CADEIAS MERCANTIS E CONTRIBUIÇÕES CONCEITUAIS PARA A GEOGRAFIA HUMANA
CADEIAS MERCANTIS E CONTRIBUIÇÕES CONCEITUAIS PARA A GEOGRAFIA HUMANA
Mercator - Revista de Geografia da UFC, vol. 21, no. 1, pp. 1-15, 2022
Universidade Federal do Ceará
Abstract: Este artigo propõe que os parâmetros conceituais do enfoque em "Cadeias Produtivas" oferecem recursos férteis para a formulação, exploração e desvendar de problemas da geografia humana. Para tanto, realizou-se um estudo exploratório, iniciado com levantamento bibliográfico, documental e de dados, seguido de análise concisa de casos do sistema produtivo-comercial da soja brasileira. O conceito de "Teia Geoeconômica" foi formulado para destacar fatores socioinstitucionais na dimensão geopolítica da economia. Entende-se que esses marcos conceituais são adequados para problematizar questões sobre a dinâmica de inserção e posicionamento das subestruturas nas economias nacionais, dessas economias na economia mundial e as relações de poder nesses espaços.
Keywords: Cadeias Produtivas, Conceituação, Site geoeconômico.
Resumo: O presente artigo propõe que os parâmetros conceituais do enfoque em "Cadeias Mercantis" possibilitam férteis recursos de formulação, exploração e desvendamento de problemas na geografia humana. Em destaque para a articulação entre geografia econômica e geografia agroalimentar, tem também uma proposta de referência que também alcança articulações entre outras subáreas. Para tanto, realizou-se um estudo de natureza exploratória, procedendo-se a um levantamento bibliográfico, documental e de dados e utilizando uma análise concisa de casos do sistema produtivo-comercial da sojicultura brasileira. Formular o conceito de "Política Geoeconômica" para incentivar fatores socioinstitucionais na dimensão geopolítica da economia. Entende-se que esses marcos se destinam a problematizar questões relativas às dinâmicas de inserção e posicionamento das subestruturas nas economias nacionais, nessas economias na economia mundial e nas relações de poder nesses espaços.
Palavras-chave: Cadeias Mercantis, Conceitualização, Teia Geoeconômica.
Resumen: Este artigo propõe que os parâmetros conceituais da abordagem "Cadeias Produtivas" fornecem recursos férteis para a formulação, exploração e desvendar de problemas da geografia humana. Em seu conteúdo, enfatiza a articulação entre geografia econômica e geografia agroalimentar, embora a proposta supracitada também alcance articulações entre outras subáreas. Para tanto, realizou-se um estudo exploratório, procedendo-se a um levantamento bibliográfico, documental e de dados e uma análise concisa de casos do sistema produtivo-comercial da soja brasileira. O conceito de "Teia Geoeconômica" é formulado para destacar fatores socioinstitucionais na dimensão geopolítica da economia. Entende-se que esses marcos conceituais são adequados para problematizar questões sobre as dinâmicas de inserção e posicionamento das subestruturas nas economias nacionais, dessas economias na economia mundial e das relações de poder nesses espaços.
Palabras clave: Cadenas de Mercancías, Conceptualización, Teleraña Geoeconómica.
INTRODUÇÃO
A construção de quadros conceptuais e a reavaliação da consistência analítica dos pré-existentes permitem estruturar abordagens de estudo nas áreas e subáreas dos campos científicos. Esses exercícios teórico-metodológicos nos dão a oportunidade de conectar e sistematizar fenômenos a partir de recursos interpretativos com os quais transformamos dados em informações epistemologicamente frutíferas.
Neste estudo, de cariz exploratório, defendemos a utilização de um campo conceptual frutífero para a geografia humana, nomeadamente através da articulação entre a geografia económica e a geografia agro-alimentar. Pretendemos contribuir para reformular as abordagens dos problemas e revelar perspectivas analíticas, articulando a questão da "localidade" na geografia económica com as reconfigurações técnico-institucionais e socioeconómicas na geografia agro-alimentar. Discutimos o conceito de “Cadeia Comercial”, formulado sob a ótica da Análise do Sistema Mundo Moderno, propondo o conceito de “Web Geoeconômica”, visando contemplar suas dimensões geopolíticas.
A cadeia de análise está ancorada em levantamento bibliográfico, documental e dados secundários. A análise centra-se no sistema produtivo-comercial da soja, por meio do qual serão elucidadas as dinâmicas de inserção e posicionamento das economias nacionais na economia mundial, relações de poder no espaço, discursos e performances retóricas, reveladas a partir da articulação entre a Cadeia Mercantil e a concepção da "Teia Geoeconômica".
A DIMENSÃO GEOECONÔMICA
estrutura emergente do “Estado Nacional”, das cidades-estados italianas do século XII ao XV, desempenhou um papel crítico ao impulsionar uma espécie de “fagocitose” dos espaços comerciais locais (GEERTZ, 1989; NOREL, 2004; SCHWARTZ , 1995). Ele fez isso monetizando territórios, integrando canais de comunicação e articulando-se com capitalistas e corporações. Além disso, foram criados sistemas jurisdicionais que moldaram as economias nacionais a partir da conexão com os maiores mercados. Le Goff (2014) aponta que a emergência do capitalismo foi marcada pela absorção dos mercados locais pelas redes econômicas internacionais, quebrando muitas convenções espirituais e sociais que orientavam o comportamento e as convenções em escalas locais.
No debate historiográfico econômico especializado, a perspectiva de que a dinâmica econômica brasileira no século XIX permanecia marcada e orientada pelo mercado externo foi contestada por Fragoso (1992; 1993). O autor postula que, ainda no Brasil Colônia e até meados do século XIX, reproduziram-se diversas economias regionais importantes cuja produção não respondia às demandas do mercado internacional, mas a uma dinâmica própria, destacando-se as relações comerciais entre o que hoje chamamos de regiões Sudeste e Sul. No entanto, trabalhos que analisaram seus argumentos, como Mariutti et al. (2001) e Ferline (2009) apontam que mesmo economias aparentemente independentes estavam atreladas a produtos importados e/ou comércio de exportação. Cresceu uma demanda interna significativa que elevou as produções agrícolas para abastecimento, de insumos, além do transporte. Concomitantemente, essa demanda também estabeleceu importações de produtos industrializados europeus, cuja concorrência dificultava as produções nacionais.
Assim, o Brasil já estava com sua economia organicamente integrada aos mercados internacionais por correias de transmissão do capital excedente, numa configuração hierárquica possibilitada pela funcionalidade das produções de mercadorias da economia nacional para a economia mundial. Por sua vez, as relações de poder dentro da economia nacional retransmitem essas pressões.
Ferreira (2002) fez um levantamento sobre os quadros analíticos com os quais a geografia agrária se debruçou sobre fenômenos com essas características, surgidos na década de 1980, tendo como eixo a constituição de integrações e transformações no campo impulsionadas pelas características de determinadas fases dos ciclos da economia capitalista. reprodução. Porém, é preciso ir além, imergindo a reflexão nas relações dos sujeitos sociais diferenciados com os processos, com as tecnologias, com os fluxos, com os signos e discursos, com os elementos institucionais, em vínculos e redes de variadas amplitudes de atuação social, econômica e política. categorias. Tal análise deve tratar das ações e articulações entre esses elementos, juntamente com o conjunto da estrutura econômica mais ampla.
POR MONTANHAS E QUADRADOS: AS REDE DE MERCADORES
Immanuel Wallerstein (1974) inaugurou a ciência da Análise de Sistemas-Mundo com algumas preocupações-chave, entre elas, a de superar a clivagem de duas filosofias de método irreconciliáveis nas ciências sociais: a nomotética - que proclama a proeminência do foco em leis generalizáveis em pesquisas explicativas - e ideográficas - que proclamam o foco nas particularidades descritivas. Ele enfatizou que, na arena da ação humana coletiva, há um entrelaçamento em um conjunto de padrões e superposições em que operam as diversas estruturas econômicas, políticas, sociais e culturais. A análise dos sistemas-mundo abriria possibilidades entre a clivagem "generalização trans-histórica x narrativas particularistas".
Nesta abordagem, a unidade de análise "sociedade" manifesta-se sob outra perspectiva, a dos "sistemas históricos", destacando-se a sua localização espacial e passagem temporal. Estruturas que formam unidades, com dinâmicas internas de reprodução, crise, início e possível fim do sistema. Em tais entidades, "simultaneamente sistêmicas e históricas", são tomadas como "as fronteiras definidoras de um sistema histórico aquelas dentro das quais o sistema e as pessoas são regularmente reproduzidas por meio de algum tipo de divisão contínua do trabalho" (WALLERSTEIN, 1999 , p.459).
A propriedade distintiva dos sistemas históricos "é a existência dentro deles de uma divisão do trabalho" (WALLERSTEIN, 2001, p.74), que gera setores nos quais os elementos são alocados, produzidos e distribuídos para atender às necessidades de reprodução do sistema em sua rede de processos. A divisão do trabalho no capitalismo histórico é mais do que uma estrutura funcional e ocupacional. Tornou-se geográfico por excelência: distribuído pelo sistema de acordo não apenas com as condições ecológicas, mas de acordo com sua organização social do trabalho. Assim, configura, amplia e aprofunda as possibilidades de hierarquias econômicas e sociopolíticas em vista de um processo incansável de acumulação de capital e apropriação do excedente (WALLERSTEIN, 1974, p. 230, 244).
O sistema capitalista histórico, cujo surgimento ocorreu no alvorecer do século XVI, conseguiu ser o primeiro sistema mundial, ao integrar o que se convencionou chamar de "Ásia Oriental" em sua divisão internacional do trabalho no século XIX. Foi assim que o Sistema-Mundo Moderno foi formado.
Para Wallerstein, o capitalismo histórico tem como eixo motriz, em sua dinâmica primária de atividade social, a acumulação exponencial do capital. Potencia a prevalência hierárquica, ao longo do tempo, de agentes e instituições funcionalmente mais úteis para a sua reprodução. Isso impulsiona a necessidade de “commodities estarem ligadas nas chamadas Cadeias Mercantis”, cuja extensão “determina as fronteiras da divisão do trabalho na economia mundial” (WALLERSTEIN, 2002, p. 92). As matérias-primas que devem ser incluídas nas cadeias, as tecnologias logísticas e de comunicação e, em particular, "o grau em que as forças dominantes da economia capitalista mundial têm poder político para incorporar novas áreas", influenciam a amplitude espacial das Cadeias Mercantis (WALLERSTEIN, 2001, p. 92).
Falar de Cadeias Mercantis significa falar de uma divisão social do trabalho alargada, que, ao longo do desenvolvimento histórico do capitalismo, se tornou mais funcional e geograficamente extensa e, simultaneamente, cada vez mais hierarquizada. Essa hierarquização do espaço na estrutura dos processos produtivos tem levado a uma polarização cada vez maior entre as áreas centrais e periféricas da economia mundial, não apenas em termos de critérios distributivos (níveis reais de renda, qualidade de vida), mas ainda mais importante no locus da acumulação do capital (WALLERSTEIN, 2001, p.28).
Wallerstein e Hopkins (1977) introduziram o conceito de "Cadeias Mercantes" como redes de trabalho e processos de produção para transacionar uma mercadoria final (WALLERSTEIN; HOPKINS, 1977; 1986, p. 128). "Em termos da estrutura da economia mundial capitalista, as Cadeias Mercantis podem ser pensadas como a urdidura e a trama de seu sistema de produção social" (WALLERSTEIN; HOPKINS, 1994, p. 17, tradução nossa) 1 . Dougherty (2008) aponta como principais distinções no estudo sobre a “Cadeia Mercantil”:
1) as bases sociais dos processos pelos quais as coisas adquirem valor na economia global, 2) a dinâmica relacional das economias em diferentes níveis de escala, 3) a mecânica (como) e a lógica (por que) da divisão global do trabalho, 4) a lógica da organização e comportamento das firmas e relações interfirmas, 5) as origens históricas e progressivas do subdesenvolvimento, e 6) a organização do trabalho na produção econômica" (DOUGHERTY, 2008, p. 1, tradução nossa) 2
As áreas geográficas nas quais se internalizam maiores proporções de valor acrescentado - ou seja, num processo relacional com outras áreas - constituem-se como centrais (com maior poder de socialização de externalidades negativas para as periféricas). Existem também áreas semiperiféricas que possuem relações centrais com as periféricas e periféricas com as centrais (DUNN, 2005; COSTA LIMA, 2007). Atividades que em dados cíclicos estão em posições periféricas enfrentam uma estrutura de maior competitividade entre si. Não há "países centrais" e "países periféricos", mas sim "estruturas geográficas de fluxos econômicos" (centrais, semiperiféricos, periféricos) nos quais os países estão localizados (WALLERSTEIN, 2001, p. 28-29). Tanto as burocracias estatais quanto as políticas regulatórias e geopolíticas influenciam a análise de uma Cadeia Mercantil (GELLERT, 2003). Nesta abordagem, rejeita-se tomar como base um modelo em que uma estrutura de mercado, delimitando as economias nacionais, evolui progressivamente para o comércio internacional.
O escopo das Cadeias Mercantis inclui o conjunto de insumos, processos e serviços necessários para atingir este item, considerando matérias-primas, logística e sistemas de comunicação, bem como o fluxo de mão de obra em cada um dos processos. Estudos mais recentes têm destacado a relevância de incluir design, marketing, governança, atacado e varejo (GEREFFI, 1999; FERNANDES, 2010). Vieira (2012) enfatiza que:
O conceito de cadeia mercantil também nos impede de separar o que a busca do lucro e do poder uniram e, ao mesmo tempo, nos obriga a colocar no mesmo continuum os governantes, comerciantes, consumidores e trabalhadores dos diversos espaços políticos ou jurisdições onde as atividades estão localizadas, elas fragmentam os processos de produção, comercialização e consumo de uma mercadoria (VIEIRA, 2012, p. 231).
Gereffi (1994; 1995) também indicou as principais dimensões de análise dessas cadeias: a matriz insumo-produto; a territorialidade em que se configura geograficamente; a estrutura de governança (distinguir os processos de controle de dados dos participantes da cadeia sobre os demais e apropriação de valor pelas empresas líderes - "chain drivers"); o contexto institucional, ou as "regras do jogo" de funcionamento das Redes Mercantis. Com base no conceito de Redes Mercantis "buyer oriented", destacou a ampliação do sistema de subcontratação por empresas transnacionais que não atuam mais na fabricação de produtos, concentrando-se na etapa de concepção, projeto e comercialização. Gibbon (2001), com foco em cadeias de produtos "primários",
Bair et ai. (2013) abordam a análise das Cadeias Mercantis chamando a atenção para as "geografias desiguais" do capitalismo, reproduzindo-se de modo a provocar "des/articulações", movimentos dialéticos das "conexões conjunturais de bens, pessoas e lugares, e processos complexos de separação e exclusão, que juntos constituem circuitos de produção de mercadorias” (BAIR et al., 2013, p. 2545. Tradução nossa 3 ). Operam forças de des/articulação, desde gentrificações em áreas residenciais urbanas que levam à exclusão de moradores tradicionais de baixa renda até a expropriação territorial de camponeses com a implementação de “projetos de desenvolvimento”.
Um exemplo da aptidão da abordagem das Cadeias Mercantis para analisar bens particulares e elucidar as relações sociais neles incorporadas é o trabalho de Clelland (2014). Nele, as peças da cadeia do iPad, da Apple, foram examinadas em detalhes. A empresa é considerada um emblema de dinamismo inovador de ponta e reconhecimento de marca e, por isso, liderou o ranking das "Empresas Mais Admiradas do Mundo" da Forbes entre 2008 e 2013. Clelland, indagando sobre como a apropriação de valor foi distribuída ao longo dos nós da rede de produção do iPad, observou que a Apple terceiriza não apenas as atividades "tangíveis" da cadeia para redes de fornecedores independentes, mas também algumas das atividades "intangíveis" que promover agregações de valor.
Desagregando as etapas e os sistemas de montagem dos produtos disponíveis ao público na produção do iPad, ele analisou o custo de alguns componentes e identificou as empresas fornecedoras. Ele discerniu vários graus de exercício de monopsônio da Apple sobre fornecedores e exercício monopolista nas ligações de desenvolvimento e design de produtos, governança da cadeia de suprimentos, marketing e varejo. Esses exercícios seguem a estratégia de (CLELLAND, 2014, p. 91, tradução nossa):
1. projetar inovações que atraem uma grande fatia do mercado global;
2. controlar os direitos de propriedade intelectual;
3. reger a Cadeia Mercantil por meio de relações oligopolísticas com fornecedores,
4. controle da distribuição e comercialização de produtos, e
5. terceirização de custos para fornecedores 5 .
Estas estratégias permitem gerir o aumento entre custos e preço de venda, gerir reduções nos custos de produção e otimizar os lucros operacionais.
Clelland articulou os conceitos de "bright value", capital excedente cuja apropriação e distribuição pode ser, ainda que imperfeitamente, mensurada, e de "dark value", "força de trabalho não paga e externalidades não contabilizadas que não se transformam em valor claro , mas estão embutidos nos bens como valor além do preço que beneficia os consumidores” (CLELLAND, 2014, p. 103, tradução nossa) 5. Entre as fontes de valor obscuro distinguidas nos nós da cadeia do iPad estão o sistema de subcontratação – incluindo empresas com sede em uma jurisdição e fábricas em outras. No sistema de registro doméstico hukou chinês, os trabalhadores migrantes temporários são privados de vários direitos civis dos residentes e, portanto, submetidos a condições precárias e intensivas de trabalho, tais como: trabalho familiar não remunerado e trabalho doméstico mal remunerado; externalização de custos ambientais – como, por exemplo, por exemplo. emissões químicas, descargas de metais pesados, poluição do ar e degradação da água.
Desse "valor nebuloso" sai o "excedente do consumidor" para os compradores finais, principalmente dos países da zona central. Por “excedente do consumidor” entende-se a diferença entre o preço que o consumidor estaria marginalmente disposto a pagar por uma unidade de um bem em relação ao preço efetivamente pago. Pode-se dizer que a não precificação do "valor nebuloso" em determinados bens de consumo no varejo também funciona para o aparato ideológico da propaganda de determinadas empresas e das "virtudes do mercado".
Gwynne (1998) analisou Cadeias Mercantis de fruticultura na região de Guatulume, no Chile, integrando agricultores familiares (denominados pelo autor de “pequena escala”, grandes e transnacionais). O estudo demonstrou o aprofundamento da desigualdade nessa cadeia, com a inserção nos mercados internacionais. A crescente especialização das unidades produtivas, estruturadas em torno da uva como monocultura, resultou na aguda dependência das transnacionais de insumos e tecnologia, das tradings 6, do setor financeiro e de varejo. O mercado tem sido notavelmente volátil ao longo do tempo. Tal conjunto sistêmico de fatores levou sobretudo os agricultores familiares à falência, visto que os grandes proprietários tinham maior poder de barganha e opções contratuais frente às transnacionais.
Vieira (2012) aborda o ciclo do café no Brasil do século XIX às primeiras décadas do século XX do ponto de vista analítico da Cadeia Mercantil. Ele destacou como sua inserção no comércio internacional induziu mudanças estruturais socioeconômicas e socioespaciais no Brasil, refletindo nas correlações internas de forças sociais e na articulação dos setores de infraestrutura, logística e serviços encadeados. Atendeu também ao posicionamento funcional do sistema produtivo-comercial do café no Brasil na Cadeia Mercantil, subordinado ao controle dos nós da cadeia por agentes internacionais. Sobretudo a atual hegemonia britânica e a emergente americana, como agentes intermediários na comercialização e financiamento. Isso é ilustrado pela necessidade de importar aço desses países para a fabricação de máquinas para a produção e para o preparo do café para exportação, bem como para a construção da malha ferroviária que impulsionou o transporte. A autonomia das entidades setoriais brasileiras era relativamente mais restrita, sujeita também às políticas governamentais dos agentes posicionados na área central da economia mundial, como a política de ações americanas (VIEIRA, 2012, p. 273-278 ).
Esta apresentação deixa claro o potencial de contribuição desta perspectiva para a pesquisa geográfica da realidade brasileira. A abordagem pode ser frutífera em estudos sobre os setores agroindustrial, mineral, energético, etc., em suas interconexões com outras cadeias em nível global, com serviços, com tramas políticas, com a estrutura da divisão do trabalho, sobretudo , com formas de externalização de custos na perspectiva da competição pela apropriação do capital excedente (a chave da questão locacional).
AS REDE DE MERCADORES NA FORMAÇÃO DA HIERARQUIA NO SISTEMA-MUNDIAL
A pesquisa de Costa Lima (2007) identificou uma estratificação de conjuntos de economias nacionais representativas da estrutura "centro-semi-periferia-periferia", no período de 1950 a 2003, com base em medidas de Produto Interno Bruto per capita - PIBpc. Ele encontrou grupos estáveis distintos dessa estrutura triádica, com maior estabilidade ocorrendo na periferia (em torno de 74 e 75 países), localizados nas proximidades de 10% do PIBpc dos EUA. Ele apontou um conjunto de 30 países da semiperiferia, que após um vislumbre de convergência com o centro entre 1957 e 1982, sofreu uma queda para a marca de 20% do PIBpc dos EUA. O Brasil aparece na média consolidada representativa do grupo da semiperiferia (COSTA LIMA, 2007, p. 79).
O autor chama a atenção para o fato de que a utilização do PIB per capita como indicador pode gerar uma distorção, devido à disparidade de populações nos países. Isso subestimaria as economias nacionais com forte inserção, mas grande população, dando mais peso a países com população menor, mas com maior inserção em algumas cadeias do mercado mundial. Ele sugere articular procedimentos que incluam o papel das Redes Mercantis, especialmente o aporte tecnológico (COSTA LIMA, 2007, p. 78).
Arend et ai. (2017) articulou o conceito de Cadeias Mercantis com o escrutínio da hierarquia no sistema interestadual, utilizando metodologias possibilitadas pelos dados do Atlas da Complexidade Econômica. Eles verificaram uma correlação positiva entre os índices de complexidade econômica e o nível de renda per capita entre os países. Com a aplicação do indicador "espaço produtivo", avaliaram a característica trimodal do sistema interestadual quanto à estrutura produtiva dos países.
Este indicador de "espaço produtivo" foi desenvolvido por Hidalgo et al. (2007; 2014) como medida da “distância” entre produtos considerando as capacidades requeridas para sua fabricação. Por meio do indicador é possível estimar as conexões entre os itens presentes nas capacidades produtivas de dois bens com as probabilidades relativas de serem exportados sincronizadamente por país, configurando uma rede de estrutura produtiva entre os bens exportados. Quanto mais primários os produtos, mais eles tendem a se localizar na periferia da rede, implicando em menor conexão intersetorial. A relação inversa ocorre com produtos de composição mais intensiva em tecnologia. Nesse processo,
Países com estrutura produtiva e padrão exportador complexo possuem atividades econômicas com altos retornos crescentes de escala, alto índice de inovação tecnológica e amplas sinergias resultantes da divisão do trabalho. Países com estrutura produtiva complexa geralmente possuem atividades econômicas onde predomina a concorrência imperfeita, mercados com estrutura de oligopólio e alto valor agregado por trabalhador. Além disso, suas estruturas de produção exigem uma alta presença de fornecedores locais com conhecimento avançado. Produtos de baixa complexidade não requerem redes sofisticadas de fornecedores e produtores locais (AREND et al., 2017, p.9).
Dessa forma, a capacidade produtiva das economias nacionais é medida “pela sua capacidade de reter, criar, modificar, organizar, distribuir e utilizar as capacidades embutidas nos trabalhadores” (AREND et al., 2017, p.13). Os autores apresentaram correlações entre países que possuem estrutura produtiva mais sofisticada e maior capacidade de inserção nas Cadeias Mercantis da economia mundial com a zona central. Também, a correlação dos intermediários com a semiperiferia e os graus mais baixos da periferia com as menores rendas per capita. No entanto, existem algumas anomalias importantes na representação, como países de renda per capita alta aparecendo na semiperiferia (Austrália, Canadá, Noruega) e países do Leste Europeu com renda per capita média aparecendo no centro (Eslováquia, Eslovênia e República Checa).
A pesquisa de Resende e Romero (2017) traz um refinamento relevante para esse problema. Os autores realizaram uma análise comparativa da estrutura produtiva da Austrália, Brasil e Canadá a partir de 1960, ponderando seus padrões de exportação, destacando que o Índice de Complexidade Econômica dos três países é muito baixo, com o Canadá ficando bem abaixo do Brasil, enquanto a Austrália e o Canadá estão entre o grupo de países com alta renda per capita e o Brasil no de renda média.
A participação de produtos primários e manufaturados à base de primário é muito elevada no padrão exportador australiano, acima do brasileiro. Enquanto no Canadá é significativamente menor entre os três, embora importante. A relação entre a quantidade de produtos industrializados em relação ao total de produtos exportados produz um coeficiente denominado "Vantagem Comparativa Revelada" (VCR). Com ela, estaria indicada a competitividade da economia nacional proporcionada por um “conhecimento tácito”. O VCR das economias australiana e canadense não seria comparativamente importante, considerando a proporção dos respectivos produtos exportados para o total das exportações mundiais. Assim, a alta renda per capita de ambos constitui um problema para falsificar a correlação do desenvolvimento com a complexidade econômica.
No entanto, Resende e Romero (2017, p. 109) utilizaram o arquivo de ajuste do número de indústrias dos países com coeficientes de VCR de média e alta tecnologia, com o tamanho das economias nacionais.
Ou seja, do ponto de vista do desenvolvimento da estrutura produtiva, para o Canadá, algo em torno de 21 indústrias de média tecnologia e 7 de alta tecnologia com VCR parecem ter sido suficientes para gerar um PIB per capita de $ 42.157,93 em 2009. Enquanto isso, no Brasil, 26 indústrias de média tecnologia e 1 de alta tecnologia com videocassete não conseguiram gerar uma mudança estrutural suficientemente grande, gerando um PIB per capita de 8.553,38 dólares no mesmo ano. Já na Austrália, 7 indústrias de média tecnologia e 1 indústria de média tecnologia conseguiram gerar um PIB per capita de 49.927,82 em 2009 (RESENDE; ROMERO, 2017, p. 109, grifos dos autores).
A partir daí, eles usam uma metodologia para ponderar a quantidade de indústrias de média e alta tecnologia com videocassetes por milhão de habitantes. Com um indicador, chamado Índice de Desenvolvimento Estrutural (IDE), eles aceleram a geração de PIB per capita nos níveis proporcionados pela estrutura produtiva.
Os números para os países são então invertidos. Entre 1962 e 2009, o IED evoluiu para atingir o nível de 0,41 na Austrália e 0,83 no Canadá. O Brasil apresentou nível de 0,14, posicionando-se ao lado dos países de menor renda, com o Canadá localizando-se no estrato mais alto de renda per capita.
A Austrália também sobe expressivamente quando são ponderados os índices de qualidade (com nível de preços favorável nas exportações líquidas, atingindo mercados mais distantes) dos produtos industriais que participam de suas exportações. Em 2009, a qualidade média das exportações australianas foi de 11,25; o dos canadenses 8,38; as brasileiras somaram 6,10. Somente no setor de bens primários o Brasil teve um número de empresas com qualidade acima da média, ao nível dos outros dois países (cujo perfil de indústrias de alta qualidade se distribui entre vários setores), ocupando a 39ª posição no mundo.
A Austrália apareceu em 13º e o Canadá em 15º. Os parâmetros do IDE e os índices de qualidade indicariam que “os videocassetes parecem estar mais relacionados a ganhos de qualidade do que a ganhos de eficiência produtiva, via custos, como comumente interpretado” (RESENDE; ROMERO, 2017, p. 115).
A perspectiva da análise das Cadeias Mercantis indicaria que a configuração da estrutura produtiva brasileira, na dinâmica da evolução da economia mundial, configurava-se mais como reflexo de uma "periferização" de setores que, antes, estavam integrados em cadeias de atividades centrais.
BRASIL E SOJA NA CONDIÇÃO DA CADEIA COMERCIAL
Uma maior aproximação pode ser feita na inserção do Brasil no espaço produtivo da economia mundial com o sistema produtivo-comercial da soja, sob o ângulo da complexidade econômica.
Na safra 2018-2019, o país caminhava para se tornar o maior produtor mundial de oleaginosas, ultrapassando os Estados Unidos, embora ainda fosse o segundo exportador (GOVERNO DO BRASIL, 2018). A soja representou 14% do faturamento das exportações brasileiras em 2018, 12% em 2019 e 17,5% em 2020. Neste ano ela se consagrou como o principal produto da pauta exportadora 7 .
De janeiro a dezembro de 2020 (COMEX STAT), as exportações de soja no Brasil aumentaram 12% em relação a 2019, com 73% indo para a China. Depois, bem longe, foram para a Holanda, com quase 4%, Espanha, Tailândia e Turquia com pouco mais de 3% cada. Foi a segunda maior exportação de soja da série histórica, mas também foi a maior importação de soja em 17 anos. O país também importou quase 83 milhões de toneladas, uma expansão de 470% em relação ao ano de 2019. Mas em termos de receita, o resultado acumulado do ano foi de 2,5 bilhões de dólares a menos que o de 2019. Foram gastos 503% a mais do que no ano anterior, uma média de quase 333 dólares por tonelada de soja importada, enquanto recebia uma média de 344 dólares por tonelada exportada. Nos últimos meses do ano, o saldo tornou-se mais desfavorável. Em novembro, foram pagos cerca de 402 dólares por tonelada de soja importada, enquanto foram recebidos cerca de 387 dólares; Em dezembro, foram pagos cerca de 387 dólares por tonelada importada, enquanto foram recebidos cerca de 378 dólares por tonelada exportada.

Faixa representativa da soja nas exportações brasileiras (2019).
Fonte: Observatório da Complexidade Econômica.A soja ocupa o 50º lugar como produto mais comercializado na economia mundial. A China é o principal importador e México, Holanda e Japão aparecem bem atrás, com o valor em casa de 1,6-1,45 bilhão de dólares. O Índice de Complexidade Econômica (ICE) classifica 1.238 produtos, entre os quais a soja ocupa a 1.129ª posição. Ele considera o conjunto de capacidades específicas necessárias para produzir um bem e então mede o grau de presença de sua produção na quantidade de países da economia mundial, atribuindo um valor denominado "Índice de Complexidade do Produto" (PCI) . O PCI da soja é – 1,56, sendo o 1.129º produto no ranking de complexidade. O óleo de soja tem PCI de -1,164, ocupando a 311ª posição, 818 acima da soja. O farelo de soja tem PCI de -1,131, na 1,038ª posição,
Distinguindo alguns dos principais insumos para os sistemas de produção de soja, o Brasil é o segundo maior importador de fertilizantes potássicos e o maior de fertilizantes mistos químico-minerais em geral - dos quais a China é o maior exportador. O país também é o maior importador de agrotóxicos. China e Alemanha estão no topo do ranking dos maiores exportadores de agrotóxicos, seguidos pelos EUA. A Alemanha lidera a exportação de tratores agrícolas, destacando-se também a economia holandesa - com uma população de cerca de 8% do total da população brasileira.

Representatividade do produto nas importações brasileiras (2019).
Fonte: Observatório da Complexidade Econômica.Agrotóxicos e fertilizantes ocupam grande espaço na pauta de importações brasileiras. Os fertilizantes potássicos têm valor de PCI de -0,846, ocupando a 950ª posição do ranking PCI, 179 posições à frente da soja. Os fertilizantes químicos-minerais mistos geralmente têm um PCI de -0,808, 797 posições (166ª) acima da soja. Os agrotóxicos têm PCI de 0,0154, no patamar de 611° no índice de complexidade - 518 posições acima da soja. Os tratores agrícolas possuem PCI de 0,861, número que tende a crescer dada a sofisticação que vêm adquirindo com a incorporação de tecnologias digitais e fotossensoriais. Ocupando 876 posições acima da soja, aparecem em 253° no ranking PCI.
Isso mostra um retrato de uma Cadeia Mercantil em que o Brasil gasta recursos na importação de produtos complexos para exportar um produto não complexo, relação que ocorre, inclusive, em grande medida, diretamente com outros países 8 . Estudos contemporâneos como Delgado (2012; 2020) e Lamoso (2020) circunscreveram esse fenômeno ao processo de reprimarização e desindustrialização da economia: “A evolução da participação relativa das exportações básicas superou a participação dos manufaturados e semimanufaturados em 2010" ( LAMOSO, 2020, s/p).
Os valores expressos na maior exportação relativa de produtos primários em relação aos produtos industrializados, colocam o país na contramão dos patamares alcançados já na década de 1970, em que o país já havia atingido um patamar robusto de exportações de produtos manufaturados , superiores aos bens primários , como aponta Lamoso (2020). Para Delgado (2020), o “boom” das commodities manifestado na primeira década dos anos 2000, estendendo-se até 2013 no Brasil (e parte da América Latina), impulsionado pelas exportações agrícolas e minerais, impulsiona a vinculação de políticas públicas ao crescimento econômico ancorados na reprimarização, resultando em alguns casos na desindustrialização de algumas unidades da federação, conforme apresentado no estudo de Lamoso (2020).
SITES GEOECONÔMICOS
A pesquisa de Filomento (2012) revela que, no decorrer das ações dentro da estratégia de posicionamento hegemônico dos EUA, a imposição de marcos institucionais de propriedade intelectual no sistema produtivo da cultura da soja sul-americana desde o início da década de 1980 Esses arcabouços fortaleceram o poder relativo das empresas ofertantes de pacotes tecnológicos para a produção, aumentando a dependência dos sojicultores. Principalmente no que diz respeito à irreprodutibilidade e consequente compra de sementes para cada safra. O processo ocorreu no bojo de uma disputa no agronegócio da soja entre Argentina, Brasil e Paraguai pela abrangência dos mercados internacionais, em um contexto de profunda crise da dívida externa que obrigou os países a buscarem receitas de exportação.
Na medida em que os tribunais estadunidenses concederam jurisprudência favorável aos detentores de patentes, o Estado daquele país negociou e articulou reestruturações regulatórias internacionais, orquestrando chantagens - inclusive comerciais - para que países relutantes se conformassem aos instrumentos legais, ampliando o alcance dos correspondentes direitos de propriedade intelectual . O Brasil sofreu sanções contra as exportações até a assinatura de termos relevantes dentro do "Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio" em 1994, reforçado em 1996 com a Lei de Propriedade Industrial.
Atentando para a dimensão analítica sobre as forças socioinstitucionais e sociopolíticas atuantes na Cadeia Mercantil, constrói-se o conceito de “Rede Geoeconômica”9. Esse conceito ajuda a ampliar o foco da dimensão de análise em termos do “ambiente político-econômico mais amplo em que operam as cadeias, incluindo os fatores institucionais e sistêmicos que moldam as Cadeias Mercantis e condicionam os resultados a elas associados” (BAIR, 2005 , p.154, tradução nossa 10 ). O objetivo essencial é destacar a grande preocupação com a distribuição de recursos dentro dos links da web.
A Web Geoeconômica não existe independentemente da Cadeia Mercantil, mas não se restringe a ela. Está inter-relacionado com as esferas intraestadual, interestadual e paraestadual – ver o caso mencionado no estudo de Filomento (2012). Ela expressa, em níveis de ramificações, o modus operandi daquilo que Braudel (1970, Volume II) apontou como a esfera extramercado eminentemente capitalista - hierarquias de troca desigual que contornam os constrangimentos competitivos da economia. No bojo do “agronegócio” estão entidades que fazem parte da constituição da Teia Geoeconômica que envolve as cadeias de commodities agrícolas no Brasil e suas interligações. Por exemplo, o emaranhado de fios que entrelaçam corporações de mineração e comercialização de fertilizantes, a alienação de ativos do ramo de fertilizantes da Petrobrás,
Os atores constitutivos da Rede Geoeconômica das Cadeias Mercantes agroindustriais operam mecanismos para garantir posições hegemônicas na economia e na sociedade 11 . Esse processo ocorre com atuação política formal, nas esferas do poder executivo e legislativo, bem como influência e participação direta e indireta em cargos no judiciário. Manifestam-se também através da influência e cooptação de entidades de ensino, fomento, investigação e regulamentação. O investimento em capital simbólico, através da orquestração de laços de dependência e hegemonia (a jusante e a montante) nas estruturas de mercado, que garantem o controle territorial.
Nos processos históricos e geográficos, formam-se relações assimétricas de poder que refletem potencialidades assimétricas no equilíbrio das externalizações/internalizações de custos e impactos. Dentro das Cadeias Mercantis, a busca por um posicionamento vantajoso modula o poder manifestado na Rede Geoeconômica, segundo os jogos de interesse entre atores que ora se associam, ora se opõem. Compreender essas relações de poder nas interações entre corporações de insumos, comerciantes e grandes produtores agrícolas é o principal atributo da Web Geoeconômica como ferramenta analítica.
Por isso, abordagens que analisam as relações capitalistas pressupondo comportamentos estritamente pautados pela lógica do mercado, como se as institucionalidades sociopolíticas e simbólicas fossem fatores exógenos, podem ser consideradas simplistas. Mesmo nas altas esferas das grandes corporações e especuladores da Cadeia Mercantil, estratégias estão sendo desenvolvidas para superar as restrições do mercado. O mercado é um meio. Compreendendo a Rede Geoeconômica, apreende-se que, nas esferas capitalistas, existem táticas oportunistas e engenharia política e socioinstitucional para não se submeter às restrições dos mecanismos de "competição perfeita", vital para a escala de acumulação ampliada de capital que movimenta a economia-mundo no atual sistema histórico.
Enquanto várias ciências sociais têm suas ferramentas para analisar dimensões específicas dessas relações, a geografia tem um poder conspícuo para analisar suas manifestações entrelaçadas, na incidência e posicionamento locacional e no movimento e articulação espacial, bem como para investigar, subjacente às manifestações, o causal forças e mecanismos que operam formando os fenômenos. A pesquisa em Teias Econômicas é multidisciplinar e interdisciplinar por natureza, mas a geografia ganha papel de destaque, podendo vincular, nos esquemas de representação, as escalas macro, meso e micro de eixos, fluxos, nós e instalações. Esta abordagem multiescalar é essencial para o exercício da totalidade espacial.
CONCLUSÃO
A análise das "Cadeias Mercantes", formulada no quadro da "Análise dos Sistemas-Mundo", aprofunda-se no desvendar das teias das relações estruturais formadas na inserção das economias nacionais na economia mundial. Nas peculiaridades de suas ênfases conceituais e analíticas, como na "divisão axial do trabalho", como nas relações de poder referentes à "apropriação desigual do excedente econômico", também como a da "economia-mundo" e da "sistemas interestaduais de estrutura periferia-semi-periferia-centro", suas sínteses são proficientes para pesquisas sobre produção agrícola e sistemas comerciais integrados industrial e financeiramente.
O sistema produtivo-comercial da soja no Brasil se insere no quadro da inserção da economia nacional nas macroestruturas das redes econômicas e institucionais em que operam as empresas, na economia-mundo capitalista e nos processos de competição na hierarquia tripartite do sistema interestadual Entre as manifestações mais substanciais dessa competição, estão as formas como se busca captar e internalizar mais excedentes de capital, entre setores e nichos, e externalizar mais custos para outras espacialidades.
A Cadeia Mercantil da soja tornou-se um eixo primordial para a inserção da economia brasileira no Sistema Mundial. No entanto, um eixo pouco estimulante no que respeita ao enquadramento dos aspectos da complexidade económica e ao papel que desempenha em termos de abertura de oportunidades para melhorar o posicionamento na estrutura desigual deste sistema.
A Teia Geoeconômica permite revelar as relações de poder manifestadas por múltiplos arranjos institucionais, que hegemonizam as ações do Estado brasileiro, submetendo a economia nacional a uma inserção subordinada no sistema-mundo, baseada na exportação de cadeias produtivas, e seguindo a retórica do "consenso da mercadoria" destacada por Maristela Svampa. O resultado mais emblemático dessa "opção brasileira" é a manutenção da concentração fundiária, a retirada progressiva dos direitos sociais conquistados na Constituição Federal de 1988, o aprofundamento do caráter predatório da biodiversidade e a consolidação de uma trajetória de desenvolvimento que traça um caminho de difícil retorno: a reprimarização e a desindustrialização brasileiras.
NOTAS
1- "Em termos da estrutura da economia-mundo capitalista, as cadeias de mercadorias podem ser pensadas como a urdidura e a trama de seu sistema de produção social" (HOPKINS E WALLERSTEIN, 1994, p. 17).
2- 1) os fundamentos sociais dos processos pelos quais as coisas adquirem valor na economia global, 2) a dinâmica relacional de economias de níveis escalares distintos, 3) a mecânica (como) e a lógica (por que) da divisão global do trabalho , 4) a lógica da organização e comportamento das empresas e das relações interfirmas, 5) as origens históricas e contínuas do subdesenvolvimento e 6) a organização do trabalho na produção econômica (DOUGHERTY, 2008, p. 1).
3- “[...] conexões conjunturais de mercadorias, pessoas e lugares, e processos complexos de separação e exclusão, que juntos constituem circuitos de produção de mercadorias” (BAIR et al, 2013, p. 2545).
4- “Como então a Apple construiu um grau de monopólio tão forte? No caso do iPad, o grau de monopólio da Apple está em seu histórico em:
1. projetar inovações que atraem uma ampla parcela do mercado global,
2. controlar os direitos de propriedade intelectual,
3. governar a cadeia de commodities por meio de relações oligopolísticas com fornecedores,
4. controle de distribuição e marketing de produtos, e
5. externalização de custos aos fornecedores” (CLELLAND, 2014, p. 91).
5- “trabalho não pago e externalidades não custeadas que não são transformadas em valor brilhante, mas estão embutidas em commodities como valor além do preço que beneficia os consumidores” (CLELLAND, 2014, p. 103).
6- As tradings regem os elos de comercialização e distribuição das cadeias mercantis de commodities agrícolas, orquestrando no sistema financeiro a gestão do risco do negócio e alguns serviços aos produtores. Entre as mais poderosas estão ADM, Bunge, Cargill, Louis Dreyfus, Noble Group, Wilmar, Vitol, Cofco (MEDEIROS, 2014).
7- Posto isso, é importante ressaltar que a participação das exportações de bens e serviços como percentual do PIB no Brasil ultrapassou pouco mais de 15%. O produto interno bruto do país é impulsionado pelo mercado interno.
8- É significativo que no contexto da pandemia global de Covid-19, as exportações de máscaras da China tenham superado, em dólares, o valor das exportações brasileiras de soja e derivados, carne bovina e cana-de-açúcar (UOL, 2020).
9- A ideia de “rede” carrega mais noções de estruturas dispersas e acêntricas, enquanto a de teia pode refletir noções de estruturas espirais com pontos focais
10- "o ambiente político-econômico mais amplo no qual as cadeias operam, incluindo os fatores institucionais e sistêmicos que moldam as cadeias de commodities e condicionam os resultados associados a elas" (BAIR, 2005, p. 154).
11- Ver artigo "Agribusiness e mercado financeiro avançam de mãos dadas", de O Joio e o Trigo (2021), que aponta que as corporações de especulação financeira se inserem na economia mercantil ao mesmo tempo em que fortalecem seu poder de influência na esfera política do lobby do agronegócio.
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