RESUMO
Objetivo: esta revisão sistemática teve como objetivo analisar os avanços e tendências das pesquisas em Contabilidade que utilizam como base teórica a Teoria da Evidenciação.
Método: buscou-se artigos científicos publicados nos últimos cinco anos junto às bases nacionais e internacionais: Portal de Periódico da CAPES, EBSCOhost, Science Direct e Spell. Considerou-se como descritores combinados “Disclosure Theory” and “Accounting” e “Teoria da Evidenciação” e “Contabilidade” e “Teoria da Divulgação” e “Contabilidade”. Os achados revelam um total de 44 estudos que abordam a teoria e suas implicações nas organizações.
Originalidade/Relevância: torna-se relevante realizar uma revisão sistemática do tema sugerido para analisar o atual estado da pesquisa, com a finalidade de identificar possíveis lacunas, descobertas, necessidades de pesquisas e questões relevantes para pesquisas futuras dentro da área de atuação.
Resultados: como principal avanço desta teoria, destaca-se de forma geral que as empresas, que a praticam possuem maior e melhor qualidade nas informações divulgadas, seja no âmbito compulsório ou no âmbito voluntário. A relação entre a sustentabilidade e a Teoria da Evidenciação representa um achado importante, uma vez que 20 estudos destacam a tendência de aplicação desta teoria em estudos relacionados com a sustentabilidade das organizações.
Contribuições teóricas/metodológicas/práticas: as principais contribuições desta revisão, especialmente para o campo teórico, são que os estudos que possuem como base a Teoria da Evidenciação na Contabilidade, reforçam a necessidade das empresas, independente do setor de atuação, divulgarem informações confiáveis e fidedignas que possam atender aos distintos interesses dos usuários.
Palavras-chave: Revisão Sistemática, Contabilidade, Teoria da Evidenciação, Teoria da Divulgação.
ABSTRACT
Objective: this systematic review aimed to analyze the advances and trends of research in Accounting that use the Disclosure Theory as a theoretical basis.
Method: scientific articles published in the last five years were searched in national and international databases: Portal de Periódico da CAPES, EBSCOhost, Science Direct and Spell. The combined descriptors were “Disclosure Theory” and “Accounting” and “Disclosure Theory” and “Accounting” and “Disclosure Theory” and “Accounting”. The findings reveal a total of 44 studies that address the theory and its implications for organizations.
Originality/Relevance: it is relevant to carry out a systematic review of the suggested topic to analyze the current state of the research, in order to identify possible gaps, findings, research needs and relevant questions for future research within the area of expertise.
Results: as the main advance of this theory, it is generally highlighted that companies that practice it have greater and better quality in the information disclosed, whether in the compulsory or voluntary scope. The relationship between sustainability and Disclosure Theory represents an important finding, since 20 studies highlight the tendency to apply this theory in studies related to the sustainability of organizations.
Theoretical/methodological/practical contributions: the main contributions of this review, especially for the theoretical field, are that the studies that are based on the Theory of Disclosure in Accounting, reinforce the need for companies, regardless of the sector in which they operate, to disclose reliable and reliable information that can meet the different interests of users.
Keywords: Systematic Review, Accounting, Evidence Theory, Disclosure Theory.
Artigo
Revisão sistemática sobre a teoria da evidenciação na contabilidade1
Systematic review of disclosure theory in accounting
Received: 22 November February 2022
Accepted: 25 February 2023
O idealizador da Teoria da Evidenciação ou da Divulgação, Verrecchia (1983) preconiza que os benefícios da divulgação dependem do setor econômico no qual as empresas estão inseridas e que dependendo da decisão do gestor em divulgar ou não determinada informação, pode ou não afetar os ativos da empresa, pois estão cientes das informações, e devem decidir divulgá-las ou não para os interessados, seja governo ou os usuários internos ou externos.
Segundo Lopes e Beuren (2018) a pesquisa contábil é uma prática que contribui para o desenvolvimento das organizações e da sociedade, visto que existe uma conexão entre a Contabilidade e o contexto social. Diante do exposto, a evidenciação contábil aumenta sua relevância como uma ferramenta de comunicação que pode ser utilizada pelos tomadores de decisões.
Neste sentido, avaliar o que tem sido discutido nas produções científicas que estão sendo embasadas pela Teoria da Evidenciação possibilita compreender qual é o arcabouço teórico que sustenta tais produções e ao próprio processo de evolução da Teoria. Também permite evidenciar a partir do reconhecimento de diferentes aspectos que influenciam e determinam as empresas a divulgarem em maior nível de detalhamento suas informações contábeis.
A Teoria da Evidenciação consiste em tema de extrema relevância no âmbito da divulgação e passou a ser um assunto explorado a partir de meados dos anos de 1980 no cenário internacional, ao explicar o fenômeno de informações financeiras mediante diversas perspectivas (Salotti & Yamamoto, 2008). Para Piva, Andrade Júnior e Marques (2020) a Teoria da Evidenciação trata da qualidade das informações econômico e financeira, que visam auxiliar no processo decisório e transmitir transparência aos usuários da informação.
Nesse sentido, a análise da Teoria da Evidenciação pode constituir em um instrumento de transparência organizacional, permitindo a avaliação pelo mercado e demais stakeholders a respeito das operações e resultados alcançados (Silva & Carvalho, 2009). Na avaliação dos stakeholders é importante considerar que estes são todos os agentes envolvidos, seja usuário interno, externo, como governo, e demais agências (órgãos reguladores, fornecedores, clientes, acionistas e sociedade em geral). Para Silva e Carvalho (2009), os resultados das operações alcançadas pelas empresas à luz da Teoria da Evidenciação para os stakeholders constituem um instrumento de transparência organizacional fundamental para a tomada de decisão.
Os estudos que compõem o presente artigo foram desenvolvidos em âmbito nacional e internacional, como por exemplo, os estudos de Qiu, Shaukat e Tharyan (2016), Hummel e Schlick (2016), Heflin e Wallace (2017) e Ricardo, Barcellos e Bortolon (2017) referente a Teoria da Evidenciação voltada à sustentabilidade, bem como os estudos de Souza, Sousa, Nascimento, Bernardes (2016) e Figueiredo, Santos e Cunha (2017) voltados ao setor futebolístico, normatizadores contábil e instituições sem fins lucrativos e, Demartini e Trucco (2016) e Sarhan e Ntim (2019) realizados sobre assuntos diversos.
Neste sentido, este estudo apresenta a seguinte questão de pesquisa: quais são os avanços e tendências promovidos pela Teoria da Evidenciação a partir de estudos já realizados? Diante do exposto, o presente estudo objetiva analisar os avanços e tendências das pesquisas em Contabilidade que utilizam como base teórica a Teoria da Evidenciação.
Para Denyer e Tranfield (2009) a revisão sistemática é caracterizada por ser uma metodologia específica de levantamento bibliográfico, que objetiva localizar estudos existentes a fim de avaliar suas contribuições. Por meio desta é possível sincronizar e analisar resultados e conclusões acerca de uma temática. Ravindran e Shankar (2015) entendem que a revisão sistemática se apropria de métodos explícitos para pesquisar, avaliar criticamente, sintetizando a literatura disponível.
Portanto, torna-se relevante realizar uma revisão sistemática do tema sugerido para analisar o atual estado da pesquisa, com a finalidade de identificar possíveis lacunas, descobertas, necessidades de pesquisas e questões relevantes para pesquisas futuras dentro da área de atuação. De acordo com Cunha e Ribeiro (2008, p. 7), “a Teoria da Divulgação é uma linha de pesquisa que tem por objetivo explicar o fenômeno da divulgação de informações financeiras”. O estudo de Souza et al. (2016) reforça que a divulgação de informações pela Contabilidade merece atenção especial na discussão corporativa, pois constitui uma das formas mais importantes de que os gestores dispõem para comunicar-se com os investidores e o mercado em geral.
O presente estudo visa a contribuir junto aos tomadores de decisões dentro das organizações na forma de diálogo, pois ao estudar a Teoria da Evidenciação, esta pesquisa deixa insights sobre a divulgação de informações relevantes de forma voluntária, também contribui ao identificar empresas e setores econômicos que adotaram a teoria nos últimos cinco anos, contribuindo para a produção cientifica no campo da contabilidade sobre o tema proposto. A Teoria da Evidenciação se torna relevante para a contabilidade e aos usuários da informação no tocante de que a divulgação de informações de alta qualidade se torna útil as quem lhe interessa analisar os demonstrativos contábeis a fim de ter informações uteis e fidedignas para tomada de decisões.
A Teoria da Evidenciação, também conhecida como Teoria da Divulgação, pode ser definida como uma linha de pesquisa que busca a compreensão acerca do fenômeno de divulgação informacional por parte das organizações (Piva et al., 2020). A evidenciação deve ser apresentada em três níveis em que seus atributos devem estar relacionados a: i) adequada, isto é estabelecer um volume mínimo de informações a serem divulgados, a fim de não deixar dúvidas aos tomadores de decisões, ii) justa, ou seja, deve ser tratado o potencial dos usuários de igualdade com as informações contábeis e; iii) completa, contendo informações relevantes aos usuários (Söthe & Dresel, 2014).
A Teoria da Evidenciação tem como principal objetivo explicar fenômenos das divulgações financeiras (Cunha & Ribeiro, 2008). Segundo Hendriksen e Breda (1999) a Contabilidade também objetiva promover informações úteis à tomada de decisão, seja esta de caráter obrigatório ou voluntário. No entanto complementam que, para que seja uma divulgação apropriada, esta deve responder a três questões: i) a quem a divulgação deve atender?; ii) qual é a principal finalidade da informação? e; iii) qual volume de informação deve ser divulgado?
O estudo da Teoria da Divulgação iniciou em meados de 1980, com destaque para o trabalho seminal de Verrecchia (1983) que trata da evidenciação de forma voluntária, visando compreender as justificativas das escolhas de um gestor para divulgar informações. O estudo de Verrecchia (1983) se diferencia dos demais estudos por considerar a relação entre custos e benefícios, envolvidos na decisão da divulgação ou não de determinada informação. Além disso, ressalta a importância de os gestores buscarem eficiência a fim de maximizar os resultados das empresas. Para Hummel e Schlick (2016), a Teoria da Divulgação Voluntária serve como modelo básico para a divulgação voluntária corporativa, gratuita e verdadeira.
A Teoria da Divulgação sugere que as informações sejam divulgadas para além do cumprimento legal e discricionário, devendo auxiliar na tomada de decisão dos stakeholders, reduzindo o custo do financiamento externo e melhorando a capacidade de uma empresa alavancar capital para projetos potencialmente lucrativos (García-Sánchez, Raimo & Vitolla, 2021). Ademais, os autores afirmam que a decisão de divulgar informações organizacionais fomenta benefícios de uma avaliação mais fidedigna pelos stakeholders.
Segundo Alves, Araújo e Santo (2019), a Contabilidade tem como objetivo prover informação útil para a tomada de decisão, independentemente se a divulgação tem previsão normativa ou se a informação adicional é de forma voluntária. Para que as informações contábeis sejam relevantes aos seus usuários, estas devem refletir adequadamente o momento econômico e financeiro da companhia analisada (Vivas, Ferreira & Costa, 2020). A evidenciação contábil é um campo de pesquisa que abrange as áreas de Contabilidade, Finanças e Economia. A divulgação das informações tem por finalidade divulgar a composição do patrimônio e dos fluxos financeiros, além das decisões tomadas por seus gestores (Beuren & Lopes, 2018). Neste aspecto a divulgação das informações corrobora para reduzir a assimetria informacional, visando melhorar a qualidade da informação aos tomadores de decisões.
Yook, Song, Patten e Kim (2017) preconizam que a Teoria da Divulgação Voluntária prevê uma associação positiva entre a divulgação ambiental e a atuação das empresas. Estudos recentes mostram que as empresas que preconizam a sustentabilidade divulgam mais e melhor suas informações, permitindo que se diferenciam das demais (Lu & Wang, 2021). Estudos empíricos sugerem que as empresas com bom desempenho ambiental têm incentivos para fornecer um maior nível de divulgação ambiental e empresas com baixo ou ruim desempenho ambiental, fornecem um menor nível de divulgação a fim de reduzir os impactos juntos aos stakeholders (Mahmood, Ahmad, Ali & Ejaz, 2017).
O estudo de Nishitani, Unerman e Kokubu (2021) indica a premissa de que as empresas fornecerão informações favoráveis as partes interessadas e/ou reterão informações quando desfavoráveis, em que os investidores podem interpretar a retenção (ou sigilo) como sinal da existência de informação desfavorável, o preço dos ativos da empresa cairá, então empresas com formação favorável têm um incentivo para divulgar essas informações para aumentar o seu valor de mercado.
Arcar e Temiz (2020) examinaram a relevância do valor da divulgação ambiental e argumentam que o efeito das informações ambientais sobre o desempenho financeiro é valioso para os acionistas. As empresas que fornecem divulgações ambientais e que transparecem confiança conquistam a apreciação dos investidores, resultando em maior valor da empresa. Em suma, a Teoria da Evidenciação torna a divulgação dos relatórios financeiros um diferencial, principalmente quando existe competitividade entre empresas de mesmo setor dando um respaldo de extrema importância aos stakeholders (Alves et al., 2019).
A globalização e a dinamicidade contribuem cada vez mais a inserção dos pesquisadores a realizar estudos de assuntos para aprofundar determinadas temáticas e melhor compreendê-las, permitindo assim que revisões sistemáticas sejam possíveis, pois por meio da tecnologia, as informações são de fácil acesso e acessível a todos. Diante do exposto, por meio do presente estudo realizou-se uma revisão sistemática da literatura dos últimos cinco anos nas principais bases de dados da área contábil a fim de analisar os avanços e tendências das pesquisas em Contabilidade que utilizam como base teórica a Teoria da Evidenciação.
Segundo Ravindran e Shankar (2015), a revisão sistemática é caracterizada por uma questão explícita, sobre temas que foram pesquisados especialmente no mundo científico, com abundância de pesquisa em todos os campos. MacLure, Paudyal e Stewart (2016) afirmam que identificar, avaliar e interpretar evidências de pesquisa disponíveis relevantes para um tópico específico, ajuda a informar práticas e políticas, fornecendo evidências integradas e imparciais nas quais as decisões se baseiam, identificando lacunas na literatura para informar estudos futuros, minimizar tendências, usando métodos explícitos e sistemáticos.
A análise é voltada a estudos de pesquisa científicas publicadas nos últimos cinco anos, no qual consta o conhecimento científico atualizado (Marconi & Lakatos, 2021). Quanto ao problema abordado, a pesquisa é considerada uma análise bibliométrica da estrutura dos artigos, e qualitativa no que trata da revisão sistemática, pois tem um aprofundamento nas interpretações e entendimentos textuais (Cooper & Schindler, 2016). Desta forma, este estudo sistematiza todas as evidências e achados dos estudos e conjuntamente analisa bibliometricamente os dados coletados a partir da revisão sistemática.
Para buscar os artigos que tratam da Teoria de Evidenciação na área contábil foram inicialmente definidas quatro bases de dados de relevância nacional e internacional, são estas: o Portal de Periódicos da CAPES, a EBSCOhost, a Science Direct e a Spell. Como critério de inclusão dos estudos definiu-se: i) artigos científicos revisados por pares; ii) publicado de janeiro de 2017 a outubro de 2021; iii) escritos em português e inglês; iv) que estivessem associados a área contábil e que abordassem a Teoria da Evidenciação.
Os descritores utilizados na busca nas bases consultadas foram sempre combinados, ou seja, utilizados em conjunto e simultaneamente. Foram usados os seguintes descritores em inglês e português respectivamente: “Disclosure Theory” and “Accounting” e, “Teoria da Evidenciação” e “Contabilidade”, bem como, “Teoria da Divulgação” e “Contabilidade”. Salienta-se que a escolha destas palavras-chave possibilitou identificar mais objetivamente os estudos ligados a teoria investigada e a área contábil. A pesquisa foi iniciada no Portal de Periódico da CAPES, que segundo Trindade e Scheibe (2019), centraliza a produção mundial de mais de 21.500 revistas nacionais e internacionais e representa uma das maiores bibliotecas virtuais do mundo, segue a Tabela 1 demonstrando o passo a passo da coleta de dados nas quatro bases utilizadas neste estudo.

A pesquisa nas quatro bases foi realizada nos meses de novembro a dezembro de 2021 e como critérios de exclusão foram considerados: i) artigos duplicados; ii) em outros idiomas; iii) que não estavam disponíveis gratuitamente e; iv) que não discutissem a Teoria da Evidenciação Contábil. Os resultados levaram a identificação de 24 artigos no Portal de Periódicos da Capes, 18 artigos na EBSCOhost, 2 na Science Direct e nenhum artigo na Spell, uma vez que os dois artigos identificados já haviam sido selecionados em outras bases. Portanto o total de artigos que compuseram a análise dos dados foi de 44 estudos.
A análise dos artigos finais se deu de duas formas: i) análise bibliométrica dos estudos, segundo Aria e Cuccurullo (2017) é crescente o aumento das pesquisas bibliométricas por diversas áreas do conhecimento, principalmente, pela sua capacidade em manejar grandes quantidades de dados e realizar análises de abordagem objetiva e confiável e visa por meio de abordagem quantitativa, analisar dados bibliográficos como periódicos, autores, temas estudados, anos de publicações, títulos e muito mais e; ii) aplicação da técnica de análise de conteúdo, buscou-se identificar nos achados dos estudos os avanços e as tendências da Teoria da Evidenciação (Pimenta, Portela, Oliveira & Ribeiro, 2017).
Ademais, realizou-se a análise do conteúdo, que de acordo com Bardin (2011), envolve um conjunto de métodos de análises das comunicações que organiza procedimentos sistemáticos que permitam a descrição do conteúdo das mensagens, possibilitando compreender o verdadeiro sentido de um texto. Tendo em vista que a análise de conteúdo é um conjunto progressivo de técnicas que instiga a necessidade de ter o conhecimento do campo a ser estudado, o mesmo não permite que o pesquisador realize a análise desprovida de conhecimento teórico sobre o assunto em questão (Silva & Fossa, 2015).
Os resultados encontrados a partir dos 44 estudos foram organizados em duas seções, a saber: a primeira que discute a análise bibliométrica dos artigos e a posterior, apresenta-se por meio da análise de conteúdo dos estudos e um aprofundamento dos achados, destacando os principais avanços e tendências das pesquisas em Contabilidade que utilizam como base teórica a Teoria da Evidenciação.
Inicialmente são apresentadas as bases que mais publicaram sobre a Teoria da Evidenciação no período analisado, conforme a Tabela 2.

Conforme observa-se na Tabela 2, a base de dados que contemplou o maior número de artigos foi o Portal de Periódicos da Capes com 54,55% dos estudos, seguido da EBSCOhost com 40,91% dos artigos científicos avaliados. A análise bibliométrica dos estudos também revela que o idioma português lidera a publicações dos artigos selecionados, com 56,82% dos artigos publicados. Nas bases Science Direct foram resgatados apenas dois estudos em inglês e na Spell, nenhuma pesquisa. Outro aspecto importante a ser observado é a questão temporal, ou seja, o ano de prevalência das publicações conforme se visualiza na Figura 1.

A Figura 1 revela que o ano de 2017 apresentou a maior concentração de estudos, seguido do ano de 2021. Houve uma queda significativa da publicação de artigos sobre a teoria do ano de 2017 para 2018, aumentando novamente de forma gradativa em 2019 e 2020. Porém, nota-se um pequeno aumento de 2020 para 2021, não chegando ao mesmo número de publicações do ano inicial (2017). Os dados permitem afirmar também que a temática sempre foi objetivo de investigação ao longo de todo o período. Segundo Alves et al. (2019) a Teoria de Evidenciação é sempre debatida na literatura contábil em função da sua importância para as organizações. A Figura 2 evidencia as palavras de maior destaque no resumo das pesquisas sobre a Teoria da Evidenciação.

Para elaborar a nuvem de palavras utilizou-se os resumos dos artigos, os quais foram traduzidos para o português, no caso dos internacionais. Pode-se observar que as palavras mais frequentes foram “divulgações” com 221 ocorrências, seguida de “empresas” com 122 citações e “informações” com 78 menções. Ademais, outras palavras que ficam em evidência pela quantidade de vezes que apareceram nos resumos são: pesquisa, resultados e ambiental.
Ao destacar a frequência das palavras “divulgação”, “empresas” e “informação”, as mesmas nos remetem a própria Teoria da Divulgação analisada no presente estudo e utilizada como descritor de busca, de forma que os estudos referenciados, na grande maioria, destacam a importância da divulgação voluntária. A segunda palavra “empresas”, que também remete a Teoria da Evidenciação, no sentido de que empresas com melhor e maior resultado, são empresas que divulgam as informações de forma mais transparente aos stakeholders. Após, tem-se como destaque a palavra “informação” que pode ser associada ao benefício que a divulgação dos dados pode gerar nos usuários e especialmente na tomada de decisão.
A Teoria da Evidenciação está presente em todas as áreas do conhecimento, no entanto para esta pesquisa foram analisados estudos que estivessem ligados preponderantemente à área da Contabilidade. Durante as leituras, observou-se que os autores se posicionam para diferentes lentes, tais como: sustentabilidade, esporte, adequação às normas, instituições sem fins lucrativos e outros. Para melhor demonstrar esse resultado, apresenta-se a Figura 3.

Conforme ilustra a Figura 3, foram localizados 20 artigos (45,45%) voltados à área de sustentabilidade; 4 estudos (9,09%) voltados ao setor futebolístico; 6 artigos (13,64%) tratando sobre normas nacionais e/ou internacionais; 3 artigos (6,82%) tratando sobre organizações sem fins lucrativos e; 11 artigos (25%) tratando sobre temáticas diversas.
De forma geral, os 44 artigos estão alinhados na tendência de melhorar as práticas contábeis e de governança corporativa, melhorar a qualidade das informações contábeis e financeiras a serem publicadas, auxiliando no gerenciamento dos resultados e apresenta-se como o tema mais latente desta teoria e é sempre destacado em todos os artigos identificados.
A temática da sustentabilidade, especialmente voltada para o aspecto ambiental se destaca no contexto dos estudos (por exemplo: Hummel & Schlick, 2016; Qiu et al., 2016; Feigin, Ferguson, Grosse & Scott, 2016; Mahmood et al., 2017; Yook et al., 2017; Ricardo et al., 2017; Heflin & Wallace, 2017; Pereira, Lucena & Paiva, 2018; Farias, Silveira, Huppes & Van Bellen, 2018; Alves & Calado, 2019; Alves et al., 2019; Acar & Temiz, 2020; Oliveira, Besen & Junior, 2020; Legoria, Reichelt & Soileau, 2020; Nishitani et al., 2021; García-Sánches et al., 2021; Lu & Wang, 2021; Rossignoli, Stacchezzini & Lai, 2021; Kuo & Chang, 2021; Mariappanadar, Maurer, Kramar & Muller-Camen, 2021) como forma de tendência para o uso da Teoria da Evidenciação. Observa-se que a preocupação com meio ambiente, isto é, o engajamento para auxiliar nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) tem sido fator de promoção de maior divulgação e evidenciação por parte de muitas organizações, conforme já preconizavam Arcar e Temiz (2020) e Yook et al. (2017). A Tabela 3 evidencia os estudos nacionais que relacionam a Teoria da Evidenciação com a sustentabilidade.

Dentre os estudos voltados à área da sustentabilidade a nível nacional, ou seja, que foram publicados no Brasil tem-se como destaque, conforme pode ser visualizado na Tabela 3, o estudo de Ricardo et al. (2017) com 42 citações no Google Acadêmico, observou que o tamanho e a participação da empresa na carteira do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), impacta de forma positiva a probabilidade de divulgação dos relatórios de sustentabilidade e/ou relato integrado. O presente artigo traz como tendência, maior preocupação, por parte das empresas, com as questões socioambientais e com os usuários externos e tomadores de decisões, e como avanço contribuiu para reforçar a importância da divulgação voluntária, pois quanto maior é a empresa, mais e melhor é a informação a ser divulgada.
O segundo estudo mais citado foi o de Pereira et al. (2018) com 7 citações no Google Acadêmico. O referido estudo está voltado ao setor de energia elétrica e telecomunicações, em que verificou a existência de relação positiva apenas entre a divulgação do relatório de sustentabilidade e o tamanho das empresas, comparativamente. Indica que no setor energético existem mais fatores que influenciam na divulgação do relatório de sustentabilidade, o que pode estar atrelado ao maior número de empresas do setor, com maior potencial de agredir o meio ambiente. O presente estudo também reforça a relevância do setor energético, um dos grandes poluidores ambientais em divulgar informações voluntárias e completas. Por meio da Tabela 4 apresentam-se os estudos internacionais sobre a Teoria da Evidenciação voltados à sustentabilidade.

Em destaque na Tabela 4, com 535 citações no Google Acadêmico está o estudo de Qiu et al. (2016). Suas descobertas consistem na visão de que as empresas baseadas em recursos e na Teoria da Evidenciação tendem a divulgar mais e melhor as informações aos usuários externos, pois a geração de benefícios econômicos é mais promissora quando existe uma relação de confiança entre as empresas e seus usuários externos.
Em segundo lugar, com 293 citações no Google Acadêmico tem-se o estudo de Hummel e Schlick (2016). Seu estudo revela que os profissionais das empresas, em melhor colocação no mercado, tendem a realizar relatórios de sustentabilidade com alta qualidade para os tomadores de decisão. No entanto, o estudo também evidencia que para empresas com baixo desempenho no mercado tendem a utilizar mais a Teoria da Legitimidade. Vale retomar ao conceito de Suchman (1995, p. 574), que define legitimidade como “uma percepção generalizada ou suposição de que as ações de uma entidade são adequadas ou apropriadas dentro de um sistema socialmente construído de normas, valores, crenças e definições”.
O presente estudo apresenta como tendência, que os profissionais de sustentabilidade em empresas de grande porte evidenciam relatórios de alta qualidade aos interessados pela informação, pois quanto melhor a divulgação, maior é o tamanho da empresa e, como avanço percebe-se que os estudos indicam a necessidade de reduzir a divulgação de relatórios de baixa qualidade, onde empresas de menor porte tendem a divulgar informações de menor qualidade na informação a ser divulgada de forma voluntária. A seguir tem-se os estudos que abordam a Teoria da Evidenciação no setor futebolístico, relacionado a normatização contábil e o terceiro setor, conforme observa-se na Tabela 5.

Observou-se a partir dos estudos apresentados na Tabela 5, que as demonstrações contábeis dos clubes de futebol são de baixa qualidade e insuficientes, o que prejudica os usuários da informação. Acerca disso, Soares (2013) destaca que apenas com um alto nível de confiabilidade nos dados contábeis é possível compreender a posição patrimonial e financeira atuantes nesse setor, isso prejudica a confiança dos stakeholders e dos agentes reguladores. São poucos os clubes de futebol que atenderam o mínimo necessário a ponto de satisfazer as necessidades dos tomadores de decisão (Figueiredo et al., 2017).
Com relação à normatização do Comitê de Pronunciamento Contábeis (CPCs) na convergência às normas internacionais de Contabilidade, tem-se o estudo de Consoni e Colauto (2016), com 19 citações no Google Acadêmico. Os autores verificaram que a convergência às Normas Internacionais de Contabilidade apresenta-se como um fator exógeno que afetou positiva e significativamente a divulgação voluntária no período analisado. Essa constatação está de acordo com o racional de complementariedade entre a divulgação obrigatória e a divulgação voluntária.
Também em destaque, com 10 citações no Google Acadêmico, o estudo de Pereira et al. (2017), que aborda características econômicas de empresas e uso de hedge accounting. Os autores identificaram que o número de empresas que utilizam e divulgam o hedge accounting vem crescendo, o que demonstra que as empresas estão, cada vez mais, buscando proteção para seus resultados e evidenciando tal fato ao mercado.
Também se observa, ao analisar os artigos da Tabela 5, que cada estudo objetiva uma análise diferente, no entanto, ao entender onde a Teoria da Evidenciação corrobora com as análises, identifica-se que a tendência é que cada vez mais as empresas, independentemente do setor de atuação, evidenciem seus resultados de forma voluntária ao mercado. Ao avançar nesta discussão, empresas com melhores resultados serão as que mais evidenciam relatórios, tanto de forma obrigatória, quanto no âmbito voluntário.
Também é importante ressaltar que os artigos que compõem a luz da normatização são todos artigos nacionais e o enfoque é na adesão às normas internacionais de Contabilidade juntamente com os CPCs. Pode-se afirmar que as normas internacionais potencializam a necessidade de maior e melhor divulgação dos dados financeiros e contábeis.
As organizações sem fins lucrativos, que não pagam impostos, estão cada vez mais engajadas em divulgar as demonstrações contábeis, pois entendem que quanto mais transparentes forem as informações e/ou divulgação contábil, mais fácil é a administração e a captação de recursos. Ainda com enfoque nas pesquisas em instituições sem fins lucrativos, destaca-se o estudo de Yang e Simnett (2020) com apenas quatro citações no Google Acadêmico, seguido do estudo de Lima et al. (2021) com três citações. Contudo, a quantidade de citações pode ser explicada também pelo ano de publicação. De todo modo, Yang e Simnett (2020) ao analisar 11.471 instituições de caridade, descobriram que a sua fonte de financiamento e o nível de endividamento são significativos para instituições de caridade que escolhem uma estrutura de relatório financeiro mais abrangente. Desta forma, a tendência é que exista uma preocupação maior em transparecer aos financiadores as demonstrações contábeis, deixando como avanço a preocupação em divulgar mais e melhores informações aos agentes interessados nesta instituição de caridade.
O estudo de Lima et al. (2021), ao analisar o balanço social e o full disclosure no terceiro setor, utilizando método de estudo multicaso, realizado junto a quatro organizações sem fins lucrativos, apresenta como resultado a constatação da potencialidade do balanço social, em que pese a precariedade na capacidade de sua execução pelas ONGs de menor porte. Ficou constatada também, a tendência de adequar-se a evidenciação de relatórios de forma voluntária e a existência de ONGs que avançam na realização de um full disclosure adequado. A Tabela 6 apresenta os artigos classificados como “Outros”, os quais são artigos que tratam de empresas de setores diversos.

A partir da Tabela 6, destaca-se o estudo de Sarhan e Ntim (2019), com 30 citações, que ao estudar os conselhos corporativos, estruturas acionárias e a divulgação voluntária em economias emergentes do Oriente Médio e do Norte da África (MENA), verificou que de forma geral, as empresas listadas em economias emergentes têm um nível relativamente mais baixo de evidenciação de forma voluntária e divulgação das práticas de governança corporativa em comparação com as empresas listadas em países desenvolvidos. Ademais, o estudo retrata a necessidade de divulgação voluntária por parte da governança corporativa. Os resultados indicaram que a estrutura de liderança do conselho unitário, participações de diretores e participações governamentais impactam negativamente no nível de divulgação voluntária da governança corporativa. A tendência deste estudo é que os membros da governança passem a elaborar relatórios de divulgação aos stakeholders de forma voluntária e o avanço é que cada vez mais organizações passem a se legitimar para melhorar as questões de transparência com os usuários da informação.
Ainda em destaque tem-se o estudo de Demartini e Trucco (2016), com 26 citações no Google Acadêmico, que buscou analisar se “a divulgação de capital intelectual é importante para o risco de auditoria? Evidências do Reino Unido e da Itália”. Os achados revelaram que a Teoria da Divulgação argumenta que uma melhor qualidade da informação reduz o risco de auditoria, diminuindo a assimetria de informação no mercado e, consequentemente, o risco de informação para as empresas. Em suma, o estudo traz a tendência da evidenciação de melhor e maior qualidade nas informações divulgadas pelas companhias do Reino Unido e da Itália, e o avanço está na conscientização das empresas em deixar evidências claras as empresas de auditoria a fim de minimizar os riscos de inconsistências nas demonstrações contábeis.
Por fim, na Figura 4 apresenta-se uma síntese com os artigos mais citados, tanto no âmbito nacional quanto internacional, a partir do Google Acadêmico, mencionando os autores responsáveis por tais estudos.

Considerando os 44 artigos analisados por meio do presente estudo, se considera a soma das citações do Google Acadêmico de cada artigo tem-se um total de 1.234 citações. Ao serem selecionados os dez artigos mais relevantes, conforme evidenciado na Figura 4, em primeiro lugar destaca-se o estudo de Qiu et al. (2016), representando 43,35% da frequência relativa, em segundo lugar tem-se a pesquisa de Hummel e Schlick (2016) com 23,74%, em terceiro lugar Heflin e Wallace (2017) com 6,97%, e os demais com 3,40%, 2,43%, 2,11%, 2,11%, 1,70%, 1,54% e 1,30% respectivamente.
Dos estudos em evidência, seis são estudos voltados para sustentabilidade, sendo que cinco estudos são internacionais, a saber: Qiu et al. (2016), Hummel e Schlick (2016), Heflin e Wallace (2017), Yook et al. (2017), Lu e Wang (2021) e um estudo nacional de Ricardo et al. (2017), evidenciando ainda mais a tendência dos estudos voltados à sustentabilidade.
Com o objetivo de analisar os avanços e as tendências das pesquisas em Contabilidade que utilizam como base teórica a Teoria da Evidenciação observou-se, a partir de uma revisão sistemática de literatura nas principais bases de coleta de artigos nacionais e internacionais, que a Teoria de Evidenciação foi objeto de 44 estudos ao longo dos últimos 5 anos. Os resultados também revelaram que a teoria em questão sempre foi explorada ao longo dos anos e é objeto constante das produções científicas na área da contabilidade, tanto nacionais quanto internacionais.
A relação entre a sustentabilidade e a Teoria da Evidenciação também representa um achado interessante, uma vez que ficou evidenciado a partir de 20 dos estudos analisados, que a organizações que se destacam no contexto socioambiental também buscam evidenciar mais e melhor suas informações. Sendo assim, percebe-se uma tendência de aplicação desta teoria em estudos relacionados com a sustentabilidade. Tal fato pode estar relacionado ao crescimento no engajamento das empresas para com Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e para atender o Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU), principal iniciativa corporativa a nível mundial para com a sustentabilidade.
Como principal avanço desta teoria destaca-se de forma geral que as empresas que têm maior e melhor qualidade nas divulgações, seja no âmbito compulsório ou no âmbito voluntário, são justamente as que têm maior transparência na evidenciação de suas demonstrações contábeis. Isso de certa forma atrai cada vez mais investidores, potencializando sua reputação no mercado de capitais.
As principais contribuições desta revisão para o campo teórico são de que os estudos que possuem como base a Teoria da Evidenciação na Contabilidade reforçam a necessidade das empresas, independente do setor de atuação, divulgarem informações confiáveis e fidedignas que possam atender aos distintos interesses dos usuários da Contabilidade. Como pontos críticos e sugestões de pesquisas futuras apontam-se a necessidade de que estudos adicionem a Teoria da Legitimidade com o intuito de realizar uma comparação entre as duas teorias. No entanto, empresas maiores realizam divulgações de forma voluntária em maior quantidade, já as menores realizam a divulgação de relatórios de forma compulsória e insuficiente para os tomadores de decisões.
Fica evidenciado em todos os estudos e, reforçado nos achados desta pesquisa que a Teoria da Evidenciação, corrobora com as preocupações e interesses dos stakeholders quanto à transparência e confiabilidade das informações, especialmente pelo fato de que grande parte da evidenciação é voluntária, e consequentemente as empresas buscam atrair investidores e melhorar sua reputação a partir da divulgação.
Este estudo apresenta como uma das limitações o foco em estudos que se utilizaram da Teoria da Evidenciação como base teórica, poderia ser ampliado a estudos que de alguma forma cita a teoria. A metodologia adotada se apresenta como outra limitação, dado a fragilidade de uma busca sistemática, por exemplo, as escolhas dos descritores nas bases selecionadas (Portal de Periódicos da Capes, EBSCOhost, Science Direct e Spell) poderia ser ampliado com outras bases, a fim de aumentar o número de estudos a serem utilizados. Os aspectos caracterizados como limitações desta pesquisa podem servir de inspiração para futuras pesquisas sobre a Teoria da Evidenciação.
A partir de tais limitações sugere-se para futuras pesquisas, estender o período pesquisado, de modo a identificar a evolução da teoria, bem como, identificar a adoção por parte das empresas e divulgação de informações relevantes de forma voluntária, demonstrando transparência e confiabilidade. Também fica como sugestão para novas pesquisa a inclusão da busca pelo descritor Teoria da Legitimidade, uma vez que nos estudos que compõe esta pesquisa, percebeu-se que os autores destacam que as empresas que não divulgam e/ou divulgam informações de má qualidade, têm a se legitimar de alguma forma, protegendo a empresa no tocante de divulgar apenas informações de forma compulsória. Por fim, outra recomendação é aumentar as bases selecionadas.
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