Artigo de Revisão
Recepção: 27 Novembro 2020
Aprovação: 29 Setembro 2021
DOI: https://doi.org/10.37689/acta-ape/2022AR03543
Resumo
Objetivo: Mapear as medidas de segurança ocupacional recomendadas aos profissionais envolvidos no atendimento transoperatório de pacientes submetidos à Quimioterapia Intraperitoneal Hipertérmica.
Métodos: Estudo qualitativo com ênfase em scoping review, fundamentado no Instituto Joanna Briggs. Realizou-se buscas nas bases de dados Pubmed, BVS, ScIELO, Scopus, Web of Science, Google Scholar, The Chocrane Library e literatura cinzenta. Pergunta de pesquisa utilizou o acrônimo PCC: quais medidas de segurança ocupacional são necessárias no Centro Cirúrgico para profissionais que atuam, direta ou indiretamente, no transoperatório da HIPEC? A Busca de artigos ocorreu entre 2015 a 2019.
Resultados: Evidenciou-se escassa literatura sobre a temática. Selecionados dez artigos: uma revisão sistemática; dois casos-controle; dois estudos descritivos; quatro estudos de revisão bibliográfica; um relato de experiência. Análise dos artigos evidenciou as medidas de segurança recomendadas para profissionais que atuam direta ou indiretamente nesse procedimento cirúrgico, a saber: educação e capacitação da equipe envolvida; utilização de equipamentos de proteção individual e coletiva; oferecer infraestrutura e orientações gerais.
Conclusão: Medidas de segurança recomendadas para os profissionais envolvidos no atendimento transoperatório do paciente submetido à Quimioterapia Intraperitoneal Hipertérmica são: capacitação da equipe; utilização de equipamentos específicos de proteção individual e coletiva; infraestrutura necessária como ajuste do ar condicionado com pressão maior dentro da sala cirúrgica; e orientações gerais em relação à organização da sala cirúrgica, descarte dos resíduos, limpeza da sala/materiais utilizados e acompanhamento da saúde ocupacional da equipe envolvida em procedimento cirúrgico.
Palavras-chave: Saúde do trabalhador, Medidas de segurança, Riscos ocupacionais, Hipertermia induzida, Centros cirúrgicos, Tratamento farmacológico, Neoplasias peritoneais, Quimioterapia intraperitoneal hipertérmica.
Abstract
Objective: To map the occupational safety measures recommended to professionals involved in the intraoperative care of patients undergoing Hyperthermic Intraperitoneal Chemotherapy.
Methods: Qualitative scoping review based on the Joanna Briggs Institute. Searches were performed in Pubmed, VHL, ScIELO, Scopus, Web of Science, Google Scholar, The Chocrane Library databases and gray literature. The PCC acronym was used in the research question: what occupational safety measures are necessary in the operating room for professionals working directly or indirectly in the intraoperative period of HIPEC? A search for articles published between 2015 and 2019 was performed.
Results: Literature on the subject was scarce. Ten articles were selected: a systematic review; two control cases; two descriptive studies; four literature review studies; an experience report. In the analysis of articles, the recommended safety measures for professionals who work directly or indirectly in this surgical procedure was evidenced, namely: education and training of the staff involved; use of individual and collective protective equipment; provision of infrastructure and general guidelines.
Conclusion: Recommended safety measures for professionals involved in the intraoperative care of patients undergoing Hyperthermic Intraperitoneal Chemotherapy are: team training; use of specific individual and collective protection equipment; necessary infrastructure, such as adjusting the air conditioning to higher pressure inside the operating room; and general guidelines regarding the organization of the operating room, waste disposal, cleaning of the room/materials used, and monitoring of the occupational health of the team involved in the surgical procedure.
Keywords: Occupational health, Security measures, Occupational risks, Hyperthermia Induced, Surgicenters, Drug therapy, Peritoneal neoplasms, Hyperthermic intraperitoneal chemotherapy.
Resumen
Objetivo: Mapear las medidas de seguridad ocupacional recomendadas a los profesionales involucrados en la atención transoperatoria de pacientes sometidos a Quimioterapia Intraperitoneal Hipertérmica.
Métodos: Estudio cualitativo con énfasis en el scoping review, fundamentado en el Instituto Joanna Briggs. Se realizaron búsquedas en las bases de datos Pubmed, BVS, ScIELO, Scopus, Web of Science, Google Scholar, The Chocrane Library y literatura gris. Pregunta de encuesta utilizó el acrónimo PCC: ¿qué medidas de seguridad ocupacional se hacen necesarias en el Quirófano para profesionales que actúan, directa o indirectamente, en el transoperatorio de la HIPEC? La búsqueda de los artículos ocurrió entre el 2015 y el 2019.
Resultados: Se puso en evidencia una escasa literatura sobre la temática. Seleccionados diez artículos: una revisión sistemática; dos casos-control; dos estudios descriptivos; cuatro estudios de revisión bibliográfica; un relato de experiencia. Análisis de los artículos evidenció las medidas de seguridad recomendadas para profesionales que actúan directa o indirectamente en ese procedimiento quirúrgico, a saber: educación y capacitación del equipo involucrado; utilización de equipos de protección individual y colectiva; brindar infraestructura y orientaciones generales.
Conclusión: Representan medidas de seguridad recomendadas para los profesionales involucrados en la atención transoperatoria del paciente sometido a Quimioterapia Intraperitoneal Hipertérmica: capacitación del equipo; utilización de equipos específicos de protección individual y colectiva; infraestructura necesaria como ajuste del aire acondicionado con una presión más alta dentro del quirófano; y orientaciones generales con relación a la organización del quirófano, descarte de los deshechos, limpieza de la sala/materiales utilizados y acompañamiento de la salud ocupacional por el equipo involucrado en el procedimiento quirúrgico.
Palabras clave: Salud laboral, Medidas de seguridade, Riesgos laborales, Hipertermia inducida, Centros quirúrgicos, Quimioterapia, Neoplasias peritoneales, Quimioterapia intraperitoneal hipertérmica.
Introdução
Quimioterapia Intraperitoneal Hipertérmica (HIPEC) foi descrita em 1986 para tratamento de pacientes com pseudomixoma peritoneal e mesotelioma, tendo como desfecho melhora da sobrevida livre da doença.(1) Indicada para tratamento de carcinomatose peritoneal decorrente de neoplasias restritas ao peritônio, sem invasão do tecido linfático ou sanguíneo de cânceres primários do estômago, ovários e, principalmente, colorretal.(2,3) Associada à citorredução cirúrgica, melhora a qualidade de vida, sendo contraindicada para pacientes com mais de 65 anos e doenças associadas.(4)
A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (CONITEC) publicou, em Março de 2020, decisão de inclusão da citorredução associada à HIPEC no tratamento de mesotelioma peritoneal e pseudomixoma peritoneal no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).(5,6)
Citorredução cirúrgica completa realiza-se no Centro Cirúrgico (CC), precedendo à HIPEC, consistindo na retirada de toda carga tumoral visível da cavidade peritoneal.(4,7,8) Para determinar extensão e volume tumoral e se o paciente é elegível para HIPEC, o cirurgião realiza o Peritoneal Cancer Index (PCI) e no final da citorredução aplica The Completeness of Cytoreduction score para classificar extensão dos tumores não removidos.(9) Escore varia entre 0 e 3cm, sendo considerada citorredução completa quando valor igual ou inferior a 0,25cm. Caso volume tumoral seja maior, a HIPEC é contraindicada.(9)
No fim da citorredução, paciente é submetido à HIPEC com administração de agentes citotóxicos em alta temperatura (44ºC) na cavidade intraperitoneal(4) entre 60 a 120 minutos.(8) Administração intraperitoneal expõe células tumorais em contato direto com medicamento, com alta temperatura favorecendo a penetração do quimioterápico no meio intracelular, aumentando absorção e apresentando menos para efeitos quando comparada à terapia intravenosa convencional.(9,10) Fármacos utilizados variam conforme origem do tumor, podendo ser Metrotexato, Irinotecano, Doxorrubicina, Oxaliplatina, entre outras.(4) Técnicas a critério do cirurgião, sendo comuns a técnica aberta e a fechada.(4,11,12)
Medicamentos indicados no tratamento das neoplasias estão na “lista de medicamentos perigosos”, podendo durante a HIPEC contaminar, pelo contato direto ou indireto, a pele, olhos e inalação do quimioterápico (vapor causado pela elevação da temperatura).3,13
Estudos documentando exposição de profissionais aos efeitos tóxicos da manipulação de quimioterápicos datam de 1970, descrevendo presença desse tipo de medicamento na urina dos profissionais que administravam as terapias.(15,16) Quimioterápicos podem apresentar efeitos carcinogênicos nos profissionais expostos diariamente por um longo período de tempo.(15,16) A maior possibilidade de contaminação é pela manipulação inadequada(17) dos profissionais que participam do procedimento.
Frente aos potenciais riscos dos profissionais expostos ao atuar com medicamentos antineoplásicos e à escassa literatura em relação à segurança ocupacional dos profissionais que atuam nesse tipo de procedimento cirúrgico, este estudo objetivou mapear as medidas de segurança ocupacional recomendadas aos profissionais envolvidos no atendimento transoperatório de pacientes submetidos à HIPEC.
Métodos
Estudo qualitativo com ênfase em scoping review, fundamentado no Instituto Joanna Briggs. Esse permite fazer uma síntese do conhecimento mapeando os conceitos-chaves sobre o tema, possibilitando inclusão de estudos e artigos originais e não originais, além daqueles disponíveis na literatura cinzenta e inclusão de estudos a partir de buscas em bases de dados/plataforma.(18,19) Seu desenvolvimento ocorreu em nove etapas:(20) definição da questão de pesquisa e objetivos; definição dos critérios de elegibilidade; descrição da abordagem planejada, busca dos estudos, seleção, extração de dados e apresentação das evidências; designada a busca da evidência; seleção das evidências; extraindo a evidência; análise das evidências encontradas; apresentação dos resultados; e resumo das evidências em relação ao objetivo da revisão.(20)
Pergunta de pesquisa fundamenta-se no acrônimo PCC; “P” de população (profissionais atuantes em CC envolvidos no procedimento de HIPEC), “C” conceito (segurança ocupacional) e “C” contexto (cuidados necessários para segurança ocupacional no transoperatório).(18) Portanto, a pergunta de pesquisa foi: quais medidas de segurança ocupacional são necessárias no CC para profissionais que atuam, direta ou indiretamente, no transoperatório da HIPEC?
Realizou-se buscas entre setembro de 2019 e janeiro de 2020, na Pubmed, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Scientific Electronic Library Online (SciELO), Scopus, Web of Science, Google Scholar e The Chocrane Library.
Seleção dos termos controlados no Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH) acrescentados de termos não controlados. Selecionados no DeCS: hipertermia induzida, centro cirúrgico, tratamento farmacológico, saúde do trabalhador e neoplasias peritoneais. No MeSH: induced hyperthermia, surgicenters, drug therapy, occupational health e peritoneal neoplasms. Estratégia de busca definida com operadores booleanos AND e OR, combinados a termos não controlados relacionados à HIPEC e segurança ocupacional. Quadro um apresenta bases de dados com suas respectivas estratégias de busca (Quadro 1).

Os critérios de inclusão para seleção dos estudos foram: publicações entre 2015 a 2019; em inglês, espanhol e português; independente do delineamento; disponibilizados na íntegra gratuitamente em meio eletrônico. Consideraram-se critérios de exclusão: estudos abordando HIPEC em animais ou em crianças.
Realizaram-se buscas com o mapeamento de dados das fontes de evidências incluídas, registrando-os em uma tabela no Excel (Microsoft Office). Estudos avaliados por pares independentes. Seleção a partir da leitura do título, resumo e, após, texto na íntegra.
A revisão de escopo dispensa a avaliação de qualidade metodológica dos estudos incluídos. O método de tratamento e resumo dos dados foram mapeados conforme temática e seguiram-se as determinações do Preferred reporting items for systematic reviews and meta-analyses - extension for scoping reviews (PRISMA-ScR).(21)
Resultados
Encontraram-se inicialmente 1.153 estudos, a partir das buscas em base de dados e literatura cinzenta. Desses, 849 não atendiam aos critérios de elegibilidade. Ao final da seleção, totalizaram dez artigos incluídos na amostra conforme apresentado na figura 1.

Métodos dos artigos selecionados foram: uma revisão sistemática; dois casos-controle; dois estudos descritivos; quatro estudos de revisão bibliográfica e um relato de experiência. Ano das publicações: um 2019, três 2018, um 2017, três 2016 e dois 2015. Países das publicações: quatro França, três Espanha e um Grécia, Índia e Estados Unidos. Periódicos de publicação: dois no European Journal of Surgical Oncology e do Surgical Oncology; um em cada revista: Surgical Oncology Clinics, Toxicology Letters, Industrial Health, Medicina y Seguridad del Trabajo e Indian Journal of Surgical Oncology. O quadro 2 apresenta a síntese dos artigos selecionados.

Estudos descrevem as categorias: educação e capacitação da equipe envolvida na HIPEC; equipamentos de proteção individual e coletiva; infraestrutura e orientações gerais.
Discussão
Para realizar análise dos resultados e discuti-los, após leitura na íntegra os autores optaram classificar o material selecionado por categorias, conforme temas abordados, conforme apresentados a seguir.
Educação e capacitação da equipe envolvida na HIPEC
Todos estudos abordam a importância da capacitação da equipe envolvida no procedimento, não somente dos que assistem o paciente no intraoperatório, mas também dos profissionais que higienizam a sala cirúrgica após o procedimento, recolhem resíduos, realizam desinfecção dos instrumentais cirúrgicos e farmacêuticos que manipulam quimioterápicos.(2,3,12,13,22-27)
Dos dez estudos analisados, seis ressaltam a importância de abordar com a equipe não somente técnica cirúrgica, mas o desfecho esperado; medicamentos utilizados e indicação; via de administração; riscos associados ao procedimento, como minimizar exposição; e manejo de derramamentos e contato com o medicamento.(2,3,12,25-27) Outro estudo(25) traz a capacitação regular da equipe para revisão de processos e rotinas, disponibilização de manual com indicação de cada agente antineoplásico na sala cirúrgica e cuidados na manipulação. Três estudos sugerem desenvolver e disponibilizar protocolo quanto ao manejo de derramamento, respingo e possível contato com os fármacos.(12,25, 27)
Percebe-se como relevante a integração de todos profissionais no processo educacional para a realização da HIPEC, entretanto, atualmente, realiza-se de acordo com a categoria de trabalho. A Segurança do Trabalho é responsável pelas orientações relacionadas aos riscos laborais de todos profissionais envolvidos, portanto, há necessidade de integração entre os profissionais para homogeneizar as informações recebidas. O enfermeiro como gestor do CC pode ser o elo entre a equipe multiprofissional, orientando e supervisionando todos profissionais envolvidos, pois é o único profissional da equipe que tem a visão e acompanha todo o processo, pré, intra e pós-operatório.
Equipamentos de proteção individual e coletiva
Para evitar e minimizar a contaminação do piso da sala cirúrgica, em caso de derramamento ou respingo das drogas citotóxicas, indica-se toalhas absorventes e descartáveis no chão, em torno da mesa cirúrgica.(3,12,23,26)
Artigo(12)sugere utilização de campos estéreis descartáveis absorventes na maca cirúrgica na causalidade de ocorrer derramamento ou respingo de quimioterápico, e utilização dos mesmos EPI indicados à equipe assistencial para os profissionais que limpam a sala cirúrgica após o procedimento. Troca imediata de EPI após contato com agentes antineoplásicos.(25)
Na proteção individual, três estudos sugerem uso de avental cirúrgico impermeável e descartável (fechamento nas costas, mangas longas, elástico nos punhos) e óculos de proteção.(12,25,26) Protetor impermeável para sapatos é indicado em quatro artigos.(3,12,25,26) Dois orientam calçado totalmente fechado, de fácil limpeza e uso exclusivo na HIPEC.(25,26) Máscara mais adequada é do tipo filtragem de alta potência (FFP 2 ou 3) bem adaptada ao nariz e boca, garantindo segurança na inalação de quimioterápico, devido à vaporização gerada pelo aumento de temperatura, oferece proteção diante da fumaça cirúrgica gerada na citorredução, devendo ser trocada a cada duas horas.(25,27)
Quanto às luvas, a indicação diverge conforme a técnica, contudo é unânime contraindicação de luvas talcadas, visto que o pó aumenta a absorção do medicamento na pele.(22,23,26) Na técnica com abdômen fechado, recomenda-se que profissionais presentes na sala cirúrgica utilizem dois pares de luvas de látex, para cirurgiões a interna deve chegar ao cotovelo, enquanto a externa na altura do punho, com troca a cada 30 minutos.(3,12,25-27) Na técnica aberta sugerem uso de três luvas, uma vez que o cirurgião entra em contato direto com o quimioterápico na cavidade abdominal para espalhá-lo dentro do abdômen.(3,26)
Importante utilizar sistema fechado de perfusão de quimioterápico para o meio intraperitoneal, vestir perneiras descartáveis cobrindo sapatos, descartar a vestimenta da equipe e demais resíduos antes de sair da sala cirúrgica, na suspeita de contato do quimioterápico com as mãos, lavá-las dentro da sala com água corrente e sabão neutro.(26) A disponibilização de kit de derramamento de agentes químicos dentro da sala cirúrgica é recomendada.(3,26)
O uso de EPI pelos profissionais envolvidos no procedimento é considerado de extrema importância, principalmente pela utilização de medicamentos tóxicos e incomuns no CC. Observa-se na prática diária profissionais com dúvidas em relação a quais EPI são necessários, corroborando a essa insegurança soma-se a escassez de pesquisas sobre o tema. Geralmente são disponibilizados para os profissionais envolvidos no procedimento aventais descartáveis impermeáveis, óculos de proteção e máscara com filtragem de alta potência.
Infraestrutura
É sugerido ajustar ar condicionado com pressão maior dentro da sala cirúrgica.(3,12,25) Indica-se filtros do tipo particulado de ar de alta eficiência (HEPA).(25,27) Embora exista essa recomendação, na prática diária de alguns hospitais brasileiros observa-se a não utilização do filtro HEPA na sala onde se realiza esse tipo de procedimento.
Orientações gerais
Recomenda-se o fechamento das portas da sala cirúrgica durante a perfusão do quimioterápico na cavidade intraperitoneal(17,26) e identificar, no lado de fora, com placa indicando HIPEC em andamento.(2,12,25,26)
Ressalta-se a importância da preparação do quimioterápico em capela de fluxo laminar, utilização de seringa tipo luerlock (ponta de conexão com agulha em rosca) nos casos em que a medicação é transportada a fim de evitar respingos e uso de recipiente, identificado como material químico, à prova de vazamentos para transporte da quimioterapia.(25)Na prática institucional a manipulação de antineoplásicos é exclusivamente realizada por farmacêutico, com especialização em Oncologia, em capela de fluxo laminar. O transporte é realizado em recipiente exclusivo, com kit de derramamento, por profissional capacitado quanto a possível derramamento.
Sobre cuidados com a equipe envolvida no intraoperatório, orientam restrição de entrada de pessoas na sala cirúrgica durante o procedimento.(3,12,25) Seleção dos profissionais deve ser considerada não somente pela habilidade técnica, mas também a partir do histórico e estado de saúde atual, recomendando evitar a atuação de imunossupressores; grávidas; lactentes; mulheres com história de aborto ou nascimento de criança com má formação; com planos próximos para ter filho; história pregressa de doença hematológica; realização de tratamento quimioterápico ou radioterápico prévio; doença dermatológica severa; em tratamento com drogas imunossupressoras; alérgicos a quimioterápicos ou látex.(3,12,25,27) A equipe deve manter os cuidados quanto à exposição a fluídos corporais de pacientes submetido à HIPEC nas 48 horas seguintes ao procedimento.(12,25)
Manter registro dos profissionais expostos à quimioterapia durante o procedimento e na limpeza da sala, para fins de vigilância em saúde.(27) Outros três estudos reportam a importância da realização e acompanhamento, regulares, dos exames ocupacionais (cada 6 ou 12 meses) de toda equipe, com coleta de dados quanto à frequência de participação no procedimento e se ocorreu algum contato com quimioterápico.(3,12,25) Orienta-se encaminhamento breve para avaliação da Medicina Ocupacional do profissional que teve contato direto com agente antineoplásico; se contato for a pele, lavar com água corrente e sabão neutro; caso tenha sido nos olhos, lavar abundantemente com solução isotônica oftalmológica por 15 minutos. Os profissionais que atuam nas áreas onde há administração de antineoplásicos são avaliados semestralmente pela Medicina Ocupacional e também em caso de acidente com os medicamentos.(3)
Descarte dos resíduos gerados durante o procedimento deve ser realizado em reservatórios rígidos, à prova de vazamento, identificados com rótulo de “material químico”, tanto materiais cirúrgicos quanto roupas e campos cirúrgicos.(3,12,25) Estudo orienta seguir normas vigentes do órgão regulador em saúde do país quanto à identificação, descarte, recolhimento, armazenamento e transporte de resíduos químicos. Nas salas cirúrgicas, são disponibilizados reservatórios para descarte de resíduos de acordo com o risco biológico sendo manipulado somente pelos profissionais da higienização.(25)
Na limpeza da sala cirúrgica após o procedimento, sugere-se utilizar água e sabão neutro ou álcool isopropílico 70%, repetindo três vezes consecutivas.(3,12) Evitar uso de desinfetantes bactericidas, pois podem reagir com o agente quimioterápico.(12) Quanto aos instrumentais cirúrgicos, sugerem lavagem com água corrente e sabão neutro, três vezes consecutivas antes de retirá-los da sala de cirúrgica.(3,12) As equipes assistenciais e de higienização, passam por capacitação ministrada pela Engenharia de Segurança do Trabalho quanto ao adequado descarte de resíduos.
As orientações gerais apresentadas mostram a importância da atuação e envolvimento de toda equipe de profissionais na HIPEC, enfatizando a necessidade de educação.
Escassa produção e alguns artigos encontrados nas bases de dados não estavam disponíveis para leitura na íntegra, impossibilitando sua inclusão. Identificou-se pouca clareza na descrição metodológica de alguns estudos.
Fornece evidências para apoiar a tomada de decisão do enfermeiro, trazendo recomendações para prática diária dos CC que realizam esse tipo de procedimento, permitindo aprimorar a segurança dos profissionais.
Conclusão
Medidas recomendadas para segurança laboral dos profissionais envolvidos no transoperatório de pacientes submetidos à HIPEC: capacitação da equipe; utilização de equipamentos específicos de proteção individual e coletivos; infraestrutura necessária, como ajuste do ar condicionado com pressão maior dentro da sala cirúrgica; e orientações gerais em relação à organização da sala cirúrgica, descarte dos resíduos, limpeza da sala/materiais utilizados e acompanhamento da saúde ocupacional da equipe envolvida em procedimento cirúrgico.
Agradecimentos
À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS).
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Autor notes
Autor correspondente: Gabriela Bolsoni Riboli E-mail: gabiriboli@gmail.com
Declaração de interesses