Editorial

Maria Célia Cortêz Passetti
Editora da Universidade Estadual de Maringá, Brasil

Editorial

Acta Scientiarum. Language and Culture, vol. 38, núm. 2, pp. I-III, 2016

Universidade Estadual de Maringá

Editorial

Apresentamos aos nossos leitores o volume 38, n. 2, da revista Acta Scientiarum. Language and Culture, dedicado aos estudos linguísticos em 2016. Reunimos, nesta edição, 10 artigos, que abarcam estudos e pesquisas de Linguística Aplicada, Linguí

uísticas de pesquisadores renomados de várias regiões do Brasil.

No vasto campo de atuação da Linguística Aplicada, iniciamos nossa apresentação, com a pesquisa de Procópio e Ribeiro, da UFJF (MG), que tomam como objeto de estudo a influência da proficiência linguística no aprendizado implícito de vocabulário de alunos de nível elementar de inglês como língua estrangeira, em ambiente hipermídia. Fundamentadas na abordagem conexionista e na teoria cognitiva do aprendizado multimídia, elas aplicaram um experimento a 39 alunos e os resultados obtidos indicam que o uso do glossário hipermídia pode contribuir para o aprendizado implícito de vocabulário de alunos de nível elementar, com destaque para a anotação visual.

Outro trabalho, agora aplicado ao ensino de leitura, incide sobre o gênero questão interpretativa como ferramenta de ensino. A contribuição de Duran e Menegassi (UEM–PR) contempla a etapa de interpretação da leitura em um gênero próprio do ambiente escolar, que, de modo geral, não é ensinado formalmente. Considerando o caráter interativo constituinte do gênero, os autores organizaram um corpus constituído de textos-respostas produzidos por professores em formação inicial do primeiro ano do curso de Letras da Universidade Estadual de Maringá. Os resultados indicam que a interpretação configura a interação entre o sujeito que a produz e seu(s) interlocutor(es), representados pelos textos que são retomados no gesto interpretativo. Assim, a interação social se dá fortemente através da interpretação e a questão interpretativa se configura como uma ferramenta de aprendizagem dessa etapa da leitura.

O trabalho seguinte é o do trio de autores catarinenses Schaefer, Freitas de Luna e Sehen, todos da UNIVALI (SC), que tematizam práticas didático-pedagógicas sob a perspectiva da educação intercultural. Com a mobilidade acadêmica internacional e o fluxo migratório de famílias com filhos em idade escolar, os autores justificam a possibilidade de uma prática significativa de avaliação da Competência Comunicativa Intercultural de estudantes, incluindo-se recomendações de práticas didático-pedagógicas para aulas de língua espanhola na educação básica. Evidencia-se, com a discussão, que a avaliação pelas dimensões Descoberta de Conhecimento, Empatia, Respeito ao Outro, Tolerância à Ambiguidade, Flexibilidade Comportamental e Consciência Comunicativa transpõe-se didaticamente para a apresentação e a prática dos conteúdos programáticos do currículo formal dos anos escolares que compreendem o ensino fundamental.

Neste número, há também quatro artigos de pesquisadores que se debruçaram sobre diferentes descrições das línguas. Começamos pelo de Almeida (UFB–BA), que nos apresenta resultados de um estudo cujo principal objetivo foi examinar o processo de conceptualização das manifestações brasileiras de 2013 e dos seus agentes sociais. Com base na Linguística Cognitiva, examinou um corpus constituído por postagens feitas no Facebook, coletadas em junho de 2013, e, após análise qualitativa dos dados, concluiu que as manifestações podem ser conceptualizadas através do mecanismo da metáfora, como guerra.

Também na área da Linguística Cognitiva está o artigo de Ferrari (UFRJ–RJ), que trata de dêixis e mesclagem múltipla, analisando o papel da recursividade na construção do significado. Com base na Teoria dos Espaços Mentais de Fauconnier, ela analisa pronomes de primeira e segunda pessoa do singular do Inglês Britânico e do Português Brasileiro, baseando-se em dados atestados, obtidos a partir de corpora eletrônicos. O principal argumento do trabalho é que pronomes de 1PS e 2PS são cognitivamente complexos, envolvendo processos elaborados de construção do significado. Ela defende que o significado convencional dos pronomes ativa redes de integração conceptual de tipo simplex. Em seguida, evidencia que os pronomes também apresentam significados não convencionais, que podem surgir recursivamente através de mesclagem múltipla.

O terceiro é o trabalho de Kersch (Unisinos–RS), que estuda a relação entre redes sociais e a manutenção linguística de identidades dos falantes de Hunsrückisch, uma variedade desprestigiada do alemão, de Santa Maria do Herval-RS, cidade situada ao pé da serra gaúcha, com cerca de 6.000 habitantes, cuja população, em sua maioria, é bilíngue. Com mais de 190 anos de imigração nessa região, a maioria da população ainda tem o Hunsrückisch como língua materna, por isso a autora analisou o papel das redes sociais no processo de manutenção ou substituição da língua materna minoritária e as questões de identidade decorrentes dele. Ela conclui que o relativo abandono a que a comunidade esteve submetida há até pouco tempo parece haver contribuído para sua organização multiplex, o que levou à manutenção linguística, e aponta que, com a crescente urbanização e o acesso amplo aos meios de comunicação, essa realidade tende a mudar, transformando a cultura eminentemente rural em urbana, o que também impactará fortemente a língua falada ali.

O último artigo no campo da descrição linguística é o de Modolo e Oliveira (USP–SP), que traz uma descrição sob a Perspectiva da Linguística Sistêmico-Funcional de seis textos que tratam da repercussão do agraciamento da Grande Medalha da Inconfidência ao coordenador do Movimento dos Sem-Terra (MST), João Stédile. Para tanto, utilizaram o sistema sociossemântico de Halliday em que os textos foram classificados dentro de quatro grandes grupos (materiais, mentais, relacionais e verbais), de acordo com a classificação cognitivo-funcional de Lavid, Arús e Zanoraro-Mansilia. Dos resultados dessa análise, verificaram que os autores utilizaram, de forma semelhante, o processo material como o mais frequente; que os sites que, em tese, possuem um público mais escolarizado utilizaram com maior frequência processos mentais; que autores mais bem definidos ideologicamente adotam uma rígida postura, ou positivas ou negativas, e, raramente, utilizam da voz de terceiros, para indicar seus posicionamentos. Assim, ficou nítida a influência do contexto de cultura de cada um dos autores dos textos nas escolhas linguísticas de cada um, observadas a partir da perspectiva da metafunção ideacional, dissecada pelo sistema da transitividade dos processos oracionais.

Finalizando nosso volume, apresentamos três artigos na área do discurso. O primeiro deles é o de Paixão e Souza (IFG e UFG–GO), que articulam a análise do discurso à moda, discutindo, sob o viés foucaultiano, os dispositivos de poder sobre o corpo. Com o intuito de responder se “a análise do discurso está na moda, os autores dividem seu artigo em duas partes: primeiro, levando em consideração que a moda pode ser entendida como um construto, propõem uma reflexão sobre a sua inserção no campo da AD e, segundo, sobre a própria existência e sucesso desta disciplina no interior dos estudos linguísticos, o que a faz estar hoje “na moda”. Concluem entendendo a moda como um dispositivo que concorre na/para a constituição do mundo moderno e do homem inserido nesse mundo, o que significa interrogar sobre os movimentos de resistências e de poder que, amparados em saberes, transformam os indivíduos modernos em sujeitos, (nem) sempre dóceis, (nem) sempre úteis.

O segundo artigo é resultado de uma pesquisa exploratório-descritiva efetuada por Facin e Freitas (UPF–RS). Os autores analisam o gênero samba-enredo sob o enfoque enunciativo, especificamente mediante os conceitos de cenografia e ethos discursivo pensados por Dominique Maingueneau. Os resultados revelam que o samba-enredo, além de comportar uma estrutura composicional específica, configura-se como um gênero ímpar no e pelo discurso, uma vez que ele mobiliza cenografias variadas na sua enunciação: a dêixis fundadora e, a partir desta, o enunciador se esforça para validar a cena carnavalesca.

Finalmente, Silva e Leite (UFPB e URCA–PB) discutem a ideia da virilidade, cotejando com modos atuais de ressignificar determinadas posturas, práticas e comportamentos historicamente atrelados a uma cultura viril. Os autores tomam como objeto de análise os discursos em torno da aparição do lumbersexual na mídia, com vistas a problematizar essa irrupção discursiva como sintoma de uma reconfiguração na concepção de virilidade, engendrada na/pela história e, portanto, suscetível a transformações e reordenamentos.

Esperamos que os pesquisadores das mais diversas áreas dos Estudos Linguísticos encontrem aqui não apenas resultados específicos de pesquisas, mas, sobretudo, incentivo para novas produções. Agradecemos o trabalho do nosso corpo de pareceristas e convidamos nossos leitores a se tornarem também nossos autores.

HMTL gerado a partir de XML JATS4R por