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<journal-title>Bolema: Boletim de Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica</journal-title>
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<issn pub-type="ppub">0103-636X</issn>
<issn pub-type="epub">1980-4415</issn>
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<publisher-name>UNESP - Universidade Estadual Paulista, Pr&#xF3;-Reitoria de Pesquisa Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;&#xE3;o em Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica</publisher-name></publisher>
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<subject>Resenha</subject></subj-group></article-categories>
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<article-title>Altera&#xE7;&#xF5;es e Manuten&#xE7;&#xF5;es: leituras sobre a geometria como saber escolar</article-title>
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<name><surname>Garnica</surname><given-names>Por Antonio Vicente Marafioti</given-names></name><xref ref-type="aff" rid="aff1">*</xref><xref ref-type="corresp" rid="c1"/></contrib>
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<institution content-type="normalized">Universidade Estadual Paulista</institution>
<institution content-type="orgname">UNESP</institution>
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<named-content content-type="city">Bauru</named-content></addr-line>
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<institution content-type="original">Docente do Departamento de Matem&#xE1;tica da Faculdade de Ci&#xEA;ncias da UNESP de Bauru e dos Programas de P&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xE3;o em Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica (UNESP-Rio Claro) e Educa&#xE7;&#xE3;o para a Ci&#xEA;ncia (UNESP-Bauru).</institution></aff></contrib-group>
<author-notes>
<corresp id="c1">Endere&#xE7;o para correspond&#xEA;ncia: Departamento de Matem&#xE1;tica. Avenida Luiz E. C. Coube, s/n. 17033-360. Bauru-SP, E-mail: <email>vgarnica@fc.unesp.br</email></corresp></author-notes>
<pub-date pub-type="epub-ppub">
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<year>2015</year></pub-date>
<volume>29</volume>
<issue>51</issue>
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<name><surname>SILVA</surname><given-names>M.C.L. da</given-names></name><name><surname>VALENTE</surname><given-names>W.R.</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="pt">A geometria nos primeiros anos escolares: hist&#xF3;ria e perspectivas atuais</source>
<publisher-loc>Campinas</publisher-loc>
<publisher-name>Papirus</publisher-name>
<year>2014</year> <size units="pages">141 p</size></product>
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<license-p>This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution Non-Commercial License, which permits unrestricted non-commercial use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.</license-p></license></permissions>
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<p>Dentre os historiadores que abra&#xE7;am concep&#xE7;&#xF5;es contempor&#xE2;neas sobre hist&#xF3;ria, tr&#xEA;s princ&#xED;pios j&#xE1; enunciados em Bloch parecem indiscut&#xED;veis: aceitar que a origem de uma narrativa historiogr&#xE1;fica &#xE9; sempre arbitrada, atendendo a uma disposi&#xE7;&#xE3;o do narrador; concordar que a origem n&#xE3;o justifica a perman&#xEA;ncia; entender que as circunst&#xE2;ncias humanas do passado &#x2013; que a hist&#xF3;ria pretende prender num emaranhado de significados entrela&#xE7;ados &#x2013; s&#xE3;o analisadas &#xE0; luz do presente, numa din&#xE2;mica de manuten&#xE7;&#xF5;es e altera&#xE7;&#xF5;es que n&#xE3;o ocorrem linearmente nem s&#xE3;o guiadas pela ideia de progresso.</p>
<p>O recente livro organizado por Maria C&#xE9;lia Leme da Silva e Wagner Rodrigues Valente, <italic>A geometria nos primeiros anos escolares: hist&#xF3;ria e perspectivas atuais</italic>, nos permite um exerc&#xED;cio sobre essas concep&#xE7;&#xF5;es que, segundo penso, seria importante a todos os que escrevem hist&#xF3;ria e, mais particularmente, hist&#xF3;ria da Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica. Seu tema: como, no ensino prim&#xE1;rio brasileiro, se constitui e se mant&#xE9;m &#x2013; em meio a uma din&#xE2;mica intensa de transforma&#xE7;&#xF5;es &#x2013; uma geometria escolar.</p>
<p>Ainda que o livro &#x2013; como enunciam explicitamente tanto o pref&#xE1;cio, de Ana Maria Kaleff, quanto os pr&#xF3;prios autores, na Introdu&#xE7;&#xE3;o &#x2013; tenha como p&#xFA;blico-alvo o professor que ensina Matem&#xE1;tica para os anos iniciais, segundo os autores; e/ou os cursos de forma&#xE7;&#xE3;o de professores, segundo Kaleff, o pesquisador do campo da Hist&#xF3;ria da Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica, n&#xE3;o apenas por ser, tamb&#xE9;m, professor que ensina Matem&#xE1;tica &#x2013; pode aproveit&#xE1;-lo do mesmo modo, dada a diversidade de fontes nele disponibilizadas, os exerc&#xED;cios de an&#xE1;lise sobre essas fontes e as possibilidades de problematiza&#xE7;&#xE3;o que ele abre, seja em rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0; pr&#xE1;tica de escrever hist&#xF3;ria ou &#xE0;s pr&#xE1;ticas did&#xE1;ticas relativas &#xE0; Matem&#xE1;tica.</p>
<p>Deve-se ressaltar, entretanto, que nem todos os quatro cap&#xED;tulos do texto s&#xE3;o marcados pela mesma disposi&#xE7;&#xE3;o historiogr&#xE1;fica, vi&#xE9;s acentuado nos tr&#xEA;s cap&#xED;tulos iniciais, que tecem como que um fio sequencial desde os <italic>prim&#xF3;rdios do ensino de geometria nos anos iniciais</italic> (este o t&#xED;tulo do primeiro cap&#xED;tulo, que j&#xE1; arbitra aquela origem da narrativa da qual fal&#xE1;vamos), passando pelo <italic>Ensino de Geometria nos Grupos Escolares</italic>, segundo cap&#xED;tulo, escrito por Silva e Valente, at&#xE9; chegar &#xE0; perspectiva do <italic>Movimento Matem&#xE1;tica Moderna</italic>, terceiro cap&#xED;tulo, escrito por Pinto e Valente. O quarto cap&#xED;tulo, redigido por Lima e Carvalho, &#x2013; no qual h&#xE1; um di&#xE1;logo mais direto com o professor que ensina Matem&#xE1;tica acerca de conceitos geom&#xE9;tricos e de formas poss&#xED;veis de trat&#xE1;-los em sala de aula, mas que, talvez por priorizar esse di&#xE1;logo no presente n&#xE3;o esteja entrecortado por uma perspectiva, digamos, hist&#xF3;rica, nem te&#xE7;a rela&#xE7;&#xF5;es com os cap&#xED;tulos anteriores, como fazem os tr&#xEA;s primeiros textos da colet&#xE2;nea &#x2013; talvez esteja representado, no subt&#xED;tulo da obra, pela express&#xE3;o <italic>perspectivas atuais</italic>, ao passo que os demais cap&#xED;tulos respondem ao termo <italic>hist&#xF3;ria</italic>, que consta do mesmo subt&#xED;tulo. A conclus&#xE3;o, elaborada por Wagner Rodrigues Valente, explica a presen&#xE7;a desse quarto cap&#xED;tulo, advogando por um v&#xED;nculo entre ele e os cap&#xED;tulos anteriores: posto que coube aos primeiros cap&#xED;tulos analisar como a geometria se constitui em saber escolar para a escola prim&#xE1;ria brasileira, em meio a transforma&#xE7;&#xF5;es e interfer&#xEA;ncias dos mais variados matizes, seria necess&#xE1;rio analisar, no presente,</p> <disp-quote>
<p>[&#x2026;] as refer&#xEA;ncias tidas como importantes, tendo em vista a geometria escolar para o ensino fundamental, com destaque para os anos iniciais, em rela&#xE7;&#xE3;o a como e ao que abordar nos primeiros contatos com a geometria, E, neste caso [do quarto cap&#xED;tulo], os temas tratados, conte&#xFA;dos presentes para serem ensinados nos primeiros anos escolares, foram considerados de um ponto de vista mais avan&#xE7;ado, sistematizados e com dose maior de rigor matem&#xE1;tico (<xref ref-type="bibr" rid="B5">VALENTE, 2014</xref>, p. 129).</p></disp-quote>
<p>Segundo Silva e Valente, as primeiras discuss&#xF5;es sobre o ensino de Geometria nos cursos prim&#xE1;rios brasileiros pode ser encontrada em texto de Martim Francisco d&#x27;Andrada &#x2013; <italic>Mem&#xF3;rias sobre a reforma de estudos da Capitania de S&#xE3;o Paulo</italic> &#x2013;, que defende proposta similar &#x2013; uma quase tradu&#xE7;&#xE3;o &#x2013; &#xE0;quela do <italic>Cinco mem&#xF3;rias sobre a instru&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica</italic>, de <xref ref-type="bibr" rid="B2">Condorcet (2008)</xref> &#x201C;o conte&#xFA;do desse ensino deve articular-se com a pr&#xE1;tica da agrimensura: um ensino de geometria para a pr&#xE1;tica, uma geometria pr&#xE1;tica para a primeira etapa da escolariza&#xE7;&#xE3;o&#x201D;. Desejando arbitrar um momento anterior &#xE0; narrativa sobre a constitui&#xE7;&#xE3;o, no Brasil, de um saber escolar relativo &#xE0; geometria, o leitor poderia procurar aprofundar suas leituras acerca da posi&#xE7;&#xE3;o do Marqu&#xEA;s de Condorcet e dos Iluministas acerca da Instru&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica e, nela, das propostas para o ensino de geometria. Silva e Valente, entretanto, escrevendo para o professor que ensina matem&#xE1;tica, sensatamente d&#xE3;o ao leitor apenas algumas indica&#xE7;&#xF5;es gerais acerca da posi&#xE7;&#xE3;o de Condorcet sobre o assunto, e seguem em seu texto para abordar o primeiro f&#xF3;rum de discuss&#xE3;o educacional instalado a partir da Independ&#xEA;ncia: os debates parlamentares sobre a instru&#xE7;&#xE3;o popular.</p>
<p>O projeto da Casa Legislativa fixa, n&#xE3;o sem controv&#xE9;rsias, que nas escolas prim&#xE1;rias, &#x201C;os professores ensinar&#xE3;o a ler, escrever, as quatro opera&#xE7;&#xF5;es da aritm&#xE9;tica, pr&#xE1;tica dos quebrados, decimais e propor&#xE7;&#xF5;es, <italic>as no&#xE7;&#xF5;es mais gerais de geometria pr&#xE1;tica</italic>, a gram&#xE1;tica da l&#xED;ngua nacional&#x201D; (grifo dos autores). Sai vencedora dos debates, portanto, a linha dos parlamentares que, de alguma forma, abra&#xE7;am a proposta de Martim Francisco, incluindo, em decorr&#xEA;ncia, a geometria dentre os saberes a serem ensinados na escola prim&#xE1;ria. Al&#xE9;m disso, abra&#xE7;am tamb&#xE9;m, de alguma forma, aquela proposta condorcetiana que enfatiza o ensino dessa geometria pr&#xE1;tica. Interessante notar que se trata de um ponto de vista defendido pelo intelectual franc&#xEA;s que, antes do per&#xED;odo revolucion&#xE1;rio, adepto das posi&#xE7;&#xF5;es de Rousseau, Locke e Condillac, defendia o preceptorado, a instru&#xE7;&#xE3;o privada, para a educa&#xE7;&#xE3;o da inf&#xE2;ncia, e para o qual, apenas anos mais tarde, &#x201C;a instru&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica passa a se configurar [&#x2026;] como uma resposta direta &#xE0; conting&#xEA;ncia hist&#xF3;rica, como alternativa anticlerical&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B3">GOMES, 2008</xref>, p. 226). Interessante, tamb&#xE9;m, notar que o plano de Concorcet &#x2013; o <italic>Informe sobre a organiza&#xE7;&#xE3;o da instru&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica</italic>, baseado nas <italic>Cinco Mem&#xF3;rias</italic> &#x2013;, sequer votado pela Assembl&#xE9;ia Legislativa do governo revolucion&#xE1;rio, esteve na pauta de v&#xE1;rios outros planos posteriores para a instru&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica da Fran&#xE7;a, at&#xE9; fixar-se em solo brasileiro, na Lei de 15 de Outubro de 1827, marco historiogr&#xE1;fico da educa&#xE7;&#xE3;o nacional.</p>
<p>A lei de 1827 cria a escola prim&#xE1;ria em todas as cidades e vilas e aposta na ado&#xE7;&#xE3;o do m&#xE9;todo m&#xFA;tuo, do que decorre a publica&#xE7;&#xE3;o de livros que pudessem ajudar os mestres na tarefa que agora era deles exigida. Nesse cen&#xE1;rio, surge a obra de Holanda Cavalcanti de Albuquerque, uma tradu&#xE7;&#xE3;o/adapta&#xE7;&#xE3;o do <italic>Desenho Linear e Agrimensura, para todas as escolas prim&#xE1;rias, qualquer que seja o modo de instru&#xE7;&#xE3;o que seja seguido</italic>, de 1819, <italic>refer&#xEA;ncia para o ensino em Portugal e no Brasil</italic>, e cujo autor, Louis-Benjamin Francoeur, &#xE9; pioneiro em <italic>sistematizar os conte&#xFA;dos de desenho para as escolas de ensino m&#xFA;tuo</italic>. Mas, segundo Silva e Valente (p. 31)</p> <disp-quote>
<p>[&#x2026;] a an&#xE1;lise do livro de Holanda Cavalcanti [&#x2026;] mostra que a geometria ser&#xE1; pr&#xE1;tica se os alunos forem levados a trabalhar com as figuras geom&#xE9;tricas. [&#x2026;] associar a esse ensino de geometria a agrimensura, a medi&#xE7;&#xE3;o de terrenos, como &#xE9; a inten&#xE7;&#xE3;o inicial de Condorcet, parece ter sido deixado de lado. [&#x2026;]. A representa&#xE7;&#xE3;o do car&#xE1;ter pr&#xE1;tico migra, ao que parece, de atividades rurais &#x2013; como a medi&#xE7;&#xE3;o de terrenos &#x2013; para as profiss&#xF5;es que t&#xEA;m lugar nas vilas e cidades francesas ao tempo da escrita da obra de Francoeur. E mais: a forma pr&#xE1;tica dessa geometria dever&#xE1; ser demonstrada no &#xE2;mbito escolar: a atividade dos alunos com o desenho das formas geom&#xE9;tricas. N&#xE3;o mais o campo, o terreno, como lugar da a&#xE7;&#xE3;o dos alunos &#xE9; prova do car&#xE1;ter pr&#xE1;tico. Assim, nesses tempos iniciais, logo ficam &#xE0; mostra as transforma&#xE7;&#xF5;es de significado da geometria pr&#xE1;tica: nasce, desse modo, uma geometria escolar.</p></disp-quote>
<p>A cadeia de transforma&#xE7;&#xF5;es pela qual passa a geometria ensinada nas escolas prim&#xE1;rias leva, portanto, de uma geometria pr&#xE1;tica (essencialmente vinculada &#xE0; agrimensura, como propunha Condorcet) ao desenho linear (uma pr&#xE1;tica relativa <italic>ao aprendizado da constru&#xE7;&#xE3;o de linhas &#xE0; m&#xE3;o livre. Uma pr&#xE1;tica de adestramento do olhar, rumo &#xE0; precis&#xE3;o dos tra&#xE7;ados</italic>) e, deste, &#xE0; abordagem<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref> que aponta como saberes a serem ensinados &#x201C;a caracteriza&#xE7;&#xE3;o e a nomenclatura dos objetos geom&#xE9;tricos. [&#x2026;] &#xC0;s aritm&#xE9;ticas, agrega-se a geometria considerada m&#xED;nima para o curso prim&#xE1;rio: os seus primeiros elementos, as primeiras defini&#xE7;&#xF5;es&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B5">SILVA; VALENTE, 2014</xref>, p. 38-9).</p>
<p>Pode-se notar, nos par&#xE1;grafos anteriores (que nada mais s&#xE3;o que uma s&#xED;ntese tosca das detalhadas an&#xE1;lises realizadas no primeiro cap&#xED;tulo do livro aqui resenhado) esse processo de apropria&#xE7;&#xE3;o e transforma&#xE7;&#xE3;o de ideias<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref> que servem de exemplo &#xE0;quela n&#xE3;o-linearidade a que nos referimos no in&#xED;cio deste artigo e que cabe &#xE0; historiografia estudar: por mais que a elabora&#xE7;&#xE3;o textual teime em exigir uma linearidade na apresenta&#xE7;&#xE3;o, as ideias apresentadas explicitam o tortuoso caminho para que uma determinada apreens&#xE3;o se estabele&#xE7;a, criando v&#xED;nculos e impondo-se como refer&#xEA;ncia, entre perman&#xEA;ncias e altera&#xE7;&#xF5;es. Trata-se, percebe-se, de uma defesa constante da pr&#xE1;tica como aliada &#xE0; geometria escolar, ainda que essa pr&#xE1;tica possa ser (e efetivamente seja) lida de modo diferente com o correr do tempo. Os interessados em historiografia &#x2013; e, especificamente, os interessados ou especialistas em Hist&#xF3;ria da Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica que, reiterando, n&#xE3;o s&#xE3;o (mas bem poderiam ser) o p&#xFA;blico-alvo do livro organizado por Silva e Valente &#x2013; podem, a partir desse livro, destrinchar o emaranhado de linhas que conduzem ora a um resultado, ora a outro; que partem de uma <italic>mesma</italic> compreens&#xE3;o para criar diferentes vers&#xF5;es, incluindo aquela que, num movimento homeop&#xE1;tico e subversivo, tornar-se-&#xE1;, de alguma forma, a vers&#xE3;o hegem&#xF4;nica ou preponderante. Por outro lado, mesmo para o p&#xFA;blico-alvo do livro &#x2013; os professores que ensinam Matem&#xE1;tica &#x2013; talvez fosse interessante problematizar &#x2013; ou aventar perspectivas poss&#xED;veis e plaus&#xED;veis &#x2013; sobre o que leva uma proposta de teor nitidamente pr&#xE1;tico &#x2013; o ensino de geometria vinculado &#xE0; agrimensura &#x2013; deformar-se a ponto de se aproximar de uma apreens&#xE3;o mais te&#xF3;rica, mais <italic>elementar</italic> (no sentido euclidiano)<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref>, como aquela veiculada nos manuais escolares de Souza Lobo (publicados na segunda metade do s&#xE9;culo XIX mas com edi&#xE7;&#xF5;es at&#xE9; os anos de 1930, estudados em Silva e Valente). Uma dessas possibilidades, parece-me, traz &#xE0; tona uma faceta da comunidade &#xE0; qual o livro de Silva e Valente se dirige: trata-se da forma&#xE7;&#xE3;o de professores. Se n&#xE3;o, vejamos: mesmo Condorcet, que n&#xE3;o era favor&#xE1;vel aos livros <italic>de elementos</italic> para as crian&#xE7;as, recomendava aos professores dessas crian&#xE7;as as obras de Aritm&#xE9;tica e &#xC1;lgebra do padre Bossut e uma tradu&#xE7;&#xE3;o francesa dos <italic>Elementos</italic> de Euclides (<xref ref-type="bibr" rid="B3">GOMES, 2008</xref>). Sabe-se que, passado um s&#xE9;culo da &#xE9;poca de Condorcet, j&#xE1; na Inglaterra Vitoriana, o surgimento de manuais de Geometria para o ensino, alternativos ao de Euclides, causou vasta pol&#xEA;mica envolvendo a comunidade de matem&#xE1;ticos e educadores (<xref ref-type="bibr" rid="B6">MONTOITO, 2013</xref>). Nessa pol&#xEA;mica envolve-se, por exemplo, Lewis Carroll, cuja obra <italic>Euclides e seus rivais modernos</italic>, de 1879, &#xE9; uma veemente defesa da manuten&#xE7;&#xE3;o dos <italic>Elementos</italic> como texto-base nas escolas inglesas. N&#xE3;o &#xE9; pol&#xEA;mica &#x2013; de modo geral, e n&#xE3;o apenas &#xE0; luz desses dois exemplos &#x2013; a perman&#xEA;ncia da obra de Euclides no pensamento ocidental, seja na filosofia (como uma apreens&#xE3;o ao que seria Matem&#xE1;tica) (<xref ref-type="bibr" rid="B7">MONTOITO; GARNICA, 2014</xref>), seja como estrat&#xE9;gia de ensino para as salas de aula. Formados segundo essas concep&#xE7;&#xF5;es de uma Matem&#xE1;tica que s&#xF3; t&#xEA;m sentido na &#xF3;rbita euclidiana<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref>, n&#xE3;o seria implaus&#xED;vel pensar no papel que os autores dos Manuais escolares do passado desempenham ao elaborar suas obras: cuidam de deslizar para a pr&#xE1;tica did&#xE1;tica as abordagens da pr&#xE1;tica cient&#xED;fica segundo a qual eram formados. S&#xE3;o, portanto, agenciadores. Esse debate, ainda bastante atual, pode ser levantado a partir da leitura do texto aqui resenhado, e poderia mesmo dele fazer parte, como questionamento expl&#xED;cito das pr&#xE1;ticas de agenciamento efetivadas por aqueles aos quais esse mesmo texto se destina.</p>
<p>Tratados esses prim&#xF3;rdios, s&#xE3;o os ventos republicanos e seu modelo espec&#xED;fico de organiza&#xE7;&#xE3;o educacional &#x2013; os Grupos Escolares &#x2013; que constituem o pano de fundo do que o leitor encontrar&#xE1; no segundo cap&#xED;tulo. Fundamental para a organiza&#xE7;&#xE3;o e consolida&#xE7;&#xE3;o do ensino prim&#xE1;rio, n&#xE3;o s&#xF3; no estado de S&#xE3;o Paulo onde foram inicialmente criados ao final do s&#xE9;culo XIX, os Grupos Escolares s&#xE3;o parte do esfor&#xE7;o republicano, junto &#xE0; cria&#xE7;&#xE3;o de outros s&#xED;mbolos espec&#xED;ficos, para a populariza&#xE7;&#xE3;o do sistema pol&#xED;tico ent&#xE3;o vigente. Sabe-se que, ao contr&#xE1;rio do que ocorreu na Fran&#xE7;a, a Rep&#xFA;blica brasileira foi uma estrat&#xE9;gia das elites, implantada sem a participa&#xE7;&#xE3;o popular. Era preciso, pois, extravasar a rep&#xFA;blica para fora do campo da elite, popularizar as potencialidades do novo regime. Para isso, a Educa&#xE7;&#xE3;o foi, desde o princ&#xED;pio, chave fundamental. Esse extravasamento &#x201C;n&#xE3;o poderia ser feito por meio do discurso, inacess&#xED;vel a um p&#xFA;blico com baixo n&#xED;vel de educa&#xE7;&#xE3;o formal. Ele teria de ser feito mediante sinais mais universais, de leitura mais f&#xE1;cil, como as imagens, as alegorias, os s&#xED;mbolos, os mitos&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">CARVALHO, 2006</xref>, p.10). A constru&#xE7;&#xE3;o de pr&#xE9;dios monumentais foi decorr&#xEA;ncia dessa necessidade de <italic>formar almas</italic>, difundindo uma instru&#xE7;&#xE3;o nova, que seguiria uma legisla&#xE7;&#xE3;o tamb&#xE9;m nova, diametralmente oposta &#x2013; pretendiam os republicanos &#x2013; &#xE0; da estrutura educacional mantida pelo Imp&#xE9;rio. O m&#xE9;todo intuitivo, preconizado por Rui Barbosa, que traduzira o livro <italic>Li&#xE7;&#xF5;es de Coisas</italic>, de Norman Allison Calkins, passava a ser</p> <disp-quote>
<p>[&#x2026;] exaltado como o elemento mais importante dessas novas propostas educacionais&#x201D;, e junto &#xE0; geometria introduzia-se a taquimetria, &#x201C;definida por Rui Barbosa como &#x2018;concretiza&#xE7;&#xE3;o da geometria&#x2019;, &#xE9; o ensino da geometria pela evid&#xEA;ncia material [&#x2026;]: &#xE9; a <italic>li&#xE7;&#xE3;o de coisas</italic> aplicada &#xE0; medida das extens&#xF5;es e volumes&#x27; (<xref ref-type="bibr" rid="B5">SILVA; VALENTE, 2014</xref>, p. 43-4)</p></disp-quote>
<p>O programa de ensino que implantaria essas e outras disposi&#xE7;&#xF5;es foi elaborado por &#x201C;Oscar Thompson, Benedito Tolosa e Antonio Rodrigues Alves [e] oficializado pelo decreto 248 de 26 de junho de 1894.&#x201D; Trata-se de um programa extenso que cobre os quatro anos de instru&#xE7;&#xE3;o, e no qual o desenho aparece como &#x201C;apoio importante para a geometria e um auxiliar poderoso &#xE0; observa&#xE7;&#xE3;o&#x201D;. Notam Silva e Valente, por&#xE9;m, que a mobiliza&#xE7;&#xE3;o do desenho de forma vinculada ao ensino de geometria n&#xE3;o &#xE9; uma novidade no ensino, posto j&#xE1; estar presente em obras did&#xE1;ticas do final do Imp&#xE9;rio (como, por exemplo, no conhecido <italic>Desenho Linear ou elementos de geometria pr&#xE1;tica popular</italic>, do Bar&#xE3;o de Maca&#xFA;bas). Trata-se, pois, de outra manuten&#xE7;&#xE3;o em meio a uma din&#xE2;mica de altera&#xE7;&#xF5;es<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref>. Do mesmo modo, mesmo ausente na letra da lei, a express&#xE3;o <italic>Geometria Pr&#xE1;tica</italic> continuava a frequentar o t&#xED;tulo de manuais como os de Olavo Freire (<italic>a primeira obra did&#xE1;tica para o ensino prim&#xE1;rio de geometria em tempos republicanos</italic>, publicada em 1894)<xref ref-type="fn" rid="fn6"><sup>6</sup></xref>. Agora, no tempo dos Grupos Escolares, por&#xE9;m, a geometria pr&#xE1;tica passa a ser caracterizada pelas constru&#xE7;&#xF5;es geom&#xE9;tricas com r&#xE9;gua e compasso, enquanto que o desenho, apartado, torna-se <italic>desenho natural, em que se observam e desenham objetos da vida da crian&#xE7;a e n&#xE3;o mais as figuras geom&#xE9;tricas</italic>. Se a reforma de 1905 estabelece, al&#xE9;m dessa dissocia&#xE7;&#xE3;o entre geometria e desenho, uma invers&#xE3;o no desenvolvimento dos conte&#xFA;dos de ensino da geometria (passa-se a iniciar o ensino, nos primeiro e segundo anos, pelo estudo das figuras espaciais at&#xE9; chegar aos elementos de geometria plana, nos terceiro e quarto anos) que se mant&#xE9;m at&#xE9; meados do s&#xE9;culo XX, a reforma de 1925 insere no programa uma nova mat&#xE9;ria, <italic>Formas</italic>, para os dois anos iniciais, &#x201C;configurada como ensino intuitivo, pr&#xE1;tico, de explora&#xE7;&#xE3;o, manipula&#xE7;&#xE3;o de objetos, sem denomina&#xE7;&#xF5;es e constru&#xE7;&#xF5;es&#x201D;, reservando aos &#xFA;ltimos dois anos a mat&#xE9;ria geometria, &#x201C;caracterizada por defini&#xE7;&#xF5;es, propriedades geom&#xE9;tricas, constru&#xE7;&#xF5;es com utiliza&#xE7;&#xE3;o de r&#xE9;gua e compasso e medidas de &#xE1;reas e volumes.</p>
<p>Marcas da geometria escolar no ensino prim&#xE1;rio da &#xE9;poca dos Grupos Escolares s&#xE3;o, portanto, o novo significado atribu&#xED;do &#xE0; express&#xE3;o Geometria Pr&#xE1;tica, anunciando a &#x201C;chegada de instrumentos de constru&#xE7;&#xE3;o ao ensino de geometria prim&#xE1;rio&#x201D; e &#x201C;a separa&#xE7;&#xE3;o de conte&#xFA;dos e procedimentos de ensino da geometria e do desenho, num primeiro momento, e de geometria e formas, num segundo per&#xED;odo&#x201D;.</p>
<p>Fica-se com a impress&#xE3;o, portanto, a partir das argumenta&#xE7;&#xF5;es e an&#xE1;lises de Silva e Valente, que, aparentemente, o ensino de geometria n&#xE3;o estaria completo, ou n&#xE3;o seria adequado, se a abordagem mais intuitiva, mais elementar, mais introdut&#xF3;ria, mais pr&#xE1;tica (qualquer que seja o sentido que se d&#xEA; a este &#xFA;ltimo termo) n&#xE3;o fosse transcendida por uma perspectiva mais sistem&#xE1;tica, como que iniciando uma abordagem formal e, em decorr&#xEA;ncia, mais rigorosa (do ponto de vista tradicional em Matem&#xE1;tica) dos objetos da geometria. Essa perspectiva, de forma clara, mas vestida com uma roupagem emprestada da Psicologia que se alia &#xE0;s perspectivas matem&#xE1;ticas vistas como modernas e altamente rigorosas &#x2013; a proposta de Bourbaki &#x2013; ser&#xE1; o tema do terceiro cap&#xED;tulo da colet&#xE2;nea organizada por Silva e Valente: chegamos aos tempos da Matem&#xE1;tica Moderna.</p>
<p>O Movimento Matem&#xE1;tica Moderna (MMM) foi, como se sabe, tema de um projeto de grande envergadura conduzido pelo GHEMAT, Grupo de Pesquisa de Hist&#xF3;ria da Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica no Brasil, coordenados (pesquisa e grupo) por Valente e do qual participaram ativamente os autores dos tr&#xEA;s primeiros cap&#xED;tulos do livro aqui resenhado. Boa parte dos estudos em Hist&#xF3;ria da Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica sobre esse tema, principalmente em tempos mais recentes, foi desenvolvida dentro desse projeto e, portanto, essa experi&#xEA;ncia pr&#xE9;via permite que uma s&#xED;ntese aprofundada desse per&#xED;odo e, nele, do MMM, seja feita na produ&#xE7;&#xE3;o mais recente de Silva e Valente. A familiaridade dessa experi&#xEA;ncia pr&#xE9;via, me parece, faz com que temas como o estruturalismo na matem&#xE1;tica e a abordagem piagetiana a este estruturalismo, bem como uma hist&#xF3;ria da constitui&#xE7;&#xE3;o e desenvolvimento do MMM, sejam apresentados de modo breve, mas adequado em seu detalhamento, de modo a conduzir o leitor para a discuss&#xE3;o sobre a geometria nesses tempos de moderniza&#xE7;&#xE3;o do ensino.</p>
<p>Dos livros did&#xE1;ticos para o ensino prim&#xE1;rio destacam-se aqueles produzidos por Anna Franchi, Luc&#xED;lia Bechara Sanchez e Manh&#xFA;cia Perelberg Liberman<xref ref-type="fn" rid="fn7"><sup>7</sup></xref>, &#x201C;verdadeiros <italic>best-sellers</italic> do ponto de vista da quantidade de exemplares vendidos ao tempo do MMM&#x201D;. Sintetizando, os autores desse cap&#xED;tulo afirmam que &#x201C;numa an&#xE1;lise breve, pode-se dizer que, pelo menos em termos das normas para o trabalho pedag&#xF3;gico, altera-se substancialmente a organiza&#xE7;&#xE3;o dos conte&#xFA;dos escolares matem&#xE1;ticos a serem ensinados para as crian&#xE7;as. Ainda que os dois primeiros livros desse <italic>Curso Moderno</italic> de Franchi, Sanchez e Liberman n&#xE3;o abordem &#x2013; ou tratem de forma brev&#xED;ssima, como no caso do segundo volume &#x2013; o tema geometria, o terceiro volume, no seu item <italic>No&#xE7;&#xF5;es de Geometria</italic>, inaugura &#x201C;o estudo de conceitos topol&#xF3;gicos como <italic>dentro, fora, aberto</italic> e <italic>fechado, regi&#xF5;es</italic>, que se caracterizam como inovadores para o ensino prim&#xE1;rio. [&#x2026;] [e] pode-se dizer que a articula&#xE7;&#xE3;o entre os conceitos topol&#xF3;gicos e a geometria euclidiana se d&#xE1; por meio da linguagem dos conjuntos&#x201D;.</p>
<p>A disposi&#xE7;&#xE3;o em incluir temas da topologia &#x2013; ou apostar numa abordagem topol&#xF3;gica em detrimento da perspectiva euclidiana, apenas &#x2013;, que serviria para outras cole&#xE7;&#xF5;es e livros do mesmo per&#xED;odo, radica-se na proposta fundamentadora do MMM, estruturalista (e) piagetiana<xref ref-type="fn" rid="fn8"><sup>8</sup></xref>, cuja &#xEA;nfase foi marcada por tr&#xEA;s eixos matem&#xE1;ticos que guiariam a forma dos programas escolares e suas diretrizes psicopedag&#xF3;gicas: as estruturas alg&#xE9;bricas, as no&#xE7;&#xF5;es topol&#xF3;gicas e a rela&#xE7;&#xE3;o de ordem.</p>
<p>A cultura escolar estabelecida, com seus valores, concep&#xE7;&#xF5;es e estrat&#xE9;gias arraigados, entretanto, subverte homeopaticamente essas disposi&#xE7;&#xF5;es revolucion&#xE1;rias, e acentua, mesmo nesses tempos de moderniza&#xE7;&#xE3;o &#x2013; que n&#xE3;o demorar&#xE3;o muito para se exaurir &#x2013;, a abordagem euclidiana: trata-se, aqui, de outro exemplo de como as altera&#xE7;&#xF5;es e manuten&#xE7;&#xF5;es &#x2013; cerne dos estudos historiogr&#xE1;ficos, reitero &#x2013; ocorrem no universo da escola:</p> <disp-quote>
<p>Mesmo em meio a um contexto revolucion&#xE1;rio de propostas de mudan&#xE7;a da matem&#xE1;tica escolar, [sintetizam os autores], o MMM encontrou o cotidiano pronto para incorporar novos elementos da geometria sem que efetivamente tenha sido abandonada a refer&#xEA;ncia da geometria euclidiana. Por entre as p&#xE1;ginas e p&#xE1;ginas dos livros did&#xE1;ticos que enfatizavam os elementos da teoria dos conjuntos, logo viria a geometria com os primeiros itens da topologia. Mas esses elementos mesclaram-se, servindo como r&#xE1;pida introdu&#xE7;&#xE3;o para o estudo das figuras geom&#xE9;tricas [numa abordagem] euclidiana (<xref ref-type="bibr" rid="B8">PINTO; VALENTE in SILVA; VALENTE, 2014</xref>, p. 81-2).</p></disp-quote>
<p>A experi&#xEA;ncia dos autores sobre o MMM e o ensino de determinados conte&#xFA;dos matem&#xE1;ticos na &#xF3;rbita desse movimento, j&#xE1; o dissemos, permite que temas muito diversificados sejam abordados de forma sint&#xE9;tica, mas correta e adequada para permitir um encadeamento de ideias que, em consequ&#xEA;ncia, retrata, em sua din&#xE2;mica de altera&#xE7;&#xF5;es e manuten&#xE7;&#xF5;es, o ensino de geometria no ensino prim&#xE1;rio brasileiro nas cercanias dos anos de 1960. Essa mesma experi&#xEA;ncia, por&#xE9;m, pode justificar o que eu percebo como sendo um certo afastamento em rela&#xE7;&#xE3;o ao leitor que se tem em mente para o livro: o professor que ensina matem&#xE1;tica.</p>
<p>Dos tr&#xEA;s cap&#xED;tulos at&#xE9; aqui analisados, este, o terceiro, &#xE9; o que mais se aproxima de uma abordagem acad&#xEA;mica &#x2013; seja em sua forma, seja no modo de tratar a literatura que surge como apoio &#xE0;s ideias apresentadas ou, ainda, no que diz respeito aos conte&#xFA;dos (ou, mais propriamente, &#xE0; abordagem proposta para os conte&#xFA;dos) tratados na escola sob a &#xE9;gide do MMM. Essa op&#xE7;&#xE3;o pelo <italic>tom</italic> &#x2013; mais acad&#xEA;mico que o dos dois primeiros cap&#xED;tulos<xref ref-type="fn" rid="fn9"><sup>9</sup></xref> &#x2013; n&#xE3;o &#xE9;, sob meu ponto de vista, t&#xE3;o problem&#xE1;tica para o p&#xFA;blico-alvo posto que, embora mais cifrada em seus conceitos, a elabora&#xE7;&#xE3;o textual &#xE9; sempre clara. Entretanto, a alus&#xE3;o demasiado frequente a conceitos aparentemente desconhecidos (ou, pelo menos, mais distantes) dos professores que ensinam matem&#xE1;tica &#xE9;, sim, problem&#xE1;tica. Notemos, por exemplo, o uso reiterado do termo <italic>topologia</italic> e suas varia&#xE7;&#xF5;es (estruturas topol&#xF3;gicas, est&#xE1;gio topol&#xF3;gico, conceitos topol&#xF3;gicos, distin&#xE7;&#xE3;o entre geometria euclidiana e topologia etc)<xref ref-type="fn" rid="fn10"><sup>10</sup></xref>. Sabe-se que o professor que ensina matem&#xE1;tica n&#xE3;o necessariamente passou pelos bancos escolares em cursos de Licenciatura em Matem&#xE1;tica, e mesmo aos licenciandos em Matem&#xE1;tica, na quase totalidade dos cursos atualmente vigentes no pa&#xED;s, n&#xE3;o &#xE9; oferecida a disciplina Topologia, nem sua introdu&#xE7;&#xE3;o mais &#xF3;bvia na cadeia dos conte&#xFA;dos matem&#xE1;ticos sistematizados, o tratamento dos espa&#xE7;os m&#xE9;tricos. Sem esse <italic>feedback</italic>, esses leitores potenciais dificilmente dar&#xE3;o conta de, com esse cap&#xED;tulo, entender o que subjaz &#xE0; proposta do MMM e, em decorr&#xEA;ncia, ter&#xE3;o dificuldade de identificar, no tratamento dos livros da &#xE9;poca, por exemplo, a diferencia&#xE7;&#xE3;o ou aproxima&#xE7;&#xE3;o subversora entre <italic>euclidiano</italic> e <italic>topol&#xF3;gico</italic>. A experi&#xEA;ncia dos autores, obviamente, permitiria tratar com mais detalhamento esses termos e express&#xF5;es aparentemente <italic>delicados</italic> sem comprometer o fluxo do texto. Poder-se-ia, talvez, sugerir ao leitor-alvo, de forma mais incisiva, leituras complementares ou, ainda, incorporar ao livro um ap&#xEA;ndice com uma s&#xE9;rie de verbetes (ao modo de um pequeno gloss&#xE1;rio) que serviria de guia b&#xE1;sico para esses leitores. Ficam, aqui, essas sugest&#xF5;es para as edi&#xE7;&#xF5;es futuras que, certamente, ser&#xE3;o produzidas.</p>
<p>O &#xFA;ltimo e o mais longo dos quatro cap&#xED;tulos do livro, de autoria de Paulo Figueiredo Lima e Jo&#xE3;o Bosco Pitombeira de Carvalho, &#xE9;, segundo minha perspectiva, oposto, em seu tom, ao cap&#xED;tulo anterior. Seu subt&#xED;tulo, <italic>Conversas com o professor que ensina matem&#xE1;tica</italic>, anuncia, exatamente, o que o leitor encontrar&#xE1; nele: um di&#xE1;logo muito cuidadoso com os professores sobre os conte&#xFA;dos e os modos de trabalhar esses conte&#xFA;dos nas salas de aula do ensino inicial. Os temas abordados s&#xE3;o bastante variados: a ideia de dimens&#xE3;o em geometria, as representa&#xE7;&#xF5;es gr&#xE1;ficas, as proje&#xE7;&#xF5;es, as perspectivas e a classifica&#xE7;&#xE3;o das figuras geom&#xE9;tricas. O tratamento &#xE9; rigoroso, mas n&#xE3;o formalizado a ponto de afastar o leitor n&#xE3;o muito familiarizado com a matem&#xE1;tica. Ao contr&#xE1;rio, o cap&#xED;tulo foi elaborado ao modo de um guia que pode auxiliar professores, futuros professores e at&#xE9; mesmo autores de livros did&#xE1;ticos em suas d&#xFA;vidas ou inten&#xE7;&#xF5;es de produzir materiais ou discutir temas relativos ao ensino de geometria. A experi&#xEA;ncia de ambos os autores desse cap&#xED;tulo n&#xE3;o s&#xF3; quanto &#xE0; pesquisa em Matem&#xE1;tica ou em Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica e &#x2013; talvez mais decisivamente &#x2013; a vincula&#xE7;&#xE3;o de ambos &#xE0; avalia&#xE7;&#xE3;o de livros did&#xE1;ticos de matem&#xE1;tica brasileiros, no Programa Nacional do Livro Did&#xE1;tico (PNLD), resultam num texto cujo vi&#xE9;s &#xE9; mais de natureza did&#xE1;tica que propriamente historiogr&#xE1;fica: o cap&#xED;tulo ensina e esclarece alguns elementos b&#xE1;sicos de geometria que constam dos atuais programas de ensino para a escolaridade inicial, e faz isso de forma muito clara. Assim, ainda que destoe dos demais cap&#xED;tulos em sua natureza, dialoga com eles em sua inten&#xE7;&#xE3;o de ter como interlocutor o professor que ensina matem&#xE1;tica.</p>
<p>A conclus&#xE3;o dessa sequ&#xEA;ncia de esfor&#xE7;os para compreender o ensino de geometria e as din&#xE2;micas de transforma&#xE7;&#xE3;o desse saber escolar ao longo do tempo sintetiza alguns ingredientes fundamentais discutidos no livro, e enuncia, de forma clara, aquilo que penso ser uma das maiores contribui&#xE7;&#xF5;es do estudo. Trata-se de uma caracteriza&#xE7;&#xE3;o do fazer do professor que ensina matem&#xE1;tica que, embora j&#xE1; tenha sido referenciada por Kaleff em sua apresenta&#xE7;&#xE3;o ao texto, nesse momento, nas conclus&#xF5;es, ganha densidade por surgir como resultado da s&#xE9;rie de constru&#xE7;&#xF5;es argumentativas que ocuparam todo o volume: a geometria escolar constitui-se num percurso pleno de contraposi&#xE7;&#xF5;es e incorpora&#xE7;&#xF5;es no qual foram elaborados e reelaborados ingredientes did&#xE1;tico-pedag&#xF3;gicos que a constituem num saber transit&#xF3;rio que faculta o acesso ao saber sistematizado da geometria, &#xE0; geometria da matem&#xE1;tica. Essa caracteriza&#xE7;&#xE3;o da geometria escolar, por sua vez, permite que se compreenda &#x201C;que o professor que ensina matem&#xE1;tica n&#xE3;o &#xE9; um especialista em matem&#xE1;tica; sua especialidade liga-se &#xE0; condu&#xE7;&#xE3;o dos alunos a progressivamente apropriarem-se de uma cultura transit&#xF3;ria que d&#xE1; acesso aos saberes cient&#xED;ficos&#x201D;. Essa conclus&#xE3;o, embora n&#xE3;o decorra apenas dos estudos historiogr&#xE1;ficos acerca do ensino de matem&#xE1;tica que encontramos nessa colet&#xE2;nea organizada por Silva e Valente, pode apoiar-se de forma inequ&#xED;voca nesses estudos, o que torna esse livro uma contribui&#xE7;&#xE3;o preciosa n&#xE3;o s&#xF3; para professores que ensinam matem&#xE1;tica ou professores em forma&#xE7;&#xE3;o (que ensinar&#xE3;o matem&#xE1;tica), mas aos interessados em Hist&#xF3;ria da Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica e aos pesquisadores que, mantendo ou n&#xE3;o uma aproxima&#xE7;&#xE3;o com a historiografia, dedicam-se ao estudo da forma&#xE7;&#xE3;o e da atua&#xE7;&#xE3;o docente no Brasil.</p></body>
<back>
<fn-group>
<fn fn-type="other" id="fn1">
<label>1</label>
<p>O representante desse vi&#xE9;s &#xE9; o <italic>Manual Enciclop&#xE9;dico para uso das escolas de instru&#xE7;&#xE3;o prim&#xE1;ria</italic>, do portugu&#xEA;s Em&#xED;lio Achilles Monteverde, que <italic>parece fazer escola para outros livros</italic> (como, por exemplo, os livros do brasileiro Souza Lobo).</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn2">
<label>2</label>
<p>Pode-se notar, por exemplo, que em seu <italic>Reflex&#xF5;es e notas sobre a educa&#xE7;&#xE3;o</italic>, do final do s&#xE9;culo XVIII, Condorcet j&#xE1; explicita um programa de estudos, estabelecendo a ordem a ser seguida no ensino. A primeira das ci&#xEA;ncias a ser estudada seria a aritm&#xE9;tica, seguida da geometria (&#x201C;explicar-se-lhe-iam [&#xE0;s crian&#xE7;as] as propor&#xE7;&#xF5;es sobre as linhas, sobre as superf&#xED;cies, sobre os s&#xF3;lidos que se podem entender sem a teoria das propor&#xE7;&#xF5;es&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B3">GOMES, 2008</xref>, p.222). Lacroix, um contempor&#xE2;neo muito pr&#xF3;ximo de Condorcet, em sua obra autobiogr&#xE1;fica sobre a instru&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica francesa no s&#xE9;culo XVIII, confessando sua ignor&#xE2;ncia acerca do ensino das crian&#xE7;as na primeira idade, mas n&#xE3;o abrindo m&#xE3;o de opinar sobre isso, sentencia que seria conveniente, quanto &#xE0;s primeiras instru&#xE7;&#xF5;es dadas na inf&#xE2;ncia, &#x201C;empregar tanto quanto poss&#xED;vel o testemunho dos sentidos&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B4">LACROIX, 2013</xref>, p.147), no que n&#xE3;o h&#xE1; discord&#xE2;ncia com o Marqu&#xEA;s. Em seguida, por&#xE9;m, complementa: &#x201C;A Geometria &#xE9;, talvez, de todas as partes da Matem&#xE1;tica, aquela que se deve aprender primeiro. Ela me parece muito adequada para atrair as crian&#xE7;as, desde que seja apresentada principalmente com rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0;s suas aplica&#xE7;&#xF5;es, tanto te&#xF3;ricas quanto pr&#xE1;ticas. As opera&#xE7;&#xF5;es de tra&#xE7;ado e de medi&#xE7;&#xE3;o certamente agradar&#xE3;o aos alunos e os conduzir&#xE3;o, em seguida, como que pela m&#xE3;o, ao racioc&#xED;nio. Aqui [neste meu livro] n&#xE3;o &#xE9; lugar para desenvolver essas ideias, que est&#xE3;o expostas de maneira t&#xE3;o verdadeira quanto eloquente no final do segundo livro do <italic>Em&#xED;lio</italic>&#x201D;. Para Lacroix, o costume de ensinar primeiro a ci&#xEA;ncia dos n&#xFA;meros &#x2013; a Aritm&#xE9;tica &#x2013; prevaleceu apenas por serem mais frequentes as aplica&#xE7;&#xF5;es do &#x201C;c&#xE1;lculo num&#xE9;rico&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B4">LACROIX, 2013</xref>, p. 244-5).</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn3">
<label>3</label>
<p>Os tempos revolucion&#xE1;rios, na Fran&#xE7;a, marcaram tamb&#xE9;m uma nova apreens&#xE3;o ao adjetivo <italic>elementar</italic> que, frequentemente, caracterizava os livros de Matem&#xE1;tica. Antes desse per&#xED;odo, a express&#xE3;o <italic>Elementos de&#x2026;</italic> indicava, mais frequentemente, obras cujo modelo era os <italic>Elementos</italic> de Euclides, ou seja, obras nas quais da apresenta&#xE7;&#xE3;o e discuss&#xE3;o de uma s&#xE9;rie de resultados essenciais a uma certa &#xE1;rea decorriam outros resultados, tamb&#xE9;m centrais a essa &#xE1;rea. O conjunto dessas proposi&#xE7;&#xF5;es essenciais com suas decorr&#xEA;ncias, ao qual algumas vezes vinculavam-se exemplos, constitu&#xED;a o corpo de uma determinada disciplina, seus elementos (no sentido euclidiano). Ao final do s&#xE9;culo XVIII, <italic>Elementos de&#x2026;</italic> passaram a indicar livros elementares, no sentido mais usual do termo: obras voltadas ao ensino, com os conte&#xFA;dos b&#xE1;sicos de um determinado campo (Aritm&#xE9;tica, &#xC1;lgebra, Geometria etc.).</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn4">
<label>4</label>
<p>Opera exatamente nesse sentido a considera&#xE7;&#xE3;o feita por Lacroix ao discutir suas inten&#xE7;&#xF5;es, como autor, em seu <italic>Elementos de Geometria</italic>: &#x201C;Se a dificuldade de fazer bons tratados, em qualquer que seja a ci&#xEA;ncia, &#xE9; muito grande, h&#xE1; v&#xE1;rias raz&#xF5;es que a aumentam ainda mais com rela&#xE7;&#xE3;o aos tratados de Geometria: primeiro, a concorr&#xEA;ncia com um autor consagrado pelas marcas da antiguidade (Euclides), sempre perigosa para um autor moderno, independentemente das raz&#xF5;es que este &#xFA;ltimo possa trazer em favor do plano que adota [&#x2026;]&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B4">LACROIX, 2013</xref>, p. 221-2).</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn5">
<label>5</label>
<p>J&#xE1; na primeira reforma do ensino prim&#xE1;rio nos Grupos Escolares, ocorrida em 1905, &#x201C;a proximidade [da geometria] com o desenho n&#xE3;o existe mais, as figuras geom&#xE9;tricas que eram estudadas e desenhadas como passo inicial no processo de aquisi&#xE7;&#xE3;o para desenhos aplicados n&#xE3;o constam mais da lista de conte&#xFA;dos&#x201D;.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn6">
<label>6</label>
<p>Al&#xE9;m da obra de Olavo Freire, este segundo cap&#xED;tulo de Silva e Valente considera, tamb&#xE9;m, a cole&#xE7;&#xE3;o (composta de quatro volumes, um para cada ano) <italic>Manual do Ensino Prim&#xE1;rio</italic>, de Miguel Milano.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn7">
<label>7</label>
<p>Trata-se da cole&#xE7;&#xE3;o <italic>Curso moderno de matem&#xE1;tica para a escola elementar</italic>, cujo primeiro dos cinco volumes foi lan&#xE7;ado entre 1966 e 1967 (as edi&#xE7;&#xF5;es publicadas quando j&#xE1; em vigor a lei 5692 t&#xEA;m o t&#xED;tulo alterado para <italic>Curso moderno de matem&#xE1;tica para o ensino de 1&#xB0;. grau</italic>, atendendo &#xE0; nova nomenclatura da seria&#xE7;&#xE3;o escolar, imposta a partir de 1971). Um dentre os tantos diferenciais que tornam emblem&#xE1;tica essa cole&#xE7;&#xE3;o &#xE9; a forma&#xE7;&#xE3;o das autoras: &#x201C;a elabora&#xE7;&#xE3;o de obras did&#xE1;ticas para o ensino das primeiras letras, em especial aquelas de matem&#xE1;tica, at&#xE9; meados da d&#xE9;cada de 1960, n&#xE3;o tem autoria de professores formados em cursos de licenciatura em matem&#xE1;tica. Liberman, Franchi e Bechara t&#xEA;m essa forma&#xE7;&#xE3;o&#x201D;.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn8">
<label>8</label>
<p>De acordo com Inhelder e Piaget, segundo os autores deste cap&#xED;tulo, &#x201C;a crian&#xE7;a passa primeiro pelo est&#xE1;gio topol&#xF3;gico, antes do euclidiano, na apropria&#xE7;&#xE3;o do espa&#xE7;o. /&#x2026;/ Dever-se-ia [ent&#xE3;o] abandonar a milenar ideia do ensino dos rudimentos dos elementos de Euclides, voltando-se a aten&#xE7;&#xE3;o para os elementos de topologia&#x201D;.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn9">
<label>9</label>
<p>Notemos que os dois primeiros cap&#xED;tulos, ainda que n&#xE3;o tenham um &#x201C;tom acad&#xEA;mico&#x201D;, valendo-se, ao contr&#xE1;rio, de uma linguagem e de um modo de mobiliza&#xE7;&#xE3;o de conceitos mais pr&#xF3;ximos &#xE0; linguagem usual &#x2013; conseguem prender tanto a aten&#xE7;&#xE3;o do especialista quanto do leigo interessado nos temas neles apresentados, sem que haja concess&#xF5;es quanto &#xE0; profundidade, pertin&#xEA;ncia ou corre&#xE7;&#xE3;o das ideias discutidas, ainda que alguns elementos mais propriamente te&#xF3;ricos &#x2013; digamos assim &#x2013;, reconhec&#xED;veis &#xE0; comunidade de pesquisadores, mas estranhos ou n&#xE3;o usuais a outras comunidades, fiquem necessariamente subjacentes, dada a op&#xE7;&#xE3;o por um determinado p&#xFA;blico-alvo.</p></fn>
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<label>10</label>
<p>A mesma considera&#xE7;&#xE3;o se aplica para outros termos, pr&#xF3;prios da linguagem matem&#xE1;tica, como Estruturas Alg&#xE9;bricas e ordem, por exemplo, mas obviamente n&#xE3;o se aplicam a termos como <italic>conjuntos, &#xE2;ngulos, retas perpendiculares</italic> etc, que frequentam a escolariza&#xE7;&#xE3;o em todos os n&#xED;veis, enquanto aqueles, quando muito, frequentam apenas os cursos superiores de Matem&#xE1;tica, sendo, entretanto, <italic>mais essenciais</italic> para entender a proposta do MMM, tema do cap&#xED;tulo.</p></fn></fn-group>
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<title>Refer&#xEA;ncias</title>
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<name><surname>de CARVALHO</surname> <given-names>J. M.</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="es">A forma&#xE7;&#xE3;o das almas: o imagin&#xE1;rio da rep&#xFA;blica no Brasil</source>
<publisher-loc>S&#xE3;o Paulo</publisher-loc>
<publisher-name>Companhia das Letras</publisher-name>
<year>2006</year></element-citation>
<mixed-citation>CARVALHO, J. M. de. <bold>A forma&#xE7;&#xE3;o das almas</bold>: o imagin&#xE1;rio da rep&#xFA;blica no Brasil. S&#xE3;o Paulo: Companhia das Letras, 2006.</mixed-citation></ref>
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<person-group person-group-type="author"><collab>CONDORCET</collab></person-group>
<source xml:lang="es">Cinco Mem&#xF3;rias sobre a instru&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica</source>
<publisher-loc>S&#xE3;o Paulo</publisher-loc>
<publisher-name>Editora UNESP</publisher-name>
<year>2008</year></element-citation>
<mixed-citation>CONDORCET. <bold>Cinco Mem&#xF3;rias sobre a instru&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica</bold>. S&#xE3;o Paulo: Editora UNESP, 2008.</mixed-citation></ref>
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<name><surname>GOMES</surname> <given-names>M. L. M.</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="es">Quatro vis&#xF5;es iluministas sobre a educa&#xE7;&#xE3;o matem&#xE1;tica</source>
<publisher-loc>Campinas</publisher-loc>
<publisher-name>Editora UNICAMP</publisher-name>
<year>2008</year></element-citation>
<mixed-citation>GOMES, M. L. M. <bold>Quatro vis&#xF5;es iluministas sobre a educa&#xE7;&#xE3;o matem&#xE1;tica</bold>. Campinas: Editora UNICAMP, 2008.</mixed-citation></ref>
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<name><surname>LACROIX</surname> <given-names>S. F.</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="es">Ensaios sobre o ensino em geral e o de matem&#xE1;tica em particular</source>
<publisher-loc>S&#xE3;o Paulo</publisher-loc>
<publisher-name>Editora UNESP</publisher-name>
<year>2013</year></element-citation>
<mixed-citation>LACROIX, S. F. <bold>Ensaios sobre o ensino em geral e o de matem&#xE1;tica em particular</bold>. S&#xE3;o Paulo: Editora UNESP, 2013.</mixed-citation></ref>
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<name><surname>LIMA</surname> <given-names>P. F.</given-names></name>
<name><surname>de CARVALHO</surname> <given-names>J. B. P.</given-names></name></person-group>
<chapter-title>A Geometria Escolar hoje: conversas com o professor que ensina matem&#xE1;ticas</chapter-title>
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<name><surname>da SILVA</surname> <given-names>M. C. L.</given-names></name>
<name><surname>VALENTE</surname> <given-names>W. R.</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="pt">A geometria nos primeiros anos escolares: hist&#xF3;ria e perspectivas atuais</source>
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<fpage>83</fpage>
<lpage>128</lpage></element-citation>
<mixed-citation>LIMA, P. F.; CARVALHO, J. B. P. de. A Geometria Escolar hoje: conversas com o professor que ensina matem&#xE1;ticas In: SILVA, M. C. L. da; VALENTE, W. R. (Org.). <bold>A geometria nos primeiros anos escolares</bold>: hist&#xF3;ria e perspectivas atuais. Campinas: Papirus, 2014. p. 83-128.</mixed-citation></ref>
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<name><surname>MONTOITO</surname> <given-names>R.</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="es">Euclid and his modern rivals (1879), de Lewis Carroll: tradu&#xE7;&#xE3;o e cr&#xED;tica</source>
<comment>2013. Tese (Doutorado em Ensino de Ci&#xEA;ncias e Matem&#xE1;tica) &#x2013; Programa de P&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xE3;o em Educa&#xE7;&#xE3;o para a Ci&#xEA;ncia</comment>
<publisher-name>Faculdade de Ci&#xEA;ncias, UNESP</publisher-name>
<publisher-loc>Bauru</publisher-loc>
<year>2013</year></element-citation>
<mixed-citation>MONTOITO, R. <bold>Euclid and his modern rivals (1879), de Lewis Carroll</bold>: tradu&#xE7;&#xE3;o e cr&#xED;tica. 2013. Tese (Doutorado em Ensino de Ci&#xEA;ncias e Matem&#xE1;tica) &#x2013; Programa de P&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xE3;o em Educa&#xE7;&#xE3;o para a Ci&#xEA;ncia, Faculdade de Ci&#xEA;ncias, UNESP, Bauru, 2013.</mixed-citation></ref>
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<name><surname>MONTOITO</surname> <given-names>R.</given-names></name>
<name><surname>GARNICA</surname> <given-names>A. V. M.</given-names></name></person-group>
<article-title>Ecos de Euclides: notas sobre a influ&#xEA;ncia d&#x27;Os Elementos a partir de algumas doutrinas filos&#xF3;ficas</article-title>
<source xml:lang="pt">Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica Pesquisa</source>
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<issue>1</issue>
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<year>2014</year></element-citation>
<mixed-citation>MONTOITO, R.; GARNICA, A. V. M. Ecos de Euclides: notas sobre a influ&#xEA;ncia d&#x27;Os Elementos a partir de algumas doutrinas filos&#xF3;ficas. <bold>Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica Pesquisa</bold>. S&#xE3;o Paulo, v. 16, n. 1, p. 95-123, 2014.</mixed-citation></ref>
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<name><surname>PINTO</surname> <given-names>N.B.</given-names></name>
<name><surname>VALENTE</surname> <given-names>W.R.</given-names></name></person-group>
<chapter-title>Quando a Geomeria tornou-se moderna: tempos do MMM</chapter-title>
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<mixed-citation>PINTO, N.B.; VALENTE, W.R. Quando a Geomeria tornou-se moderna: tempos do MMM. In: SILVA, M. C. L. da; VALENTE, W. R. (Org.). <bold>A geometria nos primeiros anos escolares</bold>: hist&#xF3;ria e perspectivas atuais. Campinas: Papirus, 2014. p. 65-82.</mixed-citation></ref>
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<chapter-title>A Geometria nos Grupos Escolares</chapter-title>
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<source xml:lang="pt">A geometria nos primeiros anos escolares: hist&#xF3;ria e perspectivas atuais</source>
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<year>2014</year>
<fpage>41</fpage>
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<mixed-citation>SILVA. M.C.L. da; VALENTE, W.R. A Geometria nos Grupos Escolares. In: SILVA, M. C. L. da; VALENTE, W. R. (Org.). <bold>A geometria nos primeiros anos escolares</bold>: hist&#xF3;ria e perspectivas atuais. Campinas: Papirus, 2014. p. 41-64.</mixed-citation></ref>
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<name><surname>VALENTE</surname> <given-names>W.R.</given-names></name>
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<chapter-title>Prim&#xF3;rdios do Ensino de Geometria nos Anos Iniciais</chapter-title>
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<publisher-loc>Campinas</publisher-loc>
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<year>2014</year>
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<mixed-citation>VALENTE, W.R.; SILVA, M.C.L. da. Prim&#xF3;rdios do Ensino de Geometria nos Anos Iniciais. In: SILVA, M. C. L. da; VALENTE, W. R. (Org.). <bold>A geometria nos primeiros anos escolares</bold>: hist&#xF3;ria e perspectivas atuais. Campinas: Papirus, 2014. p. 17-40.</mixed-citation></ref></ref-list>
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