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Concepções de rural na Psicologia latino-americana: uma revisão integrativa da literatura
Conceptions of rural in Latin American Psychology: an integrative literature review
Concepções de rural na Psicologia latino-americana: uma revisão integrativa da literatura
Revista Interamericana de Psicología/Interamerican Journal of Psychology, vol. 55, núm. 3, e1521, 2021
Sociedad Interamericana de Psicología

Recepción: 07 Enero 2021
Aprobación: 16 Noviembre 2021
Resumo: Alguns desafios têm perpassado a aproximação da Psicologia latino-americana com os contextos rurais, como as lacunas teóricas a respeito da categoria rural. Assim, este artigo discutiu as concepções utilizadas pela Psicologia latino-americana para definir rural, a partir de sua produção cientifica. Para a busca de artigos científicos que versassem sobre essa temática, orientou-se pelo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA). Assim, foi utilizado o termo “Psicologia” e o descritor booleano and para os termos, “zona rural” e “população rural”, nos idiomas português, inglês e espanhol, e nas seguintes bases de dados: PubMed, PsycINFO, Redalyc, Scielo, PEPSIC e LILACS. Excluíram-se as revisões narrativas, sistemáticas e metanálises e incluíram-se os estudos empíricos sobre o tema, escritos por psicólogos/as em países da América Latina, chegando a um total de 89 artigos. Foi possível verificar artigos que focalizam a dimensão físico-geográfica, sendo o rural concebido como o local de realização da pesquisa. Por outro lado, outros estudos trouxeram uma visão ampliada de rural que vai além de sua dimensão espacial. Assim, os resultados apontam que a Psicologia latino-americana traz discussões importantes e apresenta um esforço para discutir as especificidades dos contextos rurais. Deste modo, enfatiza-se a importância de problematizar aspectos teóricos sobre a concepção de rural, entendendo que não se trata apenas de um local, mas de uma categoria de reflexão teórica.
Palavras-chave: rural, psicologia, América Latina.
Abstract:
Some challenges have permeated the approach of Latin American Psychology to rural contexts, such as theoretical gaps regarding the rural category. Thus, this article discussed the conceptions used by Latin American Psychology to define rural, based on its scientific production. To search for scientific articles that dealt with this theme, we used the Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyzes (PRISMA) as a guide. Thus, the term “Psychology” and the Boolean descriptor and for the terms “rural area” and “rural population” were used, in Portuguese, English and Spanish, and in the following databases: PubMed, PsycINFO, Redalyc, Scielo, PEPSIC e LILACS. Narrative, systematic and meta-analysis reviews were excluded and empirical studies on the topic, written by psychologists in Latin American countries, were included, reaching a total of 89 articles. It was possible to verify articles that focus on the physical-geographical dimension, with the rural conceived as the place where the research was carried out. On the other hand, other studies brought an expanded vision of rural that goes beyond its spatial dimension. Thus, the results point out that Latin American Psychology brings important discussions and presents an effort to discuss the specificities of rural contexts. In this way, the importance of problematizing theoretical aspects about the concept of rural is emphasized, understanding that it is not just a place, but a category of theoretical reflection. rural; psychology; Latin America
Keywords: rural, psychology, Latin America.
Introdução
A literatura tem apontado os contextos rurais como um novo campo de investigação da Psicologia na América Latina (Dantas et al., 2018; Landini, 2015). Esse entendimento conduz à constatação de que esse tema abre uma frente de trabalho e de investigação para a Psicologia latino-americana. Porém, não se pode desconsiderar esforços que já têm sido realizados para a discussão desse campo, especialmente por demonstrarem as lacunas na sua produção de conhecimento a respeito dos contextos rurais.
Nessa direção, destaca-se o estudo de Albuquerque (2002), que demonstra como a Psicologia tem se voltado preferencialmente para estudos de fenômenos psicossociais urbanos. Nessa mesma linha, Vasquez (2009) acentua a pouca participação da Psicologia em discussões recentes sobre os contextos rurais. Mais recentemente, Dantas et al. (2018) refletem sobre um cenário preocupante e desafiador para a Psicologia em contextos rurais no que diz respeito à formação profissional e ao seu arsenal teórico-metodológico. Destacam-se ainda pesquisas como a de Martins et al. (2010, p. 83) que analisaram as percepções sociais de graduandos em Psicologia sobre o “meio rural” e seus habitantes e a de Bonomo e Souza (2013) que pesquisaram as representações do rural e do urbano entre membros de uma comunidade rural. Silva e Macedo (2017a; 2019), por sua vez, delinearam categorias teóricas e analíticas a respeito das ruralidades, considerado um novo campo teórico de discussão para a Psicologia e discutiram as concepções de psicólogos/as que trabalham nas políticas sociais sobre a categoria rural.
Desse modo, o que chama atenção nesse cenário é que o debate sobre rural tem margeado a produção científica na Psicologia já que em muitos dos seus trabalhos ainda persiste o foco no urbano sobre os estudos em contextos rurais (Albuquerque, 2001). São poucos os estudos que versam sobre o ethos “rural”, níveis de organização social, política e comunitária, trabalho, formas de adoecimento, processos educativos, relações familiares, cultura, regras sociais, atitudes, valores, sociabilidades etc. (Landini et al., 2015). E nesse contexto, de maneira mais específica, acentua-se o distanciamento teórico da Psicologia relacionado à categoria rural e à variedade de etnias, grupos sociais e culturas presentes na América Latina, apesar dessa região contemplar a coexistência de distintas formas sociais, povos e diversidade de culturas e línguas (Beyhaut, 1994), o que expõe muitos desafios na sua aproximação com esse campo, entre eles, a ausência de análises e discussões voltadas para as concepções da Psicologia em sua produção científica a respeito do conceito de rural.
Associam-se a essa realidade as próprias divergências que já existem no conteúdo da categoria rural, que constitui um problema teórico que afeta a prática da/o pesquisadora/pesquisador, seja na formulação dos estudos ou na análise dos resultados (Arcila & Silva, 2013). Por isso é importante que a Psicologia se situe na discussão sobre o conceito de rural, entendendo que o mesmo tem passado por uma reelaboração (Siqueira & Osório, 2005), não sendo exclusivamente agrícola, atrasado, nem apenas a expressão da produção primária, pois inclui variadas atividades e a atuação em diferentes setores (Romero, 2012).
Como afirma Camargo e Oliveira (2012), são diversos os sentidos e representações de rural ao longo de toda a história, com movimentos, trocas e fluxos, não sendo possível fazer generalizações ou comparações. De fato, é possível encontrar a coexistência de antigas e novas representações de rural: “atrasado, tradicional, selvagem, incivilizado, resistente a mudanças, etc.” (Moreira, 2005, p. 19); multiplicidade de modos de vida, representação social (Carneiro, 2008), lócus não apenas de atividade agrícola estando “em movimento de transformação e de acomodação de uma variedade de atores e interesses” (Camargo & Oliveira, 2012, p. 1714). Tendo em vista essa diversidade de usos e reelaborações, que coexistem com definições tradicionais, é preciso reconhecer a importância de problematizar a utilização do conceito de rural, sendo fundamental apontar de forma clara em que sentido ele é utilizado e quais os fenômenos e aspectos da realidade busca abranger (Siqueira & Osório, 2001).
Desse modo, o presente estudo objetiva, por meio de uma revisão integrativa da literatura, discutir as concepções sobre a categoria rural utilizadas pela Psicologia latino-americana no âmbito de sua produção de conhecimento. Além disso, pretende-se refletir que existe uma variedade de concepções sobre rural e problematizar a necessidade de utilizar critérios que permitam abranger a sua complexidade, pois é fundamental que a Psicologia tenha uma clareza acerca das definições, conceitos e bases teóricas que norteiam o seu fazer técnico e ético no contexto das ruralidades. Por fim, pretende-se contribuir para fomentar produções que, além de se afastarem de interpretações descontextualizadas, possam gerar conhecimentos que ampliem a concepção de rural e subsidie ações profissionais condizentes com as necessidades e características das populações rurais e latino-americanas.
Método
Procedimentos para coleta do material
Os estudos iniciais desta investigação foram obtidos a partir da colaboração entre o Grupo de Pesquisa Modos de Subjetivação, Políticas Públicas e Contextos de Vulnerabilidade, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Brasil) e o Centro de Referência em Pesquisa, Intervenção e Avaliação em Álcool e Drogas (CREPEIA), da Universidade Federal de Juíz de Fora (Brasil). Este último cedeu um banco de dados que compunham os artigos da pesquisa intitulada “A Psicologia chega ao campo: Revisão Sistemática em Contextos Rurais Latino-americanos” (Ronzani et al, 2021), que foi realizada em 2018 e orientada pelo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) (Liberati et al., 2009). A recomendação PRISMA corresponde a um checklist composto por 27 itens e um fluxograma de quatro etapas tendo por objetivo contribuir para um melhor relato de revisões sistemáticas e meta-análises. Apesar de ter como foco os ensaios clínicos randomizados, esse protocolo também pode ser utilizado como uma base para relatos de revisões sistemáticas de outros tipos de pesquisa, em especial as avaliações de intervenções (Galvão et al., 2015).
Ressalta-se que essa colaboração teve início quando este estudo já estava em andamento e se constituiu um importante ponto de partida para a sua definição dos dados. Vale ressaltar que os dois trabalhos possuem objetivos distintos. Enquanto o primeiro estudo realizou uma revisão sistemática da literatura sobre a inserção da Psicologia em contextos rurais na América Latina, o presente artigo busca discutir as concepções utilizadas pela Psicologia latino-americana para definir rural, na produção cientifica levantada pelo primeiro estudo, tendo ainda como especificidade trabalhar apenas com artigos que possuem psicólogos/as de instituições latino-americanas na autoria.
Como o presente estudo faz parte de uma investigação de nível de doutorado levado a cabo pela primeira autora e com previsão de defesa no final de 2021, identificou-se a necessidade de atualização do banco de dados, uma vez que o mesmo contemplava artigos publicados até o ano de 2017. Essa atualização incorporou os anos de 2018 e 2019. Nesse sentido, a atualização se deu em maio de 2020 e seguiu os mesmos passos do estudo anterior (Ronzani et al, 2021), inclusive com a participação e supervisão de uma pesquisadora que fez parte do grupo de pesquisa responsável pelo primeiro estudo, tendo contribuído para a atualização do referido banco de dados. De tal forma, a busca dos artigos deu-se com a inserção do termo “Psicologia” e do descritor booleano AND para os termos, “zona rural” e “população rural”, definidos tendo por base os dicionários de Descritores em Saúde (DeCS) e do MeSH (Medical Subject Headings); nos idiomas português, inglês e espanhol; nas seguintes bases de dados: PubMed, PsycINFO, Redalyc, Scielo, PEPSIC e LILACS. Definiram-se como critérios de exclusão as revisões narrativas, sistemáticas e metanálises, e como critérios de inclusão, os estudos empíricos que tenham feito pesquisa ou relato de experiência no campo da Psicologia em contextos rurais, escritos por psicólogos/as vinculados/as a instituições de países da América Latina.
Assim, chegou-se ao total de 5.284 artigos publicados entre os anos de 2018 e 2019. Após serem feitas as exclusões dos duplicados, mantiveram-se 4.965 artigos que foram avaliados por três pesquisadores/pesquisadoras independentes. Dessa forma, foi realizada a leitura dos títulos e resumos, sendo excluídos 4.916 por não obedecerem aos critérios de inclusão, restando 49 artigos para serem revisados na íntegra. Ao final, 35 artigos foram excluídos por não corresponderem aos objetivos deste estudo. De tal forma, chegou-se a um total de 14 artigos (ver Figura 1).

Com isso, a análise final desta pesquisa incidiu sobre 89 artigos, acrescentando-se como fonte adicional a esses 14 artigos aqueles selecionados após a atualização do banco de dados cedido
Procedimento para coleta dos dados
De posse dos artigos construíram-se estratégias para a coleta dos dados. Para isso, foi realizada inicialmente a organização dos dados com o intuito de se debruçar sobre o material de forma analítica, para torná-los compreensíveis e arranjados de acordo com o objetivo do estudo. Realizou-se uma leitura específica por meio de fichamento, levantamento quantitativo e qualitativo de termos, temas e expressões recorrentes relacionadas à rural, e criação de códigos para ajudar no controle e no manejo dos dados (Pimentel, 2001). Foram criadas ainda tabelas em planilha do Microsoft Excel e Microsoft Word para coletar as seguintes informações: denominação de rural, concepção de rural, qualificadores e especificidades.
Procedimentos de análise dos dados
A análise de dados se deu a partir dos arquivos, tabelas, documentos e fichas de leitura da fase anterior que foram reunidas às observações e comentários associados ao objetivo da pesquisa (Pimentel, 2001). De maneira mais específica, os dados foram analisados por meio da análise de conteúdo na categoria “Análise Temática” que consiste na descoberta de núcleos de sentido que compõem uma comunicação, operacionalizada em três etapas: a) Pré-análise: é realizada uma leitura flutuante das comunicações, para entrar em contato com seus conteúdos de forma direta e intensa; b) Exploração do material: ocorre a categorização, que consiste em reduzir o texto em palavras e expressões significativas, realizando a classificação e junção dos dados, a partir de categorias teóricas ou empíricas que especificaram os temas; e, finalmente, o c) tratamento dos resultados obtidos e a interpretação: são realizadas inferências e interpretações dos resultados obtidos, junto às dimensões teóricas (Minayo, 2006). Assim, a análise do tipo temática permitiu a proposição das concepções de rural em diálogo com a literatura consultada. Também se utilizou a estatística simples, com frequências e percentuais, especialmente considerando o levantamento e cruzamento de informações quantitativas.
Resultados
Com o objetivo de analisar as concepções sobre rural que têm sido utilizadas pela Psicologia latino-americana foram realizadas a análise de conteúdo e a estatística simples, a partir de artigos científicos sobre esse tema produzidos por psicólogos/as. A seguir são apresentados os resultados desta investigação.
Concepções de rural
Por meio da Tabela 1 é possível verificar a quantidade de 39 palavras e expressões utilizadas para se referir a rural:

Identificou-se a utilização de diferentes expressões para denominar rural em um mesmo artigo, como por exemplo, âmbito rural, comunidades rurais, contextos rurais, área rural, localidades rurais (Treviño-Siller & Pelcastre-Villafuerte, 2006), ou ainda, mundo rural, âmbito rural, setor rural, entorno rural, zonas rurais (Bustos et al., 2019).
A partir de uma leitura em que se buscou compreender o contexto de uso das expressões elencadas na Tabela 1 e com auxílio da análise temática, foi possível categorizar as concepções de rural a partir de alguns qualificadores, tais como: a) dimensão físico-geográfica; b) área de estudo; c) categoria de reflexão teórica; d) setor produtivo; e) dimensão representacional; e) modo de vida e f) categoria social e dialógica. Cumpre destacar que em um mesmo artigo pode se identificar mais de um qualificador para a concepção de rural.
Foram encontrados artigos que, apesar de focalizarem a dimensão físico-geográfica, entendida aqui, sobretudo como local de realização da pesquisa, conseguiram trazer outros elementos, ampliando a visão de rural para além de sua dimensão espacial. Trata-se do artigo de Fuica et al. (2014) que se referem à cultura rural dando destaque para abordagens contextualizadas. Pizzinato et al. (2016) compreendem-no como um território geosimbólico, enfatizando as trocas, integração e diminuição de limites com o território urbano, que gera novas formas de se relacionar, perceber a vida e projetar o futuro. Paucar et al. (2018) compreendem o rural como um contexto sociocultural e Romero-Varela e Martínez-González (2019, p. 4) utilizam a expressão “territórios rurais-urbanos” definindo-os como uma interface onde de um lado se luta pela aspiração à modernidade das cidades e de outro pela preservação das características tradicionais locais.
Rodríguez et al. (2013) utilizam a expressão “contexto rural” para se remeter a uma população menor e já Pizzinato et al. (2016) se referem a um espaço de representação e de ação, permeado por elementos subjetivos. A expressão “contextos rurais” foi usada para denominar a zona rural que carece de atenção e cuidado por parte de gestores (Silva et al., 2013) e ao mesmo tempo para definir sentidos que ultrapassam o entendimento de atividades agrícolas e espaço físico (Silva & Macedo, 2017b). Por fim, a expressão “mundo rural”, referiu-se tanto ao setor produtivo (Albuquerque et al., 1999) como à ideia de urbano e rural reintegrado (Hernández & Uribe, 2007).
Kobarg e Vieira (2008) apresentam o rural como uma categoria de reflexão teórica e de representação, destacando sua conexão com o urbano, a heterogeneidade, os múltiplos campos de sentido, as diversidades e as potencialidades. Bonomo e Souza (2013) acentuam a histórica comparação e luta entre as categorias urbana e rural e especifica a existência de categoria de pertencimento denominada, “o ser rural” (p. 403). Silva e Macedo (2017b; 2019) declaram que rural não diz respeito apenas a um local físico e trouxeram a denominação rural, sem o artigo “o”, para se referir a uma categoria teórica e destacar sua diversidade e Albuquerque et al. (1999) discutem a importância de fazer análises sobre a questão rural no Brasil do ponto de vista da Psicologia Social.
Rural e suas especificidades
Dos 89 artigos, 76 (85,4%) apresentaram resultados e discussões relativas a possibilidades de se pensar rural a partir de algumas especificidades, destacando-se as seguintes categorias: lugar, modo de vida, sujeitos, espaço para adaptação de intervenções, distâncias, educação, pobreza, distância da Psicologia e modo de fazer pesquisa; que serão apresentadas a seguir.
Lugar
Nesta categoria, se encaixaram os artigos que trouxeram características que distinguem a especificidade dos contextos rurais como lugar. Assim, foram abordados desafios históricos a serem superados, como a precariedade das condições de vida e trabalho, isolamento e exclusão social, grandes distâncias e número reduzido de cidadãos, falta e dificuldade de acesso aos serviços de saúde e à atenção especializada, restrita atenção e cuidado por parte dos gestores municipais, estaduais e federais, e ausência de estrutura e de informação (Vera-Noriega, 1999; Treviño-Siller & Pelcastre-Villafuerte, 2006; Reis & Cabreira, 2013; Pizzinato et al., 2016; Nascimento et al., 2017).
Modo de vida
Foi destacada a importância de compreender melhor as necessidades, demandas e formas de viver no âmbito rural para que as intervenções e análises não se deem a partir dos pressupostos do urbano (Pizzinato et al., 2016). Há diferenças no estilo de vida entre aqueles que vivem em áreas rurais e urbanas que podem ser econômicas, culturais e sociais (Rodríguez et al., 2013) bem como na maneira de conceber o que é trabalho, comunidade, família e até o meio ambiente (Pizzinato et al., 2016). Com isso, existem particularidades e um estilo de comportamento próprio no âmbito rural em relação à criança, à família e à comunidade (Noriega & Ortega, 2006; Reis & Cabreira, 2013) e uma característica de forte apego a hierarquias e valores religiosos (Pérez & Correa, 2013). Além disso, as relações entre aqueles que vivem no meio rural, são mais intensas seja em termos positivos (intimidade e estilo parental) ou negativos (conflito) (Durón-Ramos et al., 2019).
Sujeitos
Os indivíduos que vivem em contextos rurais possuem especificidades. Como bem expressou o artigo de Reis e Cabreira (2013, p. 64):
O olhar para a zona rural também tem esse objetivo, o de buscar esses indivíduos que muitas vezes são esquecidos no meio do nada e trazê-los para junto da sociedade, sem retirá-los do seu espaço físico, entendendo suas necessidades e particularidades, garantindo assim seu direito a ter uma vida melhor e mais saudável.
Entre essas particularidades, destacam-se as das crianças, como a desnutrição na primeira infância, o maior espaço físico e segurança para brincar livremente e o fato de que muitas de suas funções psíquicas superiores necessitam de uma estimulação adequada para sua formação, o que não significa dizer que possuam intrinsecamente menos inteligência (Casari & Cabrini, 2013; Borges & Salomão, 2015; Salazar-Jiménez & Torres-Tovar, 2018).
Em relação à adolescência, não contam com uma rede de apoio social esperada para atendê-los, tendo muitas vezes suas possibilidades educacionais diminuídas, sendo necessária uma visão mais crítica em relação às dinamicidades do seu cotidiano e das suas formas de viver (Pizzinato et al., 2016; 2017; Veloso et al., 2016). No caso dos/as idosos/as, diferentemente do que ocorre com os/as aposentados/as urbanos/as, não significa a perda do papel profissional e do sistema de produção, mas de ganharem uma posição social e uma autoestima mais elevada (Albuquerque et al., 1999).
Adaptação de intervenções
Questiona-se que as ações desenvolvidas nos contextos rurais consistem nas mesmas desenvolvidas na cidade, configurando-se como práticas urbanas que não visualizam ou identificam questões referentes a especificidades dos moradores do campo (Reis & Cabreira, 2013). Por isso, tornam-se necessárias estratégias de cuidado que tenham uma “abordagem diferencial” a fim de superar as diferenças culturais (Gualdron, 2015, p. 180), a utilização de técnicas e métodos criativos (Gazzinelli et al., 2008), adaptações psicométricas (Casari & Cabrini, 2013) e intervenções que sejam adaptadas e condizentes com as necessidades das populações rurais (Salazar et al., 2011; Camurça et al., 2016).
Distâncias
Outra especificidade apresentada são as distâncias e as condições de tráfego e locomoção (Oliveira et al., 2015), a distância de serviços de saúde e instituições de ensino (Pizzinato et al., 2017), a distância existente entre moradia, trabalho e escola (Hashizume & Lopes, 2006), a ausência das políticas de saúde em seu cotidiano, especialmente a atenção primária e saúde mental (Silva et al., 2013), não tendo, muitas vezes, a possibilidade de acessar tratamentos médicos e psicológicos (Gualdron, 2015). Isso tudo, demonstra um alto grau de isolamento e exclusão social (Nascimento et al., 2017).
Educação
Identificou-se que a privação relacionada à escolaridade é maior na zona rural (Ximenes et al., 2016) e que os críticos da universidade apontam o seu caráter urbanocentrado (Whitaker & Onofre, 2006). De forma mais prática, identificou-se uma estrutura dialógica diferenciada da sala de aula dependendo se ela trata de uma escola em contexto sociocultural urbano ou rural, de maneira que na sala de aula rural há maior possibilidade de adequar o ensino ao processo dos alunos (Paucar et al., 2018). Além disso, as professoras/professores que atuam em contextos rurais possuem formação essencialmente urbana; sofrem graves problemas relacionados ao transporte, moradia, baixo índice salarial e acúmulo de funções, e lidam com o clientelismo político nas convocações (Hashizume & Lopes, 2006).
Pobreza
A desigualdade, a pobreza e a indigência são mais pronunciadas e persistentes nos contextos rurais (Silva et al., 2013; Núñez, Solís & Soto, 2014; Salazar-Jiménez & Torres-Tovar, 2018). Devido à negligência do Estado pela ausência de políticas sociais que minimizem os efeitos da escassez de chuvas, as pessoas que vivem nesses contextos “sofrem penosamente com os fenômenos sociais da fome, da sede, da desnutrição, da miséria, da pobreza, do desemprego, da falta de oportunidades, da desigualdade social e/ou da migração para os centros urbanos em busca de sobrevivência” (Camurça et al., 2016, p. 121). Dessa forma, as condições de vulnerabilidade psicossocial relativas à pobreza são agravadas (Dimenstein et al., 2017) e uma das principais desigualdades que afetam os pobres rurais é o acesso desigual a uma educação de qualidade (Casari & Cabrini, 2013).
Distância da Psicologia
As necessidades relacionadas ao campo da Psicologia como o bem-estar psicológico ainda são pouco conhecidas nos contextos rurais (Favero & Sarriera, 2014). Os contextos não ocidentais e, principalmente, rurais, são raramente privilegiados pela Psicologia (Ruela & Moura, 2007), sendo visível a carência de estudos e de intervenções nesses contextos (Reis & Cabreira, 2013; Pizzinato et al., 2016), que se expressa nos poucos estudos sobre processos psicoafetivos na América Latina (Castillo & Greco, 2014).
Modo de fazer pesquisa
Ainda é acentuada a necessidade de realizar mais pesquisas sobre a população rural e suas demandas, de modo a compreender as suas particularidades, sendo preciso problematizar as questões relacionadas aos significados atribuídos pelos moradores desses contextos (Reis & Cabreira, 2013). Assim, o modo de fazer pesquisa precisa dar conta de ferramentas etnográficas como a observação e entrevistas individuais abertas, dando abertura para a construção e interpretação dos dados de forma contextualizada (Santos & Ramos, 2017).
Partindo dessas especificidades, pode-se situar os resultados desta pesquisa no que diz respeito à abordagem metodológica, sendo a maioria dos estudos de natureza qualitativa (55%) e, além disso, dos 89 artigos, 86 são relatos de pesquisa e três relatos de experiência. É importante lembrar que, como referido no método, aqui não estão incluídos os artigos teóricos, revisões sistemáticas, estudos bibliográficos e demais tipos de estudo que, sem dúvida, constituem-se como fonte legítima de informações a respeito das concepções de rural e podem ser utilizados em pesquisas futuras, que inclusive, possibilitam aprofundar a análise a respeito das relações entre os tipos de metodologias utilizadas e os resultados encontrados.
Discussão
Os estudos realizados no contexto latino-americano acerca da temática dos contextos rurais ainda são reduzidos como referido anteriormente por Albuquerque (2002), Vasquez (2009) e Dantas et al. (2018). Por isso, este estudo procurou contribuir para a literatura existente acerca relação entre Psicologia e contextos rurais, principalmente por meio da exploração e discussão das concepções de rural que vem sendo utilizadas na produção científica no intuito de situar os desafios e possibilidades, e demarcar sobre o que é preciso avançar para uma maior qualificação da Psicologia nesse campo.
Abordando o tema das denominações de rural, verificou-se a existência de diversas palavras e expressões utilizadas pelos/as psicólogos/as ao longo dos seus textos. Este fato pode ser explicado pelo histórico distanciamento da Psicologia com esse campo e, assim, pelo desconhecimento dos movimentos, categorias e singularidades que surgem pelo contato com essas realidades assim como pela falta de uma base e aprofundamento teórico (Silva & Macedo, 2019). De tal forma, utiliza-se uma infinidade de termos, sem conhecer, muitas vezes, a origem e o sentido de cada um, abrindo espaço para relatos de pesquisa ambíguos e com lacunas teóricas. Como, por exemplo, foi possível observar a utilização das expressões “contexto rural”, “contextos rurais” e “mundo rural” em sentidos diferentes.
Porém, ressalta-se que essa dificuldade não está restrita apenas à Psicologia. Rural tem sido caracterizado de diferentes formas a exemplo da Sociologia, campo clássico de estudo da questão, de maneira que os sistemas de classificação atualmente vigentes incluem na sua definição conjuntos heterogêneos, o que tem gerado dificuldades e imprecisões para sua caracterização. Isso tem gerado uma preocupação tanto no campo acadêmico como em alguns organismos internacionais em (re)pensar as suas definições e a necessidade de promover um debate que indique classificações capazes de superar as limitações que são geradas (Sabalain, 2011). Entre essas limitações, o autor cita: o alcance das definições; dificuldades nas comparações entre países e entre regiões do mesmo país; variação nos critérios usados na definição de acordo com o país; classificação dicotômica urbano/rural; categorias desatualizadas; apenas a localização da população como dimensão espacial é levada em consideração; todas as definições em uso desconsideram a densidade populacional, distâncias, acessibilidade ou uso da terra como variáveis de corte; todas as estatísticas derivadas e indicadores são formulados tendo por base a “População rural” quantificada a partir de censos populacionais; subestimação do “rural” identificando a América Latina como altamente urbanizada, o que afeta várias decisões de políticas públicas e assistência internacional, dentre outras (Sabalain, 2011).
Os resultados da presente investigação vão ainda ao encontro de outros estudos que apontam que o conceito de rural, “como muitos outros, é simultaneamente suficiente e insuficiente, porque a realidade não conhece classificações ou esquemas de qualquer espécie: nós é que os criamos para nos orientarmos na complexidade da existência, da realidade, a qual precisamos conhecer” (Siqueira & Osório, 2005, p. 82). Por isso, é preciso reconhecer que as noções convencionais de ruralidade não são suficientes para dar conta da complexidade da ruralidade atual (Rivera & Campos, 2008), sendo necessário construir reconceituações e metodologias mais influentes e inclusivas nesses contextos (Arcila & Silva, 2013).
Relacionado a esse resultado, identificou-se a existência de artigos em que a dimensão rural é tratada apenas como local de realização da pesquisa, sem uma maior problematização ou contextualização dessa categoria. Tem-se como exemplo, os estudos de Ramírez et al. (2014) e de Pinto et al. (2013) em que expressões relacionadas ao rural aparecem prioritariamente no título, resumo, resumen, abstract e método, para explicar onde a pesquisa foi realizada. Inversamente, foi possível destacar uma preocupação em discutir os contextos rurais em suas especificidades socioculturais e como tais especificidades apresentam rebatimentos nos modos de vida e nas subjetividades, na parte dos resultados e discussões das pesquisas.
Parece existir, deste modo, um dilema na Psicologia latino-americana ao se referir ao rural, em certa medida, como um local, deixando escapar processos e elementos importantes para a composição de suas lentes analíticas e ferramentas de pesquisa e trabalho. Como a literatura de outras áreas já aponta, com seus diferentes enfoques, abordagens e temáticas, rural não diz respeito apenas ao modo particular de utilização do espaço e da vida social (o espaço ecossistêmico), mas também às especificidades (o lugar onde se vive) e às representações (o lugar de onde se vê e onde se vive). Esse entendimento abre espaço para a noção de ruralidade como a “articulação entre as noções de rural e identidade social”, referindo-se, em geral, às “relações específicas dos habitantes do campo com a natureza e às relações próprias de interconhecimento dessas relações” (Mejia & Moreira, 2005, p. 93).
Nesse sentido, os resultados demonstram que a Psicologia latino-americana traz discussões importantes e apresenta um esforço para apresentar as especificidades dos contextos rurais. Tal movimento pode abrir um importante espaço de análise, discussão e proposição de práticas contextualizadas. Nesse sentido, de forma mais específica, foram apresentados aspectos singulares que marcam a realidade, as dinâmicas, a subjetividade e as experiências dos sujeitos que vivem em contextos rurais, assim como aspectos que interpelam da Psicologia a adaptação e a construção de pesquisas e práticas condizentes com suas realidades, necessidades e particularidades. Sobre isso, como foi possível observar, existe um modo de ser, de viver e de se relacionar que é marcado por características próprias aos contextos rurais. Por essa razão, não se pode pensar na aproximação da Psicologia com os contextos e povos rurais sem que haja antes uma problematização das marcas do seu distanciamento com esse campo. Além disso, é imprescindível avançar na compreensão das singularidades que marcam os seus sujeitos, lugares e modos de vida e na criação e adaptação de intervenções e modos de fazer pesquisa.
Faz-se fundamental uma mobilização para que não se produza uma mera transposição de um modus operandi já consagrado pelo saber psicológico para contextos variados, como as distintas ruralidades, contextos esses que podem nos interrogar sobre a viabilidade e validade desses modelos teóricos na leitura de determinadas realidades. Cabe aqui resgatar que grande parte do esforço da Psicologia social e comunitária latino-americana se alimentou desse exercício em propor enfoques teóricos e interventivos a partir das condições de existência das comunidades da região em cenários de desigualdade, opressão com vistas a buscar caminhos de enfrentamento dessa mesma realidade (Freitas, 1996; Martin-Baró, 1989).
Assim, destaca-se o caráter inovador da presente investigação, dada a escassez de estudos na Psicologia latino-americana que abordem aspectos teóricos e analíticos relacionados à categoria rural e, de forma específica, às concepções de rural. Em termos de pistas futuras, seria importante investir na realização de estudos exploratórios acerca da concepção de rural na Psicologia, tanto na graduação e pós-graduação como em diferentes contextos de trabalho. Configura-se também um campo fundamental de reflexões a relação entre contextos rurais e a multiplicidade étnica da região latino-americana, marcada por processos seculares de opressão colonial.
Por meio da realização deste estudo e diante dos resultados obtidos, enfatiza-se a importância de a Psicologia problematizar aspectos teóricos sobre rural, entendendo que se trata de uma categoria de reflexão teórica e não apenas um local onde realiza as suas pesquisas. Não se pode desconsiderar a realidade de que alguns estudos realizados em contextos rurais não têm como objetivo discutir a categoria rural por estarem envolvidos com outros temas específicos. Contudo, insiste-se na necessidade de problematizar os repertórios linguísticos e sentidos sobre rural que a Psicologia tem posto para circular. Dessa forma, ela poderá se posicionar com clareza e mostrar em que e como pode contribuir para a transformação desses contextos.
Espera-se que esta pesquisa ajude a fornecer elementos importantes para o campo de debates epistemológicos da Psicologia, no sentido de problematizar e enriquecer sua visão de sujeito, sociedade e seus métodos e teorias, a partir da consideração dos contextos rurais.
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Notas
Notas de autor
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