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<journal-title>Bolema: Boletim de Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Bolema</abbrev-journal-title></journal-title-group>
<issn pub-type="ppub">0103-636X</issn>
<issn pub-type="epub">1980-4415</issn>
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<publisher-name>UNESP - Universidade Estadual Paulista, Pr&#xF3;-Reitoria de Pesquisa Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;&#xE3;o em Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica</publisher-name></publisher>
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<subject>Artigo</subject></subj-group></article-categories>
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<article-title>Cibern&#xE9;tica e Fic&#xE7;&#xE3;o Cient&#xED;fica: uma proposta pedag&#xF3;gica</article-title>
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<trans-title>Cybernetics and Science Fiction: a pedagogical proposal</trans-title></trans-title-group>
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<name><surname>Chaves</surname><given-names>Viviane Hengler Corr&#xEA;a</given-names></name> <xref ref-type="aff" rid="aff1">*</xref> <xref ref-type="corresp" rid="c1"/></contrib>
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<institution content-type="normalized">Universidade Estadual Paulista</institution>
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<named-content content-type="city">Rio Claro</named-content>
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<institution content-type="original">Doutorado em Educa&#xE7;&#xE3;o Matem&#xE1;tica pela UNESP. Professora Substituta na UNESP, Rio Claro, SP, Brasil</institution></aff></contrib-group>
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<corresp id="c1">Endere&#xE7;o para correspond&#xEA;ncia: Rua Miguel Petroni, 4900, casa 184 Condom&#xED;nio Eldorado, Loteamento Habitacional S&#xE3;o Carlos 1, S&#xE3;o Carlos, SP, Brasil, CEP: 13563-470. E-mail: <email>viviane.hcc@bol.com.br</email>.</corresp></author-notes>
<pub-date pub-type="epub-ppub">
<month>04</month>
<year>2018</year></pub-date>
<volume>32</volume>
<issue>60</issue>
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<year>2017</year></date>
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<license-p>This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution Non-Commercial License, which permits unrestricted non-commercial use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.</license-p></license></permissions>
<abstract>
<title>Resumo</title>
<p>A Cibern&#xE9;tica, no mundo atual, desperta algumas formula&#xE7;&#xF5;es de ordem conceitual sobre o homem e sobre a sua realidade tecnol&#xF3;gica artificial que o transporta para um mundo de condi&#xE7;&#xF5;es sobre-humanas, um mundo ficcional. Neste mundo, a Matem&#xE1;tica exerce papel relevante, sua l&#xF3;gica e sua precis&#xE3;o s&#xE3;o recursos utilizados para tornar os fatos mais convincentes. Grande parte das obras ficcionais pode ser utilizada como material did&#xE1;tico para o ensino de variadas ci&#xEA;ncias, despertando no estudante a curiosidade por tem&#xE1;ticas que nem sempre est&#xE3;o dispon&#xED;veis em conte&#xFA;dos curriculares, como &#xE9; o caso da intelig&#xEA;ncia artificial e da pr&#xF3;pria Cibern&#xE9;tica. Muitas pesquisas acad&#xEA;micas bem sucedidas foram influenciadas por obras de fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica. Nessa dire&#xE7;&#xE3;o, comp&#xF5;e este artigo, um conto de fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica, intitulado &#x201C;Bioboy, o Ciborgue que calculava&#x201D;, fazendo alus&#xE3;o ao livro de Malba Tahan, &#x201C;O homem que calculava&#x201D;. O objetivo do conto &#xE9; ilustrar os impactos da Cibern&#xE9;tica e das ci&#xEA;ncias decorrentes desta na sociedade.</p></abstract>
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<title>Abstract</title>
<p>Cybernetics, in the world nowadays, awakens some conceptual formulations about men and the artificial technological reality that transports them to a world of superhuman conditions, a fictional world. In this world, Mathematics plays a relevant role, its logic and its precision are resources used to make the facts more convincing. Most of the fictional works can be used as teaching material of various sciences, arousing in the student&#x27;s mind a curiosity for topics that are not always available in curricular contents, such as artificial intelligence and Cybernetics. Many successful researches were influenced by works of science fiction. According to this point of view, this paper also brings a science-fiction tale entitled &#x201C;Bioboy, the Cyborg who calculated,&#x201D; alluding to Malba Tahan&#x27;s book, &#x201C;The Man Who Calculated.&#x201D; The purpose of the story is to illustrate the impacts of cybernetics and the sciences arising from it, in society.</p></trans-abstract>
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<title>Palavras-chave:</title>
<kwd>Cibern&#xE9;tica</kwd>
<kwd>Fic&#xE7;&#xE3;o Cient&#xED;fica</kwd>
<kwd>Matem&#xE1;tica</kwd></kwd-group>
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<title>Keywords:</title>
<kwd>Cybernetics</kwd>
<kwd>Science Fiction</kwd>
<kwd>Mathematics</kwd></kwd-group>
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<sec>
<title>1 Fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica</title>
<p>&#xC9; comum as pessoas associarem os termos cibern&#xE9;tica e ciborgue &#xE0; fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica, atribuindo &#xE0; primeira ares de fic&#xE7;&#xE3;o. Para o censo comum, a cibern&#xE9;tica e a fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica apresentam uma rela&#xE7;&#xE3;o &#xED;ntima de entendimento, ou seja, a cibern&#xE9;tica &#xE9; um ponto de refer&#xEA;ncia para a fic&#xE7;&#xE3;o. Entretanto, apesar das conceitua&#xE7;&#xF5;es apresentarem diferen&#xE7;as, os termos s&#xE3;o comumente confundidos devido a sua forte inter-rela&#xE7;&#xE3;o.</p>
<p>N&#xE3;o existe uma defini&#xE7;&#xE3;o un&#xE2;nime para fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica. A maioria dos dicion&#xE1;rios reconhece a fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica como uma cria&#xE7;&#xE3;o de car&#xE1;ter art&#xED;stico, baseada na imagina&#xE7;&#xE3;o, dos progressos cient&#xED;ficos e tecnol&#xF3;gicos. Alguns, grandes nomes da literatura desse g&#xEA;nero, a definem como:</p> <disp-quote>
<p>Asimov (1984), por exemplo, a insere em um g&#xEA;nero mais geral &#x2014; a fic&#xE7;&#xE3;o surrealista &#x2014; que retrataria &#x201C;fatos que se verificam em ambientes sociais n&#xE3;o existentes na atualidade e que jamais existiram em &#xE9;pocas anteriores&#x201D;. Na FC, em particular, tais fatos &#x201C;podem ser concebivelmente derivados do nosso pr&#xF3;prio meio social, mediante adequadas mudan&#xE7;as ao n&#xED;vel da ci&#xEA;ncia e da tecnologia&#x201D; (p. 16). Para Allen (1976), a FC distingue-se &#x201C;de outros tipos de fic&#xE7;&#xE3;o pela presen&#xE7;a de uma extrapola&#xE7;&#xE3;o dos efeitos humanos de uma ci&#xEA;ncia extrapolada&#x201D; (p. 235). Entendemos a ci&#xEA;ncia extrapolada de Allen como uma categoria que engloba qualquer forma de utiliza&#xE7;&#xE3;o de ideias cient&#xED;ficas para a produ&#xE7;&#xE3;o do conte&#xFA;do veiculado no texto, ou seja, ela n&#xE3;o &#xE9; o conte&#xFA;do em si, mas uma diretriz para sua constru&#xE7;&#xE3;o. Umberto Eco (1989) se aproxima de Asimov ao propor que, na FC, &#x201C;a especula&#xE7;&#xE3;o contrafactual de um mundo estruturalmente poss&#xED;vel &#xE9; conduzida extrapolando, de algumas linhas de tend&#xEA;ncia do mundo real, a possibilidade mesma do mundo futur&#xED;vel&#x201D;, e tamb&#xE9;m de Allen ao enfatizar o aspecto de antecipa&#xE7;&#xE3;o da FC que, segundo ele, &#x201C;assume a forma de <italic>uma conjetura</italic> formulada a partir de linhas de tend&#xEA;ncia reais do mundo real&#x201D; (p. 169, grifos do autor). A antecipa&#xE7;&#xE3;o, fundada na racionalidade cient&#xED;fica, serve assim a uma especula&#xE7;&#xE3;o a respeito do mundo real. Para o autor, [&#x2026;] a boa fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica &#xE9; cientificamente interessante n&#xE3;o porque fala de prod&#xED;gios tecnol&#xF3;gicos [&#x2026;], mas porque se apresenta como um jogo narrativo sobre a pr&#xF3;pria ess&#xEA;ncia de toda a ci&#xEA;ncia, isto &#xE9;, sobre a sua conjeturabilidade (p. 170) (<xref ref-type="bibr" rid="B5">PIASSI; PIETROCOLA, 2009</xref>, p. 527-528).</p></disp-quote>
<p>O desenvolvimento cient&#xED;fico e tecnol&#xF3;gico cria um universo de possibilidades, cada vez maior, sobre o qual &#xE9; poss&#xED;vel extrair mat&#xE9;ria de fic&#xE7;&#xE3;o e esta, por sua vez, explora o impacto que essas tecnologias podem exercer sobre as sociedades e os indiv&#xED;duos.</p>
<p>Asimov (1920-1992), um dos principais autores desse g&#xEA;nero, n&#xE3;o tem medo de ter uma ideia e persegui-la at&#xE9; torn&#xE1;-la interessante e declara que a fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica &#xE9; &#x201C;a &#xFA;nica literatura de ideias relevantes&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">BRANTLINGER, 1980</xref>, p. 38, tradu&#xE7;&#xE3;o nossa)<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>. Cabe, aqui, ressaltar, sua habilidade em explicar, com um pouco de aritm&#xE9;tica ou &#xE1;lgebra, suas ideias ficcionais.</p>
<p>A depend&#xEA;ncia excessiva dos humanos pelas m&#xE1;quinas tornou-as um marco da fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica na m&#xED;dia impressa, novelas e no cinema. Na d&#xE9;cada de 1930, a cultura popular apropriou-se do termo rob&#xF4; para identificar as m&#xE1;quinas pensantes que substituem os humanos em todas as suas atividades. O computador, fict&#xED;cio na &#xE9;poca, tornou-se c&#xE9;rebro desses seres, comumente tidos como homens mec&#xE2;nicos feitos de metal. Os computadores e os rob&#xF4;s s&#xE3;o figurantes antigos do nosso imagin&#xE1;rio e de Isaac Asimov, que escreveu in&#xFA;meros contos sobre eles, destaque para &#x201C;I, Robot&#x201D; publicado em 1950, nos quais apresentou as lend&#xE1;rias leis<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref> da rob&#xF3;tica.</p>
<p>A fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica come&#xE7;a a ganhar espa&#xE7;o e a tornar-se uma categoria significativa no final do s&#xE9;culo XIX, com as obras de J&#xFA;lio Verne (1828-1905) e Herbert George Wells (1866-1946). &#x201C;Enquanto Verne produzia hist&#xF3;rias para maravilhar os leitores com as possibilidades de um futuro excitante, Wells empregava a fantasia cient&#xED;fica para a cr&#xED;tica social&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B5">PIASSI; PIETROCOLA, 2009</xref>, p. 527).</p>
<p>J&#xFA;lio Verne escreveu hist&#xF3;rias de viagens fant&#xE1;sticas, tais como &#x201C;Viagem ao Centro da Terra&#x201D;, publicada em 1863. A alta tecnologia esteve presente em suas obras, representada pelo submarino Nautilus em &#x201C;20.000 L&#xE9;guas submarinas&#x201D;, ou a c&#xE1;psula tripulada, descrita em sua obra &#x201C;Da Terra &#xE0; Lua&#x201D;, escrita em 1865. A c&#xE1;psula, arremessada por um canh&#xE3;o com destino &#xE0; Lua, antecipava os foguetes e as viagens espaciais. Talvez, essa seja a obra mais vision&#xE1;ria de J&#xFA;lio Verne, escrita cem anos antes de o homem chegar &#xE0; Lua.</p>
<p>Wells tamb&#xE9;m escreveu hist&#xF3;rias sobre a explora&#xE7;&#xE3;o lunar, &#x201C;Os Primeiros Homens na Lua&#x201C;, de 1901. Nesse romance, um cientista inventa um metal que resiste &#xE0; gravidade e, com ele, &#xE9; possivel construir uma esfera no interior da qual as pessoas podem flutuar sobre a Terra e viajar rumo &#xE0; Lua. Suas obras, A M&#xE1;quina do Tempo (1895), A Ilha do Doutor Moreau (1896), O Homem Invis&#xED;vel (1897), A Guerra dos Mundos (1898), exerceram grande influ&#xEA;ncia nas obras subsequentes desse g&#xEA;nero.</p>
<p>Na d&#xE9;cada de 30, surgem filmes memor&#xE1;veis e, muitos deles, baseados nas obras j&#xE1; citadas. Ap&#xF3;s esse per&#xED;odo aparece um novo astro nas hist&#xF3;rias de fic&#xE7;&#xE3;o, o computador. Wells, previu, dentre outras coisas, os bombardeios a&#xE9;reos, os tanques de guerra, por&#xE9;m, n&#xE3;o o computador, mas:</p> <disp-quote>
<p>Dos anos 40 para c&#xE1;, a maioria dos escritores conseguiu prever corretamente o impacto cada vez maior dos computadores sobre a nossa vida. No cl&#xE1;ssico <italic>&#x201C;The Moon is a Harsh Mistress&#x201D;</italic> (A Lua &#xE9; uma Amante R&#xED;spida), do &#xF3;timo Robert Heinlein, escrito na d&#xE9;cada dos 60, os colonizadores lunares, em rebeli&#xE3;o contra o governo da Terra, s&#xE3;o aconselhados por um computador super-inteligente e falante, exatamente como em <italic>&#x201C;2001: Uma Odiss&#xE9;ia no Espa&#xE7;o&#x201D;</italic>, de Arthur C Clarke (<xref ref-type="bibr" rid="B6">SABBATINI, 1996</xref>, n&#xE3;o paginado).</p></disp-quote>
<p>Os computadores nas hist&#xF3;rias de fic&#xE7;&#xE3;o assumem tal complexidade e sofistica&#xE7;&#xE3;o que se tornam iguais aos humanos, inclusive no que tange &#xE0;s emo&#xE7;&#xF5;es e sentimentos. O matem&#xE1;tico Alan Turing elaborou um teste, que introduziu em seu artigo de 1950, &#x201C;<italic>Computing Machinery and Intelligence&#x201D;</italic>, que se inicia com a pergunta: &#xE9; possivel ter computadores inteligentes? Para responder essa pergunta, imaginou duas salas fechadas. Uma delas continha um computador e a outra uma pessoa. N&#xE3;o se pode entrar nas salas, mas &#xE9; poss&#xED;vel comunicar-se com quem est&#xE1; l&#xE1; dentro, digitando perguntas e recebendo as respostas via terminal. Quantas perguntas seriam necess&#xE1;rias fazer para que algu&#xE9;m fosse capaz de dizer em qual sala estava a m&#xE1;quina e em qual sala estava o humano? Se, no final do teste, o interrogador n&#xE3;o conseguir distinguir quem &#xE9; o humano, ent&#xE3;o conclui-se que o computador pode pensar. Turing concluiu seu texto afirmando que &#x201C;podemos esperar que as m&#xE1;quinas acabar&#xE3;o por competir com os homens em todos os campos puramente intelectuais&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B8">TURING, 1950</xref>, n&#xE3;o paginado, tradu&#xE7;&#xE3;o nossa)<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref>.</p>
<p>O desenvolvimento da tecnologia computacional levou v&#xE1;rios mitos de fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica a uma variedade de rela&#xE7;&#xF5;es inimagin&#xE1;veis entre o humano e a m&#xE1;quina. Na atualidade, a fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica abrange um vasto espectro de obras, das quais &#xE9; poss&#xED;vel citar algumas, mais antigas,</p> <disp-quote>
<p>(&#x2026;) Frankenstein (Mary W. Shelley, 1818), Alice no Pa&#xED;s das Maravilhas (Lewis Carrol, 1865), Flatland. Uma Aventura em Muitas Dimens&#xF5;es (Edwin Abbot, 1884), Dr&#xE1;cula (Bram Stoker, 1897), A Ilha (Aldous Huxley, 1962), A Descroniza&#xE7;&#xE3;o de Sam Magruder (George Graylord Simpson, 1997), al&#xE9;m de v&#xE1;rias hist&#xF3;rias de Julio Verne (1828-1905) e best-sellers atuais sobre fic&#xE7;&#xE3;o hist&#xF3;rica (<xref ref-type="bibr" rid="B2">D&#x27;AMBROSIO, 2011</xref>, p. 45).</p></disp-quote>
<p>e do presente, como Avatar, uma das &#xFA;ltimas produ&#xE7;&#xF5;es cinematogr&#xE1;ficas de James Cameron, 2009. Avatar &#xE9; uma hist&#xF3;ria de fic&#xE7;&#xE3;o que se passa no ano de 2154 e uma das mensagens do filme enfatiza que, caso o ser humano n&#xE3;o restabele&#xE7;a sua liga&#xE7;&#xE3;o com a natureza, passando a respeit&#xE1;-la, o futuro ser&#xE1; ca&#xF3;tico.</p>
<p>As obras de fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica provocam questionamentos sobre v&#xE1;rios aspectos da exist&#xEA;ncia humana, tais como filosofia moral, politica e social, envolvendo quest&#xF5;es como, por exemplo: qual o papel da sociedade; do ser humano; a evolu&#xE7;&#xE3;o; qual a natureza do bem e do mal e de outras relevantes. Realidade virtual, computadores e outros temas afins est&#xE3;o presentes na literatura de fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica contempor&#xE2;nea.</p>
<p>Nas &#xFA;ltimas d&#xE9;cadas, as obras de fic&#xE7;&#xE3;o t&#xEA;m sido apontadas como um recurso did&#xE1;tico poss&#xED;vel para o ensino de v&#xE1;rias disciplinas, tais como Matem&#xE1;tica, F&#xED;sica, Ci&#xEA;ncias, entre outras. Uma alternativa para o ensino e aprendizagem de Matem&#xE1;tica seria a hist&#xF3;ria como fonte de pesquisa, ou, envolver o aluno com o tema em quest&#xE3;o, a tal ponto que ele se sentisse estimulado a escrever suas pr&#xF3;prias hist&#xF3;rias. V&#xE1;rios conceitos matem&#xE1;ticos s&#xE3;o bastante explorados em hist&#xF3;rias de fic&#xE7;&#xE3;o, tais como dimens&#xE3;o espacial, geometria, topologia e outros.</p>
<p>Em sua pesquisa, <xref ref-type="bibr" rid="B7">Silva (2014)</xref> enumera as principais contribui&#xE7;&#xF5;es da fic&#xE7;&#xE3;o para o ensino de Matem&#xE1;tica. Aponta seu aspecto motivador, pois torna o conte&#xFA;do mais relevante e interessante, al&#xE9;m de favorecer o desenvolvimento do conhecimento interdisciplinar ao relacionar diversas &#xE1;reas da ci&#xEA;ncia. Em decorr&#xEA;ncia dessas caracter&#xED;sticas, outro ponto &#xE9; utiliz&#xE1;-la como um instrumento para contextualizar a cria&#xE7;&#xE3;o de problemas matem&#xE1;ticos.</p>
<p>A fic&#xE7;&#xE3;o &#xE9; uma forma de narrativa que veicula ideias ficcionais de temas cient&#xED;ficos, podendo provocar debates sobre os mesmos, potencializando, assim, a constru&#xE7;&#xE3;o do conhecimento. &#x201C;O conhecimento cient&#xED;fico &#xE9; &#x2018;amaciado&#x2019; na narrativa ficcional&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B2">D&#x27;AMBROSIO, 2011</xref>, p. 45, grifo do autor), pois a fic&#xE7;&#xE3;o cientifica n&#xE3;o est&#xE1; sujeita aos compromissos da ci&#xEA;ncia, &#xE0;s provas de valida&#xE7;&#xE3;o e verifica&#xE7;&#xE3;o.</p>
<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B2">D&#x27;Ambrosio (2011</xref>, p.45)</p> <disp-quote>
<p>Uma forma especial de narrativa a ser considerada &#xE9; a fic&#xE7;&#xE3;o. Podemos olhar a fic&#xE7;&#xE3;o como narrativas difundidas para as pessoas comuns atrav&#xE9;s da m&#xED;dia (oral, escrita e agora digital) e ancorada na mitologia, nos contos folcl&#xF3;ricos e at&#xE9; mesmo em conhecimento cient&#xED;fico ou, at&#xE9; mesmo, pseudocient&#xED;fico. Al&#xE9;m disso, a fic&#xE7;&#xE3;o se fundamenta em grande parte nos avan&#xE7;os e pensamentos cient&#xED;ficos, base da pseudoci&#xEA;ncia.</p></disp-quote>
<p>A fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica &#xE9; um g&#xEA;nero din&#xE2;mico e em constante processo de muta&#xE7;&#xE3;o, despertando em n&#xF3;s curiosidade e, em decorr&#xEA;ncia dessas caracter&#xED;sticas, oferece muitas possibilidades em sala de aula. Esse sucesso, em grande parte, se deve &#xE0; multiplicidade de sentidos que a imagina&#xE7;&#xE3;o desperta, sobrepondo esta ao conhecimento. Para <xref ref-type="bibr" rid="B4">Einstein (1950)</xref>, a imagina&#xE7;&#xE3;o &#xE9; mais importante que o conhecimento, pois o conhecimento &#xE9; limitado e a imagina&#xE7;&#xE3;o envolve o mundo.</p>
<p>O ser humano &#xE9; dotado de uma imagina&#xE7;&#xE3;o &#xED;mpar e age independentemente da nossa vontade. &#xC9; poss&#xED;vel que essa capacidade tenha evolu&#xED;do e se tornado mais complexa com a evolu&#xE7;&#xE3;o da esp&#xE9;cie humana. Muito do material imaginado &#xE9; ficcional, levando o adulto, por exemplo, a imaginar novos mundos e a crian&#xE7;a, super-her&#xF3;is. Essas fantasias criadas por n&#xF3;s, ou interpretadas por meio de leituras desse g&#xEA;nero, s&#xE3;o provocantes e constroem mundos fant&#xE1;sticos. Nesse sentido, a irrealidade, que &#xE9; caracter&#xED;stica da fic&#xE7;&#xE3;o, comp&#xF5;e a realidade sociocultural e, muitas vezes, transita do real para o irreal e vice e versa.</p>
<p>Sobre esse assunto questiona Umberto Eco, &#x201C;mas, se a atividade narrativa est&#xE1; t&#xE3;o intimamente ligada a nossa vida cotidiana, ser&#xE1; que n&#xE3;o interpretamos a vida como fic&#xE7;&#xE3;o e, ao interpretar a realidade, n&#xE3;o lhe acrescentamos elementos ficcionais?&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B3">ECO, 1994</xref>, p.137). A fic&#xE7;&#xE3;o cientifica e a ci&#xEA;ncia, muitas vezes, parecem se imbricar sem sabermos se uma ideia ficcional leva &#xE0; produ&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica ou vice-versa. &#xC9; poss&#xED;vel traduzir o emp&#xED;rico e o imagin&#xE1;rio em contos de fic&#xE7;&#xE3;o e essa &#xE9; a proposta em &#x201C;Bioboy: o ciborgue que calculava&#x201D;, fazendo alus&#xE3;o ao livro de Malba Tahan, &#x201C;O homem que calculava&#x201D;.</p>
<p>O objetivo do conto &#xE9; de ilustrar os impactos da Cibern&#xE9;tica e das ci&#xEA;ncias decorrentes desta na sociedade. Como Beremiz, personagem de Malba Tahan, Bioboy, personagem do conto, era o apelido do garoto que calculava. O prefixo &#x201C;bio&#x201D; caracteriza a natureza de seus c&#xE1;lculos matem&#xE1;ticos, que s&#xE3;o efetuados por meio da mobiliza&#xE7;&#xE3;o de seus recursos biol&#xF3;gicos, e n&#xE3;o dos seus recursos cibern&#xE9;ticos. Algumas ideias cibern&#xE9;ticas desempenham pap&#xE9;is-chave no mundo de Bioboy, assombrado pelos problemas que provocamos em nosso habitat, na atualidade, e que ir&#xE3;o refletir no s&#xE9;culo L, per&#xED;odo em que se passa a hist&#xF3;ria ficcional, no mundo de Bioboy.</p>
<p>Espera-se que esse conto possa ser usado por educadores como material de atividades pedag&#xF3;gica, objetivando a reflex&#xE3;o sobre os diversos conte&#xFA;dos matem&#xE1;ticos e suas interfaces com outras &#xE1;reas do conhecimento, como a Cibern&#xE9;tica, a F&#xED;sica, a Filosofia, a Geologia, entre outros abordados no texto. Potencializa-se desse modo, a fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica como um est&#xED;mulo ao ensino da Matem&#xE1;tica dentro de um contexto dial&#xF3;gico.</p>
</sec>
<sec>
<title>2 Conto de fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica</title>
<sec>
<title>Bioboy: o ciborgue que calculava</title>
<sec>
<title>Cap&#xED;tulo I - O estrangeiro</title>
<p>Bioboy permanecia sentado e olhando tudo ao seu redor, atentamente. N&#xE3;o restava a menor d&#xFA;vida, estava comparando tudo o que via com os registros de sua mem&#xF3;ria. Nesse transe, calculava a probabilidade de aquelas imagens serem apenas proje&#xE7;&#xF5;es de um mundo virtual. H&#xE1; muito tempo isso deixou de ser um problema para os terr&#xE1;queos, n&#xE3;o para ele.</p>
<p>Ele era tido, por todos que o conheciam, como uma pessoa confusa e atrapalhada. Seu pai n&#xE3;o tinha d&#xFA;vidas, sua parte cibern&#xE9;tica n&#xE3;o funcionava bem.</p>
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<label>&#x2013;</label>
<p>Vejam s&#xF3; - contava seu pai- calculamos, diariamente, tim-tim por tim-tim, tudo o que o nosso metabolismo necessita em fun&#xE7;&#xE3;o das atividades que realizamos. &#xC0; medida que falava, sua perplexidade aumentava e o seu tom de voz tamb&#xE9;m. Continuou:</p></list-item>
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<label>&#x2013;</label>
<p>Esse c&#xE1;lculo &#xE9; muito simples, basta apertar um bot&#xE3;o e pronto, tudo &#xE9; calculado e registrado em nossa mem&#xF3;ria. Mas meu filho perde um temp&#xE3;o fazendo e refazendo esses c&#xE1;lculos.</p></list-item></list>
<p>Bioboy era um terr&#xE1;queo diferente. Ele n&#xE3;o se rendia &#xE0;s imposi&#xE7;&#xF5;es do seu pai, pois o que mais gostava mesmo era formular conjecturas, procurar por padr&#xF5;es e valer-se de racioc&#xED;nio l&#xF3;gico e abstrato. Assim, sua grande paix&#xE3;o era a Matem&#xE1;tica.</p>
<p>Acho mesmo que o seu pai n&#xE3;o entendia muito bem tudo isso. E, naquele momento em que Bioboy assistia &#xE0;s suas pr&#xF3;prias a&#xE7;&#xF5;es, tentando analisar a possibilidade de ser esbo&#xE7;o de sua pr&#xF3;pria imagina&#xE7;&#xE3;o, eis que algu&#xE9;m novo surgiu em cena.</p>
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<label>&#x2013;</label>
<p>Ol&#xE1; - disse o estrangeiro. - Venho do outro lado, n&#xE3;o sei quem sou nem para aonde vou, mas sei que a matriz que me gerou fez de mim um ser, um ser pensante. Bioboy o ouvia como se estivesse no mundo dos sonhos e jamais esqueceria essa conversa. O estrangeiro, entretanto, continuou a discorrer sobre a semelhan&#xE7;a entre ele e Bioboy.</p></list-item>
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<p>Temos muitas coisas em comum &#x2013; ponderou, ele. - Gostamos de pensar, mobilizando somente nossos recursos biol&#xF3;gicos. E sabe por que poucas pessoas pensam como n&#xF3;s? &#x2013; perguntou ele.</p></list-item>
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<label>&#x2013;</label>
<p>N&#xE3;o - confessou Bioboy. E ele, empolgado, continuou:</p></list-item>
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<p>Para que isso seja poss&#xED;vel precisamos manter nossos registros sensoriais, t&#xE1;teis e visuais associados, coisa incomum para os seres da nossa era.</p></list-item></list>
<p>Bioboy, ainda surpreso com a chegada inesperada daquela criatura, balbuciou:</p>
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<label>&#x2013;</label>
<p>Desculpe, mas posso ajud&#xE1;-lo em &#x2026;.? - Ele mal tinha formulado a pergunta e o estrangeiro retomou a palavra, sem lhe responder.</p></list-item>
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<label>&#x2013;</label>
<p>Como ia dizendo, h&#xE1; muito tempo o homem se inspirava na natureza para desenvolver novos sistemas e agora&#x2026; Nesse momento, Bioboy o interrompeu com veem&#xEA;ncia, pois percebeu que s&#xF3; assim teria chance de falar alguma coisa.</p></list-item>
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<label>&#x2013;</label>
<p>E a-go-ra? - Falou Bioboy indignado, acentuando a pron&#xFA;ncia de cada s&#xED;laba &#x2013; O homem de que acabou de falar, ao mesmo tempo em que se inspirava na natureza, a destru&#xED;a sem piedade! - J&#xE1; mal humorado, prosseguiu com seu discurso.</p></list-item>
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<p>Perdura at&#xE9; hoje o esgotamento dos recursos naturais que eles provocaram e o rastro de destrui&#xE7;&#xE3;o que semearam no planeta.</p></list-item></list>
<p>Resolveu explicitar melhor o seu ponto de vista, pois o estrangeiro come&#xE7;ou a resmungar, parecendo n&#xE3;o concordar com o que ele estava dizendo.</p>
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<label>&#x2013;</label>
<p>J&#xE1; s&#xE3;o cerca de 30.000 anos e o di&#xF3;xido de carbono deixado por essa civiliza&#xE7;&#xE3;o ainda n&#xE3;o se dissipou. Assim, hoje, todos os nossos consumos e movimenta&#xE7;&#xF5;es s&#xE3;o assistidos pelo <italic>survive&#x27;s program</italic>.</p></list-item></list>
<p>Por alguns momentos pairou no ar um sil&#xEA;ncio, um pouco inc&#xF4;modo entre eles e, nesse &#xED;nterim, Bioboy resolveu acrescentar mais uma raz&#xE3;o pela qual a Terra quase pereceu.</p>
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<label>&#x2013;</label>
<p>Ah! - exclamou ele, iniciando nova argumenta&#xE7;&#xE3;o - Naquela &#xE9;poca, os humanos n&#xE3;o tinham controle sobre o aumento da popula&#xE7;&#xE3;o, assim os problemas ambientais se agravavam cada vez mais.</p></list-item></list>
<p>Como Bioboy adorava fazer c&#xE1;lculos, aproveitou o embalo e quantificou sua ideia.</p>
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<label>&#x2013;</label>
<p>Suponha que a popula&#xE7;&#xE3;o humana aumente 1% a cada ano. No ano seguinte, a quantidade &#xE9; 1.01 &#xE0; popula&#xE7;&#xE3;o original, 1.0201 no segundo ano, 1.030301 no terceiro ano, e assim sucessivamente. Logo, em 70 anos ela duplicou.</p></list-item>
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<label>&#x2013;</label>
<p>Curioso! - retrucou o estrangeiro - Esse c&#xE1;lculo, o quociente entre o logaritmo de dois e o logaritmo de 1.01, que resultou o valor 70, me remete a um fluxo intenso de circuitos, por exemplo, o das finan&#xE7;as.</p></list-item>
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<label>&#x2013;</label>
<p>Em desuso, nos tempos atuais - replicou Bioboy - apesar de que a fun&#xE7;&#xE3;o logar&#xED;tmica seja capaz de responder uma gama enorme de quest&#xF5;es, tais como: epidemias, consumo de energia, explos&#xF5;es nucleares e demogr&#xE1;ficas.</p></list-item></list>
<p>A discuss&#xE3;o continuou. Entre ambos havia muitas ideias em comum e uma delas a de que, hoje, o nosso maior tesouro &#xE9; o equil&#xED;brio, a harmonia, que o homem conseguiu estabelecer entre ele e a natureza, ou seja, depois de tantas intemp&#xE9;ries, conseguimos manter o planeta habitado.</p>
<p>Findada a discuss&#xE3;o, o estrangeiro pegou carinhosamente um punhado de terra e olhou-a com admira&#xE7;&#xE3;o.</p>
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<label>&#x2013;</label>
<p>N&#xE3;o precisamos de muito para entender nossa evolu&#xE7;&#xE3;o - disse ele. -Tenho c&#xE1;, comigo, um peda&#xE7;o do universo e, atrav&#xE9;s desse punhadinho de terra, posso ver que o campo magn&#xE9;tico da Terra inverteu-se centenas de vezes ao longo dos &#xFA;ltimos bilh&#xF5;es de anos.</p></list-item>
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<label>&#x2013;</label>
<p>E tem mais, ainda sugere o que est&#xE1; por vir! &#x2013; Agora, era ele que estava empolgado, e continuou. - Por exemplo, as mudan&#xE7;as que est&#xE3;o ocorrendo no metal l&#xED;quido da Terra, h&#xE1; 3000 quil&#xF4;metros abaixo da superf&#xED;cie, sugerem a possibilidade de uma nova revers&#xE3;o do campo geomagn&#xE9;tico do planeta.</p></list-item></list>
<p>Os dois ficaram calados por algum tempo. Era poss&#xED;vel ouvir ao longe o desligamento da usina de energia solar, que, a cada tr&#xEA;s segundos, emitia um som cada vez mais grave, o qual parecia compor uma partitura musical. Bioboy tirou do bolso um pequeno aparelho, que a princ&#xED;pio n&#xE3;o o reconheci, acionou-o e comentou com o estrangeiro:</p>
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<label>&#x2013;</label>
<p>Faltam 3 minutos e 53 segundos para o p&#xF4;r do sol e 3 minutos e 58 segundos para o &#xFA;ltimo som da usina chegar at&#xE9; n&#xF3;s, considerada a dist&#xE2;ncia que estamos dela, 1650 metros, e a velocidade das ondas sonoras no ar, que &#xE9; de 330 metros por segundo.</p></list-item></list>
<p>O estrangeiro olhou mais atentamente o aparelho e exclamou:</p>
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<label>&#x2013;</label>
<p>Nossa, que aparelho antigo!</p></list-item>
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<label>&#x2013;</label>
<p>&#xC9; um cron&#xF4;metro - disse Bioboy orgulhoso - Ganhei do meu av&#xF4;, que, por sua vez, ganhou do av&#xF4; dele. O estrangeiro ficou observando o aparelho e pareceu recuar no tempo. O estrangeiro ainda estava com a m&#xE3;o cheia de terra e, alguns minutos depois, jogou-a para o alto e, como havia uma brisa moderada, as part&#xED;culas de poeira se elevaram na atmosfera.</p></list-item></list>
<p>Os dois sorriram ao observarem o desenho tra&#xE7;ado pelo vento com as part&#xED;culas de poeira e seus pensamentos, ao sabor do mesmo vento, tamb&#xE9;m tomaram outro rumo. A presen&#xE7;a das part&#xED;culas de poeira podia ser vista e sentida, mas, a cada segundo, bilh&#xF5;es de neutrinos atravessam nosso corpo &#xE0; velocidade da luz, sem serem percebidos.</p>
<p>Assim como a realidade, nosso corpo tamb&#xE9;m tem um forte componente aleat&#xF3;rio que interfere em nossos pensamentos. Foi nesse rumo que, ao sabor do vento, a discuss&#xE3;o i&#xE7;ou as velas.</p>
<p>Ora o estrangeiro concordava, meneando a cabe&#xE7;a, ora era Bioboy que o fazia.</p>
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<label>&#x2013;</label>
<p>O pensamento &#xE9; um tipo de energia, a qual estabelece uma forte intera&#xE7;&#xE3;o com as part&#xED;culas de neutrinos, que se movem ao acaso - falava Bioboy. Ao que respondia, prontamente, o estrangeiro.</p></list-item>
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<label>&#x2013;</label>
<p>Nosso c&#xE9;rebro funciona como um servidor de dados, recepcionando e decodificando esses pacotes de dados, inclusive os neutrinos que podem ser capturados pela corrente neural. Isso explica porque posso criar uma imagem, dar voz e pensamento a ela e imagin&#xE1;-la real.</p></list-item></list>
<p>E, alternadamente, um concordava com o outro. Assim, foi se criando uma empatia entre ambos. Bioboy abaixou-se para pegar mais um punhado de terra e, quando virou, percebeu que o estrangeiro n&#xE3;o estava mais ali. Olhou ao redor&#x2026; Nada.</p>
<p>Ele sabia que a visualiza&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o era o suficiente para conduzir o seu pensamento e, num sussurro, falou:</p>
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<label>&#x2013;</label>
<p>Voc&#xEA; pisca o olho e a luz d&#xE1; sete voltas e meia em torno da Terra. Foi nesse piscar de olho que o estrangeiro desapareceu.</p></list-item></list>
</sec>
<sec>
<title>Capitulo II &#x2013; O mundo de Bioboy</title>
<p>No s&#xE9;culo L, o equil&#xED;brio estava estabelecido entre o homem e a natureza. O pai de Bioboy sempre dizia: - &#xC9; preciso ordem e racionaliza&#xE7;&#xE3;o para vivermos em uma sociedade justa, humanista e ecologicamente respons&#xE1;vel.</p>
<p>A Matem&#xE1;tica era a chave para a realiza&#xE7;&#xE3;o de tudo isso. Tudo era milimetricamente calculado, desde as ra&#xE7;&#xF5;es di&#xE1;rias, &#xE1;gua, dejetos, lixo, etc. A racionaliza&#xE7;&#xE3;o de m&#xE9;todos e procedimentos fazia parte da vida de cada terr&#xE1;queo, tornando-se essencial para a sua sobreviv&#xEA;ncia.</p>
<p>Por exemplo, um simples nome era capaz de identificar unicamente um terr&#xE1;queo, suas potencialidades, o continente em que habitava e outras coisas mais. Assim, o pr&#xF3;prio nome era um c&#xF3;digo e o que ele n&#xE3;o conseguia revelar, o seu <italic>link</italic> para um <italic>chip</italic> de computador complementaria as informa&#xE7;&#xF5;es.</p>
<p>Com rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0; ordem social, esta era fundada na generosidade de todos para com todos, necessidades modestas, alta efici&#xEA;ncia e consumo racional. Era essa a sociedade do s&#xE9;culo L, da qual Bioboy fazia parte. A vida transcorria sem grandes surpresas.</p>
<p>Bioboy era ainda bastante jovem e tinha toda a vida pela frente. Como havia nascido no s&#xE9;culo XLIX, tinha ainda mais dois s&#xE9;culos para executar sua miss&#xE3;o. Todo mundo nascia, sempre, no primeiro dia de um s&#xE9;culo. Todo mundo deixava de existir no primeiro dia do terceiro s&#xE9;culo consecutivo ao seu nascimento. J&#xE1; nasciam com uma identidade gen&#xE9;tica pr&#xE9;definida, cujas aptid&#xF5;es seriam aperfei&#xE7;oadas, ao longo dos anos, para fins espec&#xED;ficos e, quase sempre, em prol dos humanos.</p>
<p>Bioboy era um desses terr&#xE1;queos e, pela sua idade, estava prestes a conhecer o motivo de ter vindo ao mundo. Quando era menor, vivia perguntando para seus bot&#xF5;es: &#x2013; Ser&#xE1; que essa minha obsess&#xE3;o por c&#xE1;lculo tem algo a ver com a minha miss&#xE3;o? Suas conjecturas sempre o levavam a crer que sim, mas, quando ficou um pouquinho mais velho passou a controlar melhor sua ansiedade por desvelar a miss&#xE3;o que tinha a cumprir.</p>
<p>Esse n&#xE3;o era seu nome, mas, sim, um apelido carinhoso que Vltxxkz ganhou de sua comunidade, quando ainda pequeno. - Bioboy, que apelido engra&#xE7;ado voc&#xEA; tem! - exclamava um amigo. Ou ent&#xE3;o - Por que voc&#xEA; tem esse apelido? - perguntava o outro. A explica&#xE7;&#xE3;o dele era sempre a mesma.</p>
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<label>&#x2013;</label>
<p>&#xC9; que a cada duas ideias que surgem na minha cabe&#xE7;a, uma delas envolve c&#xE1;lculos e para resolv&#xEA;-los eu uso meus recursos biol&#xF3;gicos, e n&#xE3;o os <italic>chips</italic> eletr&#xF4;nicos. Ent&#xE3;o foi essa mania que lhe rendera o apelido. O tempo passou, ele cresceu e, na mesma proporcionalidade, a complexidade dos c&#xE1;lculos que efetuava.</p></list-item></list>
<p>Ah! Por falar em inf&#xE2;ncia, um fato marcante nessa fase da vida de Bioboy foram as hist&#xF3;rias antigas, que lia ou ouvia. As suas preferidas eram as que iam al&#xE9;m dos limites da compreens&#xE3;o, que falavam de intui&#xE7;&#xE3;o e, muitas vezes, essa palavra referia-se ao sexto sentido. Ao ouvi-las ou l&#xEA;-las, sempre resmungava consigo mesmo: &#x2013; Estupendamente intrigante e paradoxalmente incompreens&#xED;vel! E finalizava com uma pergunta: - Ser&#xE1; que o sexto sentido da hist&#xF3;ria tem algo a ver com o nosso sexto sentido? - Muito sensata sua pergunta - falavam uns e outros. Assim, ouviu muitas respostas, mas nenhuma convincente o bastante para que ele deixasse de tornar a faz&#xEA;-la outras vezes.</p>
<p>Muitas dessas respostas falavam da muta&#xE7;&#xE3;o que o humano sofrera, h&#xE1; centenas de anos, relativa aos sentidos que formam o sistema somatossensorial. Os humanos adquiriram um novo sentido e, agora, possu&#xED;am esse chamado &#x201C;sexto sentido&#x201D; - imputado, programado e operado em sil&#xED;cio e integrado a rede neural.</p>
<p>Esse novo sentido veio suprir as defici&#xEA;ncias dos outros. Posso dar um exemplo: antes o olho humano n&#xE3;o era capaz de ver a radia&#xE7;&#xE3;o de todos os comprimentos de onda e outras coisas mais e, agora, o sistema nervoso do homem est&#xE1; em constante intera&#xE7;&#xE3;o com o mundo exterior, ou seja, quase tudo &#xE9; perfeitamente detect&#xE1;vel por esse novo sentido.</p>
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<label>&#x2013;</label>
<p>Isso tudo &#xE9; muito interessante - dizia Bioboy - mas eu quero mesmo entender se existe uma rela&#xE7;&#xE3;o entre eles, pois, &#xE0;s vezes, tenho a impress&#xE3;o de que estamos falando da mesma coisa e, outras vezes, de coisas antag&#xF4;nicas.</p></list-item></list>
<p>Como voc&#xEA;s j&#xE1; perceberam, Bioboy, decididamente, n&#xE3;o desistia t&#xE3;o facilmente de entender as coisas. Agora, estava prestes a tornar-se um &#x201C;Hognoscom&#x201D;, designa&#xE7;&#xE3;o dada a um humano que alcan&#xE7;a a sabedoria suprema. Suprema porque, al&#xE9;m de tornar-se adulto e tomar conhecimento de sua miss&#xE3;o, seus conhecimentos ser&#xE3;o aperfei&#xE7;oados e transformados em obra coletiva. Para isso, sua aten&#xE7;&#xE3;o &#xE0; vida &#xE9; redobrada.</p>
<p>Voltando ao caso do estrangeiro, Bioboy ainda n&#xE3;o tinha uma explica&#xE7;&#xE3;o, isso ficou para depois. Por ora, sua aten&#xE7;&#xE3;o estava voltada para a natureza que lhe apresentava um raro fen&#xF4;meno. A Lua postava-se diante do Sol e, com cuidado assaz, procurou, milimetricamente, ajustar o seu centro ao do Sol. Numa dan&#xE7;a conc&#xEA;ntrica, provocou um eclipse solar anular. O pano de fundo, o horizonte, cedeu aos seus caprichos, baixou &#xE0; sombra para destacar a beleza do momento, um anel de luz para as Deusas das Gal&#xE1;xias.</p>
</sec>
<sec>
<title>Cap&#xED;tulo III - A situa&#xE7;&#xE3;o problema</title>
<p>Findo o espet&#xE1;culo, Bioboy suspirou e sorriu. Seu semblante espelhava o que acabara de assistir, o show da natureza. Aos poucos, sua mente foi se ocupando, novamente, do caso do estrangeiro misterioso. Come&#xE7;ou com um simples encadeamento de ideias e, devagarinho, esse encadeamento tornou-se mais complexo. &#x2013; L&#xF3;gica &#xE9; a ci&#xEA;ncia de raciocinar, ou seja, palavra que usamos para determinadas maneiras de relacionar ideias, n&#xE3;o &#xE9;? Foi assim, que Bioboy, come&#xE7;ou a criar um sistema l&#xF3;gico para desvendar esse mist&#xE9;rio.</p>
<p>Primeiro, foi resgatar da mem&#xF3;ria os dados relacionados a esse assunto, reunindo cada detalhe por mais insignificante que fosse.</p>
<p>Depois de alguns c&#xE1;lculos,</p>
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<list-item>
<label>&#x2013;</label>
<p>Uma coisa &#xE9; certa - resmungou ele - a radia&#xE7;&#xE3;o eletromagn&#xE9;tica emitida pelo corpo do estrangeiro n&#xE3;o condiz com a calculada. Sabemos que o comprimento de onda e a frequ&#xEA;ncia desta s&#xE3;o inversamente proporcionais, ou seja, conforme diminui o comprimento de onda, a frequ&#xEA;ncia aumenta e tamb&#xE9;m a energia que a onda &#xE9; capaz de transportar.</p></list-item></list>
<p>Nada disso fazia sentido para os dados amostrados, pois o <italic>feedback</italic> eletromagn&#xE9;tico, entre ele e o estrangeiro, eram incompat&#xED;veis com o modelo adotado, levando-o ao colapso. Outras evid&#xEA;ncias tamb&#xE9;m foram incorporadas ao seu sistema l&#xF3;gico, como ele mesmo disse:</p>
<list list-type="simple">
<list-item>
<label>&#x2013;</label>
<p>O c&#xE1;lculo do &#xE2;ngulo de chegada de cada part&#xED;cula de energia foi o que me deu uma resposta definitiva para essa quest&#xE3;o. Em uma realidade virtual, a rota dos raios segue uma estrutura geom&#xE9;trica precisa, matricial, diferente da real, na qual eles se originam de todos os &#xE2;ngulos poss&#xED;veis. A geometria, em conjunto com as informa&#xE7;&#xF5;es anteriores, me levou &#xE0; triangula&#xE7;&#xE3;o necess&#xE1;ria para determinar com exatid&#xE3;o que o estrangeiro &#xE9; um ser virtual.</p></list-item></list>
<p>Repetiu novamente sua conclus&#xE3;o, como se quisesse valid&#xE1;-la, e completou:</p>
<list list-type="simple">
<list-item>
<label>&#x2013;</label>
<p>Mas&#x2026; Uhhhh! &#x2013; sentiu-se arrepiado. Ser&#xE1; um sentimento de <italic>d&#xE9;j&#xE0; vu</italic>? - ponderou ele. De certa forma uma parte do enigma estava resolvido. Ele sabia que a imagem do estrangeiro n&#xE3;o era real. Certamente que tudo isso deixou o jovem Bioboy curioso e era esperado que questionasse. E foi o que fez.</p></list-item>
<list-item>
<label>&#x2013;</label>
<p>Qual o significado de tudo isso? &#xC9; um teste? Tudo isso tem a ver com a minha miss&#xE3;o? O que h&#xE1; a fazer?</p></list-item></list>
<p>Esta &#xFA;ltima pergunta foi dirigida a seu pai, que, naquele momento, estava por perto e respondeu prontamente:</p>
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<label>&#x2013;</label>
<p>Existe mesmo um ponto a ser entendido. - Mas n&#xE3;o deu nenhum palpite.</p></list-item></list>
<p>Na manh&#xE3; seguinte, logo cedo, Bioboy foi at&#xE9; a Conex&#xE3;o Conhecimento. Encontrou, por l&#xE1;, muitos amigos. Ali&#xE1;s, era quase imposs&#xED;vel ir at&#xE9; l&#xE1; e passar despercebido, pois a arquitetura de sua constru&#xE7;&#xE3;o era projetada de tal forma que a probabilidade de as pessoas se encontrarem era grande. A troca de experi&#xEA;ncia entre pessoas de diferentes forma&#xE7;&#xF5;es era essencial para o sucesso do aprendiz e isso justificava a arquitetura.</p>
<p>Como cada aprendiz escolhia suas atividades, dirigiu-se para a sala que tinha alguns simuladores. Essas simula&#xE7;&#xF5;es eram feitas em um computador que continha todas as informa&#xE7;&#xF5;es digitalizadas da Terra e da gal&#xE1;xia. Sendo assim, era poss&#xED;vel reconstituir um evento passado. Para falar a verdade, era como se as simula&#xE7;&#xF5;es fossem verdadeiras m&#xE1;quinas do tempo &#xE0;s quais permitiam compor o passado.</p>
<p>Antes de qualquer coisa, trocou algumas ideias com amigos presentes, os quais lhe deram algumas sugest&#xF5;es. Disse um:</p>
<list list-type="simple">
<list-item>
<label>&#x2013;</label>
<p>Olha, a primeira etapa ser&#xE1; explorar o seu mundo sensorial.</p></list-item>
<list-item>
<label>&#x2013;</label>
<p>N&#xE3;o concordo - argumentava o outro.</p></list-item></list>
<p>Algu&#xE9;m, no meio das discuss&#xF5;es, sugeriu:</p>
<list list-type="simple">
<list-item>
<label>&#x2013;</label>
<p>A transfer&#xEA;ncia de informa&#xE7;&#xF5;es da mente para o <italic>chip</italic> de computador n&#xE3;o ir&#xE1; ajudar muito. Se voc&#xEA; olhar para o corpo humano, h&#xE1; milhares de milh&#xF5;es de c&#xE9;lulas, cada uma tem suas fun&#xE7;&#xF5;es pr&#xF3;prias, a sua pr&#xF3;pria energia, e todas funcionam harmoniosamente.</p></list-item></list>
<p>O fato &#xE9; que essa &#xFA;ltima ideia despertou outra na cabe&#xE7;a de Bioboy, pois, sorrindo, disse:</p>
<list list-type="simple">
<list-item>
<label>&#x2013;</label>
<p>&#xC9; isso mesmo &#x2013; e repetiu a &#xFA;ltima frase - e todas funcionam harmoniosamente juntas.</p></list-item></list>
<p>Findada a discuss&#xE3;o, come&#xE7;ou a programar o computador para a simula&#xE7;&#xE3;o. A primeira fase consistia em parametrizar o simulador e conectar-se &#xE0; m&#xE1;quina, j&#xE1; que a sua mente seria um dos dispositivos de <italic>input</italic>. &#xC0; sua frente, ficava um painel de luzes coloridas, onde cada cor indicava uma funcionalidade diferente. Na parte superior esquerda, luz azul, indicava as entradas de dados e era poss&#xED;vel observar as op&#xE7;&#xF5;es por ele assinaladas: para banco de dados, c&#xE9;rebro; para transistores, neur&#xF4;nios. Ou seja, suas sinapses seriam transferidas para o computador, codificadas e transformadas em informa&#xE7;&#xF5;es e estas podiam intervir de modo efetivo no processamento das informa&#xE7;&#xF5;es.</p>
<p>Na parte inferior esquerda, luz vermelha, ficavam os dispositivos de sa&#xED;da. Na op&#xE7;&#xE3;o assinalada figurava seu nome, Vltxxkz, sinal que a sa&#xED;da seria registrada na sua mem&#xF3;ria. Complementou com outros dispositivos de entrada, informou par&#xE2;metros e, sempre muito cauteloso, especificou um alto grau de confiabilidade, 99%.</p>
<p>Na parte central do painel de controle, luz amarela, era poss&#xED;vel observar, pelo &#xED;cone luminoso, o programa simulador selecionado. Dentre v&#xE1;rios, o selecionado era um dos mais precisos, considerava todas as situa&#xE7;&#xF5;es que est&#xE3;o relacionadas, criando matrizes de v&#xE1;rias dimens&#xF5;es que interagem at&#xE9; compor uma linguagem coerente e que represente a compreens&#xE3;o do problema. Com o objetivo de compor rela&#xE7;&#xF5;es, realiza infer&#xEA;ncias, considerando tanto o conhecimento impl&#xED;cito, conhecimento piloto fornecido pela mem&#xF3;ria de Bioboy, quanto o explicito, conhecimento armazenado explicitamente, ou seja, em alguma forma de m&#xED;dia.</p>
<p>Depois que informou todos os par&#xE2;metros, Bioboy falou:</p>
<list list-type="simple">
<list-item>
<label>&#x2013;</label>
<p>De certa forma, a proposta &#xE9; encontrar conex&#xF5;es n&#xE3;o triviais, sendo assim, tenho que me livrar de todas as hip&#xF3;teses pass&#xED;veis de erro, para da&#xED;, ent&#xE3;o, procurar as solu&#xE7;&#xF5;es prov&#xE1;veis buscando padr&#xF5;es reveladores. A Matem&#xE1;tica tamb&#xE9;m &#xE9; um modo de pensar e pode ajudar-me a encontr&#xE1;-lo. Dito isso, sentou no computador e deu in&#xED;cio &#xE0; simula&#xE7;&#xE3;o.</p></list-item></list>
</sec>
<sec>
<title>Cap&#xED;tulo IV - A simula&#xE7;&#xE3;o</title>
<p>&#x201C;Muitas vezes sonhamos e pensamos estar vivendo uma experi&#xEA;ncia real e, quando acordamos, muitas vezes, confusos e sonolentos, procuramos um referencial para saber se o vivido foi um sonho ou aconteceu de fato. A sensa&#xE7;&#xE3;o experimentada nas simula&#xE7;&#xF5;es &#xE9; a mesma. Buscam-se referenciais de forma que se possa entender um fen&#xF4;meno ocorrido na vida real&#x201D;.</p>
<p>Foram exatamente essas as palavras utilizadas por Bioboy ao fazer alguns coment&#xE1;rios, quando terminou a simula&#xE7;&#xE3;o. E continuou, expondo seu ponto de vista:</p>
<list list-type="simple">
<list-item>
<label>&#x2013;</label>
<p>Como em um sonho, o referencial &#xE9; importante para discernir a realidade e tamb&#xE9;m o &#xE9; na simula&#xE7;&#xE3;o. O simples fato de mudar algo que possa parecer insignificante no referencial pode ter consequ&#xEA;ncias imprevis&#xED;veis e mudar todo o contexto. A interpreta&#xE7;&#xE3;o da mensagem est&#xE1; diretamente relacionada com o contexto. Como por exemplo, o DNA pode transmitir sinais diferentes em contextos diferentes.</p></list-item></list>
<p>Depois de passar toda a tarde no simulador, ele tinha uma resposta para o seu enigma e esse foi o assunto da Conex&#xE3;o Conhecimento, durante o resto da noite. Essa simula&#xE7;&#xE3;o teve um colorido especial para Bioboy, pois ele conseguiu formular uma audaciosa interpreta&#xE7;&#xE3;o do real fundamentada em base l&#xF3;gica e matematicamente s&#xF3;lida. Foi assim que Bioboy entendeu a apari&#xE7;&#xE3;o do estrangeiro e a configura&#xE7;&#xE3;o de sua mente. Riu de ter sido t&#xE3;o ing&#xEA;nuo e n&#xE3;o reconhecer sua assinatura virtual, o estrangeiro.</p>
<p>No dia seguinte, Bioboy acordou demasiadamente cedo. Atrav&#xE9;s da janela, semiaberta, podia vislumbrar o objeto mais brilhante do firmamento. Deu um salto e p&#xF4;s-se de p&#xE9; para contemplar melhor aquela beleza. O ar l&#xED;mpido propiciava uma vis&#xE3;o extremamente reluzente de V&#xEA;nus, cuja magnitude parecia ultrapassar em muito os seus -4.4. Seu olhar estava fixado em algum lugar al&#xE9;m do infinito, pensando nas experi&#xEA;ncias do dia anterior.</p>
<p>A not&#xED;cia correu. Logo cedo, na Conex&#xE3;o Conhecimento, havia v&#xE1;rias pessoas aguardando a chegada de Bioboy. Ele foi um dos primeiros a chegar, esperou alguns minutos e deu inicio a explica&#xE7;&#xE3;o:</p>
<list list-type="simple">
<list-item>
<label>&#x2013;</label>
<p>A Matem&#xE1;tica explica o que n&#xE3;o podemos ver. De certa forma, h&#xE1; uma dose de magia quando os controles fogem de nossos sentidos e a Matem&#xE1;tica assume o comando.</p></list-item></list>
<p>Foi assim que come&#xE7;ou seu discurso, respirou profundamente e continuou:</p>
<list list-type="simple">
<list-item>
<label>&#x2013;</label>
<p>Jamais passou pela minha cabe&#xE7;a que o estrangeiro pudesse ser minha assinatura digital ou minha antimat&#xE9;ria. Tal descoberta se deve ao sinal negativo numa equa&#xE7;&#xE3;o que surgiu em uma situa&#xE7;&#xE3;o de grande complexidade durante a simula&#xE7;&#xE3;o.</p></list-item></list>
<p>O estrangeiro, como ser virtual, pode mover-se lateralmente no tempo, ou seja, transitar do passado para o futuro e vice-versa. Quando se est&#xE1; avan&#xE7;ando no tempo, do passado para futuro, a cria&#xE7;&#xE3;o vem antes da destrui&#xE7;&#xE3;o e, em caso contr&#xE1;rio, do futuro para o passado, a cria&#xE7;&#xE3;o vem depois da destrui&#xE7;&#xE3;o.</p>
<p>Olhou para as pessoas como se esperasse uma interven&#xE7;&#xE3;o e, como ningu&#xE9;m se manifestasse, continuou:</p>
<list list-type="simple">
<list-item>
<label>&#x2013;</label>
<p>Todos n&#xF3;s temos uma miss&#xE3;o e na minha, seja ela qual for, a Matem&#xE1;tica est&#xE1; envolvida. O estrangeiro veio avaliar minha capacidade l&#xF3;gica para resolver problemas e o meu conhecimento matem&#xE1;tico, ou seja, ele veio constatar se estou apto para tornar-me um Hognoscon. &#xC9; o principal objetivo da miss&#xE3;o do estrangeiro.</p></list-item></list>
<p>No tr&#xE2;nsito do futuro para o passado, ele constatou que a maior defici&#xEA;ncia da ra&#xE7;a humana &#xE9; que ela est&#xE1; perdendo, ao longo do tempo, suas capacidades criativa, de racioc&#xED;nio l&#xF3;gico, de abstra&#xE7;&#xE3;o e outras mais. Essa perda &#xE9; devida ao intenso uso eletr&#xF4;nico. Em decorr&#xEA;ncia disso, a Matem&#xE1;tica est&#xE1; se afastando da experi&#xEA;ncia humana de uma forma t&#xE3;o abrupta, que estava mudando a maneira de funcionamento de nosso c&#xE9;rebro.</p>
<p>N&#xE3;o resta d&#xFA;vida que, sem a Matem&#xE1;tica, seria imposs&#xED;vel desenvolver novos recursos tecnol&#xF3;gicos capazes de potencializar nossas limita&#xE7;&#xF5;es biol&#xF3;gicas. Sem esses recursos, n&#xE3;o conseguir&#xED;amos sobreviver. Podemos afirmar, sem titubear, que a matem&#xE1;tica governa o mundo.</p>
<p>Algu&#xE9;m da plateia pediu a palavra. Era o mestre da Conex&#xE3;o Conhecimento. Come&#xE7;ou falando sobre a miss&#xE3;o de Bioboy:</p>
<list list-type="simple">
<list-item>
<label>&#x2013;</label>
<p>A miss&#xE3;o de Bioboy come&#xE7;a hoje, aqui na Conex&#xE3;o Conhecimento. Bioboy est&#xE1; pronto. Como ele mesmo disse, a miss&#xE3;o do estrangeiro era avaliar sua capacidade e posso afirmar que, ao desvendar essa charada, Bioboy o fez com intelig&#xEA;ncia e criatividade. Quero parabeniz&#xE1;-lo pela l&#xF3;gica que balizou sua interpreta&#xE7;&#xE3;o e pela beleza geom&#xE9;trica que deparou ao expandir as dimens&#xF5;es matriciais para associar as duas realidades d&#xED;spares: virtual e real. H&#xE1; muito tempo que n&#xF3;s, terr&#xE1;queos, canalizamos todo o conhecimento para garantir nossa sobreviv&#xEA;ncia. Bioboy vai trabalhar para esse fim e tenho certeza que o far&#xE1; da melhor maneira. Quero convidar a todos os presentes para o seu Hognoscere que ser&#xE1; realizado amanh&#xE3;.</p></list-item></list>
<p>Finalizou seu discurso com esse convite.</p>
<p>No dia seguinte, ter&#xE7;a-feira, 10 de julho de 4910. Dia especial para Bioboy. Havia festa na Conex&#xE3;o Conhecimento que ficava na pequena comunidade onde morava, uma dentre muitas outras espalhadas por toda a gal&#xE1;xia. Todas elas estavam conectadas para assistir e homenagear Bioboy pelo seu Hognoscere. Os homenageados eram agraciados com a estatueta &#x201C;Arquitetos do Futuro&#x201D;, na qual se podia observar a espiral de Fibonacci, representando a gal&#xE1;xia como se fosse um furac&#xE3;o e, emergindo do seu centro, um terr&#xE1;queo que vence sua f&#xFA;ria com seu conhecimento.</p>
<p>Para mim, como narrador e integrante dessa comunidade, &#xE9; sempre um momento extraordin&#xE1;rio assistir a essas festividades, nas quais, meninos como Bioboy, tornam-se homens imprescind&#xED;veis para a ci&#xEA;ncia. Sempre que narro essas hist&#xF3;rias, reflito sobre a nossa natureza, nossos valores, nossos devires e nossos fins. Apesar de n&#xE3;o ser totalmente uma criatura humana, mas em grande parte, uma constru&#xE7;&#xE3;o matem&#xE1;tica, sempre me emociono ao narr&#xE1;-las. O fim da hist&#xF3;ria n&#xE3;o &#xE9; dif&#xED;cil de imaginar e as palavras que se seguem foram pronunciadas por Bioboy no dia do seu Hognoscere:</p>
<p>&#x201C;O estado do mundo, no momento presente, determina precisamente a maneira como o futuro se desenrolar&#xE1;. A minha miss&#xE3;o, que se inicia hoje, &#xE9; justamente preservar algumas funcionalidades do c&#xE9;rebro humano que, se nada for feito, desaparecer&#xE3;o em um futuro pr&#xF3;ximo. O processo de projetar o homem para al&#xE9;m de sua natureza biol&#xF3;gica, tornando-o um ser program&#xE1;vel, levou o a desligar-se de sua natureza humana. O meu desafio &#xE9; reestabelecer essa conex&#xE3;o no que tange &#xE0; capacidade de racioc&#xED;nio matem&#xE1;tico, sem o qual o humano perder&#xE1; a supremacia sobre seu corpo, lugar dos sentidos e experi&#xEA;ncias. Sei que s&#xE3;o inumer&#xE1;veis os estratagemas da evolu&#xE7;&#xE3;o, mas sei, tamb&#xE9;m, que &#xE9; necess&#xE1;rio interagir para corrigir um erro do passado. N&#xE3;o temos tempo para esperar a sele&#xE7;&#xE3;o natural resolv&#xEA;-lo e, sendo assim, resolv&#xEA;-lo-emos utilizando as mesmas tecnologias que o originaram. Ser um Hognoscere significa reconhecer a minha capacidade de transformar, usar meu conhecimento em prol da humanidade e meu aporte, a Matem&#xE1;tica, servir&#xE1; para humanizar o homo <italic>silicium</italic>. Assim espero&#x201C;.</p>
<p>Bioboy, o ciborgue que calculava.</p>
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</sec>
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<label>1</label>
<p>&#x201C;the only literature of relevant ideas&#x201D;.</p></fn>
<fn id="fn2" fn-type="other">
<label>2</label>
<p>1&#x1D43; Lei: Um rob&#xF4; n&#xE3;o pode ferir um ser humano ou, por ina&#xE7;&#xE3;o, permitir que um ser humano sofra algum mal. 2&#x1D43; Lei: Um rob&#xF4; deve obedecer &#xE0;s ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei. 3&#x1D43; Lei: Um rob&#xF4; deve proteger sua pr&#xF3;pria exist&#xEA;ncia, desde que tal prote&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.</p></fn>
<fn id="fn3" fn-type="other">
<label>3</label>
<p>We may hope that machines will eventually compete with men in all purely intellectual fields.</p></fn></fn-group>
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<title>Refer&#xEA;ncias</title>
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<element-citation publication-type="journal">
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<source xml:lang="en">The Gothic Origins of Science Fiction</source>
<comment>Durham: Duke University Press</comment>
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<issue>1</issue>
<fpage>30</fpage>
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<comment>Tradu&#xE7;&#xE3;o</comment>
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<date-in-citation content-type="access-date">Acesso em: 04 jan. 2014</date-in-citation></element-citation>
<mixed-citation>PIASSI, L. P.; PIETROCOLA, M. Fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica e ensino de ci&#xEA;ncias: para al&#xE9;m do m&#xE9;todo de &#x2018;encontrar erros em filmes&#x2019;. <bold>Educa&#xE7;&#xE3;o e Pesquisa</bold>, S&#xE3;o Paulo, v. 35, n. 3, p. 525-540, set./dez. 2009. Dispon&#xED;vel em: &#x3C;http://www.scielo.br/pdf/ep/v35n3/08.pdf&#x3E;. Acesso em: 04 jan. 2014.</mixed-citation></ref>
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