Artigo
Received: 23 October 2023
Accepted: 23 April 2024
DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2316-9141.rh.2024.217591
Funding
Funding source: FAPESP
Contract number: 08/52871-7
Funding statement: Agradeço à FAPESP pela bolsa que viabilizou a pesquisa (Processo nº 08/52871-7).
Resumo: Giovanni Botero (Bene, 1544 - Turim, 1617) foi um erudito que colocou seus conhecimentos e suas habilidades retóricas à disposição da Igreja. Este ensaio investiga parte de sua atividade junto à diocese milanesa de Carlos Borromeo, na qual ele foi secretário empenhado em um esforço de propagação da palavra cristã. Nesse contexto, Botero escreveu o De praedicatore verbi Dei, que é uma reflexão sobre a figura do pregador e os princípios retóricos que regem sua atividade. Elaborado em sintonia com o pensamento de Borromeo, o livro é uma homenagem intelectual prestada pelo secretário ao seu patrão e um instrumento estratégico na competição travada com a vertente protestante do mundo cristão.
Palavras chave: Giovanni Botero, Carlos Borromeo, Contrarreforma, Retórica, Pregação.
Abstract: Giovanni Botero (Bene, 1544 - Turin, 1617) was a scholar who put his knowledge and rhetorical skills at the disposal the Church. This essay investigates part of his activity with the Milanese diocese of Carlo Borromeo, where he was working as secretary and engaged in an effort to disseminate the Christian word. In this context, Botero wrote the De praedicatore verbi Dei, a reflection on the figure of the preacher and the rhetorical principles that guide his activity. In harmony with Borromeo’s thoughts, the treatise is also a tribute offered by the secretary to his Master, and a strategic instrument in the competition with the protestant side of the Christian world.
Keywords: Giovanni Botero, Carlo Borromeo, Counterreformation, Rhetoric, Predication.
O letrado e a corte
Autor do Ragion di Stato, livro que tratava do governo do Estado e dos métodos de sua conservação, Giovanni Botero conhecia os detentores do poder de uma posição muito próxima. De fato, o mundo social no qual ele viveu e escreveu foi aquele do palácio, fosse este uma casa cardinalícia ou uma residência aristocrática. Depois dos colégios da Companhia de Jesus, essas realidades representaram uma segunda escola para sua formação intelectual, sendo os membros da elite ora seus mestres ora seus discípulos3. Inserido organicamente na hierarquia institucional através de funções que lhe davam a possibilidade de circular pelos ambientes palacianos, o clérigo piemontês tinha no príncipe e no cardeal dois interlocutores habituais. Foram eles os principais destinatários de livros realizados durante o cumprimento de tarefas burocráticas rotineiras.
Botero assumiu vários cargos na esfera secular e na organização eclesiástica, sendo conselheiro, consultor, secretário, diplomata, preceptor; todas atividades de cunho intelectual baseadas no uso da palavra escrita e falada que desempenharam um papel de primeiro plano na vida política de Antigo Regime4. Na execução dessas funções, leitura e escrita foram uma praxe constante e, em determinados momentos, constituíram uma verdadeira obrigação. Quanto à leitura, Botero foi consultor na Congregação do Índex a partir de 1587 e, nessa veste, foi incumbido de visionar muitos textos5; por outro lado, como secretário, escreveu cartas endereçadas a autoridades religiosas e seculares de toda a Europa. A prática repetida da redação epistolar, a averiguação minuciosa das publicações, o uso persuasivo da elocução, pontuaram sua vida nas cortes. Dessa forma, o espaço institucional do poder acabava por se entrelaçar com o universo erudito do livro e o valor expressivo da palavra, uma combinação que reverberou em sua obra, na qual saber e retórica são elementos cruciais de reflexão6.
As páginas a seguir tratarão do vínculo entre escrita e status profissional relativamente aos anos que Botero passou em Milão ao lado do cardeal, arcebispo e futuro santo Carlos Borromeo, anos de aprendizado importantes para suas elaborações teóricas, e que lhe propiciaram as primeiras experiências administrativas. Na figura de Borromeo, os ideais tridentinos de sobriedade e empenho apostólico se concretizaram em um modelo de vida cristã exemplar e em um programa de renovação moral e cultural do clero local. Botero participou deste programa através da função de secretário que, neste ensaio, será considerada junto à redação de uma obra sobre a pregação: o De praedicatore verbi Dei de 1585. A compreensão deste pequeno tratado de retórica cristã precisa passar por uma reflexão que problematize a relação entre autor e livro, texto e contexto: como se estabelece o elo entre produção textual e as competências do secretário? Ou, dito de outra forma, como se insere o escrito no desempenho dos deveres do ofício? Certamente, o livro tem sua vida própria, mas até que ponto seu criador pode ser separado de sua função institucional? Para responder a essas perguntas é preciso entender quais eram as obrigações do secretário e considerar o que comportava trabalhar ao lado de Borromeo, homem centralizador, inclinado a controlar de perto a atividade de seus assistentes. Há de se ponderar, ainda, qual era o lugar ocupado pelo livro e pelo tema da pregação na ação reformista articulada pela Igreja. Uma vez considerados esses fatores, ficará claro que as raízes do escrito em questão estavam fincadas em um terreno que pressupunha a disponibilidade do piemontês à execução de um programa promovido por Borromeo. Usando o léxico de Battista Guarini, o que emerge pela leitura aqui proposta não é tanto a ragion teorica de um pensador político ainda em formação, mas a ragion pratica de um professor de retórica chamado a coadjuvar e levar adiante os projetos pastorais do arcebispo de Milão. Ao diferenciar a razão teórica do político da razão prática do secretário, Guarini demarcava duas esferas intelectuais peculiares que remetem para o domínio da especulação e para o uso instrumental da retórica (1595, pp. 71-72). Algo parecido, diz ele, se dá com as figuras do “músico teórico”, que compõe, e do “músico prático”, que executa. Aproveitando a metáfora de Guarini, pode-se dizer que o pequeno tratado sobre a pregação foi elaborado seguindo uma partitura já pronta. Surgido do ambiente austero de uma instituição ativa na implementação das medidas tridentinas, o De praedicatore verbi Dei tem os traços de um livro concebido com a postura do secretário, que prevê sintonia e identificação plenas com as vontades do patrão.
Desde o estudo clássico de Federico Chabod (1967) até o livro recente de Romain Descendre (2009), é sabido o grau de envolvimento de Botero com a Igreja; um espírito militante se manifesta em seus principais textos, fazendo deste autor um defensor da ortodoxia católica (DESCENDRE, 2009, p. 23). Um olhar mais atento revela também como seus livros surgiram dentro de expectativas e demandas palacianas pontuais, alguns sob encomenda. Os contextos nos quais ele operou profissionalmente foram diferentes: o arcebispado de Milão, entre 1580 e 1584; a Cúria romana, de 1586 a 1599; a corte piemontesa, a partir de 1599. Trata-se de sedes do poder espiritual e temporal cujas solicitações foram atendidas com prontidão, sinalizando uma ductilidade como escritor que já foi evidenciada por Luigi Firpo (1983, p. 77) e Romain Descendre (2009, p. 11). Este último caracteriza a produção literária de Botero de acordo com os interesses de seus mecenas: assim, ele atuou dentro de uma lógica pastoral ao lado de Carlos Borromeo; política com o outro Borromeo, e também cardeal, Federico; didática com Carlos Manuel de Saboia (2009, p. 11). Alguns títulos são emblemáticos dessas colaborações: o De praedicatore verbi Dei, o Prima parte dell’avvento ambrosiano e as Prediche del regno di Cristo são exemplos do compromisso com a pastoral contrarreformista; o Ragion di Stato expõe a teoria política em prol da Igreja; os Detti memorabili e os Principi se inscrevem na vertente da educação do príncipe cristão. É sempre um sujeito situado em uma esfera institucional específica aquele que forja páginas destinadas a alcançarem objetivos determinados, com margens de autonomia variáveis e resultados oscilantes.
Na maioria das vezes, Botero não foi executor passivo de um programa formulado por outros; a produção de textos não se resume apenas em um serviço prestado de forma mecânica. Embora seus livros se insiram no sistema de relações mutuamente benéficas da corte, muitos deles contêm as ideias de um pensador que entendia sua posição com outras aspirações, indo além dos deveres do servidor. Os livros do período romano (Delle cause della grandezza delle città, Ragion di Stato, Relationi Universali, Dell’uffitio del Cardinale) constituem o conjunto mais significativo de sua obra e certamente o mais maduro. Na outra ponta, seus primeiros escritos de cunho político e religioso - justamente aqueles elaborados na diocese ambrosiana - deixaram os críticos modernos um tanto desapontados pelo caráter anônimo da composição. Segundo estes, trata-se de livros “sem personalidade” (CHABOD, 1967, p. 288) que manifestam a relação entre secretário e patrão nos termos de uma “submissão intelectual” (DESCENDRE, 2009, p. 12). Abrindo mão de sua cultura jesuítica, de forma mimética, o futuro teórico da razão de Estado limitava-se a registrar as ideias de Carlos Borromeo sobre a pregação ou a miséria da vida terrena. A representação moralizada do mundo como lugar efêmero, precário, negativamente adjetivado, se encontra no Dispregio del mondo, de 1584, cujas páginas recuperam o tópico do contemptus mundi e expõem a “moral ascética” (DESCENDRE, 2011, p. 251) do seu mentor. A distância com as Relationi Universali- exemplo de theatrum mundi que exalta a dimensão providencial da geografia dos descobrimentos - não poderia ser maior. Por sua vez, a retórica enxuta de Borromeo organiza o De praedicatore verbi Dei; aqui é possível enxergar a pluma do servidor fiel em que a função-autor se eclipsa atrás da personalidade dominante do arcebispo.
Este conformismo no plano das ideias foi interpretado por Chabod como demonstração de um homem sem vigor (1967, p. 299). Para além de uma leitura centrada em um perfil psicológico frágil, pode-se percorrer um caminho interpretativo que leve em consideração o papel social, avaliando as formas de proceder do piemontês como expressão do ethos cortesão. Uma atenção ao seu status profissional evidencia aquele transformismo do qual falam os vários tratados sobre o secretário; este era apresentado normalmente como Jano, Proteu ou camaleão. Ao julgamento severo de Chabod contrapõem-se palavras de outro teor, proferidas por Baltasar Gracián, o qual aconselhava o “discreto Proteo” a “saber hazerse a todos” (1659, p. 57). Na ótica de Gracián, a flexibilidade e a aptidão a transitar de uma corte para outra são uma conduta adquirida mais do que um limite de atitude. É oportuno também lembrar que a categoria da prudência como virtude ligada à gestão das aparências é fundamental para o cortesão, implicando a disposição de se adaptar às transformações dos eventos com uma escolha fundada no juízo ou, como dizia Castiglione, com o “giudicio d’elegger bene” (1556, p. 349).
Por conta dessas considerações, os escritos milaneses de Botero refletem sua capacidade de atender uma demanda e participar de uma política cujos trilhos eram assentados por Carlos Borromeo, e sobre os quais o secretário alinhava-se sem oferecer grandes aportes originais. Com efeito, esses textos mostram uma adesão aos princípios austeros do arcebispo, adesão que denota um engajamento integral no cumprimento dos deveres de ofício, quer pelas formas em que ela se concretizou, quer pela seleção das referências literárias e quer, ainda, pela adoção de critérios axiológicos que só em parte lhe pertencem7. Há de se distinguir, então, o autor do período romano do escritor dos anos passados em Milão, o fundador de discursividade8 do produtor de textos indistintos.
Recuperar uma produção menor e impessoal pode ser uma escolha questionável. Contudo, o De praedicatore verbi Dei, com todos seus limites autorais, não é apenas um modelo de deferência intelectual. Ele joga uma luz sobre um servidor da Igreja que entendia muito bem a potencialidade do livro como instrumento de transmissão de valores exemplares, como também atesta a disposição de Botero a entrar na arena da competição confessional através de um tema, o da pregação, crucial na mobilização da comunidade cristã, como veremos na parte final do ensaio. Agora, porém, é preciso esclarecer qual era a colocação do secretário na sociedade de corte do século XVI, para depois contextualizar a gestação do Praedicatore verbi Dei na realidade da diocese milanesa.
O secretário e suas competências
A partir da segunda metade do Quinhentos, a figura do secretário foi objeto de um número consistente de tratados que comprovam a sua relevância institucional; era uma percepção nova ou, melhor dizendo, autopercepção, já que muitos dos tratadistas exerceram o cargo: Angelo Ingegneri foi secretário do cardeal Cinzio Aldobrandini; Vincenzo Gramigna, do cardeal Scipione Cobelluzzi; Tommaso Costo e Giulio Cesare Capaccio foram secretários do reino de Nápoles; lembre-se ainda Battista Guarini, poeta e funcionário na corte de Alfonso II d’Este.
Os livros desses especialistas apresentavam-se como manuais práticos, anexando um corpus epistolar heterogêneo e normas gramaticais e ortográficas que pudessem auxiliar os iniciantes na profissão. Mas os tratados não foram apenas compilações úteis de cartas e noções, eles ofereceram uma reflexão sobre um sujeito que, embora existisse de longa data, era chamado agora a pensar sua colocação no organograma de corte e definir os limites de suas ações e obrigações. Uma tomada de consciência que testemunha as transformações em ato nas burocracias europeias. Alguns desses escritos eram publicados sob a forma de diálogo, um tipo de exposição que podia alcançar um grau analítico elevado, proporcionando conhecimentos que se formavam no itinerário do questionamento; foi o caso, por exemplo, do livro de Guarini, no qual a figura do secretário era acomodada no palco de um debate envolvente, abrangendo questões filosóficas, morais e políticas9.
Quando Botero se colocou a serviço de Carlos Borromeo como secretário, estreou no cargo disponibilizando suas habilidades retóricas. Com efeito, o que caracteriza esta figura burocrática é sua função de “dizedor de pena”10, que se manifesta principalmente na arte de redigir cartas oficiais. É no exercício da escrita que o imaginário quinhentista visualiza o secretário. Tiziano Vecellio e Sebastiano del Piombo retrataram-no como um sujeito contido, sentado, com pluma na mão e o olhar dirigido para o seu protetor, pronto para receber as instruções e colocá-las com diligência no papel11. Não se trata, contudo, de mera transcrição. Guarini diferencia o secretário do chanceler na medida em que o segundo copia, enquanto o primeiro elabora o conceito (1594, p. 10). É uma pena criadora aquela que formula de modo adequado as instâncias alheias:
os conceitos que são a matéria do secretário são de dois tipos. Um vem do patrão, o outro dele. As conclusões, as deliberações, as máximas, todas vêm do patrão. Os meios, modos, argumentos, as persuasões, amplificações, insinuações e tudo o mais que serve para explicar e expressar os pensamentos e os fins vêm só dele12 (GUARINI, 1594, p. 57).
Essa passagem nos apresenta uma divisão do trabalho pela qual o secretário aparece como um cultor da palavra escrita que precisa conhecer todos os recursos da ars scribendi para realizar a operação de filtragem e formação dos conceitos. Trata-se de uma destreza que, para Gabriele Zinano, pressupõe a procura de um equilíbrio: “o secretário trata as coisas do seu senhor por meio de cartas elegantes; e sua elegância nada mais é que usar com moderada harmonia a gramática e a retórica”13 (1625, p. 38). A dosagem condizente das palavras revela o escritor que domina a técnica, a falta dela caracteriza o secretário improvisado. É, justamente, na forma de escrever uma carta que Tommaso Costo e Andrea Romanazzo polemizam no começo do século XVII (NIGRO, 1998, p. 99). Com tom didático, Costo repreende o colega por ele não obedecer às regras básicas da redação que exigem a variedade da elocutio e da dispositio em razão das pessoas envolvidas na troca epistolar. É possível inferir, então, que o secretário competente deve ser cuidadoso no reconhecimento das hierarquias sociais para colocar a comunicação no canal mais adequado, ajustando tom e estilo de acordo com o status do remetente e do destinatário. Amedeo Quondam lembra que, em uma cultura hiperformalizada como aquela do Antigo Regime, a carta se torna um campo onde exercer “uma competência profissional de altíssimo perfil” (1997, p. 109). É, de fato, esta qualificação que a formalização escrupulosa de Costo pretende resguardar.
A retórica firma-se, portanto, como núcleo central da discussão de todos os tratadistas. O uso apropriado das regras da composição escrita estabelece a exigência principal para pleitear a função, mas não esgota o leque de requisitos. Explorando com mais cuidado a relação que o secretário estipula com o seu superior, emerge uma fisionomia mais complexa. Contíguo das elites, sua assistência realizava-se em uma privacidade que Guarini descreve com estas palavras: “pode-se dizer que do patrão todos os outros ministros governam a casca, o secretário penetra na medula”14 (1594, s. p.). Como Guarini, Sansovino captava muito bem a participação íntima e expressava um conceito análogo ao comparar esse colaborador a um anjo, ao lado do seu senhor “nos serviços não do corpo, ou das faculdades, mas do espírito”15 (1564, p. 1). O convívio estreito e a associação angelical dão uma luz diferente ao secretário, enriquecendo as possíveis formas de sua inserção na corte. Próximo da hierarquia política, ele era guardião dos secretos, conseguia ter acesso aos arcana dos palácios e interceptar as ambições do poder; enquanto anjo, era portador de uma mensagem superior. Intimidade e sigilo propiciam uma combinação entre saber e dissimulação, o dito e o não dito, ou, como dizia Torquato Tasso, os tempos do silêncio e da fala (GORRIS CAMOS, 2008, p. 9), demandando ao pretendente ao cargo atributos suplementares. De acordo com Botero, na medida em que os secretários costumavam ser depositários dos secretos, era preciso que fossem escolhidos entre os candidatos dotados de mais perspicácia (1997 [1589], p. 46). Uma forma de convivência tão reservada exigia deles o controle das ações como também a dosagem das palavras, um comportamento baseado no decoro e na circunspecção; todas qualidades necessárias para manter o laço de confiança com o patrão, e, ao mesmo tempo, mecanismos de defesa fundamentais para sobreviver no equilíbrio delicado do ambiente cortesão.
O quadro apresentado rapidamente até aqui é suficiente para perceber a riqueza de argumentações e as possibilidades de declinações semânticas pelas quais esse servidor transita de figura proeminente a mero burocrata que cuida do epistolário. Se Costo destina o secretário a um papel subalterno (MISSIO, 2004, p. 16), outros reconheciam-lhe responsabilidades importantes, colocando-o nas esferas mais altas da administração. Para Sansovino, o secretário ocupava um lugar respeitável entre os outros funcionários (1564, p. 1). Michele Benvenga classificava-o à frente do embaixador na estrutura de corte (MAGALHÃES, 2008, p. 129). O espanhol Saavedra Fajardo posicionava-o em segundo lugar, abaixo do capelão (MISSIO, 2004, p. 19). Mas, a julgar pelas remunerações de Botero, o cargo era tão importante quanto este16.
A falta de uma visão unívoca não diz respeito apenas ao status, como também ao patrimônio de saberes necessários para a função. Angelo Ingegneri polemizava com aqueles que tinham reduzido o secretário a redator de cartas e procurava dar-lhe maior prestígio; para ele, o modelo ideal era Pietro Bembo que prestara o serviço junto ao papa Leone X. Assim como o humanista veneziano, o buon segretario precisava ter uma cultura universal que incluísse retórica, moral, filosofia natural, cosmografia, história (INGEGNERI, 1594, p. 6). Na figura proposta por Ingegneri é fácil reconhecer a grandeza do homem erudito renascentista. No entanto, o tipo de secretário que se afirma na administração tardo quinhentista perde as características completas do humanista para adquirir aquelas de um profissional cuja perícia é a composição epistolar. “A retórica é a sua verdadeira filosofia”17, sentenciava Guarini (1594, p. 71).
O secretário encarnado por Botero não se resume em um tipo único, mas variou com o variar dos protetores, tendo experimentado “a inteira gama das funções” (DESCENDRE, 2011, p. 251). Ele foi um servidor obediente aos ditames de Carlos, “guardião de seus pensamentos”18 e intérprete fiel de suas ideias, veiculadas tanto nas cartas quanto nos livros; por outro lado, com Federico Borromeo vislumbra-se a dignidade e certa autonomia intelectual idealizadas por Ingegneri. Tanta divergência pode ser reconduzida aos arranjos entre personalidades diferentes e à capacidade camaleónica de adaptação a contextos diferentes.
A conquista do cargo (ou a confiança restaurada)
A retórica compõe a bagagem principal do secretário, bagagem da qual Botero era adequadamente provido. A permanência por mais de vinte anos entre os jesuítas fora bastante longa para deixar uma herança consistente em sua educação. Ainda jovem, era considerado douto e “poeta natural” pelo padre Francisco Borja19. Anos depois, uma nota informativa da Companhia de Jesus julgava que era “bom poeta e tem bom engenho”20. Sua formação humanista e o domínio de vários idiomas, aliados a um certo dote literário, garantiam-lhe a fama de exímio retórico, sendo por isso convidado em várias ocasiões a escrever cartas, epigramas, e outras composições encomiásticas. Os inacianos mais de uma vez se valeram de sua pena para a redação epistolar, já que “a mestre Botero é muito fácil a composição”21. Finalmente, de retórica ele tinha sido professor em mais de um colégio, inclusive em Milão. Carlos Borromeo deve ter levado em consideração seu currículo quando, em 1582, o chamou para o ofício de secretário. Para que a colaboração se efetivasse, porém, foi necessário reestabelecer uma relação de confiança que tinha sido comprometida. Nos anos setenta, quando ainda era jesuíta, Botero ensinava no colégio de Brera e teve oportunidade de frequentar e assessorar o arcebispo22. Em uma ocasião, todavia, uma sua imprudência agravou um mal-estar já existente entre a Companhia de Jesus e a hierarquia mais alta da diocese ambrosiana. Subestimando as consequências, o então professor de retórica se envolveu em uma disputa relativa ao poder temporal do pontífice, disputa que contrapunha o jesuíta siciliano Giulio Cesare Mazzarino a Borromeo. A divergência sobre o poder indireto do papa, tese avançada pelo inaciano e julgada herética pelo arcebispo - defensor da plenitudo potestatis - chegou a um ponto dramático em março de 1579, quando este último denunciou o siciliano ao Santo Ofício, iniciando um processo que se concluiria com a absolvição de Mazzarino da acusação de heresia, porém com o afastamento da pregação por três anos (RURALE, 1992). Nessa circunstância tensa se insere o acontecimento que prejudicou Botero; este, ao ler e comentar o salmo II sobre o reinado de Davi, negou o poder temporal de Cristo. A gafe, pronunciada no ápice da crise, só fez aumentar a irritação de Borromeo que, indignado, apresentou suas queixas junto aos jesuítas (CHABOD, 1967, p. 278). Com sua exegese, Botero talvez quisesse reforçar as posições doutrinárias do amigo Mazzarino, mas, se esse fosse o propósito, seus superiores reputaram inoportuna a tentativa de defesa e, para acalmar a situação, tomaram a medida de removê-lo, enviando-o para Turim. Na cidade piemontesa as tensões não pararam, desta vez todas internas à Ordem inaciana. Decidido a sair da Companhia23, Botero voltou para Milão, em setembro de 1580, onde se reaproximou de Borromeo. Várias pessoas influentes tiveram uma parte determinante na reconciliação. Pessoas amigas, tanto em Milão, cidade onde Botero era conosciutissimo24, quanto em Turim25, se mobilizaram formando um cordão de solidariedade bastante eficaz a julgar pela boa conclusão dos fatos.
Inicialmente, o ex-jesuíta foi destinado a Luino onde, em outubro de 1580, começou a servir a Igreja a partir da posição de vice pároco, sendo, pouco tempo depois, promovido a vigário forâneo, cargo que lhe conferia o monitoramento das atividades da paróquia local. A estadia no pequeno vilarejo no lago Maggiore foi uma oportunidade para repensar o papel da escrita de forma compatível com as expectativas de Borromeo. O fruto de tantas reflexões foi o De regia sapientia, sua primeira análise política em que, interpretando os sentimentos do arcebispo26, ele defende as bases religiosas do poder27. Apresentado em uma primeira versão ao seu superior em 1582, revisado e publicado no ano seguinte, o De regia sapientia procura demonstrar como a manutenção de um Estado e suas conquistas dependem de Deus, enquanto sua ruína é causada pelo afastamento de quem governa da graça de Deus. O manuscrito teve um impacto positivo sobre Borromeo, que reconhecia naquelas páginas suas ideias relativas ao primado da religião sobre a política, e redimia Botero pelas palavras proferidas poucos anos antes sobre a natureza do poder de Cristo (DESCENDRE, 2011, p. 250). A sequência dos eventos permite avançar a hipótese de o De regia sapientia ter sido decisivo na reconstrução da estima e na promoção a um ofício mais importante. Fato é que, após sua leitura, Botero foi aceito no círculo dos assistentes mais próximos como secretário pessoal. A reconciliação era selada através de um livro cujo conteúdo prenunciava o tipo de ocupação que o aguardava: verter no papel os ideais religiosos do futuro santo. No biênio que vai de meados de 1582 ao final de 1584, o piemontês produziu uma prosa em latim e italiano sobre assuntos dos mais importantes. Um glissement literário transformou-o de compositor de versos em militante da Contrarreforma. “Gregário devoto” (CHABOD, 1967, p. 287), ele cumpriu uma tarefa intelectual orgânica aos interesses do arcebispo, difundindo sua ortodoxia e rigor através da palavra escrita.
A oficina de retórica
Uma vez integrado no grupo seleto de Borromeo28, Botero ficou envolvido nos projetos evangélicos da diocese que visavam revigorar a cura dos fiéis. Ele dava sequência à sua experiência em Luino, mas agora de uma posição diferente, já que se encontrava no âmago de uma instituição onde as políticas pastorais eram formuladas, estando ao lado de clérigos fortemente motivados pelo exemplo de Carlos Borromeo. Dotada de grande carisma, a figura de Borromeo é de fato central. Ao analisar seu operado, Michel de Certeau captou muito bem a associação que ele promoveu entre organização diocesana e ação pastoral: Borromeo comandou uma “milícia eclesiástica” e transformou “o clero em um corpo, articulando entre si uma técnica organizativa e uma ideologia política de mobilização: a primeira constrói uma administração, e a segunda concerne a pregação” (CERTEAU, 2005, p. 126). Unir, de forma programática, a regra e a ação foi um objetivo imprescindível que o prelado milanês procurou realizar com grande empenho. Manifestando uma vontade hegemônica, este costumava dizer que seus colaboradores eram seus olhos, ouvidos, mãos (MARCOCCHI, 1986, p. 210). Reduzidos à execução de uma função mecânica e ao desempenho de uma atividade sensorial, eles se constituíam como membros do corpo mais amplo da diocese, corpo encabeçado por Borromeo29; dessa forma, delineava-se uma estrutura hierárquica na qual cada um devia executar os ditames do arcebispo30. Nesse projeto que articula gestão e pregação, Botero teve um papel nas duas vertentes, seja como secretário, seja como autor de sermões. Na veste de secretário, escreveu centenas de cartas que foram fundamentais para tecer redes que sustentavam a unidade da província diocesana31. Por outro lado, da pluma do escritor surgiram textos religiosos centrados no tema da pregação.
O ministério da palavra era considerado um dos recursos mais importantes na estratégia, tantxo expansiva quanto defensiva, da Igreja tridentina e “função principal”32 dos bispos. Ao lado dos sacramentos, a pregação cumpriu um papel edificante, promovendo “uma adequada consciência dos deveres, morais e civis, do (novo) cristão” (AGNOLIN, 2007, p. 25). Produzia-se assim uma instituição católica no quadro de uma política da eloquência sagrada. A retórica é “institutionnelle et institutionalisante” (CERTEAU, 2005, p. 131), diz Michel de Certeau, querendo com isso ressaltar seu poder instaurador.
A construção de um consórcio cristão renovado através da praxe pastoral pressupunha, antes de tudo, uma ação disciplinadora dos próprios divulgadores da palavra de Deus. Borromeo estava decidido a dotar com uma eloquência apropriada os pregadores, dos quais conhecia todas as limitações e lamentava a falta de preparo. Junto com seus colaboradores, reservou uma atenção especial para a pregação, fazendo de Milão um “laboratório de retórica”33 (PATRIZI, 2014, p. 269). Desde os anos sessenta, ele promoveu iniciativas que repensassem as formas para propagar a palavra de Cristo, estimulando reflexões sobre a retórica da comunicação sagrada e abrindo seminários que preparassem um clero à altura da missão. Fazia-se isso em consonância com as determinações tridentinas que, com o decreto Super lectione et praedicatione de 1546, colocavam a pregação sob a supervisão dos bispos, enquanto a sessão de julho de 1563 apontava os seminários como instrumentos propedêuticos para educar o clero, formando assim uma “mentalidade profissional na execução das tarefas pastorais” (MORÁN e ANDRÉS-GALLEGO, 1998, p. 152).
No começo, Borromeo recuperou algumas sugestões deixadas manuscritas pelo jesuíta Benedetto Palmio, para compor, em 1573, as Instructiones praedicationis verbi Dei34 (GIOMBI, 2002, p. 139), uma coleção de indicações que regravam a expressão dos pregadores. Em seguida, convidara os melhores pensadores versados nos estudos clássicos como Francesco Panigarola, Agostino Valier, Botero e outros, a darem uma contribuição tanto teórica - com manuais destinados aos seminários35 - quanto prática - com sermões exemplares - colocando a perícia retórica desses eruditos a serviço da requalificação dos quadros paroquiais. Os autores de sermões identificavam na difusão desses livros um canal de comunicação a ser aberto com o clero das paróquias e um meio para dotar aqueles mais carentes de cultura teológica com subsídios a serem utilizados nas funções. Tentava-se corrigir uma condição de “ignorância” que não era mais tolerada (PROSPERI, 1996, p. 303). O estigma linguístico legitimava um projeto hegemônico que buscava estender as formas de controle sobre o clero secular, impondo a adesão às diretivas romanas fixadas em Trento. Delineava-se, assim, uma situação pela qual o pároco, que devia vigiar os fiéis, era por sua vez vigiado pelas hierarquias diocesanas, sendo um “controllore-controllato” (PROSPERI, 1981, p. 222).
Antes de integrar a Congregação do Índex, Botero pôde experimentar a importância da difusão controlada da palavra escrita, justamente durante os anos passados em Milão. É, portanto, em um contexto de valorização estratégica do livro que se coloca a sua atividade junto à diocese ambrosiana, ou, nas palavras de Descendre:
ser secretário de Borromeo significava participar de uma verdadeira política editorial, almejada por um cardeal arcebispo que atribuía um papel fundamental aos livros e à cultura, com o fim de formar, antes de tudo, o clero, e, secundariamente, o povo e as elites (2011, p. 251).
O De praedicatore verbi Dei
Em poucos anos, Botero produziu uma quantidade consistente de publicações. Além das cartas que foram impressas, há de se lembrar, entre os escritos pastorais, o Prima parte dell’avvento ambrosiano e as Prediche del regno di Cristo e Della guerra vinta da’ Santi36; menção especial merece o De praedicatore verbi Dei, porque faz parte daqueles livros sobre a retórica cristã que, respondendo à solicitação de reforma da oratória sagrada postulada por Carlos, reelaboravam em forma de tratado os preceitos das Instructiones praedicationis verbi Dei. Os livros acima citados foram direcionados a determinados leitores em dois planos diferentes: o De praedicatore verbi Dei abordava a matéria no plano conceitual, sendo discurso sobre a composição da eloquência sagrada, escrito em latim para um público culto, enquanto os outros três, em língua italiana, constituíam a aplicação dos modelos retóricos, e foram exemplos edificantes destinados para o exercício prático dos pregadores. Como um bom secretário, Botero identificava dois idiomas para duas plateias de leitores. A sobreposição desse ofício com o de escritor aparece também no momento em que o livro responde a uma instância precisa da política diocesana relativa à pregação, cabendo ao piemontês fixá-la no papel: reconduzir a oratória do pregador para o recinto da eloquência cristã.
Como na relação entre secretário e patrão, pode-se pressupor uma divisão do trabalho pela qual o conteúdo do discurso (a inventio) provinha de Borromeo, enquanto a sua disposição (dispositio) no plano narrativo (elocutio) foi realizada por Botero. Que o primeiro orientasse os escritos de seus colaboradores era prática comum. Valier lembrava como o prelado milanês preferia usar a pluma alheia para expressar as suas ideias (PATRIZI, 2014, p. 252). E, em matéria de pregação, é notório o quanto ele fosse intransigente37. No entanto, a documentação não permite avaliar com segurança como se deu a transmissão do conteúdo, de que forma e até onde chegou, de fato, sua intervenção. Além do mais, no momento da redação, Botero não podia mais contar com a sua orientação. O processo de composição do livro, portanto, não foi o mesmo do Rhetorica Ecclesiastica de Valier, cujo desenvolvimento Borromeo acompanhou constantemente e corrigiu; uma atenção tão grande que levou O’Malley a dizer que este foi praticamente um coautor38 (1998, p. 147). A redação do Praedicatore verbi Dei ocorreu no começo de 1585, logo depois da morte de Borromeo, em novembro de 1584, e sua publicação se deu em Paris em setembro do mesmo ano, mas sua gestação foi anterior e data do período em vida do arcebispo. O tempo rápido da escrita testemunha a urgência de Botero em reunir quanto ele vinha pensando, e fechar o mandato junto à diocese com um texto que era também uma homenagem póstuma. Se um esboço existia, é provável que tenha sido mostrado a Borromeo. A documentação prova como este era um procedimento já adotado pelo ex-jesuíta. Alguns exemplos: em julho de 1582, ainda em Luino, Botero enviou para Milão uma cópia do De regia sapientia, incompleta e com folhas em branco para uma primeira avaliação; em 1584, ele submeteu à atenção de seu superior um esquema para delinear uma vida de santos; o mesmo aconteceu com um novo capítulo a ser inserido no De regia sapientia, para o qual era solicitado também o parecer de outros padres (CHABOD, 1967, p. 289-290). Fica claro que a escrita de Botero se realizava nos interesses do arcebispo e se completava no confronto com outras opiniões, na busca por uma sugestão sábia, no diálogo erudito; em suma, no espaço da sociabilidade culta e competente da diocese. Uma vez que Botero se tornou secretário, a proximidade com o seu patrão é motivo da escassez epistolar. A partir deste momento, grande parte da discussão de ideias devia acontecer no plano da comunicação direta. Que entre os dois o tema da pregação fosse objeto de colóquio é confirmado pelo próprio Botero que, na carta dedicatória que abre o De praedicatore verbi Dei, lembra como a origem do livro repousava nas conversações que eles tiveram sobre as regras da pregação, inclusive durante uma viagem a Roma pela via lauretana (1585). Conversações que não deviam ser ocasionais já que Botero ajudava seu superior na leitura de sermões, um exercício que devia aprimorar a prática deste último39. Este é um primeiro indício de que, se a redação final foi operação solitária, sua preparação ocorreu no plano do diálogo. Mas é o próprio Botero a dar crédito a Borromeo no plano teórico quando apresenta o livro como “lucubrationem non tam meam quam praestantissimi cardinalis Borromei” (1585). Com efeito, olhando ao conteúdo do livro é possível reconhecer um estilo próprio aos tratados retóricos da diocese ambrosiana, como também verificar a transposição teórica de vários preceitos formulados nas Instructiones predicationis verbi dei.
Objetivo do tratado é o de delinear uma fisionomia exemplar de pregador. Perguntando o que define essa figura profissional (quae res concionatorem constituant), Botero elenca os quatro fatores necessários para o seu desempenho: doutrina, eloquência, espírito e prudência (1585, p. 2). Os primeiros dois constituem a substância e os outros a forma. Entre eles existe uma interdependência, de modo que a doutrina e a eloquência só têm força e eficácia em presença do espírito e da prudência (p. 2). Cada um dos tópicos é enfrentado de forma separada. A doutrina ocupa a primeira seção; o espírito, a segunda; a eloquência, a terceira e a quarta; a prudência, a quinta. Nas páginas iniciais do Praedicatore verbi Dei, o autor estabelece o vínculo que une retórica e saber: este só se manifesta através da palavra. Em uma referência a Santo Agostinho, ele diz que a doutrina é muda sem a eloquência, atestando uma complementaridade vital (p. 2). Uma vez asseverada essa relação, Botero se detém no patrimônio de saberes cujo uso deve sempre ser voltado para a glória de Deus e a salvação das almas (p. 4v). Para tanto, os ensinamentos de São Paulo são fundamentais, assim como o estudo das sagradas escrituras nas quais reside um “tesouro de sabedoria”40 (p. 23). E é, justamente, a este tesouro que Botero atinge, especialmente na quarta parte, onde uma tabula exemplorum mostra a riqueza da eloquência cristã. O pregador deve se valer desse aparato e, para que sua missão seja bem sucedida, ele deve também possuir uma disposição à virtude, que é tratada na segunda parte, aquela sobre o espírito, definido por Botero como “ardorem charitatis” (p. 26v). Esta segunda seção pode ser vista como uma contribuição ao policiamento do homem que antecede o policiamento da linguagem, enfrentado na terceira e quarta parte do livro. De acordo com os preceitos de Borromeo, a ação disciplinadora que formava o bom pregador não se limitava à voz, abrangendo também os gestos, os modos, o corpo (BORROMEO, 1583, p. 478), para chegar ao estilo de vida que devia ser condizente com a mensagem transmitida, segundo a fórmula concordet sermo cum vita. Essa adaequatio se justificava por dois motivos: antes de tudo, colocando-se como canal de transmissão da mensagem divina, o pregador precisava manter a pureza, uma vez que sua atividade - escreve Borromeo - não era resultado da ciência humana, mas da graça do espírito santo (p. 479); em segundo lugar, era necessário que o pregador do verbo de Deus passasse credibilidade ao seu auditório. Retomando quanto dizia Gregório Magno, o pregador era obrigado a limpar a si mesmo antes de limpar os outros41 (p. 475). Nas instruções de Borromeo, o estilo de vida exemplar inclui a escolha de roupas modestas, a frugalidade à mesa, a recusa de dinheiro, o desapego às coisas materiais, etc. (p. 478). De forma semelhante, Botero identifica na lascívia, cupidez, e na ambição da glória os vícios que podem corromper o espírito (1585, p. 29).
A sintonia entre secretário e patrão se encontra também na parte dedicada à palavra sagrada. E é aqui que o ex-jesuíta mostra toda a sua deferência à doutrina que imperava na diocese de Milão. Seguindo as ideias de Borromeo, Botero tinha que deixar de lado a elegância, os formalismos, os requintes petrarquescos, para dar lugar a um estilo de matriz agostiniana, resgatando, no registro linguístico popular, uma eloquência sagrada livre de adereços, que fosse inteligível e compreendida por todos (FUMAROLI, 2002, p. 157). A concepção da retórica de Borromeo se sustentava no De doctrina christiana de Agostinho, “chave de volta de toda a eloquência católica” (p. 136), texto que orienta também o tratado boteriano. Seguindo Agostinho, Botero recupera a simplicidade da palavra de Cristo nos modos em que ela foi transmitida pelos padres da Igreja primitiva (1585, p. 45-50). Como explica outro tratadista, o franciscano Panigarola, a simplicidade captava a integridade da mensagem cristã; um discurso simples transmitia intenções puras (1609, p. 31). A finalidade era aquela de aproximar os fiéis à mensagem de Cristo, e, para que a operação tivesse êxito, era preciso investir os esforços no medium que ligava o pregador à sua audiência, isto é, a linguagem. Esta devia ensinar e suscitar emoções, ou, como dizia Botero, docere et permovere (1585, p. 39v), numa clara alusão a uma normativa antiga de origem grego-romana pela qual o discurso cumpria três finalidades: docere ou probare, delectare, movere ou flectere. Na adaptação cristã da retórica, tratava-se de ensinar os preceitos da fé e penetrar no coração das pessoas com um vernáculo simples, sem artifícios, privilegiando a perspicuitas, isto é a clareza. Para que a comunicação unisse emitente e receptor em um terreno de significados compartilhados buscava-se adequar o sermão pro audientis capacitate42. Era esta uma fórmula do De Catechizandis rudibus de Santo Agostinho bastante conhecida aos pregadores mais atentos, os quais não ignoravam a composição social do auditório, que demandava um cuidado particular quanto à comunicação. A exigência de modular a retórica de acordo com o tipo de ouvintes apelava para a eficácia da penetração social da palavra. Já Borromeo destinara alguns pontos de suas instruções a esse tema43. Valier também aprofundara o tópico trazendo um número considerável de exemplos (PATRIZI, 2014, p. 267). Botero retomou a questão da heterogeneidade social do público, fazendo-se necessária uma pregação diferenciada uma vez que, como ele diz, homens, mulheres, moradores do campo e da cidade, mercadores e magistrados, não são iguais (1585, p. 84v). Contudo, apesar das diferenças, o pregador deve sempre agir com prudência, preocupando-se apenas em transmitir a palavra de Cristo, sem se perder em divagações inúteis que poderiam ser mal-entendidas pelo auditório, ou desviar a atenção para pensamentos negativos (p. 84v).
No De praedicatori verbi Dei, a incorporação das ideias do futuro santo é tamanha que o secretário cumpriu uma verdadeira “palinódia respeito ao seu aprendizado jesuítico” (DESCENDRE, 2011, p. 250). Como já antecipamos, esta renúncia se tornou necessária uma vez que é com a postura do secretário que Botero escreveu o tratado. Esta postura tem levado a críticas como aquela de Chabod para o qual Botero entregou suas qualidades intelectuais para a causa contrarreformista de Borromeo, “sacrificando no altar da mais rígida ortodoxia toda a sua bagagem erudita” (p. 286-287). Para este historiador, a intransigência do piemontês chega a ser desconcertante, no momento em que ele limitava ao essencial o recurso a escritores clássicos, e renunciava àquela combinação de eloquência sagrada e profana pregada pelos jesuítas, em prol de uma retórica eclesiástica embasada na Escritura e nos exemplos hagiográficos.
No tratado sobre a pregação de Botero, de fato, há uma suspensão das recomendações que aprendera no Colégio Romano, e uma ênfase sobre a eficácia da eloquência que deve ser respeitosa dos princípios de moderação do decorum, em detrimento de um ornatus requintado, revirando assim o ideal retórico dos jesuítas, os quais não procuravam apenas a utilidade, mas também a beleza do discurso44. Segundo quanto escreve Marc Fumaroli, a adesão ao modelo agostiniano do De doctrina christiana não comportava, todavia, a abjuração total da tradição clássica pagã, quanto uma sua utilização moderada e renovada em chave cristã (2002, p. 149). Com efeito, no quinto livro do Praedicatore verbi Dei, Cícero é evocado como garante de um ornatus equilibrado que aconselha o bom pregador a moderar os gestos, a voz, as sentenças. (p. 95v). Mas já antes, no terceiro livro, para dar força à argumentação em favor da eloquência agostiniana, Botero recupera uma passagem do De oratore, em que Cícero criticava a retórica colorida dos sofistas, e mais especificamente de Górgias (p. 41v). Ironicamente, a justificação de uma oratória simples utilizava o mais completo dos mestres de retórica. Obviamente, não se trata de uma contradição45, quanto de uma recuperação redutiva e forçada, em que o célebre orador latino perde suas características para ser augustinisé; “a concordância entre a doutrina oratória de Cícero e aquela de Agostinho é a pedra angular da estética oratória cristã”, glosa Fumaroli (p. 149).
A defesa de uma retórica enxuta e preeminentemente cristã precisa ser entendida no quadro de uma ofensiva da Igreja tridentina contra aqueles pregadores que estavam desviando de sua verdadeira missão: propagar a mensagem de Cristo. Os oradores pouco recorriam às sagradas escrituras e exibiam uma retórica que era considerada inútil, ou acabavam praticando um exercício de vaidade. Botero mostra ser um agente dessa vontade normatizadora e restauradora no momento em que fixa na adoção do suporte literário cristão a fonte exclusiva da pregação. Recorrendo ao exemplo de São Paulo, afirmava que as coisas do espírito precisam ser tratadas espiritualmente (BOTERO, 1614, p. 152). Essa tomada de posição leva Botero a adotar uma acentuação da oratória eclesiástica, ou, como diz Chabod, uma “interpretação rígida da Contrareforma” (1967, p. 286), que chega à autocensura e a renegar seu passado recente de versejador quando considera a poesia uma forma de expressão vazia (p. 287). Uma postura inflexível se comparada com aquela do amigo Panigarola, o qual, na defesa da beleza da língua florentina - evidentemente influenciado por Pietro Bembo e pelo debate quinhentista sobre a língua - louva Boccaccio, cujo Decamerone fora colocado no índice de livros proibidos pelo papa Paolo IV (CHABOD, 1967, p. 286). Há também uma diferença entre os dois no tratamento dado aos autores pagãos sobre os quais Panigarola, na sétima questão eclesiástica de seu Predicatore, cita São Paulo, Agostinho, e os comentários do padre Pereira, para defender o uso e a leitura dos clássicos do mundo grego e romano, mostrando, de novo, uma abertura maior que Botero46.
O tratado do piemontês se caracteriza como uma defesa de ofício da eloquência sagrada escrito mantendo uma aderência às posições expressas por Borromeo. De acordo com a leitura proposta, desde a evocação na dedicatória, é manifesta a presença de Borromeo cujos pensamentos foram assumidos, elaborados e transmitidos pelo seu secretário que, com esse livro, se fez portador de um ideário de pregador e de um modelo oratório que o arcebispo teria aprovado. Ao irradiar os princípios retóricos do futuro santo, Botero se tornou mensageiro, alcançando, assim, aquela condição angelical da qual falava Sansovino. Uma condição que pressupõe a experiência de uma transformação. Com espírito de abnegação, Botero vivenciou um processo, comum a muitos servidores, pelo qual se tornou outro em relação a si mesmo, mas a experiência, neste caso específico, teve um caráter devocional. Um cupio dissolvi que é compreensível entendendo a redação do livro não apenas como mero serviço prestado no cumprimento do programa da diocese, mas, ainda, como encarnação de um empenho espiritual e identificação com um modelo de virtude cristã a ser imitado.
Retórica e militância
A contribuição de Botero para o tema da pregação não teve muitas repercussões. O livro contou com apenas uma edição, circulando pouco. Sua qualidade foi inferior à de outras obras sobre o tema - como sugerem os rápidos paralelos com a retórica de Valier, ou o escrito bem mais consistente de Panigarola - mas cumpriu uma função significativa para o seu percurso de letrado militante, aumentando a convicção de que a retórica é um veículo essencial para propagar o evangelho e frear o avanço dos protestantes. Era esta uma batalha travada com as mesmas armas dos adversários, os quais exaltavam o ministério da palavra sobre a função sacramental (MORÁN e ANDRÉS-GALLEGO, 1998, p. 140). O ato de publicação de um livro sobre a pregação em Paris - teatro naqueles anos de conflitos religiosos entre protestantes e católicos - pode ser visto, nesse sentido, como um posicionamento a favor da parte católica. Em uma página do tratado dedicado ao ofício do cardeal, Botero ficava pasmo com a quantidade de livros publicados pelos “hereges” (1599, p. 10). É o reconhecimento da perícia dos protestantes no uso da imprensa, mas é também a tomada de consciência pela qual o livro está no centro de uma competição entre duas vertentes confessionais que visavam o controle da comunidade dos fiéis. Como já foi acenado, Botero foi consultor da Congregação do Índex, acompanhou de perto o funcionamento da máquina censória, aplicou suas normas e, o que mais interessa, não lhe escapou o poder de persuasão que o texto impresso possuía na sociedade de então. No embate com o mundo protestante, não era suficiente agir apenas com a censura, era preciso também oferecer exemplos positivos. O De praedicatore verbi dei podia ser, nas intenções de seu autor, portador de uma mensagem construtiva, uma pequena contribuição dentro de uma política editorial mais ampla que cabia à Igreja promover. Por isso, Botero sugeria que os cardeais incentivassem as publicações de conteúdo religioso (1599, p. 13).
No livro sobre o cardeal, a pregação do evangelho é retomada no quadro de uma discussão sobre as atribuições desse prelado47. Agora não se trata mais de registrar o modelo retórico de Borromeo para uso dos pregadores, quanto mostrar as potencialidades da eloquência sagrada na defesa do catolicismo. Isso comporta um deslocamento da análise dos aspectos conceituais para as consequências sociais e políticas da retórica. Um tom belicista paira nas páginas iniciais do Dell’uffitio del Cardinale onde a sagrada escritura é comparada com “uma espada de Deus com a qual há de se cortar as cabeças poluidoras da heresia”48 (p. 7). A “boa forma de pregar”49 (p. 40) é, portanto, considerada como parte de uma reflexão sobre os meios mais eficazes para fortalecer as fronteiras da sociedade cristã. Botero acorda tanta importância à formação dos pregadores que, segundo ele, a perda de católicos na Alemanha se deve à “maneira ruim antes praticada na pregação do Evangelho”50 (p. 40-41). Para corrigir os desvios, uma redefinição da ars praedicandi em chave anti-escolástica estava sendo proposta dentro da Igreja há algumas décadas e tinha mobilizado personalidades como Girolamo Seripando e Cornelio Musso, entre outros51. Os dois se empenharam na reorganização da retorica eclesiástica com uma pregação exemplar, e com sugestões normativas, tendo participado das atividades conciliares em Trento onde o tema da homilética foi discutido desde as primeiras sessões. Plenamente inserido neste processo de renovação, para Botero o antidoto à má pregação se dá recorrendo a bons oradores, conforme ele sugere no De praedicatore verbi dei e reforça em outros escritos posteriores como o Ragion di Stato. Aqui, na parte dedicada aos modos de propagar a religião, ele escreve que o príncipe devia ter a cautela de escolher “pessoas religiosas de excelente doutrina e virtude”52 (1997 [1589], p. 63). O príncipe tinha todo interesse em favorecer e dilatar a fé católica porque esta era a melhor aliada na manutenção do Estado, já que a religião podia garantir o controle das consciências (p. 61). Estas duas passagens extraídas da obra mais famosa de Botero atestam, na relação direta entre a pregação e o interesse do príncipe, a ligação do espiritual com o temporal, e ainda, parafraseando Victoria Kahn, a conexão entre retórica e política (KAHN, 1997, p. 61). Botero defende a ideia que a religião, e mais especificamente a pregação do evangelho, joga um papel estratégico para a ampliação e conservação do poder político. A atenção para as consequências políticas da eloquência sagrada retorna nas Relationi Universali, onde a relação entre Igreja e Estado é desenvolvida com o aporte de vários exemplos. Aqui, o poder da palavra integra e supera o das armas:
Ficou provado que na França, na Flandres, os Capitães tiveram muito menos efeito no serviço da fé católica do que os pregadores: e as armas do que a doutrina, de forma que nesta matéria as armas não devem ser usadas, a não ser para abrir a porta à pregação da verdade53 (2015 [1596], p. 855).
Botero reduz o papel da guerra sem, no entanto, excluí-lo. Ela não é eficaz para propagar o evangelho, mas necessária para abrir as portas para a pregação. Um exemplo ulterior é oferecido pelo Novo Mundo no qual o sucesso dos conquistadores se deveu ao valor dos soldados e ao favor divino, ou como diz Botero “a Marte e a Christo” (p. 1146). No entanto, as expedições de Colombo, Cortés e Pizarro seriam estéreis sem a continuidade missionária que, com sua obra e pregação, assegurou o controle de territórios extensos. A história do Novo Mundo é, portanto, o exemplo de que com o favor divino e homens habilidosos na divulgação da palavra sagrada é possível realizar aquela unidade católica que em boa parte da Europa já não existia mais.
Conclusões
No clima de competição acirrada com o mundo protestante, a proteção do rebanho católico - para usar uma metáfora cara a Carlos Borromeo - obrigava a uma reflexão sobre as medidas a serem tomadas para que se evitasse a sua dispersão; uma das estratégias de intervenção adotadas apontou, justamente, a pregação como uma forma de controle e um recurso que integrava a ação sacramental. Botero aplicou essa defesa dos valores cristãos em seus escritos. Modelo de letrado engajado na defesa do mundo católico face à cisão causada pela Reforma protestante, e ciente de que a batalha contra a dissidência tinha que ser conduzida no plano de um saber instrumental e renovado54, Botero usou papeis e tinta, “la lingua e la penna” (BOTERO, 1599, p. 56), como instrumentos para a propagação da fé. A carreira intelectual de Botero aponta para um compromisso em tal sentido. Ainda que a experiência ambrosiana tenha deixado um patrimônio textual de qualidade modesta, ela representou um estágio significativo na construção do ex-jesuíta como um agente da política contrarreformista atento ao peso da palavra no controle das consciências. Mais do que um parêntese, o De praedicatore verbi Dei se encaixa coerentemente em sua produção literária.
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