HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
Cecilia Meirelles no Diario de Noticias: a luta cotidiana pela escola nova (junho de 1930 a outubro de 1930)
Cecilia Meirelles in the Diario de Noticias: the daily struggle for the new school (june 1930 to october 1930)
Cecília Meirelles en El Diario de Noticias: la lucha cotidiana por la escuela nueva (junio de 1930 a octubre de 1930)
Cecilia Meirelles no Diario de Noticias: a luta cotidiana pela escola nova (junho de 1930 a outubro de 1930)
Acta Scientiarum. Education, vol. 39, núm. 4, pp. 471-481, 2017
Editora da Universidade Estadual de Maringá - EDUEM
Recepção: 11 Fevereiro 2017
Aprovação: 17 Maio 2017
RESUMO.: Neste artigo, examinamos a atuação de Cecília Meirelles na ‘Pagina de Educação’, do Diario de Noticias, do Rio de Janeiro, particularmente os textos publicados na seção ‘Commentario’, entre 12 de junho de 1930, data da fundação desse jornal, e 03 de outubro de 1930, quando se verifica a revolução comandada por Getúlio Vargas. Durante esse período, Meirelles, além de divulgar os princípios do escolanovismo, abordando temas pontuais que pudessem esclarecê-lo, tratou de problemas que emergiram com a Reforma da Educação no Distrito Federal realizada por Fernando de Azevedo. De uma forma ou de outra, ela se mostrou uma autora combativa, que se colocou na linha de frente em prol da renovação da educação no Brasil, fazendo comentários diários sobre temas que, de um modo geral, entrelaçavam educação e política.
Palavras-chaves: educação nova, imprensa, trajetória política e intelectual, reforma educacional.
ABSTRACT.: In this article, we examine the work of Cecilia Meirelles in the ‘Página de Educação’, of the Diário de Notícias, of Rio de Janeiro, particularly the texts published in the ‘Commentario’ section, between June 12, 1930, when this newspaper was founded, and October 3, 1930, when the revolution commanded by Getúlio Vargas took place. During this period, Meirelles, in addition to divulging the principles of escolanovismo, addressing specific topics that could clarify it, dealt with problems that emerged with the Reform of Education of the Federal District realized by Fernando de Azevedo. In a way or another, she proved to be a combative author, who put herself in the front line for the renewal of education in Brazil, making daily comments on subjects that, in general, intertwined education and politics.
Keywords: New education, press, political and intellectual trajectory, educational reform.
RESUMEN.: En este artículo, examinamos la actuación de Cecília Meirelles en la ‘Página de Educação’, del Diário de Notícias, de Rio de Janeiro, particularmente los textos publicados en la sección ‘Commentario’, entre el 12 de junio de 1930, fecha de la fundación de este periódico, y el 03 de octubre de 1930, cuando se verifica la revolución comandada por Getúlio Vargas. Durante este período, Meirelles, además de divulgar los principios del escolanovismo, abordando temas puntuales que pudieran aclararlo, trató de problemas que surgieron con la Reforma de la Educación en el Distrito Federal realizada por Fernando de Azevedo. De una manera u otra, ella se mostró una autora combativa, que se colocó en la línea de frente en pro de la renovación de la educación en Brasil, haciendo comentarios diarios sobre temas que, de modo general, entrelazaban la educación y la política.
Palabras clave: Educación nueva, Prensa, Trayectoria política e intelectual, Reforma educacional.
Introdução
Os estudiosos do escolanovismo no Brasil consideram, com muita razão, Fernando de Azevedo, Anísio Teixeira e Lourenço Filho os principais teóricos e líderes dessa proposta educacional. Afinal, autores de textos que embasaram o movimento escolanovista no Brasil, que coordenaram e aprofundaram reformas educacionais estaduais e do Distrito Federal, que redigiram seu manifesto (Fernando de Azevedo) ou que participaram diretamente da sua elaboração (Anísio Teixeira e Lourenço Filho), esses educadores estiveram na vanguarda da batalha pela renovação da educação no Brasil, vale dizer, em prol do estabelecimento dos princípios da Escola Nova. No entanto, constituiria uma grande injustiça não destacar outro personagem na luta pela difusão e implantação dessa proposta educacional, Cecília Meirelles, por conta, principalmente, mas não unicamente, de sua aguerrida atuação entre 1930 e 1933 nas páginas do jornal Diário de Notícias, do Rio de Janeiro. Aliás, sua indicação para dirigir a página dedicada à educação - esse jornal era o único que, na época, possuía uma página voltada para esse tema (Lamego, 1996a) - constitui, por si só, indício da consideração que ela desfrutava junto aos partidários da Escola Nova1. Essa mesma autora (Lamego, 1996a, p. 18) destaca que o jornalismo de estreia de Meirelles (entre 1930 e 1933) “[...] foi o mais político de toda a sua participação na imprensa”.
Examinar sua atuação nesse jornal é destacar uma faceta geralmente encoberta pelos autores que, nas palavras de Lamego (1996b), a consideram ‘a musa diáfana, fluida e etérea da literatura brasileira’2. Com efeito, chama a atenção o fato de os estudiosos costumarem exaltar a poetisa e escritora de livros infantis Cecília Meirelles, mesmo aqueles que foram, como é o caso de Alceu Amoroso Lima, nos últimos anos da década de 1920 e nos primeiros do decênio seguinte, seus ferrenhos adversários3. Ao assim proceder, esses estudiosos colocam na sombra a combatente pela renovação do Brasil por meio da Escola Nova. Exemplo desse procedimento é a publicação de artigos de um evento comemorativo do seu centenário de nascimento (Gouvêa, 2001). São 17 textos, dos quais 13 tratam de sua poesia e somente dois entrelaçam política, educação e literatura.
Todavia, durante esses anos, Meirelles conciliou sua atividade de escritora e poeta com a de propagandista e defensora do escolanovismo; podemos mesmo afirmar que, nesse período, a política assumiu o primeiro plano de sua atividade. Além disso, seu posterior abandono da política e sua ascensão como poeta podem ser creditados, entre outras coisas, à perseguição que sofreu. Com razão, Lamego (2001, p. 219, grifo do autor) observa: “A Cecília que hoje comemoramos em seu centenário, a grande poeta, autora do Romanceiro da Inconfidência, ainda não existia. [...] O reconhecimento de Cecília como poeta viria em 1938 [...]”4. Acreditamos que a valorização exclusiva dessa autora como poetisa por parte da historiografia, que coloca em segundo plano sua atividade política, constitui uma vitória dos que a combateram por ser uma das mais expressivas batalhadoras pela renovação educacional do Brasil.
A importância de Meirelles nessa luta pode ser comprovada pela observação de Lamego de que o período em que atuou no Diário de Notícias foi aquele em que se delineou o campo da educação, marcadamente escolanovista. A autora assinala também que essa conquista se deveu, em grande medida, a Meirelles: sua página sobre educação teria sido uma trincheira fundamental na luta em favor da Escola Nova5.
Considerando essa importância e, ao mesmo tempo, que, nos estudos sobre ela, suas preocupações educacionais têm sido encobertas por sua contribuição artística, definimos como objetivo deste artigo resgatar uma parcela de sua luta em prol da renovação educacional do Brasil.
Inicialmente, abordaremos brevemente sua atuação no Diário de Notícias até 1933, quando deixou o jornal. Na sequência, analisaremos sua trajetória política e intelectual desde a fundação desse jornal, em junho de 1930, até a eclosão da revolução comandada por Getúlio Vargas, em 03 de outubro do mesmo ano. Dividindo sua trajetória em quatro momentos, utilizaremos como fontes de análise os artigos publicados no período escolhido. Ao fazê-lo, não estamos desconsiderando a importância de sua atuação posterior nesse e em outros jornais nem as condições adversas em que essa atuação ocorreu.
São vários os motivos dessa escolha. O primeiro é que, nesse primeiro momento, o Diário de Notícias e Cecília Meirelles se encontravam em grande sintonia, comungando, em linhas gerais, as mesmas aspirações e esperanças. O segundo relaciona-se à extensão do artigo. Examinar o conjunto de sua trajetória implicaria sacrificar a análise de questões importantes abordadas por ela, já que isso exigiria um espaço maior do que o de um artigo. O terceiro refere-se às características do próprio período analisado, como ficará evidente no desenvolvimento do texto.
Cecilia Meirelles no Diário De Notícias
Fundado em 12 de junho de 1930, por Orlando Ribeiro Dantas, o Diário de Notícias saiu de circulação em 1974. Sob orientação do próprio Dantas, de Carlos Alberto Nóbrega da Cunha e de Alberto Figueiredo Pimentel Segundo, jornalistas que haviam saído recentemente de O Jornal, o Diário de Notícias tiveram uma posição política claramente definida. Liberal, combatia a ‘estrutura oligárquica’ da Primeira República, sustentando as teses da Aliança Liberal (Ferreira, 2015), que apoiava Getúlio Vargas. Por conta disso foi caracterizado como ‘o jornal da Revolução’. Mas, com a ascensão de Vargas ao poder, de acordo com Brasil (2015), o Diário “[...] preferiu adotar uma postura fiscalizadora da nova situação, esperando para ver como ele se sairia na chefia do governo, dando-lhe voto de confiança”. Ainda segundo esse autor, ao assumir o poder, Vargas foi, gradativamente, revelando-se centralizador e autoritário, o que levou Dantas a se afastar progressivamente dele, chegando mesmo ao rompimento por ocasião da decretação do Estado Novo. Por conta das suas atitudes, de acordo com Figueiredo (2012), ele se tornou um símbolo de independência da imprensa. Silva (2009), por seu turno, assinala que o Diário se converteu, em poucos anos, na folha com maior tiragem do então Distrito Federal. Durante o Estado Novo, teria sido um dos poucos órgãos da imprensa a recusar receber subvenções do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).
Orlando Ribeiro Dantas, jornalista, nasceu no Rio Grande do Norte, em 1896, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1953. Em 1922, mudou-se para a capital federal, assumindo o cargo de diretor da Revista Comercial e Industrial. Tornou-se diretor de publicidade de O Jornal, em 1926, depois de rápida passagem por Recife, onde fundou o Diretório Comercial Brasileiro, do qual foi diretor até 1927. Em 1928, passou a residir em São Paulo, fundando, juntamente com Francisco de Assis Chateaubriand e Rubens do Amaral, o Diário de São Paulo. Por divergências com Chateaubriand, retirou-se da sociedade e, em 1930, fundou o Diário de Notícias, no Rio de Janeiro6.
Sobre Nóbrega da Cunha há poucas informações. Sabe-se que nasceu no Rio de Janeiro, em 1897, e que fez carreira como educador no magistério público do Distrito Federal e como jornalista na imprensa carioca. Colaborou, de maneira entusiasmada, para a reforma do ensino no Distrito Federal, promovida por Fernando de Azevedo, entre 1927 e 1930. Deu cobertura, em dois jornais, A Noite e O Jornal, às propostas reformadoras de Azevedo (Rocha, 2003, p. 12; Cunha, 2008, p. 126). Era o diretor político do Diário de Notícias. Também na imprensa atuou politicamente, fazendo a campanha da Revolução de Outubro de 19307.
Se há poucas informações sobre Nóbrega da Cunha, nada encontramos acerca de Alberto Figueiredo Pimentel Segundo.
Ao que tudo indica, a data de fundação do Diário de Notícias é bastante reveladora. Resumindo as posições políticas e político-econômicas do Diário, Brasil (2015) assinala que esse jornal era simpático ao tenentismo, não se comprometendo com os partidos políticos então existentes; sustentava bandeiras liberais, como a defesa do voto secreto, a anistia a crimes políticos e a reestruturação da justiça. Era a favor de uma legislação que melhorasse a situação do operariado, mas fazia questão de separar suas teses do bolchevismo, que combatia em suas páginas. Clamava pelo estabelecimento do salário mínimo e de jornadas de trabalho, além de garantias sobre acidentes de trabalho e aposentadoria. Defendia, também, o livre jogo da oferta e da procura como regulador do mercado e dos preços; combatia a monocultura, que apontava como responsável pela crise econômica, apresentando sugestões para a diversificação da produção nacional e o fomento à agricultura. Por fim, colocava-se contra as tarifas aduaneiras, argumentando que, com elas, o Brasil não ganharia mercados externos, por conta das retaliações por parte dos demais países.
É verdade que não encontramos nos textos de Meirelles algumas dessas bandeiras que eram defendidas pelo Diário de Notícias. No entanto, sua postura liberal, o empenho em uma renovação educacional e a crença de que, com a Revolução de 1930, isso seria alcançado, mostram que essa autora se encontrava no órgão de imprensa com cuja linha editorial se identificava, podendo, por conseguinte, expor livremente suas ideias.
No lançamento do jornal, na ‘Pagina da Educação’, foi publicado o que pode ser considerado uma espécie de plataforma quanto à questão educacional. Ressaltamos, no próprio programa do jornal, a afirmação de que ele se bateria pela reforma “[...] do ensino, em moldes modernos e dictados por uma observação exacta do ambiente nacional [...]” (Diário de Notícias, 1930a, p. 6). Mas o texto publicado na página dedicada à educação com o título ‘Ensino e Educação’, escrito por Meirelles ou, ao menos, redigido com a sua participação, é mais extenso e explícito quanto à questão. Nele encontramos o postulado de que o debate sobre as questões educacionais não poderia ficar restrito aos especialistas:
Os problemas pedagogicos, as questões de instrucção e os assumptos escolares já não podem mais, nesta época, ser debatidos sómente nas regiões especializadas, porque, interessando tanto ao professorado quanto ao povo, devem aparecer, como materia de caracter geral, nas paginas dos orgãos da imprensa diária (Diario de Noticias, 1930a, p. 3).
No texto fica evidente também o que se pretendia com a ‘Pagina de Educação’:
Commentando imparcialmente actos das autoridades, discutindo as novas idéas ou julgando os resultados da intensa experimentação que se está realizando em muitas escolas desta capital e de alguns Estados, procuraremos proporcionar ao professorado elementos para acompanhar, mais de perto, a renovação pedagogica do momento mais de perto e aos leigos no assumpto a opportunidade para um juizo seguro a respeito de todas as novas iniciativas (Diario de Noticias, 1930a, p. 3)8.
Meirelles colocou em prática esse programa por meio de uma incansável atividade. De acordo com Lamego (1996a), ela teria publicado, na ‘Pagina de Educação’, entre junho de 1930 e janeiro de 1933, cerca de 750 artigos. Em outra obra, essa mesma autora (Lamego, 1996b) aumenta o número para 960 artigos. Azevedo Filho (2001, p. XI), por seu turno, menciona “[...] mais de setecentos textos”. Já Strang (2009) informa que as crônicas de educação somariam quase 800 textos e acrescenta que se tratava de uma produção de fôlego. Ferreira (2007) enumera 828 crônicas e 148 reportagens. Qualquer que tenha sido sua quantidade, a qualidade dos textos por ela publicados é extremamente significativa.
Meirelles foi a diretora responsável pela ‘Pagina de Educação’ desse jornal desde sua primeira edição, em 12 de junho de 1930. Também estava encarregada de uma coluna, na maior parte das vezes localizada no lado esquerdo dessa página, que recebeu o título de ‘Commentario’. Acreditamos que, ainda que não os tivesse assinado desde o início, os textos eram de sua autoria9. A ‘Pagina’ era publicada todos os dias da semana, com exceção das segundas-feiras. Em apenas algumas oportunidades ela não veio a público. Meirelles comentou diariamente as questões educacionais, geralmente entrelaçadas com as de natureza política. Carvalho (2007, p. 140) acredita que, por conta dessa atividade, Meirelles foi, dentre os escolanovistas, quem mais se expôs “[...] às maledicências das lideranças católicas”.
Sua colaboração encerrou-se em 12 de janeiro de 1933 em razão das perseguições que sofria, principalmente dos católicos: “Quem comandava as baterias contrárias à educação liberal era Alceu Amoroso Lima [...]. Segundo Alceu, as propostas dos educadores modernistas eram materialistas e comunizantes [...]” (Carvalho, 2007, p. 140). Carvalho observa ainda que Amoroso Lima era um homem culto, lido e informado sobre o que se passava na Europa e nos Estados Unidos (Carvalho, 2007) e, portanto, sabia perfeitamente que John Dewey era americano e nada tinha de comunista. Na verdade, nessa época, tudo o que não se enquadrasse na perspectiva dos católicos era por eles considerado, se não comunista, ao menos como porta para o comunismo10. Um exemplo dessa atitude pode ser visto em um artigo da revista A Ordem, não assinado, mas atribuído a Tristão de Athayde:
Todos os pedagogos burguezes e reformistas, porém, que hoje vemos contaminados pela pedagogia naturalista, se ainda não são francamente comunistas, são precursores e preparadores da pedagogia de Lunatcharsky. A orientação que vão imprimindo á educação publica brasileira é tal, que só se pódeilludir aos que nenhuma idéapossuem do que seja a marcha dos acontecimentos do mundo moderno. Não é defeza alguma, portanto, do Sr. Anizio Teixeira ou da Sra. Cecilia Meirelles, dizer que nenhum delles pertence ao P. C. É cedo demais para isso. Por óra, quando estão de boa fé, pensam apenas em renovar a educação brasileira, pelo espirito ‘moderno’, pelos methodos ‘modernos’. E, quando de má fé, procuram illudir os tolos com o seu reformismo muito manso, com a sua boa vontade de chamar os paes para collaborar com o Estado, com as suas palavras de cordeirinhos da educação nova, certos de que estão, como outrora Caillaux com o imposto de renda, esmagando a educação familiar, livre, christã, com ares de que a defendem (Athayde, 1932, p. 402, destaque do autor).
A menção a Cecilia Meirelles, ao lado de Anísio Teixeira, não é sem razão. Extremamente combativa, durante o período em que esteve à frente da ‘Pagina da Educação’, lutou pela renovação da educação no Brasil, cujo processo seria encaminhado com base nos princípios do escolanovismo. Isso a fez destacar-se perante os adversários dessa nova proposta educacional, em especial os católicos.
Por ocasião do fim da sua colaboração com esse jornal, Meirelles publicou seu último comentário, intitulado ‘Despedida’. Argumentando que a “[...] Pagina foi, durante tresannos, um sonho obstinado, intransigente, inflexivel, da construcção de um mundo melhor, pela formação mais adequada da humanidade que o habita [...]”, Meirelles assinalou que mantinha a esperança de luta: “[...] este Commentario não termina terminando [...]”; ao contrário, “[...] elle deixa em cada leitor a esperança de uma colaboração que continue. Neste sucessivo morrer e renascer que a atividade jornalistica, diariamente, e mais do que nenhuma outra ensina, ha bem nitida a noção da esperança que, através de mortes e ressurreições, caminha para o destino que a vida suggere ou impõe”. Assim, “[...] pode cessar o trabalho, pode o trabalhador desapparecer, para não mais ser visto ou para reapparecer mais adeante: mas a energia que tudo isso equilibrava, essa permanece viva, e só espera que a sintam, para de novo modelar sua plenitude” (Diario de Noticias, 1933a, p. 6).
Ainda que procurasse manter acesa a chama do embate em prol da Escola Nova, sua saída do Diario de Noticias foi, muito provavelmente, a segunda batalha perdida pelo escolanovismo na luta travada pela igreja contra ele desde a década de 1920 e que prosseguiu com mais intensidade na seguinte. É fato que, em 1931, com o decreto assinado por Getúlio Vargas e Francisco Campos, então ministro da Educação e Saúde Pública, sobre o ensino religioso nas escolas, a igreja alcançou uma grande vitória em seu empenho pela ‘recristianização’ do Brasil e, por consequência, sobre os partidários da Escola Nova. Esta teria sido, a nosso ver, sua primeira batalha perdida. A terceira teria sido em 1935: Vargas e os católicos, aliados, empreenderam uma guerra contra os escolanovistas, em especial contra Anísio Teixeira. Esse momento, a nosso ver, foi o de sua derrota, pelo menos no que diz respeito à sua linha mestra11.
Na edição do Diario de Noticias, do dia 13 de janeiro de 1933, um dia depois da publicação do texto ‘Despedida’, foi comunicado que Meirelles havia deixado de figurar no seu quadro de redatores. Acrescenta que o seu afastamento não implicava mudança no programa educacional lançado pelo jornal: “A Pagina de Educação continuará a exercer seu apostolado, levando por deante a formosa batalha em prol dos sadios ideaes da escola nova, que o Diario de Noticias tem sustentado até aqui como uma das columnas mestras do seu programmajornalistico” (Diario de Noticias, 1933b, p. 6, grifo do autor). No entanto, no mesmo comunicado, foram anunciadas sensíveis modificações na política do jornal: “Ao invés do commentario diário, adoptamos outro plano, um artigo especializado assignado pelos maiores nomes do grupo de pioneiros da nova educação, para o que já fizemos os respectivos contactos” (Diario de Noticias, 1933b, p. 6). Todavia, essa promessa não foi cumprida. Após um tempo, o jornal passou a publicar excertos de autores nacionais e estrangeiros que, ainda que tratassem de temas ligados à Escola Nova, não tinham vínculo imediato com os acontecimentos da política nacional, os quais, até então, vinham sendo comentados criticamente pela jornalista praticamente todos os dias. Com a exclusão da seção ‘Commentario’ e da saída de sua redatora, o jornal perdeu, no que diz respeito à educação, o caráter combativo que até então o havia caracterizado12.
Segundo Lôbo (2010, p. 52), após deixar esse jornal, Meirelles “[...] retomou suas atividades educacionais na regência de turmas e tornou-se uma das principais colaboradoras da administração de Anísio Teixeira frente a direção da Instrução Pública do Distrito Federal (1931-1935)”. No entanto, a comprovação de que sua saída do Diario de Noticias teve motivação de ordem política pelo fato de que sua atuação incomodava bastante alguns setores políticos e religiosos está na circunstância de que, após se despedir da ‘Página de Educação’, ela retornou à imprensa. Desta vez, foi para o jornal carioca A Nação, contratada com a condição de que poderia escrever sobre tudo, menos sobre política. Lamego (1996a, p. 109-110, grifo do autor) cita a carta de Meirelles para Fernando de Azevedo, de 15 de novembro de 1933, em que ela tratou do assunto: “Acabam de convidar-me para fazer semanalmente a 1ª página do suplemento da Nação, que deve aparecer com outro feito de domingo que vem a oito dias. Ainda não aceitei nem recusei. Mas talvez acabe aceitando, pois trata-se de escrever impressões rápidas sobre os acontecimentos semanais - ‘menos política’, disseram-me [...]”.
A trajetória política e intelectual de Cecília Meirelles
O estudo da trajetória política e intelectual de Meirelles nas páginas do Diario de Noticias é extremamente valioso para compreendermos aspectos importantes dos embates que os escolanovistas travaram, nos primeiros anos da década de 1930, pelo estabelecimento da sua proposta educacional, tendo como seu principal oponente os católicos, liderados por Alceu Amoroso Lima/Tristão de Athayde13. Inclui-se, nesse processo, a publicação do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova nos principais jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo, em 19 de março de 1932, momento decisivo dessa luta14.
O percurso de Meirelles, no período em que colaborou para o Diario de Noticias, tem merecido vários estudos. Alguns deles dividem esse período em diversas fases, na tentativa de, estabelecendo as particularidades de cada uma delas, compreender melhor o pensamento político e educacional da autora. Em duas obras, por exemplo, Lamego (1996b, p. 33-34, 2001) faz propostas de divisão do seu itinerário na ‘Pagina de Educação’. Lôbo (2010), por sua vez, divide os artigos de Meirelles publicados no Diario de Noticias em temas que caracterizariam diferentes etapas da sua trajetória entre meados de 1930 e início de 1933. A nosso ver, sua trajetória pode ser dividida, ao menos, em quatro períodos. O primeiro abarca desde a fundação do jornal, em junho de 1930, até a Revolução de Outubro de 193015. Nele, Meirelles dedicou-se, com grande ênfase, à difusão do ideário do escolanovismo, abordando questões pontuais da educação. O segundo compreende o período entre a Revolução de Outubro, em relação à qual Meirelles tinha grande expectativa, e o decreto de abril de 1931, que instituiu o ensino religioso nas escolas públicas, bastante criticado por ela. O terceiro estende-se desse decreto à publicação do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. O quarto e último cobre o período entre a publicação do Manifesto e a saída de Meirelles do Diario de Noticias.
Neste artigo, examinaremos apenas os textos que ela escreveu para a coluna ‘Commentario’ no primeiro momento16. Nesse primeiro momento, de um modo geral, os textos de Meirelles tinham como objetivo, abordando diferentes questões pontuais, difundir os princípios da Escola Nova. Dentre essas, podemos citar desde a falta de contato entre a escola e a família ao uso do cinema para fins educativos; dos livros que tratavam do ideário da Escola Nova ao vestuário do professor; do papel da imprensa na formação do povo à responsabilidade dos reformadores; da experiência educacional em outros países às práticas que estavam na direção oposta à do escolanovismo; do ensino de música aos comentários sobre o ensino de português e matemática; da falta de livros infantis para organizar uma biblioteca ao escotismo e assim por diante.
Há, no entanto, uma questão para a qual Meirelles deu grande ênfase: a dos problemas advindos da implantação da reforma educacional do Distrito Federal sob a orientação de Fernando de Azevedo entre 1928 e 1930 (Penna, 2010; Piletti, 1994)17. A crítica, ao mesmo tempo, mostra que a autora estava empenhada em lutar pela implantação da proposta. Ela chamou a atenção para o fato de que, dois anos depois do início da reforma, ainda se apresentavam problemas de diversas ordens, que iam da inadequação dos edifícios onde estavam localizadas as escolas para a função educacional18 à falta de professores preparados para as novas exigências.
A abordagem desses temas deixa entrever que Meirelles não ficou apenas no plano doutrinário, mas que esteve atenta às questões práticas, enriquecendo, desse modo, o que poderíamos denominar de teoria da Escola Nova19. Aliás, a própria autora chamava a atenção para o problema quando se passava da teoria à prática. Era quando as dificuldades surgiam: “A maior dificuldade que encontra uma reforma ideologica é a impossibilidade de a cumprir no terreno pratico, pela falta de elementos que a comprehendam ou que sejam capazes de a levar avante” (Diario de Noticias, 1930c, p. 5).
Antes de entrarmos na análise de alguns problemas que ela examinou, situando-os no processo de estabelecimento da reforma da educação no Distrito Federal, em 1928, abordaremos uma questão de fundo, que precede as demais: é da passagem de uma época para outra no que diz respeito à educação, ou seja, a da mudança de situação da educação com a reforma promovida por Fernando de Azevedo, no Distrito Federal.
No comentário do dia 24 de junho de 1930, sem título, Meirelles observou que, a cada dia, tornava-se mais difícil ser professor. Essa dificuldade residia na incapacidade de os professores se adaptarem às novas exigências postas pela reforma. De seu ponto de vista, muitos estavam, antes da reforma, acomodados a uma situação burocrática, conduzindo suas atividades em um automatismo que ela caracterizou como fácil, vertendo no espírito dos alunos o que os programas determinavam ser necessário conhecer. No entanto, de súbito, a situação se modificara. Saiu-se do estado sonolento da rotina e foi apregoada, como atitude nova, a escola ativa. Muitos professores reagiram à novidade, afirmando, entre outras coisas, que já faziam o que se passara a solicitar. Eles não haviam, de fato, entendido o novo tempo. Justamente por isso, isto é, pela dificuldade de se aceitar as novas exigências, a autora reafirmou o que havia dito no início do comentário: a cada dia, tornava-se difícil ser professor.
De acordo com Meirelles, isso não surpreendia. No comentário do dia 26 de junho de 1930, observou-se que a natureza tem de particular o fato de que, na infância, ela está pronta para todas as transformações. Todavia, na maturidade, começa “[...] a aquietar-se, em moldes placidos, onde repousará definitivamente estacionaria, se o individuo não fôr dobrado de um temperamento especial que o esteja sempre compellindo a novas attitudes e curiosidades” (Diario de Noticias, 1930c, p. 5).
Não era sem razão, pois, que a autora considerava como um dos temas mais significativos a adaptação dos professores aos novos tempos, especialmente os que estavam ingressando no magistério. Acreditava-se que os professores mais antigos, por terem conhecido a realidade anterior, tinham elementos de comparação entre o passado e o presente. Por isso, justamente por conhecer as realidades existentes, eles poderiam se transformar. O problema residia nos professores que estavam se formando, embora se julgasse que a possibilidade de estes enfrentarem a situação e resolverem o problema da nova educação seria maior, já que nada teriam a remover. De seu ponto de vista, no entanto, a Escola Normal não estava preparando seus alunos para o futuro. É o que afirmou no comentário ‘O professor moderno e a sua formação’:
Devia ser assim. Devia ser, se a Escola Normal estivesse, desde já, preparando seus alumnos para o futuro que vae ser o seu presente. Mas, até a presente data, o que se verifica é que, salvo o pequeno contacto que têm os quarto-annistas na sua pratica da Escola de Applicação, essas jovens chegam á formatura sem a visão do problema que as espera, sem comprehensão nem intuição nem paixão pela psychologia infantil, para a qual, no emtanto, terão de constantemente appellar (Diario de Noticias, 1930c, p. 5).
A formação do professor para atender às exigências da Escola Nova foi novamente abordada no comentário do dia 08 de julho de 1930. Partindo do pressuposto de que a escola moderna dependia, antes de tudo, do mestre, Meirelles afirmou que havia se surpreendido com o fato de que, após dois anos de iniciada a reforma, as jovens que estavam se formando na Escola Normal não sabiam o que significava a reforma do ensino. Assim, embora a Escola Normal devesse resolver o problema do mestre futuro, o presente indicava que ainda não existiam mestres para o mestre.
O ponto crucial da questão da Escola Normal foi tratado no comentário do dia 21 de setembro de 1930, sob o título: ‘A futura Escola Normal’. De acordo com Meirelles, a Escola Normal corria o risco de vir a abrigar os adversários da Escola Nova. Baseando-se no mote ‘a tempos novos, critérios novos’, Meirelles observou que os que acompanhavam o movimento pedagógico sabiam que a Nova Educação, que estava sendo estabelecida em todo o mundo moderno e que no Brasil se exprimia pela Reforma de Fernando de Azevedo, não poderia ser posta em prática de maneira eficiente caso não fosse acompanhada da necessária transformação da Escola Normal, que, assim, formaria adequadamente professores para o novo regime.
Ela defendia que os catedráticos a ser nomeados fossem submetidos a exame não apenas de sua especialidade, mas que também demonstrassem, na prática, sua capacidade moderna, isto é, segundo os princípios do escolanovismo, de reger essa cadeira.
Mas, observava, não era isso que estava acontecendo. O exemplo maior era dado pelo concurso de literatura que havia colocado a reforma em má situação, ameaçando a Escola Normal de não ter mestres que conhecessem as necessidades da escola primária e que atuassem convenientemente como professores de futuros professores.
Não se tratava, aqui, de um acontecimento fortuito, mas de um caso que obedecia a ditames políticos, que Meirelles denominava de ‘desorientação mal intencionada’.
Foi isso, inclusive, o que ela apontou no comentário a respeito do concurso seguinte, o de sociologia. Segundo seu relato, ao se debater a mesa do concurso, ela tinha se colocado contra a participação de representantes da igreja, argumentando que, pela própria dignidade do cargo, eles não poderiam deixar a ‘batina à porta’, ou seja, que atuariam como religiosos: “Está no seu interesse e na sua obrigação religiosa defender o seu credo. E na sua opinião, fazem, de certo muitissimo bem. Mas a opinião dos educadores é outra. E essa é que tem de ser respeitada, porque a Escola Normal é um instituto pedagogico e não um seminario” (Diario de Noticias, 1930d, p. 4).
Prosseguiu ela denunciando que o candidato à cadeira de sociologia havia participado do concurso de literatura como examinador, afirmando, na ocasião, que não se poderia admitir espiritualidade na terra enquanto existissem escolas laicas20. Indagou ela, então: “[...] com que isenção de animo poderá vir a ensinar sociologia quem, numa arguição se revela tão incapaz de considerar o problema do Ensino dentro dos limites que a Nova Educação lhe prescreve?” (Diario de Noticias, 1930d, p. 4).
Em conclusão, ela assinalou que os defensores do escolanovismo iriam esperar o desfecho do que denominou de ‘scena, com suas premeditações’, para ficarem sabendo qual seria o ponto de vista do diretor de instrução, no caso, Fernando de Azevedo.
A preocupação de Meirelles com a formação dos professores não era apenas institucional. No comentário do dia 18 de junho de 1930, intitulado ‘As férias de junho’, a autora recomendou que, além de buscar se recuperar do desgaste sofrido durante as aulas, favorecendo suas condições físicas para melhor desempenho de suas funções, os professores preparassem, igualmente, suas condições técnicas. Propôs que fizessem uma reflexão com base em suas experiências, comparando os resultados obtidos com as experiências encontradas na literatura estrangeira e na nacional. Aconselhou-os a ficar vigilantes ao que se passava na educação moderna, para que não lhes acontecesse o que sucedia aos professores descuidados que estacionavam nos conhecimentos adquiridos e se apegavam à rotina. Por fim, desejou-lhes que os quinze15 dias de folga fossem 15 dias de repousante estudo.
Mas não era apenas a falta de preparo dos mestres para atender às novas exigências colocadas pela implantação da Escola Nova que afligia os que estavam empenhados na implantação da Escola Nova. Também a família era motivo de preocupação. No comentário do dia 14 de junho de 1930, dois dias, portanto, depois do lançamento do jornal, Meirelles já abordara o problema da incompreensão de pais e alunos acerca das propostas escolanovistas. No comentário, cujo sugestivo título era ‘Escola e família. Como fazer a sua intima aproximação’, ela destacou que a metodologia da Escola Nova, pelo contraste com a monotonia da velha escola, surpreendia e escandalizava os pais de alunos e os próprios alunos.
Acrescentou que, para os que estavam se dedicando, com intensidade, às novas experimentações, era profundamente desanimador encontrar nas famílias dos alunos um ambiente muitas vezes hostil. No entanto, afirmava que não se dava por vencida. Os círculos dos pais poderiam ser uma solução, apesar da dificuldade em fazê-los funcionar. Os pais ricos não iam facilmente à escola, por julgar que se tratava de um rebaixamento de condição. Os pobres, por seu turno, também não iam, mas por um sentimento completamente oposto. Ainda assim, ela insistia que, se fosse possível conseguir uma frequência elevada, não se deveria adotar uma prática que acabasse por afastar os pais, fazendo discursos vasados em uma linguagem que ultrapassasse a cultura mediana, nem discutir as vantagens metodológicas da Escola Nova, por falta de elementos de comparação entre as duas escolas e assim por diante. Considerava mais vantajosas as reuniões pequenas, presididas pelo professor da classe e apenas com os pais dos alunos daquela classe. Ressaltava que o ponto principal disso tudo era justamente não isolar a escola da sociedade e sim fazer com que a família, esclarecida dos pressupostos da Escola Nova, contribuísse para a educação.
No dia 16 de setembro de 1930, no comentário ‘Professores e paes’, a autora retomou o tema, assinalando que “[...] a educação moderna, para ser uma realidade viva, depende do entendimento de professores e paes, de modo que a obra da escola e do lar se unifique numa commum intenção [...]”, afirmou que “[...] tudo quanto se fizer pela approximação desses dois factores e pela harmonização de seus interesses será em beneficio da infancia e para proveito da nacionalidade” (Diario de Noticias, 1930e, p. 4). No entanto, considerando que se abria um hiato entre a escola e o lar pelo fato de os pais, por impossibilidade material, falta de interesse ou desconhecimento do sentido verdadeiro da educação, não contribuírem para formar o ambiente necessário para o desenvolvimento da infância, ela se apoiou em um exemplo de outra nação. Meirelles descreveu a atividade dos professores de uma escola de Montevideo, Uruguai, onde eles haviam criado uma pequena revista que era distribuída gratuitamente entre os pais dos alunos e vendida apenas aos professores e instituições escolares. Os assuntos nela abordados poderiam colocar ao alcance das famílias o que era necessário saber para cooperar na tarefa de educar seus filhos.
Não vamos abordar aqui a escalada contra os escolanovistas e, em especial, contra Meirelles, mas queremos registrar alguns acontecimentos. Em 1934, ela foi designada, pela Secretaria de Educação do Distrito Federal, para dirigir o recém-fundado Centro Infantil, no Pavilhão Mourisco. Como salienta Dal Farra (2006), as intrigas políticas, que nunca a deixavam em paz, levantaram suspeita acerca da legitimidade moral e educacional dos livros que compunham o acervo da biblioteca, com a alegação de que esta continha obras perniciosas para a formação das crianças. De acordo com essa estudiosa, um dos exemplos dados como prova de acusação foi a presença do livro As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, tachado de conter ‘conotações comunistas’. Conforme Lôbo (2010), em 1935, havia se tornado difícil a continuidade dos trabalhos do pavilhão Mourisco. Por fim, em outubro de 1937, o pavilhão foi invadido pela polícia do Estado Novo, cumprindo ordens do interventor federal, que desativou a biblioteca em 1938.
As perseguições aos partidários da Escola Nova, levadas a efeito pela coligação Vargas-Igreja Católica, que, muito provavelmente, teve na saída de Meirelles do Diário de Notícias um dos seus pontos altos, voltaram-se, também, na direção de Anísio Teixeira. Após se demitir do cargo de diretor da Instrução Pública do Distrito Federal (Rio de Janeiro), por conta de acusações que lhe eram feitas e que colocavam Pedro Ernesto, interventor do Distrito Federal, em uma situação delicada, foi preso e, por fim, exiliou-se da Bahia durante dez anos, entre 1935 e 1945, somente retornando à vida pública com a queda de Getúlio Vargas21.
Considerações finais
No artigo, procuramos mostrar que os comentários publicados por Cecilia Meirelles no Diário de Notícias no período examinado possuem uma especificidade: debater os problemas advindos com a reforma educacional do Distrito Federal promovida por Fernando de Azevedo e divulgar os princípios do escolanovismo. O exame desses comentários faz emergir uma combatente convicta de que a solução para os problemas da educação brasileira estava na adoção dos pressupostos da Escola Nova. Seus textos evidenciam que é com essa convicção que ela examinou e buscou dar solução para esses diferentes problemas e entraves.
Pouco mais de dois anos depois de iniciada essa reforma, revelavam-se problemas a ser enfrentados e resolvidos: desde a oposição de determinados setores da sociedade até a incompreensão por parte de pais e alunos do que estava em jogo; desde a falta de preparo dos professores para entender e enfrentar a nova situação até o fato de a Escola Normal não os estar preparando segundo as necessidades colocadas pela Escola Nova; desde a falta de edificações próprias para servir de escolas até a falta de livros infantis que dessem suporte à nova proposta educacional e assim por diante.
Por meio da leitura e da análise de seus comentários, podemos acompanhar a luta que então se travava para a renovação da educação, colocando, de um lado, os partidários do escolanovismo e, de outro, os que estavam vinculados aquilo que veio a ser caracterizado como escola tradicional, os que defendiam o projeto católico e, por fim, os que, acomodados com a situação, resistiam, não porque tinham um projeto distinto, mas porque estavam presos à rotina.
Como Meirelles deixou claro nas páginas do Diario de Notícias, os reformadores, por terem uma intenção que ia além das condições do momento em que atuavam, encontravam resistências por parte dos que, de maneira despreocupada, resolviam os problemas cotidianos de acordo com as práticas estabelecidas.
O mais importante de tudo é que, dos comentários escritos por Meirelles, emerge uma pessoa convicta de que não apenas a solução para a educação se encontrava no estabelecimento dos princípios da Escola Nova, mas também a da própria sociedade. Essa convicção a levou a defender seus postulados com firmeza, mas sem qualquer sombra de intransigência ou radicalismo. Ao contrário, ao abordar os temas e os problemas que surgiram com a reforma educacional em sua singularidade, mostrou que não participava da ideia de que havia uma fórmula pronta e acabada para todas as questões.
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Notas