Resenha

NÓS, OS FILHOS DE EICHMANN

Fernando Gomes Garcia
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil

NÓS, OS FILHOS DE EICHMANN

Revista de História (São Paulo), no. 183, r00923, 2024

Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Departamento de História

ANDERS Günther. Nós, filhos de Eichmann: carta aberta a Klaus Eichmann. 2023. Editora Elefante

Received: 01 August 2023

Accepted: 12 April 2024

Adolf Eichmann e sua equipe participaram, em 1942, da Conferência de Wansee. A partir de então, tornou-se responsável pelo transporte em massa dos judeus para os campos de extermínio. Ao fim da Guerra emigrou-se para a Argentina sob o nome de Ricardo Klement. Em 1960, agentes do Mossad o capturam na América do Sul e o levam a julgamento em Israel. Na famosa cobertura do julgamento feita por Hannah Arendt, consagrou-se, em relação a Eichmann, a expressão de “banalidade do Mal” - a ética do técnico que não sabe pensar, apenas obedece a ordens. Entre 31 de maio e 1 de junho, Eichmann foi enforcado, na até então única pena de morte imposta pelo estado de Israel, e suas cinzas foram espalhadas pelo mar.

Foi assim que surgiram os filhos de Eichmann. Günther Anders2 os refere não como os filhos biológicos de Adolf Eichmann, que retrospectivamente, teriam uma responsabilidade hereditária pelos feitos dos pais; os verdadeiros filhos de Eichmann seriam os filhos do monstruoso que a nossa época pariu. Os Eichmanns seriam os homens infames, obstinados, gananciosos e covardes que aceitariam trabalhos indecorosos, como a destruição de um grande número de seres humanos, que disputaram esses postos e perderam sua humanidade a fim da eficiência, do cumprimento da ordem, do ser uma engrenagem alienada numa máquina. Os filhos de Eichmann, portanto, não se confundem com Klaus Eichmann, filho mais velho de Adolf, a quem Anders escreve, mas possivelmente a todos os seres humanos de nossa era monstruosa que vagam por aí. Klaus Eichmann, não necessariamente é um Eichmann. Com a recusa de seu pai ele pode ser um de nós, uma das vítimas de seu pai, o seis milhões mais um. A chance de Klaus Eichmann em ser um de nós resiste em sua negação de seu pai, de seus crimes, em seu afastamento dele - enfim, em romper com o mandamento “honrar pai e mãe” que, neste caso, seria algo nobre.

Isto é, não lhe é permitido recorrer a seu próprio pertencimento hereditário. O fato de descender de seu pai não lhe dá o direito de se solidarizar com ele - ao contrário, você é obrigado a se desligar de sua origem. Você, de forma solidária a nós, deve renegá-lo (ANDERS, 2023, p. 17).

Paradoxalmente, o que igualaria Klaus aos demais seres humanos, os que não tiveram o infortúnio de nascer de um assassino em massa, de uma eminente figura do nazismo e signo de morte em massa, seria a segunda morte de seu pai. Após a guerra, os nazistas não desapareceram do mundo, e muitos deles deixaram uma prole, legando o problema ético da culpabilidade dos filhos de nazistas. Filhos inocentes, diga-se, no mais das vezes, que herdaram a culpa dos pais. Estes podiam ser “normais” em casa, carinhosos, “como pais quaisquer” dentro do lar, mas fora dele operavam a maquinaria de assassinato em massa, seja por seus cargos burocráticos ou seja na linha de frente. Poderiam, ao inverso, ter uma educação rígida e violenta e vitimarem os próprios filhos, com brutalidade e com um legado de uma culpa impossível de carregar. Nestes casos, para se redimir, renegar a hereditariedade é um destino maior que os próprios laços familiares e genéticos. Portanto, um paradoxo: a hereditariedade funciona como destino, não para a culpa retrospectiva, mas para sua sonegação. E, do outro lado, mais filhos de Eichmann poderiam surgir sem que deles fossem filhos, naturalmente, como ocorre em nosso tempo de monstruosidade. Klaus Eichmann só poderia ser filho de seu pai se perdesse o seu pai - não uma, mas duas vezes.

Quais seriam essas perdas? A primeira, evidente, seria a do enforcamento do pai e de sua redução a cinzas - a morte biológica de Adolf Eichmann. A segunda perda seria a do reconhecimento da equação “ele é ele”, Eichmann é meu pai, e meu pai é um criminoso de guerra. Certamente, uma desgraça não merecida e digna de padecimento (ANDERS, 2023, p. 9)

O momento no qual realmente lhe apareceu a equação “ele é ele” é, para mim, portanto, desconhecido. Mas, assim que esse momento ocorreu (ou assim que ocorrer, caso ainda não o tenha), também nesse dia seu pai morreu para você, e não somente no dia em que você soube da morte dele. Por esse motivo eu havia afirmado que você o perdeu duas vezes (ANDERS, 2023: pp. 10-11).

Essa outra perda, a perda não biológica do pai, a perda da figura paterna consumida por Adolf Eichmann, infligiram dores suplementares, que não podem ser subestimadas: a impossibilidade do luto. Pois apenas se respeita a perda de quem pudemos respeitar - e quem pode respeitar um assassino nazista? O luto de Klaus Eichmann deve ter sido interditado - isso se ele se tornou um de nós. A criatura moral que chora e a criatura moral que respeita formam uma unidade, não podem ser cindidas:

Para você, essa unidade certamente não é nada reconfortante. Pelo contrário: sela sua infelicidade. Se você perdeu a chance de chorar a perda de seu pai, foi justamente porque luto não é possível sem respeito, e porque seu pai lhe roubou a possibilidade de respeitá-lo (ANDERS, 2023, p.15).

Klaus Eichmann deveria renunciar chorar o luto pela morte do pai para reencontrar o luto da morte e se tornar um de nós.

Mas por que Günther Anders lhe escreve essa carta? Apenas para confortar o filho do nazista, dizendo que ele não é culpado pelos crimes do pai? Escreve-lhe, ao contrário, para oferecer-lhe uma chance de redenção, de minimizar sua perambulação sem sentido por aí. A chance seria engajar-se na luta contra os armamentos nucleares, a nova ameaça da época em que Anders escreveu a carta, que não deixa de ser nossa época e nossa ameaça. O que foi tornado possível ontem, ou seja, o Holocausto, ainda é possível hoje, e em pior escala, com o genocídio nuclear (evidenciando a ligação entre Holocausto e armas nucleares na mente de autores de 1960). Escreve-lhe para se juntar ao grupo que se manifesta contra a monstruosidade de nossa época, para não ser um verdadeiro filho de Eichmann. E quem são esses verdadeiros filhos? O monstruoso é a “eliminação institucional e industrial de seres humanos” e que capangas, como o pai de Klaus, existem para colocar o plano em prática. (ANDERS, 2023, p. 19). É preciso lutar contra a repetição do monstruoso, que agora não se reduz apenas ao Holocausto, mas a todas as possibilidades engendradas por ele e que podem lhe ultrapassar em escala e monstruosidade. O mundo que o Holocausto tornou possível é um mundo monstruoso. Klaus Eichmann, descendente do Caim pós-guerra, deveria se juntar a causa antinuclear para evitar mais derramamento de sangue. A desgraça de sua existência deveria servir de exemplo para não apenas expiar a culpa pessoal, mas servir de exemplo na causa.

Mas por que o nosso mundo, o mundo pós-Auschwitz e Hiroshima e Nagazaki são tão perigosos? Por que uma repetição da monstruosidade é tão possível, senão provável? Não pela maldade e bondade humana, mas pela comaquinização do mundo. Nas palavras de Anders, “nós nos tornamos criaturas de um mundo técnico” (ANDERS, 2023, p.24). Isso não significa que o homem inventou a tecnologia, mas que se tornou, em certa medida, seu escravo. O mundo deixou de ser nosso para ser demais para nós. Abriu-se e continua a se abrir um vão entre a nossa faculdade de produção e imaginação. Nosso aumento da capacidade técnica é ilimitado, enquanto a nossa capacidade de imaginar é limitada. Não conseguimos compreender e imaginar o que fazemos. Eis o material com que se produzem filhos de Eichmanns. O “esclarecimento” humano anda em marcha inversa ao progresso técnico, de modo que nos tornamos cegos para as nossas próprias produções. Nos tornamos comaquinais.

Uma vez que a raison d’être das máquinas consiste no desempenho, ou mesmo no desempenho máximo, elas, isto é, cada uma delas, necessitam de mundos circundantes que garantam esse máximo. E elas também conquistam aquilo de que necessitam. Toda máquina é expansionista, para não dizer “imperialista”; cada uma delas cria para si seu próprio império colonial de serviços (composto por fornecedores, equipes de serviços, consumidores etc.) (ANDERS, 2023: p. 49).

O mundo das máquinas deseja que não exista nada que não seja máquina ou que não as sirva como máquinas, que não sejam suplementos delas ou engrenagens, insumos. O mundo se transformaria em máquina e a máquina se transformaria em mundo. Anders, que fora aluno de Heidegger, certamente esteve a par de suas reflexões sobre o mundo da técnica, o que permite uma adoção do vocabulário heideggeriano para descrever a situação. O Dasein sempre empregou e produziu em seu benefício tecnologias que o ajudassem. Mas sempre o Dasein consistia num modo de ser-com os outros e a tecnologia permanecia um subsistente no mundo. O que ocorre com o progresso acelerado da técnica e a maquinização do mundo é que o próprio Dasein passa a ser um subsistente no mundo circundante e sua relação do mundo se vê cada vez mais fechada. O campo é visto como fonte da indústria agropecuária, o rio como fonte de uma usina de energia - o mundo e seus entes são reduzidos a meros instrumentais para a máquina. Voltando aos termos de Anders, essa é uma situação técnico-totalitária. E os filhos de um mundo totalitário são os filhos de Eichmann, ou suas vítimas.

Por que vítimas? Porque todos somos afetados pelo monstruoso e podemos, a qualquer momento, padecer sob ele. Somos filhos de uma mesma época. O que foi infligido às vítimas ultrapassa à capacidade de representação, e até Klaus Eichmann seria uma vítima, nesse caso - o seis milhões mais um. O monstruoso nos impede de compadecer de seis milhões de vítimas. “Seis milhões permanece, para nós, um número, enquanto a notícia de dez assassinados talvez ainda possa ressoar em nós, e o assassinato de uma única pessoa nos enche de horror” (ANDERS, 2023, p.29) Por que filhos de Eichmann? No sentido efetivo dessa paternidade, não os laços sanguíneos. No sentido de podermos ser carrascos, perpetradores, verdadeiros Eichmanns. Por, novamente, sermos os filhos de uma mesma época. Assim como os seis milhões é irrepresentável para suas vítimas ou para quem queira delas compadecer, ele era irrepresentável para os assassinos. Quem mata uma pessoa planeja e consegue visualizar a dimensão de seu ato. Quem, impessoalmente, coordena ou faz parte da máquina assassina está alienado. Não consegue vislumbrar o abismo entre o planejamento e o resultado final; entre nossas tarefas e a capacidade de sentir.

A insuficiência de nosso sentir não é simplesmente um defeito entre outros; também não é apenas pior que o fracasso de nossa imaginação e de nossa percepção, mas é até mesmo pior que as piores coisas que já aconteceram; e com isso quero dizer: até pior que os seis milhões. Por quê? Porque é esse fracasso que permite a repetição das piores coisas; que facilita sua progressão; que torna até mesmo inevitável essa repetição e essa progressão. Pois entre os sentimentos que falham não está só aquele do horror ou do respeito ou da compaixão, mas também o sentimento de responsabilidade. Por mais infernal que possa soar, vale para esse sentimento a mesma coisa que para a imaginação e para a percepção: ele se torna tão mais impotente quanto maior é o efeito a que visamos ou que já alcançamos; ele se torna igual a zero - e isso significa que nosso mecanismo de inibição se paralisa completamente - assim que se ultrapassa certa grandeza mais elevada. E, porque essa regra infernal é válida, o caminho para o “monstruoso” está aberto. (ANDERS, 2023: p. 29).

Adolf Eichmann participou da construção, da arquitetura do morticínio de judeus. Por isto ele não pode ser perdoado. Ele era uma engrenagem da máquina, mas uma engrenagem que, se não conseguia vislumbrar totalmente os efeitos dos seus atos, podia, por isto mesmo, recusar fazê-lo - por ser inimaginável. Mas seus filhos espirituais, os filhos de Eichmann de nosso tempo, podem cometer atrocidades justamente pela separação entre a nossa capacidade de imaginação e fazer do resultado de nossas ações. Há o desmesurado entre ver o resultado final e ser uma peça da máquina de destruição. A responsabilidade por um ato diminui a ponto do nulo, assim como seu efeito é aumentado - pela capacidade de imaginação reduzida. “Devemos realmente admitir que os milhões de trabalhadores de hoje, embora cúmplices do monstruoso, permanecem cúmplices inocentes” (ANDERS, 2023, p. 36). O sonho quiliástico do reino das máquinas caminha a todo progresso rumo a nossa aniquilação como seres humanos. O Reich como um passo na estrada desse sonho, não foi um fato isolado ou fora da curva, atípico, como queiram. Para Anders, o terror por vir será maior que o Reich se nada fizermos para impedir. Os mesmos motivos por que Eichmann existiam no Terceiro reich, serviçais capazes de matar para subir na carreira ou sem vislumbrar que sua obra maligna culminava na irrepresentável magnitude de cadáveres, também hoje existem os capazes de apertar botões e disparar arma nucleares.

Você percebe algo, Klaus Eichmann? Percebe que o assim chamado “problema Eichmann” não é um problema de ontem? Que ele não pertence ao passado? Que não há absolutamente motivo algum para nós - e aí posso excluir apenas uns poucos - olharmos o passado com presunção? Que todos nós, assim como você, somos confrontados por algo que nos é grande demais? Que, diante disso, todos nós afastamos o pensamento sobre o grande demais e sobre nossa ausência de liberdade? Que, portanto, todos nós somos igualmente filhos de Eichmann? Ou ao menos filhos do mundo de Eichmann? (ANDERS, 2023, p. 57).

E assim como no nosso mundo de hoje caminham filhos espirituais de Eichmann, prestes a ocupar o cargo do pai e de maneira mais monstruosa; assim como o Reich não foi uma excepcionalidade; também a experiência de que a nossa era é diferente deve se assemelhar à experiência da segunda perda do pai por Eichmann. O velho pai é o mesmo que o novo pai. “Ele é ele”. O mundo monstruoso não ficou para trás, ele é um porvir.

Eis a lição mais poderosa do livro de Anders. Nele também consta uma segunda carta, de 1988, a um Klaus Eichmann mais velho, que não respondera à primeira carta, ao chamado para renegar seu pai, e muito menos justificara uma controversa asserção de que o pai era inocente, julgado pelo dinheiro judeu. Não, seu pai não foi negado e Klaus Eichmann perdeu a chance de inocentar-se na cadeia hereditária e tomou-a como destino. Assim, os apelos de Anders e sua imaginação sobre como o filho de Eichmann poderia ter se sentido na perda do pai tornaram-se inócuas. Não podemos dizer que somos como Klaus Eichmann, que ele é um de nós. Não podemos dizer que a segunda perda do pai lhe foi mais dolorosa que a primeira, pois, ao que parece, foram uma só. Porém, endereçada à Klaus Eichmann, a carta também tem por destinatário todos nós. Nós, que também somos filhos de Eichmann, apesar de qualquer que seja nossa verdadeira ascendência, nós que também perdemos a capacidade de nos responsabilizar pelo nosso trabalho, nós que vivemos uma discrepância entre imaginação e efeito de nossos atos. E serve de reflexão para todos os verdadeiros filhos de nazistas e mitläufers que caminham sorumbaticamente sobre a terra, a segunda geração de perpetradores, que queiram se afastar da culpa paterna - o convite para renegar seus pais e abraçar o mundo em comum ainda está em aberto para todos.

Referência Bibliográfica

ANDERS, Günther. Nós, filhos de Eichmann: carta aberta a Klaus Eichmann. Editora Elefante, 2023.

Notes

2 Algumas considerações biográficas sobre Günther Anders. Nascido em 1902 em território do Império alemão, aluno de Edmund Husserl e Martin Heidegger. Também foi esposo de Hannah Arendt entre 1929 e 1937, que permaneceu uma importante interlocutora do autor durante sua obra. A partir da ascenção do nazismo, em 1933, exilou-se primeiro na França, onde conviveu com Walter Benjamin, e depois para os Estados Unidos. Escritor de diversas obras e tipos literários, a autoaniquilação da humanidade permaneceu tema central de seu pensamento, com A obsolescência do Homem, sendo sua obra mais famosa; e com Kafka: Pró e Contra sendo traduzida no Brasil. A carta a Klaus Eichmann foi escrita, primeiramente, em 1964, três anos após a condenação à morte de Adolf Eichmann, com a complementação da segunda carta sendo feita em 1988, a reboque do Historikerstreit, que, dentre outros temas relativo ao lugar do Holocausto na memória coletiva alemã, discutia a unicidade do Holocausto frente aos crimes stalinistas. Temos, em português, a tradução dos textos por Felipe Catalani, mestre em Filosofia pela USP, datada de 2023. Mais informações sobre o autor podem ser encontradas ao final do livro resenhado.

Author notes

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