Artigo
Entre o “subimperialismo” e a “amizade”: a cultura na historiografia das relações Brasil-Paraguai1
Between “sub-imperialism” and “friendship”: culture in the historiography of Brazil-Paraguay relations
Entre o “subimperialismo” e a “amizade”: a cultura na historiografia das relações Brasil-Paraguai1
Revista de História (São Paulo), no. 183, a12023, 2024
Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Departamento de História
Received: 24 October 2023
Accepted: 19 February 2024
Resumo: O objetivo do artigo é analisar a historiografia sobre as relações Brasil-Paraguai, especialmente na esfera cultural, indicando permanências e rupturas em torno do tema. Apesar de existir um primado do político e econômico, pautado pelas disparidades entre os dois países, há mudanças importantes em curso. A busca por outros atores além dos Estados nacionais - como artistas e migrantes - demonstra que as relações Brasil-Paraguai são mais complexas e heterogêneas do que sugere o primado político e econômico. Além disso, variações nos recortes espacial e temporal - contemplando regiões de fronteira e o período anterior ao aprofundamento das relações entre os dois países nos anos 1950 - indicam que existem processos que não podem ser reduzidos aos interesses brasileiros no Paraguai. Com base em autores como José D’Assunção Barros e Michel de Certeau, analisamos a historiografia como fonte e objeto históricos, pois traz informações diversas, representações de si e de outros atores e acompanha a historicidade das relações Brasil-Paraguai.
Palavras-chave: Brasil, Paraguai, Cultura, Historiografia, Subimperialismo.
Abstract: The aim of the article is to analyse the historiography on Brazil-Paraguay relations, especially in the cultural sphere, indicating permanences and ruptures around the subject. Although there is a primacy of the political and economic, guided by the disparities between the two countries, there are important changes underway. The search for actors other than national states - such as artists and migrants - shows that Brazil-Paraguay relations are more complex and heterogeneous than the political and economic primacy suggests. Furthermore, variations in the spatial and temporal contexts - including border regions and the period before relations between the two countries deepened in the 1950s - indicate that there are processes that cannot be reduced to Brazilian interests in Paraguay. Based on authors such as José D’Assunção Barros and Michel de Certeau, we analysed historiography as a historical source and object, as it provides diverse information, representations of itself and other actors and accompanies the historicity of Brazil-Paraguay relations.
Keywords: Brazil, Paraguay, Culture, Historiography, Subimperialism.
Introdução
Em 2023, o Tratado de Itaipu entre Brasil e Paraguai completa 50 anos e é revisto. Devido às acentuadas assimetrias econômicas e políticas entre os dois países, no Paraguai o tema da revisão é envolvido por um forte discurso nacionalista contra o “(sub)imperialismo” brasileiro, a exemplo do que marcou a assinatura do Tratado em 1973.4 A renegociação do Tratado motiva a publicação de obras e reedição de textos sobre Itaipu. Um exemplo é a “Colección Libro Blanco de la Ciudadanía”, uma parceria entre a editora El Lector e o jornal ABC Color. A apresentação da coleção pelo jornal dá o tom dos debates que marcam o tema no país:
(…) el Paraguay solo ha recogido las migajas que ha dejado caer el socio más poderoso, Brasil, que se ha quedado “con la parte del león”, postergando el legítimo derecho de nuestro país a un mayor desarrollo [grifo nosso] (ABC COLOR, 10 ago. 2021, s./p.).
No Brasil o tema não passa despercebido. Em 27 de janeiro de 2023, Alexa Salomão publica na Folha de São Paulo a matéria Paraguai usa energia paga por brasileiros e já deve R$ 9 bi. Itaipu passou a gerar mais energia do que o previsto. Essa energia extra era mais barata, pois não era contabilizada para o pagamento da dívida contraída para a construção da usina ; a qual foi quitada em fevereiro de 2023, mês seguinte à publicação da matéria. O problema relatado na Folha se refere ao uso da energia ; mais cara ; prevista no Tratado original. Nos anos anteriores o Paraguai teria propositalmente requisitado menos dessa energia do que precisava, vendendo assim ao Brasil mais do que deveria. Posteriormente, para evitar desabastecimento, usava a energia extra, mais barata, razão pela qual os paraguaios pagariam menos do que os brasileiros pela energia consumida.5
Observa-se, de um lado, a denúncia das “migalhas” jogadas pelo Brasil ao Paraguai; de outro, a denúncia de favorecimento do Paraguai com Itaipu. Outras posições intermediárias destacam a “amizade” e a “cooperação” entre ambos. O discurso oficial dos Estados nacionais, o de suas diplomacias e o da própria Itaipu tendem a caminhar nessa direção.
A importância econômica de Itaipu para os dois países6 e sua relevância geopolítica, especialmente no Cone Sul7, predominam sobre outros temas das relações entre Brasil e Paraguai nos debates políticos e na historiografia. O tema das relações culturais é um deles. No entanto, dentro da diplomacia cultural oficial brasileira, o caso paraguaio é um dos mais contínuos e um dos mais antigos da sua história.
Não se trata de desvincular o cultural do econômico e do político. Michel de Certeau destaca o imperialismo no âmbito da cultura como uma das marcas do século XX. Entretanto, o autor considera que “(...) a cultura é o flexível. A análise desliza em toda parte sobre a incerteza que prolifera nos interstícios do cálculo, visto que ela não está ligada à enganosa estatística dos sinais objetivos (...)” (CERTEAU, 2003 [1974], p. 233).
O objetivo do artigo é sistematizar a produção sobre as relações Brasil-Paraguai, especialmente na esfera cultural, indicando permanências e rupturas em torno do tema. Apesar de o político e o econômico permanecerem centrais na historiografia, existem mudanças importantes em curso e - parafraseando Certeau - pesquisadores têm enfrentado o “mal estar constante” diante da flexibilidade da cultura. Quanto ao recorte temporal, priorizamos trabalhos publicados a partir de 1954, quando o ditador Alfredo Stroessner assumiu a presidência do Paraguai e aprofundou as relações com o Brasil entre 1954 e 1989.
Para traçar esse panorama tomamos a historiografia como fonte e objeto. A historiografia é fonte de exemplos que permitem conhecer melhor a história das relações culturais. A historiografia, ao se referir a acordos, visitas presidenciais e de outras autoridades e à promoção de atividades e eventos culturais, dentre outros elementos, possibilita (re)construir essa história ou aspectos da mesma em meio a esquecimentos e diferentes usos da memória. As relações Brasil-Paraguai não são permeadas exclusivamente pela “amizade” e tampouco pelo “(sub)imperialismo”. É preciso evitar uma leitura teleológica, como se houvesse de antemão interesses que se consolidaram apenas posteriormente, como os que envolvem Itaipu.
Importante e necessário é tomar a historiografia também como objeto. “Os (...) historiadores, ao invés de estudar a história propriamente dita, (...) podem estudar a historiografia (...) como história (como acontecimento)” (BARROS, 2022, p. 30). Ou seja, a historiografia é fruto das relações entre Brasil-Paraguai e faz parte delas. Carrega expectativas e frustrações, busca o equilíbrio entre esses opostos e traz representações de si e do outro.
A pesquisa sobre o tema nos dois lados da fronteira tem uma história e condições díspares. Considerar essas assimetrias implica a adoção de uma perspectiva ampliada de historiografia ; o que é defendido por José D’Assunção Barros independentemente do tema: “(...) acredito que não devamos excluir do universo mais amplo da Historiografia o que é produzido fora do circuito acadêmico ou o que não se fecha no interior do círculo da historiografia profissional” (BARROS, 2022, p. 18). O Paraguai carece, por exemplo, de pesquisadores formados na área de História nas universidades do país. (TELESCA, 2008). Além disso, as relações entre países é um tema por excelência interdisciplinar e envolve áreas como Relações Internacionais, Ciência Política e Direito, dentre outras.
Segundo Barros, é necessário “(...) entender que cada gênero e tipo de texto pode ter em vista suas próprias finalidades e leitores em potencial” (BARROS, 2022, p. 18). Por isso, neste artigo, distinguimos alguns textos como “ensaios políticos”, escritos por paraguaios durante a ditadura Stroessner. Esses escritos tinham o objetivo de defender ou criticar a ditadura e a aproximação entre os dois países em um período caracterizado por fortes tensões políticas. Apesar de suas “próprias finalidades” - e das críticas que podem e devem ser feitas a esses textos do ponto de vista da metodologia da História -, esses ensaios legaram documentos, dados e posições que seriam retomados pela produção acadêmica.
Sobre as relações culturais internacionais, Valeska Díaz Soto e Verónica Montero Fayad consideram que estas se referem à
(...) acción práctica (…) en que la cultura, a través de sus distintos códigos, se desarrolla. Es decir, (…) se comprenden como intercambio social, circulación de ideas y saberes, políticas internacionales, etc (DÍAZ SOTO; FAYAD, 2019, p. 247).
As autoras ressaltam que falar em intercâmbio e circulação não implica necessariamente equilíbrio. Já mencionamos as disparidades entre Brasil e Paraguai. Porém, analisar as relações entre os dois países exclusiva ou predominantemente a partir desse prisma pode levar a uma visão fragmentada das relações internacionais. É necessário considerar recortes espaciais e temporais mais variados. Para além dos interesses brasileiros no Paraguai, essas relações também são atravessadas, por exemplo, por interesses argentinos e norte-americanos e pela atuação do Paraguai - e dos paraguaios - diante desses interesses e em outras esferas. Gerardo Caetano defende que é preciso um “conhecimento renovado da história paraguaia”, pois as explicações sobre o país são prisioneiras de “previsibilidades e determinismos quase biologicistas” (CAETANO, 2012, p. 8).
Além disso, Símele Soares Rodrigues lembra que o Estado nacional não é o ator central ou único das relações culturais internacionais, havendo uma multitude de atores ou mediadores tanto da diplomacia cultural oficial quanto de associações privadas a título não-oficial (SOARES RODRIGUES, 2020, p. 9-11). Além disso, a historiografia, ao se concentrar sobre o local e o regional em regiões de fronteira, tem encontrado uma presença da cultura paraguaia no Brasil que as análises focadas nos Estados nacionais nem sempre permitem visualizar. Outro movimento interessante tem sido criado por estudos de caso ou de manifestações artístico-culturais específicas, as quais questionam interpretações generalizantes sobre “a cultura” nas relações Brasil-Paraguai.
Finalmente, o artigo tem uma preocupação mais quali do que quantitativa. Mais do que apresentar um número expressivo de autores e obras, interessa-nos priorizar linhas de análise que marcam a produção sobre as relações Brasil-Paraguai, especialmente no âmbito cultural.
Breve histórico das relações culturais oficiais entre Brasil e Paraguai
No que se refere às ações dos Estados nacionais, as relações Brasil-Paraguai começaram nos fins da década de 1910, com intercâmbio estudantil, e se diversificaram a partir da década de 1930. Ainda que não representem a complexidade das relações culturais entre os dois países - já que há relações não-oficiais -, as ações desenvolvidas pelo governo brasileiro no Paraguai, principalmente a Missão Cultural brasileira, foram tema privilegiado dos debates políticos durante a ditadura Stroessner marcando assim a produção acadêmica.
Francisco Doratioto (2012, p. 437-444) relata que a década de 1930 foi marcada por projetos de maior amplitude e iniciativas no âmbito cultural, particularmente no que se refere ao intercâmbio de estudantes e ensino de português no Paraguai.
Em 1941, Getúlio Vargas foi o primeiro presidente brasileiro a visitar o Paraguai. De acordo com Maria Margarida Cintra Nepomuceno, além de acordos econômicos e políticos, a visita resultou em “três convênios de intercâmbio cultural, que previam a cooperação de técnicos, permuta e publicação de livros entre os dois países” (NEPOMUCENO, 2010, p. 38). Com efeito, a partir de 1933, o Brasil assina os primeiros acordos culturais da sua história, começando pelos países sul-americanos (SOARES RODRIGUES, 2019, p. 254).
Segundo Ceres Moraes, durante o segundo governo Vargas (1951-1954), permaneceram os objetivos de oferecer cursos de português no Paraguai, organizar a ida de professores brasileiros para a Universidad Nacional de Asunción e desenvolver projetos educacionais que estimulassem o intercâmbio entre os dois países. A autora destaca ainda que, em 1952, o governo brasileiro se comprometeu a construir um colégio experimental de nível secundário na cidade universitária de Asunción, o qual serviria para a preparação profissional dos estudantes da Faculdade de Filosofia (MORAES, 2000, p. 100). A partir da ditadura de Stroessner no Paraguai, as relações entre os dois países se aprofundaram, como indicam a Ponte da Amizade8 e a Usina de Itaipu. No que se refere às relações culturais, o Colegio Experimental Paraguay-Brasil foi inaugurado em 1964 após sucessivos atrasos.
As ações culturais brasileiras ficavam a cargo do Instituto Cultural Paraguai-Brasil desde a sua criação em 1942 e, a partir de 1974, passaram para o Centro de Estudos Brasileiros (CEB). Daniele Reiter Chedid considera que a mudança ocorreu porque a Missão Cultural brasileira no Paraguai “(...) não desempenhava mais o objetivo de criar uma aproximação, talvez porque esta já tivesse de fato ocorrida (...)” (CHEDID, 2014, p. 99). Trata-se de uma afirmação questionável, tendo em vista as seguidas tensões entre Paraguai e Brasil. Para a autora, o CEB representou uma “simplificação” da Missão e as atividades culturais do Brasil no Paraguai se tornaram “bem mais modestas” (CHEDID, 2014, p. 99).
Margarida Nepomuceno também detecta uma redução da atuação brasileira no Paraguai, especialmente na área de educação. Segundo a autora, na Faculdade de Filosofia, o Brasil deixou de ser responsável pelas cátedras de Didática Geral, Antropologia e Psicologia e se retirou da orientação pedagógica do Colégio Experimental. O Brasil permaneceu responsável apenas pelas cátedras de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira e de Literatura Portuguesa e o Setor de Artes Visuais da Missão Cultural não foi alterado. Vale destacar que a missão cultural do Brasil no Paraguai foi uma das mais longas da história da diplomacia cultural oficial brasileira, sendo o período sob a coordenação de Lívio Abramo (1962-1992) o mais contínuo.
As relações culturais Brasil-Paraguai no “ensaio político” durante a ditadura Stroessner9
Durante a ditadura Stroessner, a aproximação entre os dois países foi apoiada por aliados do governo e criticada por seus opositores. Para os opositores, as relações culturais seriam instrumentos para a realização de interesses políticos e econômicos, especialmente do Brasil. Dentre os aliados, havia um discurso que minimizava - ou mesmo ignorava - as tensões histórico-culturais entre os dois países e ressaltava as “benfeitorias” promovidas pelo Brasil no Paraguai.
Vejamos alguns exemplos. Em 1958, durante a construção da Ponte da Amizade, foi publicado no Brasil o livro Falando do Paraguai ao Brasil, de Hipólito Sánchez Quell, então embaixador do Paraguai no Brasil. Publicada pela Biblioteca do Exército, a obra reúne 6 conferências ditadas por Sánchez Quell no Brasil sobre o idioma guarani, a poesia e a história do Paraguai. Na primeira conferência do livro, intitulada O Guarani na Linguagem e na Paisagem Carioca, Sánchez Quell apontava que brasileiros e paraguaios tinham uma herança guarani em comum, a qual poderia ser observada na linguagem e na toponímia do Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, então capital do país. “Cidades, povoados, rios e serras salpicam de nomes guaranis o mapa do Brasil. Na toponímia brasileira a sensibilidade paraguaia percebe emocionada os vocábulos guaranis” (SÁNCHEZ QUELL, 1958, p. 13).
Em 1962, Arturo Bordón, de trajetória liberal e opositor de Stroessner, publica Verdades del Barquero. A Ponte da Amizade ainda estava em construção e o autor demonstra que, no Paraguai, havia uma disputa entre os colorados no poder e os liberais na oposição quanto ao pioneirismo na construção de estradas e pontes no país. Bordón defende que os governantes liberais que marcaram as primeiras décadas do século XX teriam contribuído decisivamente para romper o “isolamento” do Paraguai e sua “mediterraneidade”. Segundo Bordón, ao contrário do que aconteceria com Stroessner, sob os governos liberais tudo teria sido feito “(...) sin ayuda extranjera, sin hipotecar el país, sin gravar a las generaciones venideras, sin intervención foránea, y, sobre todo, sin descuidar la defensa nacional” (BORDÓN, 1962, p. 114). O autor evoca a memória do bandeirante para representar os interesses brasileiros no país10 e, citando um industrial paraguaio - o qual não é identificado -, apresenta o governo Stroessner como uma “manceba guarani” que teria se submetido ao “bandeirante” brasileiro. Enquanto Sánchez Quell reivindica uma história e cultura em comum entre Paraguai e Brasil - o que legitimaria a aproximação -, Bordón coloca os dois países em campos opostos.11
Em 1977, na época da construção de Itaipu, Domingo Laíno - de trajetória liberal como Bordón - publicou Paraguay: fronteras y penetración brasileña, tendo seu lançamento no Brasil dois anos depois. O livro se propõe a analisar “(...) desde a infiltração estrangeira na economia até a (...) colonização cultural” brasileira no Paraguai (LAÍNO, 1979, p. 11). O autor critica, sobretudo, a imigração de brasileiros ao país, muitos dos quais estavam se tornando grandes proprietários de terras, inclusive na área da fronteira, o que colocaria em risco a soberania do Paraguai. Laíno denuncia o fortalecimento político e econômico dos brasileiros no Paraguai assim como a crescente circulação de moeda brasileira no país:
O Cruzeiro, com a efígie de Pedro II deslocou-se para o Paraguai, em forma tal que tomou o lugar do Guarani com a efígie do Marechal López e está presente em quase todas as cidades paraguaias localizadas nos limites fronteiriços com o Brasil (LAÍNO, 1979, p. 160).
D. Pedro II era o governante brasileiro durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864/1865-1870) que dizimou o Paraguai governado por Solano López.12 Laíno destaca que “vários” paraguaios, com dupla nacionalidade, preferiam prestar o serviço militar no Brasil. Outros exemplos de ameaça à soberania paraguaia seriam a preferência de jovens paraguaios por escolas brasileiras e a penetração cultural brasileira em regiões de fronteira através de rádios, canais de televisão, revistas e jornais.
O autor dá exemplos de como a diplomacia cultural entre os dois países apresentava uma visão diferente e ressaltava uma convivência histórico-cultural harmônica entre ambos. Laíno cita uma visita de Stroessner a Brasília em 1973, no local onde seria construída a futura embaixada do Paraguai:
Como parte principal da cerimônia o general Stroessner plantou uma árvore “tay” característica da flora paraguaia. Durante o ato uma banda militar executou a polca do “partido colorado” (agrupamento oficial) e a polca “Presidente Stroessner”; a polca é a dança popular do Paraguai. O chanceler [brasileiro] Mario Gibson Barbosa declarou após a parte musical que “desde este momento se tornava colorado” (...) (LAÍNO, 1979, p. 29).
O autor comenta, ainda, que a primeira dama brasileira Lucy Geisel tinha doado 5 mil dólares à escola República do Brasil. (LAÍNO, 1979, p. 32). Entretanto, no último parágrafo do livro, Laíno ressalta: “(...) à dependência econômica deve-se somar a brasileirização cultural que também avança com agressividade, despojando deste grande e rico território até o menor traço do ser paraguaio” (LAÍNO, 1979, p. 246).13
Apesar de focar nas relações entre Paraguai e Brasil, Laíno considera que a “penetração brasileira” era “hemisférica” (LAÍNO, 1979, p. 51) e atingiria inclusive as fronteiras argentinas. Além disso, o Brasil atuaria no Paraguai como “submetrópole” (LAÍNO, 1979, p. 19) dos Estados Unidos.
Os “ensaios políticos” escritos por opositores de Stroessner como Bordón e Laíno contemplaram as relações culturais, ainda que estas tenham sido analisadas predominantemente a partir das disparidades econômicas e políticas entre os dois países. É necessário considerar que o objetivo principal desses ensaios era a luta contra a ditadura paraguaia. As denúncias feitas por opositores forçaram os governos paraguaio e brasileiro a promoverem releituras da história de ambos os países, de modo a ressaltarem os elementos em comum - como vimos na conferência de Sánchez Quell sobre a herança guarani no Paraguai e no Brasil. Com a queda das ditaduras em 1985 no Brasil e 1989 no Paraguai, novos elementos, recortes e perspectivas passaram a permear as análises, ainda que a tônica crítica dos ensaios políticos permaneça e reapareça sobretudo em momentos de crise entre os dois países.
A historiografia das relações culturais Brasil-Paraguai
A Herança de Stroessner: Brasil-Paraguai (1955-1980), de Alfredo da Mota Menezes, de 1987, é considerado um estudo pioneiro sobre as relações Brasil-Paraguai. Baseado em dados econômicos e em documentos e acordos diplomáticos entre os dois países, o autor analisa as relações com o Paraguai como a “primeira real abertura” do Brasil “para o mundo hispano-americano” (MENEZES, 1987, p. 9).
Escrito ainda sob o impacto da construção de Itaipu, Menezes considera que ambos os países teriam a ganhar com a aproximação. Embora reconheça a posição privilegiada do Brasil em relação ao Paraguai, o autor considera que os paraguaios eram ativos nas relações internacionais. Para Menezes, a ditadura Stroessner usava a imagem do Brasil como “país imperialista” para conseguir concessões nas negociações. Além disso, o governo paraguaio teria utilizado as rivalidades entre Brasil e Argentina para conseguir benefícios dos dois países (MENEZES, 1987, p. 129).
Apesar da ênfase no político-econômico, Menezes destaca a presença e importância de aspectos simbólico-culturais nessas relações. O autor destaca que a aproximação entre os dois países ganhou impulso durante o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961) no Brasil, o que repercutiu no âmbito cultural. Além de iniciativas para fortalecer a Missão Cultural, Menezes menciona a assinatura de um acordo para revisão de livros didáticos, de modo a conter animosidades entre os dois países. Cita, ainda, que uma seção especializada sobre o Paraguai seria criada na Biblioteca Nacional do Brasil e uma sobre o Brasil seria criada na Biblioteca Nacional do Paraguai (MENEZES, 1987, p. 58).
Durante a crise dos Saltos del Guairá, Menezes lembra que a bandeira brasileira foi queimada em frente ao Consulado brasileiro em Asunción e coquetéis molotov foram atirados contra a Embaixada do país.14 Em meio à crise, o autor dá um exemplo sobre como a Missão Cultural brasileira era vista com desconfiança por setores da sociedade paraguaia e como a história permeava as relações entre os dois países:
Aproximadamente 400 estudantes em passeata pelas ruas de Assunção pedipam [sic] que os militares e os membros da comissão cultural brasileira retornassem para o Brasil e cantavam “slogans” como Paraguay sí, bandeirantes no (MENEZES, 1987, p. 78-79).
A viagem do ditador brasileiro Ernesto Geisel ao Paraguai em dezembro de 1975 foi carregada de aspectos simbólico-culturais como, por exemplo, a condecoração de Geisel por Stroessner com a medalha Mariscal Lopez. O autor ironiza qual seria o papel da memória do prócer paraguaio em meio às relações entre os dois países:
(...) Stroessner disse que aquela condecoração “tem o nome do maior herói do Paraguai que com o seu exemplo patriótico inspira este governo e ele será a testemunha da amizade eterna entre paraguaios e brasileiros”. Com tanta homenagem com e sobre o nome de Solano Lopez é de se perguntar se isto era para relembrá-lo ou para esquecer a sua guerra de 1864-1870. (MENEZES, 1987, p. 104).
Na mesma viagem, o Brasil devolveu ao Paraguai o “Livro de Ouro da Mulher Guarani”, que estava em poder dos brasileiros desde a Guerra da Tríplice Aliança. A obra registrava as doações feitas por mulheres paraguaias com o intuito de contribuir com os custos do confronto (MENEZES, 1987, p. 106).
Apesar das disparidades econômicas entre Paraguai e Brasil, Menezes considera que o Paraguai também teria a ganhar economicamente com a aproximação com o Brasil. Em termos culturais, a aproximação é vista como um instrumento para a viabilização de acordos políticos e econômicos - como indicaria o exemplo dos livros didáticos para conter as animosidades ou a ironia sobre a memória de Solano López. Embora destaque um papel ativo do Paraguai nas relações com o Brasil, na esfera cultural o país seria marcado pela vulnerabilidade, como mostraria a imigração de brasileiros ao país:
(...) numa área, como o leste do país, onde a presença de paraguaios é pequena, além do alto grau de analfabetismo e pobreza, e onde a presença brasileira é cada dia maior, a cultura paraguaia poderia sofrer arranhões bastante acentuados ou, na pior das hipóteses, poderia atrasar a integração e a interação daqueles imigrantes e suas idéias com a cultura local (MENEZES, 1987, p. 168).
A coletânea Política Exterior y Relaciones Internacionales del Paraguay Contemporáneo, organizada por José Luis Simón G., foi publicada em 1990 pelo Centro Paraguayo de Estudios Sociológicos. A obra indica a expectativa com a queda da ditadura do general Alfredo Stroessner no ano anterior, mas também as heranças deixadas pelo stronismo nas relações internacionais do país.
Apesar de o cultural não ser o foco da coletânea, o autor Frank Mora destaca que Brasil e Paraguai se aproximaram na década de 1960 a partir de “intercâmbios diplomáticos e culturais” (MORA, 1990, p. 96). O autor considera que o Brasil, para se aproximar do Paraguai, realizou “construções para a Universidad Nacional de Asunción” (MORA, 1990, p. 97), uma referência indireta ao Colegio Experimental Paraguay-Brasil. O autor assinala o avanço do uso do português no país e do cruzado, a então moeda brasileira. Mora destaca ainda que uma das consequências da aproximação entre os dois países era a imigração de brasileiros ao Paraguai, com fortes implicações no âmbito cultural. Para o autor, os brasiguaios - imigrantes brasileiros que se estabeleceram no Paraguai - contribuíram para que o Brasil superasse a Argentina como principal parceiro do Paraguai “tanto do ponto de vista social como do cultural” (MORA, 1990, p. 98).
Há outras referências gerais sobre o tema das relações culturais no artigo de Melissa H. Birch. A autora se refere genericamente a “um acordo de intercâmbio cultural” que o presidente paraguaio José Félix Estigarribia (1939-1940) assinou com o Brasil. Birch cita, ainda, que a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) favoreceu a aproximação entre os dois países em nome da “solidariedade latino-americana”. “Las hostilidades previas entre los dos países fueron vistas como una desavenencia entre dos hermanos, la cual es olvidada cuando se hacen grandes y desarrollan vínculos más fuertes” (BIRCH, 1990, p. 171). Para a autora, o panamericanismo deu o tom das relações entre os dois países no pós-Segunda Guerra. Na mesma coletânea, Diego Abente complementa que a doutrina de segurança nacional e a “defesa da civilização ocidental” - um dos principais lemas anticomunistas - pautaram as relações entre Brasil e Paraguai no pós-Segunda Guerra (ABENTE, 1990, p. 285).
La Política Exterior del Paraguay (1811-1989), de Frank O. Mora, tem dois subcapítulos dedicados às relações Paraguai-Brasil referentes à ditadura Stroessner. No primeiro, correspondente ao período 1954-1970, Mora destaca a Ponte da Amizade, o aumento do comércio entre os dois países, a cooperação militar marcada pelo anticomunismo vigente na Guerra Fria e os acordos iniciais para o aproveitamento hidrelétrico do Rio Paraná - apesar da crise desencadeada pela ocupação dos Saltos del Guairá por militares brasileiros em 1965. No âmbito cultural, há apenas uma breve referência indireta à construção do Colegio Experimental Paraguay-Brasil (MORA, 1993, p. 98).
No período entre 1970 e 1983, tratado no segundo subcapítulo, as relações políticas e econômicas entre os dois países teriam se consolidado, assim como a corrente migratória de brasileiros ao Paraguai. Nesse período o Brasil teria superado a Argentina como principal aliado do Paraguai no plano externo (MORA, 1993, p. 115).
Em Paraguai: a consolidação da ditadura Stroessner (1954-1963), publicado em 2000, Ceres Moraes considera que o Brasil foi decisivo para a consolidação de Stroessner no poder, destacando a importância da Missão Cultural. Ainda que breve, a autora faz um histórico da Missão e afirma que suas ações no Paraguai foram além das relações bilaterais: para Moraes, a Missão contribuiu “(...) para uma mudança de mentalidade do povo paraguaio no modo de encarar o Brasil (...)” e, “(...) ainda que não fosse seu objetivo, contribuiu de alguma forma para prestigiar a ditadura [paraguaia]” (MORAES, 2000, p. 102).
Segundo Moraes, a Missão repercutiu especialmente nas relações do Paraguai com a Argentina, pois o Partido Liberal, de oposição a Stroessner, era tradicionalmente identificado com os interesses argentinos:
(...) enquanto o Brasil passava a ser visto como fraternal vizinho e aliado, legitimando o regime, a Argentina, que historicamente era ligada ao Partido Liberal, passava a ser vista como prepotente, sempre disposta a subjugar o Paraguai, deslegitimando, assim, a oposição. (...). (...). De certa forma, isso era facilitado pela atuação da imprensa argentina que fazia severas críticas ao regime, denunciando a violência e a tortura a que eram submetidos os que se opunham ao governo (MORAES, 2000, p. 102).15
Historia de las Relaciones Internacionales del Paraguay, de Ricardo Scavone Yegros e Liliana M. Brezzo, publicado em 2010, se tornou uma síntese e manual de referência sobre o tema. Os autores concordam que a ida de Getúlio Vargas ao Paraguai em 1941 foi um “acontecimento extraordinário” e lembram que a Missão Cultural foi um dos desdobramentos de um processo iniciado anteriormente. Por exemplo, em junho de 1939, o presidente eleito do Paraguai, José Félix Estigarribia, visitou o Brasil e “(...) se suscribió un acuerdo en el que se sentaron las bases para la conexión ferroviaria y el intercambio cultural y económico entre ambos países. Se materializaron así intenciones esbozadas desde bastante tiempo atrás”. (SCAVONE YEGROS; BREZZO, 2010, p. 133). Segundo os autores, no âmbito cultural, “(…) el gobierno brasileño acordó becas y facilidades para estudiantes paraguayos” (SCAVONE YEGROS; BREZZO, 2010, p. 133). Vale lembrar que as missões culturais faziam parte de iniciativas diplomáticas do Brasil destinadas aos países vizinhos, como aquelas enviadas a Buenos Aires (1935) e à Montevideo (1936). Observa-se, assim, que essas ações eram pensadas num âmbito de política cultural externa do Brasil na América do Sul.
Os autores também indicam como o contexto internacional interferiu nas relações entre os dois países, sendo um dos exemplos mais expressivos a solicitação de ajuda do governo de Higinio Morínigo (1940-1948) ao Brasil para combater os adversários na Guerra Civil de 1947. A ditadura de Morínigo apresentava “(...) el movimento como auspiciado y dominado por el comunismo internacional” (SCAVONE YEGROS; BREZZO, 2010, p. 138). Diante da recusa brasileira, a Argentina teria consolidado seu espaço no Paraguai durante o governo de Juan Domingo Perón (1946-1955). Trata-se de um exemplo pontual, mas importante, pois indica que a aproximação e as relações Brasil-Paraguai não foram um todo contínuo. Houve ritmos distintos e a interferência de outros autores.
Em 2010, Margarida Nepomuceno defendeu a dissertação de mestrado Lívio Abramo no Paraguai Entretecendo Culturas na Universidade de São Paulo (USP). A pesquisa é a mais completa sobre as relações culturais Brasil-Paraguai. Com base em arquivos particulares e institucionais como o do Itamaraty, da Embaixada do Brasil no Paraguai, do Centro de Estudos Brasileiros em Asunción e da Biblioteca Nacional do Paraguai, Nepomuceno analisa o papel do artista plástico Lívio Abramo no Paraguai quando foi coordenador do setor de artes visuais da Missão Cultural brasileira no país entre 1962 e 1992. A autora analisa a trajetória e a produção do artista como exemplos da “diplomacia cultural” brasileira e o considera como um “articulador cultural” no país vizinho, uma vez que os acordos culturais entre os dois países, existentes desde a década de 1940, apenas tomaram impulso com a chegada de Abramo ao Paraguai.
Segundo a autora, o artista “(...) integrou-se na comunidade local, participando do seu cotidiano e contribuindo com suas propostas para o desenvolvimento artístico e cultural da cidade” (NEPOMUCENO, 2010, p. 14). Dentre as contribuições de Abramo, a autora destaca que o método pedagógico aplicado na Escolinha de Arte da Missão Cultural foi utilizado em outras escolas paraguaias. Além disso, o artista foi decisivo para a criação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do Paraguai em 1967. Assim, Nepomuceno marca um contraponto com a historiografia ao questionar um determinismo do político e econômico sobre as relações culturais. A autora explicita sua discordância com Ceres Moraes:
(...) a autora atribui o papel da Missão Cultural Brasileira no Paraguai como sendo um dos pilares da política colaboracionista, uma vez que por meio das ações culturais o governo brasileiro teria criado, no interior da sociedade paraguaia, condições para uma mudança de mentalidade a respeito das vantagens das políticas de aproximação com o Brasil (NEPOMUCENO, 2010, p. 16).
Nepomuceno ainda destaca a importância de Lívio Abramo para movimentos artísticos paraguaios como o do Grupo Arte Nuevo. O Grupo, liderado pela escritora Josefina Plá e pelas artistas Olga Blinder, Lili de Mônaco e Laterza Parodi, iniciou um processo de renovação nas artes paraguaias marcado pela incorporação de inovações internacionais. Assim, Nepomuceno aponta que Lívio Abramo, quando chegou ao Paraguai em 1962, já encontrou a “agenda da modernidade” dentre as “aspirações do meio cultural” do país. Contudo, alguns dos “principais postulados” da modernidade ainda não estariam resolvidos, como “(...) os conflitos, colocados pela arte moderna, entre a autonomia da forma e a necessidade de referir-se a uma história concreta, ao meio circundante, ou entre universalidade e particularidade” (NEPOMUCENO, 2010, p. 146). A autora afirma que Lívio Abramo colaborou decisivamente para as mudanças em curso nas artes paraguaias e para romper o isolamento artístico internacional do país, e ressalta que a Missão Cultural também foi um instrumento de promoção dos artistas paraguaios, pois
(...) criou possibilidades concretas para o surgimento de um fluxo artístico entre brasileiros e paraguaios, realizando dezenas de exposições de artistas paraguaios no espaço destinado pela Missão Cultural Brasileira (NEPOMUCENO, 2010, p. 148).
Em A Cultura como Via de Aproximação: a Missão Cultural Brasileira no Paraguai (1952-1974)16, Daniele Reiter Chedid (2014) prioriza a Missão Cultural brasileira no Paraguai nas décadas de 1950 e 1960. Com base em relatórios anuais que o chefe da Missão Cultural enviava ao Itamaraty, por intermédio da Embaixada brasileira em Asunción, Chedid segue a perspectiva de Ceres Moraes e analisa a Missão Cultural, sobretudo, a partir das relações políticas e econômicas entre os dois países. “Os atos políticos não se limitam ao visivelmente imediato, existindo uma série de significados e objetivos ocultos. Assim, as relações político-culturais estão impregnadas do simbólico” (CHEDID, 2014, p. 13). Para a autora, os objetivos da Missão eram aproximar o Brasil do Paraguai - e os brasileiros dos paraguaios -, diminuir a influência da Argentina na América do Sul e conter as marcas deixadas pela Guerra da Tríplice Aliança. Chedid menciona que a aproximação entre os dois países foi facilitada pelo anticomunismo que marcava aqueles anos de Guerra Fria. “Nesse contexto se identificavam também como vizinhos lutando contra o mesmo inimigo [o comunismo]” (CHEDID, 2014, p. 31).
Apesar dos objetivos brasileiros, Chedid defende que ocorreu uma “troca de interesses” entre os dois países e o governo de Stroessner não atuou “(...) de maneira passiva, tendo se apropriado das atividades da Missão. Segundo a autora, para além da Missão, a aproximação com o Brasil representou para o Paraguai a “(...) oportunidade de melhorar sua realidade econômica e social enquanto desprendia-se da antiga dependência argentina” (CHEDID, 2014, p. 39). Além disso, Chedid ressalta que “(...) a cultura paraguaia não pode ser entendida como homogênea” e que “(...) as mudanças no cenário cultural paraguaio são resultados de diálogos, de trocas” (CHEDID, 2014, p. 64).
Chedid destaca a realização de festas juninas e cursos nas áreas de medicina, odontologia e enfermagem. Ainda na área de saúde, a autora destaca que “Diversos estudantes de Medicina utilizavam a Missão como intermediadora de estágios em regime de internato no Brasil (...)” (CHEDID, 2014, p. 60). Havia também atividades cerimoniais para prestigiar autoridades paraguaias e membros da Missão eram convidados a participar de eventos de natureza diversa na sociedade paraguaia. Além do intercâmbio de professores e estudantes, a Missão contribuía com o fornecimento de materiais de estudos para a Faculdade de Filosofia da Universidad Nacional de Asunción, por exemplo, mimeografando materiais e doando livros (CHEDID, 2014, p. 57).
Silva e Dias Júnior (2019), em artigo sobre a construção da Ponte da Amizade, destacam que o empreendimento era apresentado como um exemplo da “tutela” brasileira que permitiria ao Paraguai se desenvolver. Para os autores, o Paraguai era apresentado como um país marcado pela “falta”. Para Silva (2018), essa perspectiva da “falta” está presente na historiografia sobre a ditadura Stroessner. Apesar de suas contribuições, o trabalho de Chedid reproduz essa perspectiva:
Os eventos promovidos pelo Instituto Cultural Brasileiro, como recitais e peças teatrais, não ocorriam com frequência no Paraguai. Assim, se compreende o sucesso de público e de aprovação (...). Os cursos e palestras proferidas via Missão também representavam uma novidade em terras guaranis. Os conhecimentos especializados eram aguardados pelos profissionais que careciam de tal bagagem intelectual, principalmente nas áreas da saúde e educação (...). Os programas de bolsas e os intercâmbios estudantis eram disputados anualmente por dezenas de paraguaios que viam neles a oportunidade de aprofundarem seus conhecimentos e retornarem com um currículo de excelência. Isso garantiria um futuro sucesso profissional dentro do Paraguai. Na Faculdade de Filosofia da Universidade Nacional de Assunção, os investimentos do Estado eram insuficientes. Havia falta de professores e de materiais. (...).
O diálogo de interesses entre Brasil e Paraguai fazia com que os trabalhos da Missão raramente fossem criticados. [grifos nossos] (CHEDID, 2014, p. 86-87).
Não se trata de questionar os evidentes problemas econômicos e sociais do Paraguai. Contudo, o livro de Chedid, ao se concentrar nos relatórios do Itamaraty, não explicita as tensões existentes entre os dois países. Apesar de sua inegável importância como fonte histórica, cabe analisar os relatórios como instrumentos que procuravam dar sentido à estrutura diplomática existente no Paraguai e destacar o “sucesso” do seu trabalho, de modo que ressaltavam a falta de “questionamentos ou objeções por parte dos paraguaios”.
Com as devidas diferenças, problemas semelhantes marcam o trabalho de Nepomuceno. A autora, ao afirmar que a Missão Cultural brasileira atendia a demandas de artistas paraguaios, usa como fonte o jornal Patria do Partido Colorado de Stroessner, sem considerar que a ditadura precisava legitimar as ações do Brasil diante da oposição e da opinião pública paraguaia. Além disso, apesar de reconhecer a produção paraguaia, Nepomuceno valoriza o empenho de Lívio Abramo para “(...) diminuir as distâncias entre o que se produzia naquele país (...) e o restante da região [grifo nosso].” (NEPOMUCENO, 2010, p. 207). Apesar dessa passagem não dar o tom de todo o trabalho de Nepomuceno, indica a força das imagens do “atraso” e da “falta” comumente associadas ao Paraguai.
Em 2012, Francisco Doratioto publicou Relações Brasil-Paraguai: afastamento, tensões e reaproximação (1889-1954). Uma das principais contribuições do livro é contemplar, com profundidade, o recorte temporal anterior à ascensão de Stroessner ao poder. Baseado especialmente em documentos diplomáticos, o autor aponta que, desde as primeiras décadas do século XX, havia projetos para melhorar a comunicação entre Brasil e Paraguai por ferrovias e rios - ainda que muitos não tenham sido concretizados. Doratioto destaca que esses projetos inclusive marcaram governos do Partido Liberal no Paraguai, tradicionalmente vistos como pró-Argentina.
Esses projetos já acompanhavam propostas culturais, mesmo que estas não tenham avançado de modo expressivo. O aumento das tensões entre Paraguai e Bolívia, as quais levaram à Guerra do Chaco (1932-1935), teriam contribuído para conter o avanço das relações entre Brasil e Paraguai naqueles anos. (DORATIOTO, 2012, p. 397-398).
A participação do Brasil nas negociações para o cessar-fogo favoreceu a retomada das relações entre os dois países. Doratioto cita que Justo Prieto, Ministro da Educação paraguaio, participou das comemorações da independência brasileira em 1935, ocasião usada para fazer “contatos culturais.” Em 1937, “(...) iniciaram-se os estudos bilaterais para a implementação de programas de cooperação cultural (...)” (DORATIOTO, 2012, p. 417).
De acordo com Doratioto, as iniciativas culturais antecederam a construção da infraestrutura física entre os dois países. O autor destaca que, em 1938, Luís A. Argaña, Ministro da Educação que ocupava interinamente o Ministério das Relações Exteriores, propôs a Ferreira Braga, encarregado de negócios brasileiros, que se aproximassem as juventudes dos dois países:
Com essa finalidade, em julho, o governo paraguaio convidou 25 estudantes universitários brasileiros a visitarem Assunção, como hóspedes oficiais. (...). A viagem se realizou e os estudantes brasileiros (...) prestaram homenagem à memória do general Díaz, herói da Guerra da Tríplice Aliança. A acolhida a eles “excede a toda expectativa”, inclusive com o comparecimento do presidente Paiva à recepção que lhes foi oferecida na Legação brasileira (DORATIOTO, 2012, p. 437).
Doratioto cita, ainda, que o ensino de português foi declarado obrigatório no curso primário paraguaio no ano escolar de 1939. O decreto foi embasado nos “(...) ideais de confraternidade dos povos latino-americanos e se referia ao Brasil como ‘um dos maiores e mais prósperos povos da América Latina’” (DORATIOTO, 2012, p. 437). O governo paraguaio esperava contar com o envio de professores do Brasil, os quais formariam professores no Paraguai.
Doratioto destaca que, em 1942, a representação diplomática brasileira no Paraguai foi elevada à condição de embaixada, a qual ficou a cargo de Francisco Negrão de Lima. No Rio de Janeiro foi criado o Instituto Brasil-Paraguai para divulgar a cultura paraguaia. Doratioto elenca outras ações culturais de Negrão de Lima durante seus quatro anos como embaixador do Brasil no Paraguai:
(...) representação, pela primeira vez, de uma peça teatral brasileira em Assunção, de Oduvaldo Viana; criação do Instituto Paraguaio de Cultura Brasileira; construção de edifício moderno para a Escola Brasil, da rede pública paraguaia; emissão, em espanhol, na Rádio Nacional, de um programa dominical de difusão da cultura brasileira (...) (DORATIOTO, 2012, p. 455).
Doratioto cita outros exemplos sobre como as iniciativas culturais precederam o aprofundamento das relações econômicas entre os dois países:
Em 1948, do total de capitais estrangeiros investidos no Paraguai, uns 25% - US$ 15 milhões - eram de origem argentina, enquanto os investimentos brasileiros constituíam apenas US$ 800.000. Quanto ao comércio exterior, entre 1940 e 1946, 20% das exportações paraguaias se destinavam à Argentina e apenas 0,3% seguiam para o Brasil, e as importações destes países correspondiam, respectivamente, a 47% e 16%” (DORATIOTO, 2012, p. 504).
Durante o governo de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951) no Brasil, Doratioto relata que houve o estancamento no comércio bilateral devido a uma dívida paraguaia de mais de 200 milhões de cruzeiros contraída com importações brasileiras. Entretanto
(...) o novo embaixador [Mario Savard de Saint-Brisson Marques] foi instruído a fortalecer o trabalho cultural, a apoiar o Instituto de Cultura Paraguai-Brasil e a manter o programa de concessão de bolsas a estudantes paraguaios (...) (DORATIOTO, 2012, p. 507).
Doratioto destaca que o objetivo era atenuar a crescente penetração argentina no Paraguai ; então governada por Juan Domingo Perón. Para o autor, a criação da Missão Cultural foi um exemplo bem-sucedido de atividades culturais brasileiras em Asunción (DORATIOTO, 2012, p. 509).
Doratioto questiona o determinismo econômico e político ao indicar, por exemplo, que as ações culturais precederam o aprofundamento das relações econômicas e políticas entre os dois países. Porém, o autor não minimiza a importância econômica e política das ações culturais, como se nota no exemplo acima sobre o objetivo de “atenuar a crescente penetração argentina no Paraguai”.17
Ainda em 2012 foram publicados em um único volume os livros Historia Diplomática del Paraguay e Política Exterior del Paraguay, desde 1811 hasta la guerra de 1864-70, de Antonio Salum-Flecha.18 O autor é um dos principais nomes da História Diplomática no Paraguai e, em 1990, participou da citada coletânea organizada por Simón G. O tema das relações culturais não é destaque na produção do autor. Contudo, Salum-Flecha cita a devolução de objetos e documentos paraguaios pelo ditador brasileiro João Batista Figueiredo (1979-1985), dentre os quais estavam objetos que pertenceram a Solano López e família. “Este hecho, como no podía ser de otra manera, tuvo un gran impacto en el seno del gobierno y pueblo paraguayos por considerarlo una genuina demostración de amistad” (SALUM-FLECHA, 2012, p. 76). Havia tensões em curso e o autor explica a devolução como uma forma de apaziguar as críticas da imprensa brasileira ao Paraguai como “sócio pouco adequado” ao Brasil. Além disso, o objetivo da devolução seria conter as demandas paraguaias por uma revisão do acordo de Itaipu que fosse mais favorável ao país. Salum-Flecha destaca que o gesto de Figueiredo teve antecedentes em 1955, quando o chanceler brasileiro José Carlos de Macedo Soares devolveu ao Paraguai a ata original de 1844 na qual o Brasil reconhecia a independência do Paraguai. Outro antecedente foi a já citada visita de Ernesto Geisel ao país, quando foi devolvido o “Livro de Ouro”.
Em 2015 foi publicada a coletânea Relaciones Bilaterales Paraguay-Brasil: sociedad, economía y cultura, organizada por Aníbal Orué Pozzo. O livro é fruto do seminário internacional Paraguay-Brasil. Diez Años de Relaciones Bilaterales: sociedad, economía y cultura, realizado em Ciudad del Este em 2013. O evento foi promovido pelo Centro de Estudios de las Relaciones Paraguay-Brasil da Universidad Nacional del Este (UNE). O seminário e a publicação do livro contaram com o apoio da Usina de Itaipu.
A coletânea é um exemplo da incorporação gradual do tema das relações culturais entre os dois países pela produção paraguaia. Orué Pozzo faz uma referência a esse processo na Introdução da coletânea:
(...) la presencia brasileña en el país no tiene solamente un énfasis económico o político, sino también cultural. Es imposible pensar en el desarrollo de un Arte Nuevo en los años 50 en Paraguay, sin la presencia de artistas brasileños y el intercambio de experiencias entre ambos grupos de artistas. La arquitectura moderna debe mucho a la brasileña, principalmente cuando, desde 1950, profesionales brasileños se desplazan a Paraguay colaborando con grandes obras de arquitectura (ORUÉ POZZO, 2015b, p. 7).
Orué Pozzo reivindica a importância das relações culturais. O autor valoriza a contribuição de artistas brasileiros no Paraguai, mas também se refere a um “intercâmbio de experiências” com os artistas paraguaios. Além de organizador e autor da Introdução, Orué Pozzo é autor do capítulo Años de plomo y margaritas: las relaciones Paraguay-Brasil y el camino hacia el Este. Apesar de não focar nas relações culturais, o autor aponta a importância do tema e a contribuição das regiões de fronteira. Orué Pozzo indica que aspectos culturais precedem “ações de governo”: “(...) determinados aspectos culturales van pautando y marcando un horizonte mucho más profundo y llevan a acciones políticas y sociales que se expresan, a su vez, posteriormente, en acciones de gobierno” (ORUÉ POZZO, 2015a, p. 134). Além disso, o autor faz uma breve referência à Missão Cultural. Orué Pozzo considera que “(...) la participación de Brasil en la educación paraguaya fue sumamente significativa (…)” e se refere a Lívio Abramo como um “(…) gran artista humanista brasileño” (ORUÉ POZZO, 2015a, p. 136).
Na mesma coletânea, em Brasil-Paraguay y el difícil arte de concretar puntos de equilíbrio sustentables, Bernardino Cano Radil faz uma breve porém importante menção aos brasiguaios. Segundo o autor, o Estado paraguaio era responsável pela falta de integração dos brasiguaios ao país. “(...) son víctimas de estafadores, delincuentes y extorsionadores, en el seno de un Estado que ni siquiera fue capaz de resolver la titulación de su tierra (…)” (CANO RADIL, 2015, p. 31-32).19 Ainda que reconheça que os brasiguaios também precisariam “(...) participar más en la vida cívica e institucional del país” (CANO RADIL, 2015, p. 32), o autor não os relaciona ao “subimperialismo brasileiro”, conforme apontamos no livro de Domingo Laíno da década de 1970.
Além disso, o livro conta com um capítulo exclusivamente dedicado ao assunto das relações culturais entre os dois países: em Confluencias arquitectónicas Paraguay-Brasil, o arquiteto Julio César Diarte, professor da Universidad Nacional de Asunción, analisa obras de arquitetos brasileiros no Paraguai nas décadas de 1950 e 1960. Ao contextualizar o período, Diarte considera que o tema tem relação “indireta” com a aproximação entre os governos do Paraguai e Brasil (DIARTE, 2015, p. 95). O autor menciona o rechaço que a atuação dos arquitetos brasileiros encontrou entre arquitetos paraguaios devido às concepções estrangeiras que traziam. Ademais, as obras dos arquitetos brasileiros serviriam ao propósito da ditadura Stroessner de utilizar a arquitetura como símbolo do “desenvolvimento” e da “modernização” que dizia promover naqueles anos. Entretanto, Diarte defende que
(...) si nos abstraemos de las cuestiones políticas y miramos la arquitectura tal cual es, podemos encontrar aspectos valiosos que sí tienen que ver con las particularidades del medio donde se realizaron [grifo nosso] (DIARTE, 2015, p. 104).
Diarte é cuidadoso ao não atribuir as mudanças na arquitetura paraguaia unicamente aos arquitetos brasileiros. O autor destaca que, no início da década de 1940, arquitetos paraguaios que estudaram no exterior, especialmente no Uruguai, “(...) trajeron consigo aportes significativos en la estructura espacial y formal de los edifícios, nuevas técnicas constructivas e inclusive intentos de transformación del espacio público” (DIARTE, 2015, p. 96).
O capítulo destaca ainda o Paraguai como um espaço de criação desses arquitetos. Diarte considera que o projeto do Colegio Experimental Paraguay-Brasil, do arquiteto Affonso E. Reidy, guarda semelhanças com o que seria posteriormente desenvolvido para o Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro. “(...) ambos guardan una estrecha relación formal y estructural, también una ubicación privilegiada dentro de la ciudad - el MAM con vista a la bahía y el CEPB [Colegio Experimental Paraguay-Brasil] con vista al rio Paraguay y el Chaco” (DIARTE, 2015, p. 99). O prédio do Colegio Experimental Paraguay-Brasil, voltado ao Rio Paraguai e à planície do Chaco, seria um exemplo de como os projetos desenvolvidos pelos arquitetos brasileiros dialogavam com as particularidades do meio.
Para o autor, a atuação do arquiteto Fernando Saturnino de Brito, que chegou em 1953 a Asunción como membro da Missão Cultural brasileira, foi além da fiscalização das obras do Colegio Experimental Paraguay-Brasil. Saturnino de Brito colaborou na criação, em 1957, da Faculdade de Arquitetura da Universidad Nacional de Asunción, projetou “numerosas casas” na capital paraguaia e, em 1956, presidiu o “Concurso de Anteproyectos para un edifício destinado a Hotel y Anexos”, promovido pelo Instituto de Previsión Social (IPS). O concurso, vencido pelos arquitetos brasileiros Adolpho Rubio Morales, Rubens Carneiro Viana e Ricardo Sievers, daria origem ao Hotel Guarani, um dos prédios mais conhecidos de Asunción, inaugurado em 1961 (DIARTE, 2015, p. 100-103).
Finalmente, Diarte considera que a atuação de arquitetos brasileiros no Paraguai representou uma “transferência tecnológica” ao país. Ao se referir ao Colegio Experimental Paraguay-Brasil e ao Hotel Guarani, o autor ressalta que a mão de obra empregada na construção de ambos era predominantemente paraguaia e que os engenheiros que trabalharam na fiscalização das obras do hotel eram paraguaios formados em escolas brasileiras de Engenharia (DIARTE, 2015, p. 117).
Apesar da variedade de temas, recortes e enfoques, cabe uma comparação geral entre os “ensaios políticos” e as análises acadêmicas comentadas até aqui. As relações culturais Brasil-Paraguai ganharam espaço na historiografia, conforme demonstram autores como Nepomuceno, Chedid e Diarte - ainda que, em muitos trabalhos, o tema permaneça como secundário. Mais do que um ganho de espaço, sobretudo em autores como Nepomuceno e Diarte se observa o “deslizar da cultura” nos “interstícios do cálculo”, conforme apontamos em Certeau. O envolvimento de Lívio Abramo em outras atividades além da Missão, a formação de arquitetos paraguaios no Uruguai ou ainda o modo como o Paraguai inspirou arquitetos brasileiros indicam que as relações Brasil-Paraguai precisam ser analisadas para além de interesses brasileiros específicos e imediatos. Apesar desses exemplos, permanece uma leitura do cultural predominantemente a partir do econômico e político, especialmente quando o recorte é nacional e focado na atuação estatal.
As relações culturais não-oficiais, as regiões de fronteira e a presença da cultura paraguaia no Brasil
A música se mostra como um elemento promissor para o conhecimento das relações culturais Brasil-Paraguai para além dos Estados nacionais. Geni Rosa Duarte e Emílio González (2009) analisam a movimentação de músicos pela Fronteira Trinacional entre Foz do Iguaçu (Brasil), Ciudad del Este (Paraguai) e Puerto Iguazú (Argentina). A aproximação entre Brasil e Paraguai representada sobretudo por Itaipu teria estimulado o turismo na região, cujos efeitos sobrepassaram a esfera das relações internacionais oficiais.
Sobre a música produzida e tocada na região, Duarte e González indicam a vulnerabilidade do nacional como elemento privilegiado ou mesmo único de análise. Segundo os autores, a fronteira naqueles anos foi marcada por processos criativos que reconstruíram “(...) identidades de forma híbrida, contraditória e dinâmica” (DUARTE; GONZÁLEZ, 2009, p. 120). Os músicos que atuavam na região tampouco se restringiam a brasileiros, paraguaios e argentinos e estes, por sua vez, incursionavam pelo cancioneiro de outros países. Os autores dão um exemplo interessante dessas incursões a partir de uma reportagem de Aramis Millarch publicada em 1988 no jornal Estado do Paraná:
(...) três paraguaios que após oito anos de vivência no México - Feliciano de Assuncion, Reylando Garcia e Ramon Lara, retornaram com chapelões coloridos e o nome de “El Mariachis Paz Trio”, estão entre os que mais agradam o público [em uma churrascaria de Foz do Iguaçu] e vendem suas fitas, com aquelas canções repletas de gritos e solos de pistão, como “Malaguena” e “Guadalajara” (apud DUARTE; GONZÁLEZ, 2009, p. 121).
Em outro artigo (2013), Duarte e González apresentaram a trajetória do harpista paraguaio Casemiro Pinto em Foz do Iguaçu. As entrevistas feitas pelos autores com o harpista indicaram a forte presença e circulação de músicos paraguaios pelas cidades fronteiriças. Os autores consideram que Casemiro se via “como uma espécie de embaixador da música paraguaia” e, assim, “conseguia flexibilizar aquela rigidez do Estado-Nação e das linhas de fronteira preestabelecidas” (DUARTE; GONZÁLEZ, 2013, p. 49).
Não foi uma trajetória isenta de obstáculos. Para os turistas em Foz do Iguaçu, poucas músicas seriam representativas do Paraguai ; como Pájaro Campana, Recuerdos de Ipacaray e Galopera. Músicas mais recentes, de conteúdo político, tampouco eram executadas devido à vigência da ditadura paraguaia até 1989. Finalmente, o harpista relata a existência de preconceitos e estereótipos em relação ao Paraguai e aos paraguaios, de modo que muitos compatriotas negariam as suas origens. A despeito desses obstáculos, Casemiro Pinto se reafirma como paraguaio. “No escondo. Eu sou paraguaio! (...). Entonces eu tenho que tocar a música paraguaia!” (apud DUARTE; GONZÁLEZ, 2013, p. 49-50). Além da identidade nacional, o harpista reafirma o seu saber como músico. “Eu vi uma pessoa de altas estudos, estudou bastante, e no consigue...fala que queria ser músico, e no consigue” (apud DUARTE; GONZÁLEZ, 2013, p. 50).
As pesquisas de Duarte e González são indicativas da necessidade de outros recortes espaciais além do nacional. No âmbito local e regional, especialmente na fronteira, se sobressai uma presença paraguaia que não encontra paralelos em outras regiões do país. Contudo, cabe buscar também a atuação de paraguaios e demais processos históricos e artístico-culturais que extrapolaram ; e extrapolam ; o espaço da fronteira.
Ainda no âmbito musical, Evandro Higa (2010) analisa releituras da polca paraguaia, da guarânia e do chamamé em Campo Grande, capital do Estado do Mato Grosso do Sul. O autor aponta influências da música paraguaia no sertanejo brasileiro. Em artigo posterior (2012), Higa também aponta para a presença de músicos paraguaios para além da fronteira. O autor cita, por exemplo, que entre 1934 e 1935 a Rádio Record de São Paulo tinha o “programa paraguaio” no horário nobre das 18:45 às 19:15 ; assim como existiam programas semelhantes voltados a outras colônias de imigrantes. Higa apresenta, ainda, uma lista expressiva de músicos paraguaios que atuaram no Brasil na primeira metade do século XX, os quais teriam influenciado a música sertaneja. Apesar dessa presença, o autor ressalta que o período foi marcado pelo “(...) projeto nacionalista e modernizante de Getúlio Vargas (...)”, o qual “(...) se ocupava em construir uma identidade para a nação brasileira a partir dos paradigmas culturais da capital da República” (HIGA, 2012, p. 11) ; então no Rio de Janeiro.
Ainda no âmbito musical, a cantora paraguaia Perla fez sucesso no Brasil ; e em outros países latino-americanos ; especialmente nas décadas de 1970 e 1980. Tinha um repertório eclético de estilos e de músicas de diferentes nacionalidades, mas também contemplava clássicos da música paraguaia como Galopera e Índia, cantadas em português ou espanhol, além de trechos e expressões em guarani. Segundo dados apresentados por Mariano de Silva e Silva, Perla vendeu mais de dez milhões de discos (DE SILVA E SILVA, 2020, p. 177).
Os trabalhos sobre música permitem repensar as relações culturais entre os dois países, destacando influências paraguaias no Brasil especialmente em regiões de fronteira. Permanece como desafio para a historiografia ampliar o leque da produção artística e intelectual envolvida nas relações - oficiais e não-oficiais - entre Brasil e Paraguai. Mário Maestri (2011), por exemplo, pesquisou como, no início do século XX, positivistas brasileiros criticaram a Guerra da Tríplice Aliança e defenderam a devolução dos troféus de guerra e o perdão da dívida imposta pelos vencedores ao Paraguai.
Para voltarmos à fronteira, em 2005, José Lindomar Coelho Albuquerque defendeu sua Tese de Doutorado em Sociologia sobre os brasiguaios. O autor destaca que os confrontos entre brasileiros e paraguaios vão além da questão estrita da posse da terra ; muitos brasileiros se tornaram grandes proprietários de terra no Paraguai ; e envolve questões culturais e de memória ; as quais, por sua vez, potencializam confrontos como o da posse da terra. Para Albuquerque, a fronteira não é apenas ponto de encontro, integração e hibridismo, mas também de (re)afirmação das identidades nacionais. Assim, a fronteira é palco de preconceitos e estereótipos entre brasileiros e paraguaios e ressentimentos em torno da derrota paraguaia na Guerra da Tríplice Aliança.20
Entretanto, uma das principais contribuições do trabalho de Albuquerque é destacar como essas tensões se manifestam de forma diferente e com graus variados. A primeira geração de imigrantes brasileiros tenderia a ser mais fechada do que as seguintes, mais abertas a elementos da cultura paraguaia inclusive por terem estudado no Paraguai. Em cidades nas quais os brasileiros são minoria, haveria uma tendência maior de integração destes à cultura paraguaia. O autor abre a possibilidade de pensar as relações entre brasileiros e paraguaios para além da reprodução imediata das disparidades que marcam os dois Estados nacionais ; perspectiva semelhante à que apontamos em Cano Radil no livro organizado por Orué Pozzo.21
Manuella Sampaio da Silva (2021) analisa um processo migratório em sentido inverso ao pesquisado por Albuquerque e discorre sobre a migração de paraguaios para Foz do Iguaçu durante a ditadura Stroessner. A autora não se concentra em um grupo específico como os músicos analisados por Duarte e González. Silva critica que os estudos sobre migração, ao focarem em perspectivas econômicas e demográficas, dão pouca atenção aos atores sociais destes processos. Critica, ainda, a universidade brasileira. Apesar da migração de brasileiros ao Paraguai ter coincidido temporalmente com a migração de paraguaios ao Brasil, a autora detecta um predomínio do primeiro tema sobre o segundo, o que indicaria a permanência do nacional como referência central das pesquisas, “(...) em detrimento de um conhecimento que protagonize outros povos, suas experiências e saberes” (SILVA, 2021, p. 19). Silva também lembra que a ditadura Stroessner ocupa um lugar secundário na produção brasileira quando comparada a outros processos ditatoriais da região.
A autora considera “(...) a cultura como uma via de aproximação e integração de povos latino-americanos, onde a mesma se dá através de manifestações não programadas pelos Estados nacionais” (SILVA, 2021, p. 19). Um exemplo seriam as Jornadas de Solidariedade ao Povo Paraguaio realizadas em Foz do Iguaçu em 1984 e 1985. As experiências compartilhadas das ditaduras levaram à cidade militantes e vítimas de diferentes países para denunciar as violações aos direitos humanos, organizar a resistência e criar um espaço de sociabilidade.
Considerações finais
A produção sobre as relações entre Brasil e Paraguai se mostrou maior do que a esperada no início desta pesquisa. Porém, trata-se de uma produção dispersa, faltando trabalhos de sistematização, análise e síntese. Essa dispersão é indicativa da ausência ou inconstância de grupos de pesquisa, laboratórios, publicações e eventos voltados ao Paraguai e mais especificamente às relações entre os dois países.
Além disso, os trabalhos ainda se concentram nas relações entre os Estados nacionais e priorizam os seus interesses econômicos e políticos. Os temas culturais ocupam uma posição secundária e, muitas vezes, são analisados a partir do econômico e político. Apesar da necessidade de considerar os interesses econômicos e políticos envolvidos, a partir dos quais é possível apreender inclusive de forma mais objetiva as disparidades entre os dois países, novos estudos têm demonstrado a pertinência da ampliação dos referenciais de análise. A variação no recorte temporal ; contemplando o período anterior ao aprofundamento das relações entre os dois Estados ; e as variações no recorte espacial ; sobretudo reduzindo-o para contemplar âmbitos locais ou regionais em regiões de fronteira ; indicam que há processos que escapam do primado do econômico e político ou que não poderiam ser lidos exclusivamente a partir dos interesses brasileiros no Paraguai. A variação nos recortes possibilita ainda, apreender melhor a atuação e produção artístico-cultural de paraguaios no Brasil.
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