RESENHA
UMA HISTÓRIA DA IGNORÂNCIA?1
| BURKE PeterSeabra Rodrigo. Ignorância: uma história global. 2023. São Paulo/Belo Horizonte. Vestígio |
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Received: 30 November 2023
Accepted: 25 March 2024
Abismo. Véu. Neblina. Correntes. Quais metáforas poderiam traduzir o sentido da ignorância para a história? Fake news. Pós-verdade. Segredos de Guerra. Quais fenômenos poderiam ser examinados sob o prisma da ignorância? Como explicar o ódio às universidades e à imprensa nos tempos atuais? Como entender o fato de que nunca se conheceu tanto na história humana, mas a impressão que temos é a de que nunca houve tanta ignorância? Essas são apenas algumas das perguntas levantadas pelo mais recente livro de Peter Burke: Ignorância: uma história global.
Burke é um dos historiadores ingleses mais lidos e traduzidos no Brasil. Desde o famoso Cultura popular na Europa moderna, de 1978, o autor produziu dezenas de livros sobre diversas temáticas, desde o Renascimento até Gilberto Freire, passando pela propaganda cortesã de Luís XIV. Contudo, pelo menos nos últimos 20 anos, Peter Burke vem se dedicando ao problema daquilo que ele chamou de “História social do conhecimento”, área na qual publicou pelo menos 5 livros e outros inúmeros artigos3.
Seu novo livro - lançado em língua inglesa em 24 de janeiro de 2023, e em língua portuguesa em 26 de maio do mesmo ano - está inserido nesse conjunto de escritos4. Sua intenção é escrever uma história social da ignorância como um oposto complementar à história social do conhecimento (BURKE, 2023, p. 69)5. Seu novo livro está em consonância com a expansão de uma área que vem sendo cada vez mais discutida: a história da ignorância. Apesar de essa categoria ter sido abordada por diversos tratados teológico-filosóficos desde a antiguidade, apenas a partir da década de 1980, a ignorância passou a ser investigada enquanto um campo de pesquisa específico. Um dos primeiros a se dedicar a essa temática diretamente talvez tenha sido Robert N. Proctor, responsável por fundar, em 2008, o campo da Agnosology6. Desde então, essa área de estudos vem crescendo continuamente, com destaque para “The unknown in process” (GROSS, 2007) e The dark side of knowledge (ZWIERLEIN, 2016).
Publicada originalmente pela Yale University Press, o livro possui uma bela edição de cor verde-turquesa, com imagens bem selecionadas no miolo, acompanhada de um índice nominal completo. A recente edição brasileira reproduz a mesma capa, mas com o fundo branco. Publicado pela editora Vestígio, e traduzido por Rodrigo Seabra, o livro também conta com um prefácio muito provocativo do nosso ex-ministro da Educação e professor de Filosofia na USP, Renato Janine Ribeiro.
O livro é separado em duas partes: “Ignorância na sociedade” e “Consequências da ignorância”. Em coerência com seus trabalhos anteriores, a obra é bem escrita, erudita e ampla, tanto geograficamente quanto temporalmente. Sem pretender esboçar uma história da ignorância em ordem cronológica, o livro é dividido por áreas ou temáticas que são examinadas a partir de um repertório documental bastante diverso. A grande quantidade de exemplos é garantia de um livro impossível de ser cansar. Ele trata de temas tão variados quanto a “era da ignorância” islâmica, até questões contemporâneas como o governo de Bolsonaro, sem perder o rigor metodológico e o fio condutor de sua investigação.
Nos dois primeiros capítulos, a definição de ignorância é apresentada à luz da etimologia e da Filosofia. No capítulo 3, intitulado “Ignorância coletiva”, esse conceito foi articulado à classe, ao gênero e principalmente à raça, campo a partir do qual o conceito de “epistemologias da ignorância” ganhou projeção. No capítulo 4, o estado da arte das “histórias da ignorância” é esquadrinhado. Curiosamente, a dimensão metodológica é discutida apenas no capítulo 5, no qual ele esclarece que a ignorância deve ser entendida através de uma “tarefa multidisciplinar” e “polifônica” (BURKE, 2023, p. 60).
O capítulo 6, reservado à ignorância na religião, como seria de se esperar, é bastante extenso. Aqui, Burke considera as ignorâncias mútuas entre as religiões e o desenvolvimento do agnosticismo no século XIX. A partir do capítulo 7, o historiador cumpre com sua palavra no que concerne à interdisciplinaridade. Ao tratar da História da ciência, aborda períodos mais óbvios para discutir esse problema, como o tema da revolução copernicana, e outros menos óbvios, como a resistência às novas teorias. Nesse capítulo, há menções muito concretas à presença da ignorância na contemporaneidade. São citados, por exemplo, o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro e o crescimento dos discursos da extrema direita. O capítulo 8, destinado à ignorância geográfica, é de uma erudição tão grande quanto a sua pretensão. Trata-se do capítulo final da primeira parte, cujo foco são os mapas secretos, as viagens de descoberta e os temas ecológicos em praticamente todo o globo. A análise sobre a China se destaca, sendo discutida a “relativa ignorância” dos europeus frente a essa nação, bem como a ignorância da China frente à Europa.
A parte II do livro se dedica às “consequências da ignorância”. Em continuidade com o capítulo anterior, o capítulo 9 trata da ignorância na guerra, seja em suas vitórias, derrotas, erros, massacres, genocídios, estratégias, etc. Aqui tudo parece ser influenciado pela ignorância. Valendo-se da imagem da névoa da guerra (the fog of war) (BURKE, 2023, p. 142), o autor se pergunta se as guerras poderiam ser descritas como triunfos do conhecimento sobre a ignorância. Além de relatar experiências pessoais, Burke menciona casos emblemáticos, como alguns da 2ª Guerra, e outros surpreendentes, como a Revolta de Canudos.
O capítulo 10 prossegue com um problema bastante palpável: os negócios. Nesse longo capítulo, temáticas como a ignorância na agricultura e nas crises econômicas são abordadas. Entretanto, provavelmente o que mais chama a atenção aqui é a referência ao consumo da ignorância. Longe de ser apenas intelectual, esse negócio é capaz de movimentar poderosas emoções, como o ódio ou a esperança, sendo utilizado inescrupulosamente para fins econômicos e políticos .
“Ignorância na política” é o assunto do capítulo 11. Continuando com seu estilo eclético e panorâmico, são trabalhados muitos exemplos de autocracias e democracias que utilizaram as “ignorâncias estratégicas” (BURKE, 2023, p. 186). Elas servem, segundo o autor, para ganhar eleitores e confiança; ou utilizar alguma justificativa como bode expiatório. O tom de denúncia não se perde no capítulo 12. Na verdade, ao se dedicar às “surpresas e catástrofes”, sublinha-se o peso da ignorância nos terremotos de Lisboa e do Japão, bem como a falta de conhecimento diante das inúmeras epidemias no mundo, com destaque para a Varíola, e, é claro, o Corona Virus. No capítulo 13, intitulado “Segredos e mentiras”, os múltiplos sentidos da dissimulação, da mentira, da censura e da espionagem na época moderna são revisitados. Sua ênfase, entretanto, está mais inclinada para os seus usos contemporâneos, como os hackers e o problema da pós-verdade - entre outros tópicos da máxima importância.
Nos dois últimos capítulos do livro, ele volta a examinar problemas mais abstratos. No capítulo 14, consagrado à incerteza do futuro, ganha destaque sua análise da crença na deusa da Fortuna desde a antiguidade até o Renascimento. Após um longo período em que a matemática dominou as ciências do tempo, Peter Burke defende que o regresso à imprevisibilidade do futuro é uma expressão da época contemporânea. A “melhor maneira de prever o futuro é criá-lo”7 é uma das desconcertantes frases que ajudam a entender esse processo. Tal como no caso do futuro, a ignorância é parte inextrincável do passado, objeto do capítulo 15. Ceticismo histórico. Negacionismos. Relativização histórica. Essas são algumas das matérias discutidas no último capítulo, conjugadas com um exame acurado da ignorância e da negligência do passado por parte dos tomadores de decisão diante da guerra, da fome e das epidemias.
O autor finaliza com a constatação de que a renovação das formas de conhecimento implica a criação de formas de ignorância. O problema é que “aqueles com poder muitas vezes carecem dos conhecimentos de que precisariam, enquanto aqueles que possuem esses conhecimentos carecem de poder” (BURKE, 2023, p. 292).
Apesar dos inúmeros méritos da pesquisa, é preciso notar algumas pequenas lacunas do livro. A primeira - e talvez a principal delas - concerne ao título. Em diversas ocasiões, Peter Burke reforça a necessidade de se escrever sobre a ignorância no plural. Ele apresenta pelo menos duas fortes razões para isso, em parte já explicadas: (1) existem muitos tipos de ignorância com consequências particulares; (2) para cada novo tipo de conhecimento, se produz uma nova forma de ignorância. Tendo em vista tais advertências, então por que o título do seu livro é “Ignorância: uma história global”, e não “Histórias globais da ignorância”? Além disso, se objetivo do livro é escrever uma história social da ignorância, por que o livro não se chama Social history of ignorance, mas Ignorance: a global history? O autor não parece fornecer justificativas muito claras a respeito8.
Essa colocação se associa a um outro aspecto criticável no livro. Todos nós ignoramos mais do que aquilo que conhecemos. Aliás, ignoramos até mesmo a extensão da nossa própria ignorância, conforme o autor pontua em algumas ocasiões. Por essa razão, ao se escrever uma história da ignorância, é evidente que haverá uma seleção. Se o termo ignorância pode servir como um guarda-chuva, como o próprio Peter Burke reconhece, então faltou explicar qual chuva caiu fora dele. Em outras palavras, faltou justificar por que alguns assuntos foram examinados e outros não. Apesar da incomparável erudição de Peter Burke, não há, por exemplo, um capítulo sobre a visão positiva acerca da ignorância, assunto da maior importância que já foi abordado por outros trabalhos9.
Não obstante, conforme mencionado, o livro possui qualidades excepcionais. A publicação de um livro sobre essa nova área do (não) conhecimento a partir de um autor do peso como Peter Burke é uma contribuição notável. Como se sabe, a existência e os usos da ignorância possuem uma história longeva e importante, apesar de ainda ser ignorada - pedimos perdão pela tautologia - pela historiografia. Peter Burke está ciente disso.
O historiador admite que Donald Trump e Jair Bolsonaro foram uma das principais motivações para escrever o livro. A propósito, ele cita dezenas de episódios e personagens relevantes do Brasil para a sua história global da ignorância. É o caso da Revolta da Vacina, do preconceito contra os Orixás, das ideias de Gilberto Freire, além do caso recente das conversas de Sérgio Moro divulgadas por Glenn Greenwald. Portanto, as leitoras e os leitores brasileiros têm motivos de sobra para entender como a ignorância possui um grande protagonismo na história, por vezes até mais do que o próprio conhecimento. Certamente o livro tem potencial para inspirar novos trabalhos sobre outras histórias da ignorância. Quem sabe assim não se desfaça a noção comum de que “ainda não parece inteiramente respeitável escrever sobre a ignorância”10.
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