RESUMO
Objetivo: No Brasil, um baixo número de empresas de capital aberto apresentam informações sobre avanços tecnológicos ambientais. A literatura abordando recursos naturais tem enfatizado o efeito positivo da inovação ambiental na melhoria tanto nas práticas corporativas quanto no próprio desempenho, mas ainda não há um consenso sobre a mensuração dessa inovação. O objetivo principal é analisar a relação da ecoinovação, medida por Environmental Innovation Score, e o desempenho de empresas brasileiras.
Método: O desempenho da empresa é medido com a utilização de quatro variáveis agrupadas em duas dimensões: desempenho de mercado (QTobin e MB) e desempenho financeiro (ROA e RB), enquanto a ecoinovação utiliza o Environmental Innovation Score (EIS) como métrica. O modelo é estimado por meio de regressão multivariada com dados em painel no período entre 2014 e 2019.
Resultados: Os resultados apontam relação discreta entre ecoinovação e desempenho (medido pelo ROA), bem como P&D negativamente associado ao desempenho. Os esforços corporativos para ampliar investimentos no desenvolvimento de novas tecnologias ambientais não é visualizado em melhores resultados, indicando que não vale a pena ser sustentável no mundo corporativo brasileiro.
Contribuições: A contribuição deste estudo se reflete em dois aspectos. Primeiro, pela perspectiva ambiental, utilizou-se uma métrica sistemática abrangente capaz de avaliar as práticas de inovação ambiental de maneira homogênea. Segundo, em termos de situação organizacional, avaliou-se o impacto organizacional tanto no desempenho de mercado como no desempenho financeiro.
Palavras-chave: Mensuração, ecoinovação, empresas brasileiras, desempenho.
ABSTRACT
Objective: In Brazil, a low number of publicly traded companies present information on environmental technological advances. Literature addressing natural resources has emphasized the positive effect of environmental innovation on improving both corporate practices and performance, but there is still no consensus on measuring this innovation. The main objective is to analyze the relationship between eco-innovation, measured by the Environmental Innovation Score, and the performance of Brazilian companies.
Method: Company performance is measured using four variables grouped into two dimensions: market performance (QTobin and MB) and financial performance (ROA and RB), while eco-innovation uses the Environmental Innovation Score (EIS) as a metric. The model is estimated using multivariate regression with panel data for the period between 2014 and 2019.
Results: The results show a discrete relationship between eco-innovation and performance (measured by ROA), as well as R&D negatively associated with performance. Corporate efforts to expand investments in the development of new environmental technologies are not seen in better results, indicating that it is not worth being sustainable in the Brazilian corporate world.
Contributions: The contribution of this study is reflected in two aspects. First, from the environmental perspective, a comprehensive systematic metric capable of evaluating environmental innovation practices in a homogeneous way was used. Second, in terms of organizational situation, the organizational impact on both market and financial performance was assessed.
Keywords: Measurement, eco-innovation, Brazilian companies, performance.
Artigo
Relação entre ecoinovação e desempenho: vale a pena ser verde no mundo corporativo brasileiro?
Relationship between eco-innovation and performance: is it worth being green in the brazilian corporate world?
Received: 23 November 2022
Revised document received: 20 February 2023
Accepted: 07 April 2023
O mundo corporativo tem uma grande influência na economia e na sociedade em geral, de forma que não há desenvolvimento sustentável sem a participação das corporações. Há um consenso entre acadêmicos e profissionais do mercado sobre a necessidade de mudanças significativas na forma como as práticas organizacionais interagem com os ambientes naturais. Essa abordagem está presente na maioria dos objetivos de desenvolvimento sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU) (Moratis & Melissen, 2019) com o propósito de não comprometer a vida das gerações futuras.
Alcançar tais objetivos envolve o desenvolvimento de modelos de negócios com inovações ecológicas capazes de reduzir o impacto ambiental (Kuo & Smith, 2018). Além de garantir um futuro com recursos naturais no padrão atual, a inovação estimula o crescimento econômico e pode melhorar a qualidade de vida da sociedade (Lopes Santos et al., 2019). Diversos estudos examinaram a relação entre a responsabilidade social corporativa e o desempenho da empresa (Jang et al., 2019; Yang et al., 2019). Contudo, ainda faltam resultados de pesquisas sobre a relação entre responsabilidade social corporativa, inovação ambiental e desempenho da empresa (Al-Shammari et al., 2021; Úbeda-García et al., 2021).
A inovação ambiental, ou ecoinovação, abrange práticas de gestão e avanços tecnológicos que ampliam o desempenho organizacional e a economia de recursos e, consequentemente, sustenta uma vantagem competitiva (Rennings, 2000) em uma visão baseada em recursos (Barney et al., 2011). Em outras palavras, ecoinovação é um conjunto de processos, técnicas, práticas, sistemas e produtos que reduzem os impactos ambientais negativos (Karman et al., 2020) com tecnologias envolvidas na economia de energia, prevenção da poluição, reciclagem, produtos verdes ou gerenciamento ambiental corporativo (Chen et al., 2006).
A sustentabilidade está direcionando o cenário organizacional com mudanças nos produtos, tecnologias, processos e modelos de negócios de forma que os pioneiros se sobressaiam no mercado (Kuo & Smith, 2018; Nidumolu et al., 2009). Apesar da importância nos negócios, a inovação ambiental ainda enfrenta barreiras para atingir um nível aceitável (Chesbrough, 2010). Isso porque a incerteza do ambiente aponta direcionamentos imprevisíveis no desenvolvimento de ecoinovações, o que pode sacrificar seus benefícios e tornar-se prejudicial à empresa (Cheng & Shiu, 2020).
A literatura que aborda os recursos naturais tem enfatizado o efeito positivo da inovação ambiental na melhoria tanto das práticas corporativas quanto do próprio desempenho (Antonioli et al., 2016; Silva et al., 2019; Tumelero et al., 2019). Ainda assim, estudos apresentam resultados conflitantes ao analisar o investimento em ecoinovação e o desempenho corporativo (Adriano et al., 2020; Queiroz & Podcameni, 2013; Santos et al., 2014). Na literatura, é possível identificar uma lacuna em relação aos efeitos da inovação ambiental e ao desempenho empresarial (Hermundsdottir & Aspelund, 2021).
Como o escopo da ecoinovação é amplo e abrange várias dimensões para determinar uma forma de mensuração (Damanpour et al., 2009; Kuo & Smith, 2018), há um indicador de ecoinovação pouco explorado, o Environmental Innovation Score (EIS), ou Pontuação em Inovação Ambiental (PIA), que reflete a capacidade de uma empresa de reduzir os custos e encargos ambientais para seus clientes, criando novas oportunidades de mercado por meio de novas tecnologias e processos ambientais ou produtos ecológicos. Diante do disposto, o problema norteador desta pesquisa é: como a ecoinovação influencia no desempenho de empresas brasileiras? Assim, o objetivo principal é analisar a relação da ecoinovação e o desempenho de empresas brasileiras.
A complexidade da inovação possibilita à organização tanto a geração de uma nova relação entre custo e benefício para o seu produto quanto o estabelecimento de um padrão atual competitivo que possa modificar o modelo vigente antes do processo de inovação (Barney et al., 2011; Tidd, 2001). Ao adotar boas práticas para o desenvolvimento sustentável e para a inovação, pode-se ter manutenção ou aumento da competição da empresa e da participação dela no mercado com melhoria na qualidade de serviços e bens, qualidade de vida dos colaboradores e capacidade produtiva, dentre outros (Santos et al., 2013). Empresas ativas em ecoinovação se beneficiam de uma maior probabilidade de desempenho inovador e financeiro aprimorado ao longo do tempo devido à otimização de insumos e de produtos.
No caso do Brasil, os estudos revelam a inovação ambiental explica a sustentabilidade corporativa, em especial quando relacionada as práticas de governança (Araújo et al., 2022). No entanto, no que se refere a relação entre ao desempenho empresarial os resultados ainda são inconclusivos. Jost et al. (2021) indicam que que apesar do baixo poder explicativo encontrado na influência do investimento ambiental no desempenho de mercado, o poder explicativo do desempenho sustentável em relação ao desempenho de mercado foi aumentando ao longo dos anos.
Destaca-se que, dentre os mercados emergentes, o Brasil lidera no que diz respeito ao desenvolvimento de ativos voltados à responsabilidade social para investimentos (Sherwood & Pollard, 2018). Em geral, as principais inovações ambientais implementadas pelas empresas brasileiras envolvem técnicas de gestão ambiental, redução do impacto ao meio ambiente e redução do consumo de matéria-prima (Hoff et al., 2016). No país, apesar de seu engajamento em políticas ambientais (Spitzeck et al., 2013), um baixo número de empresas de capital aberto apresenta informações sobre avanços tecnológicos ambientais (Adriano et al., 2020; Hoff et al., 2016).
Em esutdo para empresas brasileiras e espanholas Freitas et al. (2013) obervaram que os indicadores de responsabilidade ambiental, para diversos grupos, são superiores em organizações da Espanha relação às brasileiras. Enquanto empresas europeias se destacam na implementação de processos ambientais inovativos (Santos et al., 2014), empresas brasileiras não convergem para a necessidade de desenvolvimento menos agressivo ao meio ambiente (Queiroz & Podcameni, 2013).
Embora a análise da relação entre inovação ambiental e desempenho organizacional seja um tema bem explorado, as nuances acerca da mensuração da ecoinovação ainda são inconsistentes na literatura. A contribuição deste estudo se reflete em dois aspectos. Primeiro, pela perspectiva ambiental, utilizou-se uma métrica sistemática abrangente capaz de avaliar as práticas de inovação ambiental de maneira isonômica.
Segundo, em termos de situação organizacional, avaliou-se o impacto organizacional em duas dimensões, tanto no desempenho de mercado como no desempenho financeiro, adicionando à literatura da teoria baseada em recursos. Ainda que estimular o processo de inovação da gestão na sustentabilidade organizacional tenha relação direta com a competição futura do negócio, há necessidade de construir ambiente corporativo sustentável, promovendo uma prática organizacional resiliente para o bem-estar humano.
Para que a inovação ambiental seja inserida no cenário dos negócios, é preciso que diversas mudanças ocorram nos processos, nos produtos e nos serviços, despertando-se a sensibilidade para a questão da responsabilidade ambiental (Tseng et al., 2013). Assim, é possível identificar retorno sobre o investimento, aumento das vendas, reputação e imagem positivas (Pujari, 2006). O impacto da inovação é refletida em curvas de aprendizado e economias de escala associadas à produção e desenvolvimento de novos processos ainda que raramente externados devido à natureza comercial sensível (Ekins, 2010).
O desenvolvimento de ecoinovação é um processo inerentemente imprevisível, colaborativo e aberto que ocorre durante um longo período no qual um conjunto de expectativas e objetivos sociais ou ambientais são centrais (Berkhout, 2014; Ekins, 2010). Isso porque leva tempo para que os investimentos afetem o desempenho financeiro (Cappucci, 2018). Em um estudo para empresas brasileiras Jost et al. (2021) sugerem que o horizonte temporal para a análise desses resultados explica-se, em grande medida, ao fato que os investidores passarão a valorizar ainda mais os aspectos que geram o desempenho sustentável, tornando assim a práticas de inovação ambiental cada vez mais valorizada.
Nesse sentido, uma nova tecnologia que represente uma inovação ambiental pode afetar o desempenho financeiro ao longo do tempo, visto que, a curto prazo, seria somente um custo elevado (Ekins, 2010) em comparação à outros tipos de inovação.
Nessa linha mesma linha, Frempong et al. (2021) Junaid et al. (2022) consideram que a inovação verde tem um papel importante no desempenho da empresa, apontando que a prática pode demonstrar a capacidade da empresa de conseguir melhorar o seu desempenho.
A inovação verde apresenta outras incertezas organizacionais. Investidores e gestores ainda tentam incorporar questões ambientais em suas decisões e, por isso, essas questões são percebidas parcialmente na avaliação organizacional interna e externamente (Schramade, 2016). A inovação verde está voltada para atividades e processos de redução de custos e diferenciação de produtos (Sellitto et al., 2020).
Somado a isso, não há consenso em uma proxy específica para mensurar a inovação ambiental, sendo utilizados gastos com pesquisa e desenvolvimento, patentes, intangíveis ou demais indicadores moldados conforme o interesse do pesquisador (Sikacz & Wołczek, 2018). Uma crítica é que a inovação ambiental medida por um fator, como patentes, prejudica o desempenho financeiro se não analisado em conjunto com outros tipos de atividade inovadora como gastos com P&D e novos processos (Przychodzen et al., 2020), não refletindo as práticas adotadas com o mesmo foco.
Apesar da ausência de um consenso sobre a mensuração da inovação ambiental, numerosos estudos examinaram empiricamente essa conexão em termos de melhorias financeiras, mas parece não haver um direcionamento para conclusões efetivas. Por um lado, a ecoinovação afeta positivamente o desempenho dos negócios (Colombelli et al., 2021; Przychodzen et al., 2020; Zhang et al., 2020), já que empresas de sucesso podem gastar mais em práticas ambientais, ou seja, melhor desempenho ambiental induz à economia de custos e tende a aumentar as vendas (Schaltegger & Synnestvedt, 2002).
Essa visão está de acordo com a alegação de que o desempenho financeiro pode influenciar a gestão ambiental, visto que uma empresa com bom desempenho financeiro pode alocar mais recursos para iniciativas ambientais (Wagner, 2005) de forma que restrições financeiras limitam o apoio à inovação. Assim, implementar inovações sustentáveis exige um investimento adicional ao mesmo tempo em que é possível perceber um aumento na ecoeficiência organizacional (Triguero et al., 2013).
Por outro lado, há uma relação negativa entre desenvolvimento de tecnologias sustentáveis e o desempenho organizacional, a curto prazo, diante de maior custo na aplicação dessas políticas em comparação com empresas não adotantes dessas práticas (López et al., 2007). Além disso, uma instituição ativa na inovação ambiental apresenta ganhos positivos no mercado de ações, porém com defasagem temporal (Przychodzen et al., 2020). Assim, se não forem implementados com afinco, os investimentos voltados ao meio ambiente podem levar a retornos financeiros bem baixos (Cappucci, 2018), ao menos até os benefícios esperados se materializarem. O envolvimento em inovação ambiental carrega um elemento de risco, qual seja, tanto o custo das entradas quanto os custos de conversão e os riscos de aceitação do consumidor (Tang et al., 2018).
Destaca-se que nem as empresas nem os investidores podem ser vistos como provedores da sustentabilidade, a menos que ela esteja integrada à declaração de resultados financeiros (Eccles & Serafeim, 2013). Assim, se a inovação ambiental ocorreu ou não somente poderá ser julgado com base no melhor do desempenho organizacional (Ekins, 2010). Conforme ocorre a incorporação das informações sobre meio ambiente na tomada de decisões de investidores, a importância da divulgação desses investimentos tende a crescer (Eccles et al., 2012; Rodriguez et al., 2017).
A maioria das grandes corporações visualiza os aspectos de sustentabilidade com efeito potencial sobre o retorno das ações (Schramade, 2016), indicando que empresas com estratégias notáveis de desenvolvimento sustentável têm maior probabilidade de serem recompensadas por investidores em virtude de maior valorização no mercado financeiro (Lo & Sheu, 2007). Paralelamente, o impacto de questões de sustentabilidade pode apresentar enfoque para criação de valor de longo prazo como consequência de vários anos de atividades e investimentos (Schramade, 2016). Ao mesmo tempo, a sustentabilidade ambiental é considerada a principal fonte de inovações organizacionais e tecnológicas que geram retornos (Nidumolu et al., 2009). Como a literatura apresenta resultados mistos quanto à influência da ecoinovação e suas proxys no desempenho organizacional, tem-se a hipótese inicial do estudo:
Na literatura existente, pesquisa e desenvolvimento (P&D) entendidos como capacidade tecnológica (Tumelero et al., 2019) está positivamente associados ao desempenho organizacional (Alam et al., 2020; Lee & Shim, 1995; Patel et al., 2018), ora identificando que essa relação é limitada (Yeh et al., 2010), ora mensurando em proxys distintas como retorno sobre os ativos (Sher & Yang, 2005), receita de vendas (Patel et al., 2018) e valor de mercado (Alam et al., 2020).
Normalmente, a inovação transborda os efeitos do P&D e cria externalidades claras que favorecem a melhoria da qualidade ambiental organizacional (Rennings, 2000). Como a tecnologia moderna se torna facilmente obsoleta, recursos incrementais são necessários para fortalecer essa capacidade inovadora (Sher & Yang, 2005). Portanto, há desempenho operacional anormal de longo prazo positivo após incrementos em P&D, apesar de o mercado incorporar a informação desse benefício com atraso (Eberhart et al., 2004).
As empresas tornaram-se ativamente engajadas no discurso sobre danos e riscos associados a seus processos e produtos (Berkhout, 2014). Então, quanto mais elevados são os padrões de investimentos em P&D, maior é a atratividade de investidores em busca de oportunidade no mercado financeiro, consequentemente, direcionando o valor de mercado. Isso porque esses ativos intangíveis vislumbram vantagem competitiva, crescimento a longo prazo e avanço tecnológico, o que leva a um melhor desempenho da empresa Ao mesmo tempo, o aprimoramento tecnológico é capaz de otimizar processos e produtos, permitindo eficiência no desempenho financeiro (Nidumolu et al., 2009). Assim, tem-se a seguinte hipótese:
Os gastos com P&D são considerados uma forma de investimento que resulta no aprimoramento do conhecimento, levando à inovação de produtos e processos (Padgett & Galan, 2010). Consequentemente, empresas mais ativas em inovação ambiental têm como característica maior o investimento em P&D (Przychodzen et al., 2020). Atividades de P&D e responsabilidade ambiental podem criar ativos que fornecem às empresas uma vantagem competitiva (Padgett & Galan, 2010) de forma que P&D fornece uma base sólida para melhorias pró-sustentabilidade, minimizando o desperdício e o impacto ambiental. Embora a inovação, muitas vezes, vise ao aumento de valor para o consumidor, é a redução dos custos na cadeira produtiva que possibilita retorno positivo para a empresa (Berkhout, 2014).
Os subsídios em P&D são um meio eficaz de atingir a inovação ambiental. Fortes capacidades de inovação associadas a intensos investimentos em P&D são fundamentais para manter práticas de sustentabilidade ambiental em grandes empresas (Chakrabarty & Wang, 2012). Com alta intensidade em P&D, simultaneamente a práticas de inovação ambiental, tem-se melhor desempenho organizacional ao passo que baixa intensidade em P&D torna difícil manter as práticas em busca de melhorias para sustentabilidade ambiental. Nesse sentido quanto mais são os recursos empregados em P&D, mais a inovação ambiental surge.
Dessa forma, maior intensidade em pesquisa e desenvolvimento e, consequentemente, maior inovação ambiental, tendem a impactar positivamente no desempenho da empresa (Tumelero et al., 2019). Empresas inovadoras e preocupadas com o meio ambiente tendem a gerenciar suas decisões de investimentos de forma eficaz em busca de oportunidades junto aos stakeholders com perspectiva de retorno e, por isso, intensificam seus esforços no desenvolvimento de pesquisas. Diante disso, tem-se a hipótese:
A base de dados é constituída pelas empresas brasileiras de capital aberto listadas na Bolsa B3, conforme dados da Thomson Reuters®, resultando em 411 observações de 97 empresas. A amostra final não considerou empresas do setor financeiro (Lo & Sheu, 2007; Silva & Quelhas, 2006), bem como aquelas com patrimônio líquido negativo (Fama & French, 1995). O corte temporal de análise abrangeu dados anuais entre 2014 e 2019, contemplando desde o surgimento da métrica para inovação ambiental disponível na base mencionada.
A variável dependente utilizada é o desempenho da empresa medido com a utilização de quatro variáveis agrupadas em duas dimensões: desempenho de mercado (QTobin e Market to Book - MB) e desempenho financeiro (Retorno sobre os ativos -ROA e Receita Bruta - RB). Essas variáveis dependentes representam uma combinação de informações contábeis, o que deve fornecer uma compreensão realista dos possíveis efeitos do ativismo de inovação verde no retorno da empresa e no valor de mercado. Por um lado, para medir o desempenho financeiro de uma empresa, foram utilizados o ROA e RB, já que as atividades inovadoras podem aumentar a gestão eficiente na utilização de seus ativos para gerar ganhos diante de economias de custos e maior produtividade, além de aumentar as vendas decorrente do número crescente de clientes voltados às questões ambientais.
O ROA é amplamente empregado como proxy do desempenho financeiro na literatura de gestão ambiental. Por outro lado, para capturar a atratividade e a competitividade da empresa, utilizaram-se duas proxys para valor de mercado, sendo o market-to-book (Fama & French, 1995) e o Q de Tobin com formulação aproximada (Chung & Pruitt, 1994) diante de limitação de dados, cujo intuito é o de identificar uma precificação superior nas empresas com inovação ambiental.
Para a variável de interesse, a ausência de padrões nos métodos de mensuração usados por pesquisadores e analistas para lidar com inovação ambiental leva à necessidade de compreensão mais clara do que as diferentes métricas (Pinney et al., 2019; Sikacz & Wołczek, 2018) indicam e como podem ser aplicadas pelos próprios gestores na avaliação do desempenho corporativo (Kotsantonis et al., 2016) e na comparabilidade entre empresas e setores. Dessa forma, a presente pesquisa utilizou o indicador desenvolvido pela base Thomson Reuters denominada Environmental Innovation Score (EIS) e traduzida por Pontuação em Inovação Ambiental (PIA), conforme recomendação de estudos anteriores devido à confiabilidade metodológica (Dorfleitner et al., 2020; Sikacz & Wołczek, 2018).
Esse indicador apresenta uma escala de 0 a 100 pontos, sendo menos tendencioso por considerar em torno de 19 variáveis para a classificação de inovação ambiental (Rajesh, 2020), abrangendo receitas “verdes”, P&D na área ambiental e despesas de capital (Thomson Reuters, 2021).
Diante de análises anteriores, é possível identificar algumas variáveis de controle, tais como, exposição ao risco financeiro (alavancagem), tamanho da empresa (Cuerva et al., 2014), fluxo de caixa livre e setor (Przychodzen & Przychodzen, 2015). Assim, no Quadro 1, têm-se as variáveis escolhidas, bem como a operacionalização, a descrição e a literatura correspondente.

As variáveis apresentadas compõem dois modelos econométricos principais, conforme equações (1) e (2), com a utilização das quatro variáveis dependentes já discriminadas e com resultados provenientes de regressões em dados em painel longitudinal desbalanceado, além da utilização do software Stata®.
Inicialmente, ocorreu a winsorização dos dados a 5% para correção de outliers. Para todas as equações, foram realizados os testes formais de definição do melhor modelo de dados em painel. Os testes de Chow e de Hausman evidenciaram que o modelo de efeitos aleatórios apresenta maior adequação para a amostra. Ademais, em todas as equações, foi testada a multicolinearidade (via fator de inflação da variância) com VIF <3, bem como a heterocedasticidade (Teste de Wald) e a autocorrelação (Teste de Wooldridge). A heterocedasticidade, verificada em todos os modelos foi tratada por meio de estimação dos parâmetros com bootstrap. Da mesma forma, a autocorrelação foi corrigida.
Diante dos dados tratados, tem-se a estatística descritiva na Tabela 1. Observa-se que, como em cada um dos modelos algumas variáveis se modificam, o total de observações por empresa varia entre 305 e 727. A menor quantidade de observações ocorreu com a receita bruta e gastos em pesquisa e desenvolvimento. Nota-se que 97, dentre as 355 (aproximadamente) empresas listadas na B3 no período de 2014 a 2019, apresentaram pontuação em inovação ambiental, apontando que a maioria ou não investe recursos ou não evidencia essa informação. Com relação ao indicador para inovação ambiental, houve empresa com pontuação elevada, mas nenhuma atingiu o nível máximo dentro dos parâmetros da base de dados utilizada.

De acordo com o que foi apresentado na metodologia, os modelos (1) e (2) foram estimados, gerando os resultados da Tabela 2. Na vertente de análise com o valor de mercado, ao considerar as variáveis dependentes QTobin e MB, a inovação ambiental apresentou resultados sem significância (H1a ). Em consonância com estudos anteriores, o mercado brasileiro pode precificar retornos com defasagem temporal (Przychodzen et al., 2020; Schramade, 2016), além de visualizar riscos até a aceitação da novidade (Tang et al., 2018). Quanto ao desempenho financeiro para retorno sobre o ativo, a inovação ambiental apresentou relação positiva e significativa, fornecendo suporte à hipótese inicial (H1a ), conforme achados de Sher & Yang (2005). Isso porque a utilização da inovação proporciona redução de custos e maior eficiência dos recursos, amenizando danos ao meio ambiente (Ekins, 2010; Hoff et al., 2016). Ao mesmo tempo, esses resultados explicitam o baixo impacto da inovação ambiental (Cappucci, 2018), tanto na percepção do mercado financeiro como no desenvolvimento interno corporativo, diante dos betas estimados de efeito discreto, compartilhando a afirmação de Queiroz e Podcameni (2013) de que grandes empresas brasileiras ainda não priorizam a sustentabilidade.
Com relação aos gastos com pesquisa e desenvolvimento (H1b ), os resultados explicitam sua relevância tanto na análise relacionada ao valor de mercado como no desempenho financeiro. Entretanto, quanto mais recursos dispendidos nesses investimentos, a tendência é reduzir a perspectiva de bom desempenho, ainda que menos severa diante dos β apresentados. Há uma relação entre maiores investimentos em pesquisa e desenvolvimento com redução nas vendas, provavelmente, pela sua maior aplicação nos processos organizacionais e baixa aplicabilidade na diferenciação de produto ou serviço, que é o contato direto com o mercado. Nesse sentido, os resultados rejeitam a hipótese H1b , provavelmente, devido ao retorno de longo prazo dos investimentos em P&D (Eberhart et al., 2004).
Ao analisar os subsídios de pesquisa e desenvolvimento combinados com a inovação ambiental, foi identificada relação negativa com o desempenho organizacional (H2 ), embora seu impacto seja de baixa relevância (β = -0.000, p>0.01) no valor de mercado (QTobin) e no desempenho financeiro (ROA). Quanto mais investimentos em pesquisa voltados à inovação ambiental, a percepção do mercado refletida no desempenho é menor, contradizendo a hipótese H2 , bem como estudo anterior (Tumelero et al., 2019). Entretanto, isso não afeta as preferências dos investidores, provavelmente, por avaliarem os custos e benefícios desse tipo de investimento no conjunto de possibilidades ao seu portfólio. As empresas com elevadas pontuações continuam a ser vistas pelos investidores tradicionais como improváveis de produzir retornos competitivos em comparação com as demais.
Quanto às variáveis de controle, é possível destacar alguns resultados relevantes e significativos nas duas dimensões de desempenho. Em relação aos investimentos direcionados ao imobilizado (PPE), os resultados esclarecem sua importância no desempenho da empresa, que é diretamente proporcional. Com base na alavancagem financeira (LEV), os resultados foram divergentes, sendo a alavancagem negativamente relacionada à percepção de mercado, o que é condizente com o risco financeiro identificado pelos investidores, bem como positivamente relacionada ao desempenho financeiro, o que é condizente com a entrada de capitais para melhorar os resultados. Assim, empresas de alta alavancagem financeira são obrigadas a adotar ecoinovação para atender aos requisitos das partes interessadas para fins de desenvolvimento sustentável (Gupta & Newberry, 1997).
Quanto à liquidez (LIQ), a relação foi positiva e significante no desempenho de mercado e no desempenho financeiro e, apesar de nem todos os efeitos serem capturados na análise, a atratividade dos ativos depende do bom desempenho organizacional. Já o tamanho da empresa (TAM) apresentou resultados divergentes, enquanto foi positiva e significante para o Q de Tobin e retorno sobre o ativo (mostrando ser um importante determinante da conduta ambiental, em que empresas maiores tendem a ter maior desempenho e mais inovadoras), também foi negativa e significante para market-to-book e receita bruta (indicando que a inovação ambiental não promoveu economias operacionais esperadas).

Ainda em relação aos dados reportados na Tabela 2, resultados não consensuais foram alcançados para a análise do setor. Em geral, o impacto positivo no valor de mercado foi maior para a indústria de petróleo e gás, siderurgia e serviços. Ao mesmo tempo, no desempenho financeiro, os setores de química, tecnologia da informação, têxtil e comércio se sobressaem positivamente com os maiores betas. Isso explicita que os setores apresentam discrepâncias, mas há uma direção setorial, cuja sensibilidade é maior em tecnologias de sustentabilidade. Isso não é um bom sinal, visto que os setores mais comprometidos com inovação ambiental correspondem àqueles com maior grau de deterioração ambiental como compensação.
As empresas que enfrentam desempenho decrescente em seus esforços incrementais de ecoinovação podem estar anunciando adesão insuficiente frente às expectativas de mercado, conflitando com a maximização de valor ao acionista. Apesar de o desenvolvimento de inovação ambiental estar ligado à produtividade e qualidade do processo operacional, ainda é pouco perceptível nas informações externadas pelas empresas brasileiras. Dessa forma, as ecoinovações podem ser parcialmente traduzidas para um nível de desempenho maior de forma que empresas que buscam grandes iniciativas de sustentabilidade e as divulgam ainda têm baixa atratividade. Mesmo assim, a eficiência e a aplicabilidade da ecoinovação é uma “roleta” que pode subestimar ou superestimar sua contribuição no desempenho financeiro em longo prazo.
Uma vez que as empresas detêm as informações sobre suas oportunidades de investimentos e projetos de capacidade tecnológica, os impactos heterogêneos e de longo prazo nas atividades operacionais podem desnortear seu desempenho financeiro. Especificamente, os benefícios esperados podem ser frustrados e não refletir em resultados financeiros positivos, como produto, processo e mercado. No final, ninguém está interessado em ouvir sobre questões probabilísticas para implementação de inovação, nem em ouvir de gestores corporativos e, sim, identificar em resultados numéricos, principalmente, com redução de danos ao meio ambiente.
Este estudo tem como objetivo compreender a relação entre a inovação ambiental e o desempenho de empresas brasileiras. Apesar de a literatura destacar a importância da inovação ambiental para o sucesso organizacional, os resultados do estudo são mistos e parcialmente condizentes com a literatura pesquisada. Os achados indicam que a variável inovação ambiental está, em pequena proporção, positivamente associada ao desempenho financeiro da empresa, mas não validam o argumento hipotético de que a inovação impulsiona o desempenho empresarial por meio do aumento do valor de mercado.
O desempenho organizacional, nas dimensões de mercado e financeira, não tem a mesma influência na relação com tecnologias sustentáveis, criando implicações para a academia, gestores e investidores. Outros resultados empíricos evidenciam mudanças no foco de atenção relevantes para explicar a intensidade dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, que apresentou associação negativa no desempenho das empresas brasileiras, contrariando boa parte da literatura.
O mesmo foi identificado em relação à combinação entre ecoinovação e pesquisa e desenvolvimento. Tanto interna como externamente, os esforços corporativos para ampliar investimentos no desenvolvimento de novas tecnologias ambientais não são visualizados em melhores resultados, indicando que não vale a pena ser sustentável no mundo corporativo. Os resultados corroboram aqueles encontrados na pesquisa de Frempong et al., (2021), na qual os achados mostraram que uma parceria fornecedora orientada para a sustentabilidade não influencia positivamente a articulação entre as práticas de sustentabilidade ambiental e econômica e o desempenho da empresa.
Como limitação do trabalho destaca-se o recorte temporal, tendo em vista que alguns autores (Triguero et al., 2013; Jost et al.; 2021) sugerem que os resultados da inovação ambiental ocorrem ao longo prazo, especialmente devido natureza dos investimentos necessários e a precificação dos investidores as praticas mais sustentáveis.
Diante da relevância do Brasil no ativismo ambiental mundial, as atividades corporativas ainda são pouco relevantes em sustentabilidade. Com isso, a ecoinovação ainda não representa um fenômeno corporativo capaz de conduzir progressos significativos na concretização do desenvolvimento sustentável do país. Em linhas gerais, o impacto da inovação verde sobre o desempenho da empresa depende do contexto nacional no qual essa empresa desenvolve sua operação em virtude da intensidade da pressão social por sustentabilidade. Com isso, a futura posição da empresa depende não apenas de seus processos, mas também da presença da inovação fortemente associada à responsabilidade ambiental.
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