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Migração, Adaptação Cultural e Trabalho: haitianos em Mato Grosso do Sul (Brasil)
Migration, Cultural Adaptation, and Work: Haitians in Mato Grosso do Sul (Brazil)
Revista Interamericana de Psicología/Interamerican Journal of Psychology, vol. 58, no. 1, e1929, 2024
Sociedad Interamericana de Psicología

Artículos


Received: 05 September 2023

Accepted: 18 June 2024

DOI: https://doi.org/10.30849/ripijp.v58i1.1929

Resumo: Este estudo teve como objetivo levantar fatores relacionados à adaptação cultural e ao trabalho de migrantes haitianos inseridos no mercado de trabalho brasileiro, especificamente no Estado de Mato Grosso do Sul (MS). Para tanto, investigou-se situações do cotidiano de migrantes no Município de Três Lagoas (MS). Os dados foram coletados por meio de entrevistas semiestruturadas com oito migrantes do sexo masculino com idade superior a 18 anos. As entrevistas foram transcritas e, então, os dados textuais foram organizados e importados para o software IRaMuTeq ( Interface de R pour les Analyses Multidimmensionelles de Textes et de Questionnaires), por meio do qual foram analisados. Foram realizadas as seguintes análises: Classificação Hierárquica Descendente e Análise de Similitude. As análises resultaram em sete classes de palavras evidenciando aspectos da adaptação cultural aos modelos de trabalho dispostos na região, destacando as funções exercidas no trabalho, as diferenças culturais entre o país de origem e o novo local de residência e trabalho, as dificuldades com o idioma e o enfrentamento de preconceito, discriminação racial e xenofobia no trabalho e fora dele, entre outros pontos. A migração haitiana no Brasil é recente e ainda pouco estudada. Espera-se que os resultados aqui apresentados contribuam para a pesquisa sobre este fenômeno, complementando estudos qualitativos com amostras de outras regiões brasileiras, bem como oferecendo subsídios para o delineamento de estudos (por exemplo, surveys) com amostras mais robustas, de modo a constituir uma compreensão mais ampla e integral acerca da adaptação cultural e do trabalho desses migrantes.

Palavras-chave: Migração internacional, migração haitiana, Haiti, Brasil, adaptação cultural.

Abstract: This study aimed to investigate factors related to the cultural adaptation and employment experiences of Haitian migrants in the Brazilian labor market, specifically in the state of Mato Grosso do Sul. To do so, everyday situations of migrants in the municipality of Três Lagoas (MS) were examined. Data were collected through semi-structured interviews with eight male migrants aged 18 and older. The interviews were transcribed, and the textual data were organized and imported into the IRaMuTeq software (Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires), through which they were analyzed. The following analyses were conducted: Descendant Hierarchical Classification and Similarity Analysis. The analyses resulted in seven word classes highlighting aspects of cultural adaptation to the work models prevalent in the region, including the roles performed at work, cultural differences between the home country and the new place of residence and work, language difficulties, and the challenges of facing prejudice, racial discrimination, and xenophobia both at work and in other contexts, among other points. Haitian migration in Brazil is relatively recent and underexplored. It is expected that the results presented here will contribute to research on this phenomenon by complementing qualitative studies with samples from other Brazilian regions, as well as providing insights for the design of studies (e.g., surveys) with more robust samples, thus facilitating a broader and more comprehensive understanding of the cultural adaptation and employment experiences of these migrants.

Keywords: International migration, Haitian migration, Haiti, Brazil, cultural adaptation.

Introdução

O Estado de Mato Grosso do Sul (MS) é conhecido por ser uma região de agronegócio, sendo notória a grande quantidade de estudos acadêmicos voltados para este tipo de produção. A análise da presença dos haitianos (e de outros migrantes) no país e na região sul-mato-grossense, sob a ótica da inserção destes no mercado de trabalho, é crucial para o direcionamento de políticas públicas e investimentos econômicos visando essa população.

De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), o MS possui uma faixa extensa de fronteira com dois países sul-americanos (Bolívia e Paraguai), com 44 municípios localizados nessa faixa, o que o torna opção de destino para parte dos migrantes internacionais que se destinam ao Brasil. Porém, com maior frequência, a região acaba servindo como local de passagem para os grandes centros do país, como São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Brasília (DF) ( IPEA, 2015). A maior parte desse fluxo é de sul-americanos, como bolivianos e paraguaios. No entanto, o MS também é rota utilizada em menor escala por haitianos e bengalis e migrantes de outros países africanos de forma geral ( Da Silva & Serpa, 2019; IPEA, 2015).

Com o desenvolvimento de algumas cidades de MS, houve a necessidade de mão de obra para as construções de estrutura e produto final das indústrias. No auge do fluxo de migração haitiana, muitas empresas locais se dispuseram a procurar e a buscar essa mão de obra, principalmente para a cidade de Três Lagoas. Os primeiros registros de haitianos chegando a MS ocorreram em 2010, nas cidades de Corumbá e Campo Grande, estendendo-se, a partir de 2013, para as demais regiões do estado ( Jesus, 2020).

Para Lacerda da Silva (2018) e da Silva Gonçalves (2019), a chegada dos haitianos em MS segue a lógica relacionada às oportunidades de trabalho geradas nas cidades e às possibilidades de permanência no país. Além da dificuldade de estabilização financeira, os haitianos migrantes encontram dificuldades para se adaptar à cultura local, ao idioma e, ainda, dificuldades relativas ao preconceito — que transcende a sua origem e a cor da pele, posto que muitos trabalhadores brasileiros, sentindo-se substituídos por eles, os julgam e os condenam, por enxergá-los como concorrência para as vagas de trabalho.

Os migrantes haitianos, juntamente com os migrantes venezuelanos, lideram na última década não apenas os números relacionados à inserção no mercado de trabalho e ao registro de entradas no país, mas também em reunião familiar, demandas por inserção social, educacional, política e cultural. Segundo Cavalcanti (2021), entre 2011 e 2019, foram registrados no Brasil 1.085.673 migrantes considerando os amparos legais, com o predomínio de fluxos oriundos da América do Sul e do Caribe. Os maiores registros foram de venezuelanos (142.250), paraguaios (97.316), bolivianos (57.765) e haitianos (54.182), representando 53% do total de registros. Os haitianos destacam-se, também, nos considerados migrantes de longo termo (migrantes que permanecem no país em um período maior de um ano), com o número registrado de 54.182 pessoas ( Cavalcanti et al., 2021).

Compreender os desafios relacionados à Adaptação Cultural e às relações entre trabalho e movimentos de deslocamento humano é imprescindível para a criação de novas políticas que atendam a essas pessoas, pois é preciso inseri-las à sociedade e ao mercado de trabalho com equidade. A migração haitiana no Brasil abrange a condição do país em receber os migrantes e, também, sua dificuldade de lidar com esses fluxos. Além disso, reflete os novos movimentos migratórios baseados em fenômenos sociais condicionados a problemas políticos, civis, econômicos, religiosos, ideológicos, raciais e humanitários.

A migração haitiana para o Brasil pós-terremoto de 2010

O fluxo de haitianos no Brasil destaca-se por ser a principal nacionalidade no mercado de trabalho formal brasileiro, superando os portugueses. O coletivo haitiano é o que melhor retrata as mudanças e o crescimento contínuo de fluxos migratórios no Brasil. Estima-se que o número de haitianos no mercado formal brasileiro aumentou de pouco mais de 815 pessoas em 2011 para mais de 30 mil pessoas em 2014 ( Cavalcanti, 2015).

As crises econômicas e políticas históricas resultaram em uma difícil recuperação do Haiti, levando muitos haitianos a migrarem para outros países. Em resposta, a Organização das Nações Unidas (ONU) organizou uma das maiores missões de paz, comandada pelo Brasil. A Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH, sigla do francês: Mission des Nations Unies pour la Stabilisation en Haiti) foi criada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSONU), em 30 de abril de 2004, com o objetivo de restaurar a ordem no Haiti. Essa missão teve como objetivos principais estabilizar o país, pacificar e desarmar grupos rebeldes e guerrilheiros, promover eleições democráticas, fornecer alimentos para os haitianos e formar o desenvolvimento socioeconômico do país.

Em 2010, no entanto, a situação do país agravou-se devido aos estragos deixados por um terremoto de alta magnitude, que provocou mais de 200.000 mortes e causou o deslocamento externo de 1,6 milhões de pessoas ( Patarra & Fernandes, 2011; Oliveira, 2021; Thomaz, 2013).

Institucionalmente, nesse mesmo período, o governo brasileiro criou os alicerces para a abertura de pastas que posteriormente teriam uma atuação importante na gestão de políticas voltadas aos processos de migração no Brasil, como a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Brasil e o Ministério da Assistência e Promoção Social. Esse período representou um governo de transição para a questão migratória e para a criação de bases institucionais importantes para a próxima atuação governamental ( Uebel & Ranincheski, 2017). Essas ações e políticas demonstravam o interesse do governo e faziam parte de uma estratégia para obter uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU ( Zeni & Filippim, 2014).

A partir deste contexto, o Brasil, na primeira fase de políticas externas ativas, assumiu a liderança na MINUSTAH em 2004, o que gerou grande repercussão e incentivou a atuação de Organizações Não Governamentais (ONGs) em diversas regiões do Haiti, motivando as migrações em massa de haitianos ( Uebel & Ranincheski, 2017). Outros fatores serviram de motivação para a escolha do Brasil como destino, incluindo a divulgação de grandes construções que estariam contratando milhares de trabalhadores de uma só vez (como usinas, estádios, obras de melhorias urbanas), além dos atrativos culturais e esportivos decorrentes do jogo da seleção brasileira de futebol masculino em Porto Príncipe em 2004. Além disso, o acolhimento inicial dos primeiros migrantes haitianos no território brasileiro foi realizado de maneira amigável, diferentemente de como ocorreu em outros países do norte do globo, criando a imagem de um país receptivo ( Uebel & Ranincheski, 2017).

Inicialmente, os haitianos solicitaram refúgio com base no Direito Internacional dos Refugiados e na legislação brasileira. O Conselho Nacional dos Refugiados (CONARE) não aceitou o pedido e as justificativas apresentadas — deslocamento por desastres naturais, econômicos e sociais — alegando que estes não se enquadravam nas hipóteses de perseguição propostas pelo direito internacional e na legislação brasileira vigente: Lei n° 9.474 de 22 de julho de 1997 ( Zeni & Filippim, 2014; Brasil, 1997).

O CONARE, então, encaminhou a situação para o Conselho Nacional de Imigração (CNIG) com o objetivo de legalizar a questão, concedendo para os haitianos o visto humanitário de residência, autorizando-os a permanecer no país, com o prazo de até cinco anos, para comprovar a situação de emprego e residência junto às autoridades migratórias brasileiras ( Zeni & Filippim, 2014; Morais et al., 2013; Reis, 2011). O CNIG, por meio da Resolução Recomendada n° 08/06, tem a prerrogativa de conceder, a estrangeiros, por razões humanitárias, vistos de permanência no território brasileiro, os quais devem ser renovados a cada dois anos.

Além disso, o CONARE outorgou um protocolo para que os haitianos adquirissem o Cadastro de Pessoa Física (CPF) e a Carteira Nacional de Trabalho, regularizando, assim, as condições para a inserção no mercado de trabalho e no sistema educacional ( Patarra & Fernandes, 2011; Morais et al., 2013). Estes procedimentos seguiram até 2017, quando foi editada e regulamentada a Lei n° 13.445 de 24 de maio de 2017 (Lei da Migração), dispondo sobre os direitos e os deveres do migrante e do visitante, regulamentando a entrada e a estada no país e estabelecendo os princípios e diretrizes para as políticas públicas para migrante. Esse coletivo continuou a ter direito à regularização através do caráter humanitário e pelo amparo 279, do Sistema de Registro Nacional Migratório (SisMigra). No entanto, nos últimos anos, haitianos passaram a solicitar o reconhecimento da condição de refugiado como estratégia de regularização no país.

O processo de entrada desses migrantes em território brasileiro é semelhante em boa parte dos casos: a viagem tem início em Porto Príncipe ou na República Dominicana e, por via aérea, chegam a Lima (Peru) ou Quito (Equador), países que não exigem visto de entrada para os haitianos. A partir dessas duas cidades, os viajantes partem por via terrestre, em uma viagem que pode se estender por mais de um mês, alternando entre trechos percorridos por terra e por via fluvial. As principais formas de ingresso no território brasileiro são pelas fronteiras do Peru com os estados do Acre e Amazonas ( Patarra & Fernandes, 2011; Morais et al., 2013; Thomaz, 2013).

A partir da legalização da entrada no país, o objetivo principal era buscar uma vaga de emprego. Empregadores e empresas de diversos ramos e áreas de investimentos sinalizaram o encontro do capital com a força de trabalho, principalmente para trabalhos em canteiros de obra e serviços gerais. Muitas empresas de MS começaram a organizar e realizar a seleção e a contratação desses trabalhadores diretamente na fronteira, visando aproveitar sua mão de obra. As áreas de trabalho mais acessíveis aos haitianos estão na construção civil, com destaque para as funções de pedreiro, serviços gerais e carpinteiro ( Jesus, 2020; Zanatti et al., 2018).

Devido ao destaque econômico do estado de MS, impulsionado pelo incentivo e instalação de diversas fábricas, os migrantes haitianos foram atraídos pela grande abertura de vagas de empregos nessa região, com destaque para a cidade de Três Lagoas ( Lacerda da Silva, 2018; Jesus, 2020). Esta cidade, com uma população estimada em 2020 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 123.281 habitantes, possui a segunda maior renda per capita do estado, e é reconhecida internacionalmente como a “Capital Mundial da Celulose” devido ao crescimento do setor nos últimos anos. Além disso, ocorreu uma transição da agropecuária, como atividade dominante na região, para o processo de atividades industriais do estado, aumentando não somente as indústrias, mas também a matéria-prima (florestas de eucalipto). Outra característica importante é que Três Lagoas faz fronteira com o estado de São Paulo, facilitando o escoamento da produção de suas fábricas e indústrias para os grandes centros ou para a exportação ( IBGE, 2021; Lacerda da Silva, 2018).

Para da Silva Gonçalves (2019), a cidade de Três Lagoas tornou-se polo de atração para milhares de trabalhadores de várias regiões do Brasil, inclusive de migrantes, fato este que aumentou consideravelmente sua população em aproximadamente 30%. Nos primeiros anos da década de 2000, a cidade recebeu duas multinacionais que trabalham com celulose e papel. O propósito do desenvolvimento e o impulso econômico gerou boas expectativas na população local, que vislumbrou a possibilidade de prosperar economicamente junto com a cidade. A instalação das indústrias movimenta a economia local não somente por sua produção, mas, também, por fixar grande quantidade de trabalhadores que necessitam de moradia e que são consumidores no comércio local ( Lacerda da Silva, 2018).

Segundo Lacerda da Silva (2018) e da Silva Gonçalves (2019), a chegada dos haitianos em MS segue a lógica relacionada às oportunidades de trabalho geradas nas cidades e às possibilidades de permanência no país. Além da dificuldade de estabilização financeira, os haitianos migrantes encontram dificuldades para adaptar-se à cultura local, ao idioma, e, ainda, dificuldades relativas ao preconceito — que transcende a sua origem e a cor da pele, posto que muitos trabalhadores brasileiros, sentindo-se substituídos por eles, os julgam e os condenam, por enxergá-los como concorrência para as vagas de trabalho.

A necessidade e a demanda por fiscalização para combater práticas de exploração dos migrantes em trânsito resultou na criação do Comitê Estadual para Refugiados, Migrantes e Apátridas (CERMA – MS), delimitando, assim, um padrão de atendimento estadual, objetivando a criação de comitês municipais e a obtenção de uma rede especializada de atendimento ( Silva & Serpa, 2019; Jesus, 2020). Parte do acolhimento aos migrantes haitianos, no estado de MS, foi realizada pelas igrejas católicas e evangélicas, pelas universidades, bem como pelo trabalho voluntário disperso em vários municípios, com apoio pontual do Ministério Público do Trabalho de Mato Grosso do Sul (MPT – MS). A intervenção do estado de MS, mesmo após a criação do CERMA, vem ocorrendo de modo tímido e restrito à capital Campo Grande e sem a criação de outras políticas públicas ( Cruz & Peres, 2022; Jesus, 2020).

Com a desaceleração da economia brasileira em função de uma recessão financeira mundial entre os anos de 2015 e 2016 ( Oreiro, 2017; Paula & Pires, 2017), setores como a construção civil, que mantinham grande parte da empregabilidade dos haitianos, foram afetados. Em consequência, milhares de postos de trabalho foram eliminados e reduziram as possibilidades de permanência no país. Por fim, muitos haitianos empregados, descontentes com as condições de trabalho e com as remunerações, vislumbraram melhores alternativas no Chile e nos Estados Unidos da América (EUA) ( Lacerda da Silva, 2018; Jesus, 2020).

Mesmo com dificuldades econômicas e sociais, os haitianos continuam buscando o estado de MS para um recomeço, adaptando-se culturalmente por meio da construção de espaços com características sociais comuns às suas crenças e tradições (Cruz & Peres, 2023). Em Psicologia Social, esse processo é denominado de Adaptação Cultural, que é compreendida em termos de estratégias de adaptação cultural e psicológica, como novos padrões de comportamentos e de socialização ( Sam & Berry, 2006).

Tashima e Vaz (2018) descrevem a Adaptação Cultural como consequência ou resultado da Aculturação, considerando as mudanças que ocorrem nos indivíduos ou grupos relacionados às respostas das interações sociais exigidas no contexto da migração. Berry (1997) propôs um modelo de Aculturação bidimensional, baseado em duas questões fundamentais para grupos (ou indivíduos) que entram em contato cultural. Essas questões referem-se à forma como os indivíduos e grupos (1) procuram manter sua cultura e identidade de herança e (2) procuram interagir com as pessoas de outras culturas na sociedade de acolhimento.

Considerando a relevância social do movimento migratório haitiano para o Brasil, no geral, e para o estado de MS, especificamente, faz-se premente levantar fatores relacionados à Adaptação Cultural desses migrantes ao mercado de trabalho. Com essa finalidade, este estudo objetivou identificar as dificuldades de Adaptação Cultural ao trabalho, como, por exemplo, adaptação às novas funções de trabalho oferecidas pelo local em que residem, idioma, preconceito e discriminação racial e xenofobia no trabalho e fora dele. Especificamente, este estudo objetivou compreender a motivação destes migrantes para trabalhar no Brasil, para procurar trabalho em MS, bem como as razões que levaram os participantes a manter-se no Estado ou migrar para outro local.

Método

Tipo de investigação

Este estudo é de natureza transversal e qualitativa, com objetivo descritivo, realizado por meio de uma pesquisa de campo com entrevistas semiestruturadas e amostragem de conveniência.

Participantes

Os critérios de inclusão foram: ser haitiano, possuir 18 anos de idade ou mais e estar trabalhando. A amostra é composta por oito haitianos, homens, com idade superior a 18 anos, trabalhando em municípios de MS. Em relação ao trabalho, os participantes exerciam funções semelhantes em duas empresas diferentes: seis (75%) participantes trabalhavam no setor de metalurgia e dois (25%) na construção civil. No período das entrevistas, a renda era similar entre eles, chegando no valor de R$ 1.200,00, acrescido de um vale alimentação ou cesta básica. Em relação à moradia, os haitianos moravam em grupos grandes de pessoas (i.e., um dos participantes relatou residir com 14 pessoas na mesma casa). Existe limitação neste item devido à dificuldade de acesso às residências dos migrantes.

Instrumentos

Foram realizadas entrevistas semiestruturadas, incluindo as seguintes questões: 1) “Como foi o processo de migração para o Brasil?”; 2) “Como foi o processo de escolha para o deslocamento para a região sul-mato-grossense?”; 3) “Quais as principais diferenças entre modos de trabalho no Haiti e Brasil? (Quais as diferenças no cotidiano de trabalho entre o Haiti e o Brasil?)”; 4) “Quais as principais dificuldades para trabalhar e morar no Mato Grosso do Sul? Quais as expectativas?”; 5) “Como é tratado o trabalhador haitiano?”; 6) “Quais as diferenças entre o trabalhador brasileiro e o haitiano?”; 7) “Qual sua opinião sobre as leis trabalhistas brasileiras?”; e 8) “Quais as expectativas de futuro, morando aqui no Brasil?”. Também foram levantados dados sociodemográficos: 1) idade; 2) renda; 3) endereço; 4) estado civil; 5) escolaridade; 6) atividade/ocupação; e 7) renda mensal.

Procedimentos e considerações éticas

Os participantes foram recrutados por meio da estratégia bola de neve ( Bockorni & Gomes, 2021). Inicialmente, identificamos dois participantes trabalhadores em uma empresa de construção civil por indicação do proprietário da empresa e, em seguida, esses participantes indicaram os outros participantes para a pesquisa. As entrevistas foram agendadas para o encontro em um ambiente coletivo, localizado em uma praça no centro da cidade de Três Lagoas, e foram realizadas individualmente.

Após a identificação dos participantes, foi agendado um horário e local conforme a conveniência de cada um para a realização das entrevistas. Antes do início, foi esclarecida ao participante a finalidade da pesquisa, enfatizando-se a importância de sua participação e sua liberdade de desistir da pesquisa a qualquer momento. Os participantes assinaram, então, um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). As entrevistas realizadas foram gravadas em formato *.mp3 e transcritas em documento *.docx para a utilização da técnica de análise de conteúdo. Tanto as entrevistas quanto as transcrições foram realizadas pelo autor deste projeto.

Os participantes da pesquisa foram entrevistados em um ambiente coletivo, porém as entrevistas foram realizadas individualmente. Os participantes foram informados sobre o caráter voluntário, anônimo e sigiloso da participação. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP/UCDB) no dia 1° de dezembro de 2016, registrado na Plataforma Brasil, sob o parecer nº 1.846.532 (CAAE: 62222016.5.0000.5162), conforme autorização em anexo, seguindo as recomendações da Resolução do Conselho Nacional de Saúde n° 466/12. Em média, 20 minutos foram suficientes para concluir a participação.

Preparação e Análise dos Dados

Após a transcrição das entrevistas, os textos foram organizados em um único arquivo no software Microsoft Word, sendo importadas para o software IRaMuTeq (Interface de R pour les Analyses Multidimmensionelles de Textes et de Questionnaires) ( Ratinaud & Marchand, 2012), hospedado no software R (R Development Core Team, 2011). Foram consideradas as seguintes análises: a Classificação Hierárquica Descendente (CHD), a Análise de Similitude e a Nuvem de Palavra.

Para a utilização da CHD, os segmentos de texto são classificados em função dos seus respectivos vocabulários, apresentando, na maioria dos casos, cerca de três linhas, e o conjunto desses segmentos é dividido em função da frequência das formas reduzidas (lemmastisation) ( Camargo & Justo, 2013; Soares et al., 2018). Após a transcrição das entrevistas, os textos foram organizados em um único arquivo. Cada entrevista é denominada Unidade de Contexto Inicial (UCI). Para este estudo, foram criadas oito UCI, sendo que cada linha foi separada por uma linha de comando, compreendendo uma variável (n), conforme o número destinado para cada participante (i.e. n1, n2,...n8). Após esta etapa, o corpus foi editado no software Microsoft Word, gravado no formato .txt, e utilizado na codificação de caracteres no padrão UTF -8 (Unicode Transformation Format 8 bit codeunits). As perguntas das entrevistas foram suprimidas, mantendo-se somente as respostas dos entrevistados ( Camargo & Justo, 2013; Salviati, 2017; Soares et al., 2018).

Em seguida, foi realizada a revisão de todo o arquivo, a correção de erros de digitação e pontuação, a uniformização das siglas e a junção de palavras compostas ou palavras diferentes com mesma significação (por exemplo: i.e. “Rio_de_Janeiro” e “ficar aqui”, sendo substituídas por “ficar no Brasil”). Nas palavras compostas, os caracteres são separados por underline, para que o sistema não processe a informação como se fossem palavras diferentes, como no caso do exemplo citado, três palavras diferentes. Nas palavras com radicais diferentes, mas que no contexto do texto possuem o mesmo sentido/significado, foi adotado um termo padronizado. Todas as observações devem ser realizadas de forma cuidadosa pelo pesquisador, para que o processamento seja feito com o maior aproveitamento dos termos que compõem o corpus.

Na Análise de Similitude, baseada na teoria dos grafos, identificam-se as coocorrências entre as palavras e indicam-se as conexões entre as palavras, o que auxilia na identificação da estrutura do banco de dados (corpus) ( Camargo & Justo, 2013; Soares et al., 2018). A Nuvem de Palavras tem por objetivo representar graficamente e organizar as palavras conforme a sua frequência, sendo uma análise que facilita a identificação de palavras-chave a partir do corpus. A Nuvem de Palavras é utilizada em contextos que visem a exposição objetiva das informações ( Camargo & Justo, 2013; Soares et al., 2018).

Resultados

O corpus analisado é composto por oito textos, representando os oito participantes, com uma média de 35,03 formas (o número de formas diz respeito ao número de palavras com radicais diferentes contidas no corpus) por Segmento de Texto (ST), totalizando 4694 ocorrências (número total de palavras contidas no corpus), 563 formas e apresentando uma divisão em 117 STs, correspondendo a 87,31% do total de STs do corpus. Considera-se que um bom aproveitamento de Unidade de Contexto Elementar (UCE) é um índice de 75% ou mais ( Camargo & Justo, 2013).

Ao proceder à CHD, conforme figura 1, os resultados apresentaram a presença de sete classes distintas, às quais foram atribuídos nomes a partir de seus descritores. Os valores percentuais descritos correspondem ao percentual de Segmentos de Textos pertencentes a cada categoria, considerando o total de 117 STs aproveitados, conforme figura 3. O dendrograma apresentado na Figura 3 disponibiliza e mantém as UCE, permitindo ao pesquisador retornar a elas para realizar as análises, bem como ler e compreender os resultados, além de dar um título às classes, para que cada forma represente um tema central. Na figura 2, observam-se as palavras que obtiveram maior porcentagem quanto à frequência média entre si e que são diferentes entre elas. Para a criação deste dicionário de palavras, o software utilizou o qui-quadrado (x 2), analisando as palavras que apresentam o valor maior que 3,84 e p < 0,05.

A Classe 1 (STclasse1 = 18, explicando 15,38% do total) foi denominada Diferença entre trabalhar no Brasil e no Haiti. Esta classe constitui-se por palavras no intervalo entre x 2 = 4,1 (Lei) e x 2= 42,55 (Dia). Algumas palavras desta classe são: Hora (x 2 =34,78), Melhor (x 2 =29,16), Bem (x 2 =12,78), Gosto (x 2 =12,78), Assinar (x 2 =7,99) e Receber (x 2 =7,9). Os segmentos de texto apresentaram elementos que se referem às diferenças na rotina de trabalho no Brasil quando comparado ao Haiti, às formas de trabalho dispostas na região onde residiam, às quantidades de horas de trabalho e às formas de busca de trabalho.


Figura 1
Dendrograma das classes fornecidas pelo software
Fonte: elaboração própria.


Figura 2
Dendrograma das classes fornecidas pelo software
Fonte: elaboração própria.

A Classe 2 (STclasse 2 = 15, explicando 12,82% do total) foi denominada Preconceito no Ambiente de Trabalho, resultado da análise de elementos que descrevem situações vivenciadas pelos haitianos que os discriminam dos demais trabalhadores em tipos de serviços, salários e conduta. Os discursos relatam questões de subordinação nas atividades e divisão desigualitária em algumas tarefas. Nesta classe, a constituição de palavras está entre x 2 =28,16 (Mesmo) e x 2 = 3,89 (Não). Algumas palavras desta classe são: Conhecer (x 2 =21,09), Haitiano (x 2 =19,66), Pessoa (x 2 =18,91), Brasileiro (x 2 = 11,37) e Também (x 2 = 8,99).

A Classe 3 (STclasse 3 = 13, explicando 11,11% do total) foi denominada Trabalho em Três Lagoas. Esta classe apresenta elementos que descrevem os processos de chegada a cidade de Três Lagoas, relatando, também, o desejo que alguns têm de ficar no Brasil e de outros de irem para um país mais desenvolvido (i.e. Estados Unidos da América), e constitui-se por palavras no intervalo entre x 2 = 4,22 (Brasileiro) e x 2 = 25,1 (Entender). Algumas palavras desta classe são: Chegar (x 2 = 24,35), Quando (x 2 = 14,54), Saber (x 2 = 13,07) e Sair (x 2 = 12,8).

A Classe 4 (STclasse 4 = 13, explicando 11,11% do total) foi denominada Adaptação ao Trabalho. Esta classe apresenta elementos que demonstram a dificuldade dos migrantes a se adaptarem aos trabalhos, queixas relacionadas às relações de trabalho e divisões das atividades. Esta classe é formada por palavras no intervalo entre x 2 = 4,24 (Muito) e x 2 = 34,33 (Querer). Algumas palavras em destaque são: Bom (x 2 = 17,33), Serviço (x 2 = 15,62), Deus (x 2 = 12,58) e Filho (x 2 = 12,04).

A Classe 5 (STclasse 5 = 23, explicando 19,66% do total) foi denominada Trabalho no Haiti. Esta classe traz elementos que registram a descrição de formas de trabalho no Haiti e a legislação trabalhista. As palavras estão organizadas no intervalo entre x 2 = 4,41 (Deixar) e x 2 = 45,85 (Lá). Algumas palavras em destaque são: Embora (x 2 = 15,97), Precisar (x 2 = 9,98) e Rua (x 2 = 9,62).

A Classe 6 (STclasse 6 = 22, explicando 18,8% do total) foi denominada: Estudos e Qualificação. Os relatos nesta classe estão voltados à vontade de continuar os estudos no Brasil, a fim de qualificar-se profissionalmente para a busca de melhores oportunidades de emprego e condições de vida. Esta classe é formada por palavras no intervalo entre x 2 = 4,24 (Ver) e x 2 = 36,3 (Estudar). Algumas palavras em destaque são: Aprender (x 2 = 22,55), Faculdade (x 2 = 22,21), Arrumar (x 2 = 17,25) e Emprego (x 2 = 17,25).

A Classe 7 (STclasse 7 = 13, explicando 11,11% do total) foi denominada Trajeto da Migração. Nesta classe, os migrantes relatam como foi realizado o trajeto desde a saída do Haiti, as condições e formas de viagem, entrando no Brasil até chegar ao Estado de Mato Grosso do Sul. Esta classe é formada por palavras no intervalo entre x 2 = 3,95 (Salário) e x 2 = 59,72 (Estudar). Algumas palavras em destaque são: Passar (x 2 = 50,02), Ônibus (x 2 = 43,88), Acre (x 2 = 66,67) e Peru (x 2 = 24,63).

No que diz respeito à Análise de Similitude, esta baseia-se nas co-ocorrências entre as palavras que constituem o corpus analisado. Assim, observa-se a presença de dois grupos representados por uma palavra-chave na composição central da distribuição, estabelecendo a conexão com os demais vocábulos que formam a estrutura, conforme mostra a figura 3.


Figura 3
Análise de Similitude do Corpus
Fonte: elaboração própria.

É nítido o enquadramento da palavra Brasil no primeiro grupo, como núcleo central da distribuição, estabelecendo conexão com as palavras Haiti, Aqui, Porque e Vir. No segundo grupo, a palavra “Não” é o núcleo central de distribuição, estabelecendo conexão com as palavras Haitiano, Trabalhar, Empresa, Ficar, Ano e Depois. Nesta análise, quanto mais espessas (nítidas) forem as ligações, maior é a conexão entre os vocábulos. Assim, os resultados no primeiro grupo de palavras demonstram as motivações (Porque) para saírem do local de origem (Haiti) e migrarem para o Brasil, descrevendo o seu trajeto. No segundo grupo, o termo “Não” está relacionado às dificuldades de adaptação que esse grupo de haitianos enfrentou trabalhando nas empresas disponíveis na região e, também, fatores que motivam e desmotivam a permanência no Brasil.


Figura 4
Nuvem de Palavras
Fonte: elaboração própria.

O resultado da análise de Nuvem de Palavras tem por finalidade representar e organizar graficamente os vocábulos mais frequentes no corpus analisado ( Soares et al., 2018). Com base na frequência das palavras, novamente observa-se a palavra “Não” como a mais frequente no discurso, destacando-se, também, as palavras Trabalhar, Haiti, Brasil e Aqui. Este resultado reforça os resultados da CHD, que apresenta duas classes específicas (Classe 1 e Classe 6) sobre a alusão de adaptar-se aos modos sociais e de trabalho no Brasil.

Discussão

O dendrograma demonstrou que o corpus se ramifica em duas partes. A primeira ramificação é composta pela Classe 7, enquanto a segunda se ramifica em duas. A primeira ficou composta pelas Classes 1, 2 e 3 e, a segunda, pelas Classes 4, 5 e 6. Constata-se que as classes identificadas estão diretamente ligadas às sete questões da entrevista semiestruturada empregada, uma vez que as divisões do corpus e os temas gerados estão diretamente divididos conforme as questões que geraram este estudo e suas respectivas respostas. A seguir, os resultados são discutidos conforme a ramificação registrada no dendrograma.

Na Classe 7, os relatos dos haitianos estão voltados para o trajeto da migração, descrevendo o caminho percorrido do Haiti até o Brasil e, consequentemente, até o MS. Os estudos de Barros e Martins-Borges (2018), Jesus (2020), Patarra e Fernandes (2011), Morais et al. (2013) e Thomaz (2013) descrevem esse trajeto, corroborando os diálogos dos haitianos, que pouco se diferenciam do trajeto do Haiti para o Brasil. Entre as diferenças estão o meio de transporte utilizado e a presença de coiotes, relatada por dois entrevistados.

Destacamos alguns dos trechos das entrevistas que melhor representam a Classe 7: “(...) Equador e cheguei no Brasil usei ônibus e avião para estar aqui eu paguei para coiote para chegar aqui no Brasil eu entrei pelo Acre e peguei um ônibus para Três_Lagoas e estou aqui há 1 ano e 8 meses”; e “só passamos por esses países pegamos um ônibus do Equador para chegar no Peru e depois na Bolívia na fronteira com o Acre no Acre tinha o refúgio eu não perdi familiares no terremoto só amigos e um primo”.

Ainda em relação ao trajeto, a maioria dos entrevistados relatou ter entrado no Brasil pelo Acre e sido direcionada para o MS, onde as empresas do estado buscavam haitianos diretamente na fronteira para trabalhar em suas produções, fatos registrados nos estudos de Jesus (2020) e Gonçalves (2018). Esse relato pode ser observado nos trechos a seguir: “no Acre tem a polícia federal e tem que passar sem dinheiro peguei meus documentos carteira de trabalho e visto de residência do Acre vim para Três Lagoas de ônibus foram buscar os haitianos” (Classe 7); e “Equador e cheguei no Brasil usei ônibus e avião para estar aqui eu paguei para coiote para chegar aqui no Brasil eu entrei pelo Acre e peguei um ônibus para Três Lagoas e estou aqui há 1 ano e 8 meses” (Classe 7).

Na Classe 2 (Preconceito no Ambiente de Trabalho), na Classe 3 (Trabalho em Três Lagoas) e na Classe 4 (Adaptação ao Trabalho), são relatadas situações vivenciadas nos ambientes de trabalho, tanto no Haiti quanto no Brasil. Em alguns momentos, são comparadas as rotinas e diferenciadas nos aspectos do dia a dia, leis trabalhistas, inserção social e adaptação cultural. Por exemplo, um entrevistado relata: “é diferente o trato com haitiano e brasileiro no trabalho tem pessoa, mas não é toda pessoa tem pessoa de bom coração de consciência tem brasileiro muito que fala com discriminação com preto” (Classe 2).

Esse resultado difere dos achados de outros estudos, como o de Weber et al. (2018), que investigaram a migração haitiana no estado do Rio Grande do Sul (RS) e identificaram que os migrantes haitianos estão mais propensos à interação com a comunidade brasileira, apresentando melhor qualidade de vida e menor percepção de preconceito se comparados com haitianos em outros países, como a França e os Estados Unidos da América (EUA). Neste estudo, por sua vez, os haitianos em Três Lagoas relataram perceber discriminação racial na convivência diária, em ambiente de trabalho e locais comuns de socialização. Um relato revela: “tem brasileiro que falou para o haitiano que o haitiano está contribuindo para a crise no Brasil tem trabalho para todo mundo do mesmo jeito que eu vim trabalhar aqui eu posso ir trabalhar em outro lugar” (Classe 2).

O estudo de Gomes (2017), que investigou os impactos subjetivos da migração, observando haitianos em Florianópolis – Santa Catarina (SC), descreve cenas evidentes de segregação e exclusão durante suas observações de campo, como: a) em um ambiente coletivo e público da cidade durante a pausa do almoço, observou-se que os lugares com sombra eram visivelmente tomados por brancos e brasileiros; e b) analogamente, em um refeitório de uma universidade, a divisão por raça e nacionalidade ocorria de modo evidente.

Uma das principais queixas registradas pelos entrevistados está relacionada à remuneração. Os oito participantes demonstraram insatisfação nesse aspecto, relatando as dificuldades em manter o custo de vida no Brasil e ajudar a família que ficou no Haiti devido aos valores baixos. Nos estudos de Leão et al. (2017), que caracterizam os migrantes haitianos em Cuiabá e Várzea Grande, no Mato Grosso (MT), ressaltam-se queixas relacionadas ao trabalho, como dificuldades na execução das atividades, problemas em lidar com os patrões e gestores, ausência de reconhecimento e desvalorização da mão de obra haitiana, e a insatisfação em relação aos salários. Essas queixas são registradas na Classe 2 (Preconceito no Ambiente de Trabalho), na Classe 3 (Trabalho em Três Lagoas) e na Classe 4 (Adaptação ao Trabalho). As queixas citadas podem ser identificadas nos relatos: “mas campo grande eu tenho vontade de morar que é uma capital, as pessoas não achem que o haitiano precisa só trabalhar braçal talvez tenha diferença em morar na capital” (Classe 2); “eu trabalho na empresa há 7 meses e moro em três lagoas há 7 meses depois de oito dias que cheguei eu comecei a trabalhar na empresa o serviço do haitiano é diferente do brasileiro” (Classe 3).

O trabalho assume outro significado para os haitianos que, por meio dele, enviam dinheiro para a família, a fim de oferecer melhores condições de vida no Haiti ou trazê-los para o Brasil. Nessa perspectiva, o trabalho facilita a integração, conforme descrita por Berry (1997): a manutenção dos laços culturais e familiares, ao mesmo tempo que promove o contato com pessoas da cultura dominante.

As Classes 1 (Diferença entre trabalhar no Brasil e no Haiti) e 5 (Trabalho no Haiti) comparam e descrevem as formas de trabalho oferecidas no Brasil e no Haiti, respectivamente. Os principais setores em que os haitianos estão inseridos são a construção civil e os serviços (auxiliares em diversas atividades), corroborando os estudos de Leão et al. (2017) e ressaltando a discrepância entre a formação e as profissões exercidas no Haiti e no Brasil.

Um fator positivo, em comparação com as leis trabalhistas de cada país, é a existência de direitos que visam proteger o trabalhador em situações de demissão, adoecimento, entre outros (i.e., Fundo de Garantia do Tempo de Serviço – FGTS), conforme relato na Classe 5 (Trabalho no Haiti): “mês que vem ela chega no Brasil dia 8 de fevereiro não tem muita diferença na forma de trabalhar aqui no Brasil para o Haiti as leis aqui são melhores você tem um fundo de garantia um seguro”.

Quanto à Classe 6, Estudos e Qualificação, evidencia-se a necessidade e o desejo dos migrantes haitianos em qualificar-se, estudando e se adaptando para continuar trabalhando no Brasil , conforme os relatos: “minhas expectativas aqui no Brasil é voltar a estudar e arrumar um emprego fixo porque ficar todo começo de ano me perguntando onde eu vou trabalhar você não tem um salário fixo”; e “aprenderia alguma coisa ter uma profissão ajudar a minha família e me ajudo também minha família toda está no Haiti eu tenho que voltar para visitar minha família”.

O migrante haitiano é um migrante visado para o trabalho ( Jesus, 2020). Para Santos e Hanashiro (2021), o processo de adaptação cultural do migrante haitiano pode ser considerado completo quando o conceito de trabalho na cultura de origem encontra a expressão similar na cultura que este migrante está se inserindo, resultando em um trabalho fixo, honesto e digno, portador de direitos e deveres. Assim, é possível, de modo integrativo ao ponto de vista psicossocial, contemplar tanto a cultura de origem quanto a cultura em que está se inserindo, fortalecendo laços no país de origem e no país acolhedor.

Considerações Finais

Em síntese, considerando os resultados encontrados e discutidos neste estudo, observa-se que a adaptação dos migrantes haitianos no Brasil está fortemente associada à adaptação ao trabalho e ao enfrentamento das diversas dificuldades no cotidiano profissional. O trabalho se configura como o principal meio de inserção social para os haitianos no Brasil. No contexto de Mato Grosso do Sul (MS), os haitianos eram recrutados pelas empresas diretamente na fronteira com o Acre, com o objetivo de atender à necessidade de mão de obra da região. As principais dificuldades relatadas neste estudo são: o enfrentamento do preconceito, da discriminação racial e da xenofobia. As principais estratégias utilizadas para lidar com essas dificuldades são: a busca por outros centros urbanos, considerados mais desenvolvidos, e a busca por qualificação profissional, visando melhores condições na busca e manutenção de trabalho.

O presente estudo possui algumas limitações devido à dificuldade com o idioma, sendo necessário que todos os participantes entendessem e falassem a língua portuguesa, e devido ao acesso às moradias desses migrantes. Quanto às moradias, os haitianos residem em grandes grupos de pessoas, mas o acesso às condições de moradia não foi permitido pelos participantes e pelos companheiros de residência.

Embora haja outras pesquisas no campo da Psicologia sobre a migração haitiana para o Brasil ( Barros & Martins-Borges, 2018; Brunnet et al., 2018; Gomes, 2017; Leão et al., 2017; Weber et al., 2018), recomenda-se a realização de futuras pesquisas em outras regiões do Brasil que possam ser abordadas para efeitos de comparação de resultados, assim como incentivo a estudos com populações migrantes de outras nacionalidades. Por se tratar de um movimento migratório recente, é importante realizar novos estudos após esses migrantes estarem vivendo no país há mais tempo, assim como migrantes que viveram em diferentes regiões que apresentem diferentes condições de trabalho e socioeconômicas (por exemplo: a comparação de pessoas que moraram em grandes centros e cidades do interior), e, também, os migrantes de segunda geração que irão compor uma parcela importante de nossa população.

Espera-se que os resultados aqui apresentados contribuam para a pesquisa sobre este fenômeno, complementando estudos qualitativos com amostras de outras regiões brasileiras, bem como oferecendo subsídios para o delineamento de estudos (por exemplo, surveys) com amostras mais robustas, de modo a constituir uma compreensão mais ampla e integral acerca da adaptação cultural e ao trabalho desses migrantes.

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Conflicts of Interest:

The authors declare that the research was conducted in the absence of any commercial or financial relationships that could be construed as a potential conflict of interest.

Funding:

This text was financially supported by Fundação Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (FUNDECT), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)

Author notes

a Correspondence about this article should be addressed Wydglan da Silva Cruz: wydglancruz@gmail.com



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