Servicios
Servicios
Buscar
Idiomas
P. Completa
Formação e identidade profissional: estímulos à investigação em história da Enfermagem
Helder Henriques
Helder Henriques
Formação e identidade profissional: estímulos à investigação em história da Enfermagem
Training and professional identity: encouragement to investigate the history of nursing
Formación e identidad profesional: estímulos a la investigación en la historia de la Enfermería
Acta Paulista de Enfermagem, vol. 31, núm. 4, 2018
Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo
resúmenes
secciones
referencias
imágenes
Carátula del artículo

Editorial

Formação e identidade profissional: estímulos à investigação em história da Enfermagem

Training and professional identity: encouragement to investigate the history of nursing

Formación e identidad profesional: estímulos a la investigación en la historia de la Enfermería


ORCID: http://orcid.org/0000-0002-0519-0304 Helder Henriques
Instituto Politécnico de Portalegre, Portugal
Universidade de Coimbra, Portugal
Acta Paulista de Enfermagem, vol. 31, núm. 4, 2018
Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo

A compreensão do processo de construção histórica de uma atividade profissional como a Enfermagem é elemento fundamental à afirmação da sua identidade. O propósito deste texto é precisamente chamar a atenção para tal facto e oferecer alguns estímulos conceptuais para se poder ampliar o trabalho em História da Enfermagem. Assim, que categorias devemos utilizar e desenvolver para estudar o processo de construção da identidade profissional da Enfermagem? Partimos do princípio de que o conceito de identidade profissional é um conceito plural de que fazem parte sujeitos, instituições educativas, contextos de trabalho, dinâmicas sociopolíticas, questões de género, influências religiosas e Estatais, pressões e conflitos internos e externos que obrigam a escolha e definição de estratégias identitárias que permitem a afirmação do grupo, com avanços e recuos, e a construção de uma jurisdição profissional.

O estudo de um grupo profissional como o da Enfermagem exige o recurso à construção de um modelo de análise capaz de evidenciar, de um modo sistémico, alguns dos aspetos que contribuíram para a sua construção e, deste modo, para encontrar, no passado da profissão, uma âncora de valorização identitária dos sujeitos que integram e desenvolvem a Enfermagem na atualidade. Consideramos que “a compreensão de um processo de construção identitário só pode ser interpretado, amplamente, se atendermos ao diálogo, à negociação e ao conflito com os diferentes participantes neste processo”.(1) Para tal, propomos um conjunto de categorias que podem constituir-se em elementos de apoio para a pesquisa dos processos de construção identitária da Enfermagem.

A análise socio-histórica do processo e das dinâmicas que possibilitaram a construção de um grupo profissional encontra-se ancorada a, pelo menos, três dimensões, dois campos de ação e quatro eixos de análise que devemos ter em conta no processo de investigação das dinâmicas de grupo e das identidades profissionais. No que respeita às três dimensões conceptuais, estamos a referir-nos à necessidade de pesquisar, por um lado, o papel do Estado, de acordo com os projetos políticos de uma determinada época, na influência sobre as trajetórias e as dinâmicas do grupo da Enfermagem; por outro lado, referimo-nos à dimensão científica, muitas vezes influenciada pelo Estado, em que se produzem e analisam os saberes – nomeadamente através das escolas de formação - potencialmente relacionados com o grupo da Enfermagem; e, ainda, a dimensão social em que se devem explorar as trajetórias dos indivíduos que escolheram tornar-se enfermeiras(os), nomeadamente aspetos de ordem socioeconómica, familiar e, sobretudo, aspetos relacionados com questões de mobilidade social capazes de influenciarem a definição dos caminhos percorridos pela Enfermagem.

As dimensões de análise anteriores integram-se em dois campos de ação centrais na compreensão dos processos de construção identitária: o campo formativo e o profissional. O Estado, a Ciência e a dimensão Social devem ser estudados como pêndulo no quadro da formação e da profissão. Centramo-nos, porém, no campo formativo uma vez que é nas escolas de enfermagem onde acontecem os processos de socialização, a incorporação de valores e apropriação de conhecimentos técnicos e científicos.

A formação “constitui um elemento central na organização, estruturação e afirmação dos grupos e identidades profissionais”.(1) Há uma relação de proximidade entre os processos formativos e a construção das identidades profissionais. Acompanhamos David Tavares quando afirma que é no âmbito formativo que são construídos “processos de socialização específicos”(2) que permitem ampliar a legitimidade, respeitabilidade e acreditação daquelas(es) que escolheram uma determinada formação e, consequentemente, um caminho profissional. Assim, a formação inicial representa um período estruturante para o exercício de uma atividade profissional, uma vez que é ali que se aprendem modos de estar, de agir e de fazer.

“O papel das instituições educativas no processo de emergência e consolidação de um grupo é fundamental dado que, além de assumirem uma lógica credencialista, possibilitam a construção de conhecimentos profissionais, a promoção de uma consciência de grupo e ainda o processo de desenvolvimento jurisdicional através do estabelecimento de relações de interdependência”.(3)

Na perspetiva da afirmação anterior, emergem quatro eixos de análise que permitem objetivar aquilo que já fomos afirmando: a jurisdição profissional, o credencialismo, o conhecimento e as normas e os valores. Estes são os eixos operatórios mais visíveis, entre outros possíveis, de um eventual trabalho de análise socio-histórica aplicado um grupo como a Enfermagem.

Entendemos que a jurisdição profissional corresponde àquilo a que podemos designar de um campo teórico e prático, com tarefas concretas, atos e conhecimentos (saberes) exclusivos, em que a formação é controlada e assumida pelos pares e em que se verifica uma aceitação estatal e social em relação ao que representam, pese embora a existência de muitas situações de tensão e confronto entre as diversas partes.(4)

O credencialismo pode ser definido como um ato de acreditação de um sujeito que pretende tornar-se enfermeira(o). De um modo simples, corresponde ao processo de averiguação das suas condições físicas, psicológicas ou morais, de forma a perceber se pode ou não integrar a instituição de formação e, consequentemente, o grupo da Enfermagem. Cabe à escola de formação a credenciação, por meio de licenças ou diplomas, dos sujeitos para o exercício daquela atividade em contexto social.

O conhecimento faz parte do processo anterior na medida em que, por um lado, é o saber científico que permite às instituições de formação medir ou verificar as capacidades dos sujeitos. Por outro lado, o conhecimento, tal como afirma Keith Macdonald, “fornece a base para a prática profissional”.(5) Além disso, é por meio da construção ou apropriação de saberes que os diferentes grupos conseguem resolver problemas sociais e alcançar maior respeitabilidade e uma jurisdição profissional mais estável.

Por fim, as normas e os valores, enquanto construções subjetivas, constituem outro eixo de análise operatório para se compreender como se foram construindo os sujeitos e o grupo da Enfermagem. Quais as referências que assumiram? Que crenças defenderam? De que modo as apropriaram ao contexto formativo? Como as externalizaram para o mundo do trabalho? Qual o papel do Estado na definição dos códigos axiológicos? Entre muitas outras questões possíveis.

Em suma, procuramos evidenciar, com este texto, um esquema de análise capaz de tornar mais clara a importância do conhecimento do passado de uma profissão como a Enfermagem e a necessidade de apostar nesse conhecimento enquanto âncora identitária capaz de valorizar e alcançar maior respeitabilidade social e estatal para a Enfermagem também no contexto Brasileiro. Esperamos que este pequeno texto, no âmbito do 30º aniversário da Acta Paulista de Enfermagem, possa estimular as(os) enfermeiras(os) a conhecerem mais e melhor o seu passado profissional.

Material suplementar
Referências
1. Henriques H. A Enfermagem em Portugal: formação e identidade profissional – A Escola de Enfermagem de Castelo Branco/Dr. Lopes Dias (1948-1988). Castelo Branco (Portugal): RVJ; 2018.
2. Tavares D. Escola e identidade profissional – O caso dos Técnicos de Cardiopneumologia. Lisboa: Edições Colibri/Instituto Politécnico de Lisboa; 2007.
3. Ferreira AG, Henriques HM. A formação de Enfermeiros/as e a emergência da Enfermagem em Portugal: décadas de 40 a 80 do século XX. EXEDRA. 2013; Supl.: 20-8.
4. Abbott A. The system of professions – An essay on the division of expert labor. Chicago: The University of Chicago Press; 1988.
5. MacDonald K. The Sociology of the professions. 2nd ed. London: Sage; 1999.
Notas
Buscar:
Contexto
Descargar
Todas
Imágenes
Visualizador XML-JATS4R. Desarrollado por Redalyc