HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
O Fórum de Augusto e seu caráter instrutivo: a história de Roma recriada em pedra
The Forum of Augustus and its instructive character: the history of Rome recreated in stone
El Foro de Augusto y su carácter instructivo: la historia de Roma recreada en piedra
O Fórum de Augusto e seu caráter instrutivo: a história de Roma recriada em pedra
Acta Scientiarum. Education, vol. 40, núm. 3, e40389, 2018
Editora da Universidade Estadual de Maringá - EDUEM
Recepção: 08 Novembro 2017
Aprovação: 13 Dezembro 2017
RESUMO.: Este artigo trata sobre o caráter instrutivo presente no Fórum de Augusto, uma das principais construções empreendidas pelo Princeps Otávio Augusto no fim do primeiro século a.C. A partir dos estudos acerca dos vestígios arqueológicos e de fontes escritas, objetivamos analisar as principais características e particularidades deste Fórum e em que medida ele se constituía em um lugar de memória, auxiliando na perpetuação de uma história de Roma recriada por Augusto e seu grupo de apoio, na qual o Princeps se destacava como legítimo continuador dessa história e o exemplo maior a ser emulado. Dessa forma, o Fórum de Augusto fornecia uma verdadeira aula de história romana, materializando em pedra este passado glorioso, do qual Augusto se colocou como descendente e continuador.
Palavras-chave: arquitetura romana, principado, memória, instrução.
ABSTRACT: This article discusses the instructive character present in the Forum of Augustus, one of the principal constructions undertaken by the Princeps Octavius Augustus at the end of the first century BC. From the studies about archaeological remains and written sources, we aim to analyze the main characteristics and particularities of this Forum and to what extent it constituted a place of memory, aiding in the perpetuation of a history of Rome recreated by Augustus and his support group, in which the Princeps stood out as the legitimate continuator of this history and the greatest example to be emulated; in such a way that the Forum of Augustus provided a true lesson in Roman history, materializing in stone this glorious past, of which Augustus was placed as a descendant and continuator.
Keywords: roman architecture, principate, memory, instruction.
RESUMEN.: Este artículo trata sobre el carácter instructivo presente en el Foro de Augusto, una de las principales construcciones emprendidas por el Princeps Octavio Augusto al final del primer siglo a.C. A partir de los estudios acerca de los vestigios arqueológicos y de fuentes escritas, objetivamos analizar las principales características y particularidades de este Foro y en qué medida se constituía en un lugar de memoria, ayudando en la perpetuación de una historia de Roma recreada por Augusto y su grupo de apoyo, en la que el Princeps se destacaba como legítimo continuador de esa historia y el ejemplo más grande a ser emulado. De esta forma, el Foro de Augusto proporcionaba una verdadera clase de historia romana, materializando en piedra este pasado glorioso, del que Augusto se colocó como descendiente y continuador.
Palabras clave: arquitectura romana, principado, memoria, instrucción.
Introdução
Na Antiguidade, assim como ao longo dos tempos, a arquitetura, do mesmo modo que as imagens, de maneira geral, detinham um grande poder; um poder didático e, entre outros, de convencimento, político e propagandístico. Otávio Augusto, que deu início à forma de governo que ficou conhecida como Principado, soube se utilizar deste poder a seu favor, se apropriando de um costume que já estava presente na República (qual seja o de se utilizar da arquitetura e das imagens para ligar o próprio nome a grandes feitos, a deuses, a heróis e assim manter seu nome vivo na memória da posteridade), levando este uso da cultura material a um alto grau de refinamento, grandiosidade e complexidade, conferindo maior monumentalidade à capital do Império.
Otávio Augusto desenvolveu um amplo programa de engrandecimento da cidade por meio da restauração e construção de diversas obras arquitetônicas. Neste período de intensas construções e reconstruções, surgiu o De Architectura, de Vitrúvio, um tratado sobre arquitetura de enorme importância para os estudos sobre a arquitetura romana por ser o único deste tipo que chegou aos dias atuais. Essa obra nos ajuda a compreender algumas das práticas arquitetônicas desenvolvidas por gregos e romanos e possuiu estreita relação com a política empreendida por Augusto, visto que lhe foi dedicada, provavelmente em 27 a.C.
Dentre as diversas obras arquitetônicas empreendidas por Augusto em seu governo, tratamos, neste trabalho, sobre o seu Fórum, que ele erigiu depois de realizar diversas intervenções no Fórum Romano, construindo ou concluindo importantes edifícios públicos, e depois de concluir o Fórum de César. Fica clara, com isso, a importância dos fóruns em Roma:
O Fórum foi estabelecido desde o início como o centro político e simbólico da cidade republicana, que passou a ser a capital da Itália no terceiro século a.C., dominando o mundo mediterrânico através da guerra e da conquista no próximo século. O Fórum foi um espaço público para uma variedade de atividades, incluindo reuniões políticas, distúrbios, combates de gladiadores e funerais (Watkin, 2009, p. 20).
De acordo com Diane Favro (1988), o ‘Fórum romano’, como um ponto focal para energia comunal, não era apenas um espaço aberto em Roma; ele era um receptáculo da consciência coletiva, de modo que, durante a República, cada vida romana girava em torno do Fórum. Além disso, com todos os seus monumentos e edifícios, o ‘Fórum romano’ poderia fornecer uma verdadeira aula sobre a história republicana, já que “[...] cada construção, cada espaço, cada pedra tinha uma história e uma moral, cada indivíduo nomeado ou retratado levantava-se como exemplar” (Favro, 1988, p. 18, tradução nossa).1
Este aspecto instrutivo estava magistralmente materializado no ‘Fórum de Augusto’, onde esse caráter exemplar de importantes personalidades pertencentes à história de Roma se erguia em pedra e deveria servir de exemplo para a população. Por meio da arquitetura, Augusto demonstrava, assim, seu papel de restaurador da tradição dos antepassados, o mos maiorum, de modo que a arquitetura serviu, em seu governo, como lugar de memória, onde esta trabalhava a fim de evitar o esquecimento de um passado exemplar e do nome e dos feitos de Augusto. Esta memória, ou melhor, as representações produzidas por Augusto acerca de uma memória que seria compartilhada por uma maioria, estava extremamente ligada à história e à mitologia, em tal medida que o Fórum de Augusto e o templo de Marte Vingador, assim como outros importantes monumentos construídos sob seu governo, tinham o relevante papel de resguardar e propagar uma memória efetiva e comum ou uma memória criada por meio da manipulação de um substrato já existente.
Baseando-nos nessas considerações iniciais, nosso objetivo neste trabalho é justamente tratar acerca deste caráter instrutivo presente no Fórum de Augusto, que proporcionou uma espécie de educação informal cuja função didática era dupla, por um lado, perpetuava a memória de um passado glorioso para os contemporâneos de Augusto e, por outro, deveria perpetuar uma memória positiva do governo deste Princeps para as futuras gerações.
Analisamos este complexo via documentação escrita, por meios dos autores que mencionaram tal construção, bem como por meio da bibliografia concernente, cujos autores, de modo geral, baseiam seus estudos nos dados arqueológicos provenientes deste complexo arquitetônico.
Fórum de Augusto: memória e instrução
A arquitetura romana, em especial a dos edifícios públicos, possuía uma intrínseca relação com a memória e a história romana. Por um lado, poderia conter as representações escultóricas dos deuses e heróis de um passado lendário presentes no imaginário romano como pertencentes à própria história de Roma; por outro, se ligava de modo imorredouro às pessoas e acontecimentos por trás de sua construção, imortalizando o nome de seus idealizadores e seus feitos, ou relembrando o contexto que deu origem a tal edifício.
A construção de novos templos em Roma sempre esteve ligada a uma noção de prestígio e de engrandecimento do nome por trás de tal empreendimento, ressaltando o comprometimento de seu idealizador para com os deuses e para com o povo. A consagração de um novo templo sempre foi um acontecimento memorável e festivo, que inscrevia o nome do responsável pela obra na memória das futuras gerações, como nos esclarece Eric Orlin:
Os templos romanos, então, serviam não apenas como loci para a atividade ritual ao fornecer lugares para a religião romana, mas também como monumentos nos quais as memórias romanas e a história romana residiam. [...] À medida que os espectadores encontram um templo, sua atenção é atraída para a pessoa específica que o construiu e o evento específico que ele comemora, e são lembrados, assim, das realizações de seus antepassados e do que significa ser romano (Orlin, 2007, p. 83, tradução nossa).2
Neste aspecto, a arquitetura poderia servir para resguardar e perpetuar a memória e a história romanas, desempenhando um papel instrutivo, ao materializar as representações imagéticas relacionadas a este passado, funcionando assim como um lugar de memória, um lugar onde se representava uma memória que se queria coletiva e compartilhada, algo que Joël Candau3 (2011) chama de metamemória relacionada ao grupo. Estas representações relacionadas com a memória que alguns indivíduos da sociedade romana produziram acerca de uma memória que seria compartilhada por uma maioria estavam extremamente ligadas com a história e com a mitologia.
Podemos englobar nesta perspectiva as construções empreendidas por Otávio Augusto em seu governo, que tinham o importante papel de resguardar e propagar uma memória efetiva e comum ou uma memória criada por meio da manipulação de um substrato já existente. Além disso, tais monumentos ao se perpetuarem pela eternidade na memória de todos, perpetuariam também o nome de seu idealizador, bem como seus feitos notáveis.
Dentre suas inúmeras construções, tratamos aqui do Fórum de Augusto, pois acreditamos que tal construção foi a que melhor desempenhou, em seu governo, este papel pedagógico, proporcionando uma espécie de educação informal cuja função didática era dupla. Por um lado, perpetuava a memória de um passado glorioso para os contemporâneos de Augusto, e por outro perpetuaria uma memória positiva do governo deste Princeps para as futuras gerações.
O Fórum de Augusto possuía o templo dedicado a Marte Vingador em local de destaque. De acordo com a tradição, este templo teria sido prometido em 42 a.C. quando da batalha de Filipos, contra os assassinos de César (Suetônio, De Vita Caesarum, Diuus Augustus, XXIX; Ovídio, Fasti, V, 569-578). Além disso, o templo também comemorava a recuperação dos estandartes que estavam em poder dos Partos desde 53 a.C. A volta dos estandartes a Roma, apesar de ter sido por meio de um acordo diplomático e não por meio de uma grande conquista de âmbito militar, representou uma grande vitória para o povo romano e estava carregada com toda uma carga simbólica significativa, pois no imaginário romano os Partos sempre representaram uma ameaça, um obstáculo quase intransponível, um inimigo praticamente invencível, contra o qual sempre se esperou uma revanche pela morte ignominiosa de Crasso. Essa revanche tantas vezes planejada e tentada por Marco Antônio, no período do Triunvirato, enfim havia sido realizada por Augusto; pelo menos assim foi o que se fez propagar por diversos meios, como, por exemplo, nas Res Gestae (XXIX).
O templo seria, pois, o local que guardaria tais estandartes. Apesar de ter sido prometido em 42 a.C., não se sabe com certeza a data do início das obras, nem do templo, nem do Fórum, embora muitos estudiosos tenham lançado suas hipóteses. De acordo com John W. Stamper (2005), as obras do Fórum teriam se iniciado por volta de 37 a.C., embora tendo maior impulso somente na década de 20 a.C.. Para Brad Johnson (2001), Augusto teria iniciado as obras depois de 29 a.C., pois a vitória no Egito teria garantido os recursos necessários para tal. Tanto para Lothar Haselberger (2007) quanto para Joseph Geiger (2008), o Princeps teria formulado os planos de erguer o complexo arquitetônico (o Fórum e o templo) por volta de 19/18 a.C. Hipóteses à parte, o que é certo é que o templo prometido em 42 a.C. foi consagrado apenas no ano de 2 a.C., embora o Fórum já houvesse sido inaugurado antes desta data, como afirma Suetônio (De Vita Caesarum, Diuus Augustus, XXIX).
Há ainda outra questão controversa quanto ao templo de Marte Vingador, pois alguns estudiosos, dentre eles Haselberger (2007), defendem a existência de duas construções dedicadas a Marte Vingador, de modo que após Augusto recuperar os estandartes dos Partos, ele teria construído, com a aprovação do Senado, um pequeno templo sobre o Capitólio, dedicado a Marte Vingador, cuja finalidade seria a de abrigar temporariamente tais estandartes, função que teria desempenhado até o ano de 2 a.C., quando os estandartes teriam sido transferidos definitivamente para o templo maior de Marte Vingador, localizado no Fórum de Augusto; já outros estudiosos, como J. W. Rich (1998), acreditam que um pequeno templo dedicado a Marte Vingador, sobre o Capitólio, nunca chegou a ser construído, mesmo que tenha sido planejado. Não há indícios arqueológicos que comprovem a existência do pequeno templo de Marte Vingador no Capitólio, de forma que não nos posicionamos quanto a sua existência ou não, já que nosso objetivo é analisar o Fórum de Augusto juntamente com o templo de Marte Vingador que fazia parte deste complexo arquitetônico.
O que nos interessa frisar é que tal complexo arquitetônico possuiu grande importância no governo de Augusto e em sua política de restauração e construção em Roma:
De fato o Forum Augustum, com o templo de Mars Vltor, foi o último e definitivo grande empreendimento na reconstrução de Roma. A renovação dos templos que ficaram em ruínas durante as gerações de guerra civil, o grande Relógio Solar, a Ara Pacis, o Panteão de Agripa, e até mesmo a construção do Mausoléu de Augusto, para abrigar os restos mortais dele e os de sua família, tudo precedeu àquele grande projeto (Geiger, 2008, p. 57, tradução nossa).4
O complexo arquitetônico construído por Augusto era grandioso. Seu fórum se constituía de um amplo espaço aberto, retangular, medindo aproximadamente5 125 metros de comprimento por 85 de largura, no qual se encontrava, em lugar de destaque, o templo de Marte Vingador, a nordeste, exatamente de frente à entrada principal do Fórum que se localizava a sudoeste (Figura 1). Do ponto de vista do observador que adentrasse no Fórum por esta passagem principal, o templo estaria numa posição de destaque, centralizado ao fundo, tendo à sua frente apenas a magnífica estátua de Augusto numa quadriga6, estátua honorífica oferecida a ele pelo Senado, na qual poderia se ler na inscrição colocada em sua base o título honorífico de Pater Patriae. Fechando toda a lateral direita e esquerda do Fórum havia pórticos com outras entradas de acesso. Atualmente7, sabe-se que tais pórticos possuíam uma êxedra8 em cada uma de suas extremidades, totalizando um total de quatro êxedras, embora as duas próximas à entrada principal do fórum eram ligeiramente menores do que aquelas próximas ao templo, de modo que “[...] parece seguro afirmar que diferiam das primeiras apenas pela ausência de grupos maiores de escultura em seu centro, que corresponde aos das primeiras êxedras” (Geiger, 2008, p. 118, tradução nossa).9

O templo de Marte Vingador reluzia, feito em mármore branco de Luna, no qual no frontispício podia se ver, ao centro, a figura de Marte. À sua direita e esquerda ficavam as figuras da Fortuna, segurando uma cornucópia e um leme, e Vênus com um Cupido e um cetro. Ao lado delas se encontravam, respectivamente, as figuras sentadas de Roma sobre uma pilha de armas e Rômulo vestido de pastor segurando o bastão, ou lituus, de um áugure. As figuras reclinadas localizadas nas pontas do frontispício eram representações do Palatino e do Tibre.10 A colunata do templo era um octóstilo, ou seja, possuía oito colunas sob o frontispício. O templo estava sobre um alto pódio que media 50 metros de comprimento por 36 de largura e possuía, à frente, uma escadaria com dezessete degraus em mármore.
A praça aberta do Fórum também era pavimentada com mármore branco para contrastar ainda mais eficazmente com as colunatas amarelas e avermelhadas dos pórticos à direita e esquerda, que eram feitas de mármore giallo antico extraídos na Numídia. O segundo andar das colunatas, em que na decoração figuravam Cariátides e escudos, era também em mármore branco. O mármore usado para o pavimento do templo era, além do giallo, o africano e pavonazzetto, sendo que este último também se encontrava nas colunas do interior do templo. Os pavimentos das outras construções eram igualmente bastante coloridos e diferenciados um do outro por sua composição. O chão de mármore dos pórticos estava disposto em grandes desenhos quadriculados de bardiglio cinza azulado, juntando uma praça central de africano com uma borda retangular de giallo. Nos locais onde os pórticos tomavam a forma de êxedra semicircular, o pavimento mudava para um padrão de xadrez de africano e giallo. Na parte traseira da êxedra do norte estava o ‘Salão do Colosso’, que abrigava uma monumental estátua possivelmente de Alexandre e, depois da morte de Augusto, uma estátua dele próprio. Seu pavimento xadrez era feito em pavonazzetto e giallo, materiais que também estavam em pilastras e colunas. Outros elementos do Fórum eram feitos de cipollino, um mármore com tonalidade esverdeada (Galinsky, 1998).
Devemos ressaltar a relação que este complexo arquitetônico possuía com o Fórum de César, de modo que podemos dizer que este serviu de influência para aquele, pois, assim como o Fórum de César, o de Augusto era um grande espaço retangular, com pórticos nas laterais e com um templo centralizado em uma de suas extremidades, ocupando lugar de destaque. Além disso, apesar do templo de Marte Vingador ser maior que o de Venus Genetrix, ambos apresentavam plantas semelhantes e possuíam a mesma tipologia no que se refere ao intercolúnio:
O Fórum de Augusto estava intimamente ligado com o Fórum de César, que Augusto terminou de construir antes do trabalho sério iniciado no seu próprio Fórum. Os deuses dos templos dos dois fóruns complementavam um ao outro: Vênus Genetrix era a ancestral dos romanos e da gens Júlia, cujos ilustres descendentes povoavam o ‘Hall da Fama’, enquanto Marte era o ancestral romano. O templo no Fórum de César foi o primeiro templo romano com uma abside, uma inovação que também foi usada no templo de Mars Vltor (Galinsky, 1998, p. 208, grifo do autor).11
O Fórum de César foi concluído por Augusto, provavelmente na década de 20 a.C., o mesmo período em que ele deve ter iniciado a construção de seu próprio Fórum, o que faz Geiger (2008) sugerir que, ao menos inicialmente, Augusto concebeu todo o seu Fórum como uma homenagem a César. Aceitando ou não esta hipótese, a relação e a semelhança entre os dois Fóruns são inegáveis. No entanto,
Apesar de sua dívida àquele de Júlio César, o Fórum de Augusto é consideravelmente mais sofisticado na intenção e execução. Focando não apenas a família do novo princeps e seu lugar na historia romana, o Fórum de Augusto era uma declaração arquitetônica e artística da República restaurada. Certamente nenhum monumento romano demonstra mais habilmente a perfeita mistura de passado e presente, público e privado, nacional e estrangeiro, republicano e imperial (Gowing, 2005, p. 138, tradução nossa).12
Mesmo com toda a grandiosidade do Fórum de Augusto, esse enorme projeto não se afastou em qualquer sentido real dos grandes projetos de outros governantes do mundo antigo e não adicionou uma verdadeira noção nova às ideias existentes. De fato, não havia uma diferença significativa entre o Fórum de Augusto e o de seu pai, completado por ele alguns anos antes. Sua grande inovação foi o ‘Hall da Fama’, a Galeria de Heróis (Geiger, 2008), pois ao longo das paredes de ambos os pórticos havia diversos nichos retangulares, nos quais estavam dispostas as estátuas de personalidades importantes para a história de Roma, sejam elas históricas ou lendárias, os summi uiri, dos quais falamos mais à frente.
O templo de Marte Vingador era um dos símbolos da força de Roma. Sua relação com a esfera militar era enorme, não só por ser um templo dedicado ao deus da guerra ou por ter sido construído em homenagem a vitórias militares, contra os assassinos de César e contra os Partos, mas também pelas funções que passou a desempenhar. Convém ressaltar que o templo de Marte Vingador era um templo manubial13, ou seja, um templo construído a partir de espólios de guerra, as riquezas advindas dos inimigos derrotados, como o próprio Augusto afirma: “Construí em terreno particular e com espólios de guerra o templo de Marte Vingador e o Fórum de Augusto” (Augustus, Res Gestae Diui Augusti, XXI, tradução nossa).14
O complexo arquitetônico do Fórum de Augusto desempenhou um importante papel na perpetuação de uma memória relacionada a um passado glorioso, materializando a história de Roma, da qual Augusto se colocava como legítimo continuador, inscrevendo seu nome e seus feitos na memória das futuras gerações, aspecto este destacado por Vitrúvio ao afirmar:
[...] verifiquei que edificaste e edificas no momento presente muitos monumentos e no futuro te preocuparás com edifícios públicos e privados, para que sejam entregues à memória dos vindouros como testemunho dos feitos notáveis (Vitrúvio, De Architectura, I, Pr, 3, tradução nossa).15
O termo ‘memoria’, utilizado por Vitrúvio, se relaciona aqui a tudo aquilo que seria recordado, lembrado, de forma que para ele as construções serviriam como gatilho mnemônico, permitindo que as futuras gerações, ao ver tais construções, se recordassem do nome e dos feitos por trás de tais obras. Este trecho do De Architectura é significativo, pois demonstra a relação existente entre a arquitetura e a memória, tanto quanto demonstra a preocupação de Vitrúvio e de Augusto com relação a este aspecto. Vemos deste modo o importante papel desempenhado pelos monumentos augustanos de resguardar e imortalizar uma memória, em certa medida, selecionada pelo Imperador e seu grupo de apoio, visto que em seu Fórum ele se utilizou da mitologia para mostrar-se descendente de uma linhagem divina. Os monumentos augustanos, e em especial o seu Fórum, funcionavam, assim, como um lugar de memória, um local onde o passado deveria ser perpetuado.
Além disso, esta memória, que encontrou lugar na arquitetura, modelava o homem e era por ele modelada (Candau, 2011). Modelava o homem na medida em que lhe permitia visualizar, por exemplo, os mitos e as histórias que conhecia desde criança, podendo contribuir mesmo para sua formação identitária, visto que a arquitetura possuía um aspecto pedagógico, um valor didático, de tal forma que numa sociedade oralizada, cuja grande maioria da população era iletrada, as representações bidimensionais e tridimensionais presentes na arquitetura possuíam um importante papel instrutivo, pois materializava as histórias transmitidas de geração em geração, ajudando, assim, na transmissão e compartilhamento dos conhecimentos relacionados à história de Roma.
E a arquitetura era pelo homem modificada, pois este podia manipulá-la e usá-la de acordo com seus interesses políticos, por exemplo ao ressaltar na arquitetura determinadas histórias ou variantes de mitos em detrimento de outras, o que pode ser visto no Fórum de Augusto, pois percebemos em sua iconografia a relação propagada por Augusto entre ele e uma linhagem divina, ligando-se à história de Roma e a personagens como Eneias, Rômulo, Marte e Vênus. De acordo com John Scheid (2003), a utilização do mito de Tróia, no governo de Augusto, serviu diretamente aos seus interesses políticos e religou a história de Roma àquela da Grécia mítica.
Paul Zanker (2005) ressalta que o mais decisivo no programa iconográfico do Fórum de Augusto, no que se refere à parte mitológica, foi a combinação entre o mito de Tróia e a lenda de Rômulo, em tal medida que, do modo como Virgílio a havia grafado, Augusto era o principal representante de uma linhagem divina que possuía Marte e Vênus como antepassados, já que Eneias, filho de Anquises e Vênus, era visto com um dos mais importantes antepassados da gens Iulia, por ser ele o pai de Ascânio/Iulo que, como se dizia, havia fundado a cidade de Alba Longa. Desta linhagem descendia Reia Silvia, que, seduzida por Marte, engravidou e deu à luz os gêmeos Rômulo e Remo, sendo Rômulo o fundador de Roma e seu primeiro Rei.
Estes ilustres personagens possuíam lugar de destaque no Fórum. A começar pelas imagens dos deuses Marte e Vênus, cujas estátuas cultuais, ao que tudo indica, ocupavam postos notórios tanto no frontispício do templo como em seu interior. Além disso, nos pórticos e nas êxedras localizadas mais próximas ao templo, figuravam as estátuas de importantes personalidades da história romana:
Ele encheu seu fórum de imagens e inscrições que comemoraram a expansão do Império através do tempo. Famoso por alegar que encontrou Roma uma cidade de tijolos e transformou-a em mármore, Augusto realizou uma transformação da história pública de Roma que foi igualmente impressionante: ele tornou-a um grandioso arranjo imperial de mármore e monumentos. Nos summi uiri, 753 anos de história romana estavam em pedras que pareciam garantir a própria permanência das ideias lançadas nelas. E todas as pedras e suas histórias pertenciam ao ainda mais magnífico Fórum de Augusto (Shaya, 2013, p. 89, tradução nossa).16
As êxedras possuíam dois andares e tinham nichos entre as pilastras em ambos os níveis. O nicho central, em cada uma das êxedras, era maior do que os outros, tanto em largura quanto em altura, e continham as estátuas de Eneias carregando Anquises e segurando a mão de Ascânio, na êxedra noroeste, e a de Rômulo levando os spolia opima, na sudeste. Os descendentes da gens Iulia estavam alinhados no lado de Eneias, e os summi uiri de Roma ao lado de Rômulo.
De acordo com Harriet I. Flower (1996), a dedicação no templo de Marte Vingador dos estandartes recuperados dos Partos era um equivalente aos spolia opima carregados por Rômulo, o primeiro triunfador, conectando-o a Augusto, o novo fundador de Roma. Para esta autora, foi através destas imagens triunfais que Augusto se conectou com os summi uiri que não eram diretamente ligados a ele; mediante sua ancestralidade troiana, Augusto foi capaz de estender a comparação a começar de Eneias, o que lhe permitiu incluir a série de reis albanos entre seus ancestrais.
É perceptível, portanto, a estreita relação da construção do Fórum de Augusto com sua política, que sabia unir o engrandecimento da capital do Império através das obras públicas, com a valorização do passado e das tradições dos antepassados, o mos maiorum, manipulando a memória e as representações imagéticas desta memória e do imaginário de sua época. Com isso, conseguiu-se ligar a sua história com o passado mítico de Roma, estabelecendo um elo entre presente, passado e futuro.
Augusto se apropriou do passado de modo a recriar uma história na qual o seu nome e o de sua família estivessem diretamente conectados a uma linhagem de origem heroica, se ligando a personagens como Marte, Vênus, Eneias e Rômulo. Com a construção de seu Fórum, Otávio Augusto possibilitou um lugar onde a população poderia ter acesso direto às representações desta história recriada por ele. O Fórum se tornou, assim, um lugar de instrução e de socialização desta memória selecionada e propagada por Augusto. De acordo com Louise Revell (2009), Augusto usou a iconografia de seu Fórum como um caminho para recriar uma história de Roma que respondesse a suas necessidades políticas:
Além disso, assim como Augusto criou um passado mítico para reforçar seu próprio poder político, a adoção daqueles mesmos mitos como um patrimônio comum pelo povo do Império ainda recriou este poder. Mitos tais como aquele de Rômulo e Remo vieram a simbolizar um sentido compartilhado da história, ao mesmo tempo mantendo a aura do poder imperial (Revell, 2009, p. 107, tradução nossa).17
Percebemos no governo de Augusto e em seus monumentos a posição privilegiada conferida aos mitos de Tróia e de Rômulo, mitos que contavam a origem do povo romano, de suas instituições e de seus líderes. Para Scheid (2003), esta preferência se deu por alguns motivos; primeiramente, porque este tema mitológico permitiu a um grande número de romanos, e particularmente cidadãos, participar neste processo de reflexão. Em segundo lugar, porque esta restrição está de acordo com a inclinação romana pela mitologia que focava temas históricos, patrióticos e institucionais. E por fim, porque as narrações míticas faziam parte do círculo das operações simbólicas, pois, mesmo havendo aqueles que duvidavam da veracidade dos mitos, esta não era uma condição sine qua non para a eficácia do gênero. O autor conclui declarando sua opinião de que a mitologia do período augustano cumpriu uma função social e intelectual ativa.
Ao materializar os mitos e a história romana em seus monumentos, o Imperador recriou uma história de Roma que culminava de modo glorioso em seu governo. Augusto recriou o passado, vinculando sua história com a história de Roma, e ainda a conectou com o presente e o futuro do Império. Ele buscou demonstrar que consigo o futuro seria um tempo de harmonia e progresso, de paz e prosperidade; enfim, de grandiosidade e de glória.
O período augustano não era somente um período de reforma, de renascimento e de reconstrução, mas também em grande medida um tempo que olhava para trás e pensava sobre as conquistas e deficiências do passado. Nenhuma reorganização satisfatória do Estado e da sociedade poderia ter lugar sem considerar os homens e os princípios éticos que tinham feito da República algo grande [...]. Sem ser consciente do passado, não era possível nem reconhecer as grandes realizações do presente, nem perceber que no futuro não poderia existir o retorno aos erros do passado (Geiger, 2008, p. 35, tradução nossa).18
O Fórum de Augusto se transformava, assim, numa verdadeira lição visual da história e da grandeza de Roma. Sob esta perspectiva, Geoffrey Sumi (2005) defende que a restauração e valorização do passado, demonstradas pelo Princeps, tiveram força ainda maior na topografia da Roma de então, onde a lembrança do status de cidade como capital de um Império mundial era visível em toda parte, e que talvez o efeito esperado por Augusto fosse o de uma “[...] demonstração que a Roma dele era a ligação entre a gloriosa Roma do passado e seu futuro próspero” (Sumi, 2005, p. 245, tradução nossa).19
Na obra de Vitrúvio, percebemos a relação que este estabeleceu com o passado, lugar onde se deveria buscar a inspiração, os modelos e referências para uma arquitetura que dignificasse ainda mais a Vrbs. Nesta busca de inspiração através do que os antigos transmitiram destacam-se principalmente as instruções e teorias desenvolvidas pelos gregos antigos, pelo menos no que se refere à arquitetura de templos, sendo que as demais construções estavam mais livres da teoria grega e mais relacionadas aos costumes itálicos de construção, como, por exemplo, na edificação de fóruns.
Augusto se utilizou das representações da memória, ligando-se a ela e tornando-a uma memória cada vez mais forte, ou seja, uma “[...] memória massiva, coerente, compacta e profunda, que se impõe a uma grande maioria dos membros de um grupo” (Candau, 2011, p. 44) e que pode ser, depois de reformulada, memorizada coletivamente, pois se assenta e se enraíza em uma tradição cultural, qual seja a da glorificação e elogio dos heróis e de suas linhagens. Assim como a escrita possibilitou a estocagem de informações cujo caráter fixo pode fornecer referenciais coletivos de maneira mais eficaz que a transmissão oral20, a arquitetura monumental possibilitava o mesmo e permitia a socialização da memória, ou seja, sua difusão para um maior número de pessoas por todo o Império. Deste modo, a monumentalidade do Império conseguida através da arquitetura inscreveria o nome de seu idealizador, neste caso Augusto, na memória das futuras gerações e na história de Roma, pois perpetuaria e imortalizaria os feitos deste soberano.
Augusto tinha que certificar-se, seguindo Vitrúvio ainda mais, que a construção de seus monumentos devia permitir à grandeza de seus feitos sobreviver na memória da posteridade; ele tinha que certificar-se que, em adição ao que ele já tinha construído e estava construindo, sua preocupação ‘tanto com edifícios públicos quanto privados’ permanecia ativa para o futuro (Haselberger, 2007, p. 28, grifo do autor, tradução nossa).21
Augusto soube, portanto, utilizar a arquitetura monumental em proveito da valorização de sua imagem, percebendo e se utilizando do papel da arquitetura enquanto um lugar de memória.
A razão fundamental de ser de um lugar de memória, observa Pierre Nora, ‘é a de deter o tempo, bloquear o trabalho de esquecimento, fixar um estado de coisas, imortalizar a morte’. [...] A função identitária desses lugares fica explicita na definição que é dada a eles pelo historiador: ‘toda unidade significativa, de ordem material ou ideal, da qual a vontade dos homens ou o trabalho do tempo fez um elemento simbólico do patrimônio memorial de uma comunidade qualquer’. Um lugar de memória é um lugar onde a memória trabalha (Candau, 2011, p.156-157, grifo do autor).
No De Architectura, Vitrúvio enaltece a preocupação de Augusto pela construção de edifícios públicos e privados, deixando claro para o Imperador sua certeza de que a construção de monumentos ajudava a perpetuar o nome e os feitos daquele por trás de tais construções, pois inscrevia seu nome na memória das futuras gerações como um exemplo a ser seguido. Porém, Vitrúvio vai além, pois não somente relaciona a arquitetura com a memória, como busca também colocar seu próprio nome na memória dos vindouros, através de seus escritos. Com isso, vemos a semelhança de interesses de Augusto e Vitrúvio, pois ambos buscavam, cada um a sua maneira, imortalizar seus nomes e inscrevê-los na memória das futuras gerações.
Os Summi Viri e seu Caráter Exemplar
Devemos ressaltar aqui a estreita relação entre a história contada no Fórum de Augusto e seu caráter exemplar, pois o passado que Augusto alegou restaurar possuía uma função exemplar, tal como podia ser visto em seu Fórum e nos pórticos repletos de representações dos grandes homens do passado e que eram, em algum aspecto, exemplos a serem seguidos.
Podemos perceber este aspecto exemplar dos summi uiri na obra de Suetônio (De Vita Caesarum, Diuus Augustus, XXXI), na qual ele ressalta a importância da homenagem que foi prestada à memória dos generais, bem como demonstra em que medida tais estátuas honoríficas serviam de exemplo a partir do qual tanto Otávio como os vindouros deveriam aprender e se inspirar. Nas palavras de Suetônio, Augusto:
Prestou à memória dos generais uma homenagem próxima à dos deuses imortais, pois, partindo do nada, tinham dado ao povo romano o poder supremo. E, assim, restaurou os monumentos de cada um deles com suas inscrições remanescentes e dedicou estátuas com uma imagem triunfal22 de todos em um e outro pórtico de seu Fórum, tendo declarado num edito que tinha imaginado isso para que não só ele próprio, enquanto vivesse, mas também os príncipes dos tempos vindouros fossem avaliados pelos cidadãos segundo o exemplo daqueles (De Vita Caesarum, Diuus Augustus, XXXI, tradução nossa).23
Com relação ao caráter exemplar do passado, Matthew Roller (2009) nos lembra da historia magistra uitae de Cícero e esclarece que:
Subjacente a esta visão ‘exemplar’ do passado está a suposição de que o passado ocupa um espaço de experiência contínuo com ou homólogo ao presente, e, portanto, encontra-se aberto a imediata apreensão pelos atuais atores. Esta homologia ou continuidade - o quadro que convincentemente subordina e conecta passado e presente - é principalmente ética, uma vez que os valores morais (piedade, valor, confiança, prudência, etc.) incorporados em ações passadas são assumidos a permanecer constante e diacronicamente válidos (Roller, 2009, p. 215, grifo autor, tradução nossa).24
Este autor propõe que esta ‘exemplaridade’ é um discurso, um coerente sistema de símbolos que organiza e representa o passado de um modo particular e assim facilita um modo também particular de conhecê-lo. Para ele, este discurso produz seu modo de conhecer o passado através de quatro operações sequenciais: 1- Alguém realiza uma ação perante os membros da comunidade romana, os quais consistem naqueles que compartilham um conjunto particular de práticas, orientações e valores, isto é, o mos maiorum; 2- Essa audiência avalia suas consequências para a comunidade, julgando-a ‘boa’ ou ‘ruim’ em relação a um ou mais destes valores compartilhados. Tal ação passa a se constituir um ‘feito’ normativo, potencialmente capaz de transmitir valores ou estimular a imitação; 3- O feito, seu executante e o(s) julgamento(s) passam a ser comemorados, e assim disponibilizados a uma mais ampla audiência de contemporâneos e para a posteridade, através de um ou mais monumentos; 4- As pessoas que encontram tais monumentos, e assim sabem de um feito e sua recepção, são intimadas a aceitar tal feito como normativo - isto é, ou como um padrão moral para avaliar a ação de outros atores, ou como um modelo de ação para elas próprias imitarem ou evitarem. Estes expectadores podem, além disso, criar outro monumento para o feito, mesmo distante no tempo ou espaço. Certamente tais expectadores nem sempre concordam com os julgamentos que eles encontraram sedimentados no monumento original, podendo, por exemplo, analisar o feito de um modo oposto ao que foi representado (Roller, 2009).
Aceitando estas noções desenvolvidas por Roller (2009), podemos estabelecer uma relação entre estas operações e o Fórum de Augusto, pois este complexo arquitetônico, como um todo, possuía esta função pedagógica de instruir a população quanto ao caráter exemplar das personalidades da história romana selecionadas para figurar no Fórum. Tais exemplos presentes neste passado glorioso deveriam ser emulados, assim como o próprio Princeps, exemplo de maior destaque, já que toda a história contada em seu Fórum culminava nele, como o legítimo continuador deste passado:
A galeria de heróis de Augusto era um lugar de memória, mas significava acima de tudo um lugar de instrução. Ela exibia o passado, mas sua mensagem era para o presente e para o futuro (Geiger, 2008, p. 24).25
O Fórum, e mais precisamente o Templo de Marte Vingador localizado nele, comemorava os feitos do Princeps26, tanto a vingança aos assassinos de César, quanto a retomada dos estandartes que estavam em mãos partas; estes feitos possuíam estreita relação com os valores compartilhados então, dentre eles a pietas.
Além disso, a galeria de heróis, na qual Augusto dispôs estátuas honoríficas de importantes personalidades da história romana, também se relaciona com as operações de Roller (2009), na medida em que tais estátuas eram monumentos erigidos por Augusto que, em alguns casos, faziam menção ou mesmo substituíam outros já existentes e que, por sua vez, homenageavam grandes homens e seus feitos para a República. Além disso, como afirma Peter Stewart (2003), a quantidade de estátuas espalhadas por Roma, e principalmente na área capitolina, era tanta que Augusto removeu grande parte destas. No entanto, para este autor, o motivo da remoção destas estátuas se deveu não apenas ao fato de aquela região estar congestionada, mas também ao desejo do Imperador de limitar a autopromoção individual da aristocracia romana. Segundo Stewart, o Capitólio era o local mais privilegiado para a exibição estatuária, de forma que o mais provável é que “Augusto desejou remover as imagens de nobiles que não pertenciam ao passado reinventado e também, talvez, evitar a futura ereção de estátuas por potenciais rivais” (Stewart, 2003, p. 132).27
Sobre esta mesma temática, Geiger afirma que:
A reconstrução de Roma por Augusto incluiu, naturalmente, não só a restauração de edifícios públicos degradados e a construção de novos, mas também uma total reorganização do espaço urbano, a remoção da decadência e uma reestruturação de toda a área dos espaços públicos da cidade. É evidente que o estado desordenado das estátuas romanas teve que mudar: estátuas tiveram que ser removidas, arregimentadas, ou ambas. É aqui que a solução envolvendo o novo Fórum deve ter ocorrido a Augusto - ou a alguém próximo a ele. [...] Tem sido sugerido que a falta de espaço era apenas uma razão secundária, a motivação principal é que esse acúmulo desordenado não se conformava com o programa do seu Fórum (Geiger, 2008, p. 74-75, tradução nossa).28
Seja como for, o que ficou conhecido com a galeria dos heróis era a materialização arquitetônica de um dos aspectos ao qual Augusto ligou sua imagem ao longo de seu governo, ou seja, a valorização e restauração do mos maiorum e das antigas tradições, pois as estátuas honoríficas de importantes figuras republicanas o ligavam à história de Roma desde sua fundação, tal como ele a representou, seja por pertencer à mesma linhagem divina de Eneias e Rômulo, por exemplo, seja por possuir as mesmas virtudes que os summi uiri corporificavam, pois, como defende Brad Johnson (2001, p. 65), Augusto pode ter escolhido as pessoas que seriam representadas nos pórticos “[...] porque cada uma exemplificava uma ou mais das quatro virtudes que ele tinha sido homenageado29 por possuir, e sobre a qual aparentemente ele modelou sua vida”.30 De acordo com Alain M. Gowing,
Imagem e texto aqui trabalham juntos para apresentar uma memória relativamente fixa de um grupo muito seleto de homens; ambos os meios, escultura e inscrição, pela sua natureza sugerem um sentido de permanência e continuidade. [...] O objetivo da galeria, contudo, era colocar o novo Imperador e sua família num jogo visual com aqueles personagens republicanos com quem ele desejava ser mais intimamente associado [...] (Gowing, 2005, p. 139-145, tradução nossa).31
No que se refere aos summi uiri e suas virtudes, devemos lembrar que os mesmos encontravam-se dispostos em nichos retangulares na parede que fechava ambos os pórticos. Tais nichos ficavam posicionados entre colunas e possuíam as estátuas honoríficas, em mármore e de corpo inteiro, destes grandes homens vestidos, em sua grande maioria, com roupas triunfais. Abaixo de cada estátua um breve titulus continha o nome do indivíduo e um longo elogium que recontava os serviços de cada um para a República. Tanto os tituli quanto os elogia eram inscritos em mármore (Figura 2).

Como já afirmamos, a galeria dos summi uiri materializava parte da história de Roma, servindo como uma verdadeira aula sobre o passado glorioso da Vrbs.
Augusto produziu uma versão da história romana, que era ao mesmo tempo atraentemente acessível ao maior número possível de cidadãos, e que também apresentava a eles a interpretação correta dos acontecimentos. Era para ser uma história cuja moral não se perderia para ninguém. A sua função de instruir e ensinar as lições adequadas para o futuro não era para ser deixada ao acaso, mas era para ser expressa de forma claramente compreensível (Geiger, 2008, p. 71-72, tradução nossa).32
Como nos esclarece Josephine Shaya (2013), o Fórum de Augusto ofereceu o que talvez fosse a coisa mais próxima de uma lição formal de história romana que parte da população poderia encontrar. Esta autora lembra que na Roma Antiga
Os textos de história eram raros e difíceis, ou melhor, impossíveis, para a maioria ler. O Fórum de Augusto ofereceu outro tipo de história - história pública, visando uma ampla audiência dentro dos espaços públicos. Os seus materiais incluíam inscrições, imagens e construções; foi visto, ouvido e lido; seu público era todo mundo [...]. Como a própria criação do summi uiri mostra, a pessoa na rua estava interessada na história e conhecia histórias do passado em parte por causa do que ele ou ela ouviu e viu em espaços públicos (Shaya, 2013, p. 92, tradução nossa).33
Devido ao estado atual do Fórum, que se encontra em ruínas e sem ter sido completamente escavado, nós não podemos precisar o número exato de nichos e/ou das estátuas existentes nos pórticos, quando de sua inauguração no período de Augusto. Além disso, acredita-se que se tenha deixado nichos vazios para futuros ocupantes. Os fragmentos dos elogia, bem como as cópias34 encontradas em outras localidades nos permitem ter uma ideia do que estava escrito em algumas destas inscrições, de modo que Johnson afirma que:
Os elogia de vinte e oito indivíduos foram identificados a partir do Fórum. Este número, no entanto, reflete apenas os indivíduos cujas inscrições podem ser reconstruídas com confiança. As fontes literárias revelam que outros indivíduos foram homenageados no Fórum de Augusto, mas estes elogia não sobreviveram (Johnson, 2001, p. 7).35
Ainda de acordo com Johnson (2001) os elogia do Fórum de Augusto possuíam cinco características que podem ser assim identificadas: 1) nomenclatura; 2) lista de magistraturas exercidas; 3) conquistas militares; 4) realizações pessoais ou civis; e 5) programas de construção ou outras informações. Cada inscrição parece ter incluído, pelo menos, três dos componentes. Os dois primeiros, nomenclatura e magistraturas, provavelmente estavam presentes em todas as inscrições; os três restantes, no entanto, ocorreriam em várias combinações e com uma frequência variável.
Johnson (2001) explica cada uma dessas cinco seções que ele elencou em seu trabalho, de modo que, segundo ele, a nomenclatura de tais elogia segue a seguinte estrutura: os nomes são dados no nominativo, praenomina são abreviados, os gentilicia são fornecidos, e a filiação é indicada através do uso de patronímicos. Cognomina foram incluídos, e, em alguns casos, cognomina adicionais foram acrescentados na nomenclatura. As magistraturas listadas nos elogia que chegaram até nós, e aqueles que podem ser determinados a partir de outras fontes, revelam que a maior parte dos summi uiri desempenhou as funções mais importantes de Roma. É possível que sacerdotia tenham sido incluídos nos elogia, a fim de salientar a importância religiosa e as funções do Fórum. A terceira seção dos elogia se concentra nas conquistas militares dos summi uiri. Nesta seção, vitórias militares, batalhas importantes, a captura de cidades, a subjugação dos inimigos de Roma e a celebração de triunfos são mais frequentemente mencionadas.
Esta seção também registra as ações que foram realizadas em um contexto militar, mas que não aderem aos temas comuns citados anteriormente. A quarta seção dos elogia apresenta o que tem sido chamado de exemplum uirtutis. Este ‘exemplo de virtude’ foi a principal razão pela qual o indivíduo foi homenageado no Fórum com uma estátua acompanhada do elogium, e foi esse tipo de comportamento que Augusto desejou que os futuros líderes de Roma imitassem. O componente final dos elogia não é comum a todas as inscrições, mas naqueles que incluem esta parte, dois temas parecem ser comuns. Um lida com programas de construção patrocinados pelos summi uiri e o outro se concentra em honras especiais e posições que foram concedidas a determinados indivíduos (Johnson, 2001).
No que se refere às inscrições que ficavam abaixo das estátuas dos summi uiri é importante destacar que o fato de grande parte da população ser iletrada não diminuía a função didática e instrutiva do Fórum de Augusto, haja vista que tais inscrições poderiam ser lidas para uma audiência e assim ser compartilhadas com muitos. Além disso, muitos daqueles que não conseguiam ler as inscrições eram capazes de decodificar certas características iconográficas presentes em algumas estátuas, já que alguns motivos iconográficos eram amplamente difundidos e vistos como padrão na representação de algumas personalidades, como, por exemplo, a representação de Eneias carregando o pai no ombro e puxando o filho pela mão. Nesta mesma perspectiva, Shaya (2013) esclarece que:
Enquanto alguns espectadores podiam ler ou, pelo menos, juntar partes de inscrições, como os nomes, aqueles que não conseguiam fazer isso podiam ‘ler’ o tamanho dos textos, a iconografia das imagens, o número de textos e imagens, e a narrativa visual da vasta coleção ‘escrita’ na arquitetura do fórum (Shaya, 2013, p. 92, grifo do autor, tradução nossa).36
Com relação aos autores que teriam influenciado a escolha dos summi uiri, e a escrita dos elogia, podemos citar: Marco Terêncio Varrão, Cornélio Nepos e Tito Pompônio Ático, além de Tito Lívio e Virgílio:
A atividade dos quase contemporâneos Varrão, Nepos e Ático reflete a nova consciência histórica do fim da República. [...] Varrão e Nepos escolheram, cada um à sua maneira, lidar com centenas de figuras de várias esferas da vida, a política e militar sendo apenas uma, e não necessariamente a mais importante, entre elas, enquanto Ático, o amigo íntimo e conselheiro de aristocratas politicamente ativos, lidou com a genealogia da nobreza ou de alguns de seus membros escolhidos (Geiger, 2008, p. 36-37, tradução nossa).37
O trabalho de tais biógrafos teria, desta maneira, influenciado a escolha dos summi uiri e a escrita dos elogia, de forma que Johnson (2001), que trata sobre dois destes três biógrafos, Varrão e Ático, como possível fonte de inspiração, acredita que as obras destes dois biógrafos romanos e a forma de apresentação que eles empregaram podem ter influenciado a maneira em que a estatuária e as inscrições foram exibidas no Fórum.
T. J. Luce (1990), que trata sobre a relação entre a obra de Tito Lívio e o Fórum de Augusto, vê como certa a influência de um sobre o outro, e embora ressaltando que cada um foca em aspectos diferentes, o autor demonstra como eles se relacionam, afirmando, inclusive, que o Fórum de Augusto e a Ab Vrbe Condita foram os dois mais famosos monumentos à história republicana na era de Augusto (Luce, 1990). Este autor afirma também que
Em um ponto, em particular, Tito Lívio e Augusto estavam em acordo enfático: a história foi o grande repositório de exempla38 pelo qual se pode modelar a própria vida e com a qual se pode medir o valor das próprias contribuições. As observações de Lívio em seu prefácio (X) coincidem com a fé do Imperador no poder dos exempla na vida romana (Luce, 1990, p. 129, tradução nossa).39
No que se refere a Virgílio, Johnson (2001) defende que sua obra, Eneida, foi a que maior influência teria exercido sobre Augusto e a disposição dos summi uiri em seu Fórum, afirmando que podem ser vistas semelhanças entre passagens do livro seis e sete com o layout do Fórum.
Influências à parte, o Fórum de Augusto permitiu que um passado exemplar fosse disponibilizado à população por meio de um suporte perene, ou seja, em pedra, sendo facilmente visualizado por todos aqueles que buscavam o Fórum para as mais variadas atividades, se constituindo, assim, num lugar de memória, de instrução, de sociabilidade e de compartilhamento.
Considerações finais
O Fórum de Augusto expôs magistralmente uma história de Roma recriada pelo Princeps e pelos que o cercavam, na qual ele e sua família possuíam papel de destaque. A história romana materializada no seu Fórum, trazendo aos olhos de todos um passado exemplar, representado pelas estátuas honoríficas de grandes homens com seus elogia resumindo seus feitos, buscava manter vivo na memória de todos o nome de Augusto enquanto legítimo sucessor dos grandes homens do passado, de tal modo que ele figurava como o exemplo maior a ser seguido.
Com isso, as personalidades que foram escolhidas para figurar na galeria dos summi uiri deviam contribuir na associação da imagem de Augusto com as virtudes com as quais ele buscou se vincular ao longo de todo o seu governo. Em seu Fórum, Augusto figurava como o exemplo maior, aquele que superava a todos com seus feitos, com suas virtudes e com sua auctoritas.
O Fórum de Augusto e em seu interior o templo de Mars Vltor, representaram claramente uma importante característica que a arquitetura, especialmente dos edifícios públicos, possuía na Antiguidade, qual seja a de funcionar como lugar de memória, um lugar onde a memória é conservada, onde a memória trabalha de modo que seja evitado o esquecimento. Em se tratando do Fórum de Augusto, além de ser um lugar de memória, era também um lugar de instrução, que possibilitava a aquisição de conhecimentos acerca de um passado exemplar, selecionado e recriado por Augusto e seu grupo de apoio. Neste complexo arquitetônico, a imagem de Augusto estabelecia uma relação dupla com a memória, pois tanto se ligava com a história de Roma e a memória de um passado exemplar, que deveria ser emulado, quanto se projetava na memória das futuras gerações, inscrevendo seu nome e seus feitos na imortalidade, e assumindo o lugar de exemplo maior o ser imitado pelos vindouros.
Referências
Augustus. (1961). Res gestae divi Augusti. (F. W. Shipley, trad.). Harvard, UK: University Press.
Candau, J. (2011). Memória e identidade. (Maria Leticia Ferreira, trad.). São Paulo, SP: Contexto.
Favro, D. (1988). The roman forum and roman memory. Places, 5(1), 17-24.
Flower, H. I. (1996). Ancestor masks and aristocratic power in roman culture. Oxford, UK: Clarendon Press.
Galinsky, K. (1998). Augustan culture: an interpretive introduction. Princenton, NJ: Princeton University Press.
Geiger, J. (2008). The first hall of fame: a study of the statues in the forum Augustum. Leiden, NL: Brill.
Gowing, A. M. (2005). Empire and memory: the representation of the roman republic in imperial culture. Cambridge, UK: Cambridge University Press.
Haselberger, L. (2007). Urbem adornare: Rome’s urban metamorphosis under Augustus. Journal of Roman Archaelogy, 1(Suppl. 64), 6-288.
Johnson, B. (2001). The elogia of the Augustan forum (Dissertação de Mestrado). School of Graduate Studies, McMaster University, Hamilton, ON.
Luce, T. J. (1990). Livy, Augustus, and the Forum Augustum. In K. A. Raaflaub, & M. Toher (Ed.). Between republic and empire: interpretations of Augustus and his principate (p. 123-138). Berkeley, CA: University of California Press.
Orlin, E. (2002). Temples, religion, and politics in the roman republic. Boston, MA: Brill Academic Publishers.
Orlin, E. (2007). Augustan religion and the reshaping of roman memory. Arethusa, 40(1), 73-92.
Ovid. (1931). Fasti. (James G. Frazer, trad.). Harvard, UK: University Press .
Revell, L. (2009). Roman imperialism and local identities. Cambridge, UK: Cambridge University Press .
Rich, J. W. (1998). Augustus’ Parthian Honours: the temple of Mars Ultor and the arch in the Forum Romanum. Papers of British School of Rome, 1(66), 71-128.
Roller, M. B. (2009). The exemplary past in roman historiography and culture. In A. Feldherr (Ed.). The Cambridge companion to the Roman Historians (p. 214-230). Cambridge, UK: Cambridge University Press .
Scheid, J. (2003). Cults, myths, and politics at the beginning of the empire. In C. Ando (Ed.), Roman religion (p. 117-138). Edinburgh, UK: Edinburgh University Press.
Shaya, J. (2013). The public life of monuments: the summi viri of the forum of Augustus. American Journal of Archaeology, 117(1), 83-110.
Stamper, J. W. (2005). The architecture of roman temples: the republic to the middle empire. Cambridge, UK: Cambridge University Press .
Stewart, P. (2003). Statues in roman society: representation and response. New York, NY: Oxford University Press.
Suetonius. (1914). Life of Augustus. In G. Suetonius. Lives of the Caesars (J. C. Rolfe, trad.) London, UK: William Heinemann.
Sumi, G. S. (2005). Ceremony and power: performing politics in Rome between republic and empire. Michigan, MI: University of Michigan Press.
Vitruvius. (1960). The ten books on architecture (M. H. Morgan, trad.) New York, NY: Dover Publications.
Watkin, D. (2009). The roman forum. Cambridge, MA: Harvard University Press.
Zanker, P. (2005). Augusto y el poder de las imagines. Madrid, ES: Alianza Forma.
Notas
Autor notes