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<journal-title>Bolema: Boletim de Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Bolema</abbrev-journal-title></journal-title-group>
<issn pub-type="ppub">0103-636X</issn>
<issn pub-type="epub">1980-4415</issn>
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<publisher-name>UNESP - Universidade Estadual Paulista, Pr&#xF3;-Reitoria de Pesquisa Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;&#xE3;o em Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica</publisher-name></publisher>
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<article-id pub-id-type="publisher-id">00006</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.1590/1980-4415v29n51a05</article-id>
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<subject>Artigo</subject></subj-group></article-categories>
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<article-title>Dispositivo Experimentoteca de Matem&#xE1;tica: produ&#xE7;&#xE3;o na iman&#xEA;ncia</article-title>
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<trans-title>Dispositif Experimentoteca de Matem&#xE1;tica: production in immanence</trans-title></trans-title-group>
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<name><surname>Rotondo</surname><given-names>Margareth Aparecida Sacramento</given-names></name><xref ref-type="aff" rid="aff1">*</xref><xref ref-type="corresp" rid="c1"/></contrib>
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<name><surname>Marocco</surname><given-names>Tamiris Taroco</given-names></name><xref ref-type="aff" rid="aff2">**</xref><xref ref-type="corresp" rid="c2"/></contrib>
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<institution content-type="orgdiv1">Faculdade de Educa&#xE7;&#xE3;o</institution>
<country country="BR">Brasil</country>
<institution content-type="original">Doutora em Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Professora da Faculdade de Educa&#xE7;&#xE3;o e do Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;&#xE3;o em Educa&#xE7;&#xE3;o da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Coordenadora do N&#xFA;cleo de Educa&#xE7;&#xE3;o em Ci&#xEA;ncia, Matem&#xE1;tica e Tecnologia (NEC/UFJF). L&#xED;der do Travessia, Grupo de Pesquisa certificado pelo CNPQ http://dgp.cnpq.br/dgp/faces/grupo/visualizar/visualizar_grupo_pesquisa.jsf?faces-redirect=true. Pesquisadora FAPEMIG.</institution></aff>
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<label>**</label>
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<institution content-type="original">Graduanda em Pedagogia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Bolsista de Inicia&#xE7;&#xE3;o Cient&#xED;fica BIC/UFJF. Membro do grupo Travessia. Pesquisadora FAPEMIG.</institution></aff>
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<author-notes>
<corresp id="c1">Endere&#xE7;o para correspond&#xEA;ncia: Universidade Federal de Juiz de Fora &#x2013; Faculdade de Educa&#xE7;&#xE3;o - Rua Jos&#xE9; Louren&#xE7;o Kelmer, s/n - Campus Universit&#xE1;rio Bairro S&#xE3;o Pedro - CEP: 36036-900 - Juiz de Fora &#x2013; MG. E-mail: <email>margarethrotondo@gmail.com</email>.</corresp>
<corresp id="c2">Endere&#xE7;o para correspond&#xEA;ncia: Rua Jos&#xE9; Louren&#xE7;o Kelmer, s/n - Campus Universit&#xE1;rio Bairro S&#xE3;o Pedro - CEP: 36036-900 - Juiz de Fora &#x2013; MG. E-mail: <email>tamiristaroco@gmail.com</email>.</corresp>
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<pub-date pub-type="epub-ppub">
<month>04</month>
<year>2015</year></pub-date>
<volume>29</volume>
<issue>51</issue>
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<lpage>109</lpage>
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<year>2014</year></date>
<date date-type="accepted">
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<year>2014</year></date>
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<license license-type="open-access" xlink:href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc/3.0/" xml:lang="pt">
<license-p>This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution Non-Commercial License, which permits unrestricted non-commercial use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.</license-p></license></permissions>
<abstract>
<p>O presente trabalho &#xE9; fruto de uma pesquisa cuja inten&#xE7;&#xE3;o &#xE9; investigar como s&#xE3;o potencializados os modos de subjetiva&#xE7;&#xE3;o atrav&#xE9;s do dispositivo Experimentoteca de Matem&#xE1;tica. Tal dispositivo foi acionado durante os encontros entre bolsistas de um projeto de Treinamento Profissional e escolares de uma escola da rede p&#xFA;blica de Juiz de Fora. A pesquisa busca cartografar as linhas de fuga que foram potencializadas durante a produ&#xE7;&#xE3;o matem&#xE1;tica nas atividades propostas no projeto. Dessa forma, a pesquisa lan&#xE7;a olhares para a liga&#xE7;&#xE3;o entre a aprendizagem matem&#xE1;tica e os modos de subjetiva&#xE7;&#xE3;o potencializados no aprender, ou seja, atenta para a seguinte no&#xE7;&#xE3;o: quando o escolar produz matem&#xE1;tica, tamb&#xE9;m &#xE9; produzido por ela. Uma educa&#xE7;&#xE3;o matem&#xE1;tica na iman&#xEA;ncia-vida.</p></abstract>
<trans-abstract xml:lang="en">
<p>This study is the result of a research with the intention of investigating how the modes of subjectivation are potencialized through the dispositif Experimentoteca de Matem&#xE1;tica. Such dispositif was triggered during a series of meetings between scholarship holders in a Professional Training project and students from a public school in Juiz de Fora. This research aims to trace the different escape routes reinforced during the working of math problems while the activities presented by the project were taking place. The research, therefore, considers the link between math learning and subjectivation modes that are enhanced through the learning process. In other words, this concept is focused on the notion that when a student produces math, he is also produced by it. It is a mathematic education in the immanence-life.</p></trans-abstract>
<kwd-group xml:lang="pt">
<kwd>Dispositivo</kwd>
<kwd>Experimenta&#xE7;&#xE3;o</kwd>
<kwd>Iman&#xEA;ncia</kwd>
<kwd>Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica</kwd></kwd-group>
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<kwd>Dispositif</kwd>
<kwd>Experimentation</kwd>
<kwd>Immanence</kwd>
<kwd>Mathematic Educati</kwd></kwd-group>
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<sec sec-type="intro">
<title>1 Introdu&#xE7;&#xE3;o<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref></title> <disp-quote>
<p>Encontros de sextas-feiras<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref></p>
<p><italic>&#x201C;Salve o Corinthians,/O campe&#xE3;o dos campe&#xF5;es,/Eternamente/Dentro dos nossos cora&#xE7;&#xF5;es.&#x201D; Em tom alto, um corpo-adolescente vai ao nosso encontro. Cantarola o Corinthians. Carrega a camisa rubro-negra do Flamengo ao corpo. Corpo-adolescente. Magro, bra&#xE7;os compridos, alto, risonho, falante, cantarolante. &#x201C;Salve o Corinthians,/O campe&#xE3;o dos campe&#xF5;es,/Eternamente/Dentro dos nossos cora&#xE7;&#xF5;es&#x201D;. Anuncia sua chegada cantando-vestindo uma subvers&#xE3;o: um corinthiano-flamenguista, um flamenguista-corinthiano? Intriga. Cantarola, sorri, perturba, incomoda. Assim se inicia o &#xFA;ltimo encontro do grupo de alguns bolsistas do Treinamento Profissional de um dos projetos da Faculdade de Educa&#xE7;&#xE3;o da Universidade Federal de Juiz de Fora com alguns escolares de uma escola p&#xFA;blica. &#x201C;Salve o Corinthians,/O campe&#xE3;o dos campe&#xF5;es,/Eternamente/Dentro dos nossos cora&#xE7;&#xF5;es&#x201D;.</italic></p></disp-quote>
<p>Em nosso primeiro encontro estavam presentes os bolsistas do Treinamento Profissional (TP), a equipe executora da pesquisa<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref> e oito escolares. T&#xED;nhamos nomes pr&#xF3;prios. Dos bolsistas e equipe: Tamiris, Margareth, Jo&#xE3;o, Theysmara, Alizandra. Do espa&#xE7;o f&#xED;sico que ocup&#xE1;vamos, at&#xE9; ent&#xE3;o, conceb&#xED;amos como: Experimentoteca de Matem&#xE1;tica. Dos escolares:&#x2026;<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref></p>
<p>Fizemos uma roda e brincamos com nossos nomes pr&#xF3;prios. Em c&#xED;rculo, o primeiro disse seu nome, o segundo disse o seu pr&#xF3;prio nome e o do primeiro colega que estava &#xE0; sua esquerda. O terceiro disse o seu nome pr&#xF3;prio, o do segundo e o do primeiro que estavam &#xE0; sua esquerda. E assim seguia, com cada um dizendo seu nome e dos dois que o antecediam pela esquerda. A fala&#xE7;&#xE3;o-repeti&#xE7;&#xE3;o corria o c&#xED;rculo, at&#xE9; que uma palma surgia pelas m&#xE3;os da coordenadora da equipe e mudava-se a dire&#xE7;&#xE3;o. Ent&#xE3;o, cada um dizia seu nome pr&#xF3;prio, o nome pr&#xF3;prio dos dois que o antecediam, n&#xE3;o mais os da esquerda, agora os da direita. A fala&#xE7;&#xE3;o-repeti&#xE7;&#xE3;o imprimia ritmo &#xE0;s vozes, ao corpo, &#xE0; mem&#xF3;ria. Em muitos instantes, o ritmo era quebrado, a mem&#xF3;ria escapava e os sorrisos invadiam o ar e estremeciam os corpos. Circulamos, repetimos, criamos uma m&#xFA;sica com nossos nomes pr&#xF3;prios.</p>
<p>Outra proposta foi apresentada naquele dia: separarmo-nos em duplas e contarmos um pouco do que and&#xE1;vamos sendo, fazendo, do que gost&#xE1;vamos, do que n&#xE3;o gost&#xE1;vamos, para o companheiro que nos escutava. Depois de um tempo reunidos nas duplas, retornar&#xED;amos ao c&#xED;rculo e apresentar&#xED;amos nosso colega.</p>
<p>Em uma grande mesa estavam dois escolares, menino e menina. Ela tentava conversar. Ele n&#xE3;o respondia. Caras fechadas, inc&#xF4;modo. Findando o tempo combinado para a conversa, a coordenadora aproxima-se da dupla e abre algumas quest&#xF5;es: &#x201C;Vamos l&#xE1;: o que voc&#xEA; gosta de fazer, de comer? Para qual time voc&#xEA; torce?&#x201D;. A menina respondia. Ele balan&#xE7;ava os ombros. &#x201C;Qual cor voc&#xEA; prefere?&#x201D;. Ela: &#x201C;Rosa&#x201D;. Ele: &#x201C;Azul&#x201D;. Da menina vem: &#x201C;O que digo a respeito dele?&#x201D;. Teve como resposta: &#x201C;Diga que ele gosta de azul&#x201D;. Dele vem uma lista do que a colega gostava de fazer, do que gostava de comer, para qual time torcia e de que cor gostava.</p>
<fig id="f1">
<label>Figura 1</label>
<caption>
<title>Nomes pr&#xF3;prios em rede.</title></caption>
<graphic xlink:href="1980-4415-bolema-29-51-0090-gf01.jpg"/></fig>
<p>Voltamos ao grupo maior. Na voz de cada: o companheiro de dupla. Nas m&#xE3;os: um novelo de linha colorida ia nos ligando. Flamenguistas, cruzeirenses, vasca&#xED;nos, adoradores de macarr&#xE3;o, de batata frita, de brincar na rua, de funk, de samba, de verde, de amarelo, de rosa, jogadores de futebol, trabalhadores. Nossas linhas surgiam. Um pouco dos territ&#xF3;rios que viv&#xED;amos iam se mostrando, dito por outro. Um menino que gosta de azul foi apresentado. Nossos corpos sorriam. O menino que gostava de azul continuava sisudo. Nenhuma refer&#xEA;ncia foi feita &#xE0; escola, &#xE0;s disciplinas escolares e aos professores. Ao final t&#xED;nhamos uma rede se compondo, ligando nossos corpos. &#x201C;[&#x2026;] o nome pr&#xF3;prio n&#xE3;o designa de modo algum uma pessoa ou um sujeito. Ele designa um efeito, um ziguezague, algo que passa ou que se passa entre dois como uma diferen&#xE7;a potencial: &#x201C;efeito Compton&#x201D;, &#x201C;efeito Kelvin&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B3">DELEUZE e PARNET, 1998</xref>, p. 14)</p>
<p>Anunciar nossos nomes pr&#xF3;prios produziu efeitos ziguezague. Algo passa. A experi&#xEA;ncia atrav&#xE9;s do dispositivo Experimentoteca de Matem&#xE1;tica. Efeito Tamiris. Efeito Margareth. Efeito Jo&#xE3;o. Efeito Theysmara. Efeito Alizandra. Efeito&#x2026; Efeito&#x2026; Efeito menino que gosta de azul. Efeito Experimentoteca&#x2026; A Experimentoteca de Matem&#xE1;tica, um dispositivo.</p> <disp-quote>
<p><bold><italic>Encontros de sextas-feiras</italic></bold></p>
<p><italic>1&#xB0; Encontro. Digo quem sou, afirmo o que gosto, o que n&#xE3;o gosto. (Ex)ponho-me atrav&#xE9;s da l&#xED;ngua. Sou (ex)posto na l&#xED;ngua de outro. Entro em uma configura&#xE7;&#xE3;o na qual j&#xE1; n&#xE3;o sei me enunciar, me anunciar, j&#xE1; n&#xE3;o sei estabelecer meu lugar. &#x201C;Sou aluno aqui? Posso falar? Posso rir?&#x201D;. &#x201C;Como isso se d&#xE1;?&#x201D;. &#x201C;Como &#xE9; ser bolsista aqui? Como devo fazer?&#x201D;. &#x201C;Como &#xE9; ser professor aqui? N&#xE3;o d&#xE1; mais para exigir que falem, j&#xE1; que &#xE9; o momento de falar. N&#xE3;o h&#xE1; como exigir o sil&#xEA;ncio, j&#xE1; que &#xE9; o momento de ouvir. N&#xE3;o d&#xE1; mais para exigir que parem de rir e brincar, &#xE9; isso que o corpo pede.&#x201D; Somos estrangeiros numa terra nova.</italic></p></disp-quote>
</sec>
<sec>
<title>2 Dispositivo: Experimentoteca de Matem&#xE1;tica na iman&#xEA;ncia-vida</title>
<p>Esta escrita apresenta uma pesquisa que atenta, particularmente, para duas no&#xE7;&#xF5;es: o discurso j&#xE1; constitu&#xED;do daquilo que &#xE9; e a inven&#xE7;&#xE3;o instituinte em um <italic>sendo</italic>. O campo de pesquisa se comp&#xF5;e junto ao atendimento realizado por bolsistas de Treinamento Profissional a escolares de uma escola p&#xFA;blica mineira.</p>
<p>As atividades matem&#xE1;ticas propostas aos escolares t&#xEA;m como objetivo potencializar modos outros de se conceber a Matem&#xE1;tica e de produzi-la, desestabilizando os discursos constitu&#xED;dos do que <italic>&#xE9;</italic> um aluno na situa&#xE7;&#xE3;o de fracasso escolar. A entrada nesse campo de pesquisa busca compreender a liga&#xE7;&#xE3;o que se faz entre a aprendizagem matem&#xE1;tica e os modos de subjetiva&#xE7;&#xE3;o potencializados nesse aprender. Entendendo que, quando o escolar produz Matem&#xE1;tica, tamb&#xE9;m &#xE9; produzido por ela, um <italic>sendo</italic> na iman&#xEA;ncia do viver, na iman&#xEA;ncia-vida. A pesquisa, desse modo, questiona: <italic>como s&#xE3;o potencializados modos outros de existir atrav&#xE9;s da experi&#xEA;ncia no dispositivo Experimentoteca de Matem&#xE1;tica?</italic></p>
<p>Nossa proposta, neste texto, &#xE9; lan&#xE7;ar m&#xE3;o da experi&#xEA;ncia e, com/atrav&#xE9;s dela, ir atualizando, na escrita, os modos de aprendizagem que, naquele territ&#xF3;rio existencial, iam sendo inventados.</p>
<p>Aqui j&#xE1; se faz quest&#xE3;o: Experi&#xEA;ncia? Experimentoteca?</p>
<p>Experi&#xEA;ncia n&#xE3;o &#xE9; o experimento. N&#xE3;o &#xE9; aquele que se faz seguindo caminhos, trilhas bem delineadas, com o intuito de chegar a uma meta pr&#xE9;-definida. Para n&#xF3;s, a experi&#xEA;ncia tem sido pensada, de maneira pr&#xF3;xima ao que aponta Larrosa, ou seja, &#xE9; aquela que exige sil&#xEA;ncio, mem&#xF3;ria, tempo, &#xF3;cio, passividade, paix&#xE3;o. E o sujeito dessa experi&#xEA;ncia tem algo como uma superf&#xED;cie sens&#xED;vel &#x201C;que aquilo que acontece afeta de algum modo, produz alguns afetos, inscreve algumas marcas, deixa alguns vest&#xED;gios&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B5">LAROSSA, 2002</xref>, p.24). Esses vest&#xED;gios s&#xE3;o efeitos que se d&#xE3;o na processualidade do se constituir, nos processos de subjetiva&#xE7;&#xE3;o. S&#xE3;o linhas a serem cartografadas, o nosso desafio de pesquisa: ir ao vivido. Cartografar as linhas de fratura, com as quais foi poss&#xED;vel inventar novos modos de subjetiva&#xE7;&#xE3;o, novos mundos, ao produzir Matem&#xE1;tica na iman&#xEA;ncia-vida.</p>
<p>Iman&#xEA;ncia-vida: aquilo que se d&#xE1; junto ao plano movente do real. Vida como plano.</p> <disp-quote>
<p>A vida, como plano, &#xE9; oferecedora de condi&#xE7;&#xF5;es para um aprendizado. Ela, ao mesmo tempo &#xE9; dupla: &#x201C;um sistema de estratifica&#xE7;&#xE3;o particularmente complexo, e um conjunto de consist&#xEA;ncia que conturba as ordens, as formas e as subst&#xE2;ncias&#x201D;. <italic>A vida corte no caos &#xE9; o real</italic>, a coexist&#xEA;ncia do atual e do virtual, &#xE9; o grande meio, propiciadora de tantos caminhos quantos forem tra&#xE7;ados ou percorridos, os inimagin&#xE1;veis; <italic>&#xE9; o grande plano dos acontecimentos e dos devires.</italic> &#xC9; prenhe de possibilidades, fervilha de multiplicidades que saltitam e provocam dan&#xE7;as. <italic>Por vida entende-se &#x201C;a din&#xE2;mica de vir a ser, o jogo de auto-supera&#xE7;&#xE3;o ou de altera&#xE7;&#xE3;o, quer dizer, de vir a ser outro, que marca transforma&#xE7;&#xE3;o ou transfigura&#xE7;&#xE3;o, o movimento da vida, se define como cria&#xE7;&#xE3;o&#x201D;, pois toda cria&#xE7;&#xE3;o se d&#xE1; no plano movente do real, da iman&#xEA;ncia-vida</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B6">ROOS, 2004</xref>, p. 3 &#x2013; grifo nosso).</p></disp-quote>
<p>Na din&#xE2;mica de vir a ser, no jogo da iman&#xEA;ncia-vida, a experi&#xEA;ncia se d&#xE1; ao ser acionado o dispositivo Experimentoteca de Matem&#xE1;tica.</p>
<p>A pergunta que logo vem &#xE9;: <italic>o que &#xE9; um dispositivo?</italic>. Essa quest&#xE3;o n&#xE3;o nos assolava, pois, a princ&#xED;pio, o que nos passava &#xE9; que o espa&#xE7;o f&#xED;sico ocupado no fazer dos bolsistas do TP e dos escolares era o que constitu&#xED;a o que cham&#xE1;vamos de Experimentoteca de Matem&#xE1;tica. Mas n&#xE3;o era isso. Como na denomina&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o cabia o que pretend&#xED;amos, parecia que hav&#xED;amos sido engolidos pela l&#xED;ngua. Nossa indaga&#xE7;&#xE3;o de pesquisa j&#xE1; trazia: &#x201C;<italic>no</italic> dispositivo Experimentoteca de Matem&#xE1;tica&#x201D;. A contra&#xE7;&#xE3;o da preposi&#xE7;&#xE3;o <italic>em</italic> com o artigo <italic>o</italic> nos levou a visar um espa&#xE7;o territorial fixo em que pousar&#xED;amos nossas atividades. A l&#xED;ngua nos levou para o lugar onde iriam se estabelecer as atividades envolvendo bolsistas e escolares.</p>
<p>Por&#xE9;m, no encaminhamento das atividades, mostrou-se a necessidade de, vez por outra, mudarmos o local do encontro das sextas, ou seja, alterar o espa&#xE7;o f&#xED;sico. As nossas idas para casa com um corpo tensionado, afetado, amargurado, feliz, indagador depois de cada encontro das sextas, a escrita de nossos relat&#xF3;rios e as nossas leituras e estudos nos faziam indagar: ser&#xE1; <italic>no</italic> dispositivo?</p>
<p>A formula&#xE7;&#xE3;o da quest&#xE3;o de pesquisa come&#xE7;ava a se fazer quest&#xE3;o. Voltamos a ela. Compreend&#xED;amos que a quest&#xE3;o acionadora do pensar desta pesquisa trazia &#x201C;<italic>atrav&#xE9;s</italic> da experi&#xEA;ncia no dispositivo Experimentoteca de Matem&#xE1;tica&#x201D;. N&#xE3;o era o <italic>no</italic>, simo<italic>atrav&#xE9;s.</italic> Um <italic>atrav&#xE9;s</italic>, uma passagem, um <italic>per</italic> do <italic>per</italic> curso, <italic>da</italic> ex<italic>per</italic>i&#xEA;ncia e do <italic>per</italic>igo de exposi&#xE7;&#xE3;o com o acionamento de um dispositivo.</p>
<p>Ent&#xE3;o, agora sim, vinha a quest&#xE3;o: o que &#xE9; um dispositivo?</p>
<p>Em Microf&#xED;sica do Poder, Foucault, ao ser questionado a respeito da fun&#xE7;&#xE3;o metodol&#xF3;gica do dispositivo, responde ser o dispositivo <italic>uma rede</italic> que engloba elementos heterog&#xEA;neos como discursos, institui&#xE7;&#xF5;es, regulamentos, leis, enunciados cient&#xED;ficos, proposi&#xE7;&#xF5;es morais, filos&#xF3;ficas, filantr&#xF3;picas, o dito e o n&#xE3;o dito. O dispositivo estabelece um nexo entre esses elementos heterog&#xEA;neos, demarcando a natureza da rela&#xE7;&#xE3;o que pode haver ou se estabelecer entre esses elementos. O dispositivo pode ser um programa de uma institui&#xE7;&#xE3;o. A Educa&#xE7;&#xE3;o Escolar &#xE9; um programa, um dispositivo. E o dispositivo, diz Foucault, ainda pode aparecer com um sentido contr&#xE1;rio, quando &#xE9; tomado como &#x201C;elemento que permite justificar e mascarar uma pr&#xE1;tica que permanece muda; pode funcionar como reinterpreta&#xE7;&#xE3;o desta pr&#xE1;tica, dando-lhe acesso a um novo campo de racionalidade&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B4">FOUCAULT, 1979</xref>, p. 244). Dentro do dispositivo Educa&#xE7;&#xE3;o Escolar, outros dispositivos ora justificam, ora mascaram uma pr&#xE1;tica, ou reinterpretam essa pr&#xE1;tica, fazendo com que ela fique muda. Aqui, dentro do grande dispositivo educacional, h&#xE1; os projetos pol&#xED;tico-pedag&#xF3;gicos escolares; os projetos educacionais do Estado; os projetos com ajuda financeira como, por exemplo, o Bolsa-Escola; os programas de avalia&#xE7;&#xE3;o em larga escala; os curr&#xED;culos escolares em &#xE2;mbito estadual ou nacional, como o Curr&#xED;culo B&#xE1;sico Comum do Estado de Minas Gerais e os Par&#xE2;metros Curriculares Nacionais.</p>
<p>Os dispositivos, segundo Foucault, respondem a uma demanda, em determinado momento hist&#xF3;rico, tendo, pois, uma natureza estrat&#xE9;gica. Tal natureza estrat&#xE9;gica nos leva a compreender que o dispositivo &#xE9; capaz de uma manipula&#xE7;&#xE3;o das rela&#xE7;&#xF5;es de for&#xE7;a, atrav&#xE9;s de certa racionalidade e organiza&#xE7;&#xE3;o, com certo prop&#xF3;sito: &#x201C;seja para desenvolv&#xEA;-las [as for&#xE7;as] em determinada dire&#xE7;&#xE3;o, seja para bloque&#xE1;-las, para estabiliz&#xE1;-las, utiliz&#xE1;-las etc&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B4">FOUCAULT, 1979</xref>, p. 246). Dessa forma, o dispositivo est&#xE1; inscrito em um jogo de poder e, portanto, ligado a um saber que dele nasce e tamb&#xE9;m o condiciona. Na Educa&#xE7;&#xE3;o Escolar, nos anos 90 do s&#xE9;culo passado, vimos ser acionado o dispositivo Par&#xE2;metros Curriculares Nacionais, atendendo ao jogo de poder da pol&#xED;tica neoliberal, desenvolvendo-se, assim, um modo de ser aluno e de ser professor submetidos diretamente ao mercado econ&#xF4;mico e ao poder do capital.</p>
<p>O dispositivo &#xE9; disruptivo: faz nascer. O funcionamento estrat&#xE9;gico do dispositivo faz surgir atrav&#xE9;s dele efeitos n&#xE3;o previstos. <xref ref-type="bibr" rid="B4">Foucault (1979</xref>, p. 245) ir&#xE1; dar como exemplo o dispositivo pris&#xE3;o. Tal dispositivo, visto at&#xE9; certo momento como o mais eficiente e racional para conter a criminalidade, produziu um efeito n&#xE3;o previsto: um meio delinquente. &#x201C;A pris&#xE3;o funcionou como filtro, concentra&#xE7;&#xE3;o, profissionaliza&#xE7;&#xE3;o, isolamento de um meio delinquente&#x201D;.</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="B1">Deleuze (1990)</xref> tamb&#xE9;m questiona o que &#xE9; o dispositivo. Tomando os estudos foucaultianos, ir&#xE1; dizer que os dispositivos t&#xEA;m cinco dimens&#xF5;es: curvas de visibilidade, curvas de enuncia&#xE7;&#xE3;o, linhas de for&#xE7;as, linhas de subjetiva&#xE7;&#xE3;o e linhas de fratura.</p>
<p>Os dispositivos &#x201C;s&#xE3;o m&#xE1;quinas de fazer ver e de fazer falar&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">DELEUZE, 1990</xref>, p. 1), t&#xEA;m seus regimes de luz para fazerem ver sem ser vistos e possuem seus regimes de enuncia&#xE7;&#xE3;o &#x2013; ci&#xEA;ncia, g&#xEA;nero liter&#xE1;rio, um estado de direito, um movimento social. O dispositivo n&#xE3;o &#xE9; composto por sujeitos nem objetos, mas por regimes &#x201C;que devem se definir para o vis&#xED;vel e para o enunci&#xE1;vel, com suas deriva&#xE7;&#xF5;es, suas transforma&#xE7;&#xF5;es, suas muta&#xE7;&#xF5;es&#x201D; (IDEM, p. 2). As linhas de for&#xE7;a que comp&#xF5;em os dispositivos organizam o ver e o enunciar. Est&#xE3;o a&#xED; as rela&#xE7;&#xF5;es de poder anunciadas por Foucault. Assim como o poder, o dispositivo comp&#xF5;e com o saber.</p>
<p>J&#xE1; a linha de objetiva&#xE7;&#xE3;o &#xE9; aquela que solicitou a Foucault uma tor&#xE7;&#xE3;o no pensamento: estaria ele s&#xF3; preocupado com os contornos definitivos resultantes dos modos de sujei&#xE7;&#xE3;o atrav&#xE9;s de regras de coer&#xE7;&#xE3;o? &#xC9; quando Foucault ir&#xE1; pensar em uma dobra da for&#xE7;a.</p> <disp-quote>
<p>Transpor a linha de for&#xE7;a, ultrapassar o poder, isso seria como que curvar a for&#xE7;a, fazer com que ela mesma se afete, em vez de afetar outras for&#xE7;as: uma &#x201C;dobra&#x201D;, segundo Foucault, uma rela&#xE7;&#xE3;o da for&#xE7;a consigo. Trata-se de &#x201C;duplicar&#x201D; a rela&#xE7;&#xE3;o de for&#xE7;as, de uma rela&#xE7;&#xE3;o consigo que nos permita resistir, furtar-nos, fazer a vida ou a morte voltarem-se contra o poder. Foi o que os gregos inventaram, segundo Foucault. N&#xE3;o se trata mais de formas determinadas, como no saber, nem de regras coercitivas, como no poder: trata-se de <italic>regras facultativas</italic> que produzem a exist&#xEA;ncia como obra de arte, regras ao mesmo tempo &#xE9;ticas e est&#xE9;ticas que constituem modos de exist&#xEA;ncia ou estilos de vida [&#x2026;]. &#xC9; o que Nietzsche descobria como <italic>a opera&#xE7;&#xE3;o artista da vontade de pot&#xEA;ncia, a inven&#xE7;&#xE3;o de novas &#x201C;possibilidades de vida&#x201D;</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B2">DELEUZE, 1992</xref>, p.123, grifo nosso).</p></disp-quote>
<p>Assim, as linhas de subjetiva&#xE7;&#xE3;o se mostram presentes no dispositivo, um processo, uma produ&#xE7;&#xE3;o, uma cria&#xE7;&#xE3;o na iman&#xEA;ncia-vida. Uma linha de fuga que, permitindo outras configura&#xE7;&#xF5;es provis&#xF3;rias, &#x201C;tem que se fazer, contanto que o dispositivo o permita ou possibilite&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">DELEUZE, 1990</xref>, p. 3). Um escape &#xE0;s outras linhas, &#xE0;s outras dimens&#xF5;es. Escape &#xE0; luz que tudo v&#xEA; e &#xE0; l&#xED;ngua, que tudo enuncia, produzindo linhas de fratura. Outros dispositivos, novos agenciamentos a novos poderes e novos saberes que podem levar a novos modos de subjetiva&#xE7;&#xE3;o ainda por vir.</p>
<p>Nome pr&#xF3;prio: Experimentoteca de Matem&#xE1;tica. Efeito: dispositivo Experimentoteca de Matem&#xE1;tica. Efeito produzindo efeitos.</p>
</sec>
<sec>
<title>3 Do Tangram &#xE0; maquete&#x2026;</title> <disp-quote>
<p><bold><italic>Encontros de sextas-feiras</italic></bold></p>
<p><italic>2&#xB0; Encontro. A atividade proposta era representar, atrav&#xE9;s do Tangram, as imagens que estavam no papel. Um dos escolares, que se mantinha sempre calado, mesmo em grupo, n&#xE3;o se envolveu, n&#xE3;o quis participar. Ficou ao longe, observando aos outros. Outro escolar que dissera ter gostado mais ou menos do encontro anterior, demonstrou grande interesse, retirou a &#x201C;armadura&#x201D; que o cobria e se rendeu ao Tangram. Suas m&#xE3;os trabalhavam incessantemente na busca pelos desenhos a serem representados. Ao final de nossa atividade, escutamos da voz de uma das escolares que nossos encontros poderiam durar mais tempo.</italic></p></disp-quote>
<p>Em uma grande prepara&#xE7;&#xE3;o: era assim que nos sent&#xED;amos, bolsistas e equipe executora da pesquisa. T&#xED;nhamos como um de nossos objetivos a possibilidade de produ&#xE7;&#xE3;o matem&#xE1;tica durante os encontros com os escolares. Ent&#xE3;o, partimos de um material did&#xE1;tico j&#xE1; bem conhecido em nossas salas de aula de Matem&#xE1;tica: o Tangram.</p>
<p>A primeira proposta de trabalho foi a de que os escolares produzissem figuras a partir de modelos preestabelecidos. Ficamos por a&#xED; durante um encontro. Nas grandes mesas, as duplas tentavam, utilizando as sete pe&#xE7;as do Tangram, montar os modelos. Alguns se envolviam, outros se distanciavam e n&#xE3;o arriscavam. Esse foi um dos encontros que levou com que se colocasse em quest&#xE3;o como a produ&#xE7;&#xE3;o matem&#xE1;tica estava acontecendo ali, se acontecia ou n&#xE3;o. E, se ocorria, como a produ&#xE7;&#xE3;o de conhecimento matem&#xE1;tico se dava?</p>
<p>Colocamos em quest&#xE3;o se aquela atividade n&#xE3;o estava fazendo com que os escolares ficassem presos aos modelos. Parecia, ent&#xE3;o, que ela n&#xE3;o proporcionava um modo inventivo de lidar com as pe&#xE7;as. Por&#xE9;m, ouvir uma das escolares dizer que poder&#xED;amos ter mais tempo para os nossos encontros mexeu ainda mais com o que nos ocupava. N&#xE3;o se tratava do sujeito aprendente e um objeto a ser desvelado. Tratava-se do entre. Precis&#xE1;vamos exercitar mais. Repetir. Insistir.</p>
<p>Insistimos com o Tangram. Ele continuou no encontro seguinte. Dessa vez entregamos a cada escolar um Tangram e solicitamos que, individualmente, produzissem uma figura sem, no entanto, dar o modelo. Depois que fizessem tal figura, ela deveria ser desenhada em uma folha de papel para ir &#xE0; nossa exposi&#xE7;&#xE3;o.</p>
<p>Um escolar fazia figuras que havia esbo&#xE7;ado na semana anterior sem estar, naquele momento, com o modelo. Outros resistiam. Insistimos. As figuras foram surgindo nas produ&#xE7;&#xF5;es individuais. Tri&#xE2;ngulos, quadrados e paralelogramos deram forma a barco, mulher, casa, coelho. Uma inven&#xE7;&#xE3;o.</p> <disp-quote>
<p><bold><italic>Encontros de sextas-feiras</italic></bold></p>
<p><italic>3&#xB0; Encontro. Figuras prontas. Momento de anunciar o que se produzira. Depois de muita insist&#xEA;ncia, um escolar, que se mantivera silencioso durante toda atividade, diz: &#x201C;Eu fiz uma mulher rezando&#x201D;. Outro, que durante a atividade conversava e brincava, ao ser solicitado que falasse a respeito do que havia produzido, silencia. Tentamos adivinhar e ao perguntarmos: &#x201C;Centopeia?&#x201D;, a cabe&#xE7;a balan&#xE7;ou em afirma&#xE7;&#xE3;o. Foi o corpo respondendo. J&#xE1; o menino que se rendera ao Tangram, sempre surpreendente em seus v&#xE1;rios tons de humor, disse: &#x201C;Eu fiz a casa do meu tio, Osama!&#x201D;.</italic></p></disp-quote>
<p>Nossa inquieta&#xE7;&#xE3;o com o primeiro encontro e o que havia sido produzido com ele se deu por problematizarmos se aquele material, utilizado daquela forma, n&#xE3;o estaria proporcionando o que muitas aulas de Matem&#xE1;tica j&#xE1; frequentadas por n&#xF3;s faziam e que sabemos ainda fazer: <italic>Siga o modelo!</italic>. Ou seja, a pr&#xE1;tica de uma t&#xE9;cnica. Compreend&#xED;amos que uma proposta assim n&#xE3;o passaria de uma forma representativa de produzir algo ou alguma coisa, seja l&#xE1; o que fosse. Ent&#xE3;o, mesmo sem ter seguran&#xE7;a que era isso que se dava, partimos para uma proposta na qual eles poderiam tomar o mesmo recurso e produzir com e atrav&#xE9;s dele. E isso se deu, sem que neg&#xE1;ssemos, por&#xE9;m, o primeiro momento. Percebemos que, tamb&#xE9;m no primeiro encontro, efeitos tinham sido produzidos como, por exemplo, memorizar modelos e poder represent&#xE1;-los uma semana depois. Os encontros se ligavam, atrav&#xE9;s da perturba&#xE7;&#xE3;o que no segundo se imp&#xF4;s. Os escolares, agora, inventavam problemas. Nos encontros que vieram em sequ&#xEA;ncia, o Tangram continuou presente. Uma nova proposta foi feita, por conta do que se dava entre os escolares. &#xC9; necess&#xE1;rio falarmos a respeito do que nos motivou a continuar, por mais alguns encontros, com aquele material did&#xE1;tico.</p>
<p>Durante as atividades em grupo ou individuais, perceb&#xED;amos que os escolares se atacavam verbalmente, o que parecia apresentar em um tom de desvaloriza&#xE7;&#xE3;o do que o outro estava fazendo ou por aquilo que n&#xE3;o se conseguira produzir. Junto disso, ficava evidente, tamb&#xE9;m, um desmerecimento em rela&#xE7;&#xE3;o ao bairro em que o colega morava. O interessante &#xE9; que pens&#xE1;vamos que, como os escolares frequentavam a mesma escola, eram oriundos do mesmo bairro. Tal fato n&#xE3;o se confirmava, os embates eram constantes, o que nos incomodava. Tentamos n&#xE3;o nos colocar em posi&#xE7;&#xE3;o de apaziguadores. Buscamos, ent&#xE3;o, no pr&#xF3;prio embate, nossa proposta de trabalho. Nada de duplas ou trabalho individual, o trabalho seria coletivo. Levamos o mesmo material: v&#xE1;rios jogos de Tangram e apenas uma folha que receberia o trabalho de todos os escolares.</p> <disp-quote>
<p><bold><italic>Encontros de sextas-feiras</italic></bold></p>
<p><italic>4&#xB0; Encontro. Surgiu a ideia de produzirmos, a partir das pe&#xE7;as do Tangram, uma &#x201C;cidade&#x201D;. Para tanto, a escolha dos componentes dessa cidade seria dos adolescentes. Assim foi feito. Um escolar opta por fazer uma escola. Outro reprova: &#x201C;Escola n&#xE3;o!&#x201D;. E a escola n&#xE3;o entra na lista. Das falas deles, surgiram: casa, rua, pr&#xE9;dio, hospital, escola, ponto de &#xF4;nibus, carro, pra&#xE7;a, paisagem, banco, loja, museu, supermercado, lixo, rio, &#xE1;rvore, farm&#xE1;cia e briga. &#x201C;Briga?&#x201D;, esse foi o questionamento de um dos bolsistas. Surpresa. Espanto. E na voz de um dos adolescentes a resposta: &#x201C;Briga sim, pois onde moro &#xE9; o que mais tem. Voc&#xEA; acha o qu&#xEA;? Nem tudo &#xE9; perfeito n&#xE3;o&#x201D;. Escolheram o que fazer.</italic></p></disp-quote>
<p>O dispositivo Experimentoteca de Matem&#xE1;tica em sua estrat&#xE9;gia j&#xE1; parecia apresentar disrup&#xE7;&#xF5;es, efeitos, possibilitando novos modos de estar ali naquele coletivo. O que se atualizou nos encontros fez com que nos dispus&#xE9;ssemos a experimentar outros modos de estar presentes no movimento das rela&#xE7;&#xF5;es de for&#xE7;as que se dava, como tamb&#xE9;m as atualiza&#xE7;&#xF5;es provis&#xF3;rias que se mostravam. Para tanto, t&#xED;nhamos que nos desprender dos rostos j&#xE1; formados em outros dispositivos. Desfazendo-se do rosto-aluno, do rosto-professor, do rosto-bolsista. Ali, na atividade, ao anunciarem os elementos que iriam compor a <italic>cidade</italic>, os escolares se desnudam e apresentam a <italic>briga</italic> como um elemento de seu existir. J&#xE1; a escola, por eles t&#xE3;o conhecida ou reconhecida, &#xE9; eliminada. Produzem uma nova linha vida, um escape, na intersec&#xE7;&#xE3;o, margeando, arrebentando e cercando. A bolsista, surpreendida, questiona um viver. O escolar se exp&#xF5;e na iman&#xEA;ncia-vida. Escolares, bolsistas e coordenadora pin&#xE7;am outros modos de viver naquele territ&#xF3;rio existencial em produ&#xE7;&#xE3;o.</p>
<fig id="f2">
<label>Figura 2</label>
<caption>
<title>Produ&#xE7;&#xE3;o coletiva com o Tangram.</title></caption>
<graphic xlink:href="1980-4415-bolema-29-51-0090-gf02.jpg"/></fig> <disp-quote>
<p><bold><italic>Encontros de sextas-feiras</italic></bold></p>
<p><italic>4&#xB0; Encontro. Uma produ&#xE7;&#xE3;o coletiva: grupo sentado ao ch&#xE3;o em torno de duas folhas de papel pardo. Duas escolares produzem, com detalhes, um pr&#xE9;dio. Uma delas deita-se ao ch&#xE3;o, o corpo rende-se &#xE0; produ&#xE7;&#xE3;o. A outra vai acompanhando. Com o des&#xE2;nimo da primeira, a segunda aceita parar. Outro escolar vai comandando a produ&#xE7;&#xE3;o de bonecos, no entanto, em v&#xE1;rios momentos insiste para que o amigo, que se mant&#xE9;m sempre silencioso, tamb&#xE9;m produza. Um menino, silencioso, recebe o incentivo de um colega: &#x201C;Voc&#xEA; consegue!&#x201D;; &#x201C;Faz assim, oh!&#x201D;. No entanto, o colega termina sozinho a produ&#xE7;&#xE3;o de um boneco e come&#xE7;a a desenh&#xE1;-lo no papel pardo. Abre uma quest&#xE3;o aos outros: &#x201C;Pode p&#xF4;r o escudo do Flamengo?&#x201D;. Apenas um responde: &#x201C;Pode, mas tem que fazer direito&#x201D;. E o boneco recebe o escudo do Flamengo.</italic></p>
<p><italic>Tr&#xEA;s escolares produzem juntos. Um deles parece n&#xE3;o se envolver na atividade. Em tom jocoso, os dois mais falantes referem-se em rela&#xE7;&#xE3;o ao terceiro: &#x201C;Ele s&#xF3; viaja&#x201D;. E o escolar mant&#xE9;m seu sil&#xEA;ncio. A produ&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o foi toda finalizada. Combinamos exp&#xF4;-la, avisando que ainda estaria em constru&#xE7;&#xE3;o. Ao final de nosso encontro &#xE9; solicitado que todos ajudem a colar o que haviam produzido no mural. Apenas o menino que s&#xF3; viaja e o menino do boneco flamenguista ficaram at&#xE9; o final nos ajudando. O material produzido vai para o nosso quadro de exposi&#xE7;&#xE3;o.</italic></p></disp-quote>
<p>Aquela <italic>cidade</italic> ficou em exposi&#xE7;&#xE3;o com um dizer: <italic>Em constru&#xE7;&#xE3;o</italic>. Um dizer do movimento que nos fazia desacostumar dos nossos lugares at&#xE9; ent&#xE3;o estabelecidos. <italic>Ex</italic>por uma constru&#xE7;&#xE3;o. <italic>Ex</italic>por mundos desabando com a experi&#xEA;ncia em um vivido, em uma inven&#xE7;&#xE3;o de modos outros de produzir um si e um mundo ao produzir Matem&#xE1;tica. N&#xE3;o foi preciso dizer: <italic>&#x201C;Faremos isto!&#x201D;</italic>. Apenas insistimos sem fala&#xE7;&#xE3;o, abolindo a t&#xE9;cnica e o modelo a ser atingido.</p>
<fig id="f3">
<label>Figura 3</label>
<caption>
<title>Cidade em constru&#xE7;&#xE3;o.</title></caption>
<graphic xlink:href="1980-4415-bolema-29-51-0090-gf03.jpg"/></fig>
<p>No material que estava exposto n&#xE3;o houve um ajuste posicional entre as produ&#xE7;&#xF5;es individuais ou das duplas ou dos trios. Tampouco houve preocupa&#xE7;&#xE3;o em medir e estabelecer uma proporcionalidade entre pe&#xE7;as. Havia pessoas maiores do que as casas, o mar e a &#xE1;rvore n&#xE3;o tinham o mesmo referencial posicional. Apenas dois escolares atentaram para essas caracter&#xED;sticas.</p>
<p>Algum tempo passou entre aquela produ&#xE7;&#xE3;o e nosso pr&#xF3;ximo encontro por conta das f&#xE9;rias escolares. Quando do retorno, decidimos partir do que estava em constru&#xE7;&#xE3;o. Os escolares retomaram &#xE0;quela produ&#xE7;&#xE3;o realizada na folha de papel pardo e come&#xE7;aram a observ&#xE1;-la. T&#xED;nhamos como proposta que aquilo que estava no papel se apresentasse em tr&#xEA;s dimens&#xF5;es. <italic>&#x201C;Uma maquete&#x201D;</italic>, disse um escolar. Assim fizemos, mas sem a preocupa&#xE7;&#xE3;o com a escala. Durante algumas semanas, o que estava no plano ia tomando forma atrav&#xE9;s de placas de isopor e caixas. Por fim, uma nova produ&#xE7;&#xE3;o ia se apresentando: &#xE1;rvore, jardim, casa, pr&#xE9;dio, carro, boneco flamenguista.</p>
<fig id="f4">
<label>Figura 4</label>
<caption>
<title>Primeira maquate.</title></caption>
<graphic xlink:href="1980-4415-bolema-29-51-0090-gf04.jpg"/></fig>
<p>A partir da maquete produzida, um novo exerc&#xED;cio: as diferentes visadas poss&#xED;veis a um objeto tridimensional. Na maquete observ&#xE1;vamos, por exemplo, no pr&#xE9;dio que havia sido confeccionado em uma caixa de biscoitos, que a dupla de escolares que o produzira s&#xF3; identificara a frente do pr&#xE9;dio com janelas e portas, j&#xE1; as laterais e o fundo continuavam como caixa de biscoitos. O boneco flamenguista s&#xF3; era vis&#xED;vel como boneco pela frente, na lateral e na face que representaria as costas do boneco s&#xF3; vislumbr&#xE1;vamos isopor, o que tamb&#xE9;m aconteceu com o barco. Perceb&#xED;amos que a geometria plana se destacava nas faces que expunham a frente dos objetos, apesar de a maquete objetivar apresent&#xE1;-los em tr&#xEA;s dimens&#xF5;es. Linhas de outros dispositivos se mostravam: na educa&#xE7;&#xE3;o matem&#xE1;tica escolar, a grande &#xEA;nfase ainda &#xE9; dada &#xE0; geometria plana, abolindo o mundo em que vivemos.</p>
<p>Isso nos impulsionou a um novo trabalho, a uma nova produ&#xE7;&#xE3;o. Levamos conosco duas caixas em forma de paralelep&#xED;pedo reto-ret&#xE2;ngulo e um cilindro. Antecipadamente, esses objetos foram posicionados juntos e fotografados em v&#xE1;rios &#xE2;ngulos para que pudessem ser vislumbradas as vistas frontais, laterais e superior. As fotos foram expostas em um datashow. As duplas de escolares eram convidadas a posicionar os tr&#xEA;s objetos conforme o que estava sendo mostrado na foto, devendo ainda dizer de que posi&#xE7;&#xE3;o ela havia sido retirada. As duplas n&#xE3;o mostraram nenhuma dificuldade em realizar a tarefa.</p>
<p>Depois dessa atividade, retornamos, no mesmo dia, &#xE0; maquete produzida. A maquete tamb&#xE9;m havia sido fotografada em v&#xE1;rios &#xE2;ngulos, permitindo visualizar n&#xE3;o apenas cada objeto em suas diversas vistas, mas tamb&#xE9;m a maquete como um todo. Embora tiv&#xE9;ssemos, assim, vistas frontais, laterais e superiores de todos os objetos, algumas fotos n&#xE3;o levavam ao seu reconhecimento.</p>
<p>Demos continuidade &#xE0; atividade projetando essas fotos para que os escolares as observassem e falassem a respeito do que observavam. V&#xE1;rios foram os coment&#xE1;rios: alguns apontavam para o que poderia ter sido feito, outros, em tom de compara&#xE7;&#xE3;o ou de desd&#xE9;m, referiam-se &#xE0;s produ&#xE7;&#xF5;es dos colegas, tendo surgido, ainda, algumas justificativas para os seus pr&#xF3;prios trabalhos. Nosso exerc&#xED;cio foi o de buscar pelo que poderia ser produzido a partir dali, mas n&#xE3;o pelo que faltava &#xE0;quela produ&#xE7;&#xE3;o, dizendo repetidas vezes: <italic>&#x201C;Essa j&#xE1; &#xE9; uma produ&#xE7;&#xE3;o. Como podemos falar dela? Mas, n&#xE3;o, para arrumar o que falta e o que ficou feio. Mas, sim, para produzir outra coisa&#x201D;.</italic> Os coment&#xE1;rios se intensificaram trazendo a desproporcionalidade dos elementos da maquete e tamb&#xE9;m um n&#xE3;o reconhecimento, atrav&#xE9;s da foto, do objeto representado. <italic>&#x201C;Olha l&#xE1;, s&#xF3; uma rua!&#x201D;</italic> quando foi apresentada a vista superior de uma parte da maquete na qual s&#xF3; estava o boneco, sendo poss&#xED;vel vislumbrar o isopor da placa com a qual fora confeccionado e a rua na qual estava. <italic>&#x201C;O barco parece um ratinho&#x201D;</italic>, referindo-se &#xE0; foto de uma das laterais do barco que estava apenas em isopor. <italic>&#x201C;&#xC9; uma torta de biscoito, tinha que colocar um papel atr&#xE1;s&#x201D;</italic>, diz um escolar referindo-se &#xE0; face que representaria os fundos do pr&#xE9;dio que ainda estava na caixa de biscoitos.</p>
<p>Ent&#xE3;o, um escolar, em meio &#xE0; conversa que trav&#xE1;vamos, j&#xE1; percebendo, pelo encaminhamento, que a proposta de trabalho que estava por vir era a produ&#xE7;&#xE3;o de uma nova maquete, diz: <italic>&#x201C;Fazer outra maquete? Ah n&#xE3;o?! T&#xF4; com a cabe&#xE7;a doendo de tanto pensar&#x201D;</italic>. De outro escolar surge a ideia de construirmos, nessa nova maquete, um morro. Nesse momento, pensa-se nos materiais a serem utilizados para um formato tridimensional. Ent&#xE3;o, o primeiro, j&#xE1; mais animado, d&#xE1; a ideia de produzirmos um bairro com partes do bairro de cada um dos escolares, dos bolsistas e da equipe executora da pesquisa. A ideia foi aceita por todos e cada um escolhe o que trazer do seu bairro. Nossos lugares de nossos bairros s&#xE3;o ent&#xE3;o escolhidos e listados: o cemit&#xE9;rio, a igreja, a padaria, a pra&#xE7;a, o campo de futebol, a pr&#xF3;pria casa, o posto de gasolina, o jardim, os becos. E o menino que est&#xE1; sempre em sil&#xEA;ncio, o menino silencioso, escolhe, depois de insistirmos, a escola.</p>
<p>Nesse mesmo encontro trouxemos o Google Maps<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref> projetando, em uma tela branca para que pud&#xE9;ssemos vislumbrar, bairros, ruas, relevos, na tentativa de trazer as tr&#xEA;s dimens&#xF5;es para nossa conversa. No entanto, o encaminhamento que havia se dado nos levou para al&#xE9;m disso. O Google Maps nos ajudou a conversar a respeito do nosso novo empreendimento: produzir um bairro com elementos de todos os bairros das pessoas que compunham aqueles encontros.</p>
<p>Mapas recortados de Juiz de Fora foram projetados naquela tela. Focamos principalmente na regi&#xE3;o dos bairros dos escolares. O menino que antes estava desanimado se destacou nesse momento. Levantou-se, foi at&#xE9; a frente da proje&#xE7;&#xE3;o e ajudou a localizar os bairros de cada um, percorrendo caminhos e ruas conhecidas em seu cotidiano. Seus dedos apontavam incessantemente para os lugares. <italic>&#x201C;&#xC9; aqui&#x201D;. &#x201C;Mais pra c&#xE1;&#x201D;. &#x201C;Mais pra l&#xE1;&#x201D;. &#x201C;Isso&#x201D;. &#x201C;Ali &#xE9; o Cristo&#x201D;. &#x201C;Aqui &#xE9; onde moro&#x201D;.</italic> Um menino GPS<xref ref-type="fn" rid="fn6"><sup>6</sup></xref>.</p>
<fig id="f5">
<label>Figura 5</label>
<caption>
<title>Os becos.</title></caption>
<graphic xlink:href="1980-4415-bolema-29-51-0090-gf05.jpg"/></fig>
<p>Procuramos localizar, no bairro de um dos escolares, o local escolhido por ele: os becos. Entretanto, n&#xE3;o conseguimos. E ele, o menino dos becos, argumentou: <italic>&#x201C;N&#xE3;o d&#xE1; pra ver, &#xE9; tudo muito junto&#x201D;.</italic> Em sil&#xEA;ncio, em meio &#xE0; conversa dos outros, projetou como seriam os becos.</p>
<p>Ficou, ent&#xE3;o, o seguinte combinado: visitar&#xED;amos, juntos, os bairros de todos para fazermos as medi&#xE7;&#xF5;es reais de cada local escolhido.</p>
<p>Em nossas reuni&#xF5;es de estudo e planejamento, sent&#xED;amo-nos desconcertados com o como preparar e o como desenvolver nossas atividades. Parecia-nos que nosso amparo sempre se dava de modo muito fluido e ocasional, o que nos desestabilizava. Por outro lado, isso nos impulsionava porque, embora fosse um imprevis&#xED;vel, era cuidado. Est&#xE1;vamos nos desacostumando dos modos de ser professor e dos modos de almejar a ser professor. N&#xE3;o estabelec&#xED;amos o modelo a ser alcan&#xE7;ado. Havia, no entanto, uma organiza&#xE7;&#xE3;o e um investimento no implicar-se com/na experi&#xEA;ncia.</p>
<p>Em nossos encontros com os escolares, como o que acabamos de relatar, nossos movimentos eram ainda mais cuidadosos, procurando criar um modo de estar ali desconectado dos valores como os de <italic>o melhor modo, o mais belo, o poderia fazer assim, o certo</italic> e <italic>o errado</italic>. Neg&#xE1;vamos a falta. O que nos importava era o aqui, o tempo presente, em um cuidado intenso com a dimens&#xE3;o do viver em um produzir-se potentemente ao produzir Matem&#xE1;tica. A aprendizagem se dava na dura&#xE7;&#xE3;o, no tempo da experi&#xEA;ncia, no movente das for&#xE7;as que s&#xE3;o no mundo, na iman&#xEA;ncia-vida. A rede acionada pelo dispositivo Experimentoteca de Matem&#xE1;tica engendrava novos movimentos e atualiza&#xE7;&#xF5;es.</p>
<p>Nosso modo de acionar o dispositivo Experimentoteca de Matem&#xE1;tica foi rodear, mantendo a tens&#xE3;o, por&#xE9;m n&#xE3;o usando os discursos j&#xE1; instaurados no &#xE2;mbito escolar como o de que se &#xE9; capaz por j&#xE1; ter idade ou conhecimento suficiente para tal, ou o de ser poss&#xED;vel se houver dedica&#xE7;&#xE3;o e comprometimento. Nossa dedica&#xE7;&#xE3;o e compromisso eram acionados ao fazermos. Perceb&#xED;amos que isso tamb&#xE9;m se dava com os escolares. Nosso territ&#xF3;rio existencial era ampliado, destituindo as linhas duras de outros dispositivos. Rode&#xE1;vamos e pin&#xE7;&#xE1;vamos linhas de vida que assujeitavam a modos esperados de ser professor e ser aluno, curvando-as sobre si mesmas, em uma dobra, em uma produ&#xE7;&#xE3;o artista de um si e de um mundo.</p> <disp-quote>
<p><bold><italic>Encontros de sextas-feiras</italic></bold></p>
<p><italic>12&#xB0; Encontro. Cada um destaca o material que precisa para produzir o que foi escolhido. Anotamos. Vamos providenciar. Mais planejamento. Ressalta-se a import&#xE2;ncia de pensar que tudo aquilo que hav&#xED;amos escolhido para produzir a maquete deveria caber em duas placas de isopor. O menino GPS reage, une suas m&#xE3;os simbolizando uma por&#xE7;&#xE3;o e diz: &#x201C;Ent&#xE3;o eu vou usar s&#xF3; isso de areia?!&#x201D;, referindo-se ao seu campo. Sente-se incomodado. A necessidade de pensar em propor&#xE7;&#xE3;o est&#xE1; surgindo, apresentando-se como problema.</italic></p></disp-quote>
<p>Para dar encaminhamento &#xE0; proposta de trabalho por n&#xF3;s articulada, marcamos uma sa&#xED;da, que foi chamada de <italic>Um passeio pelos nossos bairros</italic>. Fizemos uma lista com doze bairros a serem visitados. Por&#xE9;m, entre o encontro da decis&#xE3;o em fazer uma maquete, passamos por um encontro de prepara&#xE7;&#xE3;o para o trabalho para pensarmos o material que ir&#xED;amos utilizar e, s&#xF3; ent&#xE3;o, veio o passeio aos bairros. Decidimos visitar os bairros mais pr&#xF3;ximos. Isso nos levou a um n&#xFA;mero de sete bairros, os dos escolares e o da coordenadora. J&#xE1; no encontro de prepara&#xE7;&#xE3;o, o menino dos becos n&#xE3;o apareceu nem para ir ao passeio. Depois de algum tempo, soubemos, pelos colegas, que ele considerava que seu bairro n&#xE3;o seria um lugar seguro para visitarmos.</p> <disp-quote>
<p><bold><italic>Encontros de sextas-feiras</italic></bold></p>
<p><italic>14&#xB0; Encontro. Um passeio pelos nossos bairros. O dia de sol intenso prometia muito calor. Passamos pelo cemit&#xE9;rio do bairro S&#xE3;o Pedro, pela escola do bairro Santos Dumont, pela pra&#xE7;a no mesmo bairro, pela casa de uma escolar no bairro Serro Azul, por um campo no bairro F&#xE1;tima e, por fim, por uma igreja no Democrata.</italic></p></disp-quote>
<p>Para acompanhar a atividade, cada escolar levou, em suas m&#xE3;os, um caderno para anota&#xE7;&#xF5;es e um l&#xE1;pis. Levamos uma trena. Ao pararmos em um dos pontos combinados, a c&#xE2;mera fotogr&#xE1;fica era entregue nas m&#xE3;os do escolar que havia escolhido tal local. A escolar que escolhera o cemit&#xE9;rio foi a primeira a estar com a c&#xE2;mera fotogr&#xE1;fica em m&#xE3;os. Percorreu todo o cemit&#xE9;rio com uma amiga. Muitas fotos foram tiradas. J&#xE1; nas primeiras medi&#xE7;&#xF5;es realizadas, a escolar questionou: <italic>&#x201C;Como &#xE9; que &#xE9;?&#x201D;</italic>. A escolar se referia aos cent&#xED;metros e &#xE0;s polegadas que se mostravam na trena. Discutimos as unidades, ali mesmo, no cemit&#xE9;rio.</p>
<p>O menino silencioso havia escolhido a escola para apresentar na maquete. Negou receber a c&#xE2;mera para fotografar, dizendo em tom baixo de voz: &#x201C;N&#xE3;o quero fazer isso n&#xE3;o&#x201D;. N&#xE3;o fez. Participou timidamente das medi&#xE7;&#xF5;es realizadas. Ao anotar em seu caderno o que estava sendo medido, verificamos que os n&#xFA;meros estavam ali soltos, n&#xE3;o faziam refer&#xEA;ncia ao que correspondiam. Ent&#xE3;o, foi feito rapidamente e a m&#xE3;o livre, pela coordenadora, um esbo&#xE7;o da planta baixa da escola utilizando quadril&#xE1;teros, e o escolar foi indicando, nesse desenho, as medi&#xE7;&#xF5;es realizadas.</p>
<p>Sa&#xED;mos da escola e seguimos para a pra&#xE7;a no mesmo bairro. A c&#xE2;mera fotogr&#xE1;fica foi entregue ao escolar que iria fazer a pra&#xE7;a na maquete, o menino que s&#xF3; viaja. Mas ele tamb&#xE9;m rejeitou tal tarefa, dizendo: <italic>&#x201C;N&#xE3;o sei mexer com isso n&#xE3;o&#x201D;</italic>. Rapidamente recebeu algumas orienta&#xE7;&#xF5;es e saiu pela pra&#xE7;a fazendo suas fotos. Depois acompanhou as medidas realizadas na quadra e na rampa de skate e fez as anota&#xE7;&#xF5;es apresentando dificuldades para lidar com a escrita das unidades. Afirmou que iria representar apenas a quadra e a pista de skate na maquete. Tirou fotos desses pontos da pra&#xE7;a.</p>
<p>No bairro Serro Azul fomos recebidos pelos irm&#xE3;os de uma das escolares. A escolar ajudou nas medidas poss&#xED;veis de serem realizadas na fachada de sua casa. Como n&#xE3;o t&#xED;nhamos acesso aos fundos da casa nem ao &#xFA;ltimo andar, estimamos. Para o comprimento da frente aos fundos, fizemos a estimativa pela quantidade de c&#xF4;modos. E, para a altura, discutimos a medida do p&#xE9;-direito de uma casa. Essas discuss&#xF5;es se deram na rua.</p>
<p>Dali, seguimos para o bairro do menino GPS. Ele foi orientando o motorista. O campo de futebol encontra-se em uma &#xE1;rea enorme, o que chamou a aten&#xE7;&#xE3;o de todos, mas o motorista que nos conduzia se destacou, dizendo: <italic>&#x201C;Voc&#xEA;s v&#xE3;o medir isso?&#x201D;</italic>. Os bolsistas responderam, gritando de longe para o grupo que j&#xE1; fazia as medi&#xE7;&#xF5;es: <italic>&#x201C;Voc&#xEA;s v&#xE3;o medir isso tudo?&#x201D;</italic>, e logo receberam uma afirmativa. Os sorrisos invadiram o ar. O temor do motorista nos impulsionava. Durante nossa estada por ali, o menino GPS mostrou com prazer sua casa, dizendo que morava com a m&#xE3;e na casa debaixo e o pai na de cima.</p>
<p>Por fim, a igreja, escolhida pela coordenadora. Os escolares, ao vislumbrarem a igreja, espantaram-se tamanha era sua dimens&#xE3;o, tanto em comprimento, largura, quanto em altura, al&#xE9;m do grande n&#xFA;mero de janelas. O grupo de escolares meninos se organizou na esquina da igreja e os outros, bolsistas, mediam e filmavam. Terminamos as medidas poss&#xED;veis de serem realizadas, fizemos as devidas anota&#xE7;&#xF5;es e retornamos &#xE0; UFJF.</p> <disp-quote>
<p><bold><italic>Encontros de sextas-feiras</italic></bold></p>
<p><italic>14&#xB0; Encontro. Ao chegarmos do passeio pelos nossos bairros, servimos um lanche. Todos se sentaram e se refrescaram tomando refrigerante e se deliciando com biscoitinhos. Para finalizar, perguntamos se haviam gostado de nossa sa&#xED;da e na voz da escolar que iria fazer sua casa na maquete veio: &#x201C;Eu at&#xE9; pensei em n&#xE3;o ir, mas que bom que fui&#x201D;. Todos afirmaram terem gostado da experi&#xEA;ncia. Do menino que s&#xF3; viaja, ao se despedir, veio: &#x201C;Semana que vem come&#xE7;amos a maquete?&#x201D;.</italic></p></disp-quote>
<fig id="f6">
<label>Figura 6</label>
<caption>
<title>Medindo com os p&#xE9;s.</title></caption>
<graphic xlink:href="1980-4415-bolema-29-51-0090-gf06.jpg"/></fig>
<p>A elabora&#xE7;&#xE3;o da maquete seguiu por oito encontros. A proposta de trabalho foi a de produzirmos, inicialmente, uma escala. Por&#xE9;m, decidimos que n&#xE3;o ser&#xED;amos n&#xF3;s que ir&#xED;amos definir uma escala para os escolares e, tampouco, solicitar a produ&#xE7;&#xE3;o de uma. Preparamo-nos com um prop&#xF3;sito: a produ&#xE7;&#xE3;o de uma escala deveria ser um problema inventado pelos pr&#xF3;prios escolares, deveria constituir-se como um problema. Um dif&#xED;cil exerc&#xED;cio: buscar modos para que a problematiza&#xE7;&#xE3;o fosse acionada. Assim, preparamos folhas de papel pardo para que fiz&#xE9;ssemos um <italic>rascunho</italic> do local no qual colocar&#xED;amos cada pe&#xE7;a a ser produzida, fazendo um quadril&#xE1;tero na regi&#xE3;o a ser ocupada. Isso come&#xE7;ou a produzir alguns efeitos. Houve resist&#xEA;ncia, mas tamb&#xE9;m, entrega.</p> <disp-quote>
<p><bold><italic>Encontros de sextas-feiras</italic></bold></p>
<p><italic>15&#xB0; Encontro. O menino GPS e a menina da casa sentam-se ao ch&#xE3;o em torno do papel e juntos com os bolsistas come&#xE7;am o rascunho. Os outros, sentados nas carteiras, d&#xE3;o palpites. O menino silencioso mant&#xE9;m seu sil&#xEA;ncio. O menino GPS sugere come&#xE7;ar o rascunho pela parte mais dif&#xED;cil: os morros: &#x201C;A gente tem que come&#xE7;ar pelo mais dif&#xED;cil, pra gente tentar quebrar a cabe&#xE7;a, pra chegar num lugar&#x201D;. Muitas falas. O menino GPS entrega-se ao movimento do pensar: em l&#xED;ngua, em corpo. Planeja v&#xE1;rias estrat&#xE9;gias: &#x201C;Por que a gente n&#xE3;o bota a igreja aqui, bota uma rua subindo assim?&#x201D;. Seus dedos indicavam: &#x201C;Come&#xE7;a botando umas curvas aqui, a&#xED; uma rotat&#xF3;ria, a gente joga para um lado e pro outro&#x201D;. Uma bolsista sugere come&#xE7;ar pelas ruas. O menino GPS elabora: &#x201C;A&#xED;, vamos supor: bota uma rotat&#xF3;ria, a&#xED; sobe pela igreja, a&#xED; a outra sobe pra c&#xE1;&#x201D;. Uma quest&#xE3;o surge: &#x201C;Qual &#xE9; a largura de uma rua?&#x201D;. Outros problemas s&#xE3;o levantados: &#x201C;Nem todas as ruas t&#xEA;m a mesma largura. Passamos por ruas mais apertadas&#x201D;; &#x201C;No meu bairro &#xE9; assim, passa um carro de cada vez&#x201D;; &#x201C;Se for avenida &#xE9; mais larga&#x201D;. Decidimos por seis metros, j&#xE1; que esta fora a medida encontrada em um dos bairros. T&#xED;nhamos um carrinho de pl&#xE1;stico, com 2,5cm de comprimento, que foi nosso ponto de partida. &#x201C;Mas, quanto &#xE9; o comprimento de um carro de verdade?&#x201D;. &#x201C;A gente vai ter que ir ao estacionamento e medir um carro, pra gente ter uma no&#xE7;&#xE3;o&#x201D;. &#x201C;N&#xE3;o temos uma trena, estragou&#x201D;. &#x201C;Medimos com passos&#x201D;. O corpo como objeto de medida. Medimos por p&#xE9;s. Um escolar mediu primeiro, anunciou: &#x201C;Treze e meio&#x201D;. Outro, com um p&#xE9; maior, prontificou-se a medir. Antes de terminar a medi&#xE7;&#xE3;o, o menino GPS, diz: &#x201C;O seu vai dar uns sete&#x201D;.</italic></p></disp-quote>
<p>Assim, a escala foi sendo produzida em uma conversa. Uma <italic>boa</italic> escala - seja l&#xE1; o que for boa - para n&#xF3;s, seria aquela em que a produ&#xE7;&#xE3;o de todas as pe&#xE7;as da maquete coubessem naquelas duas folhas de papel pardo coladas. Para al&#xE9;m disso, seria aquela escala que fosse necess&#xE1;ria de ser produzida, que fosse problema. Isso se constituiu, levamos dois encontros nessa problematiza&#xE7;&#xE3;o. Feita a escala, fomos &#xE0; produ&#xE7;&#xE3;o.</p> <disp-quote>
<p><bold><italic>Encontros de sextas-feiras</italic></bold></p>
<p><italic>17&#xB0; Encontro. Na mesa: estiletes, colas, r&#xE9;guas, isopor, caixas, tinta, palitos, canetas, l&#xE1;pis de cor, papel, papel cart&#xE3;o,&#x2026; As m&#xE3;os corriam pelo isopor, os estiletes iam e vinham pr&#xF3;ximos &#xE0;s m&#xE3;os. Ansiedade. Prazer. Tens&#xE3;o. Partes, cortes, recortes, dedos, m&#xE3;os&#x2026; Casa, escola, paredes, pra&#xE7;a, campo, posto de sa&#xFA;de, posto de gasolina. Como dar conta de apresentar onde se vive, onde se corre, onde se brinca, onde se estuda? Como dar tom a uma placa de isopor no mesmo tom da vida? Dif&#xED;cil&#x2026; Mas, no caminhar da nossa atividade, a vida aparecia na voz de uma escolar que contava de uma nota zero na avalia&#xE7;&#xE3;o de Matem&#xE1;tica valendo seis e no sorriso de uma das bolsistas quando recebeu a not&#xED;cia. Avaliar n&#xE3;o fazia parte da nossa rotina. As produ&#xE7;&#xF5;es que faz&#xED;amos traziam, at&#xE9; ent&#xE3;o, o nosso jeito. Que jeito? N&#xE3;o sei. O des&#xE2;nimo de um escolar se mostrava em sua pressa ao produzir o Posto de Sa&#xFA;de para nossa maquete. Pintar, desenhar, terminar r&#xE1;pido,&#x2026; Como isso se dava? Desinteresse? Nenhum modelo a ser representado?</italic></p></disp-quote>
<p>Nossa produ&#xE7;&#xE3;o continuou por mais algumas semanas. Em meio aos movimentos do fazer dos objetos da maquete, a vida ia se anunciando. Ora no sil&#xEA;ncio de um menino que produzia com extremo cuidado a escola. N&#xE3;o encontrava o meio na r&#xE9;gua. Media ou sete ou oito. No encontro com a bolsista: o sete e meio, no meio das coisas, da vida. Com um sorriso terminou seu trabalho e ainda ajudou aos outros. A menina da casa preocupou-se com as medidas, com a escala. Sempre falante. Entre muitos dizeres, trouxe: a m&#xE3;e, os irm&#xE3;os, o padrasto, a aus&#xEA;ncia do pai, a escola, o insucesso em Matem&#xE1;tica e tamb&#xE9;m o sucesso. Uma casa cheia de emendas, produzida no viver. O menino GPS se ausentou em presen&#xE7;a algumas vezes, negou fazer, parecia n&#xE3;o compreender o porqu&#xEA; de n&#xE3;o ser <italic>obrigado</italic> a fazer. Ent&#xE3;o, em um dos encontros, tomou sua produ&#xE7;&#xE3;o com cuidado e finalizou. O menino dos becos esteve conosco em alguns encontros. Justificou sua aus&#xEA;ncia em outros, dizendo: <italic>&#x201C;N&#xE3;o d&#xE1; para vir toda semana por causa do sistema. Como vou faturar meu dinheiro?&#x201D;</italic>. Precisava, para a maquete, da largura dos becos, mediu, abrindo os bra&#xE7;os. Em outro encontro trouxe, em conversas com os escolares, tiros e assassinatos no bairro em que morava. N&#xE3;o foi preciso sussurrar. A vida podia ser narrada. N&#xE3;o terminou os becos, ausentou-se dos &#xFA;ltimos encontros. Aconteceu de alguns tentarem fazer bem r&#xE1;pido a produ&#xE7;&#xE3;o. Esses acabaram sendo envolvidos em outras, como, por exemplo: postes, orelh&#xF5;es, ruas&#x2026;</p> <disp-quote>
<p><bold><italic>Encontros de sextas-feiras</italic></bold></p>
<p><italic>21&#xB0; encontro. Finaliza&#xE7;&#xF5;es. Toques. Retoques. Detalhes sendo cuidados com muito capricho. As m&#xE3;os trabalhavam incessantemente com delicadeza para que tudo ficasse pronto a tempo. Os olhos de alguns &#x201C;gritavam&#x201D; satisfa&#xE7;&#xE3;o. Corpos quietos, inquietos, aflitos, interessados, desinteressados, atentos, desatentos, satisfeitos, insatisfeitos. Tentativas e mais tentativas. Planejamos. Mas um planejamento flex&#xED;vel, que modificava a cada acontecimento. Est&#xE1;vamos no movimento do viver.</italic></p></disp-quote>
<p>Na experi&#xEA;ncia vivida em nossos encontros, linhas duras surgiam nos enunciados dos sujeitos escolarizados que ali estavam. Outros dispositivos j&#xE1; haviam sido acionados antes. Todos que ali chegavam j&#xE1; sabiam se dizer e se pensar e viver de um certo modo j&#xE1; esperado. Pe&#xE7;as de xadrez, um xadrez do dispositivo escolar, da institui&#xE7;&#xE3;o escolar. Ao aluno cabe ouvir, respeitar, produzir o que a ele &#xE9; solicitado, atender ao modelo esperado de bom aluno. Ao professor-coordenador cabe apresentar um saber j&#xE1; fechado, com suas verdades e certezas. Aos bolsistas? A eles cabe, nesse momento, treinar para chegar ao modo professor de ser.</p>
<p>As linhas do dispositivo escolar ficavam no n&#xE3;o dito, mas no j&#xE1; conhecido, no j&#xE1; sabido. A luz do dispositivo Educa&#xE7;&#xE3;o Escolar faz nascer o aluno que tem compet&#xEA;ncias em Matem&#xE1;tica e o professor que sabe o qu&#xEA;, quando e como ensinar. Faz nascer o rosto-aluno e o rosto-professor que n&#xE3;o existe sem essa luz. Al&#xE9;m disso, o dispositivo enuncia o que n&#xE3;o v&#xEA;. Tem seu regime de enuncia&#xE7;&#xE3;o que se d&#xE1; em forma de projetos pol&#xED;tico-pedag&#xF3;gicos, nos PCN, nos CBC&#x2026; Dizem e d&#xE3;o forma ao que n&#xE3;o se v&#xEA;. Linhas de for&#xE7;as &#x2013; do modelo econ&#xF4;mico, do pol&#xED;tico, do social &#x2013; aliam-se ao ver e falar, aliam-se &#xE0;s linhas de visibilidade e de enuncia&#xE7;&#xE3;o, fazendo com que se produzam modos de ser aluno, de ser professor, de aprender e de ensinar acordados com certa verdade transcendente.</p>
<p>Por&#xE9;m h&#xE1; uma mobilidade nos dispositivos, as linhas s&#xE3;o todas linhas de varia&#xE7;&#xE3;o. &#x201C;O Uno, o Todo, o Verdadeiro, o objeto, o sujeito, n&#xE3;o s&#xE3;o universais, mas processos singulares, de unifica&#xE7;&#xE3;o, de totaliza&#xE7;&#xE3;o, de verifica&#xE7;&#xE3;o, de objetiva&#xE7;&#xE3;o, de subjetiva&#xE7;&#xE3;o imanentes a um determinado dispositivo&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">DELEUZE, 1990</xref>, p. 5). Ent&#xE3;o, os dispositivos t&#xEA;m as linhas de ruptura, de fratura, que permitem que outros dispositivos sejam acionados. Fraturar, quebrar, inventar.</p>
<p>Um disparador, um dispositivo foi acionado: a Experimentoteca de Matem&#xE1;tica. Com a cartografia, tem-se a proposta de acompanhar processos de subjetiva&#xE7;&#xE3;o. Assim, foi poss&#xED;vel detectar um movimento do pensar e do existir que exigiu a decis&#xE3;o de uma pol&#xED;tica da cogni&#xE7;&#xE3;o que escapasse ao representativo, ao modelo e que possibilitasse um habitar em um territ&#xF3;rio existencial, produzindo agenciamentos entre a produ&#xE7;&#xE3;o matem&#xE1;tica, a produ&#xE7;&#xE3;o de um si e de um mundo. Pensar e existir coengendrados.</p>
<p>O dispositivo Experimentoteca de Matem&#xE1;tica produzindo outros modos de estar naquele territ&#xF3;rio existencial. Produzir um novo corpo sem amarras na iman&#xEA;ncia-vida, produzindo modos de pertencimento provis&#xF3;rios: nascimento, disrup&#xE7;&#xE3;o, efeitos. O dispositivo acionando a produ&#xE7;&#xE3;o do conhecimento, a inven&#xE7;&#xE3;o, a produ&#xE7;&#xE3;o de um si e de um mundo junto &#xE0; produ&#xE7;&#xE3;o matem&#xE1;tica. A Matem&#xE1;tica sendo produzida como problema, com problematiza&#xE7;&#xE3;o, por necessidade.</p>
<p>Foi poss&#xED;vel, para os escolares, sair das sete pe&#xE7;as do Tangram e produzir uma maquete. Para tanto, foi necess&#xE1;rio trabalhar com o espa&#xE7;o tridimensional t&#xE3;o abolido nos anos do Ensino Fundamental, trabalhar com medi&#xE7;&#xF5;es, com produ&#xE7;&#xE3;o de escalas, com vistas de um objeto tridimensional e com proporcionalidade. Houve um rep&#xFA;dio &#xE0;s t&#xE9;cnicas preestabelecidas. O dispositivo operou na multiplicidade dos processos em devir na experi&#xEA;ncia do encontro com o n&#xE3;o-conhecido, desestabilizando o pensar. Dessa forma, houve a produ&#xE7;&#xE3;o do novo no dizer, no fazer, no ver.</p>
<p>Ficamos, ent&#xE3;o, com uma quest&#xE3;o deleuziana: podem se invocar dispositivos em que a subjetiva&#xE7;&#xE3;o passe pela exist&#xEA;ncia marginalizada do exclu&#xED;do? Respondemos: sim. Tal exist&#xEA;ncia marginalizada do exclu&#xED;do, tamb&#xE9;m provis&#xF3;ria e prec&#xE1;ria, desmancha, quebra, fratura. E, ainda, podemos dizer que novos modos de se dizer, de se ver e de estar nas rela&#xE7;&#xF5;es de for&#xE7;as que s&#xE3;o no mundo podem ser acionados por esses dispositivos atrav&#xE9;s de uma inven&#xE7;&#xE3;o de modos mais potentes de vida. Esses novos modos, tamb&#xE9;m prec&#xE1;rios, provis&#xF3;rios, inventados, v&#xE3;o dando um tom ao viver na iman&#xEA;ncia: nossa atualidade.</p>
<p>Voltemos aos nomes pr&#xF3;prios que iniciaram este texto. Do Tangram &#xE0; maquete, mas <italic>&#xE9;</italic> no meio que se deu a intensidade e nomes pr&#xF3;prios deixaram de designar sujeitos de detentores de um saber-fazer ou um ocupar-fracassar, deixaram de ser precedidos de artigos definidos e de conjugar verbos. Os nomes pr&#xF3;prios passaram a intensidades, a devires precedidos de artigos indefinidos e seguidos de verbos nos infinitivo. De <italic>a Maria ensina</italic> a <italic>uma-Maria-ensinar</italic>. De <italic>o Jo&#xE3;o aprende</italic> a <italic>um-Jo&#xE3;o-aprender</italic>. O infinitivo como tempo do devir, n&#xE3;o mais o tempo <italic>cronos</italic>. Sim, tempo <italic>aion</italic>, tempo do acontecimento. <italic>Uma-Maria-ensinar. Um-Jo&#xE3;o-aprender</italic>. Nada falta ao artigo indefinido j&#xE1; que, agora, n&#xE3;o se liga a determinado sujeito e, sim, a um nome pr&#xF3;prio que &#xE9; pura intensidade. Efeitos atrav&#xE9;s da experi&#xEA;ncia acionada por um dispositivo na iman&#xEA;ncia-vida.</p>
<fig id="f7">
<label>Figura 7</label>
<caption>
<title>Segunda maquete.</title></caption>
<graphic xlink:href="1980-4415-bolema-29-51-0090-gf07.jpg"/></fig>
<p>Por fim, <italic>um</italic> produto. Muitos efeitos. Menino que gosta de azul e menino silencioso e menino flamenguista e menina da casa e menino GPS e menino que s&#xF3; viaja e menino dos becos e&#x2026; e&#x2026;</p>
</sec></body>
<back>
<fn-group>
<fn fn-type="presented-at" id="fn1">
<label>1</label>
<p>Este texto &#xE9; uma vers&#xE3;o revista e ampliada de uma Comunica&#xE7;&#xE3;o Cient&#xED;fica apresentada no V Semin&#xE1;rio Internacional de Pesquisa em Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica, realizado em outubro de 2012 em Petr&#xF3;polis-RJ.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn2">
<label>2</label>
<p>No decorrer do texto, estar&#xE3;o presentes recortes de relat&#xF3;rios do campo de pesquisa, apresentados em formato distinto do texto. Chamamos esses recortes de Encontros de sextas-feiras e, atrav&#xE9;s deles, tentaremos trazer a intensidade do vivido. Al&#xE9;m disto, s&#xE3;o apresentadas fotos de alguns momentos vividos na pesquisa, numa tentativa, ainda que minimalista, de trazer um tanto do que se dava no acontecer do campo.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn3">
<label>3</label>
<p>Mais adiante, no texto, a pesquisa ser&#xE1; apresentada.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn4">
<label>4</label>
<p>Optamos por n&#xE3;o apresentar os nomes dos escolares e, sim, os efeitos.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn5">
<label>5</label>
<p>O Google Maps est&#xE1; dispon&#xED;vel em <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://maps.google.com.br/">http://maps.google.com.br/</ext-link>. Atrav&#xE9;s dele h&#xE1; a possibilidade de escolher um endere&#xE7;o (pa&#xED;s, cidade, bairro, rua) e visualizar um mapa em uma vis&#xE3;o superior. Por&#xE9;m, poder&#xED;amos ainda usar um dos seus recursos, o Google Earth, que permite a visualiza&#xE7;&#xE3;o de terrenos e constru&#xE7;&#xF5;es em tr&#xEA;s dimens&#xF5;es.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn6">
<label>6</label>
<p>Global Positioning System (Sistema de Posicionamento Global).</p></fn></fn-group>
<ref-list>
<title>Refer&#xEA;ncias</title>
<ref id="B1">
<element-citation publication-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name><surname>DELEUZE</surname> <given-names>G.</given-names></name></person-group>
<chapter-title>&#xBF;Que &#xE9;s un dispositivo?</chapter-title>
<source xml:lang="pt">Michel Foucault, fil&#xF3;sofo</source>
<publisher-loc>Barcelona</publisher-loc>
<publisher-name>Gedisa</publisher-name>
<year>1990</year>
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<lpage>161</lpage>
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<name><surname>Dias</surname><given-names>Ruy de Souza</given-names></name>
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<comment>Dispon&#xED;vel em: &#x3C;<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://pt.scribd.com/doc/7134422/o-Que-e-Um-Dispositivo">http://pt.scribd.com/doc/7134422/o-Que-e-Um-Dispositivo</ext-link>&#x3E;.</comment><date-in-citation content-type="access-date">Acesso em: 14/05/2012</date-in-citation></element-citation>
<mixed-citation>DELEUZE, G. &#xBF;Que &#xE9;s un dispositivo? In: <bold>Michel Foucault, fil&#xF3;sofo.</bold> Barcelona: Gedisa, 1990, p. 155-161. Tradu&#xE7;&#xE3;o de Ruy de Souza Dias. Dispon&#xED;vel em: &#x3C;http://pt.scribd.com/doc/7134422/o-Que-e-Um-Dispositivo&#x3E;. Acesso em: 14/05/2012.</mixed-citation></ref>
<ref id="B2">
<element-citation publication-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name><surname>DELEUZE</surname> <given-names>G.</given-names></name></person-group>
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<mixed-citation>FOUCAULT, M. <bold>Microf&#xED;sica do Poder</bold>. Rio de Janeiro: Edi&#xE7;&#xE3;o Graal, 1979.</mixed-citation></ref>
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<mixed-citation>LARROSA, J. Notas sobre a experi&#xEA;ncia e o saber da experi&#xEA;ncia. In: <bold>Revista Brasileira de Educa&#xE7;&#xE3;o</bold>, v. 19, p. 20&#x2013;28, jan/fev/mar/abr. 2002.</mixed-citation></ref>
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