Artigo

Efeitos da competitividade de mercado na relação entre responsabilidade social corporativa e desempenho

Effects of market competitiveness on the relationship between corporate social responsibility and performance

Larissa Degenhart
Universidade Federal de Santa Maria, Brazil
Vinicius Costa da Silva Zonatto
Universidade Federal de Santa Maria, Brazil
Victor Cepillo
Universidade Federal de Santa Maria, Brazil
William Nunes Giehl
Universidade Federal de Santa Maria, Brazil

Efeitos da competitividade de mercado na relação entre responsabilidade social corporativa e desempenho

Enfoque: Reflexão Contábil, vol. 42, núm. 1, pp. 69-86, 2023

Universidade Estadual de Maringá

Recepção: 31 Janeiro 2021

Revised document received: 06 Junho 2021

Aprovação: 10 Maio 2021

Financiamento

Fonte: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul

Fonte: Universidade Federal de Santa Maria

Número do contrato: 052409

Número do contrato: 19/2551-0001877-0

RESUMO: Esta pesquisa analisou os efeitos da competitividade de mercado na relação entre responsabilidade social corporativa e desempenho de mercado no período de 2010 a 2018. Realizou-se uma pesquisa descritiva, documental e quantitativa. A amostra compreendeu 41 empresas brasileiras. Os resultados indicaram que a RSC não está relacionada ao desempenho de mercado. Por outro lado, a RSC apresentou-se positivamente relacionada com o desempenho de mercado nas empresas com alta competitividade. Estes resultados revelam que a alta competitividade de mercado potencializa os investimentos em RSC e aumenta o desempenho. Quando considerados os efeitos da competitividade de mercado na relação analisada, foram confirmados os efeitos positivos dos investimentos sociais e ambientais no desempenho de mercado apenas das empresas com alta competitividade. Tais resultados sugerem que os investimentos em RSC contribuem para com o desempenho das empresas com alta competitividade. Ao apresentar a competitividade de mercado como fator relevante no contexto analisado, esta pesquisa contribui para a literatura que aborda a relação entre RSC e desempenho de mercado. Os achados evidenciam a importância de as empresas alocarem recursos para ações sociais e ambientais, pois tais investimentos tendem a melhorar o valor de mercado futuro, beneficiando as partes interessadas na empresa e o meio ambiente.

Palavras-chave: Responsabilidade Social Corporativa, Competitividade de mercado, Desempenho de mercado, Empresas brasileiras.

ABSTRACT: This research analyzed the effects of market competitiveness on the relationship between corporate social responsibility and market performance in the period from 2010 to 2018. A descriptive, documentary and quantitative research was carried out. The sample comprised 41 Brazilian companies. The results indicated that CSR is not related to market performance. On the other hand, CSR was positively related to market performance in highly competitive companies. These results reveal that the high market competitiveness enhances investments in CSR and increases performance. When considering the effects of market competitiveness in the relationship analyzed, the positive effects of social and environmental investments on market performance of only highly competitive companies were confirmed. These results suggest that investments in CSR contribute to the performance of companies with high competitiveness. By presenting market competitiveness as a relevant factor in the analyzed context, this research contributes to the literature that addresses the relationship between CSR and market performance. The findings show the importance of companies allocating resources for social and environmental actions, as such investments tend to improve future market value, benefiting stakeholders in the company and the environment.

Keywords: Corporate Social Responsibility, Market competitiveness, Market performance, Brazilian companies.

1 INTRODUÇÃO

As atividades das empresas relacionadas a questões ambientais, de direitos humanos, desenvolvimento da comunidade e bem-estar dos funcionários, podem ser consideradas ações de Responsabilidade Social Corporativa (RSC) (KIM; KIM; QIAN, 2018). Nesse sentido, a RSC pode ser aprimorada nas empresas por meio de variáveis estratégicas, como por exemplo, a competitividade de mercado e o compromisso organizacional (GALLARDO-VÁZQUEZ; SANCHEZ-HERNANDEZ, 2014), o que tende a impactar o desempenho. Contudo, até o momento não existe uma teoria unificada para explicar a relação entre RSC e desempenho (SHEIKH, 2018), adotando-se duas posturas (RYU; RYU; HWANG, 2016; SHEIKH, 2018).

Uma postura aborda que as atividades de RSC indicam um problema de agência para as empresas (SHEIKH, 2018). A teoria da agência (JENSEN; MECKLING, 1976) argumenta que a RSC é considerada um problema de agência (FRIEDMAN, 1970), pois um aumento nos investimentos em RSC pode ser consistente com a maximização do valor da empresa, mas por outro lado, se for uma resposta a mudanças nos interesses das partes interessadas, os gerentes podem investir em atividades de RSC para atrair benefícios privados (BARNEA; RUBIN, 2010). Portanto, conforme a visão da teoria da agência, os gestores podem utilizar a riqueza dos acionistas para desenvolver ações de RSC, com vistas a obterem o reconhecimento das partes interessadas a empresa (RYU; RYU; HWANG, 2016). Assim, os investimentos em RSC podem ser decorrentes de um comportamento oportunista dos gerentes e reduzir a riqueza dos acionistas (FRIEDMAN, 1970).

A postura oposta refere-se à teoria das partes interessadas (FREEMAN, 1984) e sugere que o investimento em RSC apoia a maximização do valor do acionista. A RSC é um investimento que aumenta o valor das empresas, pois equilibra os interesses das partes interessadas que influenciam nos recursos das empresas (FREEMAN, 1984). Quando as empresas levam em consideração os interesses das partes interessadas externas, as atividades de RSC tendem a influenciar positivamente os seus negócios (RYU; RYU; HWANG, 2016). Esta visão considera a RSC como um investimento estratégico que aumenta o valor da empresa e sua competitividade (SHEIKH, 2018). Além disso, os achados de Soares et al. (2018), revelaram que as empresas que captam mais recursos do mercado de capitais, os gestores devem proporcionar maior atenção ao ambiente institucional ao estabelecerem iniciativas e estratégias socioambientais. Logo, as práticas de RSC tendem a afetar o desempenho de mercado.

No entanto, a relação entre RSC e valor da empresa é considerada inconclusiva, pois estudos revelaram efeitos positivos e evidências na direção oposta (RYU; RYU; HWANG, 2016; BARDOS; ERTUGRUL; GAO, 2020). Encontraram-se evidências empíricas de resultados positivos (SERVAES; TAMAYO, 2013; NEKHILI et al., 2017; YOON; CHUNG, 2018; CHANG; SHIM; YI, 2019; BARDOS; ERTUGRUL; GAO, 2020; RJIBA; JAHMANE; ABID, 2020), negativos (BARNEA; RUBIN, 2010; LEE; SINGAL; KANG, 2013; KRÜGER, 2015; NEKHILI et al., 2017; SHEIKH, 2018) e sem significância (FREGUETE; NOSSA; FUNCHAL, 2015; TING, 2020; PERIA; SANTOS; MONTORO, 2020). Portanto, este estudo é motivado pelos resultados conflitantes apresentados na literatura.

Com vistas a avançar nas explicações sobre esta relação conflitante, propõem-se que a competitividade de mercado influencia a relação entre RSC e desempenho de mercado de empresas brasileiras, lacuna teórica que estimula o desenvolvimento desta pesquisa. Conforme Sheikh (2018) a competitividade de mercado pode auxiliar na explicação das situações nas quais a RSC pode ser considerada valiosa para as empresas. Deste modo, quando a competitividade de mercado é alta, as margens de lucro consequentemente são reduzidas e os gestores possuem menos recursos para utilizar em benefícios próprios (SHEIKH, 2018). Para tanto, a competitividade “pode ser vista como um dispositivo de controle externo que impõe disciplina aos gerentes” (SHEIKH, 2018, p. 40-41) e pode auxiliar na explicação da relação proposta. De acordo com Jiao e Shi (2014), a pressão exercida pela concorrência nos setores competitivos, faz com que os gestores tenham menos oportunidades para seguir os seus interesses e que são prejudiciais ao valor das empresas. Assim, os investimentos sociais resultam em incentivos à diferenciação de produtos, com expectativas de vantagens competitivas e maior desempenho (JIAO; SHI, 2014).

Por outro lado, a diminuição dos fluxos de caixa em função das margens de lucro reduzidas na intensa concorrência, faz com que as empresas invistam em outras atividades, mas que nem sempre são precificadas de forma correta pelo mercado de ações. Deste modo, a alta concorrência também pode reduzir o retorno diante da redução de custos e motivar o gerente a diminuir o investimento em atividades de RSC (SHEIKH, 2018). De acordo com Nekhili et al. (2017, p. 43), “a divulgação de RSC potencialmente fornece ao acionista informações críticas que podem ter implicações diretas nos fluxos de caixa e lucros futuros de uma empresa”. Deste modo, o efeito da competitividade na relação entre RSC e valor da empresa pode ser considerado incerto e uma questão (SHEIKH, 2018), que merece ser pesquisada.

O argumento central desta pesquisa é que o efeito da RSC sobre o desempenho de mercado das empresas pode variar, com base no grau de competitividade de mercado em que as empresas se encontram. Diante do contexto supracitado, esta pesquisa visa responder a seguinte questão: Quais os efeitos da competitividade de mercado na relação entre RSC e desempenho de mercado de empresas brasileiras? Para tanto, este estudo objetiva analisar os efeitos da competitividade de mercado na relação entre RSC e desempenho de mercado.

Justifica-se a realização desta pesquisa, pois ao contrário dos estudos realizados no Brasil sobre a relação entre RSC e desempenho, esta pesquisa considera um elemento importante de análise nesta relação e ainda não considerado em estudos desenvolvidos no contexto brasileiro, no caso o efeito moderador da competitividade de mercado, considerando empresas com alta e baixa competitividade. Justifica-se também, pois “dada a crescente importância da RSC nas atividades e gestão corporativa, este estudo tem implicações significativas para o papel da RSC nos mercados emergentes” (RYU; RYU; HWANG, 2016, p. 18). Outra justificativa parte dos argumentos de Han, Zhuangxiong e Jie (2018): as atividades socialmente responsáveis aumentam a receita e vantagem competitiva das empresas?, ou são apenas investimentos que visam melhorar a imagem e atender os interesses dos administradores?; Como a RSC influencia o desempenho da empresa? e, qual é o mecanismo por trás destas atividades de RSC?. Para tanto, “abordar as questões relacionadas à RSC possui significado teórico e prático (HAN; ZHUANGXIONG; JIE, 2018, p. 76).

Esta pesquisa contribui para a literatura sobre RSC e valor da empresa (DECLERCK; M’ZALI, 2012; JIAO; SHI, 2014), ao fornecer informações sobre como a divulgação dos investimentos em RSC afeta o valor da empresa. “Apesar da importância estratégica da divulgação de RSC para as partes interessadas externas, ainda não está claro o que os participantes do mercado (investidores e acionistas) atribuem às informações de RSC divulgadas pelas empresas” (NEKHILI et al., 2017, p. 42). A inconclusividade das evidências empíricas sugere a necessidade de determinar as condições sob as quais os acionistas atribuem valor relevante às informações de RSC. Deste modo, o estudo também contribui para a literatura relacionada a competitividade de mercado, enriquecendo o conhecimento sobre seus efeitos na relação entre RSC e desempenho de mercado.

Os resultados desta pesquisa também podem ser de interesse para investidores e reguladores, pois estão de certa forma preocupados com a relação existente entre empresas e a sociedade. Portanto, investir em empresas socialmente responsáveis requer o entendimento do porque as empresas se engajam em ações responsáveis com as partes internas, externas e ambientais. Além disso, “entender quais ações responsáveis são iniciadas sob restrições externas, como pressão competitiva, é o primeiro passo para o desenho de incentivos apropriados que levariam a um melhor bem-estar social” (DECLERCK; M’ZALI, 2012, p. 2-3). Ao apresentar a ação competitiva como uma contingência importante, este estudo contribui para a literatura sobre RSC e gestão estratégica (KIM; KIM; QIAN, 2018) e para a área contábil.

2 CONSTRUÇÃO TEÓRICA E HIPÓTESES DE PESQUISA

2.1 RSC E DESEMPENHO DE MERCADO

Diversas empresas de capital aberto têm utilizado práticas de RSC como uma estratégia para elevar os retornos aos seus acionistas (ALMEIDA-SANTOS et al., 2013). Nesse sentido, a RSC tem sido um tópico de importante discussão nas últimas três décadas e a maioria das pesquisas centram-se na seguinte pergunta: a RSC aumenta o valor da empresa?” (SHEIKH, 2018). A teoria da agência (JENSEN; MECKLING, 1976) considera a RSC como um investimento que diminui o valor da empresa e avalia como sendo um uso indevido dos recursos corporativos (FRIEDMAN, 1970), pois os gerentes podem utilizar tais recursos com vistas a melhorar a sua reputação e extrair recursos das empresas (BARNEA; RUBIN, 2010). Os resultados de estudos revelaram evidências a favor da visão da teoria da agência, sobre a relação entre a RSC e o desempenho de mercado, pois os achados desta relação foram negativos, ou seja, os investimentos em atividades de RSC (internas, externas e ambientais) diminuíram o valor de mercado das empresas analisadas (BARNEA; RUBIN, 2010; LEE; SINGAL; KANG, 2013; KRÜGER, 2015; NEKHILI et al., 2017; SHEIKH, 2018).

Barnea e Rubin (2010) sugerem que os insiders das empresas tendem a investir muito em atividades de RSC, pois não arcam com nenhum custo, mas sim, desfrutam dos benefícios de uma reputação pessoal benéfica perante a sociedade. Nas pesquisas de Lee, Singal e Kang (2013) e Sheikh (2018) um aumento nas preocupações de RSC reduz o valor da empresa. Krüger (2015) constatou que as atividades de RSC diminuem a riqueza dos acionistas e sugere a partir deste resultado, que os investidores respondem de forma negativa as divulgações de RSC, o que resulta em problemas de agência. Nekhili et al. (2017) analisou empresas familiares e não familiares e constatou uma relação negativa apenas para as empresas não familiares.

Por outro lado, as estratégias de uma empresa e seu impacto no desempenho são afetadas também por várias partes interessadas, como por exemplo, funcionários, proprietários, fornecedores, comunidade, entre outros (YOON; CHUNG, 2018). Deste modo, a teoria das partes interessadas (FREEMAN, 1984) aborda que o valor da empresa é influenciado pelas partes interessadas e sustenta que a RSC aprimora o valor da empresa equilibrando os interesses dessas partes. Esta teoria postula que o sucesso de uma empresa depende da sua capacidade de atender às expectativas das diversas partes interessadas e necessidades voltadas a informações (NEKHILI et al., 2017). Portanto, compreender e atender às necessidades dessas partes interessadas é importante para o sucesso das empresas (FREEMAN, 1984), sendo a divulgação de RSC em relatórios anuais ou de sustentabilidade uma oportunidade para as empresas atenderem à demanda de informações das partes interessadas (NEKHILI et al., 2017). Para Soares et al. (2018), os relatórios de sustentabilidade proporcionam um melhor diálogo entre acionistas e as empresas e um ambiente favorável para o desenvolvimento sustentável.

Nesse sentido, “se as empresas se engajarem em RSC principalmente para objetivos de longo prazo, estas obterão mais apoio e aprovação do mercado, assim como uma fonte de financiamento” (HAN; ZHUANGXIONG; JIE, 2018, p. 77). Logo, o desempenho das empresas em atividades de RSC por apresentar efeitos positivos no mercado de capitais (NEKHILI et al., 2017). Para tanto, também foram encontrados estudos com resultados positivos, a favor da visão da teoria das partes interessadas sobre RSC e desempenho (SERVAES; TAMAYO, 2013; NEKHILI et al., 2017; YOON; CHUNG, 2018; CHANG; SHIM; YI, 2019; BARDOS; ERTUGRUL; GAO, 2020; RJIBA; JAHMANE; ABID, 2020).

Servaes e Tamayo (2013) argumentam que as empresas que se engajam em atividades socialmente responsáveis, criam efeitos positivos de longo prazo, como o aumento do valor da empresa (Q de Tobin). Nekhili et al. (2017) revelaram efeitos positivos entre a RSC e o desempenho de mercado apenas para empresas familiares. No estudo de Yoon e Chung (2018), a RSC externa apresentou influência positiva no desempenho de mercado. As atividades de RSC internas não afetaram o desempenho. Contudo, os autores argumentam que tal relação pode ser potencializada com a competitividade do mercado. Os resultados de Chang, Shim e Yi (2019) indicaram que as atividades de RSC aumentam o valor das empresas localizadas apenas em países onde a liberdade de mídia é garantida. Bardos, Ertugrul e Gao (2020) revelaram que as práticas de RSC voltadas a comunidade e o meio ambiente, influenciam positivamente o desempenho de mercado, o que sugere que o cliente é uma parte interessada importante, por meio da qual a RSC cria valor para as empresas. De acordo com Rjiba, Jahmane e Abid (2020, p. 2), esta relação positiva “ocorre através do aumento do envolvimento das partes interessadas, resultante do compromisso de uma empresa em estabelecer relacionamentos de longo prazo com suas partes interessadas, com base na confiança e cooperação mútuas”.

Apesar das evidências positivas e negativas entre RSC e desempenho de mercado predominarem nos estudos encontrados na literatura, também foi identificado que as atividades de RSC não apresentam impacto no desempenho de mercado (FREGUETE; NOSSA; FUNCHAL, 2015; TING, 2020; PERIA; SANTOS; MONTORO, 2020). Na pesquisa de Freguete, Nossa e Funchal (2015), a variável Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), que correspondeu a RSC das empresas brasileiras, não apresentou efeito significativo nos desempenhos analisados (Lucro Antes dos Juros e Imposto de Renda (LAJIR), valor de mercado e market to book). Ting (2020) constatou que grandes empresas apenas comentam sobre investimentos em RSC em seus relatórios, contudo, tais divulgações não têm impacto no desempenho. Peria, Santos e Montoro (2020) encontraram uma relação positiva entre os investimentos em RSC e o desempenho de mercado das empresas brasileiras, no entanto, tal relação não se apresentou significativa, o que demonstra que os indicadores de RSC não exercem influência no desempenho financeiro e econômico (desempenho de mercado).

A discussão supracitada evidencia que os investimentos em RSC podem ter um efeito positivo, negativo e até mesmo não influenciar o desempenho. Contudo, postula-se nesta pesquisa que os investimentos em RSC tendem a influenciar positivamente o valor de mercado das empresas (Q de Tobin), corroborando assim, com a teoria das partes interessadas. Portanto, desenvolveu-se a seguinte hipótese: H1: A RSC influencia positivamente o desempenho de mercado da empresa.

2.2 COMPETITIVIDADE DE MERCADO, RSC E DESEMPENHO

As atividades de RSC de uma empresa, conforme Ryu, Ryu e Hwang (2016) podem ser consideradas um meio para aumentar a riqueza dos acionistas. Por outro lado, se estas atividades visam o atendimento das expectativas de outras partes interessadas e não os acionistas, esse cenário pode gerar problemas de agência e reduzir a riqueza dos acionistas (RYU; RYU; HWANG, 2016). As partes interessadas estabelecem normas nas organizações e avaliam o comportamento dos gerentes. Assim, executivos e gerentes corporativos devem atender às demandas e expectativas das diversas partes interessadas, fato este que pode aumentar o valor da empresa (YOON; CHUNG, 2018). De acordo com Han, Zhuangxiong e Jie (2018), a elevada competitividade de mercado pode fornecer disciplina externa no comportamento gerencial e deste modo, potencializar os efeitos da RSC no desempenho de mercado das empresas.

A teoria econômica também sugere que a competitividade de mercado impõe disciplina aos gerentes avessos ao risco e ao esforço para o atingimento de um melhor desempenho (SCHMIDT, 1997). Portanto, “a competitividade de mercado tem um impacto importante nos incentivos gerenciais e na folga organizacional” (SCHMIDT, 1997, p. 191). Schmidt (1997, p. 191) constatou que um aumento na competitividade de mercado “aumenta a probabilidade de liquidação, o que tem um efeito positivo sobre o esforço gerencial”, pois esta ameaça de liquidação da empresa força os gerentes a trabalharem duro para proteger seus empregos.

Ryu, Ryu e Hwang (2016) abordam que a RSC pode apresentar efeitos positivos ou negativos sobre a riqueza dos acionistas e uma possibilidade é que a competitividade de mercado pode alterar este efeito. De acordo com Sheikh (2018) a competitividade nos mercados tende a influenciar a relação entre RSC e o valor da empresa de maneiras diferentes. “Primeiro, a RSC ajuda as empresas a se diferenciarem quando a concorrência aumenta. Em mercados competitivos, qualquer vantagem competitiva resulta em maior participação de mercado” (SHEIKH, 2018, p. 42). “Segundo, as margens de lucro são escassas em mercados mais competitivos e há menos fluxos de caixa disponíveis para os gerentes desviarem para seus benefícios pessoais”. Deste modo, “qualquer investimento em RSC realizado pelos gerentes quando a concorrência é alta representa um esforço para aumentar o valor da empresa e proteger seus empregos” (SHEIKH, 2018, p. 42).

Fernández-Kranz e Santaló (2010) complementam que se as estratégias de RSC são realizadas em decorrência da busca por vantagem competitiva, então em um ambiente competitivo as empresas investem em ações de RSC para se diferenciar, conseguir acesso a novos mercados e até mesmo, para ajustar os produtos ou serviços com as preferências dos consumidores em mercados exclusivos. Ryu, Ryu e Hwang (2016) argumentam que os investimentos em RSC possuem maior probabilidade de ter um efeito negativo sobre a riqueza dos acionistas, quando a competição é acirrada. Isto ocorre pois, “sob forte concorrência, para garantir posições dominantes sobre os concorrentes, as empresas tendem a usar seus recursos para investimentos de RSC de longo prazo em vez de usar despesas ou fluxo de caixa ou investir em atividades com VPL positivo”. Contudo, “se os níveis de competitividade forem baixos, uma empresa pode ter como objetivo aumentar seu valor por meio da RSC como um investimento de longo prazo, usando seus fundos flexíveis”. Nesse sentido, as ações de RSC podem resolver problemas de fluxo de caixa que geralmente surgem em setores com baixa concorrência (RYU; RYU; HWANG, 2016, p. 19). Além disso, a competitividade pode provocar alterações importantes no que tange a composição dos ativos (MOURA; MECKING; SCARPIN, 2013), o que tende a influenciar nas práticas de RSC e no desempenho das empresas.

Evidências empíricas revelaram efeitos positivos da competitividade de mercado nos investimentos em RSC (FERNÁNDEZ-KRANZ; SANTALÓ, 2010; DECLERCK; M’ZALI, 2012). Fernández-Kranz e Santaló (2010) identificaram que as empresas em setores competitivos são mais propensas a se envolverem em atividades de RSC e apresentam um desempenho em RSC superior. Uma interpretação para esses resultados na visão dos autores é que os investimentos em RSC são escolhas estratégicas das empresas. Do mesmo modo, Declerck e M’Zali (2012) constataram que o engajamento em RSC é maior em mercados competitivos, resultado este, que sugere que a pressão competitiva, leva a um aumento das forças sociais, mas não necessariamente a uma diminuição das preocupações sociais. Assim, uma pressão competitiva intensa ocasiona mais investimentos em RSC.

Também foram localizados estudos internacionais que buscaram compreender os efeitos moderadores da competitividade de mercado na relação entre RSC e desempenho de mercado (JIAO; SHI, 2014; GALLARDO-VÁZQUEZ; SANCHEZ-HERNANDEZ, 2014; RYU; RYU; HWANG, 2016; HAN; ZHUANGXIONG; JIE, 2018; KIM; KIM; QIAN, 2018; SHEIKH, 2018), visto que no Brasil tal relacionamento é considerado incipiente e uma lacuna explorada nesta pesquisa. Os achados de Jiao e Shi (2014) revelaram que a RSC está positivamente relacionada ao valor da empresa em setores competitivos, mas não em setores não competitivos. Estes resultados conforme os autores, indicam que maiores investimentos em atividades de RSC, reduzem o risco de dificuldades financeiras na presença de pressões da concorrência. Portanto, os investimentos em RSC podem beneficiar o desempenho, se usados como estratégia de diferenciação do produto. Gallardo-Vázquez e Sanchez-Hernandez (2014) também confirmaram que a RSC desempenha papel importante no desempenho e no sucesso competitivo das empresas.

Ryu, Ryu e Hwang (2016) evidenciaram que a interação entre a RSC e o índice de competitividade de mercado (HHI) tem um efeito positivo sobre os retornos das ações apenas quando a competitividade é baixa. Os achados de Han, Zhuangxiong e Jie (2018) revelaram que os investimentos em RSC diminuem o desempenho das empresas (crescimento das vendas) apenas em setores não competitivos. Também constataram o efeito moderador positivo da competitividade na relação entre RSC e desempenho de empresas que se encontram em setores competitivos. Kim, Kim e Qian (2018) constataram que as atividades de RSC melhoram o desempenho da empresa (Q de Tobin) quando o nível de ação competitiva da empresa é alto. Por fim, os resultados do estudo de Sheikh (2018) indicaram que a RSC está positivamente relacionada ao valor de mercado apenas em mercados que apresentam alta competitividade.

Diante do exposto, propomos que a competitividade de mercado tende a moderar positivamente a relação entre a RSC e o desempenho de mercado medido pelo Q de Tobin, conforme a segunda hipótese do estudo: H2: A competitividade de mercado influencia positivamente a relação entre RSC e desempenho de mercado. Destaca-se que no contexto nacional tais efeitos ainda não foram investigados, fato este que estimula a realização de novas pesquisas sobre o tema no Brasil e avança em relação aos estudos nacionais que analisaram a relação entre a RSC e o desempenho de mercado. Em relação aos estudos internacionais supracitados, esta pesquisa avança as discussões sobre os efeitos moderadores da competitividade de mercado na relação entre RSC e desempenho de mercado, ao propor uma análise adicional considerando os investimentos em RSC de forma segregada (social e ambiental), com vistas a identificar se a competividade de mercado apresenta efeitos diferenciados quando analisados os investimentos sociais e ambientais das empresas brasileiras.

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Esta pesquisa objetivou analisar se a competitividade de mercado influencia a relação entre RSC e desempenho da empresa. Para tanto, desenvolveu-se pesquisa descritiva, documental e quantitativa, por meio da utilização da regressão de dados em painel. A população do estudo foi composta por 465 empresas listadas na Brasil Bolsa, Balcão (B3), sendo 104 empresas eliminadas por serem do setor financeiro, de seguros e outros, 89 empresas eliminadas por apresentarem valores discrepantes, consideradas outliers e 231 empresas foram também eliminadas por não divulgarem todas as informações necessárias para as variáveis de RSC no período analisado. Para tanto, a amostra compreendeu 41 empresas que divulgaram informações sobre os recursos destinados para as ações sociais (internas e externas) e ambientais no Balanço Social e no Relatório de Sustentabilidade, no período de 2010 a 2018.

Destaca-se que a grande maioria das empresas divulgaram os seus investimentos em atividades de RSC no Relatório de Sustentabilidade, conforme o padrão GRI (Global Reporting Initiative). As empresas financeiras, do setor de seguro, outros e as outliers foram excluídas da amostra, pois podem apresentar valores discrepantes no que tange ao desempenho de mercado e apresentar algum viés nos resultados. A investigação se concentrou em período de oito anos (2010 a 2018), com o objetivo de estabelecer um corte temporal capaz de contribuir para a literatura. Além disso, diversas pesquisas relacionadas as temáticas abordadas nesta pesquisa, analisaram um período superior a cinco anos (SHEIKH, 2018; YOON; CHUNG, 2018; BARDOS; ERTUGRUL; GAO, 2020; RJIBA; JAHMANE; ABID, 2020; TING, 2020).

A coleta dos dados sobre o desempenho de mercado (Q de Tobin), competitividade de mercado (HHI) e as variáveis de controle (Tamanho da empresa e Alavancagem financeira) foi realizada na base de dados Thomson Reuters®. As informações sobre a RSC das empresas foram coletadas nos Balanços Sociais das empresas ou nos Relatórios de Sustentabilidade. No Quadro 1 apresentam-se as variáveis utilizadas no estudo.

Variáveis utilizadas no estudo.
Quadro 1
Variáveis utilizadas no estudo.
VMAO: Valor de mercado das ações ordinárias; VMAP: Valor de mercado das ações preferenciais; VCD: Valor contábil da dívida; Fonte: Dados da pesquisa.

Para o desenvolvimento desta pesquisa, foram elaboradas três equações:


No primeiro modelo foi realizada uma regressão com todas as empresas da amostra, com vistas a responder a H1. Para a obtenção dos resultados do segundo modelo (H2), as empresas da amostra foram separadas em empresas com alta e baixa competitividade para analisar se a relação entre RSC e desempenho de mercado é influenciada pela competitividade de mercado das empresas da amostra. Além disso, foi desenvolvida uma análise complementar (modelo 3 - Tabela 4), com o intuito de analisar se o efeito da competitividade é potencializado pelas dimensões individuais da RSC, no caso interna e externa (social) e a dimensão ambiental.

Para avaliar o nível de competitividade de mercado das empresas analisadas utilizou-se como proxy o índice HHI (Herfindahl-Hirschman-Index), que é calculado somando as participações de mercado (market share) quadradas com base no ativo total de todas as empresas em um determinado setor (HOBERG; PHILLIPS, 2016). Quanto menor o índice, maior é a competitividade de mercado da empresa no setor. Por outro lado, um HHI mais alto indica menos competição no setor em que a empresa atua (JIAO; SHI, 2014). Calculou-se o índice por meio da seguinte equação, conforme o estudo de Moura et al (2019):


Onde, βi representa o percentual do ativo total da empresa i em relação ao total da amostra. Foram utilizados os valores do ativo total, assim como no estudo de Moura et al. (2019), pois o ativo total tem menor oscilação no decorrer dos períodos do que outras variáveis como por exemplo a receita operacional.

Após a realização do cálculo do HHI e considerando que o HHI tem um valor de 0 a 1 as empresas foram divididas da seguinte forma: empresas que apresentaram HHI até 0,50 foram consideradas empresas com alta competitividade e empresas com HHI acima de 0,51 foram avaliadas como empresas que possuem baixa competividade de mercado no setor em que atuam. Para tanto, no contexto analisado, as empresas que encontram-se em um setor com “alta competitividade” versus “baixa competitividade” estão em sentido relativo (ou seja, alta versus baixa competitividade) em vez de corresponder a empresas perfeitamente competitivas ou monopolistas. Este procedimento foi adotado por Jiao e Shi (2014) e Sheikh (2018), no contexto internacional e utilizado nesta pesquisa, visto que não foram localizados estudos no Brasil que utilizaram a variável competitividade de mercado de forma segregada (alta e baixa competitividade). Deste modo, esta pesquisa propõe a partir destes estudos internacionais, a utilização da variável HHI da forma proposta por estes autores, para a análise desta variável no âmbito de empresas brasileiras.

Para a realização da análise dos dados, considerou-se o teste de normalidade, a correlação de spearman entre as variáveis e a regressão de dados em painel, a partir dos softwares SPSS® e Stata®. Na sequência, apresenta-se a análise dos resultados.

4 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS

4.1 CORRELAÇÃO ENTRE AS VARIÁVEIS

Para analisar o objetivo do estudo, inicialmente realizou-se o teste de normalidade e a correlação de spearman. Os resultados do teste de normalidade revelaram que os dados não possuem uma distribuição normal, visto que o teste de Kolmogorov-Smirnov apresentou significância de 1%. Portanto, para realizar a análise da associação entre as variáveis, com vistas a identificar problemas de multicolinearidade, desenvolveu-se a correlação de spearman nos dados. A Tabela 1 apresenta os resultados da matriz de correlação das variáveis analisadas.

Tabela 1
Correlação de spearman entre as variáveis.
Correlação de spearman entre as variáveis.
**A correlação é significativa no nível de 1%. * A correlação é significativa no nível de 5%. Fonte: Dados da pesquisa.

Segundo os resultados apresentados na Tabela 1, nota-se que há existência de correlação entre a variável dependente e as variáveis independentes. No que tange ao desempenho de mercado (Q de Tobin), os resultados revelaram uma correlação positiva com o tamanho da empresa. Tais resultados sugerem que empresas maiores, tendem a apresentar maior desempenho de mercado futuro. Por outro lado, o Q de Tobin não apresentou correlação com a RSC, o que indica que os investimentos sociais realizados pelas empresas não influenciam para com o aumento do desempenho de mercado das empresas analisadas.

Este resultado contradiz os achados de Sheikh (2018), pois o autor evidenciou uma correlação positiva entre RSC e Q de Tobin. Contudo, na amostra analisada os efeitos da RSC no desempenho podem ser potencializados nas empresas que possuem alta competitividade de mercado. Esta proposição apenas pode ser confirmada com a aplicação da regressão nos dados. Além disso, no geral nota-se que nenhuma das correlações foi suficientemente forte para indicar problemas de multicolinearidade entre as variáveis analisadas no estudo.

4.2 ANÁLISE DA RELAÇÃO ENTRE RSC E DESEMPENHO DE MERCADO

O modelo de regressão utilizado para os três modelos do estudo, foi o modelo de efeitos fixos, uma vez que o teste de LM Breusch-Pagan e o teste de Hausman foram significativos a 5%. Na Tabela 2, apresentam-se os resultados que visam responder a H1, que refere-se a relação entre RSC e desempenho de mercado (Q de Tobin) de todas as empresas brasileiras da amostra.

Tabela 2
Efeitos da RSC no desempenho de mercado.
Efeitos da RSC no desempenho de mercado.
*Significância ao nível de 1%. ** Significância ao nível de 5%. Fonte: Dados da pesquisa.

Conforme os resultados apresentados na Tabela 2, evidencia-se que o coeficiente da variável RSC é positivo, indicando que um aumento nas preocupações e investimentos em RSC, aumenta o desempenho de mercado das empresas. Contudo, tal relação não apresentou significância estatística, fato este que permite rejeitar a H1 do estudo, que postula que a RSC influencia positivamente o desempenho de mercado. Este resultado assemelha-se aos achados de estudos desenvolvidos por Freguete, Nossa e Funchal (2015), Ting (2020) e Peria, Santos e Montoro (2020), pois também não evidenciaram uma relação significativa entre RSC e desempenho de mercado.

Para Freguete, Nossa e Funchal (2015, p. 233) “a literatura aponta para alguns benefícios de longo prazo trazidos pela RSC”. Argumentam que “em geral, a RSC está diretamente vinculada à sustentabilidade de longo prazo das empresas”, ou seja, ao seu valor de mercado (FREGUETE; NOSSA; FUNCHAL, 2015, p. 234). No entanto, estes argumentos não foram confirmados nesta análise inicial. Nekhili et al. (2017, p. 45) abordam que “o impacto potencial dos relatórios de RSC pode ser determinado pelas características das empresas que afetam simultaneamente o desempenho baseado no mercado (Q de Tobin)”. A partir deste argumento denota-se que a competitividade pode potencializar a relação entre RSC e desempenho.

4.3 ANÁLISE DA COMPETITIVIDADE NA RELAÇÃO ENTRE RSC E DESEMPENHO DE MERCADO

Na visão de Kim, Kin e Qian (2018, p. 1097) “a ação competitiva deve ser considerada como uma contingência importante que determina os efeitos das atividades de RSC no desempenho da empresa”. Portanto, para responder a H2, busca-se identificar se a competividade de mercado apresenta efeitos positivos na relação entre RSC e desempenho de mercado de empresas com alta e baixa competitividade, conforme apresentado na Tabela 3.

Tabela 3
Efeito da competitividade na relação entre RSC e desempenho de mercado.
Efeito da competitividade na relação entre RSC e desempenho de mercado.
*Significância ao nível de 1%. ** Significância ao nível de 5%. *** Significância ao nível de 10%. Fonte: Dados da pesquisa.

Os resultados da Tabela 3, revelam que o coeficiente de RSC é positivo e significativo ao nível de 5% na amostra de empresas com alta competitividade de mercado. No entanto, o coeficiente de RSC não é estatisticamente significativo na amostra de empresas com baixa competividade, indicando que a RSC não está relacionada ao valor da empresa em mercados que apresentam baixa concorrência. Uma interpretação para a RSC e o efeito moderador da competitividade não apresentar impactos no valor de mercado das empresas que enfrentam baixa competitividade é apresentada por Ryu, Ryu e Hwang (2016, p. 24), pois abordam que “em um ambiente de baixa competitividade de mercado, a RSC não desempenha necessariamente o papel de um plano geral de investimento”.

Os achados apresentados na Tabela 3 dão suporte à H2, mostrando que a competividade nos mercados influencia positivamente a relação entre RSC e desempenho de mercado das empresas, visto que o coeficiente da interação RSC*HHI apresentou-se positivo e significativo. No entanto, apenas em empresas que se encontram em ambientes com alta competitividade. Este resultado indica que a RSC está relacionada ao valor de mercado da empresa em mercados com alta competitividade. No geral, os resultados sugerem que a RSC é um investimento que aumenta o valor de mercado, quando os gerentes levam em consideração a competitividade das empresas no setor em que atuam. Os investimentos em RSC podem representar um uso estratégico de recursos sob pressões da concorrência e que aumentam o desempenho. Além disso, conforme Almeida-Santos et al. (2013), uma forte RSC pode ser considerada um diferencial para que as empresas consigam conquistar novos acionistas no mercado de capitais.

Os achados encontrados por Jiao e Shi (2014), Gallardo-Vázquez e Sanchez-Hernandez (2014), Han, Zhuangxiong e Jie (2018), Kim, Kim e Qian (2018) e Sheikh (2018), convergem com os resultados encontrados na Tabela 3, pois a interação entre RSC e HHI apresentou-se positiva e significativa nas empresas com um nível de competitividade de mercado alto e assim, impactando o desempenho de mercado. Portanto, a concorrência acirrada pode induzir as organizações a investirem em ações de RSC como um diferencial competitivo e, dessa forma, afetar o seu desempenho. De acordo com Han, Zhuangxiong e Jie (2018) este resultado é consistente com o argumento teórico de que a competitividade de mercado pode fornecer disciplina externa eficaz no comportamento dos gestores das empresas. Schmidt (1997) argumenta que os gestores que enfrentam alta competividade no setor em que a empresa está inserida, tendem a se esforçar mais, com o intuito de elevar o desempenho das empresas.

Diante destes resultados, denota-se que na visão estratégica da RSC, as empresas que atuam em ambientes competitivos, possuem maiores incentivos para investir em ações sociais, ou seja, internas, externas e ambientais (DECLERCK; M’ZALI, 2012). Conforme Jiao e Shi (2014), a diferenciação de produtos por meio de investimentos em RSC melhora o desempenho de uma empresa no mercado, apenas quando tais investimentos são impulsionados por incentivos à concorrência no mercado. Além disso, sugerem que maiores investimentos em RSC, minimizam o risco de dificuldades financeiras quando a competitividade é alta. Nesse sentido, os recursos destinados para as atividades sociais e ambientais tendem a beneficiar o desempenho de mercado, quando utilizados como parte da estratégia da empresa (JIAO; SHI, 2014). Fernández-Kranz e Santaló (2010) abordam que em ambientes mais competitivos, a vantagem competitiva adquirida pelos concorrentes pode facilitar e até mesmo corresponder a aumentos na participação de mercado. Argumentos estes, constatados nesta pesquisa.

Portanto, as análises empíricas indicam que a competitividade de mercado, desempenha um papel significativo para explicar a relação entre os recursos destinados para as práticas de RSC de uma empresa e seu desempenho de mercado. Estes resultados confirmam que os investimentos em RSC são importantes para o desempenho e sucesso competitivo das empresas (GALLARDO-VÁZQUEZ; SANCHEZ-HERNANDEZ, 2014). Com base no significado do Q de Tobin, os achados revelam que as empresas com investimentos em RSC devem desfrutar de um lucro maior quando a ação competitiva é alta (KIM; KIM; QIAN, 2018). Além disso, os resultados desta pesquisa estão de acordo com a teoria das partes interessadas, pois o efeito foi positivo entre a RSC e o valor de mercado, quando a competitividade do mercado é alta. Esta teoria (FREEMAN, 1984), aponta que a RSC pode aumentar a riqueza do acionista e nesta pesquisa esta riqueza tende a ser potencializada pela competitividade de mercado.

No geral, estes resultados possibilitam um melhor entendimento das contingências presentes na relação entre RSC e valor de mercado e quando a RSC é financeiramente benéfica para as empresas (KIM; KIM; QIAN, 2018). Para tanto, a implantação de atividades de RSC se torna uma parte importante da competitividade empresarial (MELO; PIÃO; CAMPOS-SILVA, 2019), pois esta desempenha um papel relevante de governança corporativa interna, ao “disciplinar o propósito de autosserviço da administração das empresas” (HAN; ZHUANGXIONG; JIE, 2018, p. 88).

4.4 ANÁLISE DA COMPETITIVIDADE NA RELAÇÃO ENTRE RSC E DESEMPENHO DE MERCADO: DIMENSÃO SOCIAL X AMBIENTAL

Nesta análise adicional, considerou-se de forma individual as dimensões de RSC: interna, externa e ambiental, com vistas a verificar se o efeito da competitividade de mercado é impulsionado por uma dessas dimensões da RSC. Os resultados são apresentados na Tabela 4.

Tabela 4
Efeito da competitividade na relação entre RSC e desempenho de mercado.
Efeito da competitividade na relação entre RSC e desempenho de mercado.
*Significância ao nível de 1%. ** Significância ao nível de 5%. *** Significância ao nível de 10%. Fonte: Dados da pesquisa.

De acordo com os resultados apresentados na Tabela 4, nota-se que os investimentos sociais externos de RSC, influenciam positivamente o valor de mercado futuro, apenas das empresas com alta competitividade de mercado. Estes achados sugerem que as ações realizadas pelas empresas para a sociedade impulsionam positivamente o desempenho de mercado de empresas com alta competitividade. Os resultados também mostram que o efeito geral (Tabela 2) e individual (Tabela 4) da RSC, não é impulsionado por dimensões sociais e ambientais nas empresas com baixa competitividade de mercado. A partir deste resultado, Yoon e Chung (2018), destacam que os investimentos sociais externos relacionados as práticas de RSC, tendem a melhorar o reconhecimento da marca, a satisfação do cliente e assim, elevar o valor de mercado futuro de uma empresa. Estes argumentos explicam a RSC externa apresentar efeitos positivos no valor de mercado das empresas com alta competitividade de mercado.

Segundo Servaes e Tamayo (2013), o Q de Tobin captura quanto valor a empresa cria com seus ativos. Argumentam que é possível que uma empresa utilize lucratividade atual para se envolver em atividades de RSC, que são do interesse de longo prazo da empresa. Logo, o efeito da RSC sobre o desempenho de mercado tende a ser positivo. Han, Zhuangxiong e Jie (2018, p. 77) complementam que “o sucesso de uma empresa depende muito de sua capacidade de atender às expectativas das partes interessadas e de atender às suas diversas necessidades relacionadas a informações”. Conforme os resultados encontrados, a RSC pode contribuir com este sucesso e impactar positivamente o valor de mercado das empresas.

Outro resultado que merece destaque, sendo o principal desta análise adicional, é que os coeficientes de RSC (social e ambiental) são positivos e significativos com a interação da competitividade de mercado, apenas quando a concorrência no mercado é alta e não são significativos quando a concorrência é baixa. Tais resultados sugerem que a competitividade potencializa as práticas sociais (internas e externas) e ambientais de RSC e juntas elevam o desempenho de mercado das empresas que atuam em setores com alta competitividade. De acordo com Leonardo, Abbas e Bulla (2013), embora os gastos com atividades ambientais e sociais sejam elevados, são considerados de fundamental importância para assegurar os valores futuros e a rentabilidade das empresas. E nesta pesquisa, potencializados pela competitividade.

No geral, os achados encontrados apoiam a noção de que as empresas em setores competitivos se beneficiam mais com a RSC, do que as empresas em setores menos competitivos, argumentos estes que vão ao encontro dos achados de Jiao e Shi (2014) e Sheikh (2018). Assim, os investimentos realizados na dimensão social (recursos destinados para a comunidade, diversidade e relações com funcionários) e na dimensão ambiental (investimentos destinados pelas empresas para a minimização dos impactos ambientais das suas atividades) (SHEIKH, 2018; PERIA; SANTOS; MONTORO, 2020), são impulsionados pela alta competitividade de mercado e afetam positivamente o Q de Tobin das empresas.

Destaca-se que em relação as variáveis de controle, nos três modelos analisados, o tamanho relacionou-se positivamente e a alavancagem financeira negativamente com o desempenho de mercado nas empresas que enfrentam alta competitividade. Uma justificativa para este resultado pauta-se nos argumentos de Nekhili et al. (2017), pois a alavancagem financeira é um fator que influencia as decisões de divulgar informações sobre as atividades de RSC. Deste modo, empresas mais endividadas são motivadas a considerar as expectativas dos credores em relação às informações de RSC. Além disso, as grandes empresas enfrentam uma maior demanda por comunicação e, portanto, têm mais incentivos para destinar recursos a práticas de RSC internas, externas e ambientais (NEKHILI et al., 2017).

4.5 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS E IMPLICAÇÕES

O argumento central desta pesquisa é que a competitividade de mercado é considerada uma contingência importante e que merece atenção ao se analisar a relação entre RSC e valor de mercado, pois a competitividade e as práticas de RSC são questões críticas para as empresas, que reforçam suas posições competitivas e ajudam a cumprir suas responsabilidades econômicas e éticas (KIM; KIM; QIAN, 2018). A RSC enfatiza um conjunto de ações voluntárias que objetivam o benefício social e a manutenção da reputação e competitividade da empresa (MELO; PIÃO; CAMPOS-SILVA, 2019). Deste modo, os fatores que mantêm a empresa competitiva em seu setor devem ser considerados, para que o benefício relacionado com o desempenho responsável seja contínuo (MELO; PIÃO; CAMPOS-SILVA, 2019).

Os resultados revelaram que a RSC não influencia o desempenho de mercado das empresas da amostra. Justifica-se este resultado, pois conforme Nekhili et al. (2017, p. 48), “algumas empresas podem responder oportunisticamente à pressão das partes interessadas participando de uma comunicação simbólica de questões de RSC sem abordá-las substancialmente em ações”. Por outro lado, quando analisadas as empresas com alta e baixa competitividade de mercado, os efeitos da RSC no desempenho, medido pelo Q de Tobin foram positivos e significativos apenas na amostra de empresas que enfrentam alta competitividade de mercado no setor em que atuam. Estes resultados revelam que a divulgação do compromisso da empresa com práticas de RSC, pode ser considerada um sinal positivo para as partes interessadas nas empresas com alta competitividade. Para Nekhili et al. (2017), os acionistas podem considerar a divulgação das ações de RSC e como as empresas minimizam os impactos das suas atividades, como condições essenciais para uma boa governança corporativa, o que consequentemente influencia positivamente o valor de mercado. Estes resultados também sugerem que a disciplina externa imposta pela alta competitividade, faz da RSC um valor que aumenta o investimento nas empresas e o seu desempenho de mercado (SHEIKH, 2018).

As descobertas desta pesquisa são consistentes com estudos anteriores, como os desenvolvidos por Jiao e Shi (2014), Gallardo-Vázquez e Sanchez-Hernandez (2014), Han, Zhuangxiong e Jie (2018), Kim, Kim e Qian (2018) e Sheikh (2018), pois demonstraram que os participantes do mercado financeiro, levam em consideração a RSC e a competitividade de mercado ao avaliar o valor futuro de uma empresa. Este resultado sugere que a competitividade depende de sua abordagem em relação à RSC nas empresas, sendo o ambiente de negócios relevante no relacionamento entre RSC e desempenho de mercado (MALETIČ; MALETIČ; GOMIŠČEK, 2018). Assim, “uma ação por meio de práticas responsáveis com fornecedores, clientes e a comunidade tem um efeito direto nos principais aspectos do ambiente competitivo da empresa” (MELO; PIÃO; CAMPOS-SILVA, 2019, p. 726).

Os resultados encontrados podem ter ocorrido por razões destacadas por Sheikh (2018). O autor aborda que a RSC auxilia as empresas a se diferenciarem quando a concorrência é alta. Em setores competitivos as vantagens competitivas resultam em maior participação de mercado. As margens de lucro são menores em mercados competitivos o que faz com que os gestores atuam nas organizações de forma ética e não oportunista, buscando investir em práticas de RSC com vistas a aumentar o valor de mercado da empresa que atuam (SHEIKH, 2018). Deste modo, “devido à grande pressão de sobrevivência e ao risco de demissão em setores com competição acirrada, os administradores tendem a melhorar sua eficiência de gestão e são menos propensos a investir em excesso para benefícios privados” (HAN; ZHUANGXIONG; JIE, 2018, p. 77). Para tanto, “qualquer investimento em RSC realizado pelos gerentes quando a concorrência é alta representa um esforço para aumentar o valor da empresa” (SHEIKH, 2018, p. 42). Empresas em ambientes competitivos buscam investir em RSC para conseguir vantagens competitivas e elevar o seu desempenho (FERNÁNDEZ-KRANZ; SANTALÓ, 2010).

Os resultados da análise adicional revelaram que os investimentos em RSC externa auferem impactos positivos no desempenho de mercado das empresas com alta competitividade. Esse achado é consistente com o estudo de Yoon e Chung (2018). No entanto, quando considerados os efeitos da competitividade na relação entre cada uma das dimensões de RSC (interna, externa e ambiental) no desempenho de mercado, constatou-se que o efeito da competividade de mercado na relação entre RSC e valor de mercado é impulsionado positivamente pelas três dimensões da RSC em empresas com alta competitividade. Este achado sugere que as empresas que atuam em setores com alta competitividade investem em práticas de RSC interna, externas e ambientais. Deste modo, as iniciativas das empresas com alta competitividade de mercado para com as partes interessadas internas (funcionários, gerentes, proprietários), externas (consumidores e comunidade) e ambientais (minimização dos impactos negativos gerados ao meio ambiente) são eficazes para aumentar a avaliação do desempenho de mercado de longo prazo das empresas que enfrentam alta competitividade de mercado. Resultados semelhantes foram os encontrados por Jiao e Shi (2014) e Sheikh (2018).

No que tange os resultados das iniciativas de RSC voltadas as questões ambientais, a competitividade e o valor de mercado, Leonardo, Abbas e Bulla (2013) explicam que a questão ambiental impõe modificações nas empresas e tais alterações podem ser atribuídas pelas oportunidades de negócio proporcionadas pela exigência de um mercado ambientalmente sustentável, necessidade de investimentos adicionais, entre outros fatores, que devem estar em conformidade com a legislação ambiental, competitividade e imagem da empresa. Tais argumentos justificam os resultados encontrados na análise adicional proposta no estudo.

No geral, os resultados desta pesquisa estão em linha com a teoria das partes interessadas, pois aborda que a RSC afeta positivamente a riqueza dos acionistas, pois o foco nas partes interessadas, aumenta a sua disposição de apoiar as operações das empresas (FREEMAN, 1984; BARDOS; ERTUGRUL; GAO, 2020). Para Han, Zhuangxiong e Jie (2018, p. 77) “a teoria das partes interessadas sugere que se os gerentes usarem a RSC como um dispositivo estratégico para satisfazer outras partes interessadas e aliviar conflitos, então o desempenho da empresa pode ser positivamente associado ao engajamento em RSC”.

Os resultados deste estudo avançam a literatura sobre a relação entre RSC e desempenho de mercado. O argumento teórico e os achados empíricos enfatizam que explorar os efeitos da RSC em relação a competitividade de mercado é importante para apresentar o mecanismo pelo qual a RSC afeta o valor da empresa. A utilização da competitividade para avaliar a relação entre RSC e desempenho de mercado é considerada incipiente nas pesquisas realizadas no Brasil, pois não foram encontrados estudos que analisaram os efeitos moderadores da competitividade de mercado na relação proposta. Para tanto, os resultados desta pesquisa incorporam novas evidências empíricas no contexto brasileiro. Este estudo lança uma nova luz sobre as implicações da RSC no valor de mercado das empresas brasileiras, pois com a análise da competitividade na relação entre RSC e valor de mercado, esta pesquisa auxilia os pesquisadores a entender melhor como a competitividade de mercado pode potencializar esta relação que ainda apresenta resultados mistos na contemporaneidade.

Este estudo contribui para gerentes de empresas, pois ao formular e implementar estratégias de RSC, devem estar atentos a competitividade do mercado, visto o seu potencial de aumentar os recursos destinados as práticas de RSC e seus efeitos positivos no desempenho de mercado das empresas. Servaes e Tamayo (2013, p. 1058-1059) consideram que “se uma empresa se engaja na RSC, mas não opera em um ambiente intensivo de competitividade de mercado, sua gestão deve reconsiderar seus esforços de RSC ou buscar oportunidades para aumentar os benefícios da RSC, por exemplo, disseminando informações sobre seus esforços de RSC”. Os achados desta pesquisa também são relevantes para os investidores que auxiliam na decisão, se as empresas devem ou não apoiar iniciativas de RSC (SERVAES; TAMAYO, 2013) em ambientes com alta competitividade. Por fim, esta pesquisa “confirma a visão de que, para entender completamente em que circunstâncias as atividades de RSC aumentam o valor da empresa, precisamos nos concentrar nos efeitos moderadores de outras variáveis na relação RSC-valor da empresa” (SERVAES; TAMAYO, 2013, p. 1059).

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante das controvérsias nos resultados da relação entre a RSC e o desempenho de mercado, esta pesquisa foi motivada a analisar os efeitos da competitividade de mercado na relação entre RSC e valor de mercado das empresas brasileiras no período entre 2010 a 2018. A primeira hipótese do estudo (H1) previa que a RSC influencia positivamente o desempenho de mercado da empresa. No entanto, os resultados revelaram que a RSC não influencia o desempenho de mercado quando consideradas todas as empresas da amostra, visto que os resultados obtidos nesta relação não apresentaram significância estatística. Portanto, este resultado permite rejeitar a H1. Por outro lado, a segunda hipótese do estudo (H2) propôs que a competitividade de mercado influencia positivamente a relação entre RSC e desempenho de mercado. Quando analisados os efeitos da competitividade na relação entre RSC e desempenho de mercado, a interação RSC*HHI apresentou-se positiva e significativa nas empresas com alta competitividade de mercado, o que indica os potenciais efeitos positivos da competitividade na relação proposta. Além disso, estes resultados corroboram com a visão da teoria das partes interessadas e permitiram aceitar a H2 do estudo.

No que tange a análise adicional, os achados indicaram que os investimentos sociais externos potencializam o desempenho de mercado de empresas com alta competitividade de mercado. No entanto, a competitividade de mercado tende a elevar os investimentos das três dimensões de RSC: interna, externa e ambiental, visto os efeitos interativos destas variáveis apresentarem influência positiva no desempenho de mercado de empresas que operam em ambientes com alta competitividade. Estes resultados revelam que as iniciativas sociais corporativas podem ser consideradas estratégicas e a competitividade de mercado exerce pressão positiva nos investimentos realizados para as dimensões de RSC (sociais e ambientais) o que tende a impactar positivamente no desempenho de mercado das empresas.

A partir dos resultados encontrados, enfatiza-se a importância de se examinar a competitividade de mercado, na compreensão das implicações dos investimentos em RSC para o desempenho da empresa, visto estes efeitos terem sido positivos em empresas com alta competitividade. Já nas empresas com baixa competitividade os efeitos da competitividade na relação proposta não foram identificados.

Este estudo fornece evidências sistemáticas no contexto brasileiro, sobre se e quando os investimentos das empresas em RSC aumentam o desempenho e contribui ao identificar o mecanismo pelo qual esses efeitos ocorrem (competitividade de mercado). Esta pesquisa contribui para uma literatura emergente sobre a influência da competitividade de mercado na relação entre RSC e valor da empresa, destacando o papel da competitividade do setor em que as empresas atuam. Além disso, a proposta desta pesquisa revelou um mecanismo pouco explorado nos estudos do Brasil e que tende a potencializar os efeitos da RSC no desempenho.

Esta pesquisa possui limitações que podem servir como oportunidades para estudos futuros. Os dados analisados são apenas de empresas brasileiras que divulgaram informações sobre investimentos sociais internos, externos e ambientais nos seus relatórios. Portanto, os resultados não podem ser generalizados para todas as empresas do Brasil. Sugere-se a análise do contexto desta pesquisa em empresas familiares e não familiares, com vistas a compreender os efeitos da competitividade na relação entre RSC e valor de mercado destas empresas, visto que apresentam particularidades que as diferenciam. A análise da relação entre RSC e desempenho por meio da competitividade de mercado é apenas um caminho a partir do qual a RSC pode potencializar o desempenho de mercado. Para tanto, outras variáveis podem ser utilizadas para explicar esta relação. Han, Zhuangxiong e Jie (2018) sugerem a análise da governança corporativa. Outra sugestão versa sobre as condições econômicas, dentre outras variáveis que merecem ser investigadas em pesquisas futuras.

Agradecimentos

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS) pelo apoio financeiro e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Artigo relacionado ao Projeto de Pesquisa UFSM Processo: 052409 e Termo de Outorga FAPERGS: 19/2551-0001877-0.

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Autor notes

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