Artículos
Recepção: 05 Abril 2022
Aprovação: 31 Agosto 2023
DOI: https://doi.org/10.30849/ripijp.v57i2.1796
Resumo: Teoria da mente é a habilidade sociocognitiva de atribuir estados mentais, como desejos, intenções e crenças, a si e aos outros. Para além dos estudos com crianças, as investigações sobre a teoria da mente de adultos típicos têm buscado compreender o impacto das diferenças individuais e de distintos contextos no uso dessa habilidade. O objetivo desta pesquisa foi realizar uma revisão de literatura, no formato de revisão integrativa, dos estudos que investigam a teoria da mente e a experiência da atuação cênica. Para delimitar os critérios de seleção do material foi utilizada a estratégia “População, Conceito e Contexto”. A busca foi realizada em 5 bases de dados e identificou 976 textos, dos quais 14 compuseram a síntese qualitativa. Os resultados foram analisados utilizando-se a técnica de Análise de Conteúdo e permitiram identificar que a experiência da atuação parece estar ligada à teoria da mente em algumas condições particulares: os métodos de atuação, as práticas formativas e a extensão do percurso de experiências cênicas são fatores específicos que parecem se relacionar à forma como se lê o outro. Assim, este estudo pretende contribuir com um panorama do campo, apontando lacunas e caminhos para futuras pesquisas.
Palavras-chave: Sociocognição, teoria da mente, atuação cênica.
Abstract: In the framework of social cognition, theory of mind is the socio-cognitive ability to attribute mental states, such as desires, intentions and beliefs, to oneself and others. Apart from studies carried out with children, research on typical adults’ theory of mind has sought to understand the impact of individual differences and distinct contexts on the use of this skill. The goal of this research was to carry out an integrative review of studies that investigate theory of mind and stage acting. The “Population, Concept and Context” strategy helped establish the criteria used for selecting research for analysis. The search was carried out in 5 databases and identified 976 texts, of which 14 became part of the qualitative synthesis. Results were analyzed using Content Analysis and allowed us to notice that, under certain conditions, the experience of acting, seems to be linked to theory of mind: acting methods, training practices, and the extension of the scenic experiences are factors that seem to relate to the way we read other people. Thus, this study intends to contribute with an overview of the field, pointing towards gaps and directions for future research.
Keywords: Social cognition, theory of mind, acting.
Introdução
A sociocognição é definida como o conjunto amplo de operações mentais presentes nas interações sociais como percepção, interpretação e resposta a intenções e comportamentos de outras pessoas (Bernstein et al., 2011; Goldstein & Winner, 2012; Martins-Junior et al., 2011). Entre os elementos que compõem a dimensão sociocognitiva está a chamada Teoria da Mente (ToM, na notação internacional), que é a habilidade de atribuir estados mentais (i.e., emoções, desejos, intenções e crenças) a si e aos outros (Wellman, 2018). Estudos têm identificado na ToM dois processos distintos e interligados: decodificação, que diz respeito à habilidade de inferir estados mentais utilizando-se de pistas observáveis, e, raciocínio, que se refere à habilidade de inferir estados mentais em contexto, com a finalidade de explicar ou prever comportamentos (Harkness et al., 2005).
Em um primeiro momento a ToM foi investigada particularmente em crianças (Wellman, 2018). As pesquisas eram voltadas para a compreensão dessa habilidade nos primeiros anos de vida, examinando em que momento e sob quais condições aconteceria esse desenvolvimento. A habilidade da criança em atribuir falsa crença, ou seja, sua habilidade de representar que outras pessoas podem ter representações que são falsas sobre a realidade (e.g. a localização de um objeto) é considerada um marco no desenvolvimento da teoria da mente na infância. Essa noção pode ser avaliada por meio das ‘tarefas de falsa crença’, que apresentam situações em que a criança deve prever o comportamento de um personagem levando em consideração a crença falsa que o personagem tem a respeito da situação apresentada na tarefa (Martins et al., 2014).
Os primeiros estudos sobre teoria da mente com adultos foram realizados com populações clínicas (e.g. esquizofrenia, Pinkham et al., 2014) e com desenvolvimento atípico (e.g. autismo, Happé, 1994). Martins-Junior et al. (2011) apontam a relevância de pesquisas com adultos tendo em vista que tanto a sociocognição, de forma geral, como a ToM, de maneira específica, estão diretamente implicadas na capacidade de navegar bem no mundo social. Na última década, pesquisas com adultos neurotípicos começaram a ser produzidas de forma importante, buscando identificar quais elementos estariam relacionados a diferenças individuais na ToM de indivíduos adultos (Goldstein et al., 2009; Panero et al., 2016).
É importante notar que, por mais que seja evidente que adultos típicos tenham um desempenho melhor que crianças nos instrumentos de ToM, eles ainda são suscetíveis a erros quando inferem estados mentais. Bernstein et al. (2011), por exemplo, destacam na literatura os contraditórios resultados com adultos típicos que comparam os desempenhos de adultos jovens e adultos maduros. Alguns trabalhos apontam para escores menores em instrumento de ToM de adultos maduros, em relação a adultos mais jovens (Pardini & Nichelli, 2009), embora outras investigações não tenham encontrado essa mesma diferença (Keightley et al., 2006). Neste caso, parte da ambiguidade em relação aos resultados das investigações se deve ao fato de que, nas idades mais avançadas, podem ocorrer perdas cognitivas, como no caso das funções executivas ligadas a controle inibitório e memória de trabalho (Bernstein et al., 2011). Outros estudos, entretanto, apontam que diferenças na motivação individual para ler o outro (Apperly, 2012) e diferenças nas trajetórias de vida, tais como o hábito de leitura (Panero et al., 2016; Tabullo et al., 2018) ou a experiência com atuação cênica (Goldstein et al., 2009), podem estar relacionadas a variações no desempenho em instrumentos de ToM em adultos.
A atuação cênica é uma complexa atividade humana que se baseia em simular intenções, desejos, emoções e comportamentos para dar vida a um personagem (Goldstein, 2009; Noice & Noice, 2002). Goldstein (2010), utilizando como base o sistema desenvolvido por Stanislavski, define atuar como “o retrato realista de um personagem” (p.2). Estudos com atores profissionais têm apontado diversos aspectos que poderiam caracterizar as pessoas com essa trajetória, destacando-se aspectos cognitivos como a memória verbal (Noice & Noice, 2006), controle inibitório ou automonitoramento (Nettle, 2006) e tomada de perspectiva (Goldstein & Winner, 2010).
Nettle (2006) também aponta para um possível papel da empatia ligada à atuação cênica. Segundo ele, sentir e responder apropriadamente às emoções durante uma encenação é essencial para o ator. Na literatura, a definição de empatia mais utilizada é a de que se trata de um construto bidimensional com um domínio cognitivo e um afetivo, sendo o primeiro relacionado à capacidade de compreensão dos estados mentais do outro, sem a necessidade de compartilhar qualquer estado emocional, e o segundo, a capacidade de responder afetivamente de forma congruente aos estados cognitivos e/ou afetivos percebidos no outro (Likowski et al., 2011). Na literatura, a dimensão cognitiva da empatia é tratada, em geral, como equivalente à teoria da mente (Guadagni et al., 2014).
Apesar de se tratar de uma prática particular, a atuação cênica implicaria no exercício de habilidades sociocognitivas que sustentam, de forma geral, as interações humanas. O modo do ator entrar em contato com o “mundo mental” dos personagens se assemelha com as habilidades que utilizamos diariamente nas relações sociais. Portanto, é possível supor que esta atividade estaria relacionada às habilidades de teoria da mente (Goldstein, 2009, 2011; Goldstein & Winner, 2012). Assim, o objetivo desta pesquisa foi realizar uma revisão sistematizada, no formato de revisão integrativa, dos estudos que investigam a teoria da mente e a experiência da atuação cênica, buscando compreender quais relações as produções científicas estabelecem entre a experiência e a formação em atuação cênica e a leitura do mundo social.
Método
A revisão integrativa busca integrar e analisar amplamente um material bibliográfico (estudos empíricos e teóricos) sobre um determinado tema, definindo conceitos, revendo teorias e compreendendo a construção metodológica dos estudos empíricos (Whittemore, 2005). Neste estudo, foi utilizada a estratégia “População, Conceito e Contexto” (Peters et al., 2020) para delimitar os parâmetros que fundamentaram tanto a estratégia de busca, quanto os critérios de seleção do material. Nesse sentido, com relação à população, o texto deveria tratar de pessoas que participaram de uma série sistemática de experiências ligadas à atuação cênica; ‘teoria da mente’ foi definido como o tópico conceitual; e definiu-se como critério para o contexto as produções que explorassem diferenças socioindividuais e desenvolvimentais de indivíduos de qualquer idade.
Finalmente, a pergunta que esse estudo buscou responder foi: “que relações são apontadas pelas pesquisas entre a formação ou a experiência em atuação cênica e a habilidade sociocognitiva de atribuir estados mentais (teoria da mente)?”
Estratégia de busca
A estratégia de busca foi realizada em três etapas. O primeiro passo foi a delimitação dos descritores. Para isso foram empregados os descritores relacionados à "teoria da mente” indexados na base de Descritores em Ciências da Saúde (DECS), bem como palavras-chave utilizadas por artigos nesta temática. Além disso, os descritores também deveriam identificar textos em português, inglês e espanhol. Como resultado desse processo, a estratégia de busca ficou definida como: ("theory of mind" OR "teoría de la mente" OR "teoria da mente" OR mentalizing OR mentalización OR mentalização OR "cognitive empathy" OR "empatia cognitiva") AND (acting OR theatre OR theater OR cinema OR television OR tv). Para evitar erros ou imprecisões na identificação dos textos pelos mecanismos de busca, os descritores foram combinados dois a dois (e.g. “Theory of Mind” AND “acting”; “Theory of Mind” AND “theatre”) em todas as bases.
Em seguida, foi realizada uma busca sistematizada nas seguintes bases: BVS e Pubmed (bases específicas da área da saúde); PsycINFO (base de dados específica da Psicologia); e, Web of Science (base multidisciplinar). Não foi adotada nenhuma restrição de tempo quanto ao início das publicações. A busca bibliográfica deu conta de todas as ocorrências até junho de 2021. O terceiro e último passo, foi a realização de buscas nas referências bibliográficas dos estudos selecionados para a identificação de textos que se enquadrassem nos critérios, mas que não tivessem sido captados pela estratégia de busca.
Critérios de inclusão
Foram incluídos nesta revisão produções científicas nas modalidades de artigos e livros. As produções deviam ser textos teóricos, de revisão ou pesquisas empíricas realizadas com indivíduos que tenham tido experiência cênica (sem qualquer restrição quanto à idade, gênero ou escolaridade), e que tivessem investigado direta e nomeadamente a teoria da mente e a formação ou experiência em atuação cênica. Termos que são eventualmente tratados na literatura como sinônimos de teoria da mente, como perspective taking e empatia cognitiva, só foram tomados como equivalentes conceitualmente à teoria da mente quando apresentados pelos autores do texto desta forma.
Seleção de Estudos e Extração de dados
Dois pesquisadores participaram da seleção e extração de dados. O processo de seleção de estudos aconteceu em duas etapas. Primeiro, os textos resultantes da busca sistematizada nas bases foram analisados em seus títulos, resumos ou na íntegra para julgar se se enquadravam nos critérios de inclusão. Em seguida, os textos foram lidos na íntegra e foram criadas categorias de análise a partir da leitura exaustiva do material.
Resultados e discussão
Em A realização da busca sistematizada identificou 976 produções. Com a exclusão de duplicados restaram 627 produções. Em seguida, empregando-se os critérios de inclusão, foi conduzida a leitura dos títulos e resumos, que resultou em 601 produções excluídas. Utilizando-se os mesmos critérios, os 26 artigos incluídos para elegibilidade foram lidos por completo, resultando em 14 produções, que compuseram a síntese qualitativa. Esses passos estão indicados no diagrama de fluxo para a seleção dos estudos (Figura1).

Os textos incluídos na síntese qualitativa estão apresentados na Tabela 1. Identificou-se que todas as produções encontradas foram escritas na língua inglesa. A maior parte dos textos foram produzidos nos Estados Unidos da América (EUA), 10 artigos (76.9%), além de Itália, Canadá e Inglaterra. Há variação no número de estudos publicados por ano, com uma produção maior entre os anos de 2010 e 2015. Notou-se também uma prevalência de investigações sobre a infância e a adolescência (8 estudos), sendo que dos estudos com adultos (3 estudos), um deles conta com uma amostra mista, com adultos e adolescentes.

Os instrumentos para avaliar a teoria da mente utilizados nos estudos são diversos. Em pesquisas realizadas com crianças, são avaliadas tanto habilidades de atribuição de primeira ordem, em especial a atribuição de falsa crença, como habilidades de teoria da mente avançada. Os estudos sobre experiência cênica na infância que avaliam a habilidade de atribuir falsa crença utilizaram instrumentos como o Rabbit Fox Test (Pons et al., 2004), a tarefa de Faux Pas Test (Baron-Cohen et al., 1999), e o Strange Stories Test (Happé, 1994).
Os instrumentos utilizados com participantes adultos buscam dar conta da sofisticação da teoria da mente adulta, avaliando a habilidade em contextos complexos e de difícil interpretação (Martins et al., 2014). Identificou-se que o Reading the Mind in the Eyes Test – RMET (Baron-Cohen et al., 2001) foi o instrumento mais utilizado nas pesquisas com atores (Goldstein & Winner, 2011; Goldstein & Winner, 2012; Goldstein et al., 2009). O RMET avalia a habilidade de decodificação de estados mentais. Para sua utilização, apresenta-se ao participante fotos da região dos olhos e solicita-se a ele que atribua um estado mental a esse ‘olhar’, selecionando uma entre quatro alternativas de resposta. Para avaliar a teoria da mente em contextos mais complexos, alguns estudos utilizaram instrumentos com recursos audiovisuais, que permitem simular situações próximas à da vida cotidiana, examinando a habilidade de raciocinar sobre estados mentais. No Movie for the Assessment of Social Cognition – MASC (Dziobek et al., 2006), por exemplo, utiliza-se um curta-metragem com um roteiro simples, onde um grupo de amigos organiza um jantar, e interrompe a exibição do vídeo em pontos específicos das cenas para perguntar ao participante questões referentes às crenças, desejos e motivações dos personagens.
De forma geral, o principal tema nas produções analisadas foi o impacto da prática cênica no desenvolvimento da ToM (Cobertt et al., 2016; Goldstein & Winner, 2012; Mages, 2018). Nesses estudos, existe uma hipótese de relação causal entre a experiência em atuação e um favorecimento no desenvolvimento na ToM (Conson et al., 2013; Goldstein et al., 2009; Mages, 2018). Apesar da causalidade poder ocorrer no sentido oposto, ou seja, pessoas habilidosas em teoria da mente se interessarem pela atuação, os estudos buscam demonstrar que a atuação, em determinadas condições, pode favorecer o desenvolvimento da teoria da mente. Esta revisão permitiu analisar em quais condições a prática cênica parece estar ligada à ToM, o que será apresentado a seguir.
Os métodos de atuação: diferentes tipos de experiências ligadas à atividade cênica
Existe mais de uma forma de se dedicar à experiência de atuar, por consequência também o processo de formação de um ator pode ser feito por diversas abordagens. Tendo-se em vista os aspectos da preparação do personagem e da encenação, os métodos de atuação são categorizados principalmente em dois polos: inside-out e outside-in (Konijin, 2000). Métodos inside-out, muitas vezes referido como ‘o Método’, analisam o personagem e/ou o roteiro partindo do mundo mental, ou seja, das motivações, desejos e crenças que motivam as ações do personagem que o ator vai interpretar. Konstantin Stanislavski, o teórico fundador dessa abordagem, argumenta que toda preparação do personagem deveria se basear no conhecimento do ator sobre os pensamentos do personagem (Stanislavski, 1936). No outro polo, os métodos outside-in colocam o foco na prática e no exercício das expressões da fisicalidade do personagem como caminho para aperfeiçoá-las. Technique, um dos métodos outside-in mais utilizados na Inglaterra, é um exemplo deste tipo de abordagem, que sustenta que compreender a fisicalidade do personagem permitirá ao ator transmitir ao público o mundo interno desse personagem (Goldstein & Winner, 2010). Outra vertente dessa categoria é o método Mimic, desenvolvido por Orazio Costa, que se baseia no mesmo princípio, mas o faz a partir do treino da habilidade de imitação (Boggio, 2001).
A hipótese de que os processos de dar vida ao personagem por meio dos métodos diversos de atuação podem intervir em diferentes aspectos da sociocognição é considerada tanto em textos teóricos (Goldstein, 2009; Goldstein & Winner, 2010) como em pesquisas empíricas com a população adulta (Brown et al., 2019; Conson et al., 2013). O estudo de Conson et al. (2013) comparou o desempenho de atores das duas abordagens e identificou que o tipo de experiência do treino em atuação estava ligado ao desempenho em tarefas de reconhecimento de emoções. Nesse estudo, o instrumento utilizado foi o “Pictures of Facial Affect” set (Ekman & Friesen, 1976) e os resultados indicaram que atores adultos do método Mimic, um método outside-in, foram significativamente mais precisos em reconhecer expressões faciais que atores do método Stanislavski .inside-out) e que um grupo controle. Também se destaca a velocidade de reconhecimento das expressões, em que o ‘grupo Stanislavski’ foi significativamente mais lento que os outros dois grupos. Em outro estudo com atores adultos, Brown et al. (2019) selecionaram apenas atores do método Stanislavski como grupo amostral. A pesquisa consistiu em um estudo de neuroimagem que buscou compreender os indicadores neurais da atuação e sua relação com a rede neural usualmente ativada nas tarefas de teoria da mente. Um achado importante é a caracterização da preparação dos atores Stanislavski como uma constante atribuição de estados mentais do ator para o personagem durante a análise do roteiro.
Os atores constantemente extraem do roteiro informações para compor sua performance nos palcos, seja priorizando os aspectos mentais ou físicos de seus personagens. A análise do conjunto de textos desta revisão permitiu identificar que esses processos poderiam impactar de diferentes formas as habilidades da ToM. As experiências dos atores de métodos outside-in, que focam prioritariamente na fisicalidade durante a preparação, poderiam estar ligadas mais especificamente à habilidade de decodificação de estados mentais, ou seja, a condição de avaliar continuadamente aspectos físicos poderia levar a uma melhora na habilidade de utilizar informações observáveis para inferir estados mentais (Conson et al., 2013).
Por outro lado, é razoável supor que a análise do roteiro priorizando os aspectos mentais dos personagens, bem como os elementos contextuais que levam o personagem a ‘sentir o que sente’ e ‘pensar o que pensa’, realizada por atores inside-out, poderia estar ligada ao uso da habilidade de inferir estados mentais com uma maior ênfase no raciocínio. Dá suporte a essa hipótese outros achados na literatura a respeito da ToM em adultos que têm identificado uma habilidade maior, especificamente na habilidade de raciocínio sobre estados mentais, em outras trajetórias da vida adulta, como a de leitores de ficção (Tabullo et al. 2018) e de psicoterapeutas (Hassenstab et al., 2007). Nesse sentido, é importante notar que os atores desse tipo de abordagem, assim como leitores de ficção, têm uma experiência similar, na medida em que entram em contato com os aspectos mentais de personagens sem ter um sujeito físico diante de si para decodificar estados mentais a partir de pistas observáveis. Também terapeutas têm uma experiência similar, uma vez que, como os atores inside-out, analisam o contexto em que emergem os estados mentais.
Em conjunto, esses achados apontam avanços e caminhos para futuras investigações da teoria da mente em atores, na medida que evidenciam uma possível relevância que o tipo de experiência organizada pelos diferentes métodos de atuação teria no desenvolvimento da teoria da mente.
As práticas formativas e o percurso de experiências cênicas
Seis dos quatorze estudos encontrados investigam atores em formação (Goldstein, 2009; Goldstein & Winner, 2012). Apesar das publicações descreverem pouco as práticas de ensino, particularmente os estudos de intervenção buscam apresentar e contextualizar quais práticas e atividades são adotados durante a formação. De maneira geral, os estudos parecem apontar para a importância do tempo de experiência cênica na produção de impactos sobre ToM. Entretanto, ainda é incerto o valor de tempo, ou a “dose” como discutem as produções, de experiência para produzir efeitos na dimensão sociocognitiva da ToM (Goldstein & Winner, 2012; Mages, 2018).
Em pesquisas com crianças, por exemplo, um programa baseado em teatro desenvolvido para crianças autistas a partir de 8 anos, que contava com 10 sessões de 4 horas, durante um período de 17 semanas, teve como resultado melhoras significativas nos escores de ToM, em tarefas de compressão da falsa crença (Corbett et al. 2019). Por outro lado, uma intervenção baseada em teatro, ligada aos temas da alfabetização e do desenvolvimento de habilidades sociais, realizada com crianças neurotípicas de 3 a 5 anos, que era composta por 14 sessões em um período de 21 semanas, não encontrou efeitos na ToM no mesmo tipo de tarefa (Mages, 2018). Para além de evidenciar a importância do tempo de experiência na produção de efeitos na ToM, esses achados parecem sugerir que a prática cênica com crianças pode estar ligada à formação de conceitos de ToM, como os conceitos de desejo, crença e falsa crença, que estão em curso de serem elaborados durante a infância (Apperly, 2012; Wellman, 2018). Assim, o tempo de experiência necessário para se observar efeitos no desenvolvimento da ToM poderia estar ligado ao momento que a criança se encontra no curso de desenvolvimento dessas noções.
Em estudo com indivíduos mais velhos, Goldstein e Winner (2012) observaram que um curso de formação de 90 minutos semanais, durante o período de 43 semanas, não produziu efeitos na teoria da mente de crianças, mais especificamente na habilidade de decodificação de estados mentais, enquanto em uma classe de adolescentes entre 14 e 16 anos, uma intervenção com uma carga horária de 6 à 9 horas semanais durante o mesmo período produziu um impacto significativo em ToM nessas mesmas habilidades. Esses achados estão em sintonia com outros resultados encontrados na literatura, que apontam a relevância de experiências sistemáticas e duradouras na trajetória de vida, configurando, assim, um aspecto característico da trajetória do indivíduo, para se observar o impacto na ToM de adultos (Panero et al., 2016). Estudos que buscam identificar efeitos de intervenções muito breves no desempenho em instrumentos de ToM não têm encontrado resultados significativos, ao contrário do que ocorre com pesquisas que investigam experiências sistemáticas do indivíduo, como, por exemplo, ter uma trajetória como leitor de ficção (Panero et al., 2016). Dessa forma, parece que a experiência cênica, assim como a experiência de ler ficção, pode caracterizar um tipo de experiência que, se realizada de modo sistemático, estaria ligada a habilidades da ToM.
Dentre as estratégias empregadas nas práticas formativas, o improviso é uma das técnicas utilizadas para desenvolver habilidades necessárias para um bom desempenho no palco. A literatura tem indicado, porém, que formações que se baseiam fortemente no improviso não produzem efeitos significativos na ToM (Goldstein & Winner, 2011; Mages, 2018). Uma hipótese para esse resultado pode residir no fato de que exercícios de improviso poderiam prescindir da análise do personagem. Nesse sentido, os achados desta revisão permitem observar que o formato das práticas formativas, aliado ao tipo de experiência proporcionado pela abordagem cênica (como a análise do personagem feita via aspectos físicos ou mentais), é um elemento importante para se examinar as condições que se dariam os impactos que a experiência cênica teria no desenvolvimento da teoria da mente.
O impacto das experiências cênicas durante a trajetória de vida
A literatura disponível abrange uma gama relativamente extensa de idades, e a experiência cênica avaliada aparece em diferentes configurações em relação a população que está sendo estudada. Os estudos empíricos com crianças e adolescentes se caracterizam por certa diversidade ligada às experiências em atuação, como oficinas de atuação (Corbett et al., 2011, 2016, 2019), cursos estruturados de longa duração (Brown et al., 2019; Goldstein & Winner, 2012), e, cursos estruturados de curta duração (Goldstein & Winner, 2011; Mages, 2018). Com indivíduos adultos, entretanto, os estudos não mais investigam práticas de atuação pouco estruturadas e passam a incluir em suas amostras atores profissionais (Goldstein & Winner, 2011).
Estudos realizados com crianças e adolescentes, em geral, buscaram investigar de que maneiras a atuação cênica poderia impactar no favorecimento do desenvolvimento da ToM, em termos do desenvolvimento de conceitos, especialmente a noção de falsa crença (Corbett et al., 2016; Mages, 2018), observando-se ainda o lugar privilegiado da investigação sobre a aquisição da falsa crença na infância (Martins et al., 2014; Wellman, 2018). Com a população atípica, intervenções em atuação com crianças autistas têm se mostrado eficazes em impactar o desenvolvimento da teoria da mente (Corbett et al., 2011; Corbett et al., 2016; Corbett et al., 2019). Esses achados estão de acordo com a hipótese de que experiências cênicas podem ter efeito no desenvolvimento de conceitos ligados à ToM, como o de desejo, crença e falsa crença.
Com indivíduos adultos, as investigações estão focadas nas diferenças individuais (Brown et al., 2019; Conson et al., 2013; Goldstein, 2009). Como em adultos os conceitos ligados à ToM já estão formados (Apperly, 2012), os estudos têm se dedicado a investigar habilidades ligadas à decodificação de estados mentais e ao raciocínio sobre estados mentais, em sintonia com as investigações sobre a ToM de adultos típicos (Sanvicente-Vieira et al., 2017). Além disso, diferenças individuais na teoria da mente de atores têm sido investigadas junto a outros construtos, como a empatia. Goldstein, Wu e Winner (2009) evidenciaram que a trajetória em atuação parece incidir no desenvolvimento sociocognitivo, particularmente na habilidade de ToM. Entretanto, diferentemente do previsto por alguns autores (Nettle, 2006) o exercício da atuação cênica não se mostrou relacionada a um aumento nos escores de empatia. Para o contexto clínico, esse achado, em que a experiência cênica estaria ligada à dimensão cognitiva da empatia, mas não à sua dimensão afetiva, pode ter implicações para o uso de métodos cênicos com recurso terapêutico (e.g. psicodrama ou técnicas de role-play), contribuindo para a delimitação da eficácia de algumas ferramentas psicoterápicas. Esses resultados também sugerem que a experiência da atuação cênica teria diferentes impactos nas habilidades sociocognitivas.
Considerações finais
Esse estudo buscou, através de uma revisão integrativa, explorar a compreensão das especificidades da atuação cênica na leitura do mundo social. Apesar de poucos estudos terem sido realizados sobre teoria da mente com atores, tanto as discussões fomentadas pelos resultados com pesquisas empíricas, como o aumento da produção em anos recentes, indicam que essa é uma área bastante promissora para o estudo da sociocognição. Foi possível observar um refinamento no desenho das pesquisas com o passar dos anos, mas uma recorrente necessidade de elaboração e adaptação de instrumentos que captem a complexidade da teoria da mente na trajetória de desenvolvimento ainda é um dos desafios mais prementes nessa área.
A revisão permitiu notar que a experiência da atuação, em algumas condições, estaria relacionada à ToM. Os métodos de atuação, que dizem respeito aos diferentes tipos de experiências ligadas à atividade cênica, as práticas formativas e a extensão do percurso de experiências cênicas na trajetória de vida, são fatores que parecem incidir na forma como se lê o outro e devem, portanto, serem levados em conta em pesquisas nessa área.
Futuros estudos a respeito do contexto social de formação cênica podem auxiliar no avanço da compreensão sobre o impacto de diferentes trajetórias de vida na compreensão do mundo social. Nesse sentido, o presente estudo pretendeu contribuir com um panorama do campo, apontando resultados e lacunas presentes, bem como caminhos para a produção de estudos nessa temática.
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Autor notes
1 Correspondence about this article should be addressed Nathan de Oliveira Ribas Martins: nathan.martins@unifesp.br
Declaração de interesses