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<journal-title specific-use="original" xml:lang="pt">Mercator - Revista de Geografia da UFC</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher" xml:lang="pt">MERCATOR</abbrev-journal-title>
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<issn pub-type="epub">1984-2201</issn>
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<publisher-name>Universidade Federal do Ceará</publisher-name>
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<country>Brasil</country>
<email>edantas@ufc.br</email>
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<article-id pub-id-type="art-access-id">273674020013</article-id>
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<subject>Sin sección</subject>
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<article-title xml:lang="en">DIVISÃO SOCIAL DO ESPAÇO E FRAGMENTAÇÃO SOCIOESPACIAL</article-title>
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<given-names>Vanessa Moura de Lacerda Teixeira</given-names>
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<email>vanessamlt2@gmail.com</email>
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<season>Enero-Diciembre</season>
<year>2022</year>
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<title>Abstract</title>
<p>Este artigo aborda a produção do espaço urbano em Mossoró, Rio Grande do Norte, por meio de uma análise que articula a divisão social do espaço e a fragmentação socioespacial. A hipótese é que, no contexto da urbanização contemporânea, a lógica urbana fragmentária desempenha um papel significativo na estruturação e reestruturação dos espaços urbanos. Reconfigura-se a contradição centro-periferia, associada à produção de novos espaços de consumo e à profusão de formas de habitação popular e espaços residenciais fechados. Para isso, o mapeamento e o cruzamento de dados desses mesmos espaços, das formas de moradia e, consequentemente, das entrevistas com os moradores, foram fundamentais para a análise Assim, este artigo destaca o estudo da fragmentação socioespacial como uma possibilidade expressiva para compreender a urbanização brasileira contemporânea. Conclui sobre as práticas espaciais e a apropriação do espaço como elemento fundamental para a compreensão do processo de fragmentação nas médias cidades brasileiras.</p>
</abstract>
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<title>Resumo</title>
<p>Este trabalho aborda a produção do espaço urbano em Mossoró, no Rio Grande do Norte, a partir da perspectiva de análise que articula a divisão social do espaço e a fragmentação socioespacial. No contexto da urbanização contemporânea, a lógica urbana fragmentária desempenha um papel significativo na estruturação e reestruturação dos espaços urbanos. A contradição centro-periferia é redefinida, associada à produção de novos espaços de consumo e à profusão de formas populares de habitação e espaços residenciais datados. Para isso, o mapeamento e cruzamento de dados destes mesmos espaços, as formas de habitação e, consequentemente entrevistas com citadinos que os habitam, foram fundamentais para a análise. Portanto, o estudo da fragmentação socioespacial como possibilidade expressiva para compreender a urbanização brasileira contemporânea e concluir sobre as práticas espaciais e a apropriação do espaço como elemento fundamental para a compreensão do processo de fragmentação nas cidades midiáticas brasileiras.</p>
</trans-abstract>
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<title>Résumé</title>
<p>Este artigo aborda a produção do espaço urbano no Mossoró, no Rio Grande do Norte, por meio de uma análise que articula a divisão social do espaço e a fragmentação socioespacial. L'hypothèse soulevée est que, dans le contexte de l'urbanisation contemporaine, la logique urbaine fragmentaire joue un rôle important dans la structuration et la restructuration des espaces urbains. La contradiction centre-périphérie est redéfinie, associée à la production de nouveaux espaces de consommation et à la profusion de formes d'habitat populaire et d'espaces résidentiels fermés. Pour cela, la cartographie et le croisement des données, les formes d'habitat et, par conséquent, les entretiens avec les habitant, ont été fondamentaux pour l'analyse. Par conséquent, l'article interrogate l'étude de la fragmentation socio-spatiale comme une possibilité expressive pour comprendre l'urbanisation brésilienne contemporaine et conclut sur les pratiques spatiales et l'appropriation de l'espace comme un élément fondamental pour comprendre le processus de fragmentation dans les villes moyennes brésiliennes.</p>
</trans-abstract>
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<title>Keywords</title>
<kwd>Sociospatial Fragmentation</kwd>
<kwd>Urban Centrality</kwd>
<kwd>Social and Territorial Division of Labour</kwd>
<kwd>Mossoró</kwd>
<kwd>Brazil</kwd>
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<title>Palavras-chave</title>
<kwd>Fragmentação Socioespacial</kwd>
<kwd>Centralidade Urbana</kwd>
<kwd>Divisão Social e Territorial do Trabalho</kwd>
<kwd>Mossoró</kwd>
<kwd>Brasil</kwd>
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<title>Mots clés</title>
<kwd>Fragmentation socio-spatiale</kwd>
<kwd>centralité urbaine</kwd>
<kwd>division sociale et territoriale du travail</kwd>
<kwd>Mossoró</kwd>
<kwd>Brésil</kwd>
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<sec sec-type="intro">
<title>INTRODUÇÃO</title>
<p>As dinâmicas econômicas, sociais e políticas do período da globalização produziram mudanças substanciais nas cidades em todo o mundo. No Brasil, a urbanização tornou-se um processo fundamental para a compreensão do território nacional, transformando o papel das cidades na divisão territorial do trabalho e redesenhando a divisão social do espaço urbano em um contexto de neoliberalismo e desigualdades socioespaciais.</p>
<p>Nesta pesquisa, as cidades e o fenômeno urbano são entendidos como totalidades articuladas em movimento, conforme argumenta Silveira (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref24">2015)</xref>, pois é difícil compreender um espaço urbano se as conexões e articulações entre especificidades e tendências gerais do período atual são desconsideradas .</p>
<p>Este artigo discute a apropriação desigual da cidade que fundamenta a fragmentação socioespacial decorrente da divisão social do espaço e relaciona essa divisão à concentração de comércio e serviços e à espacialização das moradias dos moradores na cidade de Mossoró/RN. Portanto, a divisão social do espaço é entendida articulando o processo de fragmentação socioespacial e sua relação com a apropriação e produção desigual do espaço 1 . Nesse sentido, analisamos como o uso da cidade por diferentes grupos socioeconômicos tem influenciado o modo de vida urbano ao mesmo tempo em que cria uma nova condição de centralidade, que reflete novas formas de consumo do espaço urbano em um contexto que redefine a relação centro-periferia.</p>
<p>A metodologia envolveu um mapeamento que cruzou dados de localização dos principais conjuntos de habitação popular do Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV) 2 e Conjuntos Residenciais Fechados (CRS) de alto e médio padrão, com as atividades de comércio, serviços públicos e privados , mobilidade e lazer. Além disso, oito moradores da cidade 3foram entrevistados, sendo quatro residentes em domicílios de baixa renda (moradores da Faixa 1 do PMCMV, com renda familiar entre 1 e 3 salários mínimos), e quatro moradores da CRS, pertencentes às classes média e alta. A intenção era capturar as práticas espaciais por meio da identificação dos locais de trabalho e consumo desses entrevistados. Portanto, assumiu-se que a divisão social do espaço urbano se expressa na forma como os moradores se apropriam, vivem, consomem e usufruem da cidade. Essas ações cotidianas revelam o processo de fragmentação socioespacial na produção do espaço.</p>
<p>Com base no exposto, a análise foi fundamentada em um referencial teórico-metodológico que aborda a fragmentação socioespacial, dadas as relações que esse processo estabelece com a dinâmica de redefinição da contradição centro-periferia no espaço urbano. Além disso, aborda como as práticas espaciais e o "capital espacial" dos moradores da cidade contribuem para a divisão social do espaço e para o processo de produção espacial na cidade, notadamente por meio do uso e apropriação do espaço urbano.</p>
<p>O artigo está dividido em duas partes. A primeira parte aborda a divisão social do espaço urbano e sua articulação com a fragmentação socioespacial. A segunda parte analisa a apropriação desigual e fragmentada pelos sujeitos sociais e a configuração territorial dos espaços de concentração comercial e de serviços ao longo dos anos. O estudo de Mossoró fomenta debates teóricos, conceituais e empíricos sobre as formas de apropriação da cidade e os principais componentes que problematizam o processo de fragmentação socioespacial.</p>
</sec>
<sec sec-type="discussion">
<title>A DIVISÃO SOCIAL DO ESPAÇO URBANO E A FRAGMENTAÇÃO SÓCIO-ESPACIAL: ASPECTOS CONCEITUAIS</title>
<p>Este artigo articula a divisão social do espaço com a fragmentação socioespacial, central nos estudos contemporâneos sobre a produção do espaço urbano. Assim, esclarecer esses conceitos é fundamental.</p>
<p>O conceito de fragmentação socioespacial é bastante complexo e permeou importantes literaturas desde a década de 1960, sendo estudado e atualizado por diversos autores (cf. <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref28">SPOSITO; GÓES, 2013;</xref>
<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref30">NAVEZ-BOUCHANINE, 2002</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref32">PRÉVÔT-SCHAPIRA; PÍNEDA, 2008</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref31">PRÉVÔT -SCHAPIRA, 2001</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref33">RHEIN; ELISSALDE, 2004</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref26">SPOSITO, 2019a, 2020</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref13">LEGROUX, 2021</xref>). Sposito e Sposito (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref27">2020</xref>) examinaram as várias ideias sobre fragmentação apontando tanto contribuições quanto deficiências. Para os autores, a fragmentação socioespacial é, simultaneamente, um conceito multidimensional e polissêmico.</p>
<p>Propondo maior precisão conceitual, Sposito e Sposito (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref27">2020</xref>) sugerem que a fragmentação socioespacial deve ser considerada um processo que caracteriza a urbanização contemporânea. Ela engloba e se distingue de conceitos como segregação, autossegregação e segmentação socioespacial dos usos dos espaços de consumo. Nesse sentido, “a fragmentação socioespacial, conceito mais recente, pode abarcar outras, sem superá-las ou descartá-las, mas sim incorporá-las à reflexão” <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref27">(SPOSITO; SPOSITO, 2020, p. 3)</xref>. Segundo os autores, o adjetivo "socioespacial" se justifica porque revela um fenômeno social e espacial, ou seja, "articulações e codeterminações entre condições sociais e espaciais, tanto quanto se expressa social e espacialmente" (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref28">SPOSITO ; VAI, 2013, pág. 281</xref>). Tal conceito revela a particularidade da urbanização contemporânea, especialmente no capitalismo pós-fordista, levantando questões e reflexões sobre como essa urbanização se dá no capitalismo periférico.</p>
<p>Prévôt-Schapira e Pineda (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref32">2008, p. 76-79</xref>) caracterizam a "fragmentação urbana" por três dinâmicas: a) "competição institucional e segmentação da ação pública"; b) "a economia urbana entre lugares, redes e fluxos"; ec) “fragmentação socioespacial como desintegração social e desarticulação urbana”. Este último refere-se à "análise da relação muitas vezes contraditória entre a mudança social e as evoluções da estrutura urbana" (p. 75). Embora seja justamente essa dinâmica de fragmentação socioespacial que nos interessa, é importante ressaltar, em concordância com o exposto, que "</p>
<p>Para os propósitos deste artigo, é fundamental considerar as práticas espaciais como condição e produto da fragmentação socioespacial, pois é nesse contexto que se observa a apropriação do espaço urbano. Assim, a utilidade da definição de Prévôt-Schapira (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref31">2001, p. 49</xref>) de "capital espacial" como "as formas interiorizadas de relações (intelectuais e práticas) de um indivíduo com o espaço considerado como um bem social", que se refere ao análise do espaço "pelas representações e usos que os indivíduos fazem dele".</p>
<p>Embora os estudos latino-americanos se concentrem na fragmentação socioespacial com maior ênfase nos espaços metropolitanos, como destacam Sposito e Sposito (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref27">2020</xref>), fica claro que esse processo, considerado uma dinâmica ampla da urbanização contemporânea, abrange também espaços urbanos de diferentes complexidades. Nesse caso, as cidades brasileiras de médio porte apresentam sinais bastante eloquentes de terem sido incorporadas pelo processo de fragmentação socioespacial. Sposito e Góes (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref28">2013</xref>) identificaram que os elementos objetivos e subjetivos que caracterizam a fragmentação socioespacial nas cidades médias estão cada vez mais associados a espaços residenciais fechados e a uma nova lógica de localização do capital comercial, associada à dinâmica imobiliária, ao medo e à insegurança .</p>
<p>A fragmentação envolve uma inter-relação entre a dimensão social e a complexificação das rupturas e separações no tecido urbano contemporâneo <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref13">(LEGROUX, 2021, p. 238</xref>):</p>
<p>
<disp-quote>
<p>Expressa i) a intensificação dos processos de segregação e diferenciação dos e nos diferentes espaços urbanos, em função das classes sociais e das funções que lhes são atribuídas (trabalho, lazer, habitação, etc.), e ii) formas e espaços socioespaciais cada vez mais complexos. conteúdos urbanos, com ênfase nas rupturas e separações.</p>
</disp-quote>
</p>
<p>São as novas formas de produção e apropriação da cidade, baseadas em novas lógicas de estruturação do espaço urbano. Por ter fortes associações com as mudanças na lógica centro-periferia, esse processo tem relação direta com a divisão social do espaço. Como nos lembra Roncayolo (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref17">1988</xref>), a divisão social e funcional do espaço guarda uma relação contraditória com a centralidade. Essa relação é evidente nos modelos de Ecologia Urbana de Burgess, Hoyt e Harris e Ulmann (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref17">cf. RONCAYOLO, 1988</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref16">PEREIRA, 2016)</xref>.</p>
<p>A divisão social do espaço urbano é concomitante com a forma como o espaço é produzido. Na perspectiva de Lefebvre (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref11">2000</xref>), o espaço é uma produção social e histórica que intervém e condiciona a produção social e a lógica econômica, política e cultural. É impossível separar a sociedade do espaço e, no modo de produção capitalista, o espaço assume contradições entre valor de uso e valor de troca, produção social e apropriação privada, entre outras.</p>
<p>Em um de seus últimos textos, Lefebvre (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref12">1991, p. 16</xref>) afirmava que, em um movimento de "planetarização urbana", o espaço se homogeneiza ao mesmo tempo em que se fragmenta: "Então, enquanto homogeneizante, o espaço social se fragmenta em espaços de trabalho , lazer, produção material e serviços diversos”. A essa contradição segue-se a constatação de que "as classes sociais se hierarquizam e se inscrevem progressivamente no espaço". Nesse processo, a metamorfose da cidade desfaz as ilusões de modernidade, de uma nova vida urbana inteiramente renovada; pelo contrário, era evidente que "quanto mais a cidade se estende, mais as relações se degradam", demonstrando que "a vida na cidade não deu lugar a relações sociais inteiramente novas" (ibid, p. 14).</p>
<p>O processo de fragmentação socioespacial, entendido como fenômeno urbano contemporâneo, é evidenciado pela ampliação da divisão social do espaço. Lussault (2009) chama o cerne deste processo no urbano contemporâneo de “princípio separativo”: “o urbano contemporâneo é por vezes marcado pela afirmação imobiliária e pelo sucesso do princípio separativo. A separação espacial das realidades sociais caracteriza a urbanização contemporânea” (LUSSAULT, 2009, p. 754). Trata-se de uma “nova condição urbana” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref15">PEREIRA, 2020</xref>) na qual as cidades de médio porte são absorvidas.</p>
<p>Lipietz (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref14">1982</xref>), Roncayolo (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref17">1988</xref>) e Sposito e Góes (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref28">2013</xref>) trazem contribuições vitais para a compreensão da divisão social do espaço. Eles veem a divisão social do espaço por diferentes prismas, mas concordam que esse processo é fundamental para entender a cidade capitalista moderna. Lipietz (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref14">1982</xref>) argumenta que a divisão social do espaço "é um fenômeno extremamente complexo", que inclui a estrutura social, os efeitos das práticas sociais, o poder das classes dominantes nos modos de produção do espaço e os papéis dos Estado e mercado. Roncayolo (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref17">1988, p. 79</xref>) propõe uma relação entre a divisão funcional e social do espaço, identificando a “divisão funcional do espaço” com a “distribuição de funções que descrevem a atividade urbana como um todo”. Esses "</p>
<p>Por sua vez, Sposito e Góes (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref28">2013, p. 98-102</xref>) interpretam a divisão do espaço em termos de uma "divisão técnica" relativa a "diferentes usos e funções: residencial, comercial, de serviços e circulação", enquanto do ponto de vista social do ponto de vista, a divisão do espaço refere-se a "como os indivíduos, grupos e classes se apropriam do espaço". Tanto Roncayolo (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref17">1988)</xref> quanto Sposito e Góes (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref28">2013</xref>) defendem a posição de que usos e funções são articulados e relacionados, o que é uma análise mais abrangente da divisão social do espaço.</p>
<p>Roncayolo (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref17">1988</xref>) também argumenta que as noções de divisão social e funcional do espaço se articulam com a centralidade, tanto se apoiando quanto se opondo. Assim é possível compreender a lógica que produz a cidade, estruturação centro-periferia, e como classes e grupos sociais vivem e se apropriam da cidade. Além disso, Roncayolo (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref17">1988, p. 93-100</xref>) lembra que a divisão social e funcional do espaço considera os agentes sociais políticos e econômicos e os "modos de produção do espaço" que relacionam preço da terra, habitação, comércio, lugares de encontro, intervenção pública , e outros. Portanto, a ideia de que “a morfologia da cidade também é social” é vital para seu argumento devido aos “grupos sociais, seus movimentos, as estruturas materiais que são construções sociais e lugares de práticas”</p>
<p>Em Mossoró, como em muitas cidades brasileiras de médio porte, o processo de fragmentação socioespacial sinaliza uma nova divisão social do espaço urbano. Como veremos a seguir, as formas de estruturação do espaço urbano estão dialeticamente relacionadas às práticas espaciais e às formas de apropriação da cidade pelos citadinos.</p>
</sec>
<sec sec-type="discussion">
<title>APROPRIAÇÃO DESIGUAL DO ESPAÇO URBANO EM MOSSORÓ</title>
<p>A pesquisa de campo, realizada em outubro de 2019, estabeleceu contatos com “agentes bem informados 4 ”, com os quais realizamos entrevistas e conversas informais. São agentes públicos e privados (departamentos de habitação e urbanismo, agentes imobiliários e entidades de classe ligadas ao setor imobiliário) que forneceram informações sobre a lógica de produção do espaço urbano, os rumos do novo capital privado em termos de habitação , e atividades comerciais e serviços.</p>
<p>A cidade de Mossoró apresenta índices significativos de desigualdade social, pois 38% de sua população possui renda per capita mensal de até meio salário mínimo (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref2">BANCO DO NORDESTE, 2019</xref>), e com níveis de pobreza que variam entre 3,72%, 12,81% e 35,33% para extremamente pobres, pobres e vulneráveis ​​à pobreza, respectivamente (Ibidem, np). No outro extremo, estima-se que os 20% mais ricos detenham 57,6% da renda produzida em Mossoró (ibid., np).</p>
<p>Empiricamente, ficou evidente que além das estratégias espaciais das capitais na redefinição da centralidade urbana, a nova divisão social do espaço urbano de Mossoró tem forte participação pública na forma espacial de empreendimentos residenciais para setores populares e médios. e classe alta. Acreditamos que essas ações condicionam diferentes formas de apropriação, experiência e cotidiano dos moradores em Mossoró; ou seja, revelam os "capitais espaciais" desses moradores, como expressa Prévôt-Schapira <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref31">(2001</xref>). Essas transformações já estão registradas na literatura que estuda as transformações espaciais de Mossoró há algum tempo (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref8">ELIAS; PEQUENO, 2010;</xref>
<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref6">COUTO, 2017;</xref>
<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref7">DIAS, 2019</xref>).</p>
<p>A <xref ref-type="fig" rid="gf1">Figura 1</xref> mostra como interpretar a razão de distância dos empreendimentos CRS e PMCMV com estabelecimentos comerciais e de serviços. Esse mapa revela que alguns empreendimentos do PMCMV, principalmente os da Faixa 1, são pouco providos de estabelecimentos comerciais e de serviços em um raio de 500 metros e 1000 metros. Isso fortalece a tese de que, devido à falta de equipamentos e serviços diversos, esses moradores precisam acessar outras áreas da cidade, principalmente as centrais, para fazer compras e realizar outras atividades cotidianas, visitar supermercados, shoppings, bancos, postos de saúde infra-estruturas e ensino superior, dependendo necessariamente do ineficiente e precário transporte público.</p>
<p>
<fig id="gf1">
<label>#fig1pt.jpg</label>
<caption>
<title>
<xref ref-type="fig" rid="gf1">Figura 1</xref> - Mossoró: Raio de proximidade e estabelecimentos de comércio e serviços por setor censitário.</title>
</caption>
<alt-text>#fig1pt.jpg Figura 1 - Mossoró: Raio de proximidade e estabelecimentos de comércio e serviços por setor censitário.</alt-text>
<graphic xlink:href="273674020013_gf2.png" position="anchor" orientation="portrait"/>
</fig>
</p>
<p>O mapa também mostra uma concentração de novos empreendimentos imobiliários verticais no eixo noroeste-sudoeste, seguindo a tendência de crescimento e expansão da cidade e robustos investimentos estaduais por meio do planejamento urbano nas esferas municipal, estadual e federal em direção ao shopping Partage 5 , inaugurado em 2007. Outros serviços também se expandiram um pouco por intensas ações governamentais, incluindo moradias de classe média e alta (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref8">ELIAS; PEQUENO, 2010; </xref>
<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref6">COUTO, 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref7">DIAS, 2019</xref>). Essa área também conta com importantes investimentos comerciais, com as unidades Atacadão e Maxxi implantadas pelo Carrefour e Big Group, respectivamente. O campus Mossoró da Universidade Potiguar (UNP) e o empreendimento comercial e residencial West Home &amp; Business 6também estão localizados aqui, ao lado do shopping Partage. A unidade da Havan e o campus da Uninassau estão em construção na mesma área.</p>
<p>Diante do exposto, fica evidente que esse espaço possui uma infraestrutura urbana relativamente adequada, enquanto os territórios populares localizados em áreas periféricas possuem serviços e infraestrutura limitados. Em termos socioespaciais, os mais pobres são marginalizados em áreas menos dotadas de consumo coletivo, enquanto os ricos se concentram em áreas mais distantes do centro, servidas por bens e serviços públicos <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref26">(SPOSITO, 2019b</xref>). Assim, o Estado assume o papel de agente essencial na produção do espaço urbano 7 . Como se vê no mapa, este eixo 8 também apresenta uma forte concentração de hipermercados e supermercados, proporcionando aos residentes um melhor acesso às zonas de consumo.</p>
<p>O shopping Partage está localizado no bairro Nova Betânia, considerado uma zona de expansão da cidade. Ela tem fomentado uma nova forma de consumo para além da área central em um processo contínuo de multiplicação de áreas centrais ou multicentralidade, estruturando assim um elemento característico da fragmentação socioespacial e mudando o antigo padrão monocêntrico (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref29">SPOSITO, 2007</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref35">WHITAKER, 2017</xref>) ou mesmo centralidades tradicionais (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref28">SPOSITO; GÓES, 2013)</xref>.</p>
<p>
<fig id="gf2">
<label>#fig2en.jpg</label>
<caption>
<title>
<xref ref-type="fig" rid="gf2">Figura 2</xref>- Mossoró: espaços comerciais, serviços e tipologias habitacionais.</title>
<p>Nota: as imagens da <xref ref-type="fig" rid="gf2">Figura 2</xref> enfatizam a zona de expansão e valorização do espaço urbano de Mossoró, onde se localizam os espaços comerciais, de serviços e residenciais fechados de médio e alto padrão. No entanto, esta área também possui unidades populares do Programa Minha Casa Minha Vida, o que denota o processo de fragmentação socioespacial aqui estudado. Os mapas das Figuras 1 e 3 dão uma visão mais ampla das diversas localizações de moradias populares e de médio e alto padrão no tecido urbano.</p>
</caption>
<alt-text>#fig2en.jpg Figura 2- Mossoró: espaços comerciais, serviços e tipologias habitacionais.</alt-text>
<graphic xlink:href="273674020013_gf3.png" position="anchor" orientation="portrait"/>
</fig>
</p>
<p>O retrato do cotidiano dos moradores da cidade indica que esse processo de fragmentação socioespacial resulta da associação entre áreas residenciais e comerciais, serviços e mobilidade. Os empreendimentos imobiliários, principalmente de alto padrão, implantados próximos ao shopping Partage reforçam a fragmentação socioespacial ao criar rupturas e fraturas sociotemporais no espaço urbano (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref4">CALDEIRA, 2000</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref13">LEGROUX, 2021</xref>). Os Espaços Residenciais Fechados tendem a isolar relativamente cotidianamente os moradores urbanos, pois retiram do espaço público a possibilidade de contato urbano (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref28">SPOSITO; GÓES, 2013</xref>). Como afirma um dos entrevistados, que mora em um CRS: “Se eu tiver que sair, vou para lugares que tem meus melhores lugares, e muitas vezes não é no bairro. Porque nosso condomínio é uma cidade (risos) " (Residente CRS). Nesse sentido, a fragmentação socioespacial é um aprofundamento da separação espacial que visa reduzir ao máximo os contatos que compõem a vida urbana. Um morador do CRS se manifestou da seguinte forma:</p>
<p>
<disp-quote>
<p>Nosso condomínio é um condomínio horizontal; é um condomínio de casas, então tenho quintal e cachorro. Eles (os filhos) andam com os cachorros na rua e respiram um ar diferente... eu tenho colegas que tem filhos em apartamento, e a situação é mais complicada... porque o que separa o apartamento do coletivo talvez seja uma porta . Então a gente tem mais espaço aqui para eles ficarem livres em... Ah! Para nós também... de repente a gente coloca uma cadeira na calçada, vê o horizonte, a nuvem se aproximando, o vizinho passando a dois metros de distância... pra gente ter... ter mais tranquilidade nessa ponto... A gente conseguiu resolver muitas coisas por aqui, é uma ilhota, é... digamos, um castelo que foi criado aqui, onde a gente pode ter uma vida diferente mesmo nesses momentos de crise maior (Morador SRC).</p>
</disp-quote>
</p>
<p>Em relação à habitação popular, as seis unidades da Faixa 1 do PMCMV analisadas neste estudo estão em média a 6,5 ​​km do centro principal: Residencial Monsenhor Américo Simonetti, Residencial João Newton Escossia, Residencial Jardim das Palmeiras, Santa Julia, Residencial Mossoró I e Residencial Odete rosa Em 2010, a quase totalidade tinha entre 21 e 51 estabelecimentos de comércio e serviços em um raio de 1.000 metros. A distância destas unidades à zona central, principal zona de concentração de comércio e serviços, reitera a necessidade de mobilidade da população; para poder se deslocar diariamente, os moradores da cidade precisam ter acesso a meios de transporte.</p>
<p>No entanto, estudos sociológicos sobre mobilidade (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref20">SHELLER, 2014</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref21">2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref34">URRY, 2000</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref9">KAUFFMANN et al., 2004</xref>) indicam que maior mobilidade não significa maior acessibilidade. A noção de mobilidade é considerada um termo polissêmico, que comumente é confundido com outros conceitos como circulação, transporte, acessibilidade ou trânsito, ultrapassando a ideia de deslocamento físico (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref1">BALBIM, 2016</xref>). Balbim aponta que: "a mobilidade está relacionada às determinações individuais: vontades ou motivações, esperanças, limitações ou imposições". Estes são determinados pela “organização do espaço, condições econômicas, sociais e políticas, modos de vida, contexto simbólico, características de acessibilidade e desenvolvimento científico e tecnológico” (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref1">BALBIM, 2016, p. 27)</xref>.</p>
<p>Todas estas condições de mobilidade, nomeadamente a organização do espaço, as condições económicas e sociais, e as características de acessibilidade, impõem aos habitantes da cidade certas limitações e graus de liberdade variados, dando origem a diferentes formas de articulação com a cidade. Para que essas formas de articulação dos citadinos com a cidade sejam compreendidas e usando a divisão social do espaço urbano como vetor para explicar a fragmentação socioespacial, cruzamos os dados quantitativos anteriores sobre estabelecimentos de comércio e serviços com algumas entrevistas qualitativas .</p>
<p>A <xref ref-type="table" rid="gt1">Tabela 1</xref> sintetiza os dados coletados e mostra que em 2010 havia mais estabelecimentos comerciais e de serviços do que instituições de ensino e saúde em um raio de 500 metros e 1000 metros dos loteamentos analisados. Esses dados sugerem que, para ter acesso a tais serviços, a maioria dos moradores dessas unidades do PMCMV tem que utilizar equipamentos do centro da cidade ou bairros distantes, onde tais facilidades estão presentes, principalmente saúde e educação. A tabela também mostra que muitos do total de estabelecimentos não estão localizados dentro do raio de proximidade proposto, reforçando ainda mais a distância que os moradores da cidade estão para acessar esses serviços. Por exemplo, menos de 51% dos estabelecimentos estão num raio de 1000 metros,</p>
<p>
<table-wrap id="gt1">
<label>#tab1en.jpg</label>
<caption>
<title>
<xref ref-type="table" rid="gt1">Tabela 1</xref> - Mossoró: Estabelecimentos de comércio e serviços (CNEFE) variáveis ​​de educação, saúde e estabelecimentos comerciais e serviços em geral</title>
</caption>
<alt-text>#tab1en.jpg Tabela 1 - Mossoró: Estabelecimentos de comércio e serviços (CNEFE) variáveis ​​de educação, saúde e estabelecimentos comerciais e serviços em geral</alt-text>
<graphic xlink:href="273674020013_gt2.png" position="anchor" orientation="landscape"/>
</table-wrap>
</p>
<p>As oito entrevistas realizadas em Mossoró, com quatro entrevistados do Nível 1 do PMCMV (A, B, C, D) e quatro dos CRPs (E, F, G, H), permitiram uma análise mais próxima de aspectos da fragmentação socioespacial , permitindo uma análise cartográfica qualitativa (<xref ref-type="fig" rid="gf5">Fig. 3</xref>). A primeira constatação é que o centro da cidade de Mossoró ainda possui forte centralidade devido ao deslocamento diário dos moradores da cidade entrevistados para o centro, principalmente para os setores de baixa renda. Por exemplo, os cidadãos A e B, moradores do PMCMV Santa Julia e Parque Verde, respectivamente, trabalham e consomem no centro da cidade ou nas proximidades (<xref ref-type="fig" rid="gf5">Fig. 3</xref>).</p>
<p>
<disp-quote>
<p>"Trabalho em manicure aqui no centro de Mossoró....vou ao centro (núcleo comercial) no máximo duas vezes por mês" (Residente MCMV).</p>
<p>"Todo mês (indo ao centro) quando tenho conta para pagar. Às vezes eu faço uma pesquisa de preços, faço algumas compras. Vou às lojas para pesquisar preços" (Morador MCMV).</p>
</disp-quote>
</p>
<p>
<fig id="gf5">
<label>#fig3en.jpg</label>
<caption>
<title>
<xref ref-type="fig" rid="gf5">Figura 3</xref> - Mossoró: Habitação, consumo e trabalho dos citadinos: relação com o raio de proximidade.</title>
</caption>
<alt-text>#fig3en.jpg Figura 3 - Mossoró: Habitação, consumo e trabalho dos citadinos: relação com o raio de proximidade.</alt-text>
<graphic xlink:href="273674020013_gf4.png" position="anchor" orientation="portrait"/>
</fig>
</p>
<p>Em segundo lugar, as entrevistas com moradores dos empreendimentos do PMCMV indicaram a forma de transporte dos moradores da cidade aqui estudada. O sujeito A possui motocicleta particular e se desloca diariamente em duas rodas, e o sujeito B depende de transporte público. A entrevistada D é dona de casa e, portanto, trabalha em casa, mas consome no centro e no shopping Partage, próximo a sua residência. O sujeito C é um caso particular, pois seu local de trabalho fica a 80 km de Mossoró, e seus locais de consumo variam de acordo com o trajeto de retorno após o trabalho. Possui carro próprio permitindo maior alcance a áreas distantes da cidade.</p>
<p>Dos moradores da cidade que vivem em conjuntos residenciais fechados (E, F, G, H), os sujeitos F e G trabalham no centro ou nas proximidades, e os entrevistados E e H trabalham próximo de suas residências. Todos têm um veículo individual. Quanto aos locais de consumo, todos vão para o shopping Partage. Os cidadãos E e G residem no condomínio fechado Ninho, localizado a 10 km deste shopping, que fica a aproximadamente 20 minutos de carro. O morador F consome próximo a sua residência, ou dentro dela, por exemplo, alimentos que são vendidos dentro do condomínio:</p>
<p>
<disp-quote>
<p>[...] tem padarias trabalhando aqui... através de... uma espécie de caminhãozinho com seus produtos quase todos os dias da semana, começando na quarta-feira. Assim, quarta, quinta e sexta-feira, as padarias já estão vendendo pães fresquinhos, salgadinhos e bolos. Eles estão em uma vaga aqui no condomínio... A gente tem uma avenida aqui no condomínio de quase dois quilômetros, né?! Então cabe (risos), cabe bastante... e final de semana, sexta, sábado, domingo os food trucks revezam, então a gente tem uma lista de food trucks, e todo final de semana essa lista roda, né?! Então, estamos sempre tentando não ter concorrência; não vamos colocar dois food trucks vendendo hambúrgueres ao mesmo tempo, hambúrgueres gourmet, vamos colocar um que tem açaí e outro que tem pastel. Hambúrguer e um crepe. (residente do CRS).</p>
</disp-quote>
</p>
<p>Assim, diferentemente dos demais e mesmo dos moradores do PMCMV, estes últimos realizam grande parte de suas atividades diárias em um raio de proximidade inferior a 1 km. As lógicas de localização do capital comercial associadas às dinâmicas imobiliárias (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref28">SPOSITO; GÓES, 2013)</xref> representadas pelos CRSs, nas quais o medo e a insegurança ressignificam as práticas espaciais em suas nuances objetivas e subjetivas, são aqui identificadas distintamente. Rupturas e separações (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref13">LEGROUX, 2021</xref>) são constantemente reproduzidas, por um lado, pela lógica objetiva do capital imobiliário e, por outro, por aqueles que consomem tais produtos imobiliários subjetivamente. O morador do CRS acima assimila a ideia de que tais produtos imobiliários promovem segurança e conforto, principalmente para lazer, moradia, mobilidade e consumo. No entanto, barreiras e separações devem ser superadas para fins de trabalho.</p>
<p>Resumidamente: as principais características das práticas cotidianas realizadas pelos moradores da cidade entrevistados mostram que o centro continua sendo um dos principais espaços de compras e serviços dos moradores de baixa renda. Apesar de frequentarem o shopping, este é essencialmente para lazer (praças de alimentação) e não para comprar produtos em lojas com perfil de classe média/alta ou para acesso a consultas médicas, por exemplo. Moradores de residências de médio e alto padrão frequentam mais o shopping, enquanto o acesso ao centro é reduzido, mas não excluído. Por fim, há uma confluência de espaços de consumo, principalmente supermercados, entre os dois grupos, mas a distância não é obstáculo para os segmentos médio e alto já que a cidade é mais acessível de carro. Como sugere Pereira (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref15">2020, p. 303</xref>)</p>
<p>
<disp-quote>
<p>O local de residência diz muito sobre as possibilidades de uso e apropriação do espaço; diz muito sobre a capacidade de consumir, pagar aluguel, comprometer renda com transporte, saúde e educação, ou seja, controle do tempo e do espaço para sua reprodução. Por exemplo, se o bairro é mais central ou periférico, se o vetor de expansão e concentração urbana é para classes mais altas ou para moradores de estratos socioeconômicos baixos, o que pode estar relacionado a índices de violência, resultará em possibilidades e limites de apropriação bastante diferentes de uso do espaço.</p>
</disp-quote>
</p>
<p>Um exame preliminar dessas análises cartográficas, associando dados quantitativos e qualitativos, mostra que Mossoró ainda possui intensa concentração de atividades comerciais e de serviços no centro da cidade. No entanto, a construção do centro comercial Partage indica a crescente descentralização das atividades económicas, promovendo a expansão imobiliária nesta zona e criando uma “nova zona central”. Portanto, uma diferenciação na divisão social do espaço urbano evidencia um processo de fragmentação socioespacial em curso na cidade.</p>
<p>Embora o centro exerça forte atração, entrevistas preliminares já permitem observar uma tendência para o surgimento de novas centralidades, tanto para as classes minoritárias quanto para as classes média e alta. No entanto, eles são usados ​​com temporalidade e frequência diferentes, aguçando ainda mais a divisão social de um espaço formado e herdado de justaposições e historicidades diferentes. Assim, concordamos com Sposito e Góes (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref28">2013, p. 301</xref>), que observam no contexto das cidades médias e da própria urbanização brasileira:</p>
<p>
<disp-quote>
<p>(...) uma nova divisão técnica e, portanto, econômica do tempo e do espaço, que é também social porque se refere a novos ambientes cada vez mais segmentados para o consumo de bens e serviços, aumentando e fazendo o mosaico das desigualdades socioespaciais mais complexos nas formas de mobilidade e acessibilidade aos fragmentos que compõem a cidade contemporânea.</p>
</disp-quote>
</p>
<p> Diante do exposto, conclui-se que existem diferenças nas formas de uso, tempo e apropriação da cidade pelos citadinos, onde a divisão social do espaço urbano tem sido um fator que corrobora essas diferenciações, intensificando as desigualdades e sinalizando uma - processo de fragmentação espacial que caracteriza as cidades brasileiras, e a crescente perda de uma certa unidade espacial (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref30">NAVEZ-BOUCHANINE, 2002).</xref>
</p>
</sec>
<sec sec-type="conclusions">
<title>CONCLUSÃO</title>
<p>Algumas considerações finais decorrentes da pesquisa realizada até o momento sugerem um direcionamento em relação aos achados de pesquisas nacionais anteriores. Primeiramente, a divisão social do espaço em Mossoró possui características que permitem afirmar que a expressão socioespacial na cidade se articula no contexto global, proporcionando uma reprodução de desigualdades socioespaciais que precisam ser exploradas em investigações posteriores. Essa expansão das desigualdades socioespaciais está relacionada a uma fratura diretamente observável no contexto da morfologia urbana e das práticas espaciais.</p>
<p>Foi possível analisar diferentes formas de apropriação e uso do espaço por grupos socioeconômicos. Com esse conjunto de dados, delineamos as formas desiguais de apropriação da cidade, os principais componentes que problematizam o processo de fragmentação socioespacial e os padrões de crescimento na Mossoró contemporânea. As entrevistas deste artigo mostram as novas qualidades nas práticas espaciais dos habitantes da cidade, revelando os diversos "capitais espaciais" mobilizados pelos diversos sujeitos, que estão diretamente ligados à divisão social do espaço urbano.</p>
<p>Assim, há novas qualidades nas formas de conteúdo que caracterizam Mossoró no século XXI e exigem mais reflexões sobre como a inserção de formas comerciais como os shopping centers se articula com outros processos como a segregação e a autossegregação. Além disso, como visto, a lógica da produção habitacional reforça um padrão de segregação espacial das moradias de baixa renda, tornando esses citadinos mais dependentes do centro da cidade. Os espaços residenciais fechados com moradores de alta renda e as possibilidades decorrentes da dinâmica de mobilidade espacial privada permitem uma maior e mais ampla combinação entre os espaços comerciais do centro da cidade e os novos espaços de consumo em outras áreas, como o shopping.</p>
<p>Portanto, os espaços periféricos, principalmente nas áreas onde estão localizadas as residências de baixa renda, apresentam menor disponibilidade e diversidade de áreas de comércio, serviços e lazer. Ao mesmo tempo, as moradias de médio e alto padrão são mais bem atendidas pela proximidade e pela possibilidade de deslocamento que os sujeitos dessas classes sociais possuem. Como bem apontou Harvey (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref10">1980, p. 146</xref>) a respeito do controle do espaço e do tempo na cidade capitalista: "os ricos, que estão cheios de escolhas econômicas, são mais capazes de escapar das consequências de tal monopólio [da propriedade privada ], do que os pobres, cujas escolhas são muito limitadas”, assim “os ricos podem dominar o espaço enquanto os pobres estão aprisionados nele”</p>
<p>As desigualdades socioespaciais em Mossoró reforçam a necessidade de se analisar a divisão social do espaço e a divisão territorial do trabalho, levando em consideração os usos e apropriações por diferentes grupos sociais e características socioeconômicas. Ainda em desenvolvimento, esta pesquisa mostrou que a fragmentação socioespacial se sobrepõe à centralidade, ao consumo e às novas formas de habitar, reproduzindo desigualdades e contradições no espaço urbano.</p>
</sec>
<sec sec-type="conclusions">
<title>NOTAS</title>
<p>
<list list-type="order">
<list-item>
<p>1- Este texto é parte da análise do Projeto Temático "Fragmentação socioespacial e urbanização brasileira: escalas, vetores, ritmos e formas" (Processo FAPESP: 18/07701-8). O foco em Mossoró justifica-se pelo fato de a cidade ser um dos nove núcleos urbanos alvo deste projeto de pesquisa, no qual se investiga a hipótese da fragmentação socioespacial no contexto da urbanização brasileira. Portanto, são resultados parciais que estão sendo sistematizados à medida que a pesquisa avança. Os procedimentos metodológicos aqui empregados são alguns dos que são operacionalizados na pesquisa mais ampla da qual este artigo faz parte.</p>
<p>2- O PMCMV surge neste trabalho como uma lógica estruturante que amplia o distanciamento dos mais pobres e potencializa a ação dos agentes imobiliários no espaço urbano, reproduzindo padrões de fragmentação socioespacial, como a cidade média de Dourados- MS (<xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref5">CALIXTO, 2022</xref>).</p>
<p>3- As entrevistas com moradores da cidade foram realizadas por meio de plataformas de videoconferência, como o Google Meet, ao longo de 2020, devido à pandemia de Covid-19. A ideia era investigar os percursos, a espacialidade e o cotidiano de dois tipos de moradores da cidade (residências populares do MCMV e condomínios fechados de médio e alto padrão). Os entrevistados foram questionados sobre o local de residência, local de trabalho, visitas e frequência ao centro da cidade, pontos de lazer e meios de transporte utilizados para deslocamento. A utilização de oito entrevistados, quatro para cada tipo de morador, baseou-se na possibilidade de ilustrar o debate teórico-conceitual, evitando-se um número excessivo de moradores da cidade, pois não era esse o objetivo da pesquisa no momento. Todas as entrevistas foram realizadas com roteiro semiestruturado, gravadas com autorização dos entrevistados, sob a garantia do anonimato e sua utilização, prioritariamente para fins de pesquisa, respeitando assim as recomendações do Comitê de Ética e a resolução 510 de 07 de abril de 2016, quanto às especificidades da pesquisa em Ciências Humanas e Sociais. Assim, buscou-se proteger os dados dos sujeitos, evitando riscos maiores do que os existentes no dia a dia. Como resultado, os entrevistados foram identificados com códigos para sua proteção.</p>
<p>4- O projeto utiliza a terminologia “agentes bem informados” para classificar os “agentes” pela sua capacidade de atuação no espaço urbano e “bem informados” para caracterizar a informação que possuem; pela função e atuação que cumprem na cidade analisada <xref ref-type="bibr" rid="redalyc_273674020013_ref22">(SILVA et. al, 2022, no prelo</xref>).</p>
<p>5- A área central do mapa mostra três shopping centers que estão enquadrados na pesquisa como shopping center, com base na classificação da Associação Brasileira de Shopping Centers (ABRASCE), veja: https://abrasce.com. br/ . Porém, o Shopping Partage, localizado no setor noroeste da cidade logicamente não se enquadra como um centro comercial.</p>
<p>6- É um empreendimento da Embraco Construtora, com apartamentos de dois e três quartos e salas comerciais. Mais informações podem ser encontradas no site da empresa, disponível em: https://construtoraembraco.com.br/empreendimento/whb.</p>
<p>7- O papel do Estado como agente da produção do espaço urbano não é objeto deste artigo, mas os diversos investimentos estatais, como habitação, mobilidade e lazer, por exemplo, estão sendo investigados na pesquisa de que trata este artigo é parte</p>
<p>8- Diferente de outros setores da cidade que possuem CRS's e estão mais afastados do centro, este eixo de expansão fica próximo ao centro e possui um dos metros quadrados mais caros da cidade, concentrando importantes condomínios fechados como Alphaville-Mossoró e projetos em construção, como o Condomínio Residencial das Américas, da Embraco Construtora, cujo investimento chega a R$ 120 milhões, segundo a mídia local.</p>
</list-item>
</list>
</p>
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<bold>REFERÊNCIAS</bold>
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<source>COUTO, Edna Maria Jucá. A mídia e suas múltiplas particularidades: produção e consumo do espaço urbano em Marília-SP e Mossoró-RN. Tese (Doutorado em Geografia) – Universidade Estadual Paulista. Programa de Pós-Graduação em Geografia, Presidente Prudente, 2016.</source>
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<source>DIAS Liêssa O de Paula. Do real ao simulacro: a produção de espaços residenciais datados em Mossoró-RN (Alphaville, Quintas do Lago e Sunville). Dissertação (Mestrado em Planejamento e Dinâmica Territorial no Semiárido) - Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, Pau dos Ferros, 2019.</source>
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<source>Oliveira, Denise; PEQUENO, Renato. Mossoró: o novo espaço da produção globalizada e aprofundamentão das desigualdades socioespaciais. In: SPOSITO, Maria Encarnação Beltrão; Oliveira, Denise; SOARES, Beatriz Ribeiro (orgs) "Agentes econômicos e reestruturação urbana e regional". Chillán e Marília. São Paulo: Outras Expressões, 2010.</source>
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