Literatura
Velações e partidas: o trauma em Antes de nascer o mundo, de Mia Couto
Concealment and departures: the trauma in Antes de nascer o mundo by Mia Couto
Velações e partidas: o trauma em Antes de nascer o mundo, de Mia Couto
Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 38, núm. 1, pp. 11-20, 2016
Universidade Estadual de Maringá
Recepção: Julho 20, 2014
Aprovação: Novembro 06, 2015
Resumo: Este trabalho tem como objetivo a análise do trauma na obra Antes de nascer o mundo, do moçambicano Mia Couto. Partindo das reflexões freudianas, pretendemos examinar os efeitos negativos e positivos do trauma, confrontando os posicionamentos dos personagens Silvestre Vitalício e Marta diante da experiência traumática vivenciada por cada um deles. Valendo-nos como referencial teórico, principalmente, das reflexões de Sigmund Freud, Márcio Seligmann-Silva e Stuart Hall, examinaremos como a narrativa da catástrofe possibilita aos personagens do romance a (re)invenção das identidades abaladas pelo trauma.
Palavras-chave: memória, testemunho, identidade, literatura moçambicana.
Abstract: This work aims to analyze the trauma in Antes de nascer o mundo by the Mozambican author Mia Couto. Starting from the Freudian reflections, we intend to examine the positive and negative effects of the trauma confronting the positions of the characters Silvestre Vitalício and Marta in the face of the traumatic experience lived by each of them. Drawing on the theoretical reference mainly from reflections by Sigmund Freud, Márcio Seligmann-Silva and Stuart Hall, we will examine how the narrative of the catastrophe allows the characters of the novel to (re)invent their identities shattered by the trauma.
Keywords: memory, testimony, identity, mozambican literature.
Introdução
O romance Antes de nascer o mundo, do escritor moçambicano Mia Couto, publicado no Brasil em 2009, tem como um dos temas centrais a dificuldade da relação humana com o tempo e com a memória, em meio aos vestígios das duas grandes guerras que abalaram Moçambique. Silvestre Vitalício, diante do trauma que a catástrofe da guerra ocasionou a si, promove um afastamento espácio-temporal da cidade, exilando-se num sítio onde o passado não existe e a partir do qual o contato com o mundo é interrompido, desintegrando não somente a cena traumática pretérita, mas também a possibilidade de elaboração das experiências presentes.
Partindo da análise dessa atitude extrema do protagonista da narrativa, o trabalho pretende analisar a forma como Silvestre Vitalício se relaciona com o trauma e as consequências que esse comportamento traz – o abalo identitário que a repressão das memórias traumáticas gera. Em contrapartida, outra forma de se relacionar com o trauma é dada a conhecer pela portuguesa Marta. Essa personagem, apesar de ter vivenciado experiências traumáticas semelhantes às de Silvestre, vale-se da memória para enfrentar e se posicionar perante a catástrofe, permitindo-se o confronto com essas experiências, passando ao estágio de compreensão de sua formação como sujeito de sua história.
Tendo como base teórica reflexões sobre trauma, testemunho e identidade, desenvolvidas por Sigmund Freud, Márcio Selligmann-Silva e Stuart Hall, entre outros, procuramos analisar como as posturas empreendidas tanto por Silvestre Vitalício quanto Marta possibilitam – ou não – a (re)invenção das identidades abaladas pelo evento catastrófico.
Rebatismo e crise de identidade
Em Antes de Nascer o Mundo, é Mwanito, filho de Silvestre, quem conta a história da humanidade que, conforme lhe explicara o pai, era composta por apenas cinco homens. Eles resistiram à morte do mundo: Mwanito, seu irmão Ntunzi, seu pai Silvestre, o serviçal Zacaria Kalash e o Tio Aproximado, além da jumenta Jezibela. O extinguir do mundo, conforme a Mwanito revelou ao pai, se deu por definhamento. O cosmos ‘exauriu-se em desespero’ e os últimos sobreviventes passaram a habitar um lugarejo ao qual Silvestre Vitalício batizou Jesusalém. Além do horizonte, existiam apenas territórios sem vida aos quais se chamava ‘Lado-de-Lá’.
[...] Meu velho, Silvestre Vitalício, nos explicara que o mundo terminara e nós éramos os últimos viventes. [...] Em poucas palavras, o inteiro planeta se resumia assim: despido de gente, sem estradas e sem pegada de bicho. Nessas longínquas paragens, até as almas penadas já se haviam extinto. Em contrapartida, em Jesusalém, não havia senão vivos. Desconhecedores do que fosse saudade ou esperança, mas gente vivente. Ali existíamos tão sós que nem doença sofríamos e eu acreditava que éramos imortais (Couto, 2009, p. 11).
O abandono das cidades do mundo e a mudança para Jesusalém ocorreram após o falecimento de Dordalma, esposa de Silvestre. Em Jesusalém, os derradeiros viventes eram desconhecedores de saudades e vazios de esperanças. Ausentes do mundo e privados de passado, os habitantes de Jesusalém ganharam novos nomes: "[...] Rebatizados nós tínhamos outro nascimento. E ficávamos mais isentos de passado" (Couto, 2009, p. 37). Na cerimônia de ‘desbatismo’, Mateus Ventura se converteu em Silvestre Vitalício; Olindo Ventura, em Ntunzi; Orlando Macara passou a Tio Aproximado; e Ernestinho Sobra foi renomeado como Zacaria Kalash. Apenas Mwanito manteve o nome, pois, conforme lhe dissera o pai, faltava-lhe um diabo. Mwanito, que não guardava lembranças do mundo do qual foi exilado, “[...] Por isso, você nem carece de nenhum nome... basta-lhe assim: mwana, Mwanito” (Couto, 2009, p. 39).
[...] – Este ainda está nascendo – justificou assim meu pai a permanência do meu nome. Eu tinha vários umbigos, já nascera vezes sem conta, todas elas em Jesusalém, revelou Silvestre em voz alta. E seria em Jesusalém que iria concluir o meu último parto. O mundo de onde fugíramos, o Ladode- Lá, era tão triste que não dava vontade de nascer (Couto, 2009, p. 38).
O ‘desbatismo’ promovido por Silvestre e o abandono do mundo tiveram como único propósito afastar-se das memórias; no entanto, trouxeram como consequência um forte abalo identitário, eivado de abatimento, de recriminações e de ofensas e configurado na manutenção, à custa da violência, das defesas erguidas pelo protagonista.
Na busca de livrar-se do passado, o personagem se vê na necessidade de assumir um novo nome, pois aquele que o reconhecia na cidade do mundo – Mateus Ventura – vinha carregado de sentido daquela outra vida: “[...] No princípio, ele [Mateus Ventura] queria um lugar onde ninguém se lembrasse do seu nome. Agora, ele próprio já não se lembrava quem era” (Couto, 2009, p. 22).
A mudança de nomes efetuada em Jesusalém evidencia a crise identitária da qual sofre Silvestre Vitalício, uma vez que, como afirma Pierre Bourdieu (1996, p. 187), “[...] o nome próprio é o atestado visível da identidade do seu portador através dos tempos e dos espaços sociais”. Ao negar seu nome de nascimento, o personagem empreende um projeto que busca o esquecimento e o exílio de si mesmo.
Exílio e esquecimento
Moçambique, locus onde se dá a narrativa de Mia Couto, foi palco de quase três décadas de guerras. A primeira guerra se deu entre a Frente de Libertação Moçambicana (FRELIMO) e Portugal e visou à libertação de Moçambique do domínio dos colonizadores. A segunda grande guerra de Moçambique envolveu os partidos Frente de Libertação Moçambicana e Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO).
O horror das guerras ocorridas em Moçambique constitui uma experiência traumática sofrida pelo patriarca de Antes de Nascer o Mundo. A incapacidade de compreensão e de assimilação da catástrofe vivenciada e a consequente tentativa de apagamento ou higiene mental do evento traumático – que se dá por meio do exílio em Jesusalém – dão origem a uma crise de identidade que afeta Silvestre Vitalício e também aqueles que o cercam.
A catástrofe costuma trazer em seu bojo um problema de representação. Conforme aponta Ronaldo Lima Lins (1990), quando o horror atinge um nível extremo, a arte fracassa em seu princípio mimético de representação da realidade. Por seu turno, Seligmann-Silva (2005, p. 83. Grifos do autor) afirma que “[...] o evento catastrófico é um evento singular porque, mais do que qualquer fato histórico, do ponto de vista das vítimas e das pessoas nele envolvidas, ele não se deixa reduzir em termos do discurso”. Sendo assim, retratar o horror como resposta ao horror é uma empreitada de antemão fracassada: “[...] Faça o que fizer, em matéria de literatura, nada se comparará aos caminhos tortuosos e sinistros da realidade, quando se trata, por exemplo, do que houve em Auschwitz” (Lins, 1990, p. 33).
A intenção é retratar em qualidade e em extensão o que se dá na realidade; no entanto, o resultado resvala na banalização e no esvaziamento do horror real. Um exemplo disso são os primeiros documentários produzidos imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, que, por seu caráter extremamente realista, geraram nos espectadores uma reação de incredulidade. Lyslei Nascimento (2005, p. 61) chama a atenção para o efeito perverso que tal excesso de realidade provocou:
[...] As imagens, cruéis demais para serem aceitas como verdadeiras, provocavam a incredulidade na boa consciência dos espectadores e, ao serem desacreditadas, os absolviam da cumplicidade ou da omissão.
A esse impasse em que a arte se encontra, diante da impossibilidade e da necessidade de retratar o horror, Bernardo Carvalho (2000), no ensaio A comunicação interrompida: Estão apenas ensaiando, propõe, como resposta, a interrupção radical de toda comunicação até a mais absoluta falta de sentido. Essa incomunicabilidade põe em cena a introdução do horror no nível formal, atingindo a palavra.
[…] Para representar a interrupção radical da comunicação, o fim violento do sentido, as narrativas dramáticas – seja o cinema, a literatura ou o teatro – costumam lançar mão, por analogia, de uma interrupção da comunicação em um nível mais palpável, interpessoal, individual, compreensível. A separação forçada, o desencontro e a perda individuais são os meios de representação, ainda que insignificantes em relação à dimensão real e coletiva da catástrofe, que costumam ser usados na tentativa de estabelecer uma comunicação sensível com o espectador, uma compreensão dramática possível, uma transmissão do sentimento do horror (Carvalho, 2000, p. 237-238).
Para o autor, diante da inexistência de uma representação dramática que condiga ou equivalha ao horror coletivo da catástrofe, diante desses limites, entender a catástrofe seria assumir a posição do outro em um nível de identificação individual. Assim, “[…] a interrupção da comunicação interpessoal é a forma possível, aproximativa, conhecida e identificável, de se representar essa impossibilidade” (Carvalho, 2000, p. 238).
Em Antes de nascer o mundo, o suicídio de Dordalma, esposa de Silvestre Vitalício, constitui uma analogia em que o horror da guerra é representado. A morte põe em cena a interrupção da comunicação por meio da qual a catástrofe, que traumatiza os habitantes de Jesusalém, é retratada aproximativamente.
Na verdade, antes da morte, que constitui uma suspensão definitiva, a comunicação é interrompida gradativamente. Em um primeiro momento, o adultério de Dordalma com Zacaria põe em cena uma negação do corpo, que é intensificada quando a esposa de Silvestre o abandona.
O suicídio da mãe de Mwanito foi a maneira por ela encontrada de se revoltar contra a condição de propriedade que o casamento lhe imputara. Por meio de tal ato trágico e íntimo de violência, recupera-se e se faz reconhecer o direito da mulher sobre a própria vida.
[...] Suicídio de mulher casada é o vexame maior para qualquer marido. Não era ele o legítimo proprietário da vida dela? Então, como admitir aquela humilhante desobediência? Dordalma não abdicara de viver: perdida a posse de sua própria vida, ela atirara na cara do teu pai o espetáculo de sua própria morte (Couto, 2009, p. 246).
A catástrofe é um evento que provoca um trauma. Diante da morte da esposa, que, como dimensão mínima, alegoriza o irrepresentável da experiência catastrófica da guerra, e movido pelo sentimento de culpa pela sobrevivência, Silvestre abandona as cidades do mundo e se exila em Jesusalém, levando consigo seus filhos e acompanhado pelo serviçal Zacaria Kalash, que também compartilha a culpa por ter sobrevivido à Dordalma: “– Só não entendo uma coisa: por que razão eles [Silvestre e Zacaria] foram juntos para Jesusalém... – A culpa, Mwanito. Foi o sentimento de culpa que os juntou...” (Couto, 2009, p. 271).
O suicídio de Dordalma estabelece a interrupção da comunicação para Silvestre Vitalício e seus filhos, assim como para Zacaria Kalash. A incapacidade de compreensão do evento traumático desencadeia o abandono da cidade e a fundação de Jesusalém. Neste sítio, o contato com o mundo externo é interrompido, assim como toda e qualquer menção a tudo aquilo que extrapola os limites de Jesusalém e que traz de volta o passado recusado por Silvestre. Esse lugar foi erigido sob o desejo de silenciar de uma vez por todas o trauma.
As reflexões de Freud (1996c) nos auxiliam a melhor entender o conceito de trauma, sua causa e o reflexo que produz sobre a memória. A experiência traumática, para o autor, está ligada à incapacidade de assimilação total de um evento no tempo de seu acontecimento. Segundo ele,
[...] as neuroses traumáticas dão uma indicação precisa de que em sua raiz se situa uma fixação no momento do acidente traumático. [...] É como se esses pacientes não tivessem findado a situação traumática, como se ainda tivessem enfrentando-a como tarefa imediata ainda não executada (Freud, 1996c, p. 282-283).
Assim, o trauma está intimamente relacionado ao susto, ao despreparo do sujeito diante do evento traumático e à omissão da ansiedade, uma vez que nela há algo que protege o indivíduo contra o susto. De fato, diante da catástrofe, uma expressão extrema do horror, não há qualquer possibilidade de preparo.
Nesse sentido, o trauma relaciona-se com o choque tanto quanto constitui uma fissura na memória que impede a experiência plena do evento e ultrapassa os limites da nossa capacidade de entendimento. Segundo Seligmann-Silva (2000, p. 84), “[...] o trauma é justamente uma ferida na memória[...]”, sendo caracterizado pela incapacidade de recepção de um evento que extrapola os limites da nossa percepção.
À impossibilidade de acessamento da crise, Silvestre responde com a tentativa de eliminar toda e qualquer lembrança. Assim como ele, Zacaria partiu para Jesusalém como quem foge do passado – “[…] sempre vivi em guerra. Aqui é a minha primeira paz…”. Zacaria era “[…] neto de soldado, filho de sargento, ele mesmo não tinha sido outra coisa senão um militar [...]” (Couto, 2009, p. 85). Não se lembrava, contudo, de nenhuma guerra. Assim como escapara da morte, escapara das recordações.
[...] Pelas perfurações do corpo lhe tinham fugido as lembranças. […] O Tio Aproximado foi quem desvendou esse esquecimento: por que motivo Zacaria não se lembrava de nenhuma guerra? Porque ele lutara sempre do lado errado. Foi assim desde sempre na sua família: o avô lutara contra Gungunhana, o pai se alistara na polícia colonial e ele mesmo combatera pelos portugueses na luta de libertação nacional (Couto, 2009, p. 86).
O trauma que a guerra provocou no militar fez com que ele quisesse se afastar não apenas do quartel, mas do tempo de todas as guerras. Daí o motivo do exílio do militar fora do mundo.
[...] Havia muito que deixara de entender Zacaria Kalash. As dúvidas começavam na razão de seu antigo nome. Ernestinho Sobra. Porquê Sobra? A razão, afinal, era simples: ele era uma sobra humana, um resto anatômico, uma pendência de alma. Sabíamos, mas não falávamos: Zacaria tinha ficado diminuído por rebentamento de mina. O engenho explodiu, o soldado Sobra levantou vôo, em tosca imitação de pássaro. Foi encontrado chorando, sem saber como caminhar. Ainda procuraram, em vão, algum dano no corpo. A explosão tinha danificado a totalidade da sua alma (Couto, 2009, p. 93-94).
Se é verdade que o recomeço representado por Jesusalém significa estaca zero, não se pode afirmar, no entanto, que ofereça um rumo a seguir. Isso porque o trauma mina as esperanças de Vitalício no porvir e o amarra a uma existência em que, assim como o passado, o futuro também é interdito: “[...] A cidade desmoronara, o Tempo implodira, o futuro ficara soterrado.” (Couto, 2009, p. 74). Detentor absoluto do poder, Silvestre proíbe em seu reino cantos, rezas – pois rezar é chamar visitas – e escrita. Contudo, mais proibido que a reza e mais pecaminoso que as lágrimas ou o canto, era, em Jesusalém, falar sobre mulheres. E, como aponta Ntunzi, “[…] sem mulheres, não resta semente” (Couto, 2009, p. 33).
A maneira como Silvestre Vitalício impõe rígidas regras de conduta em seu reino, estabelecendo, assim, o isolamento absoluto de Jesusalém, revela em que medida o trauma sofrido por ele afeta também aqueles que vivem consigo. Diferentemente de Zacaria Kalash, cuja mudança para Jesusalém se deu por vontade própria, para Ntunzi e para Mwanito não houve escolha.
Incapazes de traçar os próprios destinos, os meninos, em Jesusalém, sofrem da mesma falta de memória da qual padece Silvestre. As consequências que a experiência traumática oferece a eles se fazem sentir na carência de lembranças que ambos têm da mãe, Dordalma, e o sofrimento que esta falta lhes causa.
O degredo em Jesusalém era penoso para Ntunzi pelo fato de ele haver conhecido o Lado-de-Lá: “[...] Ntunzi sofria porque se lembrava, tinha termos de comparação. Para mim [Mwanito], aquela reclusão era menos penosa: eu nunca tinha saboreado outras vivências” (Couto, 2009, p. 54). No entanto, sem qualquer subsídio que alimentasse e mantivesse vivo o passado, as lembranças de Ntunzi acabam por se dissipar.
[...] Ntunzi chorava.
– O que foi, mano?
– É tudo mentira.
– Mentira quê?
– Eu não me lembro.
– Não se lembra?
– Não me lembro da mamã. Eu não consigo lembrar-me dela (Couto, 2009, p. 58-59)
De todas as vezes que ele a representaram, em tão vivo teatro, tinha sido puro fingimento. Os mortos não morrem quando deixam de viver, mas quando os votamos ao esquecimento. Dordalma falecera definitivamente e, para Ntunzi, se extinguirá para sempre o tempo em que ele tinha sido menino, filho de um mundo que com ele nascia.
– Agora, meu mano, agora é que somos órfãos. Talvez Ntunzi, a partir daquela noite, se sentisse órfão. Para mim, porém, o sentimento era mais suportável: eu nunca tinha tido mãe. Eu era filho apenas de Silvestre Vitalício (Couto, 2009, p. 59).
Mwanito não guarda recordações do tempo em que viveu na cidade – a migração para a coutada ocorreu quando tinha apenas três anos. Embora afirme que o fato de não ter experimentado outra realidade que não a de Jesusalém faça sua vida neste recinto isolado menos sofrível, Mwanito inveja as supostas lembranças de Ntunzi: “[...] Não gostava que lembrassem que o meu irmão já vivera nesse outro lado, que ele conhecera a mãe, que ele sabia como eram as mulheres” (Couto, 2009, p. 72).
[...] eu queria esse barco que conduzia Ntunzi para os braços da nossa falecida. Certa vez, a raiva acumulada extravasou:
– O pai diz que é mentira, diz que você não sonha com a mãe. Ntunzi olhou-me com pena, como se eu fosse desvalido e o meu órgão de sonhar tivesse sido mutilado (Couto, 2009, p. 43).
Se, como afirma Geoffrey Hartman (2000, p. 223), “[...] a memória é a evidência de continuidade: de que o futuro terá um passado [...]”, em Jesusalém, a inexistência de qualquer memória aprisiona os sobreviventes do mundo a um tempo ininterrupto, suspenso, em que não apenas o passado é negado, como também o é qualquer expectativa com relação ao futuro. De fato, diante do isolamento e da solidão em que se vive em Jesusalém e da suposta morte do mundo, que futuro poderia haver para o que restou da humanidade, especialmente, sendo os ‘últimos viventes’ todos homens?
Esquecer – como procuram fazer os habitantes de Jesusalém – não é a única (nem a melhor) maneira possível de se lidar com o trauma. Segundo Freud (1996a), os efeitos dos traumas podem ser de dois tipos: positivos e negativos.
[...] Os primeiros [efeitos positivos] são tentativas de pôr o trauma em funcionamento mais uma vez, isto é, recordar a experiência esquecida ou, melhor ainda, torná-la real, experimentar uma repetição dela de novo [...]. As reações negativas seguem o objetivo oposto: que nada no trauma esquecido seja recordado e repetido (Freud, 1996a, p. 90).
O trabalho do trauma, por meio de seus efeitos positivos, tem como objetivo a reintegração do evento traumático de modo articulado e não mais patológico na vida do sujeito. Buscar a realidade (em vez de tentar fugir dela), como afirma Shoshana Felman (2000), é uma maneira de explorar a ferida infligida por ela como o reemergir da paralisia desse estado, para engajar-se na realidade enquanto advento e enquanto necessidade de prosseguir. Segundo a autora, “[...] é para além do choque de ter sido atingido, porém, apesar disso, dentro da ferida e de dentro do estar ferido, que o evento, por mais incompreensível que possa ser, torna-se acessível.” (Felman, 2000, p. 40).
A transformação da ferida em uma abertura que permita o acesso à realidade se faz possível por intermédio da memória e das palavras: a narração do trauma, ou seu testemunho, se não é capaz de esvaziá-lo, pode conduzir à sua pacificação por meio do conhecimento. Silvestre Vitalício, no entanto, se protege das palavras com a ajuda de seu filho Mwanito que, tecendo “[...] os delicados fios com que se fabrica a quietude” (Couto, 2009, p. 14), afina os silêncios e afasta o pai das lembranças. Além disso, quando Silvestre se vale das palavras, fabrica discursos lúgubres e confusos, ordenando-as em falas que nada dizem: “[...] Todas as histórias que o pai inventava sobre os motivos de abandonar o mundo, todas aquelas fantasiosas versões tinham um único propósito: empoeirar-nos o juízo, afastandonos das memórias do passado” (Couto, 2009, p. 23). Diante da catástrofe, ao sujeito se interpõe o conflito entre a necessidade e a impossibilidade de representação, entre o desejo de esquecer e sua impossibilidade. Nesse sentido,
[...] tanto o testemunho deve ser visto como uma forma de esquecimento, uma ‘fuga para frente’, em direção à palavra e um mergulhar na linguagem, como também, por outro lado, busca-se igualmente através do testemunho a libertação da cena traumática (Seligmann-Silva, 2000, p. 90).
A palavra é o instrumento por meio do qual se torna possível o acessamento da crise. No entanto, a incapacidade de reviver a experiência traumática por meio da narrativa e, assim, compreendê-la, faz com que Silvestre se prive da própria vida. Vítima de uma crise identitária desencadeada pelo fato de o personagem recusar o testemunho por meio do qual poderia reencontrar seu nome próprio, sua assinatura, Mateus Ventura abandona a identidade que o reconhecia nas cidades do mundo e se transforma em Silvestre Vitalício.
[...] Ao fim e ao cabo, só existe um verdadeiro suicídio: deixar de ter nome, perder o entendimento de si e dos outros. Ficar fora do alcance das palavras e das alheias memórias.
– Eu me matei muito mais do que Dordalma. Silvestre Vitalício, ele, sim, se suicidou. Mesmo antes de chegar a morrer, já tinha posto cobro à vida.
Varreu os lugares, afastou os viventes, apagou o tempo (Couto, 2009, p. 212).
O livro
A reconstrução identitária dos habitantes de Jesusalém tem início com a chegada de uma visitante. A portuguesa Marta viaja a Moçambique em busca de seu marido, Marcelo. Tendo combatido como soldado em terras africanas, Marcelo passou um mês em Moçambique, o que lhe custou o sentimento de pertencimento à sua cidade de origem, Lisboa: “[...] tu regressaste de África, mas parte de ti nunca voltou. Todos os dias, manhã cedo, saías de casa e ficava deambulando pelas ruas como se nada reconhecesse na tua cidade” (Couto, 2009, p. 138). Essa inadequação conduz o português de volta a Moçambique, mas desta vez numa viagem sem retorno.
Depois do regresso de Marcelo à África, Marta encontrou, no fundo de uma gaveta, uma fotografia de uma jovem negra em cujo verso constava um número de telefone. Quando viaja para resgatar seu marido, a portuguesa entra em contato com sua rival, Noci, de quem adquire informações sobre os últimos rastros deixados por ele: Marcelo havia sido conduzido por Orlando Macara (Tio Aproximado), patrão de Noci, à coutada, seu último paradeiro conhecido. O intuito de encontrar Marcelo orienta o destino de Marta a Jesusalém, onde se hospeda na antiga casa da administração, que permaneceu desabitada.
O encontro da visitante com os habitantes de Jesusalém abala a autoridade de Silvestre Vitalício, revelando o logro sobre o qual se sustentava seu império: afinal, o mundo não havia morrido.
[...] Uma única pessoa – ainda por cima uma mulher – desmoronava a inteira nação de Jesusalém. Em escassos momentos, tombava em estilhaços a laboriosa construção de Silvestre Vitalício. Afinal, havia, lá fora, um mundo vivo e um enviado desse mundo se instalara no coração do seu reino (Couto, 2009, p. 127-128).
Enquanto a morte de Dordalma provoca o rompimento do fio que ligava a existência de Silvestre, seus filhos e Zacaria com o mundo, a presença de Marta destrói os alicerces em que Jesusalém se sustentava, minando os limites que separavam esse espaço do território chamado ‘Ladode- Lá’: “[...] A visão da criatura [Marta] fez com que, de repente, o mundo transbordasse das fronteiras que eu [Mwanito] tão bem conhecia” (Couto, 2009, p. 123).
A história de Marta se assimila à de Silvestre. Marta, assim como Silvestre, também foi vítima da catástrofe da guerra ocorrida em Moçambique. Tal evento atravessa a história da vida da portuguesa e é representado pelo falecimento de Marcelo. Na verdade, assim como ocorre com Dordalma, a anulação da existência de Marcelo não se dá subitamente, mas de forma gradativa. A negação do corpo (ou a interrupção da comunicação) ocorre, em um primeiro momento, por meio da traição, do envolvimento com a moçambicana Noci em uma das viagens de Marcelo a África. Em seguida, pelo abandono definitivo de Lisboa e da esposa e, finalmente, pela morte.
No entanto, distinta é a maneira como Marta se posiciona diante do trauma que a catástrofe acarreta. A portuguesa traz à tona os efeitos positivos do trauma, de que nos fala Freud: em vez de tentar esquecê-lo, como Silvestre, Marta busca confrontarse com ele. E é seguindo esse embate com a experiência traumática que ela refaz os últimos passos de Marcelo e pode tornar a morte de seu marido real.
Além disso, enquanto Mateus Ventura abandona até seu nome próprio por não poder lidar com o passado, votando-o ao esquecimento e dando origem a uma crise identitária, Marta resgata o passado em seu diário e reconstrói sua identidade por meio da escrita. Assim, ela mostra que “[...] escrever é um dos recursos de que podemos nos valer para inverter, ainda que precariamente, a posição passiva que experimentamos diante da catástrofe, e que nos causa tanto horror” (Kehl, 2000, p. 139).
Se o trauma ultrapassa as fronteiras do nosso poder de entendimento do evento catastrófico, é apenas por meio de sua narração que se faz possível, de alguma forma, assimilá-lo.
[...] A memória, e especialmente a memória usada na narração, não é simplesmente um nascer póstumo da experiência: ela possibilita a experiência, permite que aquilo que chamamos de o real penetre na consciência e na apresentação das palavras, para tornar-se algo mais do que só o trauma seguido por um apagamento mental higiênico e, em última instância, ilusório (Hartman, 2000, p. 222-223).
Esse confronto com o trauma pressupõe um reencontro com uma história permeada por uma forma afetiva de composição. Nesse sentido, a memória se revela como instrumento de recuperação do passado em que o fragmentário e a experiência individual e da comunidade são fundamentais. “[...] A arte da memória [...] é uma arte da leitura das cicatrizes” (Seligmann-Silva, 2003, p. 56) e se funda na dialética entre lembrar e esquecer.
[...] A memória só existe ao lado do esquecimento: um complementa e alimenta o outro, um é o fundo sobre o qual o outro se inscreve. Esses conceitos não são simplesmente antípodas, existe uma modalidade de esquecimento [...] tão necessária quanto a memória e que é parte desta (Selgimann-Silva, 2003, p. 53).
Assim, a leitura do passado por meio da memória (e do esquecimento) procura manter o passado ativo no presente, buscando não a representação, mas a apresentação e a exposição do ocorrido por meio de fragmentos, ruínas e cicatrizes. A memória “[...] tem compromisso com a subjetividade, com a reconstrução de uma história pessoal que precisa encontrar saídas viáveis [...] para reconstruir uma vida, um futuro, e isso por mais que ela conte das dores e das feridas” (Cytrynowicz, 2003, p. 132).
É por meio da narração que Marta é capaz de, ao mesmo tempo, acessar e se libertar do passado e recuperar sua identidade, que se perdeu como (ou com) Marcelo.
[...] - Que é isto?
Na ultima paragem antes de chegarmos a Jesusalém,
Orlando (a quem devo habituar-me a chamar de
Aproximado) perguntou, apontando para meu nome
na capa do meu diário:
- O que é isto?
- Esta – emendei. – Esta sou eu.
Devia ter dito: esse é meu nome, grafado na capa do meu diário. Mas não. Disse que era eu como se todo o corpo e toda a minha vida fossem cinco simples letras (Couto, 2009, p. 133-134).
Por meio das palavras, de seu testemunho, Marta recupera seu nome e pode renascer:
[...] Nada é anterior a mim, estou inaugurando o mundo, as luzes, as sombras. Mais do que isso: estou fundando as palavras. Sou eu que as estréio, criadora do meu próprio idioma (Couto, 2009, p. 134).
Essa maneira de fazer emergir as cicatrizes deixadas pelo tempo Marta deseja transmitir aos homens de Jesusalém. Assim, força Silvestre a confrontar-se com o evento traumático e exercer o luto, trazendo à tona sua história, antes silenciada. E adverte: “[...] Não se pode esquecer tudo tanto tempo. Não existe viagem assim tão longa...” (Couto, 2009, p. 160).
A presença de Marta estimula em Ntunzi e Mwanito a expansão da temporalidade de Jesusalém. No território governado por Silvestre, reinava apenas o tempo presente, sendo o passado proibido e o futuro inalcançável. No entanto, a portuguesa desperta em Mwanito saudades de sua mãe e o desejo pelo passado: “[...] Marta era a minha segunda mãe. Ela tinha vindo para me levar para casa. E Dordalma, a minha primeira mãe, era essa casa” (Couto, 2009, p. 147). E aguça em Ntunzi o desejo carnal, intensificando nele a ânsia pelo porvir.
[...] Cada dia mais, eu [Mwanito] a tinha como mãe. Cada vez mais, Ntunzi a sonhava como mulher. Meu irmão passou a ser tomado pelo cio: sonhava com a nudez dela, despia-a com sofreguidão de macho, no chão do sono tombavam as roupas íntimas da lusitana (Couto, 2009, p. 152).
Quando a coutada é, graças à intervenção de Marta, enfim, abandonada, o contato com esses outros tempos se faz possível. O passado pode, a partir da interferência da visitante, ser acessado e incorporado dentro de uma memória dirigida também para o futuro, “[...] dentro de uma memória que possibilite a narração” (Seligmann-Silva, 2000, p. 89). Esse aprendizado de narrar o passado traumático pelas vias da memória, de testemunhar, é propiciado pela portuguesa, principalmente a Mwanito.
Antes que essa aprendizagem começasse, Marta e Mwanito lidavam de maneira diferente com o trauma: enquanto Marta buscava acessá-lo, mantendo um diário durante sua viagem a África em que narrava a história da perda de Marcelo, a Mwanito, 'o afinador de silêncios', restava a incumbência de ajudar o pai a apagar o passado: “[...] Tal como eu, Marta era uma estrangeira no mundo. Ela escrevia lembranças, eu afinava silêncios” (Couto, 2009, p. 152).
Cumprindo a missão que lhe fora designada pelo pai de espionar os bens que Marta guarda em seu quarto, Mwanito entra em contato com os ‘papéis da mulher’. Assim se dá o primeiro contato do menino com o testemunho: “[...] Durante horas, percorri, olhos e dedos, os papéis de Marta. Cada folha foi uma asa em que ganhei mais tontura que altura” (Couto, 2009, p. 129).
A maneira de resgate histórico que Marta ensina aos ‘últimos viventes’ não tem pretensão de abarcar o passado integralmente, como de fato ocorreu. Ela se funda no trabalho da memória, que traduz o passado a partir do trauma e do ‘resto’. Assim, a lição de Marta vai ao encontro daquilo que afirma Cytrynowicz (2003, p. 136): “[...] Não devemos esperar do testemunho que ele explique algo, não devemos fazer-lhe perguntas nem inquiri-lo sobre a história, mas apenas garantir-lhe o direito de falar, de contar”.
O testemunho do passado que Marta presta parte, como não poderia deixar de ser, da própria perspectiva. Ela revive a vida e a morte de Marcelo a partir dos fragmentos que a experiência individual lhe permite acessar, não havendo preocupação em representar com exatidão o que de fato ocorreu, mas apresentar, por meio de fragmentos, os últimos dias de vida de seu marido.
[...] Nunca quis saber como Marcelo morrera. De doença, me bastava como explicação. No dia em que parti, já no aeroporto, Noci me contou detalhes da derradeira viagem do meu marido. Depois que Aproximado o deixou junto ao portão, Marcelo terá vagueado sem direção, durante dias, até que foi baleado numa emboscada. Imaginamos por onde andou pelas imagens que restaram nos seus rolos fotográficos. Noci ofereceu-me essas fotos a preto e branco. Não eram, como pensava, imagens de garças e paisagens. Era a reportagem do seu próprio fim, um diário pictórico de sua decadência. Por esse registro percebemos que ele desejava alonjar-se de si mesmo. Primeiro andando desgrenhado e sem roupas. Depois, cada vez mais próximo dos bichos, bebendo água de poças, comendo carne crua. Quando o abateram, Marcelo foi tomado por um animal bravio. Não foram os da guerra que o mataram. Foram caçadores. O meu homem [...] escolheu essa espécie de suicídio. Quando a morte chegasse ele já teria deixado de ser pessoa. E assim se sentiria morrer menos (Couto, 2009, p. 239-240).
O ato de colecionar os fragmentos da memória e expô-los por meio da narrativa permite ao sujeito remontar sua história e sua identidade. Essa narração “[...] é tecida tanto como uma forma de se ‘libertar’ do passado como também se desdobra como um doloroso exercício de construção da identidade” (Seligmann-Silva, 2005, p. 114).
Com o retorno à cidade, os segredos que ocultavam as origens de Ntunzi são revelados. O menino, na verdade, não é filho de Silvestre, mas fruto da relação entre Dordalma e o militar Kalash.
[...] Agora tudo fazia sentido: o modo diferenciado como Silvestre me tratava. Os castigos que infligia a meu irmão. A protecção velada mas constante que Kalash destinava a Ntunzi. A aflição com que o militar conduziu ao rio o meu irmão doente. Tudo, agora, fazia sentido. Até o modo como Silvestre renomeara meu irmão. Ntunzi quer dizer “sombra”. Eu era a luz dos seus olhos. Ntunzi lhe negava o Sol, lembrando-lhe o eterno pecado de Dordalma (Couto, 2009, p. 270).
Des(en)cobrindo sua real ascendência, Ntunzi segue seu destino e – assim como seu pai, seu avô e seu bisavô – se torna militar. Recuperando sua história, o menino pode recuperar sua identidade, seu nome próprio: “[...] Agora sou o sargento Olindo Ventura” (Couto, 2009, p. 266).
Mwanito, tendo partido de Jesusalém, não encontra no ‘Lado-de-Lá’ qualquer sentimento de pertencimento. A casa onde nasceu lhe é estranha: “[...] Todos, naquele grupo, estavam de regresso. Eu não. A casa onde eu nascera nunca fora minha. O único lar que tivera foram as ruínas de Jesusalém” (Couto, 2009, p. 220); “[...] Por mais que eu fizesse esforço continuava estranhando a casa onde havia nascido. Nenhum quarto, nenhum objeto me trouxe lembranças dos meus primeiros três anos de vida” (Couto, 2009, p. 221); “[...] Eu nascera na morada que agora ocupávamos, mas não era esta a minha casa, não era aqui que o meu sono me descia com doçura. Tudo nesta residência me causava estranheza” (Couto, 2009, p. 227).
Não se sentindo integrante do mundo em que agora habita e incapaz de acessar o passado traumático, o menino revela o mesmo desejo de apagar o tempo que levou seu pai a fundar Jesusalém.
[...] Essa exclusão de tudo e de todos me trouxe, confesso, um contentamento. Como se secretamente quisesse regressar à solidão. E esse descaminho fui seguindo nos tempos. [...] passei a saudar o meu pai ao modo antigo, consoante os mandos de Jesusalém: - Já posso dormir, pai. Já abracei a terra. Talvez, no fundo de mim, eu sentisse saudade da imensa quietude do meu triste passado (Couto, 2009, p. 256).
[...] Pela primeira vez confessei aquilo o que havia muito me apertava no peito: eu herdara a loucura de meu pai. Por longos períodos era atacado de uma cegueira selectiva. O deserto se transferia para dentro de mim, convertendo a vizinhança num povoado de ausências.
- Tenho cegueiras, Ntunzi. Sofro da doença de Silvestre (Couto, 2009, p. 275).
No entanto, por meio do testemunho, que
[...] como processo humanizador e transitivo, [...] atua sobre o passado resgatando ‘o individual, com rosto e nome próprios’, do lugar do terror no qual aquele rosto e aquele nome foram levados embora (Hartman, 2000, p. 215),
Mwanito tem a possibilidade de se curar da doença que herdara do pai.
Quando Ntunzi, ou melhor, o sargento Olindo Ventura, visita o irmão na cidade, Mwanito o recebe frio e distante. Após revelar estar doente como o pai, o menino lhe mostra seu caderno.
[...] - Veja esses papeis – disse, estendendo um maço de páginas caligrafadas.
Tudo aquilo eu redigira nos momentos de escurecimento. Atacado por cegueiras deixava de ver o mundo. Só via letras, tudo o resto eram sombras. [...]
- Deixo de ser cego apenas quando escrevo (Couto, 2009, p. 275).
O contato que tivera, em Jesusalém, com os papéis de Marta foi significativo para Mwanito, assim como a última lição que a portuguesa promove, quando lhe envia uma carta de Portugal. Marta reforça o poder que o testemunho desempenha na reconstrução identitária: “[...] Quando começaste a ler os rótulos das caixas de armas não eram as letras que tu mais aprendias. O ensinamento era outro: as palavras podem ser o arco entre a Morte e a Vida” (Couto, 2009, p. 241).
Por meio de sua narrativa, de seu testemunho, Mwanito redescobre quem é. Esse autoconhecimento, contudo, “[...] pode apenas acontecer através do testemunho: não pode ser separado dele. Ele pode apenas se desdobrar no processo de testemunhar” (Felman, 2000, p. 64). Por isso, a cegueira que se abate sobre o menino só é interrompida no momento da escritura.
Mwanito (re)atualiza o tempo por meio da memória, corporificada em narrativas que (re)põem o passado na vida das personagens. Ele recupera as histórias sobre sua família, sobre sua cultura, que lhe foram negadas pelo pai. No entanto, a (re)construção da identidade de Mwanito aponta para um movimento rumo ao futuro; afinal, o menino ainda precisa de um nome que o identifique nas cidades do mundo: “[...] Mwanito ficara em Jesusalém, e eu carecia de um novo nome, um novo batismo” (Couto, 2009, p. 218). E, mais uma vez, Marta é quem o encoraja nessa formação de sua própria identidade – “[...] Há muita viagem, muita infância que podes ainda viver. Ninguém te poderá pedir que não sejas mais que um pastor de silêncios” (Couto, 2009, p. 250) – e o lembra de que “[...] Nunca mais haverá Jesusalém” (Couto, 2009, p. 250).
Esse movimento rumo ao futuro, que deve entrar em cena para a formação da identidade de Mwanito, é representado por Noci – antes amante de Marcelo e, agora, namorada do Tio Aproximado. Enquanto Marta despertava em Mwanito saudades da mãe, Noci faz surgir no menino o desejo carnal, numa sede de futuro.
[...] havia Noci, uma razão acrescida para faltar à escola. A namorada de Aproximado se oferecia para me apoiar nos deveres de casa. Mesmo não os havendo, eu os inventava apenas para a ter debruçada sobre mim, espetando nos meus os seus grandes olhos negros. E havia ainda a gota de suor escorrendo entre os seios dela e eu seguia afogado e afogueando nessa gota, descendo no peito dela até me afundar em tremor e suspiro (Couto, 2009, p. 256-257).
Assim, as duas mulheres contribuem na (re)construção da identidade de Mwanito, metaforizando as duas vertentes em torno das quais, segundo Hall, as identidades se constroem. Por um lado, a intervenção de Marta promove o reencontro do menino com o passado – “[...] É meu dever devolver-te esse passado que te foi roubado” (Couto, 2009, p. 242). Nesse sentido, Hall (1990, p. 223, tradução nossa) afirma:
[...] nossas identidades refletem as experiências históricas comuns e os códigos culturais compartilhados que nos fornecem, como 'um povo', quadros estáveis, imutáveis e contínuos de referência e significado, sob as divisões mutáveis e as vicissitudes da nossa história real1.
Por outro lado, a segunda vertente apresentada por Hall revela que as identidades devem ser pensadas como uma produção, sempre em processo e nunca completas.
[...] Identidade cultural [...] é uma questão de ‘se tornar’ assim como de ‘ser’. Ela pertence ao futuro tanto quanto ao passado. Não é algo que já exista, transcendendo espaço, tempo, história e cultura. Identidades culturais vêm de algum lugar, têm histórias. Mas, como tudo que é histórico, elas se submetem a constantes transformações. Longe de estarem eternamente fixas em um passado essencializado, estão sujeitas ao contínuo jogo da história, da cultura e do poder. Longe de estarem fundamentadas em uma mera recuperação do passado, que espera para ser encontrado e que, quando encontrado, irá assegurar nossas percepções de nós mesmos na eternidade, identidades são os nomes que nós damos às diferentes maneiras que nós somos posicionados pela, e que nos posicionamos dentro das narrativas do passado (Hall, 1990, p. 225, tradução nossa)2.
Afinal, é Noci quem completa a libertação de Mwanito da saudade que sentia do silêncio de Jesusalém. Ela evidencia a importância de se pensar as identidades em termos das relações dialógicas entre similaridade e continuidade, entre diferença e ruptura, entre passado e futuro.
[...] A ternura daquela mulher me confirmava que meu pai estava errado: o mundo não morreu. Afinal, o mundo nunca chegou a nascer. Quem sabe eu aprenda, no afinado silêncio dos braços de Noci, a encontrar minha mãe caminhando por um infinito descampado antes de chegar à última árvore (Couto, 2009, p. 277).
Assim, Marta e Noci desempenham um papel importante no destino dos habitantes de Jesusalém, sobretudo no de Mwanito. Marta traz à tona o passado: ela o instiga a colecionar os fragmentos da memória, antes a duras penas soterrados, e o ensina a remontar sua identidade por meio do testemunho. Por outro lado, o sentimento de Mwanito por Noci põe em cena o futuro e, assim, revela que as identidades são sujeitas a constantes transformações, estão sempre em construção e nunca completas. As duas mulheres revelam a importância das lembranças e dos afetos, mas também indicam que a construção da identidade não se esgota no resgate do passado. Assim, apresentam um caminho a ser percorrido para a libertação e o acessamento do passado traumático, permitindo a reconstrução de vidas e futuros.
Conclusão
Em Antes de nascer o mundo, a dificuldade de Silvestre Vitalício em lidar com o trauma das guerras ocorridas em Moçambique, e metaforizado no suicídio de Dordalma, leva o personagem à tentativa de apagar o passado. Afastado do mundo, isolado em um sítio a que chama de Jesusalém, Silvestre busca afastar-se das memórias e criar seus filhos em um mundo livre do horror das guerras. Essa empreitada, no entanto, não é capaz de libertá-lo do trauma e acaba aprisionando os meninos a um mundo que, se, por um lado, é livre de passado, por outro, não apresenta possibilidades de futuro, além de gerar uma profunda crise de identidade.
As feridas deixadas pelo passado começam a vir à tona com a chegada de Marta a Jesusalém, que ensina àqueles que lá vivem a importância de acessar o trauma. Seguindo os ensinamentos da portuguesa, Mwanito resgata a história de sua família, dando origem, por meio de seu testemunho, à narrativa Antes de nascer o mundo.
Referências
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Notas
Autor notes
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