ARTIGO

UM ESCRITO INÉDITO DO INDÍGENA ANTÔNIO PARAUPABA E O OCASO DAS RELAÇÕES POTIGUARANEERLANDESAS (1654-1656)1

AN UNPUBLISHED WRITING OF THE INDIGENOUS ANTÔNIO PARAUPABA AND THE END OF THE POTIGUARA-DUTCH RELATIONS (1654-1656)

Bruno Ferreira Miranda 2
Universidade Federal Rural de Pernambuco, Brasil
Rafael Xucuru-Kariri 3
Universidade Federal da Bahia, Brasil
Suzane Lima Costa 4
Universidade Federal da Bahia, Brasil

UM ESCRITO INÉDITO DO INDÍGENA ANTÔNIO PARAUPABA E O OCASO DAS RELAÇÕES POTIGUARANEERLANDESAS (1654-1656)1

Revista de História (São Paulo), no. 183, a05724, 2024

Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Departamento de História

Received: 24 May 2024

Accepted: 18 September 2024

Resumo: Em outubro de 1654, Antônio Paraupaba, indígena Potiguara, escreveu uma carta para o Grande Pensionário da Holanda, Johan de Witt. Paraupaba mostrava-se preocupado com sua família, que residia numa ilha das Caraíbas sob controle neerlandês. Pedia, por fim, autorização para trazê-los aos Países Baixos. A dramática história de Paraupaba se funde comas relações dos Potiguara comos neerlandeses e seuenvolvimento nas guerras indígena-luso-hispano-neerlandesas (1624-1654). O objetivo deste artigo é apresentar e traduzir uma missiva desconhecida feita por Paraupaba e conectá-la às alianças estabelecidas entre os Potiguara e os neerlandeses, bem como aos usos da escrita por parte dos Potiguara.

Palavras-chave: Escrita indígena, Brasil-holandês, Guerras do Açúcar, Neerlandeses, Potiguara.

Abstract: In October 1654, Antônio Paraupaba, an indigenous Potiguara, wrote a letter to the Grand Pensionary of Holland, Johan de Witt. Paraupaba was worried about his family, who lived on an island in the Caribbean under Dutch control. He finally asked for permission to bring them to the Netherlands. Paraupaba’s dramatic story merges with the Potiguara’s relations with the Dutch and their involvement in the Indigenous-Luso-Spanish-Dutch wars (1624-1654). The aim of this article is to present and translate the unknown letter written by Paraupaba. It is also to relate it to the alliances established between the Potiguara and the Dutch, as well as the use of writing by the Potiguara.

Keywords: Indigenous writing, Dutch-Brazil, Sugar Wars, Dutch, Potiguara.

Introdução

Outono de 1654 na cidade de ‘s-Hertogenbosch, República das Províncias Unidas dos Países Baixos. O indígena Potiguara, oficial de cavalaria da companhia do comandante Broeckhuijsen, Antônio Paraupaba, é um homem abatido. Longe de sua terra de origem, distante da mulher e dos filhos, ele faz por escrito um pedido desesperado a uma autoridade neerlandesa. Ansiava para ter os seus familiares mais uma vez próximos de si.5 A história de Paraupaba, de sua esposa, Paulina, de Maurício, um dos seus filhos, e de vários outros indígenas do Brasil compõe apenas parte da incrível jornada iniciada por Antônio Paraupaba em 1625, quando ele, seu pai Gaspar e pelo menos uma dezena de indígenas Potiguara deixaram a Paraíba rumo aos Países Baixos. O então jovem Paraupaba tornar-se-ia um dos principais articuladores de uma aliança que se forjou entre os Potiguara e os neerlandeses e que 30 anos depois caminhava decididamente para o fim. Nesse longo processo, Paraupaba, bem como outros indígenas, legaram diversos textos conectados a essas interações com os neerlandeses. Para além de testemunhos das disputas das Guerras do Açúcar (1624-1654), tais registros compõem-se dos mais raros e antigos exemplos conhecidos de escrita produzida por indígenas no Brasil.

O objetivo do presente artigo é apresentar e traduzir uma desconhecida carta manuscrita em neerlandês feita pelo Potiguara Antônio Paraupaba, em 30 de outubro de 1654, e encaminhada a Johan de Witt, Grande Pensionário da Holanda. Além de debater e traduzir esse escrito, correntemente depositado no Arquivo Nacional da Haia, Países Baixos, tem-se por intenção contextualizar sua elaboração a partir da relação e aliança forjada entre indígenas, como Antônio Paraupaba, e neerlandeses, bem como discorrer sobre a prática da escrita dos Potiguara no período.

Guerras indígenas e guerras coloniais

A história das relações estabelecidas entre os Potiguara do Rio Grande e Paraíba e os neerlandeses compõe apenas um dos capítulos dos longos conflitos encetados pelo processo de colonização principiado por portugueses no século XVI. Antes mesmo da chegada dos europeus ao Brasil, os povos indígenas da costa já mantinham entre si relações de poder, e todo um contexto particular de hierarquias sociais, que variavam entre alianças e guerras. Acordos eram continuamente estabelecidos e desfeitos a partir de interesses múltiplos e faziam parte da dinâmica político-social e linguística dos povos de língua Tupi da costa. A facilidade em receber o outro e o interesse em formar alianças foram razões pelas quais indígenas como os Potiguara negociaram com os portugueses que aportavam em Itamaracá e Paraíba. Logo também iriam receber franceses que estavam em franca disputa pelo controle da zona de corte e escambo do pau-brasil, mercadoria muito requisitada naquele momento inicial. Abusos e escravização das populações indígenas, por parte dos colonos, logo converteriam o que parte de uma historiografia colonial interpretou como relações amistosas e pacíficas em guerras cruentas que se espalharam por toda a costa e se estenderiam ao longo das próximas décadas. Do século XVI ao princípio do XVII, a presença de europeus na Paraíba estava debilmente circunscrita ao litoral, área onde se estabeleceu a cultura da cana de açúcar e local de corte de madeira de tinta. Para tal permanência no território era fundamental a manutenção de acordos com as populações locais e a quebra da resistência imposta pelos Potiguara (BRITO, 2020, p. 54-112, 173-239; FAUSTO, 1992, p. 383-390; FERNANDES, 1963, p. 320-327; GONÇALVES, 2007, p. 33-82; HEMMING, 2007 [1978], p. 245-272; MARCHANT, 1947, p. 95-108; MONTEIRO, 2008, p. 978; PROUS, 1991, p. 415).

Quando os neerlandeses aportaram na Paraíba, em 1625, forças luso-espanholas tinham, poucos anos antes, montado grandes expedições para subjugar os Potiguara e liberar o litoral para a ação de colonos europeus. Antes da invasão europeia, no século XVI, os Potiguara já haviam construído rotas comerciais, com um refinado conhecimento da geografia dos rios e das matas, que definiam seus modos de pertencer ao território. Daí a importância de pensar como essas expedições para subjugação de indígenas encontraram outras redes geopolíticas para a guerra e foram obrigadas a refazer suas estratégias apostando na diplomacia e na convivência para manter relações com este e outros povos. Diante das investidas europeias, os Potiguara dividiram-se: alguns oferecendo resistência e outros cedendo e repactuando acordos. Entre aqueles que mantiveram divergência com os luso-espanhóis, estavam os Potiguara da porção setentrional da Paraíba.

A aliança Potiguara-neerlandesa (1625-1654)

A presença de neerlandeses na costa do Brasil estava relacionada, entre outros fatores, ao negócio do açúcar. Durante o século XVI, parte do capital utilizado para fomento da atividade açucareira na América indígena/portuguesa era proveniente do norte da Europa, incluindo as províncias dos Países Baixos. No começo do século XVII, mercadores neerlandeses se tornaram grandes distribuidores do produto na Europa, mas tiveram sua participação estorvada pela guerra de independência que travaram contra espanhóis, entre os anos de 1568 e 1648. Portugal, que numa crise de sucessão dinástica foi integrado ao império espanhol, acabou virando alvo de investidas dos neerlandeses no ultramar. Foi contra o Brasil que os neerlandeses, através da Companhia das Índias Ocidentais, criada em 1621, concentraram seus primeiros esforços bélicos (BOXER, 1965, p. 21-25; EBERT, 2008, p. 23-38; MELLO, 2010 [1947], p. 11-14; SANTOS PÉREZ, 2016, p. 149-154).

Seria apenas em 1624 que essa Companhia iria fazer seu primeiro ataque contra o Brasil, dirigindo-se para a capital da colônia, Salvador. Apesar de conquistar a cidade com facilidade, foram incapazes de mantê-la, capitulando nos primeiros meses de 1625. Passaram então a se dedicar a atividades de corso no Atlântico Sul e Caribe (BOXER, 1965, p. 21; BOXER, 2004, p. 32-38; ISRAEL, 2002, p. 58-60; SANTOS PÉREZ, 2016, p. 149-154).

Contudo, pouco antes de perder Salvador, os neerlandeses montaram uma expedição de socorro para suas tropas no Brasil. Capitaneada por Boudewijn Hendrikszoon, a frota chegou poucos dias depois da guarnição da Companhia render-se para as forças da Monarquia Hispânica. Sem fazer frente aos luso-espanhóis, a força de Hendrikszoon deixou a costa da Bahia para cumprir outros objetivos e uma parte dela rumou para o Caribe, ancorando antes na Paraíba (BOXER, 2004, p. 37-44; HULSMAN, 2006, p. 42-43; MELLO, 2010, p. 39-41). Foi lá que o destino cruzou os caminhos dos neerlandeses com os Potiguara. Os europeus encontraram uma sociedade politicamente organizada, conhecedora da geopolítica do território, com usos amplos e sofisticados de práticas medicinais e alimentares de convivência próprias de ambientes multilíngues.

Assim, os Potiguara receberam os neerlandeses que fundearam na Baía da Traição, na Capitania da Paraíba. Estabeleceram comércio, trocaram informações e atuaram juntos contra colonos portugueses daquela região. Contudo, com o objetivo de conquistar Porto Rico e estabelecer uma posição estratégica de ataque às embarcações que saiam dos territórios da Monarquia Hispânica, os neerlandeses levantaram ancoras e partiram para o Caribe, deixando os Potiguara expostos a repressão luso-espanhola (GONÇALVES, 2007, p. 23-24; HEIJER, 2006, p. 35-39). Todavia, um pequeno grupo de indígenas Potiguara acompanhou os neerlandeses em sua expedição. São desconhecidas as razões para o embarque dos Potiguara nos navios da Companhia das Índias Ocidentais, mas havia ali o princípio de uma aliança entre esses dois povos. Talvez buscassem fugir da punição que viria por terem auxiliado os neerlandeses. Quiçá esperassem estabelecer laços mais duradouros com os forasteiros. Ou, considerando-se os modos de organização de suas relações sociopolíticas, viram, como os neerlandeses também os viam, uma oportunidade de fonte de informações e alianças essenciais para projetos futuros no Atlântico Sul. Segundo Antônio Paraupaba, o almirante Boudewijn Hendricxsz tentou se aliar aos Potiguara, prometendo a proteção dos Estados Gerais dos Países Baixos, o que foi aceito pelo povo e confirmado por seus “serviços contra os Portugueses” (PARAUPABA apud HULSMAN, 2006 [1656]).

Em março de 1628, alguns desses Potiguara ainda estavam vivendo nos Países Baixos e forneceram valiosas informações para os neerlandeses, como se verifica em uma declaração colhida na cidade de Amsterdã pelo diretor da Companhia das Índias Ocidentais Kiliaen van Rensselaer. Naquela ocasião, Rensselaer conversou com os Potiguara André Francisco, Antônio Francisco, Antônio Paraupaba, Gaspar Paraupaba, Luís Gaspar e Pedro Poty (BEL e FRANÇOZO, 2023, p. 20-33; LAET, 1912 [1644], p. 95-97; MELLO, 2001 [1947], p. 207-209; MEUWESE, 2012, p. 133-136; MEUWESE, 2003, p. 83-84; TEENSMA, 2009, p. 68).

Os neerlandeses retornaram ao Brasil em 1630. Dessa vez, tiveram por alvo Pernambuco, cuja capital, Olinda, e seu porto, o Recife, foram conquistadas dentro de poucos dias. Assim como em Salvador, em 1624, a expansão para além da cidade se mostraria um desafio. Conseguiram, contudo, superar as adversidades. Logo mantiveram e expandiram sua colônia, permanecendo no Brasil até 1654, quando foram por fim derrotados e expulsos por forças luso-brasileiras-indígenas.

Já no começo de sua segunda tentativa de colonizar o Brasil, em 1631, aparecem nas fontes produzidas pela Companhia das Índias Ocidentais os nomes de alguns dos Potiguara que deixaram a Paraíba em 1625 e agora retornavam.6 Dois nomes são recorrentes: Antônio Paraupaba e Pedro Poty.7 Ambos atuaram ativamente como intérpretes e mediadores a serviço dos neerlandeses entre os indígenas do Rio Grande, Paraíba, Itamaracá e Pernambuco. Buscavam aliados para facilitar o projeto de conquista do Brasil e ao mesmo tempo tocavam seus próprios projetos políticos. No correr dos anos de 1631 a 1654, Paraupaba e Poty passaram a figurar como elementos essenciais da comunicação e da política da Companhia no Brasil para com os indígenas.

Em 1644, Paraupaba viajou pela segunda vez aos Países Baixos, acompanhado por uma delegação de indígenas na comitiva de retorno de Johan Maurits van Nassau-Siegen8 para a Europa. Após muita articulação política, a delegação indígena conseguiu uma audiência com os Senhores XIX,9 na qual foram declarados livres da escravização e súditos da República das Províncias Unidas. Em novembro daquele ano, foi outorgada que a embaixada indígena recebesse uma carta patente dos Senhores XIX que declararia os direitos e privilégios dos indígenas no Brasil (HULSMAN, 2006, p. 44).

No ano seguinte, em 1645, já no Brasil, Paraupaba e muitos indígenas organizaram uma grande assembleia que reuniu lideranças das capitanias do Rio Grande, Paraíba, Itamaracá e Pernambuco e nela articularam a criação de um governo semiautônomo, com câmaras de vereadores indígenas. Tal criação foi comunicada ao governo neerlandês no Recife em uma representação escrita coletiva. Os Potiguara pediram chancela de suas decisões para a Companhia das Índias Ocidentais, o que foi aprovado. Para cada uma das câmaras criadas nas capitanias do Rio Grande, Paraíba e Itamaracá foram eleitos regedores indígenas. Paraupaba foi apontado como regedor no Rio Grande, Poty na Paraíba e Domingos Fernandes Carapeba na Capitania de Itamaracá (BOOGAART, 1979, p. 523; MELLO, 2001 [1947], p. 209-220; MEUWE-SE, 2003, p. 180-182; MEUWESE, 2012, p. 141-171).

A assembleia que ocorreu em Itapesserica foi uma das primeiras expressões de autonomia política institucional nas Américas. Protagonizada por lideranças indígenas, exigiu demandas de paridade de direitos, envolveu discussões sobre o fim da escravização dos povos indígenas e participação na administração neerlandesa. As demandas e petições do encontro resultaram em uma rica documentação sobre os complexos processos políticos nos quais povos indígenas estavam envolvidos em um contexto colonial.10

No entanto, a partir de 1645, os neerlandeses e seus aliados passaram a governar em um ambiente mais hostil, com revoltas, batalhas e insurreições que resultarão no fim do domínio neerlandês, em 1654. Paraupaba lutou neste período contra os portugueses, mas também cobrava a República dos Países Baixos em favor dos Potiguara, como em sua petição pelo fim da escravização indígena. Com as derrotas nas batalhas dos Guararapes, em 1648 e 1649, e outros reveses nos anos seguintes, Paraupaba conduziu seu povo para a Serra de Ibiapaba, um lugar ancestral de refúgio, localizado entre o Piauí e o Ceará (HULSMAN, 2006, p. 46-47).

Quando a Companhia capitulou e deixou mais uma vez o Brasil, em 1654, Paraupaba decidiu acompanhar os neerlandeses que retornaram para os Países Baixos. Peça importante da aliança articulada entre os Potiguara e os neerlandeses, Paraupaba esperava pleitear na Europa a manutenção dos acordos estabelecidos. Sabe-se muito pouco a respeito dos Potiguara que partiram do Brasil naquele ano. Um soldado dinamarquês que testemunhou os últimos dias da gente da Companhia no Brasil anotou em seu diário uma passagem dando conta do embarque de Paraupaba no Rio Grande com sua mulher e três filhos. Outra liderança indígena, Domingos Fernandes Carapeba, também formava a comitiva dos Potiguara. Uma vez nos Países Baixos, ambos buscaram, infrutiferamente, apoio da Companhia e dos Estados Gerais.11 Nesse contexto, Antônio Paraupaba escreveu duas representações direcionadas aos Estados Gerais nos anos de 1654 e 1656. Ele faleceu em 1656 e teve seus dois textos impressos pelo editor Henricus Hondius em 1657 (HULSMAN, 2006, p. 56-72; TEENSMA, MIRANDA e XAVIER, 2016, p. 105; TOL, 2020, p. 168-170; SOUTO MAIOR, 1913, p. 174-178).

Entre os anos de 1654 e 1656, Antônio Paraupaba atuou como batedor em um agrupamento de cavalaria na cidade de ʼs-Hertogenbosch. Seu companheiro de viagem, Carapeba, também atuou como militar nas Províncias Unidas. Ainda que não tivessem seus pleitos para auxílio dos Potiguara atendidos, foram integrados em atividades para as quais eram experientes. Após a morte de Paraupaba, os vestígios deixados pelos Potiguara e outros indígenas do Brasil a viver nas Províncias Unidas e até mesmo em outras áreas de seu império vão escasseando. Isso poderia ser consequência direta do avanço das negociações por compensação pelas perdas no Brasil feitas, em 1661, pelo governo português aos Estados Gerais. O Brasil tornava-se cada vez mais um assunto distante (HULSMAN, 2006, p. 68).

O que se sabe até então é que Carapeba seguiu para o Caribe e, em fins do ano de 1656, passou por Guadalupe, colônia francesa. No ano seguinte pediu autorização aos Estados Gerais para viver no Tobago, o que foi autorizado (HULSMAN, 2006, p. 48-52; MEUWESE, 2003, p. 205-214).12 A viúva de Paraupaba, Paulina, fez três pedidos de auxílio para si e para os filhos aos membros dos Estados Gerais, no que foi atendida (Figura 1). No último deles, em janeiro de 1657, a ajuda seria para deixar os Países Baixos (HULSMAN, 2006, p. 64-69; MEUWESE, 2003, p. 210-213).13

Até recentemente, essa era toda a documentação conhecida sobre os Paraupaba após a capitulação da Companhia das Índias Ocidentais no Brasil, em 1654. No entanto, em 2023, o pesquisador Martijn van den Bel noticiou o encontro de um documento contendo o nome de Maurício Paraupaba, relatando também a companhia de sua mãe, Paulina Paraupaba, em 1668 (Figura 2).14 Na trilha deste achado, foram encontrados outros dois documentos no Arquivo da Zelândia, cidade de Midelburgo, Países Baixos. São três referências de passagens dos Potiguara pelas Caraíbas nos anos de 1668 e 1669, muitos anos depois do falecimento de Antônio Paraupaba. O registro mais antigo, datado de 5 de julho de 1668, encontrado por Bel, é uma lista de habitantes da Nova Walcheren, colônia de neerlandeses no Tobago. Lá aparece o nome Mouris Peropaua (Maurício Paraupaba), filho de Antônio Paraupaba. Maurício estava vivendo na ilha com sua esposa, uma filha, sua mãe, Paulina, uma irmã e outra criança. Foram todos registrados como “brasilianos”, forma pela qual os neerlandeses se referiam aos indígenas aldeados do Brasil.15 Noutra lista de habitantes do Tobago, datada de abril de 1669, é feita nova referência aos “Perepana [...] bersiliaen”. No documento se verifica que esses brasilianos, 1 homem, 3 mulheres e 1 criança, residiam na Rokli Baye.16 Nesse mesmo ano, o nome Mouris Peropaua aparece numa instrução de pagamento de uma guarnição no Tobago (Figura 3).17 Somada à carta apresentada neste artigo, essas são, até o presente momento, as últimas informações conhecidas sobre os Paraupaba.

Lista das pessoas que se encontravam na Nova Walcheren em 5 de julho de 1668
Figura 2
Lista das pessoas que se encontravam na Nova Walcheren em 5 de julho de 1668
Arquivo da Zelândia, Midelburgo, Países Baixos, Inventário 2035.1, número 50-1, imagem 119.

Lista de ordens de pagamento de guarnições de Tobago, em 1669
Figura 3
Lista de ordens de pagamento de guarnições de Tobago, em 1669
Arquivo da Zelândia, Midelburgo, Países Baixos. NL-MdbZA_2, inventário 2035.1, número 139-01, imagem 375.

A aliança entre os Potiguara e os neerlandeses, cujos primeiros passos foram dados em 1625, ruiu junto com a ocupação da Companhia no Brasil. Pelo menos desde meados de 1645, quando irrompeu a rebelião dos colonos luso-brasileiros, a situação se deteriorara. Os aldeamentos de Itamaracá foram desfeitos e os indígenas concentrados na ilha junto ao forte Orange. Depois, mulheres e crianças foram deslocadas para o Rio Grande, enquanto os homens aptos lutavam junto com as forças da Companhia. Na Paraíba a situação dos aldeamentos indígenas fora semelhante (HAMEL, 2004 [1646], p. 219-220; BARO, 1979 [1647], p. 95).

As lideranças Potiguara também passaram por suas provações. Poty morreu após ter sido feito prisioneiro na segunda batalha dos Guararapes, em 1649. Carapeba perdeu seu cargo de regedor após ter assassinado outro indígena. Paraupaba chegou a ser elevado a regedor de todos os indígenas do Brasil, mas a guerra contínua e o esvaziamento e evacuação dos aldeamentos tiraram o peso que o cargo poderia representar. Se apegando aos acordos com os neerlandeses, ele rumou aos Países Baixos. A carta que escreveu em outubro de 1654 já não expressava uma demanda dos Potiguara, mas um pedido individual de um homem que queria ter sua família por perto. A despeito das duas representações elaboradas em 1654 e 1656, a carta para Johan de Witt é um testemunho de que pouco remanescia daquela aliança. Paraupaba sequer rememorara seus serviços prestados no Brasil para justificar o atendimento de sua demanda. Não se sabe quais circunstâncias o afastaram de Paulina e de seus filhos. Aparentemente foram juntos para os Países Baixos em 1654, embora no texto de sua representação, datado de agosto no mesmo ano, Paraupaba tenha dito que viajara apenas com dois de seus filhos. Na carta de outubro de 1654, Paraupaba menciona que a esposa, Paulina, já teria estado anteriormente na Holanda. São detalhes de um quebra-cabeça difícil de ser montado. O pedido de Antônio Paraupaba fora atendido, pois quando ele faleceu em 1656, sua viúva peticionara aos Estados Gerais nos Países Baixos.

Um escrito inédito de Antônio Paraupaba

A carta escrita por Antônio Paraupaba em 30 de outubro de 1654 e endereçada a Johan de Witt, encontra-se no Arquivo Nacional da Haia, como peça integrante do inventário dos arquivos de Johan de Witt, Grande Pensionário da Holanda entre os anos de 1653 e 1672 (Figuras 4-6). O inventário, conforme descrição do próprio sítio eletrônico do Arquivo Nacional da Haia, contém missivas, petições e protestos dirigidos aos Estados da Holanda e Frísia Ocidental. Contém ainda correspondência recebida ou enviada por Johan de Witt, tanto como indivíduo quanto na capacidade de pensionário da cidade de Dordrecht ou como Grande Pensionário da República das Províncias Unidas, cargo que ocupou entre os anos de 1653 e 1672.

Não sabemos se Antônio Paraupaba conhecia pessoalmente Johan de Witt, mas pelo conhecimento e experiência política que adquiriu ao longo dos anos a partir da relação com representantes da Companhia das Índias Ocidentais e das viagens que fez aos Países Baixos, Paraupaba escreveu para uma pessoa de grande poder com o intuito de alcançar seus objetivos. A carta traz todas as deferências usuais de outros escritos do período e Paraupaba expõe sua posição, peticionando em favor de si e de sua família. Como ele não faz qualquer referência a sua atuação anterior no Brasil, é de se crer que ele tenha feito contato anterior com o pensionário De Witt. A carta que escreveu é um dos últimos registros conhecidos de Paraupaba antes da publicação de suas duas representações.

Na transcrição em neerlandês, além de serem desenvolvidas as abreviaturas, sublinhou-se o que foi abreviado. Respeitou-se ainda a organização do texto, bem como se mantiveram as linhas na mesma posição observada no manuscrito. Para a tradução, foram feitas algumas poucas inserções de palavras, indicadas entre colchetes, para melhorar o entendimento, bem como foi adicionada pontuação, de acordo com as normas da língua portuguesa, para uma leitura mais fluída.

Carta de Antônio Paraupaba a Johan de Witt, 30-10-1654, fólio 1
Figura 4
Carta de Antônio Paraupaba a Johan de Witt, 30-10-1654, fólio 1
Arquivo Nacional da Haia, Inventário dos arquivos de Johan de Witt, Grande Pensionário da Holanda (1653-1672), 3.01.17, número 2885, imagem 0001. NL-HaNA_3.01.17_2885_0001.

Carta de Antônio Paraupaba a Johan de Witt, 30-10-1654, fólio 2
Figura 5
Carta de Antônio Paraupaba a Johan de Witt, 30-10-1654, fólio 2
Arquivo Nacional da Haia, Inventário dos arquivos de Johan de Witt, Grande Pensionário da Holanda (1653-1672), 3.01.17, número 2885, imagem 0002. NL-HaNA_3.01.17_2885_0002.

Carta de Antônio Paraupaba a Johan de Witt, 30-10-1654, endereçamento
Figura 6
Carta de Antônio Paraupaba a Johan de Witt, 30-10-1654, endereçamento
Arquivo Nacional da Haia, Inventário dos arquivos de Johan de Witt, Grande Pensionário da Holanda (1653-1672), 3.01.17, número 2885, imagem 0003. NL-HaNA_3.01.17_2885_0003.

Transcrição da carta de Antônio Paraupaba para Johan de Witt, Grande Pensionário da Holanda, em 30 de outubro de 1654.

Carta de Antônio Paraupaba para Johan de Witt

[NL-HaNA_3.01.17_2885_0001; figura 4]

[Dat. 30 October 1654]

Aende Edele Heer mijn Heere

Naer alle Vriendelijcke groetenisse dient

desen dat ick aen U Edele hertelijcke ende vriendelijk

aen U Edele versoeckende is dewijlle ick van wegen

de groot mogende heeren Staeten Generael

ben hier gestelt onder dese goede Compaignie

waer voor ick hare Edele groot mogende

heeren staeten hebben te bedancken godt sij

gelof ende gedanckt, voorder soude ick

geerne aende Edele groote mogende heeren

versoecken dat ick mach aen mijn vrouw

schrijven, dat sij hier comt met een Seeuse

Ship op Seelant tegende voor jaer met

ten eerste schip die daer van comt ick hebbe

mijn vrou gelaeten op Eijlandt van Sinte Statius

een vande Caraibas Eijlanden onder de

Duijtse regeeringe daer met hare vier kin-

derkens verhoope dat hare Edele groot mo-

gende heeren mijn heeren dat mijn sulle weij-

geren aen mijn vrouw ende kinderen te schrijven

haer hier te ontbieden soo hebbe ick niet

konnen naerlaeten U Edele eerst daer in te kennen

dewijlle ick wel weet dat U Edele mijn met ten eerst

mijn sal antwoordt senden sal als U Edele geliest

sij was mede gecomen om eens Hollandt te sien

Ick weete niet oft armoedt sij lijdt oft

weelde dat sij weelde leeft oft dat sij meer

Armoedt lijdt

[NL-HaNA_3.01.17_2885_0002; figura 5]

Want sij is in en vreemde landen Sond kennisse

Sonder vrienden noch eenige bloedt verwant

den ick sorght dat niemandt haer de handt niet

bieden salten ander heb ick haer voor godt en voor

de weerelt getroudt haer nemmermeer

te verlaeten bij haer te blijven soo dunckt mijn

dat behoorlijck is dat ick haer hier ontbiet

niet anders Eijndige weest van herte gegroet

ende beveel U Edele inde Protectie des Alder Hooghste

Actum den 30 october [1654] binnen de Bosch in de

orte straet in de gapaerdt onder ridtmeester broec huis

Blijve

U Edele ootmoedige ende onderdanige Dienst

willige Dienaer Antonio Paraupaba

[NL-HaNA_3.01.17_2885_0003; figura 6]

Aende Edele Erntseste ende Hoogh

Geleerde Heer mijn Heer de

Widt pensionaris van Holland

van wegen de groodt mogende

Heer Staeten Generael

der vereenigen nederlanden

tegenwoordich binnen de

Haege inde

Vlaemstraet.

Tradução da carta de Antônio Paraupaba para Johan de Witt, Grande Pensionário da Holanda, em 30 de outubro de 1654.18

Tradução - Carta de Antônio Paraupaba para Johan de Witt

[NL-HaNA_3.01.17_2885_0001; figura 4]

[escrito posterior em lápis grafite: Datado de 30 de outubro de 1654]

Ao Nobre Senhor, Meu Senhor.

Com todos os gentis cumprimentos, para isso eu me dirijo à Sua Nobre, Cordial e Amistosa [pessoa], pedindo à Sua Nobreza, já que em nome dos Grandes Poderosos Senhores [dos] Estados Gerais eu tenha sido nomeado aqui sob esta boa Companhia, pelo qual eu tenho que agradecer a seus Nobres, Grandes e Poderosos Senhores [dos] Estados [Gerais], [que] Deus seja louvado e agradecido. Além disso, gostaria de solicitar aos Nobres e Poderosos Senhores, que eu possa escrever para minha mulher, que ela veio para cá em um navio zelandês da Zelândia na primavera, com o primeiro navio vindo de lá. Eu deixei minha esposa, junto com seus quatro filhos, na Ilha de Santo Eustáquio, uma das ilhas Caraíbas sob governo neerlandês. [Eu] espero que os Nobres e Poderosos Senhores, Meus Senhores, que [não] me recusem escrever para minha mulher e filhos para chamá-la para cá, por isso eu não pude informar primeiro sobre isso a Sua Nobreza, uma vez que eu sei bem que Sua Nobreza irá enviar primeiramente minha resposta. Como Sua Nobreza leu, ela veio para a Holanda uma vez. Eu não sei se ela sofre na pobreza ou se ela está na riqueza, ou se ela sofre mais na pobreza.

[NL-HaNA_3.01.17_2885_0002; figura 5]

Porque ela está numa terra estrangeira, sem conhecidos, sem amigos ou parente de sangue, então eu me preocupo de que ninguém lhe estenderá a mão, por outro lado, eu me casei com ela perante Deus e perante o mundo, para nunca mais deixá-la e ficar com ela. Então me parece conveniente que eu a chame para cá.

Sem mais, desejo por fim, de coração e resguarde Sua Nobreza na Proteção do Altíssimo.

Feito em 30 de outubro de 1654, em Den Bosch, na Orthenstraat, no bocejador,19 sob [comando] do capitão de cavalaria Broechuis.

De Sua Nobreza humilde e submisso servo desejoso por servir, Antonio Paraupaba.

[NL-HaNA_3.01.17_2885_0003; figura 6]

[Endereçamento]

Ao Nobre, Sério e Sábio Senhor, meu Senhor De Widt, pensionário da Holanda a serviço dos Grandes e Poderosos Senhores Estados Gerais das Províncias Unidas presentemente na Haia, na Vlamingstraat.

* * *

A leitura da carta permite inferir que Paraupaba, como toda sua longa trajetória atesta, era muito hábil com a pena e conhecia bem as instituições políticas dos Países Baixos. Um aprendizado oriundo não só do próprio processo de colonização ou dos seis anos de residência nos Países Baixos, uma vez que não é crível que esse pouco tempo tenha sido suficiente para torná-lo o competente escrivão que se vê adiante. Serviu-lhe de escola também todo o período em que atuou como mediador e intérprete entre indígenas e neerlandeses. Em 1654, já no fim de sua jornada, Paraupaba, na única carta de sua autoria encontrada até o momento, escrevia com bastante segurança. Sua missiva continha protocolo inicial, exposição clara e escatocolo compatíveis com o estilo dos textos da época - características que asseguram o domínio das regras de usos da língua dos neerlandeses.

Outro ponto que merece nossa atenção na carta é a presença da Paulina como destinatário da possível missiva que Paraupaba pede autorização para remeter. A expectativa de um atendimento à solicitação do Potiguara pressupõe tanto que poderia haver uma troca de correspondência entre Antônio e Paulina, quanto que eles encontravam meios de se comunicar. Ademais, as petições feitas por Paulina após a morte de Paraupaba, em 1656 e 1657, servem de evidência de que Paulina, acompanhada de sua família, conseguiu não só se comunicar com o governo neerlandês, encontrando e dialogando com as intricadas instâncias da burocracia da República das Províncias Unidas, bem como se deslocar geograficamente, indo e voltando dos Países Baixos ao Caribe. Sua trajetória e sua circulação sugerem que há muito ainda a ser estudado sobre o protagonismo e a autonomia das mulheres indígenas na história.

Escritos Potiguara das Guerras do Açúcar

Todo esse processo de mediação e comunicação com os representantes do governo neerlandês no Brasil e Países Baixos foi acompanhado de uma intensa produção de escritos. Indígenas oriundos das áreas ocupadas pelos neerlandeses redigiram um número significativo de cartas, petições e representações endereçadas ao governo da Companhia no Brasil e na República das Províncias Unidas. Também foram trocadas cartas entre indígenas e produzidos ainda uma quantidade substancial de escritos indiretos. Trata-se de depoimentos dados por indígenas que alimentaram informações dispostas em cartas, relatórios e mapas produzidos pelos europeus. Toda uma toponímia indígena presente nesses escritos, bem como os detalhes dos espaços ocupados, costumes e modos de vida de indígenas do Brasil constituem evidência desse intenso compartilhamento de dados.

Pela habilidade das mãos, pelos escritos produzidos em mais de uma língua e até mesmo pelo modo como as assinaturas eram registradas nos documentos é possível afirmar que a cultura escrita fazia parte da vida dos Potiguara em aldeamentos coloniais. No contexto das guerras nos séculos XVI e princípio do XVII, muitos Potiguara acabaram sendo levados para aldeamentos geridos por ordens religiosas estabelecidas em Pernambuco, Itamaracá, Paraíba e Rio Grande. O processo pode ser observado em vários outros territórios da América Portuguesa e Espanhola. Os neerlandeses, seguindo os passos dos religiosos católicos, também treinariam indígenas na escrita alfabética em aldeamentos geridos por pastores calvinistas (ALMEIDA, 2013, p. 158-159; ALMEIDA e SEIJAS, 2020, p. 365-367; BARCELOS e NEUMANN, 2022, p. 49-62; MELLO, 2001 [1947], p. 223-236; MEUWESE, 2003, p. 84; MEUWESE, 2012, p. 135; NEUMANN, 2015, p. 67-70; VAINFAS, 2009).

Seria nos aldeamentos coloniais que os indígenas, sobretudo as lideranças, aprenderiam a ler e escrever as letras mais comumente codificadas pelos europeus, uma vez que muitos povos indígenas já produziam seus códigos próprios de escrita e de leitura, expressos em urnas, gravuras rupestres, cerâmicas, geoglifos e outros suportes de escritas. Isso evidencia não só as práticas de comunicação e os modos de codificar dos indígenas, mas como o ambiente multilinguístico, ao qual pertenciam, oferecia condições para uma relação com os códigos escritos dos europeus.

As cartas em tupi produzidas pelos Potiguara aliados dos portugueses (Antônio Felipe Camarão, Diego da Costa, Diogo Pinheiro Camarão e Simão da Costa) e destinadas aos Potiguara aliançados com os neerlandeses (Antônio Paraupaba, Pedro Poty, entre outros) compõem o conjunto mais afamado de escritos de autoria de indígenas nas Guerras do Açúcar e convocam a pensar na presença protagonista desses povos na historiografia do Brasil. Além de constituírem evidência da disseminação da escrita entre parte dos indígenas do nordeste do Brasil, as missivas trazem informações interessantes para os que desejam entender melhor as relações entre indígenas, suas divisões, construções argumentativas, percepções sobre as guerras travadas e atuação política (NAVARRO, 2022; CERNO e OBERMEIER, 2013; MONSERRAT, BARROS e BARBOSA, 2020; SOUTO MAIOR, 1913, p. 149-156).

A despeito da produção de escritos indígenas nesse período, historiadores fizeram uso muito pontual desse material. As referidas cartas em tupi e as representações de Antônio Paraupaba, traduzidas em várias versões ao longo dos anos (CERNO e OBERMEIER, 2013; HULSMAN, 2006; MONSERRAT, BARROS e BARBOSA, 2020; NAVARRO, 2022; SAMPAIO, 1906; SOUTO MAIOR, 1913), foram de longe as fontes mais acessíveis e, portanto, debatidas. Contudo, tais análises não pensaram esses textos dentro de práticas de escrita e leitura de indígenas em distintos processos históricos. Foram deixados de lado também ricos debates sobre o fazer da escrita, o impacto da aquisição do alfabeto entre indígenas, a circulação de ideias resultantes de tal aprendizado e a atuação de seus autores enquanto produtores de escritos. O foco dos estudos feitos centrou-se em discussões sobre os discursos políticos e religiosos subjacentes nesses textos, bem como estabeleceram ainda o vínculo desses registros com as guerras intestinas entre os Potiguara e sua inserção e alianças nas lutas luso-hispano-neerlandesas (COSTA, 2021; GONÇALVES, CARDOSO e PEREIRA, 2009; HULSMAN, 2006).

Todavia, a ausência desse tipo de debate não está restrita somente ao período e ao tema em tela. Mesmo dispondo de ampla produção de textos indígenas, há notável carência de estudos sobre as práticas de escrita entre os indígenas guarani nos séculos XVII e XVIII (NEUMANN, 2020, p. 197). Mas ao contrário dessa parte da América, onde se pode verificar resultados “surpreendentes” com a “conquista do alfabeto por parte das populações originárias” (NEUMANN, 2015, p. 27), escritos de indígenas dos territórios das Capitanias do Norte - ou em termos mais amplos do Estado do Brasil - são encontrados em números muito pequenos e espaçados em termos cronológicos, o que justifica a dificuldade na elaboração de uma análise conjuntural e até mesmo de uma avaliação ampla do impacto da aquisição da escrita entre esses indígenas.

A exemplo da carta de Antônio Paraupaba a Johan de Witt, é possível afirmar que muitos escritos indígenas inéditos estão por ser descobertos ainda, o que deve ocorrer na medida em que avançam não só os estudos sobre esses escritos, mas também os métodos para suas buscas, os modos de interpretação do que significa a presença indígena na historiografia oficial aliados à digitalização dos acervos europeus, sua indexação e a disponibilização nas redes. Recentemente, pesquisadores publicaram uma coletânea com traduções de alguns textos inéditos produzidos pelos Potiguara, o que mostra o quão promissor tem sido esse acesso aos arquivos (BEL e FRANÇOZO, 2023). Talvez seja um passo importante para mudar o quadro do que se conhece sobre as práticas letradas de indígenas desses territórios ou, até mesmo, para ampliar os corolários dessas práticas (FRANCHETTO, 2008), inclusive no que se refere à própria ideia de usos da escrita, aos modos sociais e culturais de sua aquisição.

Ademais, o acesso a mais fontes permitirá que seja vista com mais atenção a participação indígena nas guerras luso-hispano-neerlandesas para além de seus aspectos políticos-militares. Por enquanto, sabe-se ainda pouco sobre as implicações políticas amplas dos usos da escrita alfabética entre os indígenas (MONSERRAT, 2020), todavia é possível inferir com esses documentos de autoria de indígenas - seja por seus ditos ou não ditos, seja pela singularidade de suas composições ou pelo modo como foram ‘esquecidos’ pela tradição historiográfica do Brasil - que muito do que era considerado inaugural para os Europeus em relação ao “Novo Mundo” já era comum à vida de muitos povos indígenas.

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Extratos e registros das resoluções dos Altos e Poderosos Senhores dos Estados Gerais das Províncias Unidas dos Países Baixos, 16-01-1657. Arquivo Nacional da Haia, Inventário do Arquivo dos Estados Gerais (1576-1796), 1.01.02, número 4846, imagem 0239, NL-HaNA_1.01.02_4846_0239.

Lista das pessoas que se encontravam na Nova Walcheren em 5 de julho de 1668. Arquivo da Zelândia, Midelburgo, Países Baixos. NL-MdbZA_2, inventário 2035.1, número 50-1, imagem 119.

Lista de habitantes de Tobago em abril de 1669. Arquivo da Zelândia, Midelburgo, Países Baixos. NL-MdbZA_2, inventário 2035.1, número 135-02, imagem 368.

Lista de ordens de pagamento de guarnições de Tobago, em 1669. Arquivo da Zelândia, Midelburgo, Países Baixos. NL-MdbZA_2, inventário 2035.1, número 139-01, imagem 375.

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Notes

1 Artigo não publicado em plataforma preprint. Todas as fontes e bibliografia são referenciadas. Todos(as) os(as) autores(as) participaram das diversas fases da pesquisa e preparação do artigo.
2 Doutor em História pela Leiden Universiteit, Países Baixos. Professor do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife, Pernambuco, Brasil.
3 Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia. Analista de Políticas Sociais do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos.
4 Doutora em Letras pela Universidade Federal da Bahia. Professora do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, Salvador, Bahia, Brasil. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico CNPq, processo número 308785/2022-3.
6 Já em 1631, Pedro Poty escreve uma carta para o Diretor da Companhia das Índias no Recife informando sobre as possibilidades de uma aliança entre os neerlandeses e os Tapuia (POTY apud FRANÇOZO; BEL, 2023, p. 71-73).
7 O nome de Pedro Poty é grafado de várias maneiras na documentação, assim como os nomes de outros indígenas. Mantivemos a presente grafia por ser a mais próxima do português brasileiro contemporâneo, mas pode-se encontrar as variações Pieter Poty, Poti, Potij, Pottij, dentre outras.
8 Governador Geral dos territórios neerlandeses no Brasil, nomeado pelo Conselho Dirigente da Companhia das Índias Ocidentais em 1636.
9 Conselho Dirigente da Companhia das Índias Ocidentais.
10 Os debates concernentes a assembleia de 1645 foram tema de análise de dois artigos de Bruno Miranda, que estão em processo de publicação.
11 Autoridade soberana, organizada na forma de Conselho que governava a República dos Países Baixos.
14 A notícia foi dada pelo Arquivo da Zeelandia, em 11 de outubro de 2023. Disponível em: https://www.zeeuwsarchief.nl/transcripties-brieven-suriname/ Acesso em: 14 maio 2024
18 Documento encontrado por Rafael Xucuru-Kariri. A carta foi transcrita e traduzida por Bruno Miranda. Registramos nossos agradecimentos a Benjamin Nicolaas Teensma, Erik Odegard e a Jan Thielen por sanar dúvidas que surgiram no processo de tradução.
19 São duas as explicações possíveis para o termo “bocejador” empregado por Paraupaba. A primeira indica a possibilidade de que Paraupaba estivesse se referindo a uma representação de cabeça humana com a boca aberta, que usualmente era colocada como decoração nas fachadas das casas dos Países Baixos. Às vezes eram indicativos da atividade praticada no estabelecimento, como um local de venda de remédios. Contudo, especificamente na Orthenstraat, entre os números 23 e 25, existia uma grande casa denominada “De Gapert” (O Bocejador). Agradecemos essas informações aos pesquisadores Benjamin Teensma e a Erik Odegard.

Author notes

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