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<journal-title>Bolema: Boletim de Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Bolema</abbrev-journal-title></journal-title-group>
<issn pub-type="ppub">0103-636X</issn>
<issn pub-type="epub">1980-4415</issn>
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<publisher-name>UNESP - Universidade Estadual Paulista, Pr&#xF3;-Reitoria de Pesquisa Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;&#xE3;o em Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica</publisher-name></publisher>
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<article-id pub-id-type="publisher-id">1980-4415v32n61a12</article-id>
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<subject>Artigo</subject></subj-group></article-categories>
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<article-title>Motivos para Participa&#xE7;&#xE3;o em Tarefas Investigativas na Aula de Matem&#xE1;tica: uma an&#xE1;lise a partir dos <italic>backgrounds</italic> e dos <italic>foregrounds</italic> de um grupo de estudantes do Ensino Fundamental</article-title>
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<trans-title>Motives for participation in Investigative Mathematics Tasks in the Classroom: an analysis from the backgrounds and foregrounds of a group of students from an elementary school</trans-title></trans-title-group>
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<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0001-7383-387X</contrib-id>
<name><surname>Torisu</surname><given-names>Edmilson Minoru</given-names></name><xref ref-type="aff" rid="aff1">*</xref><xref ref-type="corresp" rid="c1"/></contrib>
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<institution content-type="normalized">Universidade Federal de Ouro Preto</institution>
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<institution content-type="orgdiv1">Departamento de Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica</institution>
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<institution content-type="original">Doutor em Educa&#xE7;&#xE3;o &#x2013; Linha de Pesquisa: Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica &#x2013; pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor Adjunto do Departamento de Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica e Professor do Programa de P&#xF3;sgradua&#xE7;&#xE3;o em Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica da Universidade Federal de Ouro Preto, Ouro Preto, Minas Gerais, Brasil</institution></aff>
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<corresp id="c1">Endere&#xE7;o para correspond&#xEA;ncia: Rua Quatro, 786, Bauxita, sala 1-09 (ICEB III), Ouro Preto, Minas Gerais, Brasil, CEP: 35400-000. E-mail: <email>edmilson@iceb.ufop.br</email></corresp></author-notes>
<pub-date pub-type="epub-ppub">
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<year>2018</year></pub-date>
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<license-p>This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution Non-Commercial License, which permits unrestricted non-commercial use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.</license-p></license></permissions>
<abstract>
<title>Resumo</title>
<p>Este artigo traz &#xE0; baila uma discuss&#xE3;o em torno dos motivos de estudantes para participa&#xE7;&#xE3;o em tarefas investigativas na aula de Matem&#xE1;tica, a partir de seus <italic>backgrounds</italic> e <italic>foregrounds.</italic> Motivos foram considerados em uma perspectiva hist&#xF3;rico-cultural como algo que emerge no interior das rela&#xE7;&#xF5;es sociais. Os sujeitos desse estudo qualitativo foram quatro estudantes do nono ano de uma escola p&#xFA;blica da cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Os dados foram coletados por meio de uma entrevista e uma entre-vista, esta segunda com o objetivo de acessar <italic>backgrounds</italic> e <italic>foregrounds</italic> dos estudantes. Os resultados da an&#xE1;lise mostraram que, al&#xE9;m de motivos expl&#xED;citos, ao entre-vistar <italic>backgrounds</italic> e <italic>foregrounds</italic> v&#xE1;rios outros motivos, ligados a v&#xE1;rias viv&#xEA;ncias em grupos sociais, revelaram-se.</p></abstract>
<trans-abstract xml:lang="en">
<title>Abstract</title>
<p>This article presents a discussion of the motives for students to take part in investigative tasks in mathematics classes, from their backgrounds and foregrounds. The motives motives were considered in a cultural historical perspective as emerging within social relations. The participants were four students from the ninth grade of a public school in Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil. The data were collected through an interview and an inter-view, the second in order to access backgrounds and foregrounds of students. The analysis results showed that, in addition to explicit motives, to inter-view backgrounds and foregrounds, many other motives linked to various social groups experiences were revealed.</p></trans-abstract>
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<title>Palavras-chave:</title>
<kwd>Motivos</kwd>
<kwd><italic>Background</italic></kwd>
<kwd><italic>Foreground</italic></kwd>
<kwd>Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica</kwd></kwd-group>
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<title>Keywords:</title>
<kwd>Motives</kwd>
<kwd>Background</kwd>
<kwd>Foreground</kwd>
<kwd>Mathematics Education</kwd></kwd-group>
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<sec sec-type="intro">
<title>1 Introdu&#xE7;&#xE3;o</title>
<p>Muitos professores, sobretudo de Matem&#xE1;tica, t&#xEA;m se queixado da falta de interesse de seus alunos durante as aulas. Na tentativa de reverter esse quadro, alguns procuram alternativas para tornar o ensino mais atrativo, de modo que os alunos se sintam mais motivados.</p>
<p>De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B8">Bzuneck (2010)</xref>, a motiva&#xE7;&#xE3;o no contexto escolar tem sido estudada sob v&#xE1;rias perspectivas e, como consequ&#xEA;ncia, surgiram muitas teorias e abordagens para a sua discuss&#xE3;o. Talvez a mais utilizada seja a dos embelezamentos motivacionais (<xref ref-type="bibr" rid="B2">AMES, 1992</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B4">BERGIN, 1999</xref>) indicada para provocar interesse pelas atividades consideradas mon&#xF3;tonas pelos estudantes e amenizar a aridez de alguns conte&#xFA;dos. Estudos com essa abordagem s&#xE3;o importantes e t&#xEA;m ajudado muitos professores em sala de aula. Entretanto, neste artigo, meu interesse &#xE9; estudar a motiva&#xE7;&#xE3;o relacionada ao conceito de motivo, como algo que move o indiv&#xED;duo a fazer algo. Nesse sentido, estou interessado em saber quais s&#xE3;o os motivos de um grupo de quatro estudantes para o envolvimento em tarefas investigativas na aula de Matem&#xE1;tica e analisar o surgimento desses motivos a partir de seus <italic>backgrounds</italic> e<italic>foregrounds.</italic></p>
<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B18">Skovsmose et al. (2009)</xref>, o <italic>background</italic> de um indiv&#xED;duo refere-se &#xE0;s suas ra&#xED;zes culturais e sociopol&#xED;ticas e o <italic>foreground,</italic> &#xE0; interpreta&#xE7;&#xE3;o pessoal de suas perspectivas de aprender e viver, de acordo com o contexto sociopol&#xED;tico-econ&#xF4;mico no qual est&#xE1; inserido. De acordo com esses mesmos autores, &#x201C;a motiva&#xE7;&#xE3;o para o aprendizado est&#xE1; relacionada ao <italic>background</italic> e ao <italic>foreground</italic> de cada indiv&#xED;duo&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B18">SKOVSMOSE et al., 2009</xref>, p. 240). A afirma&#xE7;&#xE3;o que comp&#xF5;e esta cita&#xE7;&#xE3;o vem ao encontro do objeto deste artigo, porque conecta motivos de um indiv&#xED;duo ao seu <italic>background</italic> e ao seu <italic>foreground.</italic></p>
<p>Propostas diferenciadas como tarefas investigativas na aula de Matem&#xE1;tica, muitas vezes, surgem como alternativa &#xE0;s aulas de resolu&#xE7;&#xE3;o de exerc&#xED;cios. &#xC0;s vezes, as investidas do professor no sentido de criar esses novos ambientes de aprendizagem<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref> trazem bons resultados. Mas por que os alunos participam? O professor pode supor que seja porque sua proposta &#xE9; diferente e, sendo assim, a tarefa e a Matem&#xE1;tica nela contidas, seriam os motivos para a participa&#xE7;&#xE3;o. Pode ser, mas seriam esses os &#xFA;nicos motivos?</p>
<p>A partir de uma perspectiva hist&#xF3;rico-cultural, centrada nas ideias de Vygotsky e alguns de seus disc&#xED;pulos, os motivos s&#xE3;o de car&#xE1;ter social e surgem nas atividades das quais o indiv&#xED;duo participou/participa em dado momento hist&#xF3;rico e podem ser v&#xE1;rios. Podemos pensar em motivos individuais, mas eles emergem das rela&#xE7;&#xF5;es sociais e, muitas vezes, s&#xE3;o reinterpretados pelo indiv&#xED;duo. Isso corrobora a ideia de <xref ref-type="bibr" rid="B9">Chaiklin (2012</xref>, p. 219) que nos alerta para o fato de que &#x201C;motivo &#xE9; um conceito individual e coletivo. Indiv&#xED;duos podem ter motivos, mas a individualidade dos motivos &#xE9; sempre tecida dentro da pr&#xE1;tica social&#x201D;. Sendo assim, para saber os motivos dos estudantes devemos ter uma vis&#xE3;o ampliada de suas vidas e, em boa medida, isso pode ser obtido investigando seus <italic>backgrounds</italic> e <italic>foregrounds.</italic></p>
<p>Pelo exposto, minha discuss&#xE3;o ser&#xE1; norteada pelas palavras-chave: motivos, <italic>background, foreground</italic> e, por isso, dedicarei a se&#xE7;&#xE3;o 2 &#xE0; discuss&#xE3;o desses conceitos. Logo depois, na se&#xE7;&#xE3;o 3, apresentarei aspectos metodol&#xF3;gicos do estudo. Em seguida apresentarei os dados e os analisarei. Por fim, farei algumas considera&#xE7;&#xF5;es.</p>
</sec>
<sec>
<title>2 Motivos, <italic>background</italic>, <italic>foreground</italic></title>
<p>Dentro da abordagem hist&#xF3;rico-cultural para motivos, h&#xE1; v&#xE1;rias perspectivas de an&#xE1;lise. Muitos pesquisadores t&#xEA;m dedicado esfor&#xE7;os &#xE0; compreens&#xE3;o dos motivos em pr&#xE1;ticas sociais nas quais os indiv&#xED;duos se desenvolvem, como fam&#xED;lia, escola, trabalho, etc. Nessa pr&#xE1;ticas, outros construtos, como emo&#xE7;&#xF5;es e identidade, s&#xE3;o frequentemente associados aos motivos, sobretudo em pesquisas na &#xE1;rea da Psicologia.</p>
<p>Estudos como o de <xref ref-type="bibr" rid="B12">Hedegaard (2012)</xref> mostram como podem surgir motivos nas atividades de fam&#xED;lia. A pesquisadora analisou atividades cotidianas das quais as crian&#xE7;as participam, como dever de casa, jantar &#xE0; mesa, e concluiu que os seus motivos para tal participa&#xE7;&#xE3;o t&#xEA;m rela&#xE7;&#xE3;o com valores institucionais e familiares. A partir dessa conclus&#xE3;o, uma crian&#xE7;a que ainda n&#xE3;o tenha iniciado a vida escolar, por exemplo, ao ver seu irm&#xE3;o mais velho fazendo seu dever de casa, pode desenvolver motivos para <italic>brincar de fazer dever,</italic> por perceber que isto &#xE9; algo valorizado socialmente.</p>
<p>Das intera&#xE7;&#xF5;es, durante as brincadeiras, tamb&#xE9;m podem emergir motivos. <xref ref-type="bibr" rid="B13">Medina e Martinez (2012)</xref> verificaram que as intera&#xE7;&#xF5;es contribuem para o surgimento de motivos em crian&#xE7;as e que a forma de organiza&#xE7;&#xE3;o desse espa&#xE7;o de brincadeiras varia de lugar para lugar, refletindo valores e normas do mundo dos adultos de cada local. Partindo da mesma hip&#xF3;tese, de que os ambientes de brincadeira s&#xE3;o potenciais fontes de motivos, <xref ref-type="bibr" rid="B10">Corsaro e Rizzo (1988)</xref> estudaram crian&#xE7;as americanas e italianas e observaram que, em ambos os pa&#xED;ses, elas desenvolveram uma s&#xE9;rie de comportamentos para proteger seus espa&#xE7;os de poss&#xED;veis interfer&#xEA;ncias. De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B13">Medina e Martinez (2012</xref>, p. 103), essas pesquisas mostram como as crian&#xE7;as,</p> <disp-quote>
<p>atrav&#xE9;s de suas intera&#xE7;&#xF5;es, criam uma din&#xE2;mica social que sugere a reprodu&#xE7;&#xE3;o do mundo dos adultos. Isto significa que atrav&#xE9;s da participa&#xE7;&#xE3;o nas brincadeiras de suas culturas, crian&#xE7;as adquirem motivos e compet&#xEA;ncias que lhes permitem agir em ambientes espec&#xED;ficos cheios de regras, valores e normas que limitam seu comportamento.</p></disp-quote>
<p>O estudo de <xref ref-type="bibr" rid="B21">Winther-Lindqvist (2012)</xref> associou a Teoria Hist&#xF3;rico-cultural com a teoria das representa&#xE7;&#xF5;es sociais, discutida por Moscovici, e o desenvolvimento de identidades sociais, discutido por Duveen, para compreender o desenvolvimento das identidades sociais das crian&#xE7;as e de seus motivos durante a passagem da Educa&#xE7;&#xE3;o Infantil para o Ensino Fundamental I. <xref ref-type="bibr" rid="B14">Miettinen (2005)</xref> mostrou que, no ambiente profissional do trabalho, o desejo de reconhecimento, compreendido como artefato mediador, &#xE9; um recurso que faz surgir motivos em atividades coletivas em empresas. No Brasil, h&#xE1; estudos em Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica que se esfor&#xE7;am para mostrar a rela&#xE7;&#xE3;o entre motivos e sentido pessoal (<xref ref-type="bibr" rid="B15">PALMA, 2010</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B3">ASBAHR, 2011</xref>) e motivos como apropria&#xE7;&#xF5;es do discurso social (<xref ref-type="bibr" rid="B20">TORISU, 2014</xref>).</p>
<p>Quando <xref ref-type="bibr" rid="B18">Skovsmose et al. (2009)</xref> nos d&#xE1; a ideia de que o <italic>background</italic> de um indiv&#xED;duo refere-se &#xE0;s suas ra&#xED;zes culturais, compreendo tais ra&#xED;zes como o conjunto de viv&#xEA;ncias, rela&#xE7;&#xF5;es e aprendizagens (valores, cren&#xE7;as, regras) que ocorrem em pr&#xE1;ticas sociais, como as citadas anteriormente: fam&#xED;lia, escola, trabalho. De maneira an&#xE1;loga, quando pensamos que o <italic>foreground</italic> relaciona-se &#xE0;s possibilidades futuras que uma pessoa enxerga para si, estamos admitindo que esse <italic>foreground</italic> &#xE9; resultado das mesmas viv&#xEA;ncias. Como &#xE9; no seio dessas viv&#xEA;ncias, rela&#xE7;&#xF5;es e aprendizagens que surgem os motivos, investigar <italic>backgrounds</italic> e <italic>foregrounds</italic> de uma pessoa nos dar&#xE1; pistas desse surgimento. No caso dos alunos deste estudo - motivos para a participa&#xE7;&#xE3;o em tarefas matem&#xE1;ticas.</p>
<p>A investiga&#xE7;&#xE3;o de <italic>backgrounds</italic> e <italic>foregrounds</italic> tem sido discutida por alguns autores em Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ALR&#xD8;; SKOVSMOSE, 2010</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B18">SKOVSMOSE, et al., 2009</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B17">SKOVSMOSE, et al., 2012</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B5">BERNARDI; CALDEIRA; DUARTE, 2012</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B6">BIOTTO FILHO, 2015</xref>).</p>
<p><xref ref-type="bibr" rid="B18">Skovsmose et al. (2009)</xref> investigaram os <italic>foregrounds</italic> de alguns estudantes ind&#xED;genas, da tribo brasileira Kopenoty. Eles verificaram que as diferentes raz&#xF5;es e inten&#xE7;&#xF5;es para que eles se envolvessem com a aprendizagem matem&#xE1;tica podiam estar relacionadas aos tipos de significados atribu&#xED;dos por eles &#xE0; Matem&#xE1;tica, vindos &#xE0; tona por meio da investiga&#xE7;&#xE3;o dos seus <italic>foregrounds</italic>. Dentre esses significados, destacam-se o significado instrumental, que parece estar relacionado &#xE0;s necessidades da vida do estudante como, por exemplo, passar em exames vestibulares, e o significado cotidiano, que se relaciona &#xE0; utilidade da Matem&#xE1;tica em situa&#xE7;&#xF5;es di&#xE1;rias, como o trabalho no campo. <xref ref-type="bibr" rid="B17">Skovsmose et al. (2012)</xref> mostraram que, para seis estudantes de uma favela de S&#xE3;o Paulo, as inten&#xE7;&#xF5;es de aprendizagem tamb&#xE9;m estavam relacionadas a seus <italic>foregrounds.</italic> Embora os sujeitos das duas pesquisas estivessem inseridos em realidades sociais bastante distintas, os estudantes que moravam na favela tamb&#xE9;m atribu&#xED;ram &#xE0; Matem&#xE1;tica um significado instrumental.</p>
<p>Por outro lado, podemos verificar, por meio de alguns dados fornecidos pelos autores dos dois artigos que os <italic>backgrounds</italic> dos estudantes ind&#xED;genas influenciaram de forma distinta os seus <italic>foregrounds,</italic> quando comparados aos dos estudantes da favela.</p>
<p>No caso dos estudantes ind&#xED;genas, o significado instrumental dado &#xE0; Matem&#xE1;tica tinha rela&#xE7;&#xE3;o com a possibilidade de ter uma profiss&#xE3;o futura que os capacitasse a ajudar seu povo. Um dos estudantes desejava ser enfermeiro e uma das estudantes desejava ser professora de crian&#xE7;as, ambos com o prop&#xF3;sito de voltar &#xE0; aldeia, ap&#xF3;s a conclus&#xE3;o dos cursos. As suas viv&#xEA;ncias, os valores aprendidos e outros aspectos da vida na aldeia que compunham o repert&#xF3;rio de seus <italic>backgrounds</italic> criavam o desejo de retornar ao conv&#xED;vio com seu grupo.</p>
<p>Para os estudantes da favela, o valor instrumental da Matem&#xE1;tica tamb&#xE9;m se relacionava &#xE0; possibilidade de ter uma futura profiss&#xE3;o, n&#xE3;o para voltar para l&#xE1;, mas sim, sair de l&#xE1;. Eles vislumbravam um futuro em outro lugar e a rota de fuga para isso era margeada pelo sucesso profissional. Diferentemente dos ind&#xED;genas, o passado dos estudantes da favela era composto por situa&#xE7;&#xF5;es que eles n&#xE3;o desejavam reviver. Entretanto, isso n&#xE3;o significa que <italic>foregrounds</italic> sejam determinados, exclusivamete, por <italic>backgrounds.</italic> Isso corrobora a ideia de <xref ref-type="bibr" rid="B6">Biotto Filho (2015)</xref>, quando o autor afirma que os <italic>backgrounds</italic> s&#xE3;o importantes para compreendermos aspectos do <italic>foreground</italic>, mas que o primeiro n&#xE3;o deve ser considerado como fator determinante do segundo.</p>
<p>Um aspecto importante a respeito de <italic>backgrounds</italic> e <italic>foregrounds</italic> &#xE9; que eles n&#xE3;o s&#xE3;o imut&#xE1;veis, embora <italic>backgrounds</italic> sejam mais est&#xE1;veis. As pessoas podem &#x201C;interpretar e reinterpretar antecedentes e experi&#xEA;ncias passadas&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B18">SKOVSMOSE et al., 2009</xref>, p. 223), reinterpretando, com isso, seus <italic>backgrounds.</italic> Da mesma forma, a ocorr&#xEA;ncia de mudan&#xE7;as em suas vidas (por exemplo, o seu meio social, as suas condi&#xE7;&#xF5;es econ&#xF4;micas ou as do pa&#xED;s) podem alterar seus <italic>foregrounds.</italic> Novas e diferentes expectativas para o futuro podem surgir. Pode ocorrer, tamb&#xE9;m, que mudan&#xE7;as na estrutura social e econ&#xF4;mica minem os <italic>foregrounds</italic> das pessoas, ao que <xref ref-type="bibr" rid="B19">Skovsmose (2007)</xref> denomina <italic>foreground arruinado (ruinedforeground).</italic> Para o autor, <italic>foregrounds</italic> arruinados podem obstaculizar a aprendizagem.</p>
<p>No presente estudo, a um grupo de quatro estudantes foram propostas tarefas investigativas na aula de Matem&#xE1;tica. A inten&#xE7;&#xE3;o era saber os seus motivos para participa&#xE7;&#xE3;o nessas tarefas e uma hip&#xF3;tese inicial era de que eles estariam relacionados &#xE0; pr&#xF3;pria tarefa e, como consequ&#xEA;ncia, &#xE0; Matem&#xE1;tica nela contida. No entanto, ao analisar os dados, percebi que h&#xE1; motivos ligados a outros momentos de suas vidas e interesses para o futuro, ou seja, ligados aos seus <italic>backgrounds</italic> e <italic>foregrounds.</italic></p>
<p>A seguir, apresento os aspectos metodol&#xF3;gicos do estudo para aclarar o caminho percorrido.</p>
</sec>
<sec sec-type="methods">
<title>3 Aspectos metodol&#xF3;gicos</title>
<p>Nesta pesquisa, de abordagem qualitativa, os sujeitos foram quatro estudantes do nono ano do Ensino Fundamental de uma escola p&#xFA;blica da cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, com idades que variavam de 14 a 17 anos. O grupo foi escolhido porque seus membros foram mais frequentes &#xE0;s aulas nas quais os dados foram coletados, permitindo a composi&#xE7;&#xE3;o de um conjunto denso de material para an&#xE1;lise. Seus nomes fict&#xED;cios eram Paulo, Lauro, Leandro e Gabriel. Uma caracteriza&#xE7;&#xE3;o mais detalhada desses estudantes ser&#xE1; realizada mais adiante.</p>
<p>Durante o segundo semestre de 2012, per&#xED;odo em que estive em sala como pesquisador para um estudo de doutorado, propus aos estudantes algumas tarefas investigativas nos moldes dos cen&#xE1;rios para investiga&#xE7;&#xE3;o (<xref ref-type="bibr" rid="B16">SKOVSMOSE, 2000</xref>), com a ajuda da professora de Matem&#xE1;tica da turma, presente em todas as aulas. Os cen&#xE1;rios para investiga&#xE7;&#xE3;o se op&#xF5;em ao paradigma do exerc&#xED;cio, uma abordagem de ensino na qual os conte&#xFA;dos e t&#xE9;cnicas matem&#xE1;ticas s&#xE3;o ensinados somente para que o estudante resolva uma lista de exerc&#xED;cios que, geralmente, possuem uma &#xFA;nica resposta. Em cen&#xE1;rios para investiga&#xE7;&#xE3;o que s&#xE3;o &#x201C;por natureza abertos [&#x2026;], os alunos podem formular quest&#xF5;es e planejar linhas de investiga&#xE7;&#xE3;o de forma diversificada&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ALR&#xD8;; SKOVSMOSE, 2010</xref>, p. 55), dirigindo, em alguma medida, seu processo de aprendizagem.</p>
<p>Algumas tarefas faziam refer&#xEA;ncia a situa&#xE7;&#xF5;es da semirrealidade (<xref ref-type="bibr" rid="B16">SKOVSMOSE, 2000</xref>), ou seja, situa&#xE7;&#xF5;es nas quais se &#x201C;desconsidera aspectos ou pormenores que seriam importantes em acontecimentos reais&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B6">BIOTTO FILHO, 2015</xref>), mas que, quando exploradas utilizando investiga&#xE7;&#xF5;es, podem contribuir sobremaneira para uma educa&#xE7;&#xE3;o matem&#xE1;tica menos mecanicista. Uma delas estava relacionada a planos de telefonia celular e os estudantes deveriam criar um usu&#xE1;rio hipot&#xE9;tico para, dentre v&#xE1;rias op&#xE7;&#xF5;es de planos oferecidos por diferentes empresas, tamb&#xE9;m hipot&#xE9;ticas, escolher aquela que melhor atenderia o usu&#xE1;rio, em termos de servi&#xE7;os e com menor custo. Para isso, efetuaram v&#xE1;rios c&#xE1;lculos para chegar ao melhor plano e justificaram a escolha.</p>
<p>Em outra, os estudantes precisavam fazer uma previs&#xE3;o de gastos necess&#xE1;rios a uma reforma hipot&#xE9;tica das salas de aula da escola e entreg&#xE1;-la &#xE0; dire&#xE7;&#xE3;o. Nesta tarefa, eles utilizaram v&#xE1;rios conhecimentos, como o c&#xE1;lculo de &#xE1;reas e a convers&#xE3;o entre unidades de medidas de comprimento. Entretanto, havia propostas pr&#xF3;ximas de atividades com refer&#xEA;ncia &#xE0; Matem&#xE1;tica pura (<xref ref-type="bibr" rid="B16">SKOVSMOSE, 2000</xref>), como uma que solicitava aos estudantes a amplia&#xE7;&#xE3;o (ou redu&#xE7;&#xE3;o) das figuras que comp&#xF5;em o Tangram.</p>
<p>Pretendia-se que essas tarefas trouxessem um novo <italic>sabor</italic> &#xE0;s aulas, de modo que pud&#xE9;ssemos acessar motivos para a participa&#xE7;&#xE3;o do grupo. Sendo assim, ap&#xF3;s findarem as tarefas investigativas, entrevistei os estudantes pela primeira vez, acerca de seus motivos para o aceite ao convite. Isso ocorreu no final do ano de 2012. Naquele primeiro momento, a entrevista foi realizada em uma sala da escola com os quatro participantes reunidos e guiada por uma pergunta que basicamente procurava saber por que eles participavam de tarefas como aquelas que propus. Entretanto, em algumas respostas percebi elementos das vidas dos estudantes, n&#xE3;o relacionados diretamente &#xE0;s tarefas e que pareciam influenciar seus motivos. Fiquei interessado, ent&#xE3;o, em saber um pouco mais de suas vidas. Sem me desviar do objetivo inicial, agora estava interessado em saber de outros aspectos das viv&#xEA;ncias desses estudantes em grupos sociais que pudessem gerar motivos para a participa&#xE7;&#xE3;o nas tarefas propostas.</p>
<p>Decidi explorar de forma mais minuciosa as vidas dos alunos, realizando uma nova entrevista, agora individual. Um pouco diferente do que ocorrera na primeira entrevista, na qual os estudantes pareciam estar preocupados em mostrar uma vis&#xE3;o utilit&#xE1;ria da Matem&#xE1;tica, na segunda, eles estavam mais &#xE0; vontade e as perguntas n&#xE3;o faziam men&#xE7;&#xE3;o direta aos<italic>porqu&#xEA;s</italic> de suas participa&#xE7;&#xF5;es nas tarefas. No repert&#xF3;rio de respostas, os estudantes falaram de assuntos diversos, como fam&#xED;lia, escola, futuro, amigos&#x2026;</p>
<p>Havia interesse que eles se revelassem por meio de suas declara&#xE7;&#xF5;es, de modo que eu pudesse enxerg&#xE1;-los em suas viv&#xEA;ncias com seus grupos e perceber como esses grupos poderiam influenciar seus motivos. Isto &#xE9; coerente com as ideias de <xref ref-type="bibr" rid="B11">Freitas (2002</xref>, p. 29) sobre entrevistas em pesquisa qualitativa de cunho socio-hist&#xF3;rico, quando ela afirma que, &#x201C;na entrevista, &#xE9; o sujeito que se expressa, mas sua voz carrega o tom de outras vozes, refletindo a realidade de seu grupo, g&#xEA;nero, etnia, classe&#x201D;. &#xC9; tamb&#xE9;m coerente com o que Kvale (1996 apud <xref ref-type="bibr" rid="B18">SKOVSMOSE et al., 2009</xref>) denomina entre-vista.</p>
<p>Assim como na entrevista, uma entre-vista n&#xE3;o &#xE9; um encontro fortuito, como aqueles que ocorrem diariamente pelos corredores. H&#xE1; inten&#xE7;&#xF5;es de ambos os lados. O entrevistador deseja obter informa&#xE7;&#xF5;es que lhe interessam e o entrevistado pode ter v&#xE1;rias inten&#xE7;&#xF5;es: ajudar em uma pesquisa, divulgar suas ideias, etc. Por outro lado, &#xE9; comum que as pessoas compreendam a entrevista como um jogo no qual ocorre uma dissimetria entre os envolvidos e que pode, de acordo com Bourdieu (1997 apud <xref ref-type="bibr" rid="B7">BUENO, 2002</xref>), ser potencializada pela dissimetria social quando o pesquisador, de alguma forma ou por julgamento pr&#xE9;vio, ocupa posi&#xE7;&#xE3;o superior ao entrevistado. N&#xE3;o &#xE9; o que se deseja quando realizamos uma entre-vista.</p>
<p>A entre-vista &#xE9; uma formula&#xE7;&#xE3;o que permite estabelecer um di&#xE1;logo respeitoso, no qual, ambos, entrevistador e entrevistado, desejam colaborar um com o outro. Os participantes da entre-vista refletem conjuntamente sobre as declara&#xE7;&#xF5;es, de modo a se chegar a uma compreens&#xE3;o bastante fiel do que se quer expor. N&#xE3;o h&#xE1; agenda oculta, de modo que o entrevistado sabe claramente das inten&#xE7;&#xF5;es do entrevistador (<xref ref-type="bibr" rid="B18">SKOVSMOSE et al., 2009</xref>). N&#xE3;o se estabelece rela&#xE7;&#xE3;o de poder. Na entre-vista todos est&#xE3;o em um mesmo plano e os dois lados det&#xEA;m saberes importantes que podem ser comungados, constituindo-se em um bom procedimento para <italic>desvendar backgrounds</italic> e <italic>foregrounds.</italic> O segundo encontro com os estudantes foi nos moldes de uma entre-vista.</p>
<p>A seguir, apresento, de forma mais pormenorizada o que ocorreu na entrevista e na entrevista.</p>
<sec>
<title>3.1 Buscando motivos &#x2013; entrevista</title>
<p>A primeira entrevista ocorreu poucos dias ap&#xF3;s a &#xFA;ltima tarefa, de modo que eles se lembravam com clareza do que haviam feito.</p>
<p>Nela, a pergunta-diretriz procurava saber o principal <italic>porqu&#xEA;</italic> dos alunos para participarem das tarefas investigativas propostas. Os quatro estudantes estavam juntos, mas cada um teve oportunidade de responder, individualmente. Entretanto, foi uma entrevista engessada pela pergunta-diretriz e eles n&#xE3;o tiveram muitas oportunidades de <italic>se desviar.</italic> Abaixo, alguns excertos das entrevistas:</p>
<speech>
<speaker>Pesquisador:</speaker>
<p>Quando voc&#xEA;s se envolvem neste tipo de tarefa em sala de aula, h&#xE1; um porqu&#xEA; principal? Se sim, qual?</p></speech>
<speech>
<speaker>Paulo:</speaker>
<p>Eu acho que a gente faz pensando no futuro, n&#xE9;? (pausa) Se a gente precisar fazer&#x2026; igual l&#xE1;, tem os c&#xE1;lculos l&#xE1; que a gente &#x2026; A&#xED;, vai que no futuro a gente precisa, n&#xE9;?<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref></p></speech>
<speech>
<speaker>Lauro:</speaker>
<p>[&#x2026;] Eu acho que tem um porqu&#xEA; sim. Porque, de certa forma ele <italic>(o pesquisador)</italic> passa algumas atividades relacionadas &#xE0;Matem&#xE1;tica, mas tamb&#xE9;m cotidianas [&#x2026;]algumas coisas que voc&#xEA; pode relacionar com o cotidiano que te ajudam. A pr&#xF3;pria quest&#xE3;o do celular e tudo.</p></speech>
<speech>
<speaker>Pesquisador:</speaker>
<p>Ent&#xE3;o voc&#xEA; acha que a Matem&#xE1;tica, n&#xE3;o toda, n&#xE9;, em algum momento, ela pode te ajudar depois, no seu cotidiano?</p></speech>
<speech>
<speaker>Lauro:</speaker>
<p>Exatamente, num futuro trabalhista.</p></speech>
<speech>
<speaker>Gabriel:</speaker>
<p>Mais por causa do dia a dia mesmo&#x2026; A gente pode precisar do neg&#xF3;cio l&#xE1;&#x2026; A&#xED; a gente sabe fazer qual vale a pena.</p></speech>
<speech>
<speaker>Leandro:</speaker>
<p>Eu tamb&#xE9;m era daqueles alunos quepensava assim &#x2026; pra que eu t&#xF4; usando isso a&#xED;? A&#xED;, depois veio aquela do celular e eu entendi mais ou menos porque que a gente tava fazendo aquilo&#x2026; porque tipo assim, &#xE0;s vezes voc&#xEA; tinha um plano do jeito que voc&#xEA; queria, mas voc&#xEA; podia achar um mais barato, dependendo da quantidade&#x2026; A&#xED; vi que voc&#xEA; pode usar no dia a dia, igual todo mundo falou assim.</p></speech>
<p>Essa entrevista foi iniciada e conclu&#xED;da no mesmo dia. O curioso nessas respostas &#xE9; que, ao se referirem aos temas das tarefas, os estudantes o fizeram sempre recordando aquelas que pareciam mostrar uma Matem&#xE1;tica &#xFA;til no cotidiano, na vis&#xE3;o deles. Em nenhum momento eles citaram as tarefas que tinham um apelo mais <italic>matem&#xE1;tico.</italic> Isso parecia sugerir que havia um motivo mais importante para a participa&#xE7;&#xE3;o dos estudantes, que estava relacionado a uma vis&#xE3;o utilit&#xE1;ria da Matem&#xE1;tica, em particular, no cotidiano e no futuro.</p>
<p>Nos artigos de <xref ref-type="bibr" rid="B18">Skovsmose et al. (2009</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B17">2012)</xref>, j&#xE1; citados neste texto, esse significado cotidiano foi ressaltado nas respostas dadas pelos estudantes ind&#xED;genas e pelos estudantes moradores de uma favela de S&#xE3;o Paulo. Isso mostra, em alguma medida, que motivos relacionados a uma Matem&#xE1;tica &#xFA;til para o cotidiano parecem mover estudantes rumo &#xE0; participa&#xE7;&#xE3;o em tarefas matem&#xE1;ticas, independentemente de suas realidades sociais, uma vez que os estudantes ind&#xED;genas, os estudantes da favela e os estudantes do presente estudo fazem parte de distintos meios sociais.</p>
<p>Na minha interpreta&#xE7;&#xE3;o, baseada em uma perspectiva hist&#xF3;rico-cultural de que motivos s&#xE3;o de car&#xE1;ter social, podemos pensar que os estudantes vivem em grupos: fam&#xED;lia, escola, amigos e que, dentro desses grupos se apropriam de valores culturais, normas, regras, modos de pensar e se expressar que passam a fazer parte de seus <italic>backgrounds</italic> e <italic>foregrounds.</italic> Parece natural, portanto, que eles reproduzam em suas falas o discurso de seu meio. Contudo, por que grupos com realidades distintas podem revelar um mesmo motivo para aprender Matem&#xE1;tica? Acredito que, nesse caso, isso ocorre porque possuem aspectos comuns em seus <italic>backgrounds</italic> e <italic>foregrounds,</italic> os quais denominarei <italic>aspectos de ampla abrang&#xEA;ncia.</italic></p>
<p>A vis&#xE3;o utilit&#xE1;ria/cotidiana da Matem&#xE1;tica parece ser um <italic>aspecto de ampla abrang&#xEA;ncia</italic> que faz parte dos <italic>backgrounds</italic> de todos os estudantes (inclusive os dos estudantes ind&#xED;genas e moradores da favela) por ser parte de um inconsciente coletivo que atribui &#xE0; Matem&#xE1;tica um papel quase vital para a vida das pessoas. Uma fala de Lauro parece ser reflexo desse julgamento que a sociedade faz da Matem&#xE1;tica e corrobora o que foi discutido acima. Ele disse: <italic>&#x201C;pra sociedade voc&#xEA; tem que saber, pelo menos, um m&#xED;nimo de Matem&#xE1;tica <italic>[&#x2026;]</italic> pra voc&#xEA; interagir com as pessoas e tudo, voc&#xEA; tem que saber um m&#xED;nimo de Matem&#xE1;tica. Na hora de pegar um &#xF4;nibus, digamos assim</italic>&#x2026;&#x201D; (Entrevista com Lauro, 2012).</p>
<p>Outras respostas dos quatro estudantes nesses mesmos termos tamb&#xE9;m parecem refletir influ&#xEA;ncias do discurso dos outros sobre a Matem&#xE1;tica. <italic>Aspectos de ampla abrang&#xEA;ncia</italic> podem ser compreendidos como parte comum dos repert&#xF3;rios dos <italic>backgrounds</italic> e <italic>foregrounds</italic> de um grupo grande de pessoas e podem explicar, na minha compreens&#xE3;o, motivos comuns para que elas desejem aprender algo, ainda que fa&#xE7;am parte de grupos com realidades socioecon&#xF4;micas e culturais distintas.</p>
<p>A maneira de compreender os motivos at&#xE9; agora apresentados pelos estudantes me leva a fazer a seguinte pergunta: se aprender uma Matem&#xE1;tica &#xFA;til &#xE9; um motivo relacionado a <italic>aspectos de ampla abrang&#xEA;ncia</italic> de seus <italic>backgrounds</italic> e <italic>foregrounds,</italic> que outros motivos eles revelariam e que fossem mais particulares?</p>
<p>Para investig&#xE1;-los realizei uma entre-vista com cada um dos estudantes alguns meses mais tarde. De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B18">Skovsmose et al. (2009)</xref>, o <italic>foreground</italic> n&#xE3;o &#xE9; encontrado em sua forma pura exigindo que, na entre-vista, haja um compartilhamento dos significados das expectativas que os entrevistados manifestam. N&#xE3;o definimos uma pergunta-diretriz e privilegiamos as viv&#xEA;ncias dos estudantes. Passamos agora &#xE0; breve apresenta&#xE7;&#xE3;o dos estudantes ao leitor. Outras particularidades de suas vidas ser&#xE3;o conhecidas por meio de suas respostas &#xE0; entre-vista, nas seguintes categorias: fam&#xED;lia, Matem&#xE1;tica, escolha da escola, futuro e lazer.</p>
</sec>
<sec>
<title>3.2 Retratos tornando-se cenas das vidas dos alunos e vislumbrando o que vir&#xE1;: a entrevista</title>
<p>Era meu desejo que as entre-vistas fossem agrad&#xE1;veis, sem nenhum car&#xE1;ter compuls&#xF3;rio. Havia alguns encaminhamentos, mas, dependendo da resposta, a dire&#xE7;&#xE3;o mudava e eu podia acessar um novo momento da vida do estudante. Era como se, em alguns momentos, os fatos de suas vidas, j&#xE1; passados, j&#xE1; inertes, j&#xE1; retratos, se reavivassem em suas palavras, constituindose em cenas reais em minha mente. Em outros, os alunos imaginaram cenas poss&#xED;veis para suas hist&#xF3;rias.</p>
<sec>
<title>Paulo</title>
<p>Paulo tinha 15 anos &#xE0; &#xE9;poca da pesquisa. Embora elogiado pela professora e reconhecido pelos colegas como um aluno exemplar e de excelentes resultados nas provas, isso n&#xE3;o parecia envaidec&#xEA;-lo. Era dedicado, participativo, mas n&#xE3;o falava muito. Morava em um condom&#xED;nio fechado na regi&#xE3;o metropolitana de Belo Horizonte com os pais e mais um irm&#xE3;o. A situa&#xE7;&#xE3;o financeira da fam&#xED;lia era confort&#xE1;vel.</p>
</sec>
<sec>
<title>Fam&#xED;lia</title> <disp-quote>
<p>A minha fam&#xED;lia &#xE9; fundamental para minha vida, dentro e fora da escola. Eles me proporcionam &#xF3;timas condi&#xE7;&#xF5;es de estudo, como por exemplo: compram o livro que minha escola sugere, atendem a todas as minhas reclama&#xE7;&#xF5;es em termos de condi&#xE7;&#xF5;es de estudo. A minha fam&#xED;lia me apoia muito com meus estudos, principalmente a minha m&#xE3;e. V&#xE1;rias vezes ela deixa de sair para se divertir para ficar em casa comigo porque eu tenho que estudar. Al&#xE9;m disso, o fato de eles me darem tudo o que eu pe&#xE7;o me motiva estudar cada dia mais para mostrar para eles que estou fazendo valer a pena. O apoio dos meus pais quando as coisas n&#xE3;o d&#xE3;o certo tamb&#xE9;m &#xE9; muito importante, pois me motiva a n&#xE3;o desistir e me mostra a minha capacidade.</p>
<attrib>(Entre-vista com Paulo, 2013).</attrib></disp-quote>
</sec>
<sec>
<title>Escolha da escola</title> <disp-quote>
<p>A escolha de ir para o CP n&#xE3;o foi minha. Na verdade eu estudei durante a 1<sup>&#xAA;</sup> s&#xE9;rie em uma escola de meu bairro [&#x2026;]. Por&#xE9;m, por grande press&#xE3;o de minha m&#xE3;e, meu pai me inscreveu no sorteio do CP e eu fui sorteado. Ent&#xE3;o mudei de escola porque minha fam&#xED;lia considerava o CP melhor por v&#xE1;rios aspectos, como: fica dentro da UFMG, me direciona para o Col&#xE9;gio T&#xE9;cnico e etc.</p>
<attrib>(Entre-vista com Paulo, 2013).</attrib></disp-quote>
</sec>
<sec>
<title>Matem&#xE1;tica</title> <disp-quote>
<p>Minha rela&#xE7;&#xE3;o com a matem&#xE1;tica, at&#xE9; o 8&#xB0; ano, foi sempre normal. Mas a partir do 8&#xB0;ano eu me apaixonei por Matem&#xE1;tica, s&#xF3; n&#xE3;o gostava mais do que Educa&#xE7;&#xE3;o F&#xED;sica. Agora no CP continuo gostando muito de Matem&#xE1;tica e isso &#xE9; fundamental, pois esse meu gosto me facilita a aprender as coisas em sala, e como eu n&#xE3;o tenho muito tempo para estudar essa mat&#xE9;ria em casa devido ao fato de eu dar prioridade ao curso t&#xE9;cnico. Ent&#xE3;o esse meu gosto por Matem&#xE1;tica sempre me ajudou muito.</p>
<attrib>(Entre-vista com Paulo, 2013).</attrib></disp-quote>
</sec>
<sec>
<title>Futuro</title> <disp-quote>
<p>Ainda n&#xE3;o sei se vou fazer curso superior, depende muito do meu futuro, se eu conseguir um bom emprego como t&#xE9;cnico, talvez eu nem pense em faculdade. Eu escolheria, hoje, cursar Ci&#xEA;ncia da Computa&#xE7;&#xE3;o porque &#xE9; uma mat&#xE9;ria em que eu me identifico muito.</p>
<attrib>(Entre-vista com Paulo, 2013).</attrib></disp-quote>
</sec>
<sec>
<title>Lazer</title> <disp-quote>
<p>Eu s&#xF3; consigo me divertir quando estou com a consci&#xEA;ncia totalmente leve, ou seja, quando n&#xE3;o tenho que estudar ou fazer um trabalho. Ent&#xE3;o, minha divers&#xE3;o favorita &#xE9; jogar futebol, depois &#xE9; jogar v&#xED;deo game. Para mim, isso compensa toda a minha semana de estudos e todo meu estresse com provas. Eu participo de um grupo que se re&#xFA;ne para jogar futebol aos fins de semana, mas esse grupo &#xE9; formado em sua maioria por meus familiares e seus amigos.</p>
<attrib>(Entre-vista com Paulo, 2013).</attrib></disp-quote>
</sec>
<sec>
<title>Leandro</title>
<p>Diferente de Paulo, Leandro era muito falante e tinha 14 anos. Morava em um bairro da regi&#xE3;o metropolitana de Belo Horizonte com a m&#xE3;e, o padrasto e mais quatro irm&#xE3;os. Ao falar de sua fam&#xED;lia, centrou-se na m&#xE3;e e em um dos irm&#xE3;os. A m&#xE3;e de Leandro era vendedora no centro da cidade e cumpria uma rotina di&#xE1;ria de trabalho bastante exaustiva.</p>
</sec>
<sec>
<title>Fam&#xED;lia</title> <disp-quote>
<p>Ela mesma fala que a &#xFA;nica coisa que ela est&#xE1; deixando para mim &#xE9; o estudo. Minha m&#xE3;e fala isso todo dia praticamente. L&#xE1; em casa a minha m&#xE3;e apostou tudo em mim, porque o meu irm&#xE3;o do meio n&#xE3;o est&#xE1; nem a&#xED; para nada. Minha m&#xE3;e falou: olha, eu j&#xE1; abri m&#xE3;o dele, porque eu sei que ele tem problema. Agora t&#xE1; em voc&#xEA;.</p>
<attrib>(Entre-vista com Leandro, 2013).</attrib></disp-quote>
</sec>
<sec>
<title>Escolha da Escola</title> <disp-quote>
<p>A minha m&#xE3;e ficou sabendo por uma amiga dela que a escola era uma escola boa, dentro da UFMG. A&#xED; quando voc&#xEA; fala que estuda dentro da UFMG parece que&#x2026; A&#xED; minha m&#xE3;e foi l&#xE1; e fez a inscri&#xE7;&#xE3;o.</p>
<attrib>(Entre-vista com Leandro, 2013).</attrib></disp-quote>
</sec>
<sec>
<title>Matem&#xE1;tica</title> <disp-quote>
<p>Eu n&#xE3;o me dou muito bem com a Matem&#xE1;tica n&#xE3;o. As vezes eu erro muita coisa boba e tiro nota ruim. [&#x2026;] a mat&#xE9;ria foi ficando mais dif&#xED;cil e eu deixei de gostar. Deixa eu falar uma coisa para voc&#xEA;: eu gosto da mat&#xE9;ria demais, mas quando&#x2026; nossa&#x2026; voc&#xEA; t&#xE1; doido&#x2026; bate um des&#xE2;nimo. Voc&#xEA; v&#xEA; assim, todo mundo tirando nota boa e v&#xEA; voc&#xEA; l&#xE1;&#x2026; voc&#xEA; tenta &#xE0;s vezes&#x2026; por isso que &#xE0;s vezes eu falo: eu largo de m&#xE3;o mesmo, n&#xE3;o estudo para a prova n&#xE3;o. Se eu sei, eu sei. Se eu n&#xE3;o sei, n&#xE3;o vou aprender de um dia para o outro estudando.</p>
<attrib>(Entre-vista com Leandro, 2013).</attrib></disp-quote>
</sec>
<sec>
<title>Futuro</title>
<p>Em rela&#xE7;&#xE3;o ao futuro profissional, ele parecia ainda confuso. No in&#xED;cio da entre-vista, disse ter vontade de ser o primeiro da fam&#xED;lia a concluir um curso superior e justificou utilizando sua m&#xE3;e como exemplo:</p> <disp-quote>
<p>Porque eu vejo minha m&#xE3;e. As vezes minha m&#xE3;e poderia ser melhor do que ela &#xE9; hoje porque falta para ela um curso superior, um ensino maior para ela.</p>
<attrib>(Entre-vista com Leandro, 2013).</attrib></disp-quote>
<p>Mais &#xE0; frente, parecia n&#xE3;o ter certeza sobre isso, j&#xE1; que o curso t&#xE9;cnico poderia lhe dar retorno financeiro, sem necessidade do curso superior. Sobre esse assunto, Leandro disse:</p> <disp-quote>
<p>Depende se, tipo assim, se eu ver que o sal&#xE1;rio, a remunera&#xE7;&#xE3;o do curso que eu tenho est&#xE1; muito alta e se eu fizer um curso superior n&#xE3;o vai fazer muita diferen&#xE7;a, vou continuar fazendo o t&#xE9;cnico. <italic>[&#x2026;]</italic> Vou ver como &#xE9; que &#xE9; primeiro. A&#xED;, se eu ver que n&#xE3;o &#xE9; necess&#xE1;rio ir para a faculdade eu vou continuar exercendo o t&#xE9;cnico.</p>
<p>Meus interesses s&#xE3;o os seguintes: eu queria ter uma empresa. Eu queria comandar a empresa, mas para tudo voc&#xEA; precisa saber alguma coisa. Administra&#xE7;&#xE3;o &#xE9; exatas, eu n&#xE3;o vou conseguir fugir da Matem&#xE1;tica. <italic>[&#x2026;]</italic> eu gosto da &#xE1;rea de exatas, mesmo tendo esses problemas todos, eu ainda vou para o lado de exatas. <italic>[&#x2026;]</italic> A minha preocupa&#xE7;&#xE3;o &#xE9; esta: dar alguma coisa para a minha m&#xE3;e.</p>
<attrib>(Entre-vista com Leandro, 2013).</attrib></disp-quote>
</sec>
<sec>
<title>Lazer</title>
<p>Para se divertir, Leandro n&#xE3;o parecia ter muitas op&#xE7;&#xF5;es. Perguntado sobre o que gostava de fazer nas horas livres, ele disse que jogava bola e dormia muito. N&#xE3;o gostava muito de filmes e nem de jogar videogame, mas adorava <italic>&#x201C;soltar papagaio</italic>&#x201D;. Ele me ensinou que o inverno &#xE9; a melhor &#xE9;poca para soltar papagaio, porque o vento &#xE9; intenso. Em rela&#xE7;&#xE3;o aos filmes em cinemas, mesmo quando decidia assisti-los, nem sempre tinha dinheiro, porque a situa&#xE7;&#xE3;o financeira da fam&#xED;lia era delicada.</p>
</sec>
<sec>
<title>Gabriel</title>
<p>Gabriel era o mais calado do grupo. Muito t&#xED;mido, exibia um sorriso envergonhado sempre que era questionado sobre alguma coisa. Tinha 16 anos &#xE0; &#xE9;poca da pesquisa. Ele havia sido reprovado duas vezes na escola e, por essa raz&#xE3;o, estava fora da faixa et&#xE1;ria comumente encontrada em turmas de nono ano, entre 13 e 15 anos. Essas reprova&#xE7;&#xF5;es provocaram sentimentos negativos em rela&#xE7;&#xE3;o ao espa&#xE7;o escolar, declarados por ele:</p> <disp-quote>
<p>Gabriel: <italic>[&#x2026;]</italic> Eu repeti duas vezes l&#xE1;. A&#xED; eu fiquei com raiva. Eu n&#xE3;o gostava muito de participar n&#xE3;o.</p>
<attrib>(Entre-vista com Gabriel, 2013).</attrib></disp-quote>
</sec>
<sec>
<title>Fam&#xED;lia</title>
<p>Morava em uma casa grande de um bairro da regi&#xE3;o metropolitana de Belo Horizonte com mais seis pessoas: pai, m&#xE3;e, irm&#xE3;, av&#xF3;, av&#xF4; e bisav&#xF3;. Seu pai havia estudado contabilidade, mas n&#xE3;o trabalhava na &#xE1;rea. A fam&#xED;lia era unida e, sempre que poss&#xED;vel, faziam algumas refei&#xE7;&#xF5;es juntos. Al&#xE9;m disso, cobrava dele bom desempenho escolar e o ajudavam quando necess&#xE1;rio:</p> <disp-quote>
<p>Todo mundo almo&#xE7;a junto. S&#xF3; meu pai que chega tarde. A&#xED; ele almo&#xE7;a separado. Fora isso almo&#xE7;a e janta todo mundo junto. A&#xED;, domingo almo&#xE7;a todo mundo junto.</p>
<p>Incentivam e quando eu t&#xF4; com dificuldade eu falo com eles&#x2026; quem nem Portugu&#xEA;s. Agora eu t&#xF4; fazendo aula particular e tal, desde o ano passado. Que eu tenho dificuldade em portugu&#xEA;s. A&#xED; eu comecei.</p>
<attrib>(Entre-vista com Gabriel, 2013).</attrib></disp-quote>
</sec>
<sec>
<title>Escolha da escola</title> <disp-quote>
<p>Minha m&#xE3;e ficou sabendo, n&#xE3;o me lembro por quem&#x2026; eu sei que ela ficou sabendo e me inscreveu l&#xE1; no sorteio. A&#xED; eu fui sorteado. Ela colocou tamb&#xE9;m pensando no Col&#xE9;gio T&#xE9;cnico e esses neg&#xF3;cios&#x2026;</p>
<attrib>(Entre-vista com Gabriel, 2013).</attrib></disp-quote>
</sec>
<sec>
<title>Matem&#xE1;tica</title> <disp-quote>
<p>Tipo, eu n&#xE3;o sou muito bom em Matem&#xE1;tica, mas, tipo, se tiver que escolher entre fazer exatas, humanas e esses neg&#xF3;cios, eu acho que eu vou me dar melhor em exatas.</p>
<p>Matem&#xE1;tica eu tamb&#xE9;m sou, uns sessenta, setenta por cento, minhas notas. Mas s&#xF3; que, tipo, pelo menos eu acho que Matem&#xE1;tica voc&#xEA; faz muito exerc&#xED;cio e tal, a&#xED; voc&#xEA; consegue aprender e tal. Agora Portugu&#xEA;s voc&#xEA; tem que ler muito para entender.</p>
<attrib>(Entre-vista com Gabriel, 2013).</attrib></disp-quote>
<p>Isso soava paradoxal, j&#xE1; que, mesmo n&#xE3;o tendo bons resultados, Gabriel informou que queria aprender Matem&#xE1;tica e justificou da seguinte maneira:</p> <disp-quote>
<p>&#xC9; porque tipo, ningu&#xE9;m quer ser pobre. A&#xED;, pra mim, tipo, ser rico e tal eu vou ter que estudar, mesmo que eu n&#xE3;o goste daquilo e tal, vou ter que me dedicar de qualquer jeito.</p>
<attrib>(Entre-vista com Gabriel, 2013).</attrib></disp-quote>
</sec>
<sec>
<title>Futuro</title> <disp-quote>
<p>Mas tipo, eu t&#xF4; pensando o seguinte: se eu gostar do t&#xE9;cnico, eu vou trabalhar com ele. A&#xED;, se eu ver que n&#xE3;o t&#xE1; muito bom, a&#xED; tipo, eu pretendo fazer Educa&#xE7;&#xE3;o F&#xED;sica, ou ent&#xE3;o alguma coisa na &#xE1;rea de exatas. Eu quero formar aqui, primeiro. Fazer est&#xE1;gio, trabalhar um tempo no t&#xE9;cnico, ver se eu gosto. Se eu n&#xE3;o gostar vou entrar numa boa faculdade, ter minha casa, esses neg&#xF3;cios.</p>
<attrib>(Entre-vista com Gabriel, 2013).</attrib></disp-quote>
</sec>
<sec>
<title>Lazer</title> <disp-quote>
<p>Eu gosto, tipo, de ficar na rua conversando com meus colegas. Gosto de ir ao cinema, mas eu vou de vez em quando e tal, quando tem um filme que me interessa muito. Tipo, vai ter &#x2018;O homem de ferro&#x2019;[&#x2026;] suspense &#xE0;s vezes &#xE9; bom. Tamb&#xE9;m gosto muito de assistir seriado. [&#x2026;] de vez em quando futebol. N&#xE3;o sou muito bom de futebol.</p>
<attrib>(Entre-vista com Gabriel, 2013).</attrib></disp-quote>
</sec>
<sec>
<title>Lauro</title>
<p>Lauro tinha 14 anos quando estive em sua sala. N&#xE3;o falava muito, mas quando o fazia, expunha com clareza suas ideias. N&#xE3;o utilizava muitas g&#xED;rias como &#xE9; comum entre os adolescentes.</p>
</sec>
<sec>
<title>Fam&#xED;lia</title>
<p>Morava com a m&#xE3;e em um bairro na mesma regi&#xE3;o do col&#xE9;gio onde estudava. Como os pais s&#xE3;o separados, os finais de semana eram reservados ao pai, que morava em outro bairro. A rela&#xE7;&#xE3;o entre eles era bastante harmoniosa, sem conflitos. Sua m&#xE3;e trabalhava fora e, dentro das possibilidades, ela e o pai proporcionavam a Lauro uma vida confort&#xE1;vel.</p>
</sec>
<sec>
<title>Escolha da escola</title> <disp-quote>
<p>Olha, na verdade quem escolheu o CP foi meu pai, pela passagem direta para o Col&#xE9;gio T&#xE9;cnico. Ele que foi l&#xE1; e fez o sorteio. A&#xED;, quando eu passei foi a felicidade maior dele.</p>
<attrib>(Entre-vista com Lauro, 2013).</attrib></disp-quote> <disp-quote>
<p>Na escola eu sempre fui bem em Matem&#xE1;tica. Sempre gostei tamb&#xE9;m. S&#xF3; que nono ano eu tive um desempenho muito baixo na primeira etapa, por causa de quest&#xF5;es de fam&#xED;lia. Meu av&#xF4; estava internado. Eu tava abalado e tamb&#xE9;m tava tendo dificuldade na mat&#xE9;ria. S&#xF3; que, na segunda etapa, quando entrou uma mat&#xE9;ria nova e eu comecei prestar aten&#xE7;&#xE3;o, a&#xED; j&#xE1; voltei a me dar bem (Entre-vista com Lauro, 2013).</p></disp-quote>
</sec>
<sec>
<title>Futuro</title>
<p>Perguntei, tamb&#xE9;m, se ele pretendia fazer um curso superior. Diferentemente de Paulo e Leandro, Lauro n&#xE3;o pretendia experimentar a carreira como profissional da &#xE1;rea t&#xE9;cnica, antes de ir &#xE0; universidade. T&#xE3;o logo terminasse o curso t&#xE9;cnico, desejava cursar Engenharia de <italic>Software.</italic> Sobre este desejo, ele disse:</p> <disp-quote>
<p>Eu quero fazer Engenharia de <italic>Software</italic>. J&#xE1; vou fazer direto.</p>
<attrib>(Entre-vista com Lauro, 2013).</attrib></disp-quote>
</sec>
<sec>
<title>Lazer</title>
<p>Quando questionado sobre o que fazia nas horas de lazer, Lauro nos disse que fazia aulas de t&#xEA;nis duas vezes por semana e aulas de ingl&#xEA;s, tamb&#xE9;m duas vezes por semana. Al&#xE9;m disso, ele disse que jogava futebol nos fins de semana na quadra que existia no condom&#xED;nio onde seu pai morava e <italic>&#x201C;assisto &#xE0; TV o tempo todo e computador&#x2026; redes sociais e jogos</italic>&#x201D; (Entre-vista com Lauro, 2013).</p>
</sec>
</sec>
</sec>
<sec>
<title>4 Que motivos emergiram durante a entre-vista?</title>
<p>Como j&#xE1; discutido, na minha interpreta&#xE7;&#xE3;o, baseada em <xref ref-type="bibr" rid="B18">Skovsmose et al. (2009)</xref>, o <italic>background</italic> e o <italic>foreground</italic> t&#xEA;m rela&#xE7;&#xE3;o com experi&#xEA;ncias e aprendizagens que a pessoa viveu/vive. Parte dessas aprendizagens pode tornar-se estrutural na constru&#xE7;&#xE3;o do conjunto de valores que a pessoa considera para sua vida. Nas respostas dadas pelos estudantes percebemos que as viv&#xEA;ncias e aprendizagens nos grupos pareciam impulsion&#xE1;-los. Da mesma forma, as expectativas e desejos para o futuro tamb&#xE9;m cumpriam esse papel.</p>
<p>Partindo das interpreta&#xE7;&#xF5;es das respostas dos estudantes, apresento os motivos que surgiram durante as entre-vistas, em cada uma das categorias citadas anteriormente.</p>
<sec>
<title/>
<sec>
<title>Fam&#xED;lia</title>
<p>Para todos os estudantes a fam&#xED;lia parecia ser nuclear em suas vidas. Paulo disse que a fam&#xED;lia era fundamental, dentro e fora da escola. Pode-se notar, pela sua resposta, o esfor&#xE7;o que os pais faziam para proporcionar-lhe uma boa educa&#xE7;&#xE3;o. Leandro morava com a m&#xE3;e e o padrasto, este &#xFA;ltimo, pelo que pareceu, sem muita influ&#xEA;ncia sobre ele. Entretanto, a m&#xE3;e trabalhava como vendedora para que ele pudesse estudar em uma boa escola. Em contrapartida, ela declaradamente depositava nele todas as esperan&#xE7;as de um futuro melhor para a fam&#xED;lia. A fam&#xED;lia de Gabriel era muito unida e o apoiava nos estudos quando era necess&#xE1;rio, pagando aulas particulares, por exemplo. Lauro era bem assessorado pelos pais que tentavam lhe proporcionar boa qualidade de vida, o que significava, tamb&#xE9;m, estudar em uma boa escola e estudar um segundo idioma.</p>
<p>Todos os quatro estudantes percebiam os esfor&#xE7;os das suas fam&#xED;lias para que tivessem uma boa educa&#xE7;&#xE3;o. Como reconhecimento, um motivo que pode ter surgido foi o de <italic>cumprir o papel de estudante realizando a tarefa.</italic> Corresponder &#xE0;s expectativas dos pais sendo alunos cumpridores dos seus deveres era um motivo para que participassem das tarefas investigativas. Uma fala de Paulo &#xE9; bastante ilustrativa do que quero dizer: <italic>&#x201C;Al&#xE9;m disso, o fato de eles me darem tudo o que eu pe&#xE7;o me motiva estudar cada dia mais para mostrar para eles que estou fazendo valer apena</italic>&#x201D; (Entre-vista com Paulo, 2013).</p>
</sec>
<sec>
<title>Escolha da escola</title>
<p>A escolha da escola era uma decis&#xE3;o dos pais e isso ficou claro nas respostas. Al&#xE9;m da escola ser considerada de boa qualidade, acredito que o seu maior atrativo era a garantia da vaga em uma escola t&#xE9;cnica de renome. Muitos pais consideram o curso t&#xE9;cnico uma boa op&#xE7;&#xE3;o para o filho aprender uma profiss&#xE3;o, antes de ir para o curso superior.</p>
<p>A preocupa&#xE7;&#xE3;o dos pais em matricular os filhos em uma boa escola revela a valoriza&#xE7;&#xE3;o que davam aos estudos. Tal valoriza&#xE7;&#xE3;o, muito provavelmente, foi passada aos filhos, que compreendiam a import&#xE2;ncia dos estudos para eles e para os pr&#xF3;prios pais. Nesse sentido, o motivo <italic>estudar para ingressar na escola t&#xE9;cnica</italic> tamb&#xE9;m pode ter surgido como resultado das viv&#xEA;ncias em casa.</p>
<p>Percebem-se, nessa categoria, influ&#xEA;ncias do <italic>background</italic> e do <italic>foreground</italic> no surgimento do motivo. A apropria&#xE7;&#xE3;o do discurso social, reproduzido pelos pais, que propala a necessidade de se estudar em uma boa escola, parece estar relacionada ao <italic>background</italic> dos estudantes. Como consequ&#xEA;ncia do estudo em boas escolas, o indiv&#xED;duo pode ter sucesso profissional e financeiro e isso parecia ser uma expectativa dos estudantes. Essa perspectiva parece se relacionar aos seus <italic>foregrounds.</italic></p>
</sec>
<sec>
<title>Matem&#xE1;tica</title>
<p>Os estudantes Paulo e Lauro gostavam de Matem&#xE1;tica e a tinham como uma das disciplinas favoritas. Os hist&#xF3;ricos de ambos mostravam que, ao longo da vida escolar, a aprendizagem da Matem&#xE1;tica se deu sem grandes obst&#xE1;culos, de modo que a rela&#xE7;&#xE3;o com essa disciplina era bastante amig&#xE1;vel. Nos casos de Leandro e Gabriel, a rela&#xE7;&#xE3;o com a Matem&#xE1;tica, em termos de rendimento, n&#xE3;o era boa. Suas performances n&#xE3;o eram das melhores e havia um des&#xE2;nimo para os estudos. Dessa forma, para Paulo e Lauro, <italic>gostar de Matem&#xE1;tica e ter bons resultados na disciplina</italic> pareciam ser motivo para que eles participassem das tarefas. No caso de Leandro e Gabriel, o motivo associado &#xE0; Matem&#xE1;tica parecia ser somente a <italic>utilidade pr&#xE1;tica dos conte&#xFA;dos matem&#xE1;ticos</italic> na vida cotidiana e para o futuro.</p>
<p>Nessa categoria, podemos perceber como as experi&#xEA;ncias anteriores, associadas ao <italic>background,</italic> influenciaram motivos, sobretudo as positivas. Paulo e Lauro eram movidos pelo motivo <italic>gostar de Matem&#xE1;tica</italic>, dadas as suas boas experi&#xEA;ncias anteriores nessa disciplina.</p>
</sec>
<sec>
<title>Futuro</title>
<p>As respostas a essa categoria foram muito interessantes e mostraram elementos dos <italic>foregrounds</italic> dos estudantes de forma clara. Paulo, Leandro e Gabriel iriam tentar a carreira t&#xE9;cnica, antes de cogitar outra possibilidade: &#x201C;[&#x2026;] <italic>se conseguir um bom emprego como t&#xE9;cnico, talvez eu nem pense em faculdade</italic>&#x201D;; &#x201C;[&#x2026;] <italic>se eu ver que o sal&#xE1;rio, a remunera&#xE7;&#xE3;o do curso que eu tenho est&#xE1; muito alta e se eu fizer um curso superior n&#xE3;o vai fazer muita diferen&#xE7;a, vou continuar fazendo o t&#xE9;cnico</italic>&#x201D;; &#x201C;[&#x2026;] <italic>se eu gostar do t&#xE9;cnico, eu vou trabalhar com ele</italic> [&#x2026;]&#x201D; (Entre-vistas, 2013). Eles pretendiam concluir o curso t&#xE9;cnico e, com o diploma em m&#xE3;os, iniciar um trabalho na &#xE1;rea escolhida, supostamente para ganhar dinheiro. A op&#xE7;&#xE3;o de ir para a universidade s&#xF3; foi aventada caso esse plano desse errado.</p>
<p>Mesmo Leandro, que nos disse desejar ser o primeiro de sua fam&#xED;lia a concluir um curso de n&#xED;vel superior, disse que antes tentaria emprego como t&#xE9;cnico, talvez porque fosse um caminho abreviado para ajudar a sua m&#xE3;e.</p>
<p>Lauro foi o &#xFA;nico a dizer que n&#xE3;o priorizaria o trabalho como t&#xE9;cnico, afirmando que iria direto para a universidade cursar engenharia.</p>
<p>Ter um futuro de sucesso parecia ser um dos desejos de Paulo, Lauro, Leandro e Gabriel e estudar tornava-se uma das necessidades a serem satisfeitas para a realiza&#xE7;&#xE3;o desse sonho e a Matem&#xE1;tica seria importante nesse processo. Lauro deixou isso muito claro em uma de suas falas quando disse que as tarefas propostas poderiam ajud&#xE1;-lo em um <italic>futuro trabalhista.</italic> Leandro e Gabriel, embora n&#xE3;o gostassem de Matem&#xE1;tica, escolheriam, caso fossem para a universidade, um curso na &#xE1;rea de exatas. No caso de Leandro, muito provavelmente porque, no seu julgamento, cursos nessa &#xE1;rea poderiam ajud&#xE1;-lo em seu objetivo de ganhar dinheiro e ajudar sua fam&#xED;lia. Gabriel foi mais expl&#xED;cito. Para ele, valia o sacrif&#xED;cio de estudar o que n&#xE3;o gostava (no caso, a Matem&#xE1;tica) para ser rico. Ele disse: &#x201C;<italic>&#xC9; porque tipo, ningu&#xE9;m quer ser pobre. A&#xED;, pra mim, tipo, ser rico e tal eu vou ter que estudar, mesmo que eu n&#xE3;o goste daquilo e tal, vou ter que me dedicar de qualquer jeito</italic>&#x201D; (Entre-vista com Gabriel, 2013).</p>
<p>Relacionado ao futuro, podemos supor que um motivo para a participa&#xE7;&#xE3;o nas tarefas propostas &#xE9; <italic>aprender Matem&#xE1;tica para um futuro de sucesso financeiro.</italic> Nesse momento cabe uma pequena discuss&#xE3;o, mas n&#xE3;o menos importante, sobre o conceito de <italic>posi&#xE7;&#xE3;o de fronteira</italic> e como o vejo inserido neste estudo.</p>
<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B17">Skovsmose et al. (2012</xref>, p. 236), a <italic>posi&#xE7;&#xE3;o de fronteira</italic> &#xE9; aquela &#x201C;de onde o indiv&#xED;duo pode ver suas atuais condi&#xE7;&#xF5;es de vida em rela&#xE7;&#xE3;o a outras possibilidades de vida&#x201D;. Embora posi&#xE7;&#xF5;es de fronteira possam existir para todos, se a pessoa vive em situa&#xE7;&#xE3;o marginal, percebe de forma mais acentuada as diferen&#xE7;as entre sua vida e aquela que est&#xE1; ali, bem perto, mas inating&#xED;vel e que &#xE9; vivida por outros. Geralmente, estudos que colocam o conceito de <italic>posi&#xE7;&#xE3;o de fronteira</italic> em relevo est&#xE3;o relacionados a grupos marginalizados, que n&#xE3;o parece ser o caso dos nossos estudantes. Talvez a vida de Leandro fosse a que destoasse, um pouco, das de seus colegas</p>
<p>Leandro levava uma vida mais dif&#xED;cil, se comparada &#xE0;s de Paulo e Lauro, cujas fam&#xED;lias possu&#xED;am uma condi&#xE7;&#xE3;o socioecon&#xF4;mica mais confort&#xE1;vel. Paulo morava em condom&#xED;nio fechado, Lauro jogava t&#xEA;nis e estudava ingl&#xEA;s. Leandro, por sua vez, nem podia ir ao cinema por falta de dinheiro e, talvez por isso, tenha se tornado um ex&#xED;mio empinador de pipas. Todos desejavam ganhar dinheiro como profissionais de sucesso. Entretanto, para Leandro, ter sucesso profissional e financeiro serviria para ajudar sua m&#xE3;e. O que ele disse sobre isso:</p> <disp-quote>
<p>Porque eu vejo minha m&#xE3;e. As vezes minha m&#xE3;e poderia ser melhor do que ela &#xE9; hoje porque falta para ela um curso superior, um ensino maior para ela. <italic>[&#x2026;]</italic> a minha preocupa&#xE7;&#xE3;o &#xE9; esta: dar alguma coisa para a minha m&#xE3;e.</p>
<attrib>(Entre-vista com Leandro, 2013).</attrib></disp-quote>
<p>Entendo que Leandro, mesmo fazendo parte do mesmo grupo da escola, desejava ultrapassar a fronteira para o lado em que alguns de seus amigos j&#xE1; estavam. O conceito de <italic>posi&#xE7;&#xE3;o de fronteira</italic> tem sido explorado para grupos, geralmente vivendo &#xE0; margem da sociedade, como nos casos j&#xE1; citados neste artigo. O grupo da escola do qual Leandro fazia parte n&#xE3;o parece ser um grupo marginalizado. No entanto, em alguns aspectos, Leandro parece estar &#xE0; margem quando observamos um contraste entre sua vida e as de alguns de seus colegas.</p>
<p>Contudo, para transpor a barreira inicial, ser&#xE1; necess&#xE1;rio Leandro transpor outra barreira: aquela que o separa do mundo dos que dominam a Matem&#xE1;tica. Ao afirmar <italic>&#x201C;Meus interesses s&#xE3;o os seguintes: eu queria ter uma empresa. Eu queria comandar a empresa, mas para tudo voc&#xEA; precisa saber alguma coisa. Administra&#xE7;&#xE3;o &#xE9; exatas, eu n&#xE3;o vou conseguir fugir da Matem&#xE1;tica</italic>&#x201D; (Entre-vista com Leandro, 2013), o <italic>saber matem&#xE1;tica</italic> torna-se um caminho para <italic>mudar de lado.</italic> O que quero dizer &#xE9; o seguinte: talvez seja importante discutirmos a ideia de <italic>posi&#xE7;&#xE3;o de fronteira</italic> de uma pessoa dentro de um mesmo grupo. Pessoas em um mesmo grupo podem experimentar sensa&#xE7;&#xF5;es de n&#xE3;o pertencimento a ele, mesmo sendo pertencentes a ele. Leandro pertencia ao mesmo grupo de alunos da escola.</p>
</sec>
<sec>
<title>Lazer</title>
<p>As respostas dadas nesta categoria n&#xE3;o me permitiram perceber motivos para a participa&#xE7;&#xE3;o nas tarefas.</p>
</sec>
</sec>
</sec>
<sec sec-type="conclusions">
<title>5 Considera&#xE7;&#xF5;es finais</title>
<p>Os quatro estudantes desta pesquisa apresentaram um motivo expl&#xED;cito para participarem das tarefas investigativas que lhes foram propostas: aprender uma Matem&#xE1;tica &#xFA;til para o cotidiano, o que, na minha interpreta&#xE7;&#xE3;o, se deve a <italic>aspectos de ampla abrang&#xEA;ncia</italic> de seus <italic>backgrounds</italic> e <italic>foregrounds.</italic> Entretanto, devemos lembrar que, na perspectiva hist&#xF3;rico-cultural, motivos emergem no interior das rela&#xE7;&#xF5;es sociais que ocorrem diariamente nos grupos dos quais fazemos parte. Nessas viv&#xEA;ncias, n&#xF3;s nos apropriamos de valores, regras e conhecimentos que formam um conjunto que cria uma estrutura orientadora de nossas vidas. Isso faz parte de nossos <italic>backgrounds.</italic> Por outro lado, o nosso entorno, a conjuntura econ&#xF3;mica e social que diante de n&#xF3;s se descortina, tamb&#xE9;m influenciam nossas expectativas e perspectivas para o futuro, nossos <italic>foregrounds.</italic> Nesse sentido, dos <italic>backgrounds</italic> e <italic>foregrounds</italic> emergem motivos para a aprendizagem.</p>
<p>Entretanto, <italic>backgrounds</italic> e <italic>foregrounds</italic> n&#xE3;o s&#xE3;o estruturas imut&#xE1;veis da vida de uma pessoa, como se existisse um determinismo social do qual ela n&#xE3;o pudesse se desviar. Eles podem mudar, sobretudo o <italic>foreground</italic>. O conhecimento de <italic>backgrounds</italic> e <italic>foregrounds</italic> dos estudantes, por parte do professor, pode ter implica&#xE7;&#xF5;es pedag&#xF3;gicas importantes como, por exemplo, guiar suas a&#xE7;&#xF5;es de modo que se tornem mais pr&#xF3;ximas das expectativas do grupo de estudantes.</p>
<p>As atividades investigativas deste estudo, voltadas a situa&#xE7;&#xF5;es da semirrealidade, mostraram aos estudantes que, em alguma medida, a Matem&#xE1;tica pode realmente ser &#xFA;til &#xE0;s nossas vidas. Da maneira como foram conduzidas, as atividades podem ter criado o que <xref ref-type="bibr" rid="B1">Alr&#xF8; e Skovsmose (2010)</xref> denominam <italic>vistas privilegiadas.</italic> Elas permitiram aos estudantes perceberem as tarefas sob outra perspectiva, atribuindo-lhes um significado. Em vez de uma resposta baseada no senso comum, de que a Matem&#xE1;tica &#xE9; importante para a vida, os estudantes talvez tenham percebido, por meio das atividades, a utilidade da Matem&#xE1;tica em situa&#xE7;&#xF5;es de sua pr&#xF3;pria vida.</p>
<p>Outra discuss&#xE3;o realizada e que considero importante tem rela&#xE7;&#xE3;o com o alargamento da ideia de <italic>posi&#xE7;&#xE3;o de fronteira.</italic> Estando na mesma escola, poder&#xED;amos supor todos os estudantes com as mesmas condi&#xE7;&#xF5;es socioecon&#xF4;micas, afinal, est&#xE3;o no mesmo meio: o escolar. Contudo, um olhar mais detalhado sobre os alunos sujeitos da pesquisa mostrou que, mesmo compartilhando v&#xE1;rios momentos de suas vidas, Leandro parecia estar em uma <italic>posi&#xE7;&#xE3;o de fronteira</italic> por duas raz&#xF5;es principais: a situa&#xE7;&#xE3;o socioecon&#xF4;mica inferior &#xE0; de seus colegas e os insucessos na disciplina Matem&#xE1;tica. Parece interessante, portanto, que, ao olharmos para a escola com lentes ampliadas, vejamos os alunos que, mesmo estando ali, naquele mesmo grupo podem estar &#xE0; margem. Com isso, a barreira invis&#xED;vel da fronteira parece existir em situa&#xE7;&#xF5;es n&#xE3;o t&#xE3;o &#xF3;bvias.</p>
<p>O professor, atento a tudo isso, poder&#xE1; possibilitar aos seus alunos assumir outro papel, no qual eles n&#xE3;o sejam coadjuvantes em seu processo de aprendizagem. Com isso, eles, os alunos, poder&#xE3;o nos ensinar muito, inclusive que o inverno tem os melhores ventos para soltar papagaio.</p>
</sec></body>
<back>
<ack>
<title>Agradecimento</title>
<p>&#xC0; CAPES, pela concess&#xE3;o da bolsa de doutorado.</p>
</ack>
<fn-group>
<fn fn-type="other" id="fn1">
<label>1</label>
<p>Ambientes de aprendizagem est&#xE3;o sendo compreendidos na perspectiva de <xref ref-type="bibr" rid="B16">Skovsmose (2000)</xref>, como sendo as condi&#xE7;&#xF5;es nas quais os estudantes s&#xE3;o estimulados e convidados a participarem de certas atividades.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn2">
<label>2</label>
<p>As respostas foram transcritas praticamente sem altera&#xE7;&#xF5;es.</p></fn></fn-group>
<ref-list>
<title>Refer&#xEA;ncias</title>
<ref id="B1">
<element-citation publication-type="book">
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<name><surname>SKOVSMOSE</surname><given-names>O.</given-names></name></person-group>
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<edition>2. ed.</edition>
<publisher-loc>Belo Horizonte</publisher-loc>
<publisher-name>Aut&#xEA;ntica</publisher-name>
<year>2010</year>
<comment>(Tend&#xEA;ncias em Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica)</comment></element-citation>
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<ref id="B2">
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<article-title>Classrooms: goals, structures and student motivation</article-title>
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<element-citation publication-type="thesis">
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<source xml:lang="pt">Por que aprender isso professora? Sentido pessoal e atividade de estudo na Psicologia Hist&#xF3;rico-cultural</source>
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<comment>Tese (Doutorado em Psicologia)</comment>
<publisher-name>Instituto de Psicologia, Universidade de S&#xE3;o Paulo</publisher-name>
<publisher-loc>S&#xE3;o Paulo</publisher-loc>
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<comment>Tese (Doutorado em Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica) &#x2013; Instituto de Geoci&#xEA;ncias e Ci&#xEA;ncias Exatas</comment>
<publisher-name>Universidade Estadual Paulista J&#xFA;lio de Mesquita Filho</publisher-name>
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