ARTIGO
IT’S NATION TIME! JAZZ, RAÇA E POLÍTICA NOS ESCRITOS DE FRANTZ FANON E AMIRI BARAKA (1950-1970)1
IT’S NATION TIME! JAZZ, RACE AND POLITICS IN THE WRITINGS OF FRANTZ FANON AND AMIRI BARAKA (1950-1970)
IT’S NATION TIME! JAZZ, RAÇA E POLÍTICA NOS ESCRITOS DE FRANTZ FANON E AMIRI BARAKA (1950-1970)1
Revista de História (São Paulo), no. 183, a06023, 2024
Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Departamento de História
Received: 28 June 2023
Accepted: 21 February 2024
Resumo: Neste estudo, examino as concepções de jazz e negritude do filósofo martinicano Frantz Fanon e do escritor afro-americano Amiri Baraka. Para isso, mobilizo dados na bibliografia pertinente, em trabalhos acadêmicos relevantes e em estudos biográficos, tendo como aporte teórico-metodológico a noção de Atlântico Negro (GILROY, 2001 [1993]) e também o suporte de Bourdieu (2004; 2015 [1974]) e Koselleck (1992; 2006 [1979]), a fim de analisar os contextos de cada autor para a formulação de suas noções de jazz e negritude, atentando para os fluxos e refluxos em suas trajetórias intelectuais e ainda os diálogos que estabeleceram com os seus pares. Nesse diálogo, problematizo a relação entre Black Music e identidade negra, dando destaque às disputas políticas e estético-ideológicas em torno da definição da noção de negritude no Atlântico.
Palavras-chave: Frantz Fanon, Amiri Baraka, negritude, jazz, Black Music.
Abstract: In this study, I examine the conceptions of jazz and negritude by the Martinican philosopher Frantz Fanon and the Afro-American writer Amiri Baraka. For this, I mobilize data in the pertinent bibliography, in relevant academic works and in biographical studies, having as a theoretical-methodological contribution the notion of Black Atlantic (GILROY, 2001 [1993]) and also the support of Bourdieu (2004; 2015 [1974]) and Koselleck (1992; 2006 [1979]), in order to analyze the contexts of each author for the formulation of their notions of jazz and blackness, paying attention to the flows and ebbs in their intellectual trajectories and also the dialogues they established with their peers. In this dialogue, I problematize the relationship between Black Music and black identity, highlighting the political and aesthetic-ideological disputes around the definition of the notion of blackness in the Atlantic.
Keywords: Frantz Fanon, Amiri Baraka, blackness, jazz, Black Music.
Fraseados e (contra)ataques preliminares: por que o jazz? Por que agora?
A revolução tem de vir por meios políticos.
Mas talvez a música (...) possa ajudar as pessoas a começarem a mudar um pouco – começarem a mudar suas consciências. Só assim estarão prontas para seguir outros caminhos.
Caminhos políticos.
Talvez.
Gato BarbieriInsisto que o Brasil tem vivido um novo momento do jazz afro-brasileiro. Muito embora, desde o início, o jazz tenha sido apropriado e praticado por trabalhadores negros brasileiros3, apenas recentemente tal prática parece ter ganhado uma roupagem mais fortemente afrocentrada, antirracista e anticolonial – o que se pode atestar na obra de músicos como o pianista pernambucano Amaro Freitas, o multi-instrumentista maranhense Isaías Alves, o carioca Jonathan Ferr, o projeto musical feminista Jazz das Minas, entre tantos outros. Observo que tal operação se dá, coincidentemente, em uma nova fase de discussão sobre o racismo no Brasil: conjuntura em que, aliás, reinvocam-se nomes mais ou menos conhecidos no país, como Frantz Fanon e, em menor grau, Amiri Baraka. Em vista disso, meu palpite é o de que as tentativas de volver à noção de um jazz preto e periférico podem estar conectadas aos atuais e acalorados debates sobre identidade, identitarismo, racismo e capitalismo (racismo estrutural). No entanto, é preciso questionar: qual seria exatamente a contribuição de Amiri Baraka e Frantz Fanon diante dessa possível relação entre música, identidade e antirracismo?
Para tentar responder a essa pergunta, pretendo discutir neste texto quais foram as condições de possibilidade para que Amiri Baraka e Frantz Fanon – autores direta ou indiretamente ligados ao que Robinson (2000 [1983]) chamou de Tradição Radical Negra – produzissem suas considerações sobre Black Music, no âmbito dos entendimentos do que seria uma identidade negra no cenário da atlanticidade racial diaspórica (GILROY, 2001 [1993])4. Assim, destacarei pontos-chave da biografia dos agentes, considerando seus respectivos contextos, a formação política e as principais obras nas quais se fizeram presentes seus comentários sobre a Black Music. Pondo os dois autores face a face, viso colocar em diálogo, de um lado, alguém que escreveu a partir da e sobre a realidade colonial, interferindo incisivamente nos rumos dos movimentos de libertação em África (MANOEL, 2019), no debate sobre racismo e imperialismo e nos rumos ideológicos dos movimentos políticos afro-americanos – sobretudo, no movimento Black Power (FAUSTINO, 2020) e no partido dos Panteras Negras (ABU-JAMAL, 2020). Do outro lado, situado ao mesmo tempo no seio e à margem do Império, uma figura de grande influência na orientação estética do movimento negro estadunidense e nos estudos críticos do jazz (FEBRIYANTI, 2015; SIMANGA, 2015; RIBEIRO JÚNIOR, 2020).
Destaco, assim, semelhanças e diferenças entre Amiri Baraka e Frantz Fanon na construção de suas ideias e nelas mesmas – notadamente aquelas que referenciam o blues e o jazz –, no intuito de traçar conexões entre suas elaborações estético-intelectuais. Os alicerces dessa investigação serão a História dos Conceitos (KOSELLECK, 1992), buscando apreciar o desenvolvimento e o uso de termos como “negritude” no campo intelectual (BOURDIEU, 2004; 2015 [1974]), considerando as realidades concretas que embalaram a formação, aplicações e sentidos desse fato linguístico – indicativo, aliás, das contingências, interesses e demandas de determinados atores e contextos (KOSELLECK, 2006 [1979]). Objetivo, desse modo, localizar as ideias dos autores, a partir de quais capitais disponíveis, formas de legitimação moral e com quem estavam dialogando; pontuando ainda quais eram os dispositivos de prestígio em jogo, suas regras e, principalmente, para quais objetivos eles dirigiam seus investimentos autorais.
Um jazz para os condenados da terra: Frantz Fanon, bebop e identidade cultural
[o negro] mostrou que pode inventar algo em sua corneta que ninguém jamais pensou. Se tiver independência intelectual, pode fazer a mesma coisa. (...). Pode inventar uma filosofia da qual ninguém ouviu falar ainda. Pode inventar uma sociedade, um sistema social, um sistema econômico, um sistema político diferente de tudo o que existe ou já existiu em qualquer lugar. Ele improvisará; vai trazê-lo de dentro de si mesmo. E é isso que queremos.
Malcolm XAté agora, há apenas um estudo que analisa mais profundamente o lugar do jazz no pensamento do filósofo e psiquiatra marxista Frantz Omar Fanon (Martinica, 1925-1961). Trata-se do artigo Leaving the South: Frantz Fanon, modern jazz and the rejection of négritude (2012) de Jeremy Lane. Situado no ramo dos estudos pós-coloniais, o autor recupera os esparsos comentários do pensador martinicano sobre o blues e o jazz contidos em algumas de suas publicações, atentando para o contexto interno e externo dessas menções. Logo de início, Lane problematiza os olhares do biógrafo David Macey e da historiadora Françoise Vergès, que interpretaram essas elaborações como se fossem equívocos de Fanon. Em seguida, a fim de discutir melhor de que maneira as citações de Fanon ao jazz poderiam estar conectadas com o seu pensamento e com a sua trajetória intelectual e militante, o autor retrilha o debate sobre as discordâncias entre o pensador martinicano e o escritor senegalês Léopold Sédar Senghor, no que se refere à noção de “negritude”. Desse modo, em diálogo com outro texto de sua autoria, intitulado Jazz as antidote to the machine age: from Hugues Panassié to Leopold Sedar Senghor (2013) – estritamente focado na relação entre a négritude e o jazz no pensamento de Senghor5 –, Jeremy Lane (2012) se concentra no contributo de Frantz Fanon para o debate sobre identidade étnica, tentando demonstrar como a preferência do pensador pelo jazz moderno se fundamentava em princípios estético-ideológicos consonantes com sua aposta em uma Argélia autodeterminada, apartada dos símbolos e códigos coloniais.
Antes de comentar mais sobre isso, é interessante observar que a relação entre a obra de Fanon e o jazz é anterior à publicação de Peau noire, masques blancs, ou seja, emerge antes de 1952. Tal aproximação surge de maneira indireta, na superfície, mais pelo viés estético, nas incursões do autor pelo mundo da dramaturgia, entre 1946 e 1951, precisamente ao escrever as peças A conspiração, O olho que se afoga e Mãos paralelas. Concebidas no início de seus estudos de psiquiatria – período marcado por uma relação vigorosa do autor com os episódios políticos da época, com os quais se envolvia, sobretudo, através do movimento estudantil – essas peças “chamam atenção pela tentativa de retratar personagens não racializadas e em dilemas humanos universais”, sendo “marcadamente influenciadas pelo existencialismo, pelo surrealismo e pelo impressionismo”, mas, além disso, inspiradas principalmente “pela proposta estética do movimento de negritude” (FAUSTINO, 2022, p. 23). Misturando prosa e verso, nessas narrativas surgem, aqui e acolá, ideias sobre temas universais: vida e morte, tempo e esperança. Além disso, como percebe Faustino, nos deparamos nesses textos com “(...) a busca incessante de uma linguagem que fira a carne e convoque o corpo ao ato, como o vibrato do bebop ou a dissonância agonizante do hard bop” (FAUSTINO, 2022, p. 23). Não por acaso, alguns autores reforçam a imagem de que Fanon foi um “filósofo do jazz”6 (GORDON, 2015; FAUSTINO, 2022).
A verve jazzística na escrita do jovem psiquiatra – que me parece fundamental para sua constituição política-intelectual enquanto “oxímoro radical” (FAUSTINO, 2018, p. 15), pelo pendor ao experimentalismo e à improvisação7 – pode ter relação com o ambiente parisiense do segundo pós-guerra, no qual jazz, literatura, arte e existencialismo se associavam nos círculos intelectuais. Ademais, como indica Macey (2012, p. 128), o próprio Fanon apreciava o jazz afro-americano e as músicas populares da Martinica, como o beguine – ritmo afro-caribenho que se valia de elementos do jazz –, o que comprova que o autor teve uma experiência de escuta sensível desses sons e que, portanto, não apenas os citou como estava intimamente conectado com a sua estética8.
Dito isso, é possível afirmar que a primeira vez que Fanon mencionou diretamente o jazz para criticar os postulados da Négritude foi em Peau noire, masques blancs, de 1952. A crítica ao movimento, de fato, está diluída ao longo de todo o livro. Contudo, compartilho com Lane (2012) a compreensão de que as referências ao jazz, ainda que bastante pontuais, surgem em momentos cruciais, dentro de contextos decisivos no desenvolvimento argumentativo de Fanon. Buscando ganchos que o colocassem em diálogo com a produção intelectual de seus pares, isto é, em consonância com as tendências do pensamento africano, francófono e afro-americano, Fanon mira no ensaio “Ce que l’homme noir apporte”, de 1939, no qual Senghor fala de maneira apaixonada sobre os tempos da África Ocidental pré-colonial e do jazz como exemplo dos dons rítmicos inatos dos negros: ou seja, pondo ambos como redutos simbólicos da “autêntica” identidade negra. Desafeto dessa ideia, para Fanon, tal leitura se baseava em “uma concepção essencialista e primitiva de identidade negra, que corre o risco de negar aos negros qualquer capacidade de pensamento racional ou agência histórica” (LANE, 2012, p. 131).
Nessa lógica, ao mesmo tempo que Fanon confronta a mentalidade racista de certo pensamento sobre o jazz (aliás, fortemente influenciado pelas formulações do crítico musical reacionário Hugues Panassié9), também se afasta do mero culto romantizado à Black Music. O autor opta por esse caminho para ilustrar o erro de diagnóstico de uma negritude essencialista que, para ele, permanecia presa à racialização colonial e a uma noção equivocada de tradição, portanto descompromissada com as demandas históricas do presente e com as perspectivas de futuro. O seguinte relato de Fanon é muito elucidativo, nesse sentido:
Há alguns anos, a Associação Lyonesa de Estudantes Ultramarinos da França me pediu para responder a um artigo que literalmente considerava o jazz uma irrupção do canibalismo no mundo moderno. Sabendo aonde ir, recusei as premissas do interlocutor e pedi ao defensor da pureza europeia para se desfazer de um espasmo que nada tinha de cultural. Certos homens querem inflar o mundo com o próprio ser. Um filósofo alemão descreveu esse processo sob o nome de patologia da liberdade. No caso presente, eu não tinha de tomar posição a favor da música negra contra a música branca, devia ajudar meu irmão a abandonar uma atitude que nada tem de benéfica. O problema aqui considerado situa-se na temporalidade. Serão desalienados pretos e brancos que se recusarão enclausurar-se na Torre substancializada do passado
(FANON, 2008 [1952], p. 187).Analisando esse trecho, Lane (2012, p. 132) entende que em Fanon “a denúncia do jazz pelo racista branco como uma forma de canibalismo moderno e a mitologização da negritude de uma civilização negra perdida são duas faces da mesma moeda primitivista” e que, nesse raciocínio, a saída “não é celebrar a autenticidade das formas musicais negras em oposição aos seus equivalentes brancos, mas abandonar totalmente essa oposição binária”.
Válido realçar que, no trecho supracitado, Fanon poderia estar se referindo a um artigo publicado em meados dos anos 1940, justamente quando o jazz passava por vertiginosas e intensas transformações nos Estados Unidos. No começo daquela década, uma nova forma de tocar começou a ser ensaiada em cidades como o Kansas, vindo a encontrar em Nova Iorque, precisamente no bairro do Harlem, o ambiente propício para o seu desenvolvimento e maturação.
Tal como Nova Orleães se tornou popularmente conhecida como o berço do jazz, não obstante práticas musicais negras semelhantes estivessem sendo desenvolvidas em várias cidades do sul e centro-oeste dos Estados Unidos (BERENDT; HUESMANN, 2014, p. 32), atribuiu-se ao Clube Minton’s Playhouse a fama de lugar onde se originou o bebop. De fato, o espaço, situado no primeiro andar do Cecil Hotel, 210 West 118th Street, funcionou como laboratório musical para nomes como Thelonious Monk (piano), Charlie Christian (guitarra), Kenny Clarke (bateria), Charlie Parker (sax alto) e Dizzy Gillespie (trompete), sem contar aquelas figuras que os antecederam e que ajudaram a pavimentar o caminho para as novas experimentações, tais como Lester Young, Jo Jones e Roy Eldridge, que advinham da geração do swing – estilo de jazz dançante tocado pelas big bands (grandes orquestras) nos anos 1930 e que alimentou uma indústria milionária, envolvendo o cinema e a propaganda –, mas que, de alguma forma, o executavam de maneira criativa, fugindo, na medida do possível, das repetidas fórmulas exaustivamente exigidas pelo musical business. Finalmente, em um ambiente dominado por homens, por vezes racista, misógino e sexista, fundamental mencionar ainda mulheres que amiúde são apagadas dessa história, como as pioneiras Melba Liston (trombone), Pauline Braddy (bateria) e a pianista e compositora Mary Lou Williams, esta última mentora de muitos beboppers no início do processo de desenvolvimento do novo estilo (SMITH, 2020). Pequenos conjuntos, improvisação sobre um tema executado em uníssono, frases velozes e curtas, uso e abuso da quinta diminuta descendente (flatted fifith) e, sobretudo, uma noção de jazz “enquanto empreendimento artístico”, intelectual, com consciência social, e por isso contra “as forças sociais do comércio e da raça”, como uma “rebelião de músicos negros contra um capitalismo controlado pela hegemonia branca” (DEVEAUX, 1997, p. 4). Eis alguns traços característicos do bebop.
Já no começo dos anos 1950, o cool jazz prosseguiu as inovações musicais. Desenvolvido por músicos como Miles Davis, John Lewis e Ted Dameron, desde o nome – simbolizando exatamente o oposto do hot jazz dos anos 1920 – o cool trazia uma sonoridade cuja verve antirracista, diferente do bebop, adotava uma estética mais “fria”, resignada, “[dando] lugar à calma, à ponderação e ao equilíbrio” (BERENDT; HUESMANN, 2014, p. 43). Por isso, minimalismo, frases simples com pouco vibrato sobre escalas modais, tonalismo livre, mas controlado, eram alguns traços dessa sonoridade que se popularizaram a partir das gravações iniciais do noneto Miles Davis Band. Em termos de atitude, segundo MacAdams (2001, p. 46), o cool “juntou o estético ao político”, significando “um ato militante, uma forma de permanecer abaixo do radar da cultura dominante sem perder o respeito dos pares”.
O hard bop, por sua vez, surgiu no final dos anos 1950 como reação de músicos negros da Filadélfia ou de Detroit que viviam em Nova Iorque à orientação clássica do jazz da Costa Oeste (West Coast Jazz). Grosso modo, enquanto este era mais afeito aos padrões europeus e acadêmicos, aquele (também conhecido como East Coast Jazz) buscava dar uma nova roupagem às tradições musicais afro-americanas. Assim, os “slogans implícitos” do hard bop, comenta Hobsbawm (2011 [1959], p. 156), “voltavam-se para o passado: de volta a Parker, de volta ao blues e ao gospel, de volta mesmo ao jazz de big band da tradição central. As razões para essa reação foram, sem dúvida, tão ideológicas quanto musicais”. Art Blakey, Elvin Jones e Max Roach (bateria), Horace Silver (piano), Lee Morgan e Donald Byrd (trompete), Sonny Rollins e Hank Mobley (sax-tenor) foram alguns nomes representativos dessa escola. Depois, viria o free jazz, sobre o qual falarei em outro momento do trabalho.
Por hora, é mister sublinhar que o encontro do vanguardismo com a politização em meio àquele efervescente contexto situado entre a Segunda Guerra e a Guerra Fria, somado ao Movimento dos Direitos Civis, fomentou não apenas rupturas estéticas no mundo do jazz, mas também tensões geracionais. Representativas disso foram as dissonâncias envolvendo Louis Armstrong, Miles Davis e Dizzy Gillespie. Estes últimos, a princípio, criticavam o comportamento de Armstrong dentro e fora dos palcos, taxando-o pejorativamente de “Uncle Tom” (Pai Tomás, na versão em português): nome do personagem do romance abolicionista de Harriet Beecher Stowe (Uncle Tom’s Cabin, de 1852): um homem escravizado, cristão, que passou a ser visto como símbolo de subserviência, de negros alienados que não se posicionavam abertamente contra o racismo e que, para piorar, tentavam agradar os brancos. No caso de Louis Armstrong, essa submissão se expressaria em performances que aos olhos e ouvidos dos músicos modernos traziam a incômoda lembrança dos espetáculos racistas do Sul, dos black faces e toda sorte de opressões ali cultivadas na fase embrionária do jazz.
Tais conflitos são um bom gancho para retornar às considerações de Fanon sobre a Black Music, pois, para o autor, o universo estereotipado que rondava o “jazz tradicional” desponta em Pele negra, máscaras brancas (2008 [1952]) como exemplo do ciclo abismal que a racialização poderia fomentar sobre as subjetividades dos oprimidos, ludibriando seu horizonte de emancipação genuína por não obliterar o conjunto de códigos responsáveis pela manutenção do racismo – esquemas mentais e materiais que, inclusive, estavam impregnados em parte da história do jazz fora dos EUA10. Contudo, esse jazz, uma vez modernizado, poderia se tornar referência para romper violenta e criativamente com um passado fossilizado, pavimentando, assim, o caminho para o estabelecimento do novo; para um devir desalienado – para uma liberdade, de fato, fora dos grilhões ideológicos e previsibilidades coloniais.
Válido ressaltar que, ao tomar partido pelo bebop, Fanon não necessariamente corrobora com as regras da “guerra do jazz” – disputa entre grupos estéticos que punham em termos antagônicos modernidade e tradição. Mesmo que não haja comentários críticos substanciais por parte do autor sobre a produção jazzística da época, essa conclusão parece acertada ao considerarmos a maneira como Fanon lidava com a temática das tradições culturais, saindo em favor de sua abertura nas trocas transatlânticas (FANON, 1961, p. 221), logo pela sua constante ressignificação – predisposição, aliás, que, segundo o autor, já seria encontrável nessas expressões culturais (FANON, 1961, p. 255). Por isso, Frantz Fanon entendia que o trato com as “raízes” tinha de passar pelo crivo da descolonização, pois só opressores e seus aliados teriam interesse em engessar, romantizar e exotizá-las. Exotização, a propósito, obcecada por imagens de inferiorização e sofrimento negro, de tal modo que mesmo o grito revoltado de dor de um bluesman, ou os improvisos melancólicos de um jazzman, tornar-se-iam, dentro de tal estrutura reificante, meros artigos de luxo para consumo e satisfação de uma branquidade sádica. Como principais representantes do jazz moderno, por terem sido os estilos que Fanon chegou a ter contato, o bebop, o cool e o hard bop, nesse sentido, significavam, aos ouvidos e ao corpo pensante/questionador do filósofo, artimanhas artísticas com potencial de não apenas driblar qualquer tentativa de cooptação dos músicos por essa lógica pervertida, como também poderiam contribuir para a progressiva erosão das engrenagens de exploração e opressão regidas pelo capitalismo racial (ROBINSON, 2000 [1983]) arraigado no mercado de entretenimento.
Arriscaria dizer ainda que, diante de suas duras posturas ao abordar o blues e o jazz, Fanon se voltava não só contra a cadeia mais evidente da máquina cultural colonizadora: ou seja, donos de gravadoras, empresários, grandes veículos de comunicação (para quem as representações racistas da cultura negra eram negócios rentáveis desde os Minstrels Shows11) e consumidores brancos (da elite ou da classe média); como poderia ser também uma crítica direcionada aos setores brancos pretensamente progressistas (movimentos sociais, pesquisadores, acadêmicos, críticos, memorialistas) que, no afã de exaltar, salvaguardar, tutelar e dar visibilidade à música negra “autêntica”, resvalavam para uma perigosa folclorização dessas práticas, por conseguinte para uma involuntária (?) manutenção das desigualdades sociais. Além disso, em um nível mais profundo, percebo que Fanon denunciava a introjeção dessas representações por parte dos próprios negros, o que poderia levar a uma espécie de retroalimentação desses imaginários, por fim sua legitimação, cristalizando, assim, subjetividades negras ao gosto das nostalgias e taras coloniais da branquitude. Assim, ao vislumbrar no novo jazz um discurso musical antirracista, não é gratuito que com a mordacidade de um bebopper o pensador tenha alertado:
É assim que o blues, “lamento dos escravos negros”, é apresentado à admiração dos opressores. É um pouco de opressão estilizada, que agrada ao explorador e ao racista. Sem opressão e sem racismo não há blues. O fim do racismo seria o toque de finados da grande música negra... Como diria o demasiadamente célebre Toynbee, o blues é uma resposta do escravo ao desafio da opressão. Ainda atualmente, para muitos homens, mesmo os “de cor”, a música de [Louis] Armstrong só tem verdadeiro sentido nesta perspectiva
(FANON, 2021 [1964], p. 76-77).E em outro momento, escrevendo no auge do bebop e do cool jazz, como se pressentisse o devir revolucionário das práticas jazzísticas, uma transformação radical das sociabilidades e a vitória de novos símbolos no consumo cultural/musical, Fanon vaticinou:
(...) não é utópico supor que em cinquenta anos ou mais a categoria de jazz como o grito gaguejado de um pobre Nègre amaldiçoado só será defendida por brancos que permanecem fiéis à imagem presa de uma espécie de relações, de uma forma de négritude
(FANON, 1961, p. 255).Nesse sentido, para Fanon, contrários a tal estigma (e lidos pelo autor como um fenômeno que ia muito além de uma simples empreitada comercial), “os novos estilos em matéria de jazz não surgem apenas da competição econômica”, devendo ser vistos como “uma das consequências da derrota, inevitável ainda que lenta, do mundo sulista dos Estados Unidos”, pois, “quando o negro se compreende a si mesmo e concebe o mundo de uma maneira distinta, faz nascer a esperança e impõe um retrocesso ao universo racista, é claro que o seu trompete tende a libertar-se e a sua voz a perder a rouquidão” (FANON, 1961, p. 255). Nesse ponto, o autor parece evocar o “mundo sulista” como metáfora de um padrão sociocultural calcado na violência racial que tomava os EUA para além do Sul. Ao mesmo tempo, estaria confrontando uma idealização desse mesmo Sul, cuja romantização se expressava nas odes às raízes das musicalidades negras apenas enquanto significassem registros das precariedades, exploração e morte da população de cor, opção que, em um estágio mais oculto e reacionário, poderia simbolizar um apego sentimental, por vezes recalcado, a imagens de cunho escravista. Em seguida, ao mencionar certas formas estéticas (a maneira de tocar trompete, o estilo de canto), Fanon, de fato, poderia estar apontando para a total superação de linguagens, de resíduos que se remetiam ao universo rural, à memória das plantações do Sul – muito embora as primeiras gravações de jazz tenham ocorrido em áreas urbanas do Norte (LANE, 2012, p. 140). Não obstante, considerando que de maneira alguma fazia parte da agenda do autor a defesa pela extinção das práticas autóctones, do simples esquecimento do passado escravista, o realmente condenável, para Fanon, não seria o blues/jazz de origem rural em si, mas mais fortemente as camadas racistas que passavam a simbolizá-los e defini-los quando se tornavam produtos massificados; a transformação da revolta negra em mera grife de mercado; o estabelecimento de um critério de autenticidade musical escravo das plantações de algodão12.
Válido recordar que essas encruzas político-estéticas com o jazz começaram a se explicitar, sobretudo, a partir das intervenções de Fanon no I e no II Congresso de Escritores e Artistas Negros, ocorridos, respectivamente, em Paris, em 1956, e em Roma, em 195913, das quais sairiam os textos “Fundamentos Recíprocos da Cultura Nacional e das Lutas de Libertação”, presente na seção “Sobre a cultura nacional” d’Os condenados da terra (2022 [1961]), e “Racismo e Cultura”, como já dito, publicado depois em Pela revolução africana (2021 [1964]). Justamente nesses escritos, Frantz Fanon
[sugeria] que o jazz moderno poderia, no nível estético, ser capaz de descobrir uma saída para esta armadilha, de desacoplamento do jazz de qualquer elo orgânico que seus promotores possam alegar que possuía a localização geográfica especificada ou identidade étnica fixa. Com base nesse desacoplamento, o jazz moderno [poderia] de fato se tornar pertinente às discussões de uma cultura nacional em uma Argélia recém-independente
(LANE, 2012, p. 138).Em síntese, é possível concluir que, para Frantz Fanon, o jazz afro-americano (especificamente aquele que procurou driblar as imposições de uma indústria cultural cuja lógica de funcionamento visava lucros ilimitados através da desumanização dos músicos negros, reduzindo-os a meras personagens/propriedades fetichizadas – cooperando, assim, para a manutenção do racismo nos EUA da época) foi uma expressão musical que, pelo “compromisso com a independência artística e a inovação”, despontou como “uma prática exemplar de liberdade cultural, um modelo para os miseráveis da terra nos seus esforços para inventar uma identidade nova e emancipada” (SHATZ, 2019, s/p, tradução minha).
Assim, se para Fanon “é o homem branco que cria o Negro, mas é o Negro que cria a negritude” (FANON, 1967, p. 47), o movimento de apropriação das táticas emancipatórias formuladas pelos primeiros jazzistas modernos (com seu aceno para o diálogo panafricano, a solidariedade com os asiáticos e povos originários, aliado à luta antirracista nos EUA)14, punha em prática sua concepção dialética de identidade cultural, esta, por sua vez, mais preocupada em transcender situações/processos compartilhados específicos do que ruminar sobre noções identitárias especificadas, isto é, fixas e imutáveis (LANE, 2012, p. 143-144).
Essa representação estética a partir do jazz aponta, portanto, para a uma concepção anticolonial e moderna de história em Fanon, pois visa a ruptura com uma noção potencialmente conservadora de passado; mira em uma relação dinâmica do universal com o particular (e vice-versa), na intersecção entre raça e classe, no total aniquilamento dos binarismos coloniais e do universalismo abstrato branco.
Importante acentuar que, embora tenha sido elaborado nos anos de 1940 – como já dito, por músicos que se opunham às amarras musicais, explorações, preconceitos e humilhações presentes na indústria musical desde a Swing Era15 –, o bebop surgiu mais enfaticamente no discurso de Fanon apenas quando o autor passou pela experiência profilática da Revolução Argelina, iniciada em 195416. Isto é, com o avanço do processo de independência da Argélia, a relação entre jazz moderno, raça, identidade, política e nação17 ficou ainda mais evidente no discurso fanoniano.Ora, o fato de Fanon, um martinicano, ter enfrentado as forças coloniais em solo argelino, era porque sua ideia de solidariedade política se sustentava “na consciência de uma situação específica compartilhada, e não em qualquer reivindicação ilegítima de uma identidade comum especificada”, razão pela qual a Black Music, representada pelo bebop, denotava para ele um modelo identitário que, a partir do plano musical, poderia “ser integrado num projeto [sociocultural] transformador, de tal forma que os seus componentes [poderiam ser] redinamizados e transcendidas as suas limitações inerentes” (LANE, 2012, p. 141).
Neste ponto, abro um parêntesis: na leitura de Faustino (2018), se por um lado podemos perceber uma evolução do pensamento fanoniano ao longo de suas publicações, isso não de seu em termos de uma mera divisão entre um jovem Fanon, mais voltado para questões subjetivas, e um Fanon marcadamente mais revolucionário, materialista, como argumentado por Robinson (1993). À linha de Faustino (2020, p. 35), talvez o mais correto fosse entender a obra fanoniana – sabendo que ela está estruturada sob os preceitos da sociogênese18 – como uma espiral que gira em torno de um eixo dialético. Numa aproximação musical – e nesse ponto me inspiro no esforço de percepção aural dos escritos barakianos proposta por Moten (2023 [2003]) –, podemos imaginar o swing intelectual do autor como a “percepção rotativa” do contrabaixista Charles Mingus, cujo balanço complexo e dinâmico posiciona o caos dentro de um círculo rítmico e o manipula em direção a horizontes estéticos revolucionários19.
Digressões à parte, vale dizer que ainda que não tenha comentado sobre o desenvolvimento do jazz em solo africano20, analiso que ao incorporar/calibanizar esse elemento musical-cultural dentro de suas análises, Frantz Fanon, a partir de sua atividade revolucionária na África, contribuiu para a discussão estética-sociológica do jazz numa perspectiva radical e afrodiaspórica, reconhecendo – como bom entendedor das regras do campo intelectual no qual estava inserido, e dos problemas históricos da sua realidade – a importância, mas também os limites, da négritude e de outras formas de identidade cultural.
Infelizmente, tal como não pôde assistir ao amanhecer da revolução na Argélia, Fanon também não viveu o suficiente para absorver a fundo o impacto de um fenômeno ainda mais radical do que o bebop: o nascimento do free jazz. O LP do multi-instrumentista Ornette Coleman Free Jazz: a collective improvisation (Atlantic Records), trabalho que batizou o novo estilo, foi lançado em setembro de 1961. Fanon morreria em dezembro daquele mesmo ano, tendo passado seus dias finais trabalhando n’Os condenados da terra, obra que ressoaria fortemente no movimento Black Power, na trajetória de muitos jazzistas engajados e na vida de um dos mais importantes críticos afro-americanos de jazz: o escritor Amiri Baraka.
Radicalidade jazzística e miscelânea negra: de Fanon a Leroy, de LeRoi a Baraka
I be black angry communist
I be part of rising black nation
I be together with all fighters who fight imperialism
I be together in a party with warmakers for the people
I be black and African and still contemporary Marxist warrior.
Reggae or Not, Amiri Baraka
Se Frantz Fanon pode ser entendido como oximoro radical, eu diria que Amiri Baraka (Nova Jersey, 1934-2014) foi um metamorfo radical. Bastante simbólicas em sua trajetória, as sucessivas mudanças de seu nome21 evidenciam essas transformações: nasceu Everett Leroy Jones, mas adotou depois as alcunhas de LeRoi Jones22, Amear Baraka e, por fim, Imamu Amiri Baraka. A variedade de campos em que trabalhou também reforça seu caráter multifacetado, pois foi poeta, dramaturgo, ficcionista, ensaísta, crítico musical, compositor e professor – atividades que concatenou com o seu ativismo.
Embora o nome de Leroy Jones tenha aportado no Brasil por volta dos anos de 1960, ou seja, na mesma época de Frantz Fanon, a produção acadêmica nacional sobre ele ainda é incipiente23. Devido a isso, penso que, nesse primeiro momento, é importante oferecer algumas notas biográficas sobre o autor. Após, discutirei mais atentamente o lugar do jazz em seu pensamento e, paralelamente, com qual ou quais concepções de negritude Baraka lidou para forjar esses raciocínios.
Semelhante a Fanon, Leroy Jones era oriundo de uma classe média negra. Seu pai, Coyt Leverette Jones, foi Supervisor Postal, e sua mãe, Anna Lois Jones, Assistente Social. Nos tempos escolares, Jones foi aluno da Barringer High School (atualmente, Barringer Academy of the Arts & Humanities), escola pública localizada no Condado de Essex, Nova Jérsei. No início dos anos de 1950, uma vez terminados os seus estudos na Barringer, conseguiu uma bolsa para estudar na Rutgers University, onde permaneceu por dois anos. Transferiu-se em seguida para a Howard University24, onde obteve seu bacharelado em Letras (Arts in English), em 1954. Cursou ainda a New School for Social Research e a Columbia University, onde, embora não tenha se graduado, trabalharia mais tarde como professor25.
Nesse período universitário, diria que Sterling A. Brown – folclorista, crítico literário e poeta – esteve para LeRoi26 Jones tal como Aimé Césaire esteve para Frantz Fanon. Isso porque, na condição de professor titular da Howard University, Brown (que tinha interesse particular no jazz, no blues e em seus primórdios: spirituals e work songs) montou um grupo de estudos do jazz, por meio do qual transmitiu aos alunos sua visão sobre a história dessas musicalidades, tendo especial interesse pelo quesito literário. Ou seja, as aulas destacavam a questão racial, o cotidiano dos negros (pré e pós-Abolição), mas também o uso “moderno” de valores do folclore afro-americano na escrita contemporânea (CAMELO, 2010, p. 17).
Após se formar na Howard, LeRoi Jones resolveu se alistar no exército, mas, diferentemente de Fanon, que teve uma exitosa (embora conflitante) carreira militar, lutando ao lado da Résistance francesa contra os nazistas, Jones foi expulso da Força Aérea em 1957, acusado de externar “atitudes comunistas”. A tirar pelo que relata em sua autobiografia (BARAKA, 1997 [1984], p. 141-173), o fator racial pode ter contribuído para sua insubordinação e expulsão, o que o aproxima, de certa forma, de Fanon, no sentido de que foi justamente lutando ao lado dos franceses que este percebeu a grande diferença de tratamento entre brancos e nègres.
Nesse espelho biográfico entre os dois autores, tal como o psiquiatra martinicano, Baraka articulou em suas encruzas biográficas as atividades acadêmicas/intelectuais com a militância em favor dos condenados na terra do Tio Sam: fundou, em 1965, o Black Arts Repertory Theater/School (BARTS), considerado o ponto inicial do Black Arts Movement (BAM). Foi uma figura ativa no Movimento pelos Direitos Civis dos Negros (1954-1968) e personagem central na chamada Black Revolt, ocorrida entre os anos de 1960 e 1970, estando à frente do Modern Black Convention Movement (MBCM), por meio do qual fundiu dois outros movimentos nos quais teve papel fundamental: o já citado Movimento de Artes Negras (BAM) e o Movimento Black Power (BPM) (WOODARD, 1999, p. 1). Por essa época, precisamente em 1967, participou da Newark Rebellion: sangrento conflito armado motivado pelas tensões raciais que fervilhavam nos quatro cantos do país. Em 1968, sob inspiração da ideologia do movimento Black Power, fundou o Committee for a Unified Newark (CFUN); e nos anos de 1970, organizou e presidiu o Congress of Afrikan People (CAP): importante centro de formação política para o Movimento de Libertação Negra dos EUA (SIMANGA, 2015), onde Baraka contribuiu com debates sobre negritude e questão nacional. O CAP, mais tarde, foi rebatizado de Revolutionary Communist League (RCL) cujo perfil ideológico era Marxista-Leninista-Mao Tsé-Tung. Nos anos 1980, a RCL se mesclou à League of Revolutionary Struggle (LRS), movimento marxista-leninista fundado em 1978.
De volta às comparações, lembremos que Frantz Fanon, a partir de sua vivência da realidade racial do Caribe francófono, vislumbrou no teatro uma forma de iniciar suas primeiras elaborações intelectuais, sendo estas, a priori, calcadas em dilemas humanistas não racialistas. Já Amiri Baraka, não obstante também tenha se interessado pela escrita dramática, compôs peças que comentavam sobre a segregação racial e sobre os conflitos identitários de parte da população afro-americana, trazendo elementos também de suas questões pessoais, na condição de intelectual/artista negro de vanguarda em face do racismo estadunidense27.
Interessante salientar que, se Fanon é tido como um “filósofo do jazz”, Baraka foi rotulado como “poeta do jazz” e, curiosamente, como “Frantz Fanon da literatura” (Harris, 2015, s/p). Tal aproximação, no entanto, está relacionada não apenas à fase radical de Baraka, na qual o apelo à “violência revolucionária” surge ora diluída ora escancarada em seus escritos, mas também considerando a maneira como Fanon atentou – a partir de sua construção enquanto militante, de seu trabalho de observação do processo revolucionário na Argélia – para essa transformação política, subjetiva e ontológica do intelectual oprimido.
Nesse sentido, ao analisar as produções de Amiri Baraka, Milosavljević (2015, s/p) entende que sua trajetória “coincide quase que estranhamente com as três fases do ‘escritor colonial’ que Fanon propõe em Os Condenados da Terra”. Assim, mesmo que estivesse escrevendo no interior do Império, “os temas, a estética e a sensibilidade da obra de Baraka, à medida que passamos de sua fase Beat para a Transicional, Nacionalista Negra e, finalmente, Marxista, seguem de perto o caminho do desenvolvimento de um autor colonial”. Por isso mesmo, analiso que, numa espécie de relação antifônica28, os caminhos de Fanon e Baraka novamente parecem se cruzar, mesmo que em seus contextos específicos de sociabilização, construção intelectual e formação política, isto é, em seus processos particulares de constituição das identidades culturais e, portanto, de seus entendimentos da negritude.
Seguindo o raciocínio de Milosavljević (2015), a primeira fase barakiana se iniciou logo após sua expulsão da Força Aérea, em 1957, quando foi seduzido a recobrir seu rosto com a máscara da intelectualidade branca dos círculos de Greenwich Village, ponto de encontro do Movimento Beat e núcleo criador do que viria a ser a “contracultura”, nos anos de ١٩٦0. O hedonismo, a boemia, o jazz moderno e a arte surrealista amalgamados aos anseios de esquerda (não obstante pequeno-burgueses) dos frequentadores: eis alguns dos elementos de Greenwich Village que conquistaram um jovem Baraka deslocado e outsider. Uma vez inserido no meio beat, o escritor se aproximou de figuras como Frank O’Hara, Charles Olson, Gilbert Sorrentino, Allen Ginsberg, William Burroughs, Jack Kerouac e Diane di Prima (com quem teria um caso). Por volta de 1958, já morando em East Village, Nova Iorque, conheceu a judia Hettie Cohen, editora da revista The Record Changer29, com quem mais tarde se casaria. Nesse interim, fundou e trabalhou nos periódicos Yugen, Totem Press e The Floating Bear que o catapultaram no campo intelectual da vanguarda branca e o tornaram um dos mais influentes editores dos escritores beats (WOODARD, 1999, p. 52).
O primeiro divisor de águas na trajetória política-intelectual de Jones aconteceu entre 1959/1960, quando viajou para Cuba como membro do grupo ativista Fair Play for Cuba Committee (FPCC) e conheceu Fidel Castro. Pouco antes, o poeta já demonstrava sinais de ter sido afetado pela Revolução Cubana, pois editou, em homenagem à vitória do movimento que depôs o ditador Fulgêncio Batista, o pequeno panfleto Fidel Castro, January, 1, 1959, que continha poemas seus e de outros beats (WATTS, 2001, p. 51-52). Ao relembrar como a viagem a Cuba definitivamente mudou sua vida, Baraka (1997 [1984], p. 243) relata em sua autobiografia o encontro que teve com artistas e intelectuais latino-americanos, como o escritor cubano Pablo Armando Fernández, a intelectual mexicana Rubi Betancourt, o revolucionário cubano Antonio Núñez Jiménez, e os poetas Jaime Shelly (mexicano) e Nicolás Guillén (afro-cubano), que o confrontaram acerca de sua reticente posição política (ainda restrita ao campo estético) no plano cotidiano30.
Nessa primeira fase, Baraka publica Preface to a Twenty Volume Suicide Note (1961), conjunto de textos em que, se valendo da linguagem experimental com toques e retoques surrealistas, apresenta conflitos subjetivos sob olhar niilista e ainda pretensamente apolítico.
Milosavljević (2015) entende que, nesse trabalho, Baraka trilha por uma complicada fuga da realidade, não comentando diretamente sobre a questão racial, que parece se situar nas entrelinhas dos versos. A mesma autora elabora uma boa síntese das duas primeiras fases barakianas, relacionando a complexa formação identitária do escritor, sua associação com os diagnósticos fanonianos presentes em Os condenados da terra e o lugar da música negra nessas suas experimentações estéticas, dando pistas da intersecção entre jazz, raça e nação na escrita do poeta:
(...) a fase Beat de Baraka corresponde aos pressupostos de Fanon sobre a assimilação de modelos ocidentais que são típicos dos primeiros trabalhos do escritor colonizado. Fanon elabora como essa fase imitativa, atormentada por imagens importadas e dicção artificial, dá lugar a uma crescente consciência nacional no escritor apanhado nas chamas da luta de libertação. Segundo Fanon, na segunda etapa, os ideais do escritor são abalados no fervor da guerra de descolonização, que desperta nele o desejo de mergulhar nos mitos primordiais e no folclore de seu povo. Nesta fase, o escritor tenta conjurar no presente um passado irrecuperável, idealizado, mas fica apenas com um traço derridiano. A cultura ancestral imaginada com a qual o escritor de repente se desespera para se reconectar torna sua arte “imersa em humor e alegoria, outras vezes angústia, mal-estar, morte e até náusea”, o que é aplicável ao estilo de Baraka durante sua fase de transição (1963-1965). Os poemas do segundo volume de Baraka, The Dead Lecturer, foram escritos no estado de uma subjetividade polarizada em uma época em que Baraka não mais se identificava com a cena de Greenwich Village (a fase de sua carreira que viria a lamentar e denunciar como brancura esotérica), mas ainda estava para forjar sua voz negra singular. A coleção usa a improvisação inerente ao jazz para retratar os paradoxos e complexidades insolúveis da vida de um artista negro
(MILOSAVLJEVIĆ, 2015, s/p, tradução minha).Tal transição é perceptível nas suas primeiras peças com temas raciais (Dutchman e The Slave), mencionadas anteriormente, mas também nos seus poemas (An Agony. As now, Rhythm & Blues, Black Dada Nihilismus [contidos na coletânea The Dead Lecturer]; SOS, Black Art, The Racist [inseridos na antologia Black Magic: 1961-1967]), e em seus trabalhos de ficção, sobretudo contos e no romance The System of Dante’s Hell31, por exemplo.
O assassinato de Malcolm X, em 1965, foi o segundo e mais violento divisor de águas na trajetória de LeRoi Jones. Se, antes dessa tragédia, as noções de autodeterminação, orgulho, consciência e nacionalismo negros pregadas por Malcolm já afetavam um Jones cada vez mais politizado, depois dessa fatalidade, ele tomaria rumos mais radicais. Em busca da revolução negra, LeRoi decidiu, então, romper seu casamento com Hettie Cohen, sair de Greenwich Village, se mudar para o Harlem e depois retornar à Newark, onde se casou com a dançarina e atriz afro-americana Sylvia Robinson32. Nesse momento, foi rebatizado como LeRoi Jones Ameer Barakat (“Príncipe Abençoado”, em árabe) por Hajj Heesham Jaaber, padre islâmico encarregado do enterro de Malcolm X. Sua esposa, Sylvia, se tornou Amina. Pouco depois, por influência do líder nacionalista cultural Maulana Karenga, o nome do poeta foi novamente mudado, assumindo uma forma africanizada (suaíli), contando ainda com um título distintivo (Imamu) que significava “líder espiritual”. Assim nasceu Imamu Amiri Baraka (BARAKA, 1997 [1984], p. 376).
Nessa fase, que duraria até mais ou menos 1974, Baraka fundou a organização Spirit House (onde começaram as atividades do movimento Spirit House Movers & Players) e passou a se envolver fortemente com as doutrinas da Nação do Islã33 e de Karenga, participando de grupos afrocêntricos/panafricanistas como a Kawaida – um prolongamento da US Organization, que foi cofundada por Karenga e era adversária dos Panteras Negras. Nesse interim, Baraka se tornou coeditor da antologia Black Fire (1968), que reuniu autores cujos textos possuíam uma estética mais marcadamente ligada ao movimento Black Power. Publicou ainda o livro It’s nation time (1970), coletânea com poemas fortemente nacionalistas. Milosavljević (2015, s/p) compreende esse momento na obra barakiana como um “estágio de combate”, sobre o qual Frantz Fanon dissertou em Os condenados da terra.
Mais adiante, analisando o momento em que Baraka se aproximou do marxismo, Milosavljević (2015, s/p, tradução minha) sugere:
A nova mudança ideológica de Baraka em direção ao marxismo fanonista é novamente profetizada em The Wretched of the Earth, em que Fanon observa: “O intelectual colonizado, mergulhado na cultura ocidental e determinado a provar a existência de sua própria cultura, nunca o faz em nome de Angola ou do Daomé. A cultura proclamada é a cultura africana”. A declaração reflete o conceito de Pan-africanismo, ou seja, a ideia de que todos os afrodescendentes constituem uma única nação com base na cultura compartilhada. Este é o tropo central do poema de Baraka “Afrikan Revolution”, escrito em 1973, no qual Baraka se dirige a “Anywhere Afrikans” para se unir na derrubada das forças opressoras brancas e capitalistas.
Dessa forma, nesse breve balanço biográfico, é importante ter em conta que, embora Baraka tenha aderido ao marxismo-leninismo, sua formação política foi bem diversificada, incluindo a forte influência das ideias socialistas de Dubois, o nacionalismo negro radical pregado por Malcolm X, o nacionalismo mais culturalista de Ron Karenga, o maoísmo, o castrismo, afora a influência de personagens africanos que se envolveram nas lutas de libertação naquele continente e que desenvolveram diagnósticos distintos (por vezes divergentes) em termos de agenda política e escopo ideológico. Nesse rol, estão Julius Nyerere, Kwame Nkrumah, Patrice Lumumba, Sekou Touré, Aimé Césaire, Amílcar Cabral, e o próprio Frantz Fanon34. Nessa lista de influências, cabem ainda alguns escritores afro-americanos engajados, como a poetisa Jayne Cortez e o poeta militante Askia Muhammad Touré, aliado do Revolutionary Action Movement (RAM), atuante nos anos 1960 (WOODARD, 1999, p. 12; BARAKA, 1997 [1984]).
Como tentarei demonstrar no próximo tópico, essa colcha de retalhos ideológica, responsável por confeccionar a concepção mutante de Amiri Baraka acerca da negritude, atravessou os seus raciocínios críticos e sociológicos sobre a Black Music.
Toques negros, escrita branca: Amiri Baraka, free jazz e nacionalismo negro
Concordo com Ribeiro Júnior (2020) sobre a urgência de entender o trabalho de LeRoi Jones/Amiri Baraka no campo da crítica musical (e no campo da teoria crítica) como fundamental para a historiografia da Black Music. Não que inexistissem críticos negros escrevendo sobre jazz à época, mas, segundo o próprio Baraka (1997 [1984], p. 206), eram poucos, o que repercutia na bibliografia sobre o tema, que, desde pelo menos o final do século XIX, ainda contava em grande parte com a visão dos escritores brancos35. O autor denunciou esse estado de coisas em um texto intitulado “Jazz and the white critics”, publicado na Metronome em 1963. Nele, LeRoi Jones alertava: “a maioria dos críticos de jazz tem sido americanos brancos, enquanto os músicos mais importantes, não” (JONES, 2016 [1968], p. 14). Segundo Jones, devido a isso, eram propagadas opiniões que desconsideravam a formação sociocultural da comunidade negra à qual os músicos pertenciam, resultando em leituras sobre o jazz imbuídas, muitas vezes, de concepções racistas, condescendentes e equivocadas36.
A propósito, foi justamente em 1963 que LeRoi Jones publicou Blues people: Negro37music in white America, livro fundamental na historiografia do jazz, tendo sido talvez o primeiro livro sobre o jazz de cunho sociológico escrito por um afro-americano. Isso porque, nessa obra, o autor trabalha fundamentalmente com a proposta de compreender a relação dialética entre o desenvolvimento da música negra e a formação da cultura norte-americana. Ou, em outras palavras, a história dos afro-americanos e de seu lugar na composição nacional através da evolução de suas invenções musicais. Enquanto Fanon vislumbrou algo negativo no blues por conta da apropriação da burguesia branca, nesse livro (curiosamente traduzido para o português como O jazz e sua influência na cultura americana38), Jones entende que “o blues teve, e tem ainda, um certo peso nas almas de seus inventores”, pois essa forma musical, em sua visão, seria uma representação privilegiada de como se deu o “começo dos negros americanos (JONES, 1967 [1963], p. 8 e 10). O blues não seria algo para se ter vergonha – sentimento que, segundo o autor, era mais comumente expressado por alguns negros da classe média desejosos pela aceitação branca (1967 [1963], p. 181). Nessa perspectiva, o jazz, especialmente em seus primórdios, é entendido como símbolo de uma fase de “alargamento da cultura afro-americana”, como expressão de um “terreno [sociocultural] intermediário”, símbolo de uma possível resolução do “conflito liberto-cidadão” (1967 [1963], p. 147), posto que sua criação se deu justamente pela aproximação – motivada, aliás, pela fronteira racial imposta pelos brancos – dos músicos creoles (fração assimilada, versada na tradição musical europeia) com os músicos negros; estes, por sua vez, habituados a diluir os dados europeus a partir da tradição musical africana. No princípio, o jazz seria, portanto, produto da tensa relação entre a(s) pele(s) negra(s) e as máscaras brancas no sul dos EUA.
Nessa lógica, situando as canções dos negros como produto de uma experiência social específica, que diz respeito ao processo de formação da identidade afro-americana – sobretudo a partir da Emancipação39, seguida da Reconstrução do país (1865-1877) –, Jones se fundamenta principalmente no pensamento do antropólogo Melville Herskovits, estudioso da diáspora africana na América do Norte, para argumentar que a própria construção das bases culturais americanas foi devedora, em grande medida, dos agenciamentos dos escravizados e de seus descendentes, mas, sobretudo, de um longo (e tenso) movimento de deglutição, adaptação e reinterpretação de sua cultura dentro do mainstream cultural euro-americano40. Para tanto, LeRoi se vale de vários flagrantes na história dos primórdios da Black Music – em termos de linguagem poética e musical41, mas, sobretudo, no que chama de “atitude”, “postura” por parte desses sujeitos –, a fim de distinguir a experiência das gerações dos negros na América. Contudo, ressoando a influência do pensamento de W. E. B. Du Bois (MONSON, 2004), localizável, principalmente, em As almas do povo negro (2021 [1903]), Jones não descarta o contributo da cultura africana para a construção das bases dessa cultura afro-americana.
Apesar da tentativa de desmistificar o “primitivismo” desse legado africano, Jones (1967 [1963]) não fala de uma negritude essencializada, nos termos de uma racialidade metafísica. Em vez disso, discorre sobre uma Weltanschauung sociocultural ou sócio-histórica circunscrita à comunidade negra enquanto grupo étnico, sem deixar de sublinhar no texto os interesses por vezes divergentes de uma classe negra pobre em relação a uma classe média negra – esta última, aliás, sutilmente criticada por seus objetivos de integração social pela via da assimilação dos padrões culturais brancos. Neste ponto, observo os ecos políticos do Movimento dos Direitos Civis e do pensamento de Malcolm X, mas também a própria experiência conflitante de LeRoi Jones no seio das instituições da classe média negra42.
Ainda em relação à influência de Malcolm X no texto, a citação à Guerra da Coreia (1950-1953) como divisor de águas nas tensões raciais nos EUA (JONES, 1967 [1963], p. 217) aponta para novas aproximações com a trajetória de Fanon: primeiro, pelo fato de o pensador martinicano também demarcar o início de um conflito bélico (a Segunda Guerra, em 1939) como ponto de mudança nas relações raciais nas Antilhas, fenômeno que desempenhou papel central em sua reinterpretação da négritude e do jazz, visto como um dos símbolos dessa identidade. Segundo, porque, como se atestaria, mais tarde, à medida que Baraka se aproximou do nacionalismo negro e do marxismo-leninismo, tanto mais ele se mostrou alinhado às propostas revolucionárias da Conferência de Bandung43 – bastante citada por Malcolm X como exemplo de solidariedade entre africanos e asiáticos contra o imperialismo ocidental (WOODARD, 1999, p. 60), reconhecidamente influente no pensamento de Frantz Fanon.
Esse ponto da fase radical de Baraka, em que as referências às revoluções socialistas e as lutas de libertação em África/Ásia surgem com mais frequência em seus escritos, coincide com o período de radicalização de vários músicos de jazz, que, entre os anos de 1960 e 1970, vislumbraram na improvisação livre do free jazz uma maneira de se rebelar de maneira ainda mais extrema (se comparado às escolas jazzísticas antecedentes) contra os sistemas musicais ocidentais, almejando experimentar padrões rítmicos, melódicos e harmônicos insubmissos às estruturas formais convencionais44, continuando, assim, em plena consonância com o refrão político dos gritos de liberdade do Movimento dos Direitos Civis (MONSON, 2007; PINHEIRO, 2015). Alguns músicos representativos foram Cecil Taylor, Archie Shepp, Sunny Murray, Alice Coltrane, Barbara Donald, Albert Ayler, Milford Graves, Roswell Rudd, John Tchicai e o próprio Ornette Coleman.
Esse é o tema de Black Music (2016 [1968]), conjunto de ensaios escrito entre 1959 e 1967 no qual Baraka enfoca no fenômeno do jazz moderno, mais enfaticamente no que chama de “New Thing”, “New Black Music”, “jazz avant garde” (jazz de vanguarda) ou “free jazz”45. Nesses textos (muitos deles escritos a partir da observação in loco das apresentações musicais em clubes como o Five Spot, em Nova Iorque46), Jones/Baraka (2016 [1968], p. 19-21) sustenta a mesma premissa da “atitude” nas performances dos instrumentistas, nas quais enxerga uma filosofia social: um conteúdo correspondente à experiência coletiva e ao universo subjetivo dos músicos – aspectos que, segundo ele, eram negligenciados tanto pela crítica musicológica quanto pelas análises excessivamente sociológicas. Insuficiência, ainda segundo o autor, reprodutora de uma visão muitas vezes branqueada dessas práticas musicais. “Branqueadas” não por serem escritas por pessoas brancas, mas por serem brancos despreocupados com o valor e o conteúdo intrínsecos em cada performance47. Com exceção daquelas feitas por alguns historiadores (JONES, 2023 [1968], p. 36), essas críticas seriam reducionistas, desrespeitosas e, claro, ideologicamente orientadas. Tanto que nesse contexto de radicalização do jazz, houve, por um lado, ataques violentos por parte da crítica tradicionalista, que rotulava essas novas produções de “anti-jazz”, “música sem sentido”; e por outro, não menos reacionária, uma fração desses analistas que tentava desqualificar o conteúdo político das performances e composições, julgando-as sob o critério de um idealismo abstrato burguês (CARLES; COMOLLI, 2016 [1971]). Em resposta a essa crítica, Jones/Baraka enfatizava tanto as qualidades emocionais quanto a consciência social e racial nas atitudes desses músicos:
(...) em relação à sua postura social, a música é finalmente a manifestação mais forte dos músicos. E a New Black Music, como diziam antes ao falar da música negra, é ‘radical’ (...). Posto que a nova música começa por ser livre. Livre da canção popular. Livre do coquetel americano branco. Quer se libertar da camisa de força da expressão americana sem negritude, quer se libertar de seu temperamento e de suas escalas
(JONES, 2016 [1968], p. 203, tradução minha)48.Já na fase marxista, ao comentar sobre “a música mais intelectualmente pretensiosa do período”, citando nomes como Sun Ra, Eric Dolphy e Pharoah Sanders, Baraka adicionou o fator luta de classes em sua apreciação, sustentando que o clamor/protesto desses músicos
era reiteradamente, em diferentes graus, sobre Liberdade. Música Livre (exemplo: Freedom Now, Freedom Suite, Free Jazz etc., ou que tal Let Freedom Swing?)! Destruam a prisão da forma comercial da música, afastem-se dos intermináveis acordes mortais. Os gritos, as lamentações – os sérios confrontos sobre contratos, cartões de cabaré, controle artístico, economia, produção, a política da música49 – foram reflexos do período e finalmente reflexo do povo que a música expressava (como um núcleo, bem como parte de uma América maior... por exemplo, o Movimento de Libertação Negra, as rebeliões). A luta negra move a sociedade dos EUA como um todo e a reflete. Além de ser a expressão específica do negro, é também uma expressão de classe, pois a maior parte dos negros é trabalhadora e a sua música expressava essa consciência de classe
(1987, p. 283, tradução minha).Importante frisar que os escritos musicais de Baraka não se limitaram ao território estadunidense, chegando a aportar em terras argelinas através da revista Révolution Africaine, entre fins de 1950 e início de 1960 (BARAKA, 1997 [1984], p. 270). O periódico foi patrocinado por Ben Bella, fundador da FLN (Frente de Libertação Nacional) e chefe do ELN (Exército de Libertação Nacional), e foi dirigido por Mohammed Harbi, membro da FLN, colega de trabalho e de militância de Fanon no jornal El Moudjahid.
Tentador imaginar que, pela circulação da revista e pela proximidade de Frantz Fanon com Ben Bella e Harbi, o psiquiatra revolucionário possa ter tido, em algum momento, contato com esse periódico e, por consequência, com os textos de Baraka. O que, afinal, teria pensado Fanon ao se deparar com a mistura de marxismo-fanonista e nacionalismo cultural nos textos sobre jazz de um escritor afro-americano que também confrontava os estereótipos racistas, os purismos e reacionarismos de certa crítica, sem, no entanto, deixar de enfatizar o caráter étnico enquanto símbolo de um lugar social e condição cultural específicos?
Ainda que não haja indícios concretos de que Fanon tenha tido contato com os textos de Baraka, considerando que o filósofo deixou pistas de que acompanhava a produção crítica sobre o jazz, é possível supor que, em contraposição aos “especialistas brancos” que criticou em Os condenados da terra, soubesse também de vozes dissonantes nessa arena de batalha, entre as quais estava Jones/Baraka. Desse modo, arrisco sustentar que nesse “encontro ideológico” (MILOSAVLJEVIĆ, 2015), Fanon e Baraka estabeleceram um diálogo transatlântico cujo efeito destoante (possível graças à tensão entre suas ideias) apenas confirma o diagnóstico revolucionário fanoniano que, por um lado, buscava reconquistar a humanidade pelo confronto; e, por outro, estimulava o movimento para dentro e para fora da modernidade; para dentro e para fora das fronteiras identitárias: rumo à desestabilização contracultural e à solidariedade das lutas anticoloniais que constituíram (e constituem) o chamado Atlântico Negro. Algo que o próprio Frantz Fanon notou na ação dos músicos africanos e da diáspora:
Os cantores da negritude não hesitariam em transcender os limites do continente. Da América, vozes negras retomarão esse hino com uma amplitude aumentada. O “mundo negro” nascerá e Busia de Gana, Birago Diop de Senegal, Hampaté Ba do Sudão, Saint-Clair Drake de Chicago não hesitarão em afirmar a existência de laços comuns, de linhas de força idênticas
(FANON, 1961, p. 221).Desse modo, como jazzistas dotados de gramáticas improvisacionais próprias, Amiri Baraka e Frantz Fanon “jammificam” (jamming) sobre as determinações e indeterminações da negritude: suas interrupções, possibilidades e, sobretudo, disrupções. E assim, do balançante desafio-diálogo travado, ao mesmo tempo, entre eles e outros condenados de terras alhures, gera-se o drible, o revide, a trama que finalmente implodirá a ordem branca do mundo.
Colisões finais: divergências e convergências entre Frantz Fanon e Amiri Baraka
Para Koselleck (1992, p. 137), “todo conceito está imbricado em um emaranhado de perguntas e respostas, textos/contextos”. Tal ocorre em torno da trajetória conceitual de “negritude”. Suas variações, sempre interessadas, podem ser exemplificadas, como procurei demonstrar, a partir do cruzamento das exposições de Fanon e Baraka sobre a música afro-americana.
Ora, enquanto Frantz Fanon avistou nas bases estéticas do jazz moderno uma via de escape da visão essencializada de negritude (sem negar a importância da identidade étnica, vale dizer), significando, para ele, uma referência cultural potente no processo de descolonização da África e, sobretudo, para os dias correntes de uma Argélia revolucionária (LANE, 2012), Amiri Baraka, principalmente em suas fases radicais (nacionalista e marxista), confrontou as interpretações racistas e reacionárias sobre a produção musical afro-americana, chamando atenção para a especificidade da experiência social negra expressa na música, bem como o teor revolucionário das escolas modernas de jazz (RIBEIRO JÚNIOR, 2020). Assim aproximados, é possível contemplar, através dos sentidos e significados que ambos atribuíram ao jazz (isto é, o conteúdo político-ideológico de suas considerações estético-musicais), as tensões comunicantes entre o Movimento da Négritude e o Movimento Black Power.
Enfim, frente a frente na encruzilhada, observo as continuidades e descontinuidades, aproximações e divergências entre Fanon e Baraka, cujas opiniões apontam para os processos distintos de construção e instrumentalização política da identidade negra no Atlântico. Ao divergirem quanto ao significado de “raça” e “nação”, ambos contribuíram para a formação de uma crítica estética anticolonial.
Os resultados dessa confluência simbólica inspiraram estudiosos marxistas interessados na Black Music (nos Estados Unidos, o historiador Frank Kofsky e a filósofa Angela Davis; na França, os críticos musicais Phillipe Carles e Jean-Louis Comolli50), que subscreveram o potencial político do jazz, destacando a consciência social e racial de seus praticantes. Cada um desses empreendimentos merece um estudo aprofundado. Por exceder os limites deste trabalho, essa tarefa ficará para as próximas investidas.
Referências bibliográficas
BARAKA, Amiri; BARAKA, Amina. The music: reflections on jazz and blues. New York: William Morrow & Co., 1987.
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Trad. Serafim Ferreira. Lisboa: Editora Ulisseia, 1961.
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