha do bloco que se pretende trabalhar. Um caso extremo de desencontro entre artesão e pedreira foi apresentado por Bilu, artesão de 38 anos, que, em uma de nossas conversas, me apontou com o dedo um morro distante, atrás da igreja da cidade, e disse: “você tá vendo aquele morro lá? Eu não posso pegar pedra lá, na mesma pedreira que meu pai buscava pedra, porque hoje o direito de mineração é de uma dessas grandes empresas”.
12 Von Burguer (1927, p. 520).
13 Cf. Melquíades (2012).
14 Von Burguer (1927, p. 522).
15 Cf. Latour (2004).
16 Cf. Ingold (2000).
17 Ingold (2000, p. 316).
18 É necessário destacar, no entanto, que existem indústrias que produzem panelas de pedra-sabão através de processos que utilizam uma tecnologia mais recente, mas que, apesar disso, não prescindem da participação humana.
19 Pontuamos que não se trata de compreender o tradicional em oposição ao moderno. No caso, ele se refere a modos de saber e fazer, conhecimentos e habilidades que circulam e são transmitidos por oralidade, observação e experimentação, no cotidiano vivido.
20 Ingold (1997, p. 111).
21 Latour (2002, p. 379).
22 Cf. Silva, 2007.
23 Rios (2000, p.1-5)
24 Meneses (2013, p. 21).
26 Meneses (2007a, p. 382-386).
27 Meneses (2007b, p. 3).
28 Meneses (2007b, p. 3).
29 Boschi (1988, p. 13).
30 Cf. Borges (2011).
31 Borges (2011, p. 486).
32 Borges (2011, p. 489).
33 Johnson (2010, p. 167).
34 Cf. Gell (1998).
36 Guedes (2006, p. 382-383).
37 Guedes (2006, p. 383).
38 Meneses (2013, p. 287).
39 Cf. Lemonnier (1996).
40 Cf. Latour (1996).
41 Cf. Knappett (2007).
42 Além de uma busca geral por documentos que pudessem conter referências às panelas de pedra-sabão, especificamente foram consultadas cartas de exames, licenças e provisões de ofícios, inventários post mortem de potenciais antigos proprietários, tanto dos sítios arqueológicos quanto das coleções, além de documentação referente à comunidade na qual foi feita a etnografia. Também foi feito um levantamento no Dicionário de Artistas e Artífices dos séculos XVIII e XIX em Minas Gerais (Martins, 1974) e em estudos historiográficos que citam e utilizam tal documentação (Boschi, 1988; Silva Filho, 1996; Silva, 2007; 2017; Martins, 1974; Meneses, 2013; Guedes, 2006).
43 Silva Filho (2006, p. 65).
44 Meneses (2007b, p. 14).
45 Meneses (2013, p. 44-49).
46 Meneses (2013, p. 47).
47 Cf. Lemonnier (2012).
49 Bluteau (1728, p. 816).
50 Cf. Melquíades (2017), Lopes Dias (2022).
51 O torno de pedal usado na marcenaria do século XIX e exposto no Museu de Artes e Ofícios em Belo Horizonte (MAO-BH), por exemplo, apesar de não ser hidráulico, tem encaixe parecido com o de pedra-sabão, no qual a peça (madeira) é fixada na horizontal. Ele também conta com o mesmo sistema móvel de adequação ao tamanho da peça, assim como os hidráulicos de pedra-sabão em Cachoeira do Brumado.
52 Von Burguês (1927, p. 520).
53 Senhor Juquinha, pai de Bilu, foi filho de artesão, começou a trabalhar com panela de pedra aos 13 anos e permaneceu até os 75, vindo a falecer há poucos anos, já em idade avançada.
54 Von Burguer (1927, p. 527).
55 Pereira (2014, p. 113).
56 Normak (2006, p. 284).
57 Silva Filho (1996, p. 107).
58 As tendas eram “estabelecimento de comércio coberto de pano ou tabuada, sem balcão, no qual os mestres de ofícios mecânicos prestavam seus ofícios” (Botelho; Reis, 2008, p. 195).
60 Meneses (2013, p. 288).
61 Meskell (2005, p. 3).
62 Borges (2011, p. 490).
63 Lopes Dias (2023, p. 109).
64 Meneses (2007b, p. 13).
65 Cf. Martins (1974).
66 Pereira (2014, p. 91).
68 Cf. Agostini (2010).
69 Relativizando a utilização de tal conceito, Hebe Mattos de Castro (1995) o constrói ao analisar o sudeste escravista brasileiro e partes dos atuais estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Além disso, a autora se volta para as experiências de liberdade vividas por esses personagens com o gradual enfraquecimento e fim do sistema escravista, mais especificamente, na segunda metade do século XIX (Catro, 1995). Assim, além das diferentes temporalidades, enquanto os ofícios mecânicos estão em contexto urbano, a abordagem sobre os “homens móveis” foi construída para o contexto rural. Não obstante as panelas circularem entre os dois contextos, levanta-se a hipótese de que suas dinâmicas estivessem entre as duas aqui colocadas, compartilhando características de ambas (Melquíades, 2017).
70 Meneses (2013, p. 29).
71 Meneses (2013, p. 286).
72 Meneses (2013, p. 287).
73 Von Burguer (1927, p. 520).
75 Cf. Senna (1991); Natal (2006).
76 Von Burguer (1927, p. 519).
77 Von Burguer (1927, p. 520).
78 Von Burguer (1927, p. 519).
79 Von Burguer (1927, p. 522).
80 Cf. Rios (2000).
81 Cf. Lemonnier (2012).
82 Cf. Meneses (2013).
83 É necessário ressaltar que o termo em inglês é utilizado para se referir a pessoas com algum tipo de “incapacidade” ou “deficiência” física, tais como cadeirantes ou deficientes visuais e auditivos. No contexto da presente pesquisa, não há esse tipo de situação, mas uma aproximação é proposta na medida em que a perspectiva de construção social da deficiência segue muito próxima à construção social do defeito mecânico. A partir de tal aproximação, e conforme será aprofundado a seguir, optou-se pela livre tradução e utilização crítica do termo desability como desabilidade.
85 Cross (2007, p. 181-182).
86 No original: “‘Disability’ - ‘thing or lack that prevents one’s doing something, physical incapacity caused by injury or disease’ (1986: 237); ‘thing that incapacitates or disqualifies’ (1931: 150); (no entry, 1882) ‘disable’ ‘to make unable, disqualify’ (1882: 168); ‘unfitness, incapacity’ (1786: 122); ‘being unable or unfit’ (1719: 165)” (Insoll, 2007, p. 3).
87 Bluteau (1728, p. 36).
88 Pinto (1832, p. 40).
89 Silva (1789, p. 520).
90 Bluteau (1728, p. 84).
91 Pinto (1832, s/id.).
92 Silva (1789, p. 141).
93 Atualmente, no português brasileiro, “inhabilidade” corresponde à palavra “inabilidade”.
94 Atualmente, no português brasileiro, “inhabil” corresponde à palavra “inábil”.
95 Bluteau (1728, p. 134).
96 Bluteau (1728, p. 4).
97 Pinto (1832, s/id.).
98 Pinto (1832, s/id.).
99 Silva (1789, p. 110).
100 Silva (1789, p. 110).
101 Bluteau (1728, p. 04).
102 Cf. Thomas (2007).
103 Von Burguer (1927, p. 520).
104 O torneamento molhado foi proposto como forma de amenizar os impactos do pó na saúde dos artesãos. No entanto, segundo conversa com a pesquisadora Victória Carolina Pinheiro Lopes Dias, que também estuda a produção de panelas de pedra-sabão, a produção molhada também tem causado danos à saúde dos artesãos devido à umidade retida nos materiais e ambiente.
105 Sobre os efeitos da exposição e inalação dessas poeiras sobre o aparelho respiratório dos artesãos paneleiros, Olívia Bezerra aponta que estes podem adquirir pneumoconioses, definidas como “toda doença pulmonar decorrente da inalação de poeiras inorgânicas (minerais) ou orgânicas em suspensão nos ambientes de trabalho” (Bezerra, 2002, p. 18).
106 Silva (1789, p. 110).
107 Cf. Rios (2000).
108 Cf. Meneses (2007b).
109 Pinto (1832, s/id.).
110 “However, it can in the modern Western world easily be forgotten as a concept of any importance where, routinely, we frequently believe that knowledge is a commodity easily acquired and discarded, and conversely experience and age are undervalued” (Insoll, 2007, p. 6).
111 Cf. Meskell (2007).
112 Cf. Junqueira (1984).
113 Von Burguer (1927, p. 522).

Author notes

Editores Responsáveis: Maria Aparecida de Menezes Borrego e David Ribeiro.
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